sexta-feira, 30 de abril de 2021

Marx e o flautista de Hamelin

30/04/2021  Por Victor Sezino, publicado pelo Instituto Liberal


O Flautista de Hamelin é um conto dos irmãos Grimm sobre um flautista chamado à cidade de Hamelin (Alemanha) para, com sua música, encantar e livrar a cidade da infestação de ratos que a assolava. Isso feito, o flautista encantador não recebeu seu pagamento. Então, ele retornou à cidade, tocou a sua flauta e encantou 130 crianças, fazendo-as sumir para sempre, deixando só tristeza e silêncio na cidade.


Em meados do século XIX, Karl Marx tocou sua sedutora flauta, com músicas intituladas: “O Capital” ou “O Manifesto comunista”. A melodia é suave, encantadora. Quem ouve, a princípio, sente a necessidade de conhecer mais e mais o artista, afinal, quem não quer ter tudo, merecer tudo e delegar suas decisões a outrem, se livrando de sua responsabilidade individual, vivendo em um maravilhoso mundo onde todos são iguais…  De fato, promover uma retórica que se apropria do bem alheio para um bem comum traz uma possibilidade infinita de equalização dos interessados nessa dinâmica. É realmente uma revolução.


O que não se vê? Na prática, os adeptos e defensores desse “artista” e sua obra passam a fazer parte de uma ideologia invejosa. Um mundo onde há valores não recompensados e recompensas não merecidas. A tentativa desesperada de igualar indivíduos diferentes acaba historicamente nivelando todos por baixo, basta ver o desastroso exemplo da Venezuela e o recente exemplo do que a Argentina está se tornando. O controle total do Estado sobre os meios de produção e o capital mostra também o controle sobre as riquezas das nações.  Mais do que isso, o Estado controla de forma covarde a pobreza também. O discurso virtuoso de igualdade fere na partida a individualidade. Pergunto: e quem quiser ser diferente? A pobreza deve ser sim cuidada, não as diferenças. Um cidadão de classe média no Brasil e o Neymar Jr. têm claramente uma diferença social, mas não há pobreza entre eles, e isso não dá o direito de nos apossarmos do iate do rapaz.

O Marxismo, assim como a música do flautista de Hamelin, é sedutor: mostra, de início, a resolução de muitos problemas, mas, a exemplo do conto, há sempre um final trágico, triste e covarde. A obra de Marx poderia ter ficado no campo dos contos fictícios, assim como a obra dos irmãos Grimm, mas, em pleno século XXI, ainda ouvimos alguém tocar a flauta marxista, e ainda encantando muita gente. Como dizem hoje em dia, o golpe está aí, cai quem quer.


*Artigo publicado originalmente no site do Instituto Líderes do Amanhã por Victor Griffo Sezino.


https://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/marx-e-o-flautista-de-hamelin/ 

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quinta-feira, 29 de abril de 2021

COLONIZADOS, EM PLENO SÉCULO XXI!

 


Ah, essas duras realidades sociais, políticas e econômicas! É dureza ser uma sociedade esmurrada pelos fatos como acontece no Brasil. Estevão Pinheiro, com seu humor ácido, construiu uma frase aplicável à nossa situação: “Depois de as coisas irem de mal a pior, começa o ciclo de novo”. Ponderemos objetivamente a situação.


Pergunto: nosso panorama social é desolador porque as pessoas não querem viver em melhores condições, ganhar mais, trabalhar mais, cuidarem melhor de si mesmas, dependerem menos do Estado? Socorre-nos, aqui, o humor do argentino Quino e sua personagem Susanita, nas tirinhas da Mafalda, quando diz algo mais ou menos assim: “Não sei o que passa na cabeça dos pobres. Como se não bastasse ganharem pouco, ainda consomem artigos de má qualidade”.


Susanita está errada, claro. Os pobres se dariam melhor na vida se a economia tivesse um crescimento mais acelerado, com maior geração de postos de trabalho. Segundo Ronald Reagan, esse é o melhor programa social do mundo.


Então, pergunto: a economia anda lentamente porque falta gente para trabalhar, por que falta aos empresários vontade de ganhar dinheiro, porque o mercado não quer comprar o que produzimos? Claro que não. A economia vai mal por causa da política, com sua sequela de males: instabilidade, décadas de gasto público constantemente superior às receitas inconstantes (imprudente criação de despesas permanentes). Vai mal porque a Constituição de 1988 pretendeu criar num país pobre, por força de lei, um Estado de bem estar social. Vai mal por causa do gigantismo do aparelho estatal. Vai mal por falta de sintonia entre os objetivos que mobilizam os poderes de Estado e os de seu soberano – o povo brasileiro,


O fato que me traz a este artigo é a súbita percepção de que o aparelho estatal como um todo, os poderes e a administração pública nos três níveis da Federação colonizaram o povo brasileiro. Subsistem do extrativismo que exercem sobre os recursos que a sociedade produz. Esse monstro tem vida própria e subordina a sociedade ao seu querer graças a um escancarado complô entre o Congresso Nacional eleito em 2018 e essa sequela do petismo em que se transformou o outrora digno e respeitável Supremo Tribunal Federal.


Então, na minha perspectiva, se a causa de nossos problemas tem nome e endereço conhecidos, é para ali que devem convergir as ações corretivas. Não faltam obstáculos a essa tarefa. Os grandes mecanismos influenciadores das opiniões e das condutas sociais são os que atuam no plano da cultura, dos meios de comunicação, da Igreja e das escolas em todos os níveis de ensino. E esses, como se sabe, estão aparelhados pelos “progressistas” inimigos do progresso, agentes de nosso atraso. Todos eles, cada um a seu modo, nos colonizaram.


 De nada valerá qualquer ação que chegue ao endereço errado. Preservar o modelo institucional, a regra do jogo político, significa manter o colonialismo do Estado sobre os cidadãos e seus bens e... aguardar um novo ciclo para ir de mal a pior.


* Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Confiança e honestidade - características cruciais para o enriquecimento de qualquer economia

 Tolerância para com criminosos e desonestos garante o atraso



Atitudes como desonestidade, mentira e trapaça não são tratadas com a devida abjeção que merecem. Para se compreender melhor a importância da honestidade e da confiança, apenas imagine como seria nossa rotina diária se não pudéssemos confiar em ninguém.

Quando compramos em uma farmácia um recipiente contendo 100 pequenas pílulas (como vidros de homeopatia, por exemplo), quantos de nós nos damos ao trabalho de realmente contar as pílulas? E quando o remédio é líquido, quantos de nós conferimos se o volume divulgado no rótulo corresponde ao volume verdadeiro? 

Quando abastecemos nosso carro no posto, como sabemos que os litros especificados na bomba realmente correspondem ao volume que entrou no tanque do carro? Quando você vai ao supermercado e compra 1 quilo de carne, você por acaso verifica — por meios independentes — se realmente está levando um quilo de carne? 

Em cada um desses casos, e em milhares de outros, nós simplesmente confiamos no vendedor.

Inversamente, há milhares de situações em que é o vendedor quem tem de confiar no comprador. Após um mês de trabalho, o empregado confia que seu patrão irá lhe pagar o salário combinado. Um comerciante vende um produto e recebe em troca um cheque, o qual ele confia que tenha fundo. Um fornecedor entrega uma mercadoria para seu cliente e confia que este irá lhe pagar dali a 30 dias, como combinado.

Exemplos de honestidade e confiança são abundantes, mas imagine o custo e a inconveniência caso não pudéssemos confiar em ninguém. Teríamos de andar sempre carregando instrumentos de medição para nos certificarmos de que realmente estamos recebendo o volume correto de gasolina e o quilo correto de carne. Imagine a inconveniência de ter de contar o número de pílulas ou de mensurar o volume de um líquido dentro de um recipiente?

Se não pudéssemos confiar em ninguém, se a simples palavra do vendedor ou do comprador não tivesse valor nenhum, teríamos de arcar com o oneroso fardo de fazer contratos por escrito para toda e qualquer transação efetuada. Teríamos de arcar com todos os custos de monitoramento que garantem que a outra parte irá fazer corretamente até mesmo às mais simples transações. 

Podemos dizer com toda a certeza que tudo aquilo que solapa a honestidade e a confiança aumenta os custos de transação, reduz o real valor das trocas voluntárias e nos torna mais pobres.

Honestidade e confiança se manifestam de maneiras que poucos de nós sequer conseguimos imaginar. Em determinadas vizinhanças, por exemplo, é comum que empresas de entrega deixem encomendas muitas vezes valiosas em frente à porta caso o morador não esteja em casa para recebê-la. Não há necessidade de marcar horário para a entrega, o que é bom tanto para o morador quanto para a empresa. Ambos ficam com suas agendas livres e aumentam sua produtividade. 

Da mesma maneira, supermercados e demais estabelecimentos comerciais podem tranquilamente expor várias mercadorias perto das portas de entrada e saída do estabelecimento, ou até mesmo deixá-las do lado de fora do estabelecimento, sem se preocupar com roubos.

Já em vizinhanças notoriamente menos honestas, empresas de entrega que deixassem encomendas na porta de uma casa e estabelecimentos comerciais que expusessem mercadorias perto da rua estariam cometendo o equivalente a um suicídio econômico.

Desonestidade é algo oneroso. Empresas de entrega não podem simplesmente deixar encomendas em frente à porta caso o morador não esteja em casa. A empresa terá de arcar com os custos de fazer uma nova viagem em outro horário. Ou terá de tentar agendar um horário. Ou então o cliente terá de arcar com os custos de ter ele próprio de ir recolher o produto. Se um estabelecimento comercial decidir exibir algumas de suas mercadorias do lado de fora, ele terá da arcar com os custos de contratar um auxiliar — isso se ele realmente puder se arriscar a deixar suas mercadorias do lado de fora.

Nas relações de trabalho, a desonestidade e a falta de confiança podem ser fatais. Patrões desonestos prejudicam seus empregados e podem afetar todo o seu êxito profissional. Empregados desonestos podem quebrar empresas e falir seu patrões, tanto por meio do roubo quanto por acionamentos judiciais desnecessários.

A despercebida tese de Fukuyama

Francis Fukuyama ficou famoso em 1988 por causa da publicação de seu livro O Fim da História. A tese que ele defendia era simplória: a democracia liberal havia derrotado todos os sistemas e, dali em diante, passaria a ser o arranjo preponderante e superior a todos os outros. Isso se comprovou uma óbvia inverdade. Pense no Islã. Pense na política burocrática reinante na China. Pense em Hong Kong e em Cingapura, que não têm democracia — ao menos, não no estilo defendido por Fukuyama.

À época, o livro recebeu uma estrondosa publicidade. Hoje, ele raramente é citado. Nunca entendi por que esse livro foi levado a sério. No entanto, durante um bom tempo, várias pessoas o levaram a sério.

Em 1995, Fukuyama publicou outro livro: Confiança. A publicidade recebida por este livro foi ínfima. Mas o livro é excelente. Digo mais: é um dos mais importantes livros já escritos sobre economia e ordem social.

Neste livro, Fukuyama analisa os efeitos da confiança sobre uma sociedade. Ele concentra sua análise nos Estados Unidos, no Japão, na China e no sul da Itália, onde praticamente não há confiança nenhuma em nada e ninguém confia em ninguém. Ato contínuo, ele analisa como a presença ou a ausência da confiança pode se tornar uma fonte de ordem social, de crescimento econômico e de aumento da produtividade geral. 

Ele descobriu, de maneira nada surpreendente, que os EUA, até aproximadamente 1960, possuíam uma enorme vantagem competitiva em relação ao resto do mundo por causa do alto nível de confiança que seus habitantes tinham em relação aos seus conterrâneos. À medida que a confiança foi declinando, a taxa de crescimento econômico também declinou. Concomitantemente ao declínio na confiança houve um aumento no número de advogados.

Uma das sociedades menos produtivas de toda a Europa Ocidental é a do sul da Itália. Ele atribui isso à falta de confiança que reina na região. Esse é um dos motivos pelos quais as sociedades secretas, especialmente a Máfia, têm tanta influência no sul da Itália: tais organizações provêm um mínimo de ordem social para seus membros, e a população em geral não oferece muita resistência à existência destas organizações.

A seção sobre a China é a mais interessante. Fukuyama diz que os chineses apresentam um grande nível de confiança, mas somente em relação às suas famílias. Isso faz com que seja muito difícil para empresas chinesas concorrerem com pequenos empreendimentos geridos por famílias ou com pequenos empreendimentos que tenham conexões familiares. Faz com que seja mais difícil criar grandes empresas. E faz com que seja ainda mais difícil levantar fundos e conseguir capital para financiar essas grandes empresas.

Já o Japão está em um meio-termo entre os EUA e a China. No Japão, ao contrário da China, há mais confiança em organizações que não estejam ligadas a famílias. No entanto, os grandes conglomerados japoneses possuem em suas raízes um pequeno número de famílias japonesas.

Em seu livro, Fukuyama dizia acreditar que as corporações japonesas poderiam concorrer no mercado internacional de maneira mais efetiva do que as empresas chinesas porque os japoneses podiam contratar as melhores pessoas, muito embora suas empresas não apresentassem conexões familiares. Os japoneses também seriam capazes de conseguir dinheiro para investimentos mais facilmente do que as empresas chinesas.

Se olharmos o que ocorreu ao longo das últimas décadas, creio que essa tese se comprovou. Empresas chinesas demonstraram uma maior tendência de serem mais intimamente associadas ao governo chinês. O estado tem sido a fonte de financiamento das empresas chinesas. O sistema bancário está mais intimamente ligado ao estado na China do que nas nações ocidentais.

A ausência de instituições formais pode ser observada quase que em sua integralidade na República Popular da China, onde a ideologia maoísta foi a grande responsável pelo atraso na introdução de instituições "burguesas", como o direito comercial. Até o presente momento, empreendedores na China têm de enfrentar um ambiente jurídico extremamente arbitrário, no qual os direitos de propriedade são tênues, os níveis de tributação são variáveis e mudam de acordo com as vontades de cada governo provincial, e o suborno é a rotina quando se lida com funcionários do governo. (p. 330)

Fukuyama também escreveu o seguinte:

Um estado liberal é, em última instância, um estado limitado; um estado em que a atividade do governo é estritamente delimitada pela esfera da liberdade individual. Se tal sociedade não se degenerar no caos ou se tornar ingovernável, ela será capaz de apresentar uma autonomia governamental em todos os níveis de organização social.  

A sobrevivência de tal sistema dependerá não somente da lei, mas também do autocontrole e do comedimento dos indivíduos. Se eles não forem capazes de apresentar uma coesão em prol de um propósito comum; se eles não forem tolerantes e respeitosos em relação aos conterrâneos, ou não respeitarem as leis que eles próprios criaram para si mesmos, uma agência com grande poder coercivo terá de ser criada para manter cada indivíduo na linha. 

Por outro lado, um arranjo sem estado pode funcionar em uma sociedade que apresente um grau extraordinariamente alto de sociabilidade espontânea; uma sociedade na qual o comedimento, a temperança e o comportamento baseado em normas fluam naturalmente do cerne desta sociedade, sem ter de ser trazido de fora. 

Um país com um capital social baixo não apenas é mais propenso a ter empresas pequenas, fracas e ineficientes, como também sofrerá mais com a corrupção generalizada de seus funcionários públicos e com uma administração pública ineficaz. Tal situação é dolorosamente evidente na Itália, onde, à medida que se sai do norte e do centro do país em direção ao sul, percebe-se uma relação direta entre atomização social e corrupção (pp. 357-58).

Creio que a teorização acima é correta. Ela é perceptível em todos os países que enriqueceram.  Além dos EUA, pense na Suíça, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia. Pesquise o nível de confiança vigente nestes países. Pesquise a percepção de honestidade e como sua população interage entre si. Pesquise o grau de burocracia exigido para se fechar um negócio. Depois, faça o mesmo para os países da América Latina e da África.

O fato de honestidade e confiança serem tão vitais deveria nos fazer repensar a nossa tolerância para com criminosos e pessoas desonestas — a começar por todos os criminosos que estão no poder e que gozam de impunidade


https://www.mises.org.br/article/1983/confianca-e-honestidade--caracteristicas-cruciais-para-o-enriquecimento-de-qualquer-economia

quinta-feira, 15 de abril de 2021

STF se comporta como uma ditadura de terceiro mundo

J.R. Guzzo 



Decisões recentes de ministros do STF se assemelham a arroubos autoritários de ditadores do terceiro mundo.| Foto: Rosinei Coutinho/STF


O STF, o único governo de fato que existe no Brasil de hoje, assume cada vez mais a cara, corpo e alma de uma dessas ditaduras africanas (a América Latina já está numa outra fase) nas quais um ato extremista puxa outro e os ditadores, nos seus arranques de despotismo, vão perdendo o contato com a realidade. Acontece o tempo todo: os ministros, colocados diante de uma decisão radical, tomam outra ainda mais radical. Aconteceu de novo.


Sem razão nenhuma, apenas usando a petição de um partido-anão para satisfazer os seus desejos políticos (e os do resto do STF), o ministro Luís Roberto Barroso impôs ao Senado uma humilhação espetacular: mandou o presidente da Casa abrir uma CPI que ele, no pleno uso dos seus direitos constitucionais, não queria abrir. Logo depois de ter feito a Câmara engolir a prisão ilegal de um deputado, o STF dobra a aposta, enfiando goela abaixo do Senado uma CPI sem pé nem cabeça, integralmente facciosa, e sem nenhum outro objetivo que não seja agredir o Executivo.


A comissão, como se sabe, é para investigar a conduta do governo federal durante a pandemia de Covid-19. Só a dele, é claro, e não as ações dos estados e municípios — que receberam do mesmo STF, há mais de um ano, autonomia completa para gerir a epidemia e só produziram até agora 360 mil mortos e uma devastação sem precedentes na economia do país.


Não saiu bem como queriam; na forma final, ficou aberta uma brecha para perguntas sobre a maciça roubalheira de verbas federais por parte das “autoridades locais”, um escândalo em moto contínuo que já provocou mais de 70 investigações da Polícia Federal.


Mas o propósito de atacar o governo e, especialmente, a Presidência da República, permanece intacto: junto com a CPI, para completar o serviço, o STF deu curso a um prodigioso processo para julgar Jair Bolsonaro por “genocídio” — pelo que deu para entender, o presidente está sendo acusado de não fornecer água potável às “populações indígenas”. Acredite se quiser.


Como tinha acontecido na Câmara, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, cedeu miseravelmente a mais uma intromissão do STF em questões internas do Congresso Nacional. Durante os últimos 63 dias, Pacheco vinha argumentando que não abria a CPI pedida pelo partido nanico porque o momento, no meio de uma tragédia absoluta, não era apropriado. Não aconteceu nada de novo até agora — mas o “momento”, assim que Barroso falou, passou a ser ótimo. O ministro mandou, Pacheco obedeceu no ato; ao que parece, estão se acostumando a apanhar e gostar. É isso, hoje, o Parlamento brasileiro.


Como acaba de escrever a Gazeta do Povo, o Supremo cometeu um suicídio moral ao anular todas as ações penais contra Lula por corrução e lavagem de dinheiro, inclusive a sua condenação em terceira e última instância por nove juízes diferentes. Suicidou-se outra vez, logo em seguida, ao julgar o juiz Sergio Moro “suspeito” de agir com parcialidade — com base em informações obtidas através de crime e cuja autenticidade está em dúvida.


