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terça-feira, 26 de outubro de 2010

A relação comercial China-A. Latina

Amigos a notícia ressalta enormes oportunidades que nosso país terá nos próximos trinta anos.
Estive duas vezes neste BID (2006 e 2007) e as palestras orbitaram em torno deste acordo com a China.

Ressalto que todos os países em questão tem pontos em comum que, também, são desafios para seus respectivos desenvolvimentos: Sucetíveis a desastres naturais (terremotos, maremotos, furacões, enchentes etc) que danificam a infra-estrutura (saneamento, transporte, energia, produção agro-industrial etc) e, também, possuem relevos de difícil ampliação da malha de transporte nos três modais (ferroviário, fluvial e rodoviário).

Os investimentos em tecnologia são constantes e a China, há anos, vem sendo limitada a ser "país contribuinte" e não signatário, desta instituição bancária.

Resta-nos aproveitar, com maturidade e responsabilidade, as oportunidades que advirão.

A relação comercial China-A. Latina
 Luis Alberto Moreno - Valor Econômico - 26/10/2010


Na última década, duas economias que pouco negociavam entre si tornaram-se grandes principais parceiras comerciais. O comércio entre a América Latina e a China passou de apenas US$ 10 bilhões por ano em 2000 para mais de US$ 100 bilhões hoje.

Muito do debate atual sobre a relação entre a China e a América Latina tem se focado sobre os níveis da taxa de câmbio. A preocupação é legítima no curto prazo, mas não devemos deixar essa polêmica obscurecer as oportunidades econômicas e sociais que podem ser criadas por meio de uma maior integração.

Graças à maior integração econômica, tanto a China como a América Latina e o Caribe se tornaram dois motores importantes de crescimento, que podem contribuir para a recuperação da economia mundial, especialmente depois da crise financeira global.

Hoje, a produção econômica combinada da América Latina e Caribe (cerca de US$ 2,6 trilhões em 2009) está próxima do PIB chinês de US$ 2,7 trilhões. Na última década, duas economias que pouco negociavam entre si, tornaram-se grandes principais parceiras comerciais: o comércio entre a América Latina e a China passou de apenas US$ 10 bilhões por ano em 2000 para mais de US$ 100 bilhões hoje.

No ano passado, a China tornou-se não só a maior importadora de produtos brasileiros como também a maior parceira comercial de Chile, Peru e Argentina. Enquanto as empresas chinesas produzem carros no Uruguai, por exemplo, os arquitetos chilenos estão vendendo serviços de arquitetura antissísmica para a China. Conglomerados energéticos chineses estão investindo no Brasil e multinacionais mexicanas produzem bens de consumo e produtos de pastelaria na China.

A boa notícia é que essa relação comercial ainda está em sua infância. Estamos no limiar de uma nova era de cooperação econômica e tecnológica que pode não só gerar riqueza, mas também permitir que a totalidade do nosso povo desfrute de prosperidade sustentável e uma melhor qualidade de vida. Para isso, tanto a China quanto a América Latina devem enfrentar vários desafios estratégicos.

Um deles diz respeito à energia renovável e a eficiência energética. Muitos países da América Latina e do Caribe compartilham o interesse chinês de reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados. A China rapidamente se transformou em uma líder mundial no desenvolvimento de energia eólica e solar, iluminação energeticamente eficiente e aparelhos que economizam combustíveis e reduzem a poluição. A América Latina, que já recebe a maior parte de sua eletricidade de fontes renováveis, incluindo bicombustíveis, tem um enorme potencial de crescimento nesta área.

Outro setor importante é o de transporte limpo. Hoje a América Latina e o Caribe têm mais de 50 cidades com mais de um milhão de habitantes; a China tem pelo menos 170. Mobilidade e poluição do ar são os desafios centrais dessas cidades em crescimento. Várias cidades latino-americanas foram pioneiras em sistemas Bus Rapid Transit, que integram os ônibus ecológicos com os sistemas de transporte existentes. A China está se tornando uma líder em sistemas de transporte de alta velocidade, controle de tráfego inteligente e veículos elétricos. As oportunidades para uma colaboração frutuosa e investimento são óbvias.

Água e saneamento também representam um desafio comum. Tanto a China quanto a América Latina enfrentam escassez de água por questões relacionadas ao clima e precisam urgentemente limpar rios, lagos e proteger as fontes de água subterrânea. Várias empresas de serviços públicos no México e na China recentemente se tornaram líderes na área de reciclagem e reutilização de águas residuais. As empresas que podem fornecer soluções rentáveis nesse setor têm excelentes perspectivas de crescimento.

Finalmente, a China e a América Latina têm muito a aprender um com o outro na área de agricultura sustentável. O instituto de pesquisa agrícola do Brasil, Embrapa, foi pioneiro no desenvolvimento de sementes oleaginosas de alto rendimento e de outras culturas que hoje são importadas pela China. Já a China, por sua vez, tem imenso talento científico em áreas afins. Agora é a hora de se fertilizar mutuamente o conhecimento e a tecnologia para expandir a produção de alimentos usando menos água e terra.

Na semana passada, mais de mil empresários chineses e latino-americanos participaram da Cúpula de Negócios China-América Latina em Chengdu. O evento, organizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Conselho Chinês para a Promoção da Integração e Comércio, é parte dos esforços do banco para gerar novos investimentos nestes e em muitos outros setores-chave, além de nos ajudar a compreender melhor nossos negócios e culturas de consumo.


O BID é a principal fonte de financiamento multilateral da América Latina e do Caribe. No ano passado, tivemos a honra de receber a decisão visionária da China de se tornar um membro do Banco. Já assinamos vários acordos de cooperação com entidades chinesas. Estamos prontos para trabalhar com nossos parceiros chineses para financiar projetos que trarão oportunidades duradouras, prosperidade e dignidade ao povo da China, América Latina e Caribe.

Luis Alberto Moreno é o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Crise, eles e nós

Alguns detalhes precisam ser melhor esclarecidos.
A imagem do mapa mundi de cabeça para baixo, na capa da Economist, é a mesma que é símbolo do Foro de São Paulo.

A reportagem em si trás algum ranço com relação à prevalência do comércio com os EUA em relação aos de origem da comunidade européia. Não ficou claro para mim se a revista elogia os governos por austeridade que fazem o PIB, em média, subir para 5,5%. Todavia o PIB não sobe por obra e graça de regimes de governo tampouco por melhor distribuição de renda.

O que precisa ser relembrado é que todos os países da região enfrentam problemas quase que incontornáveis que tornam sua produção e inserção no mercado mundial um eterno desafio. Dentre eles temos os efeitos de terremotos, maremotos e furacões que aniquilam toda a produção agrícola e a infra-estrutura do país, fazendo com que eles sejam sempre dependentes de empréstimos do BIRD e do Banco Mundial. 

Além desse importante fator, o histórico baixo nível de escolaridade, em média, não permite que se avance em termos de produção tecnológica ou que os investimentos nestas áreas sejam atrativos às empresas estrangeiras. Assim, querendo-se ou não, quem entra na equação para manter a sustentabilidade da região são os EUA.

Seria bem melhor se a mídia especializada avançasse por estes caminhos sempre colocados em segundo plano nas análises dos especialistas.

Crise, eles e nós
Miriam Leitão - O Globo - 15/09/2010
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Dois anos depois do dia em que o Lehman Brothers quebrou, o balanço mostra que a economia americana cresce pouco, a Europa teve que fazer um esforço para salvar o euro, o Japão voltou à estagnação, o mundo fez um acordo por nova regulação bancária. A China e a Índia crescem forte. A América Latina toda cresce, exceto Venezuela, Cuba e Haiti.

Não deixa de ser animador que na semana em que o mundo completa dois anos daquela assustadora segunda, 15 de setembro, a capa da revista “The Economist” fale sobre o “renascimento” latinoamericano, justo a região que sempre foi mais atingida pelas crises mundiais.

Um mapa do mundo ao contrário, com a América do Sul acima e a do Norte abaixo, decora há décadas a parede do gabinete do ministro no Itamaraty. Essa mesma ideia está na última capa da “Economist”, com o título: “Não é quintal de ninguém”.

Claro que há ainda muitas mazelas por aqui. Quem tiver em mente o massacre no México, de 72 imigrantes, alguns brasileiros, que tentavam chegar ilegalmente aos Estados Unidos, atrás do sonho americano, pode achar que ainda é cedo para comemorações.

A região tem muitos sinais do passado: o caudilhismo do Chávez lembra velhos tipos da região.

Há sinais assustadores de neo-caudilhismo no Brasil também. O casal Kirchner conspira contra a modernização da Argentina. A guerra contra as drogas no México exibe falhas de outras instituições, como as Forças Armadas.

No Brasil, a corrupção parece incansável.

Mas na área macroeconômica, a região enfrentou muito bem a crise. No Brasil, a agilidade do BC e as altas reservas impediram que se repetisse o cenário de crise cambial. A região teve rapidez na recuperação pós-crise na maioria dos países e, este ano, está com forte crescimento, não apenas no Brasil.

Uma das razões desse bom momento é o crescimento forte da China e da Índia e a demanda por matérias-primas da região, diz a “Economist”, que, no entanto, registra como principal fator do progresso o sucesso na luta contra a inflação crônica, a maior responsabilidade fiscal e a regulação bancária mais prudente que nasceram das crises dos anos 80 e 90.

Essa é a lição da América Latina para o sul da Europa: a crise das dívidas soberanas foi enfrentada com reformas estruturais que agora estão mostrando seu valor.

A crise derivada da quebra do Lehman Brothers remodelou a conjuntura econômica.

Hoje, a Europa ainda vive engasgada com enormes déficits e dívidas, cresce pouco e houve um momento em que o próprio euro correu riscos.

Nos Estados Unidos, a popularidade do presidente Obama se esvaiu nos primeiros dois anos de mandato, em decorrência direta do ambiente econômico. Ele herdou a crise, não a fez, mas a cabeça da sua equipe econômica está sendo pedida no debate pré-eleitoral, sob a acusação de não ter sido capaz de superar a crise e recuperar o emprego.

Já no mundo emergente, houve gradações diferentes de impacto da crise. O Brasil teve uma queda abrupta do ritmo de crescimento. O país crescia a 6% e caiu a -0,2%. A Pnad de 2009 mostrou que a taxa de desocupação aumentou 18,5%. O país teve dois trimestres de recessão. A Índia e a China tiveram apenas uma redução do ritmo de crescimento. Rússia e México tiveram recessões de 7%.

Em 2010, todos voltaram a crescer, inclusive o México.

A América Latina tem vários países com crescimento forte: Brasil, Peru, Colômbia, Chile, Argentina. Mas a “Economist” mostra também que os velhos problemas permanecem.

A produtividade tem crescido a níveis mais baixos do que em outras partes do mundo. A região tem baixos níveis de poupança e de investimento. Aceita padrões medíocres na educação e inovação. Tem uma regulação trabalhista que induz a um grau enorme de informalidade na economia.

Para resolver esses problemas, a região precisaria, diz o texto, de líderes que renovassem seu apetite por reformas. Outro risco atual é o fortalecimento da ideologia do Estado forte.

A América Latina precisa também evitar o antiamericanismo de Hugo Chávez e, de acordo com a “Economist”, o país com mais chance de neutralizar esse “nonsense” é o Brasil. Por outro lado, os Estados Unidos também precisam mudar a atitude com que sempre trataram os países do sul do continente. O muro separando os Estados Unidos do México é o exemplo desse erro de ver os riscos e não as oportunidades na relação com os vizinhos. O país deveria construir pontes, diz a revista, até pelo dinamismo econômico da região.

A reportagem foi feita a propósito dos 200 anos de independência de vários países hispânicos que se comemora em 2010. A nossa independência, como se sabe, veio depois, teve outro caminho.

Mas este momento que o Brasil vive não é muito diferente do que é vivido pela maioria dos outros países latinoamericanos. Nas suas vantagens, acertos, riscos e erros. A fórmula é não errar velhos erros e fortalecer os acertos das últimas duas décadas.

Porque crises como a de 2008/2009 sempre acontecem.

É preciso se preparar para os sustos como o daquele 15 de setembro que ainda não foi digerido por inúmeras economias. 
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sexta-feira, 30 de julho de 2010

O coronel e os babalaôs - Nelson Motta

O texto fala acerca de uma estultície lamentável do pres. Chavez.
Também desnuda a inconveniência do que ele propala, uma vez que ele depende, sobremaneira, dos recursos dos EUA, que ele vive criticando.

Também ilumina um dos motivos pelos quais Chavez apoiou o retorno de Zelaya ao poder, a fim de garantir o controle do polígono marítimo formando entre Venezuela, Nicarágua, Honduras e Cuba.

Antes de tudo, é um breve texto muito bem escrito. Vale a leitura.
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O Globo

Dia e noite, minuto a minuto, são postadas na internet notícias do mundo inteiro, das mais dramáticas e trágicas às mais frívolas e bizarras. Os ficcionistas estão em pânico. É cada vez mais difícil criar histórias e personagens originais que possam surpreender e emocionar os leitores.

Que tal a americana que deu o seu bebê para adoção e, 14 anos depois, rastreou o filho em sites de relacionamento, e, sem dizer que era sua mãe, seduziu-o, comeu-o e foi presa? Quem acreditaria nesse dramalhão pornô? Mas é apenas um episódio de “a vida como ela é” na internet, que deixaria Nelson Rodrigues embasbacado.

Mesmo com as licenças do realismo fantástico latino-americano, é difícil criar uma ficção que supere o coronel boçal e paranóico que toma o poder na Venezuela, se acredita um novo Bolívar e quer libertar a América Latina do Império e torná-la uma imensa Cuba. Mas só consegue quebrar o seu país e fazer o mundo rir com suas bravatas.

No novo episódio, a pedido do companheiro Fidel, clarividentes babalaôs cubanos consultam os orixás e advertem o coronel que a única forma de reverter a sua queda de popularidade e a perda da maioria parlamentar nas próximas eleições é fazer um descarrego nos ossos de Simon Bolívar. O coronel manda exumar o Libertador, sob a suspeita de que ele não teria morrido de tuberculose, mas envenenado. Pelo Império, por supuesto.

Mas o Império tem mais o que fazer e ignora o coronel, que fica ainda mais furioso. Nem um ficcionista delirante, ou um babalaô doidão, ousaria imaginar os Estados Unidos invadindo a Venezuela e torrando bilhões de dólares e milhares de vidas para roubar o seu petróleo, só o corone “Mas não vamos estar sozinhos na luta, tenho certeza que Cuba e Nicarágua estarão conosco.” O Império vai tremer de medo, terão que reavaliar seus planos. O coronel ruge: “Pátria, socialismo ou morte!” Ao lado de Maradona, que, como ele, pensa com os pés, rompe relações com a Colômbia, mas são os venezuelanos que pagam a conta. E o coronel continua sua bizarra revolução, com o petróleo que vende ao seu maior inimigo. O Império paga em dia. 
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