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sábado, 9 de abril de 2011

Columbine tropical

Nos países europeus, EUA e América Central o terrorismo é estudado com profundidade. Muitas pesquisas, dissertações e teses são financiadas até por empresas privadas. Ressalte-se, de passagem, que a função das universidades é a pesquisa para soluções de problemas e desafios para a sociedade e não temas filosóficos, pedagógicos, de arte ou de relacionamentos humanos nas organizações, a título de exemplo, que pululam as estantes do CAPES em BSB e bibliotecas das universidades.

O tema do terrorismo já existe no Brasil de forma discreta porém com intensidade maior na tríplice fronteira, ficando nossas grandes cidades preservadas, até, em função de nossa idiossincrasia. Nossa sorte é que até um traficante mais perigoso se revolta como algo que ocorreu em Realengo, trazendo como lembrança os bandidos que atearam fogo com pessoas dentro nos ônibus e os quadro que dissoveram, arrastando-o nas ruas, a criança de quatro anos. A polícia chegou fácil a todos por intermédio de orientação de pessoas ligadas ao tráfico. A laceração,  morrer pelo fogo e despedaçado é comum historicamente nas sociedades que tiveram influência otomana, aqui não acontecerá, por sorte nossa e por causa de nossa natureza mais relacional.

Quanto ao evento de Realengo creio que haverá vários "especialistas" atirando com classe e cirscunspecção, no escuro, com temas bem elaborados e bem escritos, como o de abaixo, mas que estarão apenas ouvindo o galo cantar mas sem poder apontar a direção certa de onde se encontra o emissor. Tenho, até, expectativas de que este evento venha a ser esvaziado, paulatinamente, na mídia, tendo outro tipo de discriminação como foco de holofotes, em breve, como forma de dissimulação da atenção do indivíduo, afinal, a criança de quatro anos e os queimados nos ônibus duraram muito pouco nos leads dos jornais e telejornais.

Por quê? Fácil. Com 87% de aprovação, o grupo que permanece no poder jamais deixará haver pesquisa em terrorismo no país. Dá para se imaginar o motivo?? Talvez, quem sabe, seja uma ótima oportunidade de se esclarecer o "outro lado" da luta contra a ditadura, ressaltada pela "Comissão da Verdade" que teve atos terroristas praticados contra inocentes cidadãos, tudo tudo em nome da liberdade. É aguardar para ver...

Que nos sirva de alerta
O Estado de S.Paulo


Perplexa e revoltada diante da chocante brutalidade da tragédia do Realengo, a sociedade brasileira se pergunta: por quê? O assassinato frio e premeditado de 12 crianças, dentro de uma escola no Rio de Janeiro, por um psicopata suicida de 23 anos, deflagrou na mídia, até pelo ineditismo do ocorrido no País, uma compreensível busca por explicações para o trágico acontecimento que inscreve o Brasil na galeria internacional dos massacres de que são vítimas jovens estudantes - da qual a chacina de Columbine, nos EUA, em abril de 1999, se tornou tristemente emblemática. Autoridades governamentais, especialistas em segurança pública, psicólogos especializados em conflitos interpessoais no ambiente escolar, enfim, toda sorte de profissionais em atividades de alguma forma relacionadas com as possíveis razões e as prováveis consequências da tragédia têm sido convocados a expor seu pensamento diante de microfones e câmeras e ganham generoso espaço na mídia impressa.

Desde logo algumas explicações óbvias afloram, na tentativa de diagnosticar as causas do fenômeno. Parece haver consenso sobre pelo menos duas questões: uma seriam as deficiências no aparato de segurança, que podem ser debitadas tanto ao poder público, no âmbito geral, quanto à direção das unidades escolares, no que se refere ao controle do acesso de estranhos às suas instalações. A outra, certamente mais complexa e polêmica, seria a ausência ou insuficiência de controle sobre o comércio de armamento. "Precisamos desarmar a população", costumam bradar os governantes nessas ocasiões, como se apressou a fazer o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que prometeu, é claro, providências enérgicas para tornar permanente a Campanha de Desarmamento e incentivar maior controle sobre a venda e o porte de armas.

Por outro lado, perquirem-se as causas psicológicas, psiquiátricas e psicossociais por detrás da violência urbana. O ataque em Realengo, segundo a opinião do sociólogo Michel Misse, da UFRJ, citado pelo diário carioca O Globo, "foge ao padrão da violência urbana" e "não é explicável pelos parâmetros geralmente usados para analisar eventos cotidianos de violência", pois "tem mais a ver com um quadro grave de perturbação mental", uma vez que "o assassino, provavelmente, já não distinguia a realidade da fantasia".

Todas essas considerações são pertinentes, devem ter de alguma forma contribuído para o desfecho trágico do ataque em Realengo e apontam problemas que de alguma maneira podem e devem ser enfrentados pelo poder público e pelos cidadãos para evitar sua repetição. Mas, sejam quais forem as causas imediatas dessa hecatombe humana, não pode haver dúvidas de que ela tem suas raízes mais profundas no fenômeno moderno da falência dos valores humanos em seu embate permanente com o pragmatismo da sociedade de consumo que o processo de globalização só tem feito acentuar. Nesse sentido, é tão ilustrativo quanto chocante o relato de Lucia Guimarães, correspondente do Estado em Nova York, publicado ontem neste jornal: ""Ninguém teve a ideia de fazer um bom videogame com um massacre escolar." A queixa é do mentecapto que atende pelo apelido Pawnstick e cuidou de preencher esta lacuna nos anais da glorificação escatológica." O absurdo videogame, "School Shooter" (Atirador Escolar) convida o jogador a reviver a experiência dos serial killers, ou seja, matar o maior número possível de estudantes. E é defendido sem nenhum constrangimento por seu criador, conforme registra o artigo: "É só um jogo e o objetivo é ser divertido".

Na direção oposta do cinismo do mentecapto criador de videogames, vai o depoimento da professora Telma Vinha, da Unicamp, publicado na mesma edição do Estado: "(...) a escola não é uma prisão. Ela deve ser um espaço para falar de conflitos, não para contê-los". E as escolas só serão realmente assim "quando forem mais generosas, acolhedoras e não pensarem na ética como um remédio punitivo, mas como vacina". Vale para a escola. Vale para uma sociedade doente, desumanizada. Vale para todos e cada um de nós.
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quinta-feira, 10 de junho de 2010

O espírito do Altalena



Gosto quando o autor abaixo escreve, sempre leio com atenção, pois ele tem, sobretudo, um estilo agradável e elegante. Contudo, como em vezes anteriores ele utiliza-se dessas técnicas para encobrir informações e opiniões incompletas que não permitem a quem lê, ter uma perspectiva mais global do que ocorre, ou seja, ele acaba, do alto de seu doutorado, sendo parcial e induzindo leitores a parcialidade.

Não estou defendendo tampouco fazendo apologia a Israel ou ao sionismo, o que sublinho é a força que o terrorismo tem e, habitualmente, usa cidadãos como roupagem protetora de seus intentos.
O que ocorre naquela região e deve ser preocupação de todos é o terrrorismo e o impressionante, que a exemplo de Che Guevara, um sanguinário que foi denunciado pelas populações pobres bolivianas (porque por ele eram exploradas) às autoridades que o cercaram naquela selva até hoje é tido como um romântico e carismático herói. Esta é a questão crucial da presença de esquerda ideológica nos segmentos de cultura e de comunicação: Nunca permitem ao leitor ter uma mais ampla e exata dimensão de um fenômeno, no fim sempre tratam tiranos e terroristas com o tom róseo de heróis libertadores.


DEMÉTRIO MAGNOLI - O Estado de S.Paulo
Dois navios, separados por mais de seis décadas, iluminam o dilema que atormenta Israel. No dia 22 de junho de 1948, por ordem de David Ben-Gurion, chefe do governo provisório de Israel, as Forças Armadas do novo Estado bombardearam o cargueiro Altalena ao largo de Tel-Aviv. A embarcação transportava armas e soldados do Irgun, uma organização paramilitar sionista que se notabilizara pelo recurso ao terrorismo. Dias atrás, sob ordens do governo de Benjamin Netanyahu, comandos israelenses abordaram o navio turco Mavi Marmara, matando nove ativistas de uma flotilha que pretendia desafiar o bloqueio imposto à Faixa de Gaza. O Altalena ardeu para simbolizar a adesão do Estado judeu à lei das nações. A invasão do Mavi Marmara simboliza a aversão de Israel à lei das nações.

A flotilha atacada encontrava-se em águas internacionais, ao largo da costa de Gaza. Sob qualquer ângulo de análise, a ação israelense equivale a um ato de pirataria. A ordem de abordagem e o método utilizado provocaram um previsível desfecho trágico. A ação municiou o inimigo Irã, arruinou as relações com a aliada Turquia, decepcionou os países europeus e criou obstáculos suplementares para a política de Barack Obama. Na imprensa de Israel pipocaram acusações de incompetência do governo. Mais realista é concluir que Netanyahu agiu deliberadamente com a intenção de enviar mensagens a dois destinatários. O primeiro-ministro alertava os ativistas sobre a sorte reservada aos que tentarem furar o bloqueio e explicava a Washington que Israel não negociará a sério com os palestinos sem a prévia anulação política do Hamas.

A narrativa oficial do episódio articulou-se em torno do álibi empregado incessantemente para sabotar as negociações de paz. "Nossos soldados encontraram um grupo radical que apoiou grupos terroristas internacionais e hoje apoia o grupo terrorista Hamas", afirmou Netanyahu. "Era um navio de ódio. Não era uma frota de paz, era uma frota de apoiadores do terror."

Os ativistas, de fato, vestiram uma iniciativa política com a fantasia útil da ajuda humanitária. Da flotilha, realmente, participavam indivíduos tão radicais quanto alguns ministros do governo israelense. As opiniões políticas deles, contudo, não são justificativa para matá-los. E crismá-los como filoterroristas apenas evidencia a profunda degeneração da linguagem empregada por Israel. O Hamas venceu as últimas eleições gerais palestinas. Seriam os palestinos uma nação filoterrorista?

A Al-Qaeda representa o terror em estado puro. O Hamas, nas palavras precisas do escritor israelense Amós Oz, "não é apenas uma organização terrorista", mas "uma ideia", ainda que "uma ideia desesperada e fanática" - como foi, aliás, no seu tempo, o Irgun. A organização fundamentalista islâmica tornou-se o leito por onde correm as águas de uma vertente do nacionalismo palestino. Quando Israel borra as distinções entre Al-Qaeda e Hamas, não está cometendo um erro acadêmico de avaliação, mas inscrevendo em pedra o princípio legitimador de uma estratégia de rejeição da paz. A difusão ilimitada do rótulo de "terrorista" a todos os que, em qualquer nível, cooperam com o Hamas funciona como passaporte para a violação sistemática das normas internacionais.

Os ativistas do Mavi Marmara, entre os quais se contavam inúmeros fanáticos antissemitas, tinham como alvo o bloqueio israelense à Faixa de Gaza. O bloqueio representa uma violação direta, até hoje impune, da Convenção de Genebra, que estabelece os direitos das populações civis em territórios ocupados. É um crime de guerra, nada menos que isso. A alegação de Netanyahu de que a medida se destina a evitar a criação de "um porto iraniano em Gaza" colide com o discurso oficial israelense dos últimos anos: desde 2007 Israel proclama sua decisão de asfixiar a Faixa de Gaza até a dissolução da administração do Hamas. Previsivelmente, cada ato do Estado judeu na direção dessa meta, inclusive a sangrenta operação militar deflagrada em dezembro de 2008 em Gaza, reforça a auréola de martírio e resistência que circunda a organização fundamentalista.

Israel precisa reconhecer que "não estamos sós nesta terra", escreveu Amós Oz. A constatação emergiu na hora da assinatura dos Acordos de Oslo de 1993, mas foi logo esquecida, sob o impacto da radicalização interna em Israel e de ciclos de atentados terroristas palestinos. O governo de Netanyahu é o fruto maduro dessa trágica amnésia, cujas raízes estão fincadas nas camadas profundas do sionismo. O nacionalismo judaico original enxergava na Palestina uma "terra sem povo" prometida a um "povo sem terra". Hoje os israelenses se enxergam como uma nação sitiada por terroristas e reivindicam para si mesmos uma cláusula de exceção nas normas que regulam as obrigações das potências ocupantes.

No belo Judaísmo para Todos, lançado há pouco, o sociólogo Bernardo Sorj diagnostica que a ocupação dos territórios palestinos ricocheteia sobre a sociedade israelense, provocando "deterioração moral" e "fragilização da democracia". Um sintoma dessa crise de valores se encontra na flacidez da crítica doméstica aos atos do atual governo, formado por um núcleo de ultranacionalistas intransigentes e recoberto pelo manto enganoso da coalizão com os trabalhistas. Tudo se passa como se os israelenses estivessem sozinhos não apenas na Palestina, mas no mundo.

Ben-Gurion bombardeou o Altalena para afirmar, na hora do batismo do Estado judeu, que Israel não seria um prolongamento do Irgun. A antiga organização terrorista está na raiz do Likud, o partido de Netanyahu. O ataque violento ao Mavi Marmara parece indicar que os líderes atuais de Israel não se conformaram com o destino do navio de seus predecessores. É como se dissessem que a História deve ser reescrita - e que, agora, os homens e as armas do Altalena já podem desembarcar em Tel-Aviv.
SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP. E-MAIL: DEMETRIO.MAGNOLI@TERRA.COM.BR
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