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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Jornalismo em evolução




Ricardo Pereira
O Estado de S. Paulo



É famosa a frase de Winston Churchill de que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais. Ou seja, não há nada melhor, mesmo quando se reconhecem todos os seus defeitos. Jornalismo é um pouco assim: imperfeito, mas insubstituível. No Brasil essa comparação é ainda mais verdadeira, se levarmos em conta os avanços da nossa jovem democracia, nascida a partir da Constituição de 1988, e do bom jornalismo que fazemos, com tantos serviços prestados à sociedade nesse período.

Jornalismo, assim como democracia, é uma obra em progresso, em permanente processo de autocrítica e busca de aperfeiçoamento.

Essas reflexões vêm a propósito do modelo de autorregulamentação posto em prática pelos 154 jornais que integram a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a mais representativa entidade do setor, com títulos cuja circulação diária soma cerca de 90% do total da circulação brasileira.

Há pouco mais de um ano a ANJ criou o seu Programa Permanente de Autorregulamentação, com o objetivo de estimular os jornais associados a adotarem práticas de relacionamento transparente com suas audiências, de modo a que possam assumir publicamente seus princípios éticos, ser criticados, cobrados por eventuais erros e fazer as correções cabíveis.

O programa recomendou que os jornais associados adotassem pelo menos uma prática no sentido de permitir aos leitores acessar, demandar e obter respostas dos responsáveis editoriais. Pesquisa feita pela ANJ indica que, em função da iniciativa, hoje absolutamente todos os jornais associados já têm algum tipo de canal de relacionamento com suas audiências. A internet, como era esperado, tem facilitado essa prática de transparência.

Claro que o ideal é que os jornais não se limitem a ter um canal de relacionamento pela internet com seus leitores e possam ir além, formando um conjunto de práticas que tornem mais e mais consequente a relação de confiança que devem ter com seu público leitor. Mas esse é um processo necessariamente cumulativo, que demanda tempo, até pela grande diversidade dos jornais brasileiros.

A incompreensão a respeito dessa realidade leva a críticas como a recentemente feita aqui, no Estadão, pelo articulista Eugênio Bucci, para quem a pesquisa da ANJ revela "números que desencorajam qualquer leitura otimista" (Pluralismo de fachada, 6/9). É a velha história do copo meio cheio, meio vazio. A verdade é que o copo já esteve mais vazio e vem sendo enchido exatamente pela iniciativa da ANJ.

O programa da ANJ busca justamente a disseminação das melhores práticas, o estímulo à formação de uma cultura de ética e de autocrítica, num gradativo círculo virtuoso. Por isso o programa é chamado de permanente, ou seja, está em constante evolução. A ANJ remeteu a todos os seus associados exemplos dessas melhores práticas, que vão desde procedimentos habituais de reconhecimento de erros e correção até fóruns de análise crítica. Nesse período de um ano, diversos jornais de pequeno e de médio portes seguiram o caminho dos maiores e passaram a adotar práticas que não adotavam, como códigos próprios de ética e autorregulamentação, conselhos editoriais e conselhos de leitores.

A ANJ considera esse o melhor caminho para o exercício do jornalismo independente, responsável e de qualidade, que cumpra da melhor forma sua nobre missão de informar e formar os cidadãos. O que se busca é incentivar os jornais a terem seus próprios caminhos de autorregulamentação. Afinal, a credibilidade é o maior patrimônio de um jornal e deve ser cultivada a cada dia - hoje, com a internet, a cada momento.

Quando o Supremo Tribunal Federal, em 2009, tomou a histórica decisão de sepultar a Lei de Imprensa criada no regime militar, definiu também que não cabe nenhum pressuposto para o exercício da liberdade de expressão. A ANJ, como todos os setores verdadeiramente democráticos do País, comemorou a decisão. Mas entendeu - até para valorizar esse bem maior que é a liberdade - que deveria estimular seus jornais associados a adotarem o maior número possível de práticas de relacionamento com suas audiências, com seriedade e profundidade.

Esse modelo descentralizado de autorregulamentação escolhido pela ANJ difere daquele em que um conselho funciona como espécie de tribunal de ética, com a prerrogativa de julgar ações contra os jornais e definir penalidades. Para a ANJ, mais importante do que tudo, sob o ponto de vista da sociedade brasileira, é que no grande universo de jornais brasileiros, de todos os tamanhos e perfis, cresça e se consolide uma cultura de relacionamento transparente e permanente com os leitores.

Conselhos de autorregulamentação no jornalismo não são necessariamente o melhor caminho. Basta ver o que ocorreu com a Press Complaints Commission, da Grã-Bretanha, considerada um modelo exemplar, mas que foi incapaz de agir no escandaloso caso do News of the World, tabloide popular de Rupert Murdoch que se tornou uma central de grampeamento e manipulação de informações. Foi a própria imprensa britânica que se encarregou de desmascarar os crimes cometidos pelo jornal, que acabou fechado. Ainda como decorrência do episódio, a Press Complaints Commission está sendo completamente reformulada. A liberdade de imprensa funcionou a favor da imprensa e de toda sociedade.

