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sábado, 25 de maio de 2019

Perplexidades

Roberto DaMatta: - O Estado de S. Paulo

Hoje, a questão é constatar como o governo destoa de um estilo politicamente correto de governar

Permita o leitor que o cronista fale de perplexidades. Uma das mais intrigantes é a seguinte: quando um mentiroso irreversível diz que mente ele fala a verdade?

E quando uma coletividade nascida da engrenagem da aristocracia branca estrangeira com escravidão negra também estrangeira, soldadas por mestiçagem e por uma máquina estatal hierarquizada administrada por uma elite absolutamente consciente do seu papel de mandona diz que é igualitária – você acredita?

Uma outra perplexidade é o recorrente projeto das elites de promover o progresso, a riqueza e a democracia do Brasil e, no entanto, o que tenho visto é uma sucessão de ciclos nos quais quem chega ao poder enobrece enquanto o País fica mais acachapado.

A perplexidade atual é constatar como o governo destoa frontalmente de um estilo politicamente correto de governar. As reações a essa desarmonia são sintomáticas de um elitismo feroz, forjado por redes de elos pessoais e simbólicos que mantiveram sua autoridade (e seus lucros políticos e monetários), deixando mudar regimes. Os regimes mudam, mas o núcleo elitista (velho ou novo) permanece na sua matriz aristocrática garantida por leis.

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Dizem que não se governa um país na base do confronto e eu tendo a concordar. Ressalvo, entretanto, que, no Brasil, aprendemos tudo menos a dizer não. Somos da moda e não queremos “ficar mal no filme”. Daí a obrigatoriedade de concordar e compreender as falcatruas dos amigos e dos recomendados que comungam do nosso estilo de vida patriarcal que não permite nome feio ou ponto fora da curva. Tal estilo tem sido sustentado pelo Estado que – eis outra perplexidade – não teve uma raiz democrática, embora seja formalmente um “Estado democrático de direito”.

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Quem foi que inventou o Brasil? Lamartine Babo fez essa pergunta crítica na marchinha carnavalesca História do Brasil, em 1934. Tempos que culminaram numa ditadura. Por que a questão é crítica? Pela simples razão de conduzir às origens. Para nós humanos, nada é mais básico do que o acesso às origens. Deus deve estar acima de tudo porque é o Criador do mundo e dos seus princípios.

Mitos de origem e origens como mitos são a base dos sistemas políticos e sociais. John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, John Jay, Thomas Jefferson, James Madison e George Washington são os “pais fundadores” dos Estados Unidos da América cuja sociedade tem um lado hiperindividualista. Origem, fundação, descoberta e criação estão sempre ligados a uma dimensão hierárquica ou aristocratizante e a algo divino. A seres e objetos marginais ao nosso mundo rotineiro, mas necessários à sua fecundidade e continuidade.

O Brasil, diz a marchinha, foi inventado por Seu Cabral, dois meses depois do carnaval. Há quem – observando a nossa fúria autodestrutiva – duvide?

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A divisão do poder absoluto e divino dos monarcas foi feita na base de um número mágico. Qualquer semelhança entre a Santíssima Trindade e os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário é mera coincidência, exceto para o antropólogo, mas isso não cabe numa crônica.

O fato é que a divisão republicana foi adotada na América Latina com um forte sotaque real, pessoal e relacional – autoritário – como eu tenho mostrado nos meus livros. As repúblicas latino-americanas não caíram num terreno virgem. Foram proclamadas contra vice-reinados e, no nosso caso, em contraste com um império. Joaquim Nabuco percebeu isso porque conhecia bem o nosso viés personalista, relacional e – não custa acrescentar – elitista e cabotino.

O republicanismo aplicado ao nosso continente elege reis, como dizia Nabuco. Com a diferença marcante do viés messiânico-marxista que, com a Guerra Fria, deu um novo impulso ao caudilhismo pessoal (caso cubano) ou corporativo-partidário (caso brasileiro), apelando para conceitos que remeteriam às origens da ordem social como propriedade, liberdade e opressão.

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Minha última perplexidade foi escrita por Hölderlin – um poeta alemão: “Onde existe perigo, existe esperança”.

quinta-feira, 7 de março de 2019

A volta da rotina

Roberto DaMatta - O Estado de S. Paulo / O Globo

Hoje, nessas minhas cinzas, só posso ousar sugerir a criação dos Ladrões Anônimos

Todos voltamos à dura realidade da vida e esta quarta-feira, que há décadas, inexoravelmente, pauta minha crônica, é de cinzas. A partir de hoje, entramos, pelo calendário litúrgico católico romano, nos 40 dias de regeneração e exame de consciência afins à disciplina do corpo e da carne, essa quarentena que precede a Paixão de Cristo, aval da nova aliança de Deus Pai com a nossa pobre e carnavalesca humanidade. Hoje abrimos a esquecida Quaresma das penitências e arrependimentos reveladores de quanto o tal “Brasil laico” como estado nacional é, como sociedade, estruturado pelo Natal, pela Semana Santa e pelo Sábado de Aleluia, quando todos carnavalescamente – e à brasileira – ressuscitavam com Cristo Nosso Senhor.

Parece piedoso demais para o seu gosto moderno e também para o meu, mas esse é um lado esquecido do significado do carnaval que faz demandas financeiras absurdas quando lidas pelo código burguês do equilíbrio fiscal, mas que são parte de uma cosmologia formada pelo catolicismo ibérico que permeia o nosso perfil espiritual e transborda inclusive nos nossos impulsos ideológicos político-revolucionários.

Somos marxistas, mas não somos materialistas. Marx e Engels arregalariam os olhos com essa combinação que, na Europa, trouxe à história humana um progresso material extraordinário e uma visão de mundo que dispensava a transcendência religiosa do (e no) outro mundo.

Mas eis que todo ano celebramos o carnaval no qual todos viram foliões (malucos proto-transgressores) e usam fantasias, abandonando seus uniformes rotineiros. Eu uma vez escrevi sobre desfiles, paradas militares e procissões como três modos de revelação ou leitura esteticamente enquadradas do Brasil por si mesmo.

Nos desfiles, você provavelmente tomou parte fantasiado disso ou daquilo – certamente investindo de uma mensagem contra as classificações rotineiras, preconceituosas e em geral dicotômicas (homem ou mulher, rico ou pobre, sério ou galhofeiro) –, mas inconsciente de seu próprio lado, o qual necessariamente exclui um outro, pois não se pode ser nem a favor nem contra tudo todo o tempo. E pode agora refletir sobre o significado profundo das cinzas.

Sim, porque o seu desfile carnavalesco, misto de irreverência e manifestação, foi apenas um lado da nossa “democracia convulsiva”, como diz Anibal Machado numa brilhante análise do nosso carnaval no seu pouco lido João Ternura. Um livro que tanto me deu certeza de que o carnaval é a celebrização de nossa permanente e latente malandragem – uma ambiguidade ou indecisão histórica de raiz que nos impede de fechar e abrir novas etapas porque tudo se carnavaliza e mistura e, no moinho satânico da política, dos privilégios, dos direitos, das cláusulas pétreas, tudo muda para voltar ao que era antes.

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Creio que Freud explicaria por que o ex-governador e hoje penitenciário Sergio Cabral resolveu carnavalizar-se, tachando sua triste nudez moral e sua patológica ambição no uso do político como um instrumento de enriquecimento pessoal e familístico, de vício. Só num país do carnaval, rótulo, aliás, significativo do primeiro livro de um Jorge Amado igualmente olvidado, um condenado por corrupção é um personagem que trocou o uniforme de governador (e de “caxias” – de zelador e seguidor das leis e da moralidade) pela fantasia de um malandro radical.

Aquele que sai do fio da navalha, entre a lei e o crime, e abraça a corrupção. Um malandro que, como ele próprio confessa, hoje se sente aliviado de ter reavaliado essa transmutação cinzenta de crime em vício. Hoje, nessas minhas cinzas de assistir ao Brasil canibalizar-se a si mesmo por meio de todo tipo de má-fé e procrastinação, só posso ousar sugerir a criação, entre nós, com ajuda da grande mídia, dos Ladrões Anônimos.

Nele, na roda dramática de pessoas que perderam o controle sobre suas vidas devido ao abuso de alguma droga que passou a controlá-las, ele poderia começar assim: “Meu nome é Serginho e eu sou um ladrão do erário!”.


quarta-feira, 2 de maio de 2018

Bruxaria


A bruxaria denuncia como o coração humano tem razões que o coração desconhece
  
Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2018  

O dicionário vai dizer de onde vem a palavra bruxo ou bruxa. Mas nenhum vai informar sobre o seu significado profundo.

Quem fez isso foram os antropólogos que, a partir de 1934, com a publicação do livro de E. E. Evans-Pritchard sobre os Azande (um povo do sul do Sudão) revelaram como a “bruxaria” é um idioma destinado a explicar infortúnios e acidentes, exibindo suas causas finais. O “porquê” do desastre foi ocorrer justamente com os nossos filhos e não com os dos nossos vizinhos ou desafetos.

A aceitação do acaso como um fenômeno não intencional é um problema no universo humano obcecado com equilíbrios, retribuições e motivos moralmente ancorados. Afinal, o tamanho do infortúnio deve ter alguma relação com a pessoa afetada. Se existe responsabilidade nas nossas vidas, por que não haveria também nos acidentes?

Se o pai é superior a ele, em contrapartida, tem mais deveres e muito mais culpa como doador de rumos e exemplos do que o filho. É o tal domínio do fato que a teoria dos papéis sociais desvenda em socioantropologia.

Diante do desastre somos levados ao doloroso processo de suspeitar o inocente da inocência; ou procurar o bruxo produtor da feitiçaria que coloca em dúvida a plausibilidade moral do mundo.

Nas sociedades tribais, as relações sociais são múltiplas porque todos são filhos, irmãos, primos, cunhados, tios e sobrinhos do chefe, do curador, do profeta ou do rei. Nelas, a bruxaria estaria ligada a essa multiplicidade de elos sociais que nem sempre funcionam em harmonia e conduzem aos conflitos de interesse que — pasmemos todos! — pela primeira vez, estamos tendo que lidar seriamente no mundo público nacional.

A bruxaria denuncia como o coração humano tem, parafraseando Pascal, razões que o próprio coração desconhece. E que Freud situou na dinâmica entre o coletivo (o superego ou o todo), o individualizado (o ego ou a parte) e o Id (o “isso”, o desejo) que a consciência se vê obrigada a reprimir e esconder. Seja o amor secreto pela irmã, o desejo pela exclusividade amorosa dos pais ou o êxito do cunhado. 

Contradições entre motivos nos levam a buscar o feiticeiro ou o analista (significativamente chamado de “encolhedor de cabeça” nos EUA). Recolhidos ambos em seus consultórios e cobrando pelos segredos íntimos que lhes contamos, eles — como os confessores — têm em comum um relativo abandono do mundo. O poder oracular decorre do se olhar distanciado. Usando cartas (que não mentem), búzios, veneno e galinhas (como fazem os Azande), eles teriam a capacidade “objetiva” de dar intencionalidade ao acaso e ao malefício. 

Os papéis sociais que nos envolvem são (para desengano dos tiranos) sempre limitados. O papel de presidente tem como complemento o de povo; o de rico tem no de pobre o seu chão. O de adulto é complementado pelo de criança, o de vivo tem no morto sua contraparte; e o de professor tem no aluno sua fonte de legitimidade. Note que os papéis de um pai bancando um filho produz doença ou anomia — essa bruxaria tão nossa conhecida. Nestes casos, um papel não existe sem o outro e eles são regidos por ética e não por lei. Aqui, invocação da lei é sinal de crise.

Mas tudo se transforma com a invenção do “estado” e da soberania centrada num território exclusivo. Agora os papéis sociais fundados na reciprocidade da casa e na aldeia, começam a competir com os “cargos” administrativos cujo centro não é mais o “sangue”, mas a coletividade e as ambições políticas. A passagem da casa para a rua — como tenho revelado na minha obra — é complicada. 

A necessidade de atribuir intenções, sem as quais não há moralidade ou sociabilidade, continua, só que ela se complica com o “estado”. Agora o bruxo não é mais o egoísta frustrado e fechado em si mesmo e na sua sovinice, como o Scrooge de Dickens, mas o ocupante de um cargo público obtido por competição livre, cujo alvo é o bem estar nacional. Há uma severa e – como mostra a crise da crise brasileira – uma perversa divisão. De um lado, o bruxo prestes a virar “político” pensa na sua tribo e casa mas; de outro, ele é forçado a honrar novas e amplas lealdades com o seu partido e eleitores. Essas lealdades podem, numa democracia, ser usadas umas contra as outras.

As antigas lealdades de aldeia produziam bruxarias, as novas lealdades políticas nacionais e internacionais produzem contradições. O bruxo vira o político e a bruxaria se transforma num conjunto de opiniões legais paradoxais que só o bom senso (e haja bom senso!) pode resolver. Nesse caso, bruxaria é propina — esse laço entre o tribal e o nacional que fez com que o Brasil fosse vendido e comprado.

PS: Repudio veementemente a violência contra o acampamento dos apoiadores do ex-presidente Lula. Ela assassina o diálogo que nos torna civilizados.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

As leis e o purgatório


Como dizia Sartre, somos condenados ao duro aprendizado da liberdade
    
Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

18 Abril 2018 

Quando aprendi antropologia, era comum começar pelas diferenças entre animais e homens Ambos são seres da natureza como são as sociedades, mas, não obstante, têm características distintas. Os animais são programados. Um tigre não vira uma anta, mas nós, embora brasileiros, podemos ser ingleses ou franceses. Como dizia Sartre, somos condenados ao duro aprendizado da liberdade cujo diálogo é com a divergência, a exclusão, a indecisão e o purgatório.

Somos, assim, infatigáveis buscadores de ancoras e bússolas, de leis e juízes, pois quem nos embala são circunstâncias dadas por situações e costumes. Nossa natureza, como diz Marshall Sahlins, é a cultura. Somos feitos pelo arbitrário de nossas línguas que obrigam a falar e a ouvir de modo particular e a seguir categorias gramaticais de modo inconsciente.

Vivemos em mundos diferenciados que podem ou não excluir outras humanidades ou incluir todos os seres vivos como nossos semelhantes. Graças à linguagem articulada, vivemos numa roupagem espiritual.

Na velha fórmula: nós fazemos a nós mesmos e, em consequência, somos feitos pelo que fazemos – porque não há nada mais irônico do que criar leis e deuses e, ato contínuo, rejeitá-los; ou por eles morrer ou matar.

Marx falava em fetichismo da mercadoria. Os antropólogos falam no animismo que “anima” o mundo, atribuindo intenção a certas coisas. A imagem de barro torna-se milagrosa; a aliança de ouro bloqueia certas relações. As nossas arbitrárias reinvenções e nós mesmos demandam tribunais, árbitros, mediadores, representantes e juízes. 

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Os professores de Direito Constitucional – dizem que a “Constituição” constitui a sociedade. O quadro se complica quando, ao reverso, os antropólogos afirmam que as constituições é que são instituídas pelas sociedades. Por isso, elas reafirmam seus ideais, tabus e privilégios. Ademais, as “constituições” surgiram quando se inventou a escrita. Foi a capacidade de fixar normas em pedra ou em bronze como dizia Rousseau, que permitiu a sua leitura como normas eternas, impessoais, divinas e, nas democracias, imparciais. Sujeitas a divergências e interpretações, mas acima – eis o ponto – de sua destruição. Tornar a lei neutra ou nela criar um espaço intermediário de espera é nelas abrir o espaço do purgatório. Um ligar para onde são enviados cidadãos especiais cujos julgamentos são embargados ou protelados. 

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A lei escrita ou “constituída”, não resolve tudo, mas espelha o “espírito” do povo que a engendrou. A maior prova disso é a índole do nosso regime legal nos seus variados mecanismos destinados a salvar as pessoas especiais do inferno dos cárceres, colocando-as nos purgatórios da ausência de julgamento. Aliás, nossos julgamentos – quando terminam – não seguem a norma do culpado ou inocente, mas concedem infinitas recorrências (ou indulgências) aos pacientes privilegiados. Seguem o modelo purgatorial e eventualmente prescrevem crimes. Sobretudo os chamados delitos de “colarinho branco”, um termo que denuncia a notável diferença para com os “crimes dos que não usam gravata”. Ou seja, o delito dos comuns – esses que não roubam o Estado, mas as galinhas dos vizinhos. 

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Hoje, tudo isso surge com clareza. Quanto mais pobre, mais inferno; quanto mais importante, mais céu ou purgatório. E, com o purgatório, as indulgências nas quais o argumento político é usado contra o jurídico. Isso para não falar dos recursos e embargos que a sociedade já não pode mais tolerar. Penso que o purgatório é o espaço social inconsciente e dominante no fundo da cultura legalista nacional. É ele que sustenta o discurso da inocência, da vitimização e da injustiça. 

Imaginar, pois, que o nosso direito e tudo o que vem com ele não sofreu as influências da cosmologia ibérica – forjada pelo limbo, pela Virgem Maria, Mãe de Deus; pela Santíssima Trindade, pelos milagres e perdões misericordiosos que transformam pecadores em santos e mártires – é uma ingenuidade sociológica. Mas é assim que tem andado a barca e, por isso, Deus – dizíamos – é brasileiro.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

De onde vem o exemplo?


O bicho-homem mata em nome da vida e suplicia em nome de Deus
  
Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

04 Abril 2018 

Quando um jovem antropólogo perguntou a um chefe indígena como ele administrava seu povo, sua resposta foi exemplar. Quando – disse ele – o pátio central da aldeia precisa ser limpo, eu pego o meu facão e inicio a tarefa. Pouco a pouco, os outros chegam e logo todos estão fazendo o que deveria ser feito. Esse mesmo chefe ensinou a esse mesmo rapaz uma antinorma da antipolítica brasileira: um bom chefe não acumula, ele distribui...

O exemplo é o apanágio dos humanos. Esses bichos que não nascem prontos são programados para não ter programa e, por viverem na dúvida, precisam de mandamentos, leis e ideologias quase sempre vindas do céu e dos deuses que variam entre si, dependem de pessoas e, como ensinou Marx, de circunstâncias. O que é amizade aqui, é corrupção por lá; o que é ativismo político acolá, é crime aqui... Por isso, esse “bicho-homem” mata em nome da vida, suplicia em nome de Deus, torna-se criminoso aviltando boas causas. 

No nosso caso, eis a descoberta simultaneamente alarmante e transformadora, os partidos do poder sempre foram donos e “cuidadores” do povo brasileiro. Os eternos “doutores”, tidos com sábios, sabiam o que fazer para levar o Brasil a um nobre futuro. Tanto isso é verdade que hoje conseguimos ter linhagens de boçais que, cruzando entre si, estão suicidando o País, mas sem deixar de fazer – sejam eles de um lado ou do outro – o que sempre tiveram o direito de fazer: roubar a coisa pública em redes de favores.

Eu fico chocado quando ouço pessoas falando do “Brasil” como se elas não fossem também o Brasil e não precisassem de ninguém para fazer o Brasil que desejam. Na nossa alma, somente o “governo” é responsável e capaz de modificar o Brasil. Nesse caso, o exemplo viria dos administradores donos não somente do poder (na formula de Faoro), mas desse coisificado Brasil.

Uma visão vertical do sistema, nos leva a olhar quem está por cima (para pedir ou obedecer) ou por baixo (para favorecer ou cuidar), mas uma perspectiva horizontal hoje obrigatória muda tudo. Agora, o exemplo vem, esperamos, dos “supremos”, mas também do bom senso igualitário: de um olhar agudo para os lados. Sem isso, vamos continuar procurando messias e santos e encontrando caudilhos e boçais. 

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Cito uma um exemplo clássico: 

“Quando Xerxes o grande Rei dos Persas perguntou como aquelas cidades gregas sem rei se levantariam contra ele, Demaratus (rei de Esparta exilado) replicou: Eles têm, sim, um senhor e esse senhor é a lei que eles temem muito mais do que qualquer dos seus súditos. O que esse mestre comanda eles obedecem e esse comando jamais varia – ele jamais retrocede nas guerras em qualquer que sejam as circunstâncias e permanecem em formação para conquistar ou morrer.” (ver On Politics, de Alan Ryan.)

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Estamos muito longe dos gregos e mais ainda dos “índios”, que a boçalidade cultural situa na “idade da pedra”. Como ibéricos, o que vale para uns não vale para os outros. Cada caso é um caso e, embora a lei seja a mesma, o que conta não é o crime, mas quem o praticou. Não é a lei que submete o “paciente”; é – estamos pagando para ver – o “paciente” que a engloba. 

A lei, reiterei no domingo de Páscoa com um desalento esperançoso, depende de quem estamos falando.

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No livro de Suzanne Chantal, A Vida Cotidiana em Portugal ao Tempo do Terramoto (1755), Lisboa: Livros do Brasil, 1962. Ela fala de uma instituição pouco analisada, mas rotineira lá e aqui: o empenho.

“O chefe da família (e da casa) era, mais ou menos, o responsável (...) pelo casamento das raparigas e pelo emprego dos rapazes. Acresce, assim, que muitas vezes tinha que meter empenhos por seus protegidos, e fazia-o sem escrúpulos nem vergonha. ‘Nomeie, pois, este rapaz oficial num dos seus regimentos – dizia tranquilamente um português ao Conde de Lippe, vindo para reorganizar o exército – ele foi meu companheiro durante vinte e cinco anos e isso merece recompensa.’

Custava recusar qualquer coisa a um amigo – que, aliás, era quase sempre um pouco compadre ou parente (...), por isso abundavam funcionários inúteis, legiões de criados, os procuradores parasitas que gravitavam, obsequiosos e sem problemas, à volta de todo homem de bem.

A proteção (...) estendia-se aos mais deserdados, mas também aos menos merecedores. Recomendava-se um incapaz e afiançava-se sem hesitações um malandrim. Desde que fosse primo de uma criada ou bastardo de um primo irrequieto. Uma pessoa influente pede a outra em benefício de uma terceira, geralmente indigna ou nula, e obtém para esta um favor imerecido, ou a sua isenção de um antigo merecido. De fato (...) a influência pessoal era usada a torto e a direito. (...) Um pedido tornava-se um teste. Quanto pior fosse o caso, quanto mais o protegido tivesse ofendido a moral ou a lei, quanto mais obstáculos houvesse a vencer, mais o protetor afirmaria o seu poder.(...)” (pág. 141).

Seria daí que viria o exemplo?

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Espinhos na barriga


É triste ver o Brasil roubado pelos seus mais admirados administradores públicos

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2017 

Luto com espinhos na barriga desde os 9 anos. Ao chupar uma laranja, engoli um caroço. Preocupado, abri-me com minha avó Emerentina:

– Vovó, eu engoli um caroço...

– Quando, meu netinho?

– Agora mesmo...

– Estás perdido. Amanhã ou depois vão nascer espinhos na sua barriga.

Vejam bem. Eu era acusado de ser canhoto, era o mais velho e tinha medo de almas do outro mundo. Agora estava condenado a ter espinhos na barriga. 

*

Mais de meio século depois, vejo que o País também tem um espinheiro na barriga. A irresponsabilidade contaminada de familismo – todo mundo é parente de todo mundo neste país de Deus! – fez com que engolíssemos todos os caroços. 

Come-se fruta, jogam-se fora a casca e o caroço. Nada pode ser completamente abocanhado. Se você recebe, é obrigado a dar. O ideal é o amor cujo egoísmo quanto mais prazer nos traz, tanto melhor para o outro. Não é por acaso que o amor nos leva ao pico do altruísmo pelo mais fechado e ardente egoísmo. A chave está em conjugar altruísmo com egoísmo. 

Engolir caroços promove indigestão. É triste ver o Brasil roubado pelos seus mais altos e mais admirados administradores públicos e particulares.

*

Estarei vivo quando o Brasil estiver “recuperado”?

Vivi tempos em que éramos apenas “subdesenvolvidos”. Naquela era mitológica, havia um atraso admitido: o clima tropical (que impedia o pensamento, como dizia um dos nossos professores), a Serra do Mar (muralha que bloqueia a conquista do sertão), a colonização lusa (se fossem os holandeses...), a mistura fatal das raças, o jeitinho jurídico que, vejam o horror, condena ácidos criminosos a doces prisões domiciliares, o feroz imperialismo ianque, os coronéis latifundiários, os políticos ladrões (mas que faziam...), os sistemas eleitorais indevidos, a saúva, a sensualidade, o samba, a cachaça, o Diabo...

