Mostrando postagens com marcador José Roberto Mendonça de Barros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Roberto Mendonça de Barros. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Será possível retomar o crescimento?

José Roberto Mendonça de Barros: - O Estado de S.Paulo

A vitória do reformismo traria de volta certo crescimento, e relativamente rápido

Todos que acompanham o nosso dia a dia sabem que as marcas deste ano estão sendo a surpresa e a incerteza. Conflitos comerciais que atravessam o globo, greve dos caminhoneiros e a enorme incerteza política acabaram por produzir uma redução nas perspectivas de crescimento.

Abrimos o ano já com alguma desaceleração em relação a 2017, mas os fatores acima mencionados levaram a uma piora no desempenho e nas projeções para o ano. Embora seja claramente positivo que a atividade tenha voltado a crescer após a greve, o crescimento do corrente exercício será modesto (1,5% no máximo).

Assim, a pergunta central que se faz é se existe possibilidade de, findo o processo eleitoral, voltarmos a ter melhoras em 2019.

Uma primeira parte da resposta é, para mim, muito clara: esta campanha caracteriza-se por um embate entre reformistas e populistas, sendo que a novidade deste ano é a emergência de um populismo rombudo de direita. Isso porque a eventual vitória de uma das propostas populistas irá produzir, inequivocamente, uma piora significativa nas principais variáveis econômicas. No curto prazo, no caso da esquerda, e um pouco mais adiante se for a direita.

Entretanto, acredito que a vitória do reformismo poderá trazer de volta certo crescimento, e relativamente rápido. Analisemos por quê.

Contados os votos, veremos uma rápida melhora nas expectativas e uma queda bastante forte na cotação do dólar frente ao real. Projetar essa variável é sempre uma tarefa inglória, mas não é exagero imaginar um número da ordem de R$ 3,60 por dólar.

Com isso, os efeitos secundários da desvalorização cambial vão desaparecer, e a inflação irá se consolidar no patamar dos 4%, que resultará na manutenção da Selic na faixa atual (6,5%) por alguns meses, pelo menos.

Além disso, o alívio do resultado das eleições vai destravar vários gastos empresariais no curto prazo. Muita gente tem planos que dependem apenas do cenário político e que seriam postos em marcha.

Não falo de grandes projetos (exceto no caso de petróleo), mas do lançamento de novos produtos, campanhas de marketing, maior expectativa de vendas para a temporada de Natal e outros. Por exemplo, a demanda de caminhões, que vinha crescendo desde o início do ano, se acelerou após a greve de maio, uma vez que muitas empresas decidiram remontar um departamento interno de transportes. A despeito disso, novas encomendas só estarão sendo atendidas a partir do ano que vem, porque as montadoras estão hesitando em adicionar um novo turno nas linhas de produção, algo que ocorreria nesta nova situação.

Embora essa melhora não deva alterar substancialmente a projeção do crescimento para 2018, o resultado é que viraremos o ano olhando para cima e não para baixo.

Aí vem o jogo principal, o da agenda das reformas. Aqui está em questão o número de propostas e seu desenho.

Em muitos casos, a estrutura dos projetos é bastante clara, como a criação do Imposto de Valor Adicionado (IVA) em substituição a IPI, ICMS, ISS, PIS e Cofins, ou a unificação dos regimes de aposentadoria e a elevação da idade mínima para requerer o benefício.

Daí porque a grande dúvida é a chance de aprovação das reformas. A experiência desde o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso é que, se o Executivo se fixar em um número pequeno de projetos, mas intensamente defendidos pelo novo presidente, sua aprovação é possível, embora nunca seja simples. É a estratégia de “poucas e boas”.

Se isso ocorrer como me parece possível, o caminho estará aberto para a retomada de um crescimento mais sustentável, embora ainda inferior ao necessário e possível para o Brasil.

Terceirização. O STF considerou constitucional a terceirização, tanto de atividades meio, quanto de atividades fim, assim como já havia feito ao validar o término do imposto sindical. É mais um exemplo da resistência à mudança por parte de corporações e cartórios. Entretanto, nesse caso, as coisas estão caminhando bem e já é possível dizer que a Reforma Trabalhista tem contribuído de forma decisiva para a redução do conflito, em favor de negociações.

Privatização. Elena Landau lembrou na coluna de sexta-feira que qualquer privatização bem feita demora muito. Tendo participado de muitos processos, de 1993 a 1998, não posso estar mais de acordo. E isso inclui a venda de imóveis públicos.

É um exercício fútil imaginar que se possa arrecadar trilhões em pouco tempo. Ou falta de experiência de como funciona o setor público.
---------------
* Economista

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O desmonte da recuperação

José Roberto Mendonça de Barros*- O Estado de S.Paulo

Não veio a esperada difusão positiva sobre os segmentos que estavam mais atrasados

Desde o segundo trimestre do ano passado assistimos a uma recuperação da atividade que parecia bastante robusta. Embora o crescimento no ano tenha sido de apenas 1%, a evolução ao longo do tempo projetava algo como 3% a 3,5% para 2018.

Essa era minha expectativa, e ela se revelou um erro. De fato, durante o primeiro trimestre os números foram seguidamente frustrantes, o que levou a uma redução nas projeções de crescimento feitas pela maior parte dos analistas, inclusive pela MB, para a faixa de 2,5%.

O que foi específico deste ano é que os setores que puxaram a recuperação continuaram a performar bem no início do ano.

Falo de segmentos da indústria de transformação, como bens de consumo duráveis e bens de capital, cujos resultados no primeiro quadrimestre foram bastante bons. Os primeiros indicavam crescimento tanto em veículos quanto em utilidades domésticas e bens de consumo eletrônicos, nesse caso estimulados também por uma importante expansão no crédito para as famílias.

Em máquinas, mencionamos mais de uma vez, uma situação também peculiar no mercado interno: apesar da ausência de grandes projetos novos, muitas companhias estavam repondo parte dos equipamentos desgastados e não substituídos nos últimos anos. Além disso, as exportações de equipamentos foram muito boas até abril. Ainda no lado da produção, mineração e petróleo andam bastante bem, como atesta o bem-sucedido leilão na última semana.

Finalmente, o setor agropecuário conseguiu manter e até aumentar um pouco o elevado patamar de produção obtido em 2017. Do lado da demanda, exportações e consumo das famílias davam suporte a esse desempenho.

O que não houve, e daí a frustração, foi a esperada difusão positiva sobre os segmentos que estavam mais atrasados, sendo que o mais importante deles foi a construção civil, na qual apenas o segmento do Minha Casa, Minha Vida segue relativamente bem.

Nas obras públicas, a falta de dinheiro é universal e, no setor de residências, o fenômeno da devolução de imóveis já comercializados continua amassando o mercado. Com a construção não evoluindo, a redução do desemprego ficou mais lenta, o que deve explicar o mau desempenho do setor de bens de consumo não duráveis.

Em terceiro lugar está o segmento de bens intermediários, no qual a questão não é apenas de uma demanda que anda pouco, mas muito mais do crescimento das importações.

Entretanto, em meados de maio configurou-se rapidamente um cenário de crise, que resultou da confluência de duas tendências, ruins e incertas, com dois fatos detonadores, o Copom e a greve dos caminhoneiros.

A primeira tendência ruim é que o cenário internacional, que vinha muito tranquilo, está claramente piorando. Na política, temos disputas dos Estados Unidos com China, Coreia do Norte e Irã e crises na Europa (Brexit, Europa Oriental, mudanças de governo na Itália e na Espanha).

Na área comercial, Trump briga com todo mundo e ameaça renegar todos os acordos já feitos, como o que já ocorreu com o TPP. Finalmente, a combinação de pleno emprego com política fiscal expansionista e das tarifas está levando a uma alta dos juros e ao fortalecimento do dólar.

Nada disso é bom para o Brasil.

Na política interna, depois do receio de uma polarização Lula x Bolsonaro, veio o temor de uma final Ciro x Bolsonaro, resultado, inclusive, da grande fragmentação do chamado “centro democrático”.

Essas incertezas encontraram na decisão do Copom em 16 de maio e na greve dos caminhoneiros os detonadores da paralisia da economia e de uma crise nos mercados.

Se esta última poderá ser contornada com uma ação firme do Banco Central (como aconteceu na sexta-feira), o enfraquecimento do governo não tem solução. Basta ver a péssima gestão da crise e as idas e vindas da tabela de fretes.

Independentemente do que possa acontecer adiante, já temos uma vítima fatal: o crescimento de 2018.
---------------------
*Economista

terça-feira, 6 de março de 2018

Afinal, juro baixo para o cidadão?

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS
ESTADÃO - 04/03

Estamos diante de um movimento de ruptura que não deve ser subestimado

A inflação continua surpreendendo positivamente. Projetamos agora 3,6% para o IPCA deste ano e 6,5% para a taxa Selic, do Banco Central. Isso resulta da ausência de choques de oferta no horizonte (energia, preços agrícolas e petróleo), bem como da constatação de que os mecanismos de realimentação da inflação estão muito enfraquecidos. A inércia da inflação também pode ser positiva. Corremos mesmo o risco de três anos consecutivos com inflação inferior a 4%. 

Isso é algo que jamais aconteceu na história moderna do Brasil, o que não é pouco. Especialmente porque será um resultado obtido com preços livres, sem congelamentos, controles de câmbio nem outras intervenções. 

O mais relevante dessa situação é a oportunidade de baixarmos muito as taxas de juro, desde que um reformista ganhe a eleição presidencial. Com a realização de reformas fiscais no início do próximo governo e com a herança da inflação baixa será possível reduzir a taxa de equilíbrio, permitindo que o crédito cresça de forma significativa. 

Entretanto, temos a oportunidade de começar a ver reduções importantes nos “spreads” bancários e nas taxas de empréstimo ainda neste ano, devido a duas razões adicionais. Primeira: o Banco Central tem uma importante agenda de revisão regulatória, que passa por diminuição de compulsórios, regulação da operação de cartões de crédito e o estímulo à ampliação da concorrência no mercado. 

Segunda razão: assistimos a um crescimento vertiginoso das empresas financeiras de base tecnológica, o que vai pressionar bastante o “spread” bancário no crédito de pessoas físicas, elevando a competição com os grandes bancos. Um levