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sábado, 25 de setembro de 2010

O juiz da imprensa

Sandro Vaia - Blog Noblat
Lula sabe melhor do que ninguém o quanto de sua mística ele deve à imprensa.Um dos primeiros grandes perfis do herói, talvez um dos mais importantes, sobre o operário pragmático que dirigia um movimento sindical sem se atrelar aos interesses do Partido Comunista (coisa rara na época) foi escrito por Ruy Mesquita-insuspeito de progressismo- na revista “Senhor Vogue” , um ícone da imprensa cult no final dos anos 70.
Aquele líder proletário autêntico sem contaminação ideológica,que começava a crescer no imaginário popular, deu, na entrevista a Ruy Mesquita,uma resposta premonitória sobre a importância que a imprensa teve para sua projeção:
-A imprensa é uma ajuda muito grande que eu tive,mas se ela deixar de existir hoje, nós vamos continuar fazendo a mesma coisa.Eu nunca fiz a coisa em função da imprensa.
Essa frase pode resumir,de certa forma,a percepção utilitária que o ex-líder metalúrgico e hoje presidente da República tem a respeito da função da imprensa numa sociedade aberta e democrática.
Nesta última semana, o presidente usou seu método morde-e-assopra e do alto dos palanques nos quais passou uma boa parte desse final de mandato, depois de fazer a ressalva de que “a liberdade de imprensa é intocável”, vociferou contra ela as suas mais rudes críticas, e liberou a senha para que as suas falanges saíssem a fazer manifestações contra o “golpismo midiático”.
O motivo da fúria presidencial: as reportagens de jornais e revistas denunciando quebras de sigilo fiscal de adversários ou tráfico de influência nos corredores palacianos,que poderiam prejudicar a trajetória de sua candidata rumo à consagradora vitória eleitoral no primeiro turno.
O que é que leva grupos de militantes movidos por preconceitos ideológicos ou pela convivência promíscua com a generosa distribuição de verbas públicas a considerar a denúncia da existência, nos corredores palacianos, de negociatas, propinas e tráficos de influência como “golpismo midiático”, é um desses mistérios que estão acima da compreensão racional e devem ser creditados ao estado de excitação histérica provocado pelas emoções da campanha eleitoral.
Tanto os fatos são fatos que o governo os confirmou com a demissão dos envolvidos.Não é lícito acreditar o governo tenha demitido inocentes apenas por interesseiro cálculo eleitoral.A imprensa independente e profissional não fez mais do que cumprir a sua obrigação.É a mesma imprensa fazendo as mesmas coisas que os atuais críticos aplaudiam, quando as denúncias eram sobre a compra de votos para a reeleição de FHC, a Pasta Rosa,o Sivam, os grampos das conversas dos articuladores da privatização da Telebrás,as denúncias de Pedro Collor contra a corrupção do governo do irmão Fernando, a compra do Fiat Elba com o dinheiro de PC Farias- etc,etc,etc.A imprensa de então,embora fosse a mesma e fizesse as mesmas coisa,não era golpista- era altiva,isenta, equilibrada e independente.
A imprensa só deve ser livre,no entendimento do presidente,quando informa “corretamente”. E só deve ser livre para ser correta, dentro do seu raciocínio, quando quem decide o que é correto ou não é ele mesmo.
Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez.. E.mail: svaia@uol.com.br

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Próximos do fim

Cláudio Lembo - De São Paulo.
Há muitas formas de acompanhar os embates eleitorais. O pleito de três de outubro está próximo. Faltam dez dias. Já é possível antever as novas situações originárias dos resultados das urnas.
A campanha se desenrolou medíocre. Os candidatos não foram suficientemente capazes de expor o que irão fazer. Todos querem continuar as políticas públicas em curso.
Sobre a capa de uma visão socialista do mundo, o mais acentuado dos conservadorismos se expõe sem qualquer constrangimento. Todos os partidos - salvo agremiações minúsculas - pugnam por deixar tudo como está.
Ainda assim, pequenos segmentos da classe média urbana mostram-se perplexos. Temem o futuro e clamam pela segurança de seus filhos. Isto porque as classes médias sempre sofrem com o sentimento de perda.
Não haverá perdas. No dia 4 de outubro, os resultados eleitorais serão comemorados e a adesão aos vitoriosos será incondicional. Isto faz parte dos costumes políticos nacionais.
Machado de Assis, com seu ceticismo agudo, retrata no conhecido episódio da placa da confeitaria do Rio de Janeiro esta condicionante da vida política brasileira.
O confeiteiro colocava na fachada de seu estabelecimento um comercial: Confeitaria do Império. Um popular, vindo do campo de Santana, informa: o Império caiu.
De pronto, o confeiteiro, registrando a praticidade geral, determina: Troca a placa. Coloque Confeitaria da República. E tudo continuou com antes entre proprietário e clientes.
Agora, ao que tudo indica, após o pleito, nem sequer as placas precisam ser mudadas. Continuará no Poder o partido de plantão. Mudará a figura do vértice da hierarquia governamental. Nada mais.
A melhor demonstração da normalidade reinante são as reuniões da alta sociedade. Os jornais impressos da última semana, em suas colunas sociais, registram jantares em homenagem a candidatos de "esquerda".
Nada mais indicativo do momento político que se vive. As imagens dizem tudo. Senhoras, vestidas com os melhores modelos parisienses e suportando suas impressionantes joias, saúdam a nova ordem socialista.
Alguns socialistas, por sua vez, circulam entre taças de champanha e sorriem como se estivessem conquistando o Palácio de São Petersburgo em 1917.
As imagens, divulgadas pelos colunistas sociais, apontam para alegria de uma eventual futura vitória, mas também podem registrar os últimos acordes do Baile da Ilha Fiscal.
O fim da festa, nesta oportunidade, está longe. Os atuais acontecimentos políticos terão reflexos tranqüilos nos próximos anos. Tudo continuará cor de rosa. Rosas vermelhas já se encontram superadas. Coisas do passado.
O risco é a médio prazo. Os partidos de oposição deixarão o pleito em frangalhos. Foram dizimados. Nada restou. Não tiveram hombridade para defender programas liberais ou sociais democráticos.
Esconderam seus líderes e personalidades marcantes como se estes estivessem maculados com os piores pecados ou fossem dignos de escárnio. Cuspiram no prato que comeram.
A grande tarefa de alguns, a partir de outubro, será reorganizar um partido de oposição com respeitabilidade e coragem de defender seus posicionamentos.
Ser oposição apenas em campanhas eleitorais e se refugiar nos palácios nos recessos entre pleitos, é ato covarde e indigno. Falseia a verdade e engana a opinião pública.
Uma sociedade democrática com a presença de um partido único é inaceitável. Aponta para a pior das ditaduras. Camuflada. Não assumida. É o que devem evitar as pessoas de razoável bom senso.
Os brasileiros sabem se movimentar com eficiência em momentos complexos. Foi sempre assim. Não será diferente após os resultados eleitorais deste ano.
Errou-se muito nestes últimos oito anos - particularmente os partidos de oposição (se existiram?). Foram acomodados. Sem vibração e propostas. Um bando de ingênuos (ou espertalhões) conduzidos pelo Palácio do Planalto.
As sociedades sempre aprendem a suportar uma maior carga de verdade, dizia Nietzsche. É o que se está testando.

Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.
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