O Brasil, como dizia Otto Lara Resende, não tinha furacão, tufão, terremoto, nevasca e maremoto, mas tinha inflação. Domesticamos a inflação, mas o populismo que produziu a plutocracia quebrou as contas públicas. Hoje, temos um sistema travado e o nosso time político, com o perdão pelo feio qualificativo que lhe cabe, é uma merda. Com a devida vênia aos honestos, todos têm algum laço, traço ou gene espúrio.

Aliás, a nossa elite é uma Grande Família. Os partidos, que deveriam conter os empenhos da casa, ressurgem fortes no estamento (como dizia com avassaladora sapiência Raymundo Faoro). Se você gritar “tio!” ou “padrinho!” no Congresso Nacional, ou em qualquer outro ambiente repleto de “gente grande”, você vai ouvir um amoroso “SIM?...”. Mudamos para a coisa pública, mas os laços de parentesco retornam como um furacão. Reprimimos legalmente o nepotismo puro, mas um ardiloso jeitinho inventou um brasileirismo – o nepotismo cruzado! 

Nada, convenhamos, é mais legítimo na nossa democracia igualitária e meritocrática do que dar uma “mãozinha” a um parente se ele (ou ela) tem aquele talento. Mas – pergunta o menino com espinho na barriga – qual é o parente que, no Brasil, não tem talento? 

*

Mais uma vez, abrimos a rotineira temporada de reformas. Eu vivi as “reformas de base”, que resolveriam tudo. E votei no dilema entre presidencialismo e parlamentarismo. Depois, me envolvi no retorno da monarquia. Agora, testemunho essa requentada temporada de reformas e logo percebo que a reforma mais essencial – a da Previdência, sendo evitada porque leva a uma indesejável análise do nosso sistema administrativo e de outros temas avessos à chamada “vontade política” como o nosso perfil demográfico. 

Não falo da reforma política, exceto para dizer que precisamos mais de uma metamorfose dos políticos do que de uma mudança de regras. Sou, entretanto, a favor de eleições e de deseleições (recall) que nos livrem dos canalhas. Sou contra esse tal fundo eleitoral que alguns imbecis chamam de “democrático”. Partidos políticos são associações de cidadãos e, como um clube, devem ser autofinanciáveis. A doação eleitoral só é um problema porque, entre nós, a doação vira um favor. Temos caridade, não temos a filantropia que leva a um melhor diagnóstico da dinâmica sociopolítica, além de ser um penhor dos muitos ricos à coletividade que lhes permitiu êxito.

Pelo que devo às sociedades tribais do Brasil, sou contra a privatização de reservas indígenas. E favorável à coletivização das riquezas particulares que, literalmente, saem pelo ladrão. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

É impossível distribuir

Como ser altruísta se um egoísmo oportunista permeia a nossa vida social?
       
Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2017  

Quando distribuir se torna uma questão social e deixa de ser um tema sociológico? Quando uma sociedade quebra porque não consegue distribuir com equidade coisa alguma? Ou melhor, por que a sua engenharia distributiva foi sempre farta e feita de favores, privilégios e presentes para particulares, esquecendo suas obrigações para com os bens e serviços universais? Como foi que chegamos a esse escandaloso modelo de distribuição no qual os ricos enriquecem os políticos e estes os ricos, e todos se tornam bilionários capazes de comprar a própria competição e, por pouco, não compram o Brasil? 

Como pensar nos outros se não pensamos no Brasil? Como ser altruísta se um egoísmo malandro e oportunista – golpista, pois chega inesperadamente como essas reformas que reformam reformas – permeia a nossa vida social, privilegiando categorias, pessoas, instituições, cargos, títulos, ideologias, partidos políticos e tudo o mais? Até mesmo Deus tem partido num certo Brasil!

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Hoje, vivemos a explosão dessas bolhas. Um Estado com muitos funcionários, uma população que envelhece e onera um sistema previdenciário desenhado quando uma pessoa de 50 anos era tida como velha, uma roubalheira em nome do povo jamais vista. Junte-se a isso uma camada administrativa, cujas garantias legais nada devem a nenhuma casta e a uma legislação dura no papel, mas dotada de recursos infinitos, os quais condenam criminosos a uma doce prisão domiciliar. Não tenho espaço para falar do “fundo partidário” bilionário, ao lado de uma ciência e cultura sem fundos.

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O jogo simultâneo de distribuição generosa e escassa transformou populismo em plutocracia. Um sistema movido a promessas e magia descobre o absurdo de ser sistematicamente farto com a fartura e sovina com a escassez. É preciso mudar essa perversa equação distributiva.

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Seria possível ter uma coletividade sem alguma forma de distribuição? Lévi-Strauss respondeu dizendo que a própria sociedade nasce quando alguém deixa de casar com sua irmã (ou irmão), sabendo que o seu vizinho faria o mesmo. A distribuição resultante permite ler o incesto (não casar para dentro) como um modo de distribuir (casar fora ou, como o disse Tylor, guerrear). Eis uma troca (ou “imposto”) na qual todos ganham sem segundas intenções, golpe ou malandragem.

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Os estilos de vida de uma sociedade são visíveis sobretudo no seu espaço físico. Nas sociedades indígenas de língua jê que estudei, é muito difícil aplicar a matriz “pobre/rico”, porque tais comunidades são permeadas pela reciprocidade do ‘dar para receber’. Nelas, tudo o que é produzido, é dividido pelo costume e não por leis. No primeiro caso, há o presente; no segundo, o imposto. Em grupos tribais, não existem o castelo kafkiano, o palácio do governo, os bairros de condomínios fechados e guarnecidos com suas mansões amuradas como que a dizer ao visitante: “Você sabe onde está entrando?”. Tais espaços ocupam hoje o lugar das casas-grandes e são a prova de diferenciações sociais jamais questionadas.

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Seria possível sugerir, sem ferir os sábios de plantão, que a empatia, a compaixão, a caridade (o amor) seriam os mecanismos elementares dos quais nasceram os impostos e, com eles, uma distribuição relativamente satisfatória de bens e serviços?

Haveria um mecanismo implícito ou inconsciente destinado a corrigir iniquidades em todos os sistemas? Eu penso que sim. Não há nenhuma sociedade que não pense uma de suas partes, mesmo as mais problemáticas, sem imaginar as suas obrigações para com o todo. Pois é no todo que está a legitimidade. Seria plausível, então, dizer que quando uma sociedade perde a noção de si mesma como uma totalidade que exige impostos morais – os chamados sacrifícios – ela perde o seu coração e a sua alma?

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Nevoeiro ou labirinto?

Uma pertinente reflexão acerca dos foros privilegiados na vida pública nacional.


Nevoeiro ou labirinto?
Todos são iguais, mas os foros privilegiados transformam a igualdade em desigualdade
  
Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2017 

Somos obrigados a falar uma só língua por um motivo óbvio: se cada indivíduo inventasse seu código de comunicação, ressuscitaríamos Babel. Múltiplas línguas e éticas engendram o caos e, no limite, a violência. É - como advertiu FH mais como observador do que como participante - algo gravíssimo. 

Línguas e éticas delineiam limites. Num nível profundo são elas que nos falam. Roland Barthes dizia que “a língua não é nem reacionária nem progressista; ela é pura e simplesmente fascista”. Ninguém se lembra de ter aprendido sua língua materna, mas todos recordam suas lições de francês, italiano ou mandarim.

Sem uma única língua não se pode exercer o sumo da democracia: discordar. E sem reclamação e debate honesto vivemos o nevoeiro que resulta de um imenso labirinto legal. Esse marco do nosso sistema político. 

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Nesse plano há pontos capitais, mas esquecidos. Eu posso ser contrário a um sistema político, mas devo ser honesto nos meus propósitos. Não posso ser um defensor dos pobres, enriquecendo pelo compadrio com capitalistas; não posso ajudar a depor uma rainha sendo um rei suspeito dos mesmos delitos.

Se nos inspirarmos em Shakespeare, concordando que o mundo é um palco, diríamos que o texto dos dramas históricos é a moralidade ou a ética inspiradora do drama. Você só pode ser um personagem se tiver o propósito de sustentar (como mocinho, bufão, traidor ou bandido) a cena, levando-a ao seu arremate. Se, contudo, o seu objetivo era de entrar na peça com a intenção de roubar a qualquer custo todas as cenas e, em seguida, destruir o palco e o teatro, matando o autor da peça, então não há o que discutir. 

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Essa analogia ajuda a enxergar a gravíssima crise que hoje vivemos. O colapso tem como centro um sistema de papéis amparados por uma estrutura burocrática destinada a manter privilégios. Meu lado antropológico sugere que o nosso republicanismo usa e recusa levar avante os seus valores. Saindo de uma monarquia patriarcal e escravocrata, transferimos aos cargos republicanos os conteúdos aristocráticos vigentes na monarquia. A República não foi pactuada, ela foi “proclamada”. Um dado óbvio da crise é nossa dificuldade de unidade, de um acordo mais profundo do que o ganhar ou perder no parlamento. Não chegamos nem a discutir qual seria o mínimo denominador nacional. Seria o mérito? A amizade? O cargo legalmente embasado nas piruetas jurídicas? 

Onde seria ancorada a nossa vida pública? Nas biografias que desmoralizam os cargos; ou nos cargos que desmoralizam seus atores? Nossas práticas sociais destroem qualquer racionalidade. A vantagem de uma língua comum é poder discordar. A de uma moralidade é o controle do jogo político que não pode mais continuar fundado nos oportunismos do vale-tudo. Teoricamente, o interesse político esbarra na lei. Mas e quando ele deseja ser a própria lei?

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Qual seria a unidade de um povo (feito até anteontem de senhores e escravos; e de nobres e comuns) se até hoje alguns podem fazer o que bem entendem, ignorando a igualdade? Todos são iguais, mas os inúmeros foros privilegiados transformam a igualdade em desigualdade.

O sistema legaliza sem legitimar um sistema de cargos obtidos numa competição eleitoral na qual - eis a imoralidade - os vencedores traem abusivamente seus projetos e suas promessas. O resultado é uma nomenclatura investida de desigualdades jurídicas a qual não é mais aceita pela sociedade consciente que é ela quem paga o preço da pirâmide. A racionalidade do mercado inundou a sociedade e não se pode mais disfarçar o quanto se paga pela ética do compadrio, que impede passar a limpo os conflitos motivados pela aliança entre poder e dinheiro. 

E o pior é descobrir que mesmo quando descobrimos que as mais altas autoridades da cidade, do Estado e do País, se transformaram em assaltantes das instituições que deveriam governar, não chegamos ao fundo do poço.

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Impermeáveis aos requisitos racionais do diabolizado capitalismo, cuja ética engendrou e estimulou o direito à diferença, à discórdia, à oposição, à competição e ao mérito, confundimos muitos direitos com legitimidade, muitas polícias com o controle do crime e inúmeros tribunais com acesso igualitário à Justiça. O resultado não antecipado de tantos controles é uma contaminação patológica na qual se salvam todos interesses, menos o do povo brasileiro. 

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PS: Volto a escrever neste espaço em agosto, mas, como a vida não cansa de me lembrar, há sempre o inesperado.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Quem é de esquerda?



Roberto DaMatta

Numa velha investigação que realizei sobre identidade política, encontrei uma divisão nítida entre “esquerda” e “direita”. No início dos anos 1960, um mundo muito maior e menos transparente do que o atual, dava pleno sentido à divisão entre direita e esquerda.
      
Além disso, quem era de esquerda ou de direita via o outro lado como contrário, mas também como imprescindível. Um dos maiores erros dos radicalismos e, no caso do Brasil, da direita representada pelo regime militar foi a tentativa de dar uma “solução final” para a outra margem, esquecendo-se do rio por onde a história não deixa de correr. O mesmo ocorreu com a esquerda desmoralizada pelo lulopetismo.

A destruição do opositor subtrai a legitimidade de quem tem o “poder”. Quem sustenta a governabilidade é o derrotado. Daí a importância da competição eleitoral, que acabamos de vivenciar. O processo eleitoral ajuda a descobrir novas lideranças tanto quanto a descartar projetos de “soluções finais” de quem, alojado no poder, planejou jamais perder uma disputa eleitoral. Enfrentar o nosso papel como eleitores não é fácil, quando não há salvadores da pátria ao lado de um punhado de partidos com bandeiras cansadas ou sem mastro. Naquele tempo havia medo, mas não havia vergonha nem culpa em ser “esquerdista”. Examinando meus dados, vejo que muitos se viam como peça de resistência ou vítima, mas todos tinham orgulho de sua escolha política.

Ser de “esquerda” era ser uma pessoa fiel, honesta e de boa vontade. Era ser alguém que enxergava a “realidade brasileira” (ou o todo) desdenhando os “interesses de classe” que remetiam à parte e exprimiam egoísmo e descaso pelos pobres. Pelos explorados que constituíam o “povo” brasileiro ao qual nós, nos coretos acima da multidão, obviamente não pertencíamos. Éramos pastores do povo e eu confirmei tal atitude numa entrevista na qual um operário dizia: “Os teóricos são o farol que guia a nossa prática”. Tal opinião confirmava a busca utópica de uma igualdade substantiva. A esquerda queria o paraíso neste mundo e perseguia o altruísmo. Ademais ela não havia estado no poder. Esse poder que muda até mesmo a igreja do diabo, como ensinou Machado de Assis.

O poder corrompia, mas nós não entraríamos nisso. Como disse o próprio Lula, décadas depois: em seis meses, o PT acaba com a corrupção. E José Genoino, presidente do partido, já no poder, reiterava: o PT não rouba e não deixa roubar.

O “poder” era um cetro ou palácio. Ele não era contraditório ou personalizado. Reprimíamos o fato de sermos meninos brancos de classe média que viviam em “casas” hierarquizadas e aristocráticas, com um pai-patrão e seus empregados e, talvez por isso mesmo, tínhamos o sonho de uma igualdade ilimitada no plano político. Vencer uma discussão com o pai, cantar que o Brasil era um país subdesenvolvido, era fazer a revolução...

Uma revolução que surgia como um conjunto de “reformas” a serem perpetradas pelo governo e por decreto, tal como ocorreu no comício da Central do Brasil em março de 1964. Ali, João Goulart decretou alguns dos seus pontos cruciais. Dezenove dias depois, veio – aí, sim – o golpe militar que, em menos de 48 horas, pôs a esquerda na marginalidade, explodindo uma margem do rio.

Naquele tempo, havia “reacionários”. Hoje, há conservadores defendendo a “ordem” para situá-la ao lado do “progresso” e um enorme time de fascistas (úteis e inúteis) com suas listas de temas e pessoas a serem banidos e, eventualmente, eliminados. Em 1960, imitando a experiência cubana, falava-se em paredão; hoje – imitando sem saber os velhos nazistas – temos soluções finais para o mercado e para um capitalismo diabolizado.

Em nome dos direitos, evita-se corrigir a desigualdade que começa no desencontro entre uma aristocracia paga pelo Estado e os cidadãos comuns. Os idiotas que trabalham para sustentar um Estado a ser descontaminado de sua imagem de fiador do roubo, da incompetência e de uma burocracia marginal à norma da igualdade. É incabível, com a devida vênia aos meus amigos do Judiciário, que um juiz venal seja condenado à aposentadoria em sua residência com salário integral!

Essa foi uma eleição histórica. Nela, a esquerda abalada e derrotada pelo lulopetismo que a marginalizou. A crise fez com que ser esquerdista virasse sinônimo de demagogia burra, irresponsável e arrogante. Ou, para resumir numa palavra: a tudo o que era de “direita”.
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PS: Se Marta Suplicy não é de esquerda, tudo é possível.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O velho e a política


“É uma estupidez não ter esperança, pensou. Além disso, acho que é um pecado perder a esperança.”
  
Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

31 Agosto 2016  



Ernest Hemingway, no seu consagrado livro O Velho e o Mar, ouve o velho Santiago – um pescador pobre e azarado, mas íntegro e inteiramente orgulhoso do seu papel de caçador de peixes – refletir sobre a virtude apaziguadora chamada esperança. 

Ao leitor que não passou pelo livro, lembro que Santiago estava “saloio” ou azarado. Na Amazônia brasileira, dir-se-ia “empanemado”, porque abusou de pescar em demasia algum peixe ou porque exagerou na caça de algum animal, tirando do meio ambiente, do qual o predador faz parte, mais do que seria suficiente para a sua sobrevivência. Nos anos 60 (imagine!), publiquei um estudo desse princípio revelador de que, para além da oposição entre sociedade e natureza, há inúmeras e claras interdependências.

Azarado há dezenas de dias, Santiago sai em seu barco de uma só e solitária vela e, por obra do que chamamos de acaso, pesca um colossal espadarte ou marlim. Uma peixe imenso, forte, poderoso e belo na sua integridade animal com a qual ele dialoga.

Realmente, a todo momento, o velho Santiago questiona a si mesmo se ele realmente mereceria esse presente tão imenso quanto a mudança de sua sorte. 

Hemingway perpetuou no velho e o mar a sua mais pungente parábola. Um crítico abalizado poderia dizer que tudo o que escreveu foi mitologia, mas eu não preciso ir tão fundo ou insinuar um peixe tão grande. Como um velho ainda mais velho que o velho Santiago, o que seria para mim, que não me entendo como azarado (mas teria muitos motivos para fazê-lo), encontrar nos oceanos deste mundo um extraordinário marlim? Seria como ganhar sozinho uma loteria e aparentemente desfrutar de uma forma de liberdade que até hoje não me foi facultada? Que sonhos pode um velho sonhar? Aliás, será que os velhos sonham com grandes espadartes ou somente – como o velho Santiago – com os leões que ele, um dia, admirou nas areias de uma praia africana?

O que sucede com um velho que pega um enorme peixe, o qual apascenta o seu respeitável sentimento de finitude? No caso do velho Santiago, há um enorme regalo inesperado; há a luta para dominá-lo e – em seguida – o inevitável: a presença dos tubarões, que começam a devorar a suculenta e nobre carne do peixe pescado...

Ganha-se sozinho uma fortuna. Mas eis que é preciso dividi-la. No momento da distinção, surgem os predadores e eles chegam de todos os lados, pois são da casa e da rua, do porão e do sótão, do jardim e do quintal. Cada qual abre um sulco na carne do peixe pescado e come furiosamente o seu pedaço. O velho Santiago, como todo velho que por sorte pegou um peixão, luta para defender o símbolo de sua ressurreição. Nessa luta contra o roubo do seu trabalho, ele fere as mãos, usa uma faca sem fio e sente o imenso cansaço dos velhos. Mas Santiago não desiste nem mesmo quando vê o sonho desabar e verifica que não há vida sem tubarões ladravazes, safados e façanhudos – de dentes afiados e, acima de tudo, famintos ao seu redor.

Inveja, ressentimento, feiura, doença, má-fé, burrice, incompetência, hipocrisia, tristeza, preguiça, agressividade, ódio, medo, ignorância, radicalismo, desonestidade – essas doenças todas são (e estão) nos tubarões, mas também não podem ser ignoradas no pescador nem no marlim. A vida tem suas cotas de maldade e bondade, de amor e ódio, de intenção e de acaso.

Quem sabe os velhos não mereçam suas velhices viris, alegres, repletas de saudade e prazer? Quem sabe a fábula do velho Hemingway não é sobre essa capacidade de lutar contra predadores com virilidade? Ou sobre a transitoriedade das riquezas sendo devoradas pelos vermes, como dizia o velho Machado de Assis?

Reli Hemingway, obrigando-me a assistir ao capítulos finais desse bizarro impeachment de Dilma Rousseff. A pescaria do marlim, com sua cota de heroísmo e esperança, dão-me alento nesses tempos sombrios, que eu jamais esperava viver na minha velhice. 

Seria um despautério tentar forçar um drama no outro. Afora a minha identificação com a velhice do velho Santiago, eu, no drama do impeachment, apenas vi tubarões e ‘tubaroas’. Uma delas legitimando moralmente o seu clube. Vi igualmente tubarões esbravejantes, mas todos mordendo. Um tubarão graúdo perdeu o rumo e sugeriu maluquice. A ideologia, eis o que aprendo, substitui o instinto. De minha parte, eu faço como o velho Santiago: não perco a esperança.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Depende...

Caros amigos, conforme já lhes falei, por diversas vezes, o livro "A cabeça do Brasileiro" nada mais é do que uma revisão científico-metodológica de um resultado levantado, "in loc" por pesquisadores da UNCAMP e UFF no projeto governamental P.E.S.B (Pesquisa Econômico-Social Brasileira). Nela, dentre vários resultados surpreendentes colhidos dos respondentes espalhados por diversas cidades no território brasileiro, há uma verdadeira dificuldade para o cidadão brasileiro, em ser pragmático e ABSOLUTO acerca da ÉTICA. Eles, os respondentes, relativizam. Demonstra a pesquisa não terem qualquer noção de definir o que é favor, de "presentinho" ou..

Bem, o autor do livro é discípulo de nosso principal, e mundialmente reconhecido, antropólogo Roberto DaMatta que escreve este ótimo artigo que segue onde o "Depende..." denota nossa inexorável capacidade de "relativizar" a ética.

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Depende... 
ROBERTO DAMATTA
O GLOBO - 25/02

Quando uma escola de samba tradicional é financiada por uma ditadura estrangeira, chegamos ao fundo do poço


“O Brasil está na idade da tramela!”, dizia um grande intelectual. Tendo estudado nos Estados Unidos e lá, como dizia Monteiro Lobato, fora lapidado, pois jamais rejeitara o seu lado brasileiro (o qual foi, ironicamente, intensificado na convivência por contraste com o que, àquela época, chamava-se de “países adiantados”), ele era capaz de enxergar o que todo mundo simplesmente via como as nossas arqueológicas tramelas.

Quem saiu do Brasil para as “Europa” ou “América” até os anos 60 (como foi o meu caso), ficou espantado com a ausência das “tramelas” e das gigantescas chaves de ferro; esses instrumentos dos superiores que permitiam abrir ou fechar portas, cadeias, porões, dispensas e gavetas. Esses compartimentos que até hoje são vedados a quem continua a ser tratado como “povo”, pois jamais foi lapidado ou visto como cidadão.

Quando visitei os Estados Unidos pela primeira vez, recebi a chave não só do meu modesto escritório mas — eis o susto — a do prédio do famoso Departamento de Relações Sociais de Harvard!

No Brasil, receber essas máquinas “depende”.

O ministro tem a chave de todos os prédios e somente ele abre a sua porta. Nas democracias, todos têm precisamente a chave da porta dos que governam, já que presidentes, ministros, governadores, senadores e deputados servem ao povo. É, pois, do povo a propriedade das chaves!

Não há, nenhum “depende...” a condicionar a transparência. Não existe o famoso, lamentável e onipresente “eu não sabia” ou a divisão permanente entre “público interno e externo”, rotineiros na ditadura militar e no lulopetismo.

O roubo público, o assalto irresponsável em escala bíblica e pornográfica aos bens coletivos e à Petrobras — símbolo de independência econômica que suicidou quem teve honra e foi incestuosamente agredida por quem não sabe o significado dessa palavra — continuam sujeito ao “depende...”

Depende de quem. Se foi do tempo deles vale, se foi nessa nossa década de poder, não vale. Na Alemanha nazista, todos os males eram atribuídos aos judeus vistos como agentes de impureza diante da superioridade indiscutível da raça germânica. Os judeus eram o veneno ao lado dos homossexuais, dos ciganos e dos deficientes. Eles conspurcavam a “raça superior” — emblemática de uma integração perfeita porque seria biológica, entre o indivíduo e a coletividade. Esse problema de todas as nossas antropologias e sociologias que, em geral, leem o individuo como algo separado do grupo quando de, fato, seja nas suas formas mais ativas (como na América sem tramelas) ou brandas, como no Brasil relacional das trancas e frestas, o individuo é a expressão de uma cosmologia ou ideologia. A redução individualista é dominante na vida moderna que, conforme sabem alguns, não é, como o jazz, tão moderna assim.

Sem o “depende” não se entende a hipocrisia política dominante. Ela é a chave que abre ou fecha os baús de escândalos que, de tão rotineiros, chegaram ao carnaval, uma celebração aberta a tudo, mas hoje manchada pelo financiamento questionável.

Todos nós admitíamos cinicamente o financiamento carnavalesco de estabelecidos “contraventores”. Notem que não usamos a palavra “bandido” para os que se legitimavam como mecenas das escolas de samba. Por meio do carnaval e do até hoje não legalizado jogo do bicho, eles eram nossos “heróis-bandidos” ou simplesmente malandros, dentro da ética de ambiguidade que proíbe ou torna reacionário dizer isso “não pode!” ou, o muito mais sério, “isso eu não faço!” Mas quando uma escola de samba tradicional é financiada por uma ditadura estrangeira, chegamos ao fundo do poço porque o “depende” tem desculpa: afinal é (ou era) carnaval.

Ao se despedir, o professor Richard Moneygrand riu de sua profecia segundo a qual o fim do carnaval, conforme revelei na semana passada, assinalava o fim da ordem brasileira. Mas até mesmo a ordem, para vocês, disse ele, depende...

O “depende”, em paralelo ao “desculpável”, é parte do nosso Direito fundado no purgatório. Se os extremos e os limites são evitados, como não aceder a filosófica admoestação de batedor de carteira da presidenta Dilma, quando afirma que se a Petrobras tivesse sido investigada no governo Fernando Henrique Cardoso, toda essa roubalheira teria sido evitada?

E por que não nesses 12 anos de PT? Mas isso seria o questionamento do cronista reacionário que publica mas não é ouvido porque a preferência “depende” de quem fala e não do que é dito.
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Desastres e cavalos de batalha

ROBERTO DAMATTA
O GLOBO


Por que, então, eu devo obedecer se quem é importante não obedece; e a regra geral não é a transparência, mas é ter dois pesos e duas medidas?


A semana passada foi marcada por três eventos especiais.

O primeiro e o que mais nos consternou foi o desastre na Linha Amarela, no Rio de Janeiro, onde um caminhão com a carroceria levantada e trafegando em horário não permitido destruiu uma passarela, causando cinco mortes.

O segundo foi o cavalo de batalha criado pela escala semissecreta da presidente da República em Lisboa, Portugal, depois de sua estada em Davos, Suíça; antes de sua momentosa visita a Cuba.

E o terceiro, o de maiores implicações no campo das rotinas financeiras e políticas, foi o anúncio da promulgação da lei que vai punir as ilegalidades cometidas por empresas, tomando-as como pessoas jurídicas. Punindo a empresa como um todo, o que na prática significa a impossibilidade de se assistir à costumeira culpabilização dos funcionários miúdos como bodes expiatórios. Ademais, a lei explicita vultosas penalidades monetárias, além das criminais, à empresa. Torço que ela pegue, pois, se assim ocorrer, ela vai ser um instrumento importante para controlar a corrupção.

A ligar esses eventos eu vejo atitudes rotineiras — aquelas coisas que fazemos sem pensar.

Comecemos com o caso da passarela.

A fiscalização obviamente aumentou. Mas será que mais fiscalização resolve? O problema do espaço público no Brasil é saber se precisamos de mais leis ou de mais educação relativamente a essas leis. Em outras palavras, ao lado de uma de fiscalização eficiente, é preciso que as leis sejam colocadas dentro de cada um dos cidadãos — tanto dos usuários quanto das autoridades e administradores. É esse tipo de educação igualitária que nos falta. Ela tem a ver com o debate entre o modo pelo qual uma nova lei vai conviver com velhos hábitos. Fiscais e policiais são, é claro, fundamentais, mas é preciso ir além deles. Sem tal movimento é quase certo que a lei “não pega” — ou seja: ela vai ser fatalmente canibalizada e neutralizada pelos velhos hábitos.

Para não ser multado, o sujeito faz um desvio e acaba causando um acidente. A “bandalha” revela uma propensão ao risco típica, como revelo no meu livro “Fé em Deus e pé na tábua”, do modo de dirigir e de usar o espaço público no Brasil. O eufemismo minimiza o delito ao mesmo tempo que desculpa usuários faltosos e autoridades lenientes e irresponsáveis. Todo tipo de motivação pessoal suspende o bom senso e as normas que dele derivam, mas que o motorista e o pedestre ignoram ou não internalizam. Todo mundo tem consciência de que as “autoridades” usam o “você sabe com quem está falando” e são autoridades precisamente porque ficam acima da lei e do bom senso. Por que, então, eu devo obedecer se quem é importante não obedece; e a regra geral não é a transparência, mas é ter dois pesos e duas medidas? Uma para os nós e outra para os outros?

Eu estava num elevador lotado. Na parada no 7º andar, cinco ou seis pessoas vão entrando indiferentes a quem estava no veiculo. Com um sorriso despreocupado um deles diz: “Entra, sempre cabe mais um...” Fomos diretos para o fosso. Uma senhora gritou muito e eu entrei em pânico.

Vou abastecer e o frentista fuma tranquilamente segurando a bomba de gasolina. Apavorado, eu menciono o fato e mostro a placa onde lemos: “Proibido fumar”. “Não tem nada não”, diz o frentista, me olhando como se olha para o policial ou o fiscal. “Eu estou acostumado”.

Tentei dar uma aula de segurança. Se persistisse, acabaria brigando.

Vou ao banco e nos caixas eletrônicos destinados aos idosos, deficientes e grávidas encontro uma jovem pagando um maço de contas. Cruzo os braços e, p. da vida, espero. Mas não digo nada porque reclamar é feio e eu não quero criar caso. Foi assim que me ensinaram e ensinaram aos que me ensinaram e ensinaram aos que ensinaram aos que me ensinaram.

Troquei um automóvel por outro na mesma agência e com o mesmo vendedor. Ele, porém, não fez a transferência da propriedade do veículo para a empresa. Comecei a receber multas, pois o carro continuava sendo meu. Reclamei várias vezes. Afinal processei a agência e fui ao tribunal. Lá, o acusado não era a empresa, mas o vendedor, que havia sido despedido. O magistrado mandou que me pagassem R$ 1.200. Eu me senti injustiçado. Espero que isso mude com a nova lei.

Vamos seguir para Lisboa. Lá abastecemos e, em seguida, voamos para Cuba. Alguém assim decidiu, diz o meu lado ignorante das regras de segurança nacional.

Quando a presidente diz que ela própria paga seus jantares e não usa cartão corporativo, um outro lado meu pergunta: não seria o caso de suprimir esses cartões em nome desta ética de austeridade?

Como cidadão eu não me importo que os governantes do meu país tenham apoio “oficial” quando desempenham seus papéis públicos. O que me deixa incomodado é descobrir que a Presidência da República não atina com as implicações do seu papel. Vai que o avião — valha-nos Deus! — cai! Num mundo monitorado, o segredo, como o perigo calculado ou a propensão ao risco, é inútil e perigoso. Lembra aquela piada de uma certa polícia secreta que era sempre descoberta porque vestia farda.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Achados e perdidos

ROBERTO DAMATTA
O Estado de S.Paulo


Às vezes, eu sinto a angústia de um menino perdido numa multidão. Vivemos hoje no Brasil um período inusitado de estabilidade política permeada pelas superimposições promovidas pelo casamento entre hierarquias aristocráticas - que em todas as sociedades (e sobretudo na escravidão, como percebeu o seu teórico mais sensível, Joaquim Nabuco) têm como base a amizade e a simpatia pessoal; e o individualismo moderno relativamente igualitário que demanda burocracia e, com ela, uma impecável, abrangente e inatingível impessoalidade.

O hibridismo resultante pode ser negativo ou positivo. Pelo que capturo, o hibridismo - ou o mulatismo ético - é sempre mal visto porque ele não cabe no modo ocidental de pensar. Provam isso as Cruzadas, a Inquisição, o Puritanismo, as Guerras Mundiais, o Holocausto e a exagerada ênfase na purificação e na eugenia - na coerência absoluta entre gente, terra, língua e costumes, típicas do eurocentrismo. A mistura corre do lado errado e tende a derrapar como um carro dirigido por jovens bêbados quando saem da balada; ou da esquerda carismática-populista, burocrática e patrimonialista no poder.

Desconfio que continuamos divididos entre tipos de dominação weberiana e suas instituições. Fazer a lei e, sobretudo, preparar a sociedade para a lei, ou simplesmente prender? Chamar a polícia (que é, salvo as honrosas exceções, intensamente ligada aos bandidos e chefes do crime paradoxalmente presos) ou resolver pela "política"? Mas como fazê-lo se os "políticos" (com as exceções de praxe) estão interessados no desequilíbrio porque a estabilidade impede e dificulta a chegada ao "poder"? Poder que significa, além da sacralização pessoal, um imoral enriquecimento pelo povo e com o povo. Ademais, somente uma minoria acredita na política representada por instituições igualitárias e niveladoras.

Para ser mais preciso ou confuso, amamos a dominação racional-legal estilo germano-romana, mas não deixamos de lado nosso apreço infinito pela dominação carismática em todas as esferas sociais, inclusive na "cultura", como revela esse disparate de censurar biografias. Temos irrestrita admiração por todos os que usaram e abusaram da liberdade individualista nesse nosso mundinho relacional quando os perdoamos e não os criticamos, o que conduz a uma confusão trágica entre o uso da liberdade e o seu abuso irresponsável. Esses mimados pela vida e exaltados pelos amigos - os nossos maluquinhos - legitimam a ambiguidade que se consolida pelo pessoalismo do herói a ser lido pelo lado do direito ou do avesso. Esse avesso que, no Brasil, é confundido com a causa dos oprimidos num esquerdismo que tem tudo a ver com uma "ética da caridade" do catolicismo balizador e historicamente oficial. Com isso, ficamos sempre - como dizia aquele general-ditador - a um passo do abismo. Andar para trás é condescendência, para a frente, suicídio.

Como gostamos de brincar com fogo, estamos sempre a um passo da legitimação da violência justificada como a voz dos oprimidos que ainda não aprenderam a se manifestar corretamente. E como fazê-lo se jamais tivemos um ensino efetivamente igualitário ou instrumental para o igualitarismo numa sociedade cunhada pelo escravismo e por uma ética de condescendência pelos amigos e conhecidos?

Pressinto uma enorme violência no nosso sistema de vida. Temo que ela venha a ocupar um território ainda mais denso e seja usada para legitimar outras violências tanto ou mais brutais do que o "quebra-quebra" hoje redefinido como "manifestações". Protestos que começam como demandas legitimas e, infiltrados, tornam-se "quebra-quebras". Qual é o lado a ser tomado se ambos são legítimos e, como é óbvio, dizem alguma coisa como tudo o que é humano?

Estou, pois, um tanto perdido e um tanto achado nessa encruzilhada entre demandas legais e prestígios pessoais. Entre patrimonialismo carismático e burocracia, os quais sustentam o "Você sabe com quem está falando?" - esse padrinho do "comigo é diferente", "cada caso é um caso", "ele é meu amigo", "você está errado mas eu continuo te amando"... E por aí vai numa sequência que o leitor pode inferir, deferir ou embargar.

Embargar, aliás, é o verbo e a figura jurídica do momento em que vivemos e dos sistemas que se constroem pela lei, mas confundindo a regra com o curso torto, podre e vaidoso da humanidade, tem as suas cláusulas de desconstrução. Com isso, condenamos com a mão direita e embargamos com a esquerda; ou criamos os heróis com a esquerda e os embargamos com a direita. Construímos pela metade. O ponto que já foi ressaltado por mim algumas vezes é o simples: se conseguirmos assumir e controlar abertamente a ambiguidade, há a esperança de controlá-la. E isso pode ser uma enorme vantagem num planeta cujo futuro é um inevitável "abrasileiramento".

Assim, entre o ser obrigado a calvinisticamente condenar, como fazem os nossos brothers americanos que todo dia atiram nos próprios pés, podemos assumir em definitivo que todos têm razão. Afinal de contas, o Brasil é um vasto programa de auditório com pitadas de missa solene e jogo de futebol.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O velho Brasil da rua e da casa


Roberto DaMatta
O Globo



O olhar é tudo. De um viés oficial balizado pelo eurocentrismo e pela experiência americana clássica, o Brasil oficial é uma balela. Aqui não havia nada: nem lei nem rei. Os mandamentos e as ordenações elaborados pelos letrados (que Sérgio Buarque de Holanda chama, no seu clássico "Raízes do Brasil", de "eruditos"), seriam "em verdade criações engenhosas do espirito, destacadas do mundo e contrárias a ele". Haveria um autoritarismo da lei como compensação para a anarquia social reinante. Numa sociedade tida como desordenada, a lei e o estado ordenariam a confusão.

Eis um despojado resumo de um conjunto de observações pioneiras sobre as relações entre estado e sociedade no Brasil. De um lado, um acervo de leis abstratas porque universais, difíceis de serem cumpridas; do outro, a cumplicidade de instituições e costumes anárquicos tornam a lei um obstáculo e um testemunho contundente de que as coisas não funcionam.

Mas se olharmos esse mesmo Brasil como um sistema de de instituições e costumes - como um sistema cultural, o que vemos é um todo ordenado verticalmente, no qual a busca não é para quem está ao nosso lado, mas para quem está em cima ou em baixo. Dai o discernimento de Tom Jobim - um músico - o que, nessas coisas, tem um peso considerável, quando ele afirma como o sucesso - essa categoria social dos países competitivos e meritocráticos que ordenam horizontalmente o mundo - é uma ofensa pessoal no Brasil. Vale grifar o pessoal porque o problema foi e ainda é quem faz ou é acusado de fazer, e não o que foi feito. O jogo é complexo: quanto mais leis, mais os elos pessoais (hoje poderíamos falar em laços partidários) se reforçam e as neutralizam, como eu disse em 1979 no livro "Carnavais, malandros e heróis". Um ensaio que pela primeira vez se afirma, usando Tocqueville, como o Brasil era muito mais aristocrático do que supunha o nosso vão republicanismo.

Gilberto Freyre, um outro intérprete modelar, não fala em leis nem no estado. Para ele, pelo menos no seu livro mais popular, "Casa Grande & Senzala", o Brasil aparece apenas como um "sistema social total", como dizia Marcel Mauss. O que movimenta a sociedade brasileira é o patriarcalismo escravocrata. São os valores familísticos que permeiam o Brasil.

Trata-se de outra perspectiva. Se olhamos a máquina administrativa, a sociedade seria anárquica; mas, se o ponto de vista é o da casa grande e da senzala com seus antagonismos em permanente equilíbrio, não atinamos com o fato de que a escravidão tem um preço e que existe toda uma legislação que não apenas legitima a presença do escravo como um morto-vivo no sistema, mas as regras a serem seguidas no parentesco, no compadrio e na amizade.

Se você, leitor, está achando tudo isso muito abstrato, leia com calma os diálogos amorosos e paternais entre Carlos Cachoeira e Demóstenes, e entre eles e os seus prepostos, e desses subordinados entre si. Sérgio tem razão na hipótese da lei contra o costume; mas Freyre também tem razão ao enfatizar o patriarcado escravocrata contra o mundo da "rua" com suas leis ou posturas que deveriam valer para todos, exceto para os fidalgos, para os altos funcionários do governo e para os "homens bons". Nesse Brasil, ninguém queria ser um "peão". Um mero plebeu ou "cidadão". Sim, porque esse último escândalo - cujo centro é o laço íntimo (e, sem dúvida, amoroso) entre empresários, um contraventor, nobres governantes e ilustres fidalgos, administradores do executivo, do legislativo e do judiciário - é legal e legítimo em muitas dimensões, mas obviamente está fora da ordem igualitária. Ele revela como persiste no Brasil a figura do "cidadão de bem" (réplica moderna do "homem bom") por contraste cultural com "cidadão comum". Esse merda que somos todos nós.

Como cidadão você paga sendo sujeito da lei, como amigo dos "caras", porém, anulam-se em nome da lei (mas não da eficiência ou do mérito) as regras que governam o Brasil como estado nacional. O caso Cachoeira e quejandos revela como o Brasil dos palácios (ou casas grandes) tem regras e éticas. Só que elas não são discutidas em função dos requisitos de uma governabilidade num universo globalizado e digital onde a transparência é uma dimensão (queiramos ou não) crítica do poder e do gerenciamento público em geral.

O que os jornais estampam não é algo fora do comum. Todos temos uma lealdade absoluta (e comovente) com nossos amigos, parentes, compadres e subordinados (que, de modo regular, pagam o pato como os nossos Delúbios e aloprados). Agora, o que os jornais não falam é a força destes elos que são mais potentes do que os decretos e normas que gerenciam os serviços e o bem comum - aquilo que é definido como sendo de todos mas que, eis o óbvio ululante que ninguém vê, é governado por pessoas que, por serem pessoas, são precisamente os nossos afins, pais, irmãos e companheiros. Nossos camaradas e amigos de fé. Esses homens bons, todos maravilhosos em pessoa e todos complicados quando se trata de distinguir o legal do ético no uso da coisa pública.
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