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sábado, 27 de novembro de 2010

Meus fantasmas



DIOGO MAINARDI
REVISTA VEJA

“Eu vim morar em Veneza para melhorar a qualidade de meus fantasmas. No Rio de Janeiro, eu convivia com o fantasma de Ziraldo. Aqui convivo com o fantasma de Eleonora Duse e de Gabriele D’Annunzio”


Lady Gaga é assombrada por um fantasma. Ela é igual a Scooby-Doo. Eu também sou assombrado por um fantasma. Eu sou igual a Lady Gaga e a Scooby-Doo.

O nome do fantasma de Lady Gaga é Ryan. Ryan persegue Lady Gaga em todos os lugares. Lady Gaga está em Istambul? Ryan a assombra em Istambul. Lady Gaga está em Estocolmo? Ryan a assombra em Estocolmo. Lady Gaga está em Belfast? Ryan a assombra em Belfast. Lady Gaga tem medo de Ryan. Em Belfast, algum tempo atrás, ela chegou a contatar um médium para tentar despachar o fantasma. O resultado, pelo que eu entendi, foi ruim: Ryan continuou a atormentá-la.

Se Lady Gaga é assombrada pelo fantasma de Ryan e se Scooby-Doo é assombrado pelo fantasma do Cavaleiro Negro, eu sou assombrado pelo fantasma de Eleonora Duse. Depois de passar uma temporada de oito anos no Rio de Janeiro, eu me mudei para Veneza. Vim morar no mesmo prédio em que morou Eleonora Duse. Lady Gaga tem muito mais páginas na internet do que ela. Scooby-Doo tem muito mais páginas na internet do que ela. Até eu tenho muito mais páginas na internet do que ela. Mas Eleonora Duse foi uma das maiores estrelas de teatro de todos os tempos. No fim do século XIX, ela era mais conhecida do que é, atualmente, Lady Gaga.

Há um episódio de Scooby-Doo ambientado em Veneza. No desenho animado, ele é perseguido pelo Gondoleiro Fantasma, que quer roubar um colar precioso. O fantasma de Eleonora Duse, que mora aqui comigo, é bem menos molesto. Ela se limita a recitar A Dama das Camélias, aos gritos, em cima de minha mesa de jantar.

O prédio em que o fantasma de Eleonora Duse e eu moramos está localizado à beira do Canal Grande. Na margem oposta, ligeiramente à esquerda, olhando pela janela, há uma casa vermelha em que morava o escritor Gabriele D’Annunzio. Eleonora Duse e Gabriele D’Annunzio eram amantes. Ele mergulhava no Canal Grande, cruzava-o a nado e vinha visitar Eleonora Duse em meu prédio. Um século mais tarde, seu fantasma continua repetindo a mesma rotina. Eu sempre pego Gabriele D’Annunzio em minha biblioteca, depois de sair do Canal Grande, inteiramente molhado, manchando o tapete e pingando em meu computador.
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terça-feira, 18 de maio de 2010

O Chamberlain de Macaé


De uma forma caricata o autor procura fazer uma comparação entre dois ícones da sociedade brasileira atual.

O tema, contudo, parece ser algo de surreal mas na realidade não é.
O nosso presidente, em fim de mandato, tenta uma senhora cartada para ser reconhecido mundialmente como articulador, em bem da paz universal, a exemplo dos Secretários Gerais da ONU, cargo que ele pretende ascender após o término de seu mandato.

A questão reside no seu histórico recente que a mídia, em eternos balões de ensaio, ainda não se preocupou em aprofundar, trata-se do propalado alinhamento com os países latinos que também querem uma nova ordem.

A questão está é que na nova ordem o poste fará xixi no cachorro, segundo a macro-visão dos Estadistas latino-morenos. Tais propostas são oriundas dos "summit dos apedeutas" que têm lugar todas as vezes em que eles, às expensas dos respectivos cofres públicos promovem encontros cujo produto prático não só é duvidoso quando não risível. O fato é que a economia do inimigo capitalista, EUA, banca a insipiente economia de cada país do continente latino.


Enquanto o show de desinformação prossegue poderíamos nos divertir com textos bem escritos como o abaixo.



O Chamberlain de Macaé

sábado, 15 de maio de 2010 | 0:29

Lula foi ao baile funk de Mahmoud Ahmadinejad assim como Vagner Love foi à Rocinha. Vagner Love confraternizou com os assassinos do Comando Vermelho? Lula está confraternizando com os assassinos da Guarda Revolucionária iraniana. Vagner Love faz trabalho humanitário no morro? Lula, segundo Dilma Rousseff, faz trabalho humanitário no Golfo Pérsico. Vagner Love foi festejar os dois gols que marcou contra o Macaé? Lula está festejando os dois gols que marcou contra o Brasil.
O Brasil é uma espécie de Macaé do mundo. Isso é uma sorte. Se o Brasil fosse a Inglaterra, Lula já estaria consagrado como o nosso Chamberlain. Sempre que alguém quer guerrear, surge algum pateta tentando ser intermediário da paz. Em 1938, o primeiro-ministro da Inglaterra, Chamberlain, viajou para a Alemanha para negociar olho no olho com Hitler. Depois de alguns encontros, eles assinaram um tratado de paz, pelo qual Hitler se comprometia a ocupar apenas uma parte do território da Checoslováquia. Chamberlain voltou à Inglaterra comemorando a paz. Seis meses mais tarde, Hitler atropelou Chamberlain e ocupou o resto da Checoslováquia. Em seguida, ocupou a Europa inteira.
Se Lula é o Chamberlain de Macaé, Mahmoud Ahmadinejad só pode ser o Hitler de Macaé. Como Hitler, ele mata seus opositores. Como Hitler, ele persegue as minorias. Como Hitler, ele tem um plano para eliminar todos os judeus. Só lhe falta o poder de fogo, porque um Macaé, felizmente, é sempre um Macaé. O papel de Lula é esse: dar-lhe algum tempo para que ele possa obter uma arma nuclear. Na semana passada, um articulista do Washington Post chamou Lula de “idiota útil” de Mahmoud Ahmadinejad. O articulista está certo. Mas há outros “idiotas úteis”, além de Lula. O G15, reunido neste domingo no baile funk iraniano, conta também com a Venezuela, de Hugo Chávez, com o Zimbábue, de Robert Mugabe, e com a Indonésia, de Susilo Bambang Yudhoyono, eleito pela Time, em 2009, uma das 100 personalidades mais influentes do mundo. Time é uma espécie de VEJA de Macaé.
O apoio ao programa nuclear iraniano é o maior erro que o Brasil já cometeu na área internacional. Só a vaidade de Lula ganha com isso. Ao desafiar os Estados Unidos e a Europa, tornando-se cúmplice de Mahmoud Ahmadinejad, ele pode sentir-se um tantinho maior do que realmente é. Trata-se da síndrome de Macaé. Mas alguém tem de dizer a Lula que seu tempo já se esgotou. Ele representa o passado. A esta altura, sua autoridade é meramente protocolar. Um novo presidente será eleito daqui a cinco meses. Só ele poderá decidir sobre assuntos estratégicos. Em vez de atuar como um quinta-colunista da bomba nuclear iraniana, Lula deveria pensar apenas em esvaziar as gavetas de seu gabinete. Acabou, Lula. Chega. Fim. Xô.
Por Diogo Mainardi

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