Jornais e jornalistas erram e continuarão a errar. Quando agem de má-fé, a legislação comum de danos morais, que se aplica a todos os cidadãos, é o instrumento democrático e constitucional para puni-los. Mas, além do aparato legal, é preciso que os próprios jornais e jornalistas pratiquem um esforço permanente por um jornalismo cada vez mais ético e aberto à sociedade. A ANJ escolheu esse caminho de evolução, em sintonia com a evolução da própria democracia que estamos construindo.
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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Mídias sociais e jornalísticas em nossa sociedade


Os dois últimos posts 

guardam similaridades entre si, notadamente acerca da capacidade de comunicação e acesso a notícias em nossa sociedade.

De acordo com o IBGE, hoje temos 95% de residências com televisores e 98% com rádios além de jornais impressos custarem até trinta centavos e termos mais de 200 milhões de linhas de celulares.

Há, de fato, uma profusão de meios para se comunicar entre si e compreender o mundo a sua volta disponíveis para o cidadão brasileiro viver, se desenvolver e atingir patamares altos de bem-estar e riqueza sustentáveis.

Os veículos de comunicação sempre foram objeto de controle por parte de qualquer governo por intermédio de suas "secretarias de comunicação social". Por intermédio delas é que os governos, com os recursos pagos pelo cidadão via impostos, paga propagandas institucionais aos jornais, rádios e televisões. O presidente da Folha já havia denunciado isso na época do governo Collor. Hoje parece não se lembrar em função dos fartos recursos que agora recebe. Assim, os conteúdos são controlados de forma subliminar. Quantos de vcs leitores souberam, via jornais, de uma morte no metro do Rio há um mês que paralisou por horas esse importantíssimo veículo de transporte. Controle midiático, foi o que ocorreu e muito eficiente, de fato.

Quanto às mídias sociais vejo que o controle não vem do governo ou de elites e sim do próprio usuário. Tenho acompanhado dois eventos há anos, um mutismo considerável de contumazes "encimadosmuros" e uma profusão de platitudes que pouco agregam valor na maioria dos que se propõem a veicular algo. É um tipo de auto-censura, inobstante a uma profusa quantidade de meios para se comunicar e entender a realidade circundante e, por meio desse veículo, interagir de forma mais eficiente com a realidade na qual o cidadão está inserido.

Um notável exemplo de uso eficiente de redes sociais se deu nos últimos meses com a eclosão das revoltas sociais nos países do oriente médio. Ocorre que lá as sociedades são mais velhas e mais maduras. O que nos falta é enxergar essa capacidade e aí, as mídias tradicionais têm um importante papel de esclarecimento que não cumprem.


Apesar de nossa repetida idiossincrasia apostólica romana e a pressão subliminar das esquerdas dominantes induzirem ao raciocínio de que ser rico é crime ético e inafiançável, devemos sempre perseguir a riqueza pelo simples fato de que riqueza gera empregos, arrecadações de impostos e proporciona saúde, saneamento, segurança e desenvolvimento. Quanto mais ricos tivermos em nossa sociedade mais produtos teremos, mais empregos teremos, mais famílias bem alimentadas e educadas pelos pais que terão seus empregos e seus salários também teremos. A demagogia socialista gramciana que reina em nossa elite intelectual de esquerda é que nos mantém na desigualdade, pois socialismo e distribuição igualitária pelo Estado nunca funcionou em nenhum lugar geográfico na tera em nenhum momento na História da humanidade.

Um dos principais papéis dos veículos de comunicação é o de traduzir essa complexa realidade ao cidadão comum e ajudá-lo a conquistar um desenvolvimento econômico e social sustentável.


quarta-feira, 5 de maio de 2010

A crise do jornalismo


Há muito tempo que não leio uma reportagem tão bem escrita.
Há muitas informações importantes e o analista tem base para se posicionar dessa forma.

Carlos Alberto Di Franco - O Estado de S.Paulo
Recentemente, Juan Luis Cebrián, fundador e primeiro diretor do El País, foi entrevistado pela jornalista Laura Greenhalgh, editora executiva do jornal O Estado de S. Paulo. A entrevista, saborosa e inteligente, foi uma sincera reflexão sobre os avanços e recuos do nosso ofício. Cebrián viveu importante momento da história da imprensa espanhola. O El País, independentemente de certo alinhamento ideológico com o governo socialista, é um grande diário.
A crise que fustiga a nossa atividade é flagrada na radiografia do escritor. O que está em jogo é o próprio modo de fazer jornalismo. Cebrián intui a gravidade do momento. "A internet é um fenômeno de desintermediação", diz ele. "E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado?"
Só nos resta uma saída: produzir informação de alta qualidade técnica e ética. Ou fazemos jornalismo de verdade, fiel à verdade dos fatos, verdadeiramente fiscalizador dos poderes públicos e com excelência na prestação de serviço, ou seremos descartados por um leitorado cada vez mais fascinado pelo aparente autocontrole da informação na plataforma virtual. Um olhar, sincero e autocrítico, mostra alguns equívocos que aos poucos vão minando a credibilidade e comprometendo nossa capacidade de atrair e fidelizar leitores.
Algumas patologias, evidentes para quem tem olhos de ver, dominam alguns setores do jornalismoengajamento ideológico, escassa especialização e preparo técnico, falta de apuração, reprodução acrítica de declarações não contrastadas com fontes independentes e, sobretudo, a fácil concessão ao jornalismo declaratório.
A recente enxurrada de matérias sobre abuso sexual na Igreja são um bom exemplo desses desvios. Setores da mídia definiram os abusos com uma expressão claramente equivocada: "pedofilia epidêmica". Poucos jornais fizeram o que deveriam ter feito: a análise objetiva do fatos. O exame sereno, tecnicamente responsável, mostraria, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que o número de delitos ocorridos é muitíssimo menor entre padres católicos do que em qualquer outra comunidade. Em artigo recente, o conhecido sociólogo italiano Massimo Introvigne mostrou que, num período de várias décadas, apenas 100 sacerdotes foram denunciados e condenados na Itália, enquanto 6 mil professores de educação física sofriam condenação pelo mesmo delito. Na Alemanha, desde 1995, existiram 210 mil denúncias de abusos. Dessas 210 mil, 300 estavam ligadas ao clero, menos de 0,2%. Por que só nos ocupamos das 300 denúncias contra a Igreja? E as outras 209 mil denúncias? Trata-se, como já afirmei, de um escândalo seletivo.
Recentemente, repercutimos, sem qualquer análise crítica, declarações de um representante da Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII, sediada na Espanha. Pedia-se, num gesto carregado de ridículo, a demissão de Bento XVI. Ninguém, no entanto, perguntou o óbvio: Quem são os teólogos que integram essa entidade? Trata-se de uma ONG com credibilidade pública comprovada? Um mínimo de apuração jornalística mostraria que se trata de uma entidade de dissidentes, sem qualquer expressão. A Igreja, com sua história bimilenar e precedentes de crises muito piores, é um mistério. Mas, obviamente, não é um assunto para ser tocado com amadorismo ou engajamento.
A má qualidade da cobertura da pedofilia na Igreja é, a meu ver, a ponta do iceberg de algo mais grave. Não existe crise da mídia impressa. Existe, sim, uma grave crise no modo de fazer jornalismo. Reproduzimos, frequentemente, o politicamente correto. Não apuramos. Não confrontamos informações de impacto com fontes independentes. Ficamos reféns de grupos que pretendem controlar a agenda pública. Mas o jornalismo de qualidade não pode ficar refém de ninguém: nem da Igreja, nem dos políticos, nem do movimento gay, nem dos ambientalistas, nem dos governos. Devemos, sim, ficar reféns da verdade.
Mas algo parecido ocorre com a cobertura de política. O jornalismo declaratório, pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas fracassa no seu papel de fiscalizador do poder. Um exemplo, entre outros, confirma o que estou dizendo. Gastamos páginas repercutindo o obstinado apoio de Lula à ditadura cubana, mesmo com o risco de comprometimento de sua biografia. E não vamos à fonte que esclarece definitivamente as razões da estratégia do presidente da República. É só contar ao leitor a história do Foro de São Paulo. Lá está tudo, inclusive a matriz inspiradora do Plano Nacional de Direito Humanos (PNDH-3).
Como lembrou alguém, estamos diante de um projeto de corte radical-socialista, que está sendo implantado na Venezuela, no Equador e na Bolívia e que tem em Cuba o seu ponto de referência. Trata-se de um projeto destinado a mudar profundamente a nossa sociedade.
Vida, família, educação, liberdade de imprensa, liberdade de consciência, de religião e de culto não podem ser definidos pelo poder do Estado ou de uma minoria. A fonte dos direitos humanos é a pessoa, e não o Estado e os poderes públicos. Sempre que o Estado ocupa o espaço do indivíduo, a primeira vítima é a liberdade. A segunda, são os direitos humanos. Basta olhar para o brutal autoritarismo da ditadura cubana. Precisamos ir às raízes verdadeiras dos assuntos que ocupam a agenda pública.
Há espaço, e muito, para o bom jornalismo. Basta cuidar do conteúdo e estabelecer metodologias e processos eficientes de controle de qualidade da informação. E redescobrir uma verdade constantemente reiterada pelo jornalista Ruy Mesquita: o bom jornalismo é "sempre artesanato".
DOUTOR EM COMUNICAÇÃO, É PROFESSOR DE ÉTICA E DIRETOR DO MASTER EM JORNALISMO E-MAIL: DIFRANCO@IICS.ORG.BR
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