Com os seus repetidos surtos na área política, o STF está operando, a cada dia que passa, como uma das ditaduras mais extravagante e subdesenvolvidas que há por aí.



 https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/jr-guzzo/stf-se-comporta-como-ditadura-de-terceiro-mundo/ 


segunda-feira, 12 de abril de 2021

O que ganhamos até agora com a política do “fecha tudo”

J.R. Guzzo 12/04/2021  


Loja na Avenida Paulista com a porta semiaberta durante o Lockdown em São Paulo: milhares de empregos perdidos para a política do fecha tudo.| Foto: Roberto Parizotti/Fotos Públicas


Há pelo menos um mês, e ainda mais tempo em muitos lugares, o Brasil está fechado por conta das medidas que as “autoridades locais” estão tomando em sua tentativa desesperada — e muito lucrativa para elas — de “gerir” a Covid-19. Dezenas de milhares de negócios foram fechados; outros tantos estão à beira da falência. Perto de 9 milhões de empregos foram eliminados apenas no ano passado. Só em São Paulo, a principal vítima do desastre, e só nos últimos 30 dias de “fecha tudo” em modo extremo, 150 mil pessoas ficaram sem trabalho. Em compensação, nunca as “autoridades locais” mandaram tanto.


A economia brasileira, pelo segundo ano seguido, está em ruínas; fora o agronegócio, a indústria, o comércio e os serviços têm sido devastados. Donos de pequenos negócios estão tendo de vender carros e outros objetos pessoais, inclusive as próprias casas, para pagar as indenizações rescisórias que têm de fazer por lei aos empregados que foram obrigados a demitir; se não fizerem isso, a Justiça Trabalhista arruína de vez com as suas vidas. Pelo menos um terço da população estava sem nenhum tipo de renda no fim de 2020. Há gente passando fome nas áreas mais pobres das cidades.


Em troca de tudo isso, o que se ganhou foi zero. Na verdade, as coisas têm ficado cada vez piores: o “lockdown”, “toque de recolher” e outras maravilhas só resultaram, até agora, em cada vez mais mortos — já são mais de 350 mil, dos quais cerca de 160 mil apenas de janeiro para cá, justamente o período em que as medidas repressivas se tornaram as mais extremas. Tudo dá errado. Nada dá certo.


Como alguém pode achar que alguma coisa está funcionando bem com a atual política de paralisação da economia e da vida social? Ao contrário: as “autoridades locais” estão comandando um fracasso sem precedentes na história do Brasil, que só não incomoda a governadores e prefeitos porque ninguém cobra deles nenhuma responsabilidade pelo desastre que estão promovendo.


A culpa, segundo o Supremo Tribunal Federal, as elites, os que estão protegidos em seus salários, seus ganhos e seu bem estar, e a maior parte da mídia, é do “governo federal”. É lá, em Brasília, que estão praticando “genocídio”; todos os demais, automaticamente, se declaram absolvidos e por conta disso continuam repetindo, todos os dias, tudo o que tem provocado o desastre.


Se as “autoridades locais” não têm nada a ver com as 350 mil mortes, todas ocorridas neste período em que elas têm administrado a Covid com autonomia total por ordem do STF, que esperança a população pode ter? Governadores e prefeitos, que hoje desfrutam da posição de ditadores — e não têm o menor interesse em mudar essa situação — vão continuar fazendo exatamente o que têm feito. Se continuarem a fazer o que têm feito, os resultados continuarão iguais. Xeque-mate.


Os governadores e a maioria dos prefeitos paralisam a economia, impedem o trabalho e desaprovam o tratamento precoce. Não conseguiram resultado nenhum que não fosse o aumento contínuo, e cada vez mais rápido, no número de mortos; em resposta a isso, tornam ainda pior o fechamento e apoiam uma CPI que o STF mandou fazer para apurar “responsabilidades” na pandemia — mas só as do governo federal, e nada que diga respeito às “autoridades locais”, das mortes à roubalheira desenfreada que tantos vêm praticando por conta da “emergência”. Ela lhes permite fazer tudo e não prestar conta de coisa alguma. É claro que só têm mais estímulo para continuar no mesmíssimo caminho que nos trouxe até aqui.


 https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/jr-guzzo/o-que-ganhamos-com-politica-do-fecha-tudo-na-pandemia/ 


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