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quinta-feira, 25 de julho de 2019

A Apollo 11 marcou minha vida

Estar vendo a conquista da Lua em Houston, em tempo real, me parecia uma miragem

       
Ethevaldo Siqueira*, O Estado de S.Paulo
25 de julho de 2019 | 03h03

Entre os jornalistas que tiveram o privilégio de cobrir a conquista da Lua, na Nasa, há 50 anos, suponho que poucos ainda estejam vivos. Por ser um deles, considero-me privilegiado por poder hoje contar aos leitores do Estado, aos amigos e familiares um pouco do que vi e senti na cobertura daquele evento.

Estar nos Estados Unidos naqueles dias era para mim quase um sonho, embora eu já tivesse conhecido a Nasa no ano anterior e acompanhado em Houston os melhores momentos da Apollo 8, no Natal de 1968, quando os astronautas Frank Borman, Jim Lovell e William Anders sobrevoaram pela primeira vez o lado oculto da Lua e mostraram pela TV o Earthrise, o nascer da Terra, nosso planeta a elevar-se sobre o horizonte lunar.

Ao chegar aos Estados Unidos em julho de 1969, eu não tinha ainda uma ideia clara do que iria ver. Mesmo assim, não era capaz de pensar noutra coisa, desde o momento em que meu saudoso chefe de reportagem, Clóvis Rossi, me comunicou que eu tinha sido escolhido para cobrir a Apollo 11.

Já na Flórida, no dia 16 de julho de 1969, cheguei bem antes da hora ao local mais próximo possível da histórica Plataforma de Lançamento 39A do Centro Espacial Kennedy para assistir ao lançamento da Apollo 11. Era a primeira vez que eu iria ver de perto a decolagem de um foguete gigante como o Saturno 5, com seus 110 metros de altura e uma massa de 2.900 toneladas.

Por questão de segurança, nós, jornalistas, mudos, víamos tudo de uma distância de 1.500 metros. Ao final da contagem regressiva, exatamente às 9h32 da manhã do dia 16 julho de 1969, um estrondo. Era o ruído que indicava a decolagem do Saturno 5. Com um empuxo de mais de 3.500 toneladas, o foguete começou a subir lentamente, enquanto seus escapamentos emitiam um ruído aterrador, com uma energia talvez acima de cem decibéis. Mesmo com os fones protetores de ouvido distribuídos a todos os jornalistas, ainda sentíamos na pele aquele ruído descomunal.

Embora seja difícil descrever com precisão o impacto daquela experiência, afirmo que ela foi inesquecível para mim, embora, naquele momento, o ruído e a emoção nos tirassem a capacidade de reflexão. Como repórter em começo de carreira, eu me sentia privilegiado por estar lá, diante de um espetáculo único como aquele. Localizado numa das plataformas reservadas aos jornalistas de todo o mundo, eu podia ver a multidão de centenas de milhares de pessoas nas estradas vizinhas, nos campos próximos ao Centro Espacial Kennedy e nas praias ao norte e ao sul da base de lançamentos.

Acompanhamos o trajeto do foguete até perdê-lo de vista. Segundo a Nasa, o segundo estágio do Saturno 5 completaria uma volta e meia em torno da Terra duas horas e 44 minutos depois do lançamento. Nesse momento, entraria em cena o último estágio do Saturno 5, com uma segunda ignição de cinco minutos e 48 segundos de duração, para colocar a Apollo 11 no caminho correto, rumo à Lua. Em minha cabeça havia um turbilhão de pensamentos. O mais sério deles era sobre o risco que corriam aqueles três seres humanos que subiam ao espaço.

Quatro dias depois, já em Houston, nós, jornalistas, estávamos diante de dois telões ao lado do Centro de Controle de Missão da Nasa. Ali pudemos acompanhar todas as etapas da descida na Lua, comandadas por Michael Collins, como um regente de orquestra, o astronauta que permanecia no módulo de comando a girar em torno do satélite natural da Terra.

Acompanhamos a longa sequência de imagens da preparação da descida do módulo lunar, apelidado de Águia (Eagle), até o momento de maior tensão e de interesse mundial: o do pouso do módulo na superfície da Lua. Ouvimos, então, em Houston, o anúncio de Armstrong: “The Eagle has landed”.

Em seguida, a imagem que mais emocionou o mundo – como a nós, em Houston: o momento culminante da missão, em que Neil Armstrong dá o primeiro passo e deixa a marca de seu pé esquerdo sobre a areia fina da Lua e pronuncia a frase memorizada havia meses: “Um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade”. Eram 21h56 do dia 20 de julho de 1969, em Houston. Ou 23h56 em Brasília. Ou ainda 2h56 do dia 21 de julho pela Hora Universal, UTC (Coordinated Universal Time).

A imagem daquele momento histórico foi vista, talvez, por mais de 600 milhões de seres humanos e exibida à exaustão pelo mundo afora, nos meses seguintes. Mesmo assim, não perdeu seu sentido mágico: astronautas na superfície da Lua pela primeira vez. Surpreenderam-me, contudo, algumas reações extremas, que iam da incredulidade ao deslumbramento, no Brasil e no mundo. Uma das reações negativas foi ao uso da bandeira dos Estados Unidos plantada na Lua. Por que não uma bandeira das Nações Unidas em lugar da americana, perguntavam os mais exigentes?

Para mim, estar vendo a conquista da Lua em Houston, em tempo real, me parecia uma miragem. Ríamos bastante ao ver os astronautas darem saltos como cangurus, ao descobrirem que, nas condições da gravidade lunar, seu corpo não pesava mais do que 15 quilos. Para nós, mesmo com as imagens chuviscadas em preto e branco, era emocionante testemunhar o momento em que os primeiros homens pisavam na superfície de outro corpo celeste.

Ao cobrir grandes acontecimentos, nós, jornalistas, sempre temos a clara consciência de que não somos protagonistas, mas apenas testemunhas, escribas e narradores. No meu caso particular, entretanto, a experiência pessoal vivida antes e depois da Apollo 11 me abriu caminho para muitos outros trabalhos jornalísticos na área espacial ao longo das três décadas seguintes, até os anos 1999, em que cobri projetos fascinantes, como os das sondas Voyager, dos ônibus espaciais, do telescópio espacial Hubble ou da Estação Espacial Internacional.

Confesso, entretanto, caro leitor, que nenhum daqueles momentos me marcou tanto quanto a Apollo 11.

*JORNALISTA ESPECIALIZADO EM TECNOLOGIAS DIGITAIS

domingo, 1 de abril de 2012

O mundo digital em 3 telas

ETHEVALDO SIQUEIRA

O ESTADÃO

Televisão, computador e smartphone são as três telas que abrangem praticamente todas as comunicações do mundo digital, setor que passa, aliás, pela mais radical e profunda mudança de paradigmas de toda a história da eletrônica. Na verdade, a palavra que poderia definir com maior precisão essa mudança talvez fosse disrupção (do inglês, disruption) - já registrada pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 

Sintetizar em três telas toda a comunicação do mundo digital é, sem dúvida, uma fórmula didática perfeita que tem sido utilizada por especialistas para facilitar a compreensão do processo de convergência, entre os quais Rafael Steinhauser, presidente da Qualcomm para a América Latina.

De que modo convergem as três telas? Da forma mais completa e abrangente possível. E mais: as três telas são totalmente reversíveis, pois tudo que uma faz as outras duas também fazem. Assim, a cada dia que passa, a TV mais se transforma e se aproxima de um computador com tela grande. Da mesma forma, pode até exercer as funções de um smartphone. O computador, por sua vez, comporta-se como uma TV ou como um smartphone. E o smartphone assume os papéis de um computador ou de uma TV com tela pequena. 

O que muda. "Nas últimas décadas - relembra Rafael Steinhauser - as pessoas se comportavam diante da televisão de forma totalmente passiva, recebendo conteúdos prontos e acabados, tanto da TV aberta quanto da TV paga. Esse público acostumou-se a receber programas preparados e empacotados pelas emissoras, sem se preocupar com aplicativos ou sistemas operacionais. O mesmo acontecia até há pouco com os usuários de computadores e do celular. O cliente recebia o aparelho com os aplicativos essenciais, prontos e acabados, num pacote fechado, e passava a usá-lo sem mais problemas."

Mas esse mundo da comunicação está mudando. A convergência das três telas, entretanto, transforma radicalmente esse cenário, pois a grande tendência dos novos smartphones, laptops e tablets é oferecer um sistema operacional aberto. Daí o grande sucesso do Android. 

O mesmo tem acontecido com outros sistemas operacionais, como o iOS, do iPhone - e, agora, com o Windows Phone, pois todos os smartphones permitem a qualquer desenvolvedor colocar seu aplicativo na plataforma e vendê-lo ou distribuí-lo gratuitamente, via celular ou via internet. E o usuário escolhe o que acha melhor, pagando ou baixando gratuitamente. E não há mais lugar para sistemas operacionais fechados, como no caso do Symbian, que está sendo abandonado pela Nokia em favor do Windows Phone. "Por isso, o Symbian está morrendo" - afirma Steinhauser.

Sistemas abertos. A correlação entre as três telas é hoje tão profunda que, para os especialistas, um celular só adquire o status de smartphone se tiver sistema operacional aberto. 

Eis aí a grande mudança de paradigma, que permite a colocação de qualquer aplicativo ou software à disposição do usuário. E vale lembrar que os smartphones já dispõem de milhões de aplicativos, um número que nenhum usuário, isoladamente, poderá utilizar em toda a sua vida.

Com esses aplicativos, o cidadão pode baixar também conteúdos da mais variada natureza, inclusive de publicidade. Os sistemas operacionais abertos mudam, assim, toda a cadeia de valores. Isso é disruptivo, como quebra de paradigmas.

Uma diferença fundamental nesse novo cenário é que o cliente deixa de ser verticalizado, como no passado, isto é, vinculado exclusivamente a um pacote de serviços ou conteúdos oferecidos por sua operadora. Hoje, o cliente se comporta de forma horizontal, aberta ao acesso a conteúdos ou serviços globais ou universais.

O mesmo acontece mais recentemente com outros dispositivos, como os tablets. A grande tendência, portanto, é que todos esses dispositivos - bem como os desktops, laptops, ultrabooks e até mesmo os televisores - tenham num futuro próximo sistemas operacionais abertos.

"Um bom exemplo - relembra Steinhauser - é o receptor de TV aberta, lançado no Consumer Electronics Show (CES 2012), em janeiro, em Las Vegas, pela Lenovo e pela Qualcomm, que usa o sistema operacional Android. E funciona perfeitamente bem para tudo que quisermos". 

Três competências. A convergência entre as três telas é resultado de três fatores tecnológicos: capacidade computacional, conectividade e multimídia. Essas três capacidades ou competências tecnológicas precisam ser comuns às três telas. Sem eles não haveria convergência entre smartphones, televisores e computadores.

Vejamos o que ocorre com os novos smartphones, que são acionados a cada dia por chipsets com maior capacidade computacional. Alguns deles são processadores de quatro núcleos, como alguns exibidos Mobile World Congress 2012, em Barcelona, em fevereiro.

"Aqueles pequenos smartphones - lembra Rafael Steinhauser - incorporam uma tecnologia ainda mais sofisticada que os nossos melhores home theaters, pois os seus chipsets dispõem de recursos extraordinários, como alta definição, microfones sensíveis, alto-falantes, dolby avançado, som surround 7.1."

A grande diferença é que os smartphones consomem muito menos energia, não aquecem e custam apenas uma pequena fração dos home theaters.
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domingo, 1 de janeiro de 2012

Anjos da guarda e espiões

ETHEVALDO SIQUEIRA
 O Estado de S.Paulo


Os sensores estão invadindo a vida humana. Eles chegam de forma quase imperceptível e ocupam todos os espaços. Sua presença na vida humana tende a crescer de forma exponencial e, por volta de 2020, nossa dependência desses dispositivos de identificação e de comunicação será quase total. Eles serão centenas de milhões, espalhados por todos os lados, embutidos nas paredes, nas portas, nos semáforos, nos prédios, nos móveis, nos aparelhos domésticos, em roupas, sapatos e até em escovas de dentes.

Eles serão ao mesmo tempo nossos anjos da guarda e espiões. De um lado, nos darão, sim, uma sensação de maior segurança. De outro, entretanto, talvez possam violar nossa privacidade, ao colher e transmitir dados sobre tudo que existe à nossa volta, inclusive sobre nós mesmos.

É claro que os sensores terão muito mais funções relevantes e essenciais em nosso cotidiano, como a proteção do meio ambiente, a vigilância das ruas, a supervisão dos espaços públicos e privados, a racionalização do consumo de energia e o monitoramento de pacientes em hospitais e em residências.

Nossos conhecidos. Diversos tipos de sensores já são nossos conhecidos, entre os quais, os dispositivos de identificação por radiofrequência (RFIDs, de Radiofrequency Identification Devices), usados nos pedágios de muitas estradas, como os do tipo Sem Parar. Com eles, a cancela é acionada automaticamente após a leitura dos dados de cada veículo.

Outros sensores populares são aqueles utilizados no controle de iluminação de nossa casa: eles detectam os raios infravermelhos emitidos pelo corpo humano e acendem as lâmpadas ou ligam o ar condicionado de um quarto ou sala só quando há pessoas nesses ambientes.

Com esses sensores, economiza-se energia e evita-se o desperdício em casas, prédios e locais em que comumente as lâmpadas ficam acesas centenas de horas por mês sem a menor necessidade. Esses mesmos sensores já estão sendo utilizados em sistemas de segurança, porque detectam luz, movimento e radiações.

MEMS dão show. O grande sucesso, nos últimos tempos, entretanto, é dos sistemas de chips microeletromecânicos, conhecidos pela sigla MEMS (Microelectromechanical Systems), que combinam funções eletrônicas com funções mecânicas em escala de microscópica, quase nanométrica.

Na próxima semana, pela primeira vez na história do maior evento de eletrônica de entretenimento do mundo, o Consumer Electronics Show (CES), de Las Vegas, haverá uma seção inteiramente dedicada aos MEMS e suas aplicações individuais ou em redes de sensores sem fio (Wireless Sensor Networks).

Outra seção dessa feira de Las Vegas que deve atrair a atenção dos especialistas é a das novas gerações de chips multinúcleos, para processamento gráfico, produção de imagens tridimensionais (3D), comunicações móveis e projetos assistidos por computador (CAD, de Computer-Aided Design).

Esses microprocessadores prometem revolucionar os equipamentos de tecnologia pessoal, tais como smartphones, laptops, tablets e desktops. Além dos recursos avançados de computação, eles economizam energia.

Internet das coisas. O desenvolvimento dos sensores viabiliza uma das formas mais admiráveis de internet do futuro: a internet das coisas. A ideia dessa nova web nasceu no MIT Auto-ID Laboratory, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e ganhou o nome de Internet of Things (IoT), partindo de um objetivo bem simples: criar um sistema global de registro de bens, utilizando um código de produto eletrônico (Electronic Product Code), como sistema de numeração.

A boa notícia é que os dispositivos essenciais para viabilizar o conceito de internet das coisas já estão prontos e disponíveis no mundo da tecnologia microeletrônica. São, acima de tudo, os sensores dedicados, os identificadores RFIDs e as redes de sensores sem fio.

Quando cada coisa ou objeto pode ter sua identidade e seu endereço, tudo fica mais fácil e prático para que ele seja tratado virtualmente na internet. Assim, os sensores nos permitirão localizar cada objeto, saber seu conteúdo, ordená-lo, classificá-lo ou manipulá-lo.

O exemplo mais banal é o da geladeira que nos avisa de tudo que está no fim ou vai faltar. A internet das coisas já se torna particularmente útil para muitas pessoas e instituições que dispõem de grandes bibliotecas com milhares de livros ou discotecas com elevado número de CDs, DVDs ou Blu-rays. Com a nova web, localizaremos instantaneamente cada peça, obra, autor, editora ou intérprete, editora, orquestra, data de gravação ou edição, preço, história e tudo o mais.

Entre suas muitas aplicações, a internet das coisas poderá ser utilizada nos sistemas de controle automático dos semáforos e de controle de trânsito. Ou nas empresas de transporte coletivo, informando aos passageiros o horário exato em que cada ônibus ou trem vai passar pelos pontos de parada. Ou ainda equilibrar a oferta de veículos em função da demanda de cada horário.

O papel da internet das coisas poderá ser revolucionário ainda nos supermercados, nos sistemas de distribuição postal, nos almoxarifados e estoques de milhões de peças e componentes.

Com essa nova web, a ordem poderá, finalmente, triunfar sobre o caos.
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terça-feira, 7 de junho de 2011

Quem falou em escândalo?


ETHEVALDO SIQUEIRA
O Estado de S. Paulo


O Brasil não tem oposição parlamentar. Se tivesse, as coisas poderiam ser bem mais sérias diante do escândalo do superfaturamento comprovado em licitação da Telebrás. Confira comigo, leitor. Se você pensa que viu tudo até aqui em matéria de desfaçatez, comece a mudar de ponto de vista. Reflita sobre o significado deste fato: o Tribunal de Contas da União (TCU) reconheceu o superfaturamento de R$ 43 milhões (em lugar de R$ 121 milhões, efetivamente comprovados pela Secob-3, órgão interno do tribunal) no pregão 002/2010 da Telebrás.
Mesmo assim, o TCU não anulou a licitação. Determinou que os preços fossem reduzidos, renegociados. Foi algo como perdoar o ladrão, obrigando-o simplesmente a devolver a carteira que furtou.
O impossível aconteceu: o TCU comprovou com todas as letras o superfaturamento ocorrido em uma empresa estatal mas decidiu não pedir a punição de ninguém nem anular a licitação. Mesmo apurando superfaturamento de muitos milhões, o TCU não anulou a licitação viciada. Mandou a Telebrás rever os preços, renegociando com os fornecedores os valores inflados maliciosamente no pregão contestado.
E mais: mesmo depois de apurado o ilícito, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, vem a público para explicar as razões da demissão do presidente da Telebrás, Rogerio Santanna, dizendo que sua exoneração decorreu apenas de uma reformulação na estratégia do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL).
Diante das conclusões de superfaturamento do relatório dos auditores do TCU, em lugar de anular a licitação, Santanna decidiu acusar os integrantes da Secob e os próprios ministros do TCU. É claro que, só por isso, Rogerio Santanna já deveria ter sido demitido.
Estamos vivendo a era do faz de conta no Brasil de hoje. Tanto para o TCU, como para o Ministério das Comunicações, ou, em síntese, para o governo federal, não há nenhum escândalo a punir na Telebrás. Ninguém diz uma única palavra sobre o superfaturamento comprovado. Um porta-voz de segundo escalão, cara de pau, me pergunta: “Escândalo? Deve ser coisa da mídia sensacionalista”.
Nossa esperança, agora, está nas mãos do Ministério Público, que se dispõe a recorrer da decisão, da mesma forma que a Seteh Engenharia, empresa que denunciou ao TCU o superfaturamento ocorrido na Telebrás.
Estamos falando de dinheiro público, leitor. Quantas escolas ou hospitais - ou outras obras essenciais - poderiam ser construídas com R$ 121 milhões? Que faz agora o governo federal? Demite o presidente da Telebrás, Rogerio Santanna, mas não dá uma palavra sobre o problema mais grave e usa desculpinhas tradicionais, frases genéricas, para nos convencer de estão feitas apenas algumas “reformulações no Plano Nacional de Banda Larga (PNBL)”, que teima em não decolar.
Duas crises? É claro que o episódio é ainda mais grave do que o enriquecimento rápido do ministro Antonio Palocci, porque, no caso da Telebrás, os fatos ilícitos denunciados foram apurados pelo TCU - um tribunal que não costuma se curvar a interesses políticos, em especial no caso de administrações de empresas estatais.
Aliás, a própria história da “nova” Telebrás tem sido uma sucessão de ilegalidades, de ousadia, de arbítrio e aparelhamento de uma estatal cuja história não merecia tanta vergonha. Reativada sem o menor respeito à legalidade, por meio de decreto, alterando suas funções básicas - que, no modelo estatal, como empresa holding das telecomunicações, nunca havia sido operadora. É claro que o governo, por suas diretrizes ideológicas, poderia tomar a iniciativa de sua recriação, mas deveria enviar projeto de lei específico ao Congresso Nacional.
Reativada em 2010, num ano eleitoral, à revelia do Ministério das Comunicações, pasta à qual está subordinada por lei, sob toda a pressão de Rogerio Santanna e seus amigos, que tinha interesse direto no cargo de presidente da estatal, a Telebrás acumula uma montanha de absurdos e ilegalidades. Em assembleia geral extraordinária, modificou seus estatutos para permitir, entre outras coisas, a criação de subsidiárias.
A pior imagem. Em apenas um ano de nova existência, a Telebrás consegue piorar ainda mais sua imagem, tão comprometida no período de extinção, assaltada por processos indecorosos de indenizações multimilionárias e manipulação de suas ações, nos meses que antecederam a reativação. Imaginem quanto ganharam os que especularam, sabendo que a empresa seria mesmo reativada, a ponto de conseguirem a valorização da ordem de 36.000% de suas ações.
Agora, na nova fase, a estatal começa suas licitações superfaturadas, conduzidas a toque de caixa, em prazos exíguos, sem a devida consulta aos fornecedores e clientes tradicionais e às fontes do próprio governo, para permitir que mais de R$ 120 milhões escoem pelo ralo.
Ainda não chegamos ao fundo do poço, meu caro leitor. Não se surpreenda com novos escândalos. Eles estão sendo preparados em fogo lento. Seria muito difícil pedir a um governo do PT que extinguisse uma estatal criada, antes de tudo, para dar emprego aos amigos. Por mais ingênuo que possa parecer, entretanto, é exatamente isso que voltamos a pedir ao ministro das Comunicações e à presidente da República.
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