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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Venenosa ganância

José Eli da Veiga 
Valor Econômico 27 jun 2018

Tudo indica que os 'perturbadores endócrinos' estejam entre as relevantes causas da virada à desinteligência

A inteligência das populações dos países mais avançados passou a regredir de forma galopante, depois de firmes e regulares avanços na segunda metade do século passado. Tal reviravolta tem sido chamada de "reversão do efeito Flynn" porque o pioneiro e mais notável analista dos resultados de testes de QI (quociente de inteligência) foi o americano James Robert Flynn, hoje professor emérito de ciência política da universidade de Otago, na Nova Zelândia.

Impossível saber a real abrangência geográfica, tanto do próprio efeito, quanto de sua inversão, pois isso depende de acesso a fidedignas bases de dados, como as longas séries com resultados dos testes a que foram submetidos os recrutas das forças armadas de nações como Austrália, Finlândia, Grã-Bretanha, Holanda, Noruega e Suécia.

Na Noruega, por exemplo, de 1976 a 1991 (último ano de serviço militar obrigatório), o QI médio dos alistados caiu 0,30 pontos ao ano, depois de ter aumentado 0,20 pontos ao ano entre as gerações de 1962 a 1975. Pior: há muitos indícios de que essa queda tenha se acelerado desde 1991. O suficiente, portanto, para que o problema seja considerado gravíssimo, já que a expectativa mais negativa seria a de eventual estabilização do grau de inteligência nesse tipo de amostragem.

Possíveis explicações para tão inesperada e preocupante fenômeno geraram ácida controvérsia. De um lado, hipóteses genéticas realçam duas variáveis: são as famílias menos inteligentes as que mais procriam, e são os filhos de pobres imigrantes que carregam menor acúmulo de ativos culturais (capital humano). Do outro, hipóteses ditas ambientais destacam o recuo da leitura de livros frente à onipresença das telas de TV, computadores e celulares; dificuldades do sistema educativo; a crise do Welfare State; e, sobretudo, problemas de saúde pública.

Essa clivagem genética/ambiente se tornou anacrônica desde que foi cabalmente comprovada a importância da epigenética, assim como a pertinência da conjectura de Darwin sobre adaptação/seleção nos âmbitos comportamental e simbólico. À luz das quatro dimensões hereditárias do processo evolucionário, é pura tolice antagonizar genética e ambiente. Além disso, os pesquisadores já deveriam saber que qualquer fato concreto é sempre síntese de múltiplas determinações. O que exige aposta em alguma abordagem de conjunção complexa, em vez de emulação das duas muletas do paradigma cartesiano: disjunções e reduções.

Enquanto isso não ocorre, merece máxima atenção uma das causas ambientais: os estragos provocados por compostos químicos que alteram o sistema hormonal. Tudo indica que os chamados "perturbadores endócrinos" estejam entre as mais relevantes causas da virada à desinteligência.

Por perturbadores endócrinos entende-se um amplo leque de substâncias químicas que interferem no conjunto de glândulas do corpo - pâncreas, tireoide, hipófise e suprarrenais - alterando a eficácia dos hormônios, assim como sua produção endógena. Esses tóxicos são muito comuns nos alimentos industrializados, cosméticos, produtos de higiene pessoal (principalmente sabonetes, loções, desodorantes e dentifrícios), plásticos, tecidos sintéticos, colchões, materiais de construção, e, obviamente, produtos de limpeza e praguicidas domésticos. Tudo vendido pelo comércio varejista sem qualquer tipo de cuidado e informação, ao contrário do que ocorre com muitos remédios e alguns praguicidas agropecuários, pois, em princípio, estão sujeitos a receituário e instruções de uso, além de explícitos alertas sobre os riscos.

As cinquenta páginas do "Statement of the Endocrine Society on Endocrine-Disrupting Chemicals" já haviam enfatizado, em 2009, o quanto os perturbadores endócrinos podem ser deletérios à inteligência. Em especial, a altíssima probabilidade de dano à formação do cérebro do feto sempre que uma grávida tenha contato com tais poluentes. A novidade é que esse alarme acaba de ser ratificado no periódico Endocrine Connections (2018, 7, R160-R186), mediante revisão de 433 trabalhos - "Thyroid-disrupting chemicals and brain development: an update" - conduzida por três feras do sistema de pesquisa francês: B. Mughal, J-B. Fini e B. Demeneix.

A liderança dessa metanálise foi da endocrinologista britânica Barbara Demeneix, que há muitos anos trabalha no CNRS, é autora do livro Cocktail Toxique (ed. Odile Jacob, 2017), e teve participação de destaque em recente documentário que precisa com urgência ser legendado: Demain, tous cretins? (https://www.youtube.com/wach?v=WWNARPyruoQ).

Quem assistir, com certeza ficará bem mais prudente ao compor sua cesta de consumo. Provavelmente também se perguntará como é possível que as indústrias químicas e farmacêuticas, assim como as cadeias de supermercados, consigam ser tão inescrupulosamente gananciosas, enquanto trombeteiam ser "sustentáveis". E verificará o grau de monstruosidade delinquente da atual cruzada de empresários e deputados ruralistas brasileiros contra a regulamentação responsável dos agrotóxicos, via "PL do veneno".
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José Eli da Veiga é professor sênior do IEE/USP (Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo) e autor de Amor à Ciência (Senac, 2017), o mais recente de seus 27 livros




sábado, 26 de janeiro de 2013

China e Índia e demanda por alimentos



Um bom tema para se acompanhar e se discutir nas empresas: A ascensão das classes E e D na Índia e China estão pressionando a demanda de alimentos. 

Com a crise internacional a dificuldade dos países produtores de atenderem esta demanda coloca o Brasil em posição de destaque. 

O que nos é de arrasto é nossa sofrível infra-estrutura de portos, estradas, energia e capacidade de formação de estoques reguladores.

A carência de mão-de-obra especializada e o analfabetismo funcional elevado também contribuem para que os custos da cadeia produtiva sejam, desnecessariamente, majorados.
A diplomacia do atual governo deveria reduzir o viés ideológico e focar mais na melhoria de nossas condições estruturais e conjunturais para estimular os produtores e a cadeia produtiva com foco naqueles mercados e consumo interno.

Vale a pena refletir sobre este tema.
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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Sinuca de bico

Uma fenomenal análise acerca do dilema crescimento e preservação ambiental.
É importante que a sociedade acompanhe de perto, sobretudo a proposição do Código Ambiental.


Sinuca de bico
XICO GRAZIANO 
O Estado de S.Paulo


Dois grandes desafios, historicamente opostos, afligem a humanidade: alimentar a crescente população e preservar o meio ambiente. Nesse dilema civilizatório inexiste solução fácil. Tempos difíceis se aproximam.

Uma variável fundamental reside no crescimento da população. A crise ecológica que afeta o mundo somente passou a se manifestar quando os seres humanos ultrapassaram certo limite na pressão sobre os recursos naturais do planeta. Assim nasceu o conceito da pegada ecológica.

Seu cálculo determina a extensão do território - em terra e no mar - necessária para sustentar uma pessoa, ou a sociedade, considerando o nível de tecnologia e o modo de vida. Calculado em hectares, o seu valor permite avaliar a sustentabilidade da civilização.

Os dados da Global Footprint Network, entidade que propôs originalmente a ideia, indicam que a pegada ecológica global atingiu 2,7 hectares por pessoa (2007). Multiplicando esse valor pela população mundial, resulta em 18,1 bilhões de hectares. Essa seria a área necessária para sustentar a demanda, ambientalmente falando, da sociedade global.

Acontece que a disponibilidade biologicamente produtiva no mundo soma 13,4 bilhões de hectares. Ou seja, a pegada ecológica da humanidade já ultrapassou a capacidade de suporte do planeta Terra em 35%. Das duas, uma: ou se modifica o modo de vida, tornando-o menos perdulário da natureza, ou se reduz a população humana. A primeira providência será dificílima; a segunda, quase impossível.

Vale o raciocínio: o nível de consumo médio da sociedade global estabelece uma pressão sobre os recursos naturais capaz de sustentar, no máximo, 5 bilhões de habitantes. Mas a população mundial, conforme estima a ONU, deverá atingir 9 bilhões de pessoas próximo de 2050. O colapso da sociedade, portanto, somente se evitará com a alteração do padrão civilizatório.

É bem verdade que essa trajetória rumo ao mundo sustentável vai afetar desigualmente as nações. Os países ricos detêm 20% da população mundial, mas consomem 80% dos recursos naturais do planeta. Mais populosos, os países em desenvolvimento lutam para escapar da miséria e atingir o invejado modo de vida dos povos ricos, europeus ou norte-americanos. É trágico perceber que dificilmente essa hora chegará para eles.

Mesmo com as esperadas inovações tecnológicas, que possivelmente elevarão a oferta de energia limpa, entre outros ganhos ambientais, é inimaginável supor que a totalidade da população humana possa vir a manter, no futuro próximo, um padrão de vida semelhante ao dos ricos de hoje. Um azar histórico se configura.

A visão antecipada da tragédia poderá ser, por outro lado, a sorte da humanidade. Decisões políticas, locais e globais, chegarão para consignar a mudança civilizatória. Esse necessário adeus ao sonho de consumo ocidental, entretanto, atormenta a imaginação. Como estaremos vivendo no final deste século?

Ninguém sabe direito. A incerta trajetória rumo ao mundo sustentável trabalha com raciocínios utópicos: novas tecnologias se combinarão com profundas mudanças culturais; os desejos de consumo e as expectativas de vida ter-se-ão modificado; os direitos e os deveres incluirão normas da sociedade global; a educação ambiental prevalecerá. Haverá harmonia entre homem e natureza.

Na dura realidade, para ser bem resolvida a equação sustentável dependerá do sucesso de uma variante fundamental: a segurança alimentar. Aqui o problema fica mais complexo. A necessidade crescente da produção de alimentos vai elevar a pressão sobre o território natural.

A alimentação humana navega no fio da navalha. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que a demanda mundial por alimentos cresça entre 70% e 100% até 2050, bem acima do aumento populacional. Isso porque a urbanização e a melhoria da renda familiar nas economias em desenvolvimento exigem mais proteína na mesa das pessoas. China e Índia que o digam.

É certo que a capacidade produtiva da agropecuária venceu, por enquanto, a disputa com a população. Todos reconhecem que tal êxito se deve à fantástica evolução tecnológica combinada com a queda na taxa de natalidade. Ponto pacífico.

Houve, porém, um terceiro fator decisivo: a farta disponibilidade de terras virgens. Nos últimos 200 anos, desde que Malthus publicou seu famoso ensaio sobre a população, o desmatamento progressivo de imensos territórios garantiu a expansão da base produtiva rural. Não faltou comida.

É dramático perceber que o processo exploratório sobre a natureza bruta se esgota. Anda no limite a capacidade da agricultura norte-americana e europeia, tanto quanto na China, Índia, Austrália. Pior: milhões de hectares de terras produtivas sofrem com a salinização, o rebaixamento do lençol freático e a desertificação.

Conclusão: será cada vez maior o esforço para aumentar a produção de alimentos. Por outro lado, a pressão ambientalista requer novas áreas protegidas, em nome da biodiversidade planetária. No passado o desmatamento corria solto. Hoje é inaceitável na opinião pública.

Comete crasso erro de análise quem invocar o velho dilema malthusiano como desculpa para a inércia. O desafio alimentar que a humanidade enfrenta agora surge em outro patamar. A inédita demanda proteica, puxada pela queda progressiva da pobreza mundial, ocorre em tempos de reclamo preservacionista. Sinuca de bico.

Torna-se ridículo, nesse complexo cenário, verificar as querelas egoístas e sectárias entre ambientalistas e ruralistas, que brigam pelo Código Florestal olhando o próprio umbigo. Para vencer o grande desafio da humanidade, em vez de inimigos, necessariamente eles terão de se irmanar.


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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Saúde do povo, descaso do Estado

Frei Betto
Correio Braziliense


Escritor, é autor de Calendário do Poder (Rocco), entre outros livros

O neoliberalismo deu um tiro de misericórdia no Estado de bem-estar social. Destruiu os vínculos societários nas relações de trabalho, deslegitimou a representação sindical, deslocou o público para o privado. O que era direito do cidadão, como a saúde, passou a depender das relações de mercado e da iniciativa pessoal do consumidor.

Quem não tem plano privado de saúde entra na planilha dos cemitérios. Hoje, 40 milhões de brasileiros desembolsam, todo mês, considerável quantia, convictos de que, doentes, serão atendidos com a mesma presteza e gentileza com que foram assediados pelos corretores das empresas de saúde privada.

Os clientes se multiplicam e os planos proliferam, sem que a rede hospitalar acompanhe essa progressão. O associado só descobre o caminho do purgatório na hora em que necessita de resposta do plano: laboratórios e hospitais repletos, filas demoradas, médicos escassos, atendentes extenuados. 

Em geral, o pessoal de serviço, que faz contato imediato com os beneficiários, não demonstra a menor disposição para o melhor analgésico à primeira dor: gentileza, atenção, informação sem dissimulação ou meias palavras. 

Ora, se faltam postos de saúde e hospitais; se consultórios têm salas de espera repletas como estação rodoviária em véspera de feriado; se na hora da precisão se descobre que o plano é bem mais curvo e acidentado do que se supunha... a quem recorrer? Entregar-se às mãos de Deus?

O Brasil é o país dos paradoxos. O que o governo faz com uma mão, desfaz com a outra. O SUS banca 11 milhões de internações por ano. Muitas poderiam ser evitadas se o governo tivesse uma política de prevenção eficiente e, por exemplo, regulamentasse, como já faz com bebidas alcoólicas e cigarro, a publicidade de alimentos nocivos à saúde. A obesidade compromete a saúde de 48% da população. 

Entre nossas crianças, 45% estão com sobrepeso, quando o índice de normalidade é não ultrapassar 2,3%. De cada cinco crianças obesas, quatro continuarão assim quando adultos. No entanto, as leis asseguram imunidade e impunidade a uma infinidade de guloseimas e bebidas, muitas anunciadas ao público infantil na tevê e em outros veículos. Haja excesso de açúcares e gordura saturada!

A boa-fé nutricional insiste na importância de verduras e legumes. Mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não se empenha para livrar o Brasil do vergonhoso título de campeão mundial no uso de agrotóxicos. Substâncias químicas proibidas em outros países são encontradas em produtos vendidos no Brasil. Haja câncer, má-formação fetal, hidroencefalia etc!

Entre 2002 e 2008, os acidentes de moto se multiplicaram 7,5 vezes no Brasil. Na capital paulista, são quatro mortes por dia. Muitos motoqueiros sobrevivem com graves lesões. No entanto, a fiscalização de veículos e condutores é precária e as vias públicas não são adaptadas ao tráfego de veículos de duas rodas.

Quem chega ao Brasil do exterior deve preencher e assinar um documento da Receita Federal declarando se traz ou não medicamentos. Em caso positivo, o produto e o passageiro são encaminhados à Anvisa. Ora, toneladas de veneno entram diariamente por nossos portos e aeroportos, e são vendidos em qualquer esquina: anabolizantes, energizantes, enquanto a tevê veicula publicidade de refrigerantes com alto teor de cafeína e poder de corrosão óssea. 

Embora todos saibam que saúde, alimentação e educação são prioritárias, o Ministério da Saúde dispõe de poucos recursos, apenas 3,6% do PIB, o que equivale, neste ano de 2011, a R$ 77 bilhões. Detalhe: em 1995 o governo FHC destinou à saúde R$ 91,6 bilhões. A Argentina, cuja população é cinco vezes inferior à do Brasil, destina anualmente duas vezes mais recursos que o nosso país.

Nossa saúde é prejudicada também pelo excesso de burocracia das agências reguladoras, a corrupção que grassa nos tentáculos do Poder Público (vide o prontuário da Funasa na sua relação com a saúde indígena), a falta de coordenação entre a União, os estados e os municípios. Acrescem-se a mercantilização da medicina, a carência de médicos e sua má distribuição pelo país (o Rio tem quatro médicos por cada mil habitantes: o Maranhão, 0,6). 

Governo é que nem feijão, só funciona na panela de pressão. Se a sociedade civil não exigir melhorias na saúde, no atendimento do SUS, no controle dos planos privados e dos medicamentos (pelos quais se pagam preços abusivos), estaremos fadados a ser uma nação, não de cidadãos, e sim de pacientes — no duplo sentido do termo. E condenados à morte precoce por descaso do Estado.
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Alimento do mundo

MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO


A inflação está na ordem do dia. Nada como no passado, mas o Brasil hoje é mais sensível à elevação de preços. A deste ano é provocada por vários fatores. Há a inflação de alimentos, a de serviços, a provocada por demanda e por excesso de gastos públicos. Alguém tem que recuar e é por isso que se defende que o governo corte gastos.Tudo não cabe no mesmo mercado de consumo.

Uma das teses defendidas com mais frequência ultimamente é que parte dessa inflação é provocada pela alta recorde nos preços das commodities agrícolas, e que a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) teria inclusive provado isso porque seu índice teria chegado ao nível histórico mais alto.

Uma conversa que tive com o diplomata Rubens Ricupero mostra que não é bem assim. Ele acha que tudo é uma questão de base de cálculo. A FAO está comparando o preço atual com o do começo dos anos oitenta, quando houve uma baixa histórica nos preços.

- Se fizermos um cálculo com a média histórica dos 35 anos entre 1945 e 1980, corrigindo pela inflação, vamos constatar que na maioria dos produtos, sobretudo na agricultura tropical, só agora os preços estão se recuperando - disse o ex-ministro.

O economista Fernando Ribeiro, da Funcex, também considera que análises mais longas mostram outros fatos:

- Desde o final dos anos 70 houve uma queda grande de preço das commodities. Nos anos 1990, houve uma recuperação abortada pela crise asiática. De fato, é preciso olhar dados mais longos. O índice de preços de exportação mostra que houve uma perda dos anos 70 até meados dos anos 90. O que impressiona é a rapidez com que as cotações subiram agora. Surpreende mais que a alta continue mesmo depois da crise internacional.

O que é inflação no bolso de quem compra é também valorização dos preços dos produtos que o Brasil exporta. Dois lados da moeda de um produtor líquido de alimentos, como o Brasil. A África poderia ser também um grande fornecedor de commodities agrícolas para o mundo. Se fosse, estaria reduzindo suas necessidades, aproveitando a onda de preços que agora favorece o produtor e, quem sabe, até impedindo a alta forte. Mas o protecionismo, explica Fernando Ribeiro, acabou desestimulando a produção em muitos países:

- Até agora, as forças negociadoras dos grandes países desenvolvidos não estavam interessadas numa regulação que impedisse a volatilidade dos preços.

Ricupero concorda que a interferência indevida dos países ricos nos mecanismos naturais de mercado acabou reduzindo a oferta de alimentos. Hoje, a França quer encontrar formas de impedir a alta dos preços desses produtos e argumenta, em defesa da ideia, que os países pobres da África sofrem porque são importadores líquidos de alimentos. Mas esquece de dizer que foi a política agrícola da própria Europa que acabou destruindo a capacidade produtiva dos países pobres.

- Concordo com o que disse o Fernando e queria dar dois exemplos. A produção africana de tomates é um deles. Houve uma indústria promissora de tomates no Senegal e ela foi completamente dizimada pelo tomate subsidiado produzido por Itália e França. A mesma coisa aconteceu com o algodão. Nos países mais pobres, como Mali, Benin, Burkina Faso, há estrangulamento pela indústria americana subsidiada - disse Ricupero.

O embaixador disse que o Brasil não se deixou contaminar por essa política que sufocou produtores africanos, investiu em tecnologia com a Embrapa e agora está indo para a África com sua tecnologia de produção. A Embrapa já tem dois escritórios lá.

O que Fernando Ribeiro explica é que o mundo vive um problema tipicamente de oferta, que foi desestimulada pelos preços distorcidos pelos subsídios americano e europeu. Agora, esses incentivos estão sendo reduzidos após sucessivas negociações comerciais, mas o que Ricupero teme é que por trás do discurso de um país como a França, que pede regulação no preços das commodities, o que se esconde é o velho protecionismo:

- Vamos continuar aumentando a produção, temos toda a capacidade para isso. O que temos de dizer internacionalmente é: regulação não, porque já temos demais, vamos trabalhar em cima da oferta. Houve um aumento estrutural forte no mercado de alimentos que foi o crescimento da demanda da China e da Índia.

Ricupero, que foi ministro do Meio Ambiente e da Amazônia do governo Itamar Franco, acha perfeitamente possível conciliar aumento da produção com respeito ao meio ambiente. Uma das formas é aumentar a produtividade. Na pecuária, por exemplo, o Brasil pode aumentar a produtividade liberando terra para as plantações. Hoje, parte do desequilíbrio de oferta é causada por problemas climáticos. Ele conta que na crise de 2008 a produção de arroz caiu fortemente por causa da seca na Austrália. O produtor ficou desestimulado porque lá a água é um bem mais caro que a terra, segundo o embaixador.

Para o brasileiro que vai às compras, é difícil entender como um país que está entre os primeiros produtores de uma série de alimentos, como a carne, por exemplo, pode estar enfrentando problema de preços altos. Como a economia é aberta, o produtor vende aqui pelo preço que ele pode exportar, portanto, somos afetados independentemente de quanto o Brasil produza.

Mas este é apenas um dos motivos da inflação. Há dez semanas o Focus vem elevando as previsões da inflação do ano e já se começa a achar que em 2012 o Brasil também não ficará no centro da meta. O governo não convenceu com seu corte de gastos. Tudo leva a crer que a taxa continuará em torno de 6%. O que é muito para os novos padrões brasileiro e mundial.
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O paradoxo da FAO: pecuária e sustentabilidade

Amigos, segue uma reportagem advinda de um relatório elaborado a pedido da FAO.
Sugere-se que o nosso agronegócio venha a impactar o meio-ambiente.

Estudei o assunto. Aliás, segurança alimentar foi o tema de minha tese e eu não concordo com os dados que seguem, não nos números em absoluto, mas nas fontes e conclusões deles advindos.
É necessário que conheçamos como é nosso potencial e nossa destinação de desenvolvimento. Com nosso perfil de economia predominantemente agrícola, ter esses inimigos externos e íntimos dificultando nosso desenvolvimento atrapalha, sobremaneira e a título de exemplo, a redução de nossa desigualdade.

O Código Florestal vem sofrendo pressões de lobbies ambientalistas e de produtores internacionais bem debaixo de nossos narizes.
Gostaria que a mídia nos esclarecesse mais.

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O paradoxo da FAO: pecuária e sustentabilidade
Autor(es): Nelson Pineda
Valor Econômico - 12/08/2010





O pecuarista brasileiro será responsável pelo fornecimento global da carne bovina para a humanidade em 2050



A Food and Agriculture Organization (FAO) estima que a oferta de carnes terá que ser elevada de 200 milhões de toneladas para 470 milhões de toneladas em 2050, e que 72% da produção de carnes do mundo serão consumidos pelos países em desenvolvimento.


O Brasil é a última fronteira agropecuária do mundo. Tem território, água e tecnologia e pode enfrentar o imenso desafio de maximizar a produtividade com custos acessíveis à população mundial, sem esquecer da segurança alimentar e de não comprometer o ecossistema, minimizando o impacto ambiental, gerando bem-estar social dentro de padrões de conforto animal e garantindo retorno econômico para a atividade. Nenhum outro segmento da sociedade brasileira tem desafio comparável de produzir carne sem comprometer as necessidades das gerações futuras.


A FAO sugeriu recentemente taxar a pecuária brasileira e alerta que a elevação constante da produção animal se traduz em enormes pressões sobre a saúde dos ecossistemas, a biodiversidade, os recursos em terras e florestas e na qualidade da água, além de contribuir de maneira significativa para o aquecimento do planeta. Quem vai, porém, atender à demanda mundial de carne bovina?


Estamos diante de um paradoxo. Mas será que os bovinos são os verdadeiros vilões desta história, os únicos culpados? Será que o bovino brasileiro é o grande responsável pela emissão de gás metano no Brasil? Quais são as outras fontes de emissão?


Dos vários gases do efeito estufa, a agricultura e a pecuária contribuem de forma significativa com a emissão de três deles: carbônico, metano e óxido nitroso. A emissão desses gases é proveniente, principalmente, da fermentação entérica de ruminantes, do tratamento anaeróbico de resíduos de animais, do cultivo de arroz irrigado por inundação, de queimadas e desmatamento, do uso de fertilizantes nitrogenados, da fixação biológica do nitrogênio e da adição ou depósito de dejetos animais no solo. Mas, esquecemos dos grandes aterros sanitários nas megacidades, dos pântanos, dos mangues, dos rios Tietê e Pinheiros, dos outros ruminantes, do porco, do frango, do nosso bicho de estimação e de nós mesmos.


É necessário admitir que a pecuária brasileira gera metano, com um rebanho de 185 milhões de cabeças. Dados divulgados em 2005 reportaram que a fermentação entérica do rúmen dos bovinos em 2005 foi responsável por 12% de todas emissões de GEE do Brasil e 53% dos gases emitidos por sistemas agropecuários. Mas o valor definitivo desses dados precisa ainda de confirmações e de estudos mais aprofundados levando em consideração sistemas de produção e sazonalidade da pecuária brasileira.


Dados também publicados pela FAO em 2008 mostram que a concentração de metano na atmosfera apresentava uma estabilização entre os anos 1996 e 2006, enquanto que no mesmo período a população de ruminantes aumentava no mundo. Não se trata de evitar a discussão e sim, de colocar na luz de dados com comprovação irrefutável a verdadeira contribuição dos bovinos brasileiros ao efeito estufa e de traçar estratégias de manejo nutricional, uso de aditivos e a própria seleção de animais menos poluentes.


Os números que se atribuem a nossa pecuária em grande parte são provenientes de técnicas de modelagem e de projeções feitas sobre pesquisa ainda com numero restrito de animais pelas dificuldades operacionais desse tipo de medição. A própria Embrapa em 2006 relatou a escassez e indisponibilidade de dados necessários à caracterização das populações de gado como distribuição por categoria, pesos vivos e consumo entre outros e relatam a incerteza significativa na estimativa de emissões dos relatórios publicados. Ainda ressalta a necessidade de efetuar estimativas em um nível de maior detalhamento, estratificando-se as categorias e sub populações de bovinos de acordo com os sistemas de produção praticados nas diferentes regiões do país, a fim de relacionar informações zootécnicas com componentes socioeconômicos.


Apesar do impacto da pecuária na emissão de metano, a principal atividade emissora de GEE é a conversão de áreas de florestas em sistemas agropecuários com o desmatamento e a queima do material lenhoso, representando 52% das emissões brasileiras, sendo, em grande parte, atribuídas à pecuária de corte para a implantação de pastagens. A verdadeira pecuária empresarial e sustentável não precisa desmatar para dobrar a produção de carne no Brasil. Precisa sim de aplicação de tecnologia, de delineamento de políticas publicas e de recursos na base produtiva, como aqueles feitos pelo BNDES na indústria frigorífica que hoje existem no papel, mas de enorme dificuldade de obtenção impostas pelos agentes financeiros.


Diversos estudos têm demonstrado o potencial benéfico das pastagens em acumular carbono no solo por meio da matéria orgânica chegando a ser igual ou superior ao que acontece na vegetação nativa. Entretanto, a maioria dos estudos relacionados às emissões de gases não considera esse potencial significativo, sendo que o Brasil possui aproximadamente 173 milhões de hectares de terra sob pastagem. Mesmo considerando as degradações existentes, uma parte delas bem manejadas, tem um efeito positivo que precisa ser considerado no balanço final como fator de mitigação da emissão do metano pelo bovino.


Diante das perspectivas mundiais, o Brasil é o único país com possibilidades reais de aumentar a produção mundial de carne bovina. Nessas projeções de cenários, o pecuarista brasileiro será responsável pelo fornecimento global da carne bovina para a humanidade em 2050. Nenhum outro segmento da sociedade tem esse desafio: produzir carne com segurança alimentar, a baixo custo e compatível com a exigência mundial de sustentabilidade. Podemos afirmar que temos caminhos a serem trilhados com inovações tecnológicas e conhecimentos sendo gerados e que temos respostas consistentes para atender à exigência de colocar a pecuária brasileira na vertente da sustentabilidade.




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domingo, 8 de agosto de 2010

Rússia suspende exportação de grãos até o fim deste ano

Uma atititude de Estadista, muitos acordos comerciais devem ter sido prejudicados, contudo o estadista agiu pensando primeiro na sua sociedade, seu patrão e não usou ideologia ou se preocupou com a situação de qualquer outro país.

Outro ponto a ressaltar que dentre os grãos estão milho e soja que não só os EUA estão usando como biocombustível como a China vem aumentando sua demanda. O desequilíbrio no mercado internacional é grande, pois os EUA tem 300 milhões de habitantes e a China 1,4 bilhões. Como estes são itens básicos para uma enorme gama de outros alimentos a crise causada pelo desequilíbrio é grande, contudo o primeiro-ministro russo pensou primeiro neles e está certíssimo. O inverno lá é muito rigoroso e grãos são menos sucetíveis à perecibilidade.

Para uma eventual curiosidade, Segurança Alimentar no contexto da Segurança Hemisférica foi minha tese de mestrado.

Em nosso país SA é, de acordo com o pres. Lula, apenas uma questão de poder aquisitivo para se ter o alimento. O problema é muito mais profundo que este e o artigo sugere tal profundidade.


Rússia suspende exportação de grãos até o fim deste ano

Autor(es): Gleb Bryanski e Aleksandras Budrys, Reuters, de Moscou
Valor Econômico - 06/08/2010

O primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, anunciou nesta quinta-feira uma proibição temporária das exportações de grãos do país. A medida afeta embarques de trigo, milho, cevada, centeio e derivados, e tem como objetivo manter a inflação controlada após a pior onda de calor da história ter danificado as lavouras. "Eu acredito que seja apropriado introduzir um embargo temporário das exportações de grãos e derivados da Rússia", disse Putin em uma reunião de governo.
O porta-voz do premiê, Dmitry Peskov, informou que a proibição entrará em vigor a partir de 15 de agosto e se aplicará também a contratos já assinados, seguindo até o fim de dezembro.

"Essa proibição é de caráter temporário. Falaremos posteriormente sobre como será nosso comportamento após dezembro", disse Putin.
O contrato para dezembro do trigo negociado na bolsa de Chicago encostou no limite de alta de 55,75 centavos e fechou em US$ 8,1125 por bushel. Putin também garantiu 10 bilhões de rublos (US$ 335 milhões) em subsídios e outros 25 milhões de rublos em empréstimos para o setor agrícola. O premiê também afirmou que as reservas de grãos de intervenção do governo russo serão distribuídas a regiões sem leilões.
"Nós temos reservas suficientes - 9,5 milhões de toneladas - e não devemos permitir um aumento dos preços de alimentos na Rússia, enquanto controlamos a criação de animais e acumulamos reservas para o próximo ano", disse Putin. "É claro que o governo está interessado em vender este recurso via leilão, mas nosso objetivo não é fazer mais dinheiro, mas ajudar produtores agrícolas que precisam de socorro".
Inicialmente, o governo planejou intervir abrindo concorrência para vender mais de 3 milhões de toneladas de grãos das reservas estatais para processadores de farinha, criadores de animais e fabricantes de ração.
Andrei Sizov Sr., presidente da consultoria SovEcon, disse acreditar que qualquer embargo não se aplicará aos grãos que já estão sendo carregados em navios nos portos. Recentemente, o Egito comprou 180 mil toneladas de trigo russo para entrega em setembro, enquanto a Jordânia adquiriu 50 mil toneladas de trigo do Mar Negro para a primeira metade de setembro.
A unidade russa da trading multinacional Glencore pediu, em entrevista à Reuters, para que o governo implementasse um embargo às exportações, temendo defaults nos contratos.
Em 1999, o governo russo proibiu exportações de grãos de janeiro a maio, período no qual recebeu ajuda após uma colheita desastrosa em 1998.
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

A comida vai cair do céu

Inocentes úteis e inimigos íntimos.  No fundo é isso que os aliciados por movimentos internacionais de preservação ambiental são, nada mais do que isso. O artigo abaixo sugere o motivo.

Como o pacato cidadão brasileiro em sua modorrente postura de noveleiro se deixa envolver por influências politicamente corretas vindas de países desenvolvidos por meio de financiamentos de ONG.

A patética figura branquela de James Cameron defendendo a proibição da usina de Belo Monte mais uma formidável quantidade de ativistas que impedem a progressão de nossa "fronteira verde" finalmente podem ser desnudados, denunciados por um genuíno político de esquerda que demonstra bom-senso e coerência.

A título de uma inexorável e, por vezes, insuportável postura de politicamente correto estamos abrindo mão de nosso desenvolvimento embalado por inimigos íntimos cevados por recursos de ONG de países desenvolvidos que querem que permaneçamos na postura de quintal e de celeiro dos países desenvolvidos.

O deputado Aldo Rebelo, do PC do B de SP sempre foi  um revolucionário, contudo, no momento da diplomação como deputado federal passou a perceber a real dimensão e potencial do país. Quando FHC querendo detonar nossa politica de defesa nacional e a de reequipamentos das FFAA nomeou-o como presidente da comissão na vã experança de que ele detonasse os planos de avanço. Ledo engano, ele passou a ser um defensor ferrenho do nosso plano de desenvolvimento e ampliação da Indústria de Defesa.

Tem um "porquê", tem uma coerência por detrás. Se ele enxergou porque os demais não o querem?

Enquanto isso, prosseguimos felizes e lampeiros em busca de um amanhã como eternos "país em desenvolvimento".

Aldo Rebelo - O Estado de S.Paulo
Sob o autoexplicativo título Farms Here, Forests There (Fazendas Aqui, Florestas Lá), foi publicado nos Estados Unidos, em maio, estudo patrocinado pela National Farmers Union (Associação Nacional de Fazendeiros) e pela organização não-governamental Avoided Deforestation Partners (Parceiros contra o Desmatamento, em tradução livre). A autora principal do relatório é Shari Friedman, ex-funcionária do governo Clinton, quando trabalhou na Environmental Protection Agency (EPA, a Agência de Proteção Ambiental), analisando políticas domésticas de mudanças climáticas e competitividade internacional. Ela também fez parte da equipe norte-americana de negociações para o Protocolo de Kyoto, que os Estados Unidos se negaram a assinar.
tema do relatório é a perda de competitividade da agroindústria norte-americana diante dos países tropicais, principalmente o Brasil. A tese principal do estudo é que a única forma de conter essa perda de competitividade é reduzir o aumento da oferta mundial de produtos agropecuários, restringindo a expansão da área agrícola nos países tropicais pela promoção de políticas ambientais internacionais mais duras.
Segundo o relatório, "a destruição das florestas tropicais pela produção de madeira, produtos agrícolas e gado tem levado a uma dramática expansão da produção de commodities que competem diretamente com a produção americana". Desse modo, "a agricultura e as indústrias de produtos florestais dos Estados Unidos podem beneficiar-se financeiramente da conservação das florestas tropicais por meio de políticas climáticas".
O estudo avalia que "acabar com o desmatamento por meio de incentivos nos Estados Unidos e da ação internacional sobre o clima pode aumentar a renda agrícola americana de US$ 190 bilhões para US$ 270 bilhões entre 2012 e 2030". Esse aumento incluiria benefícios diretos de US$ 141 bilhões, decorrentes do aumento da produção de soja, carne, madeira e substitutos de óleo de palma, e economias indiretas de US$ 49 bilhões, em razão do menor custo da energia e de fertilizantes, pela redução das medidas compensatórias associadas à diminuição das florestas tropicais, ou seja, na medida em que os países tropicais poluírem e desmatarem menos, eles poderiam poluir e desmatar mais, sem ter de pagar por isso comprando créditos de carbono e outras medidas mitigadoras.
candura com que eles tratam do tema é comovedoraO estudo revela que na cabeça deles não passamos mesmo de um fundo de quintal que precisa ser preservado para que eles possam destruir o resto do mundo com a consciência tranquila e, principalmente, com o bolso cheio.
Já vai longe - e sem saudades - o tempo em que a sociedade brasileira se curvava, sem questionamentos e sem esperneio, à tutela dos países ditos do Primeiro Mundo. Hoje é inadmissível pensar que países livres tenham de se submeter às manipulações econômicas de outras nações.
aspecto trágico dessa proposta é a completa ausência de responsabilidade social dos agricultores norte-americanos, que veem a agricultura apenas como uma forma de aumentar sua própria fortuna, e não como a solução para a questão da fome no mundoAo produzir mais alimentos - e, com isso, mantendo seus preços mais acessíveis aos países pobres -, o Brasil ajuda a evitar que essa epidemia terrível se espalhe ainda mais no planeta.
Houve ainda uma época em que a divisão internacional do trabalho imposta pelos países ricos reservava para eles a produção de bens manufaturados e aos países pobres, o fornecimento de bens agrícolas e matérias-primas. Hoje se vai estabelecendo uma nova divisão: os Estados Unidos e a Europa transformaram-se em economias de serviço e grandes produtores e exportadores agrícolas, enquanto a produção industrial se deslocou para a Ásia.
Nesse novo esquema, países como o Brasil deveriam, na opinião deles, cumprir um novo papel: tornar-se uma espécie de "área de preservação permanente global". Com isso se resolveriam dois problemas: o comercial, pois sua produção agrícola ineficiente se viabilizaria pela redução da oferta e pelo aumento dos preços internacionais; e o ambiental, porque garantiríamos a compensação necessária para que eles continuem a manter seu atual padrão de consumo, que exige a exploração dos recursos naturais globais acima da capacidade que a natureza tem de repô-los.
Tudo isso funcionaria muito bem, não fosse o fato de sermos um país de mais de 190 milhões de habitantes, que precisam satisfazer as mesmas necessidades básicas que os americanos e europeus e têm as mesmas aspirações de progresso material e espiritual, cada vez mais parecidas e universais no mundo globalizado. Sim, nós também temos direito à felicidade nos mesmos moldes dos europeus ocidentais e dos norte-americanos!
Faz sentido, portanto, a defesa "desinteressada" que eles fazem dos chamados "povos da floresta". Além de sua expressão quantitativa reduzida, esses brasileiros têm um padrão de consumo que não compete com eles no uso dos recursos naturais e torna perfeitamente viável o esquema de "fazendas lá e florestas aqui".
Só não dizem o que fazer com os 190 milhões de nossa população que não vivem nas florestas e precisam produzir comida e outros bens para ter um padrão de vida digno. Para estes eles têm a solução que já aplicam na África, depois de arruinarem a produção local de algodão, milho, tomate e outros alimentos, com os subsídios milionários que dão aos seus próprios fazendeiros: a chamada "ajuda humanitária".
continuar nesse ritmo, em vez de comprar comida nos supermercados, vamos acabar tendo de esperá-la cair do céu em fardos atirados pela Força Aérea Americana ou distribuídos pela Cruz Vermelha e pelo Greenpeace.
DEPUTADO FEDERAL (PC DO B-SP), RELATOR DO CÓDIGO FLORESTAL, PRESIDIU A CÂMARA DOS DEPUTADOS E FOI MINISTRO DE RELAÇÕES INSTITUCIONAIS NO GOVERNO LULA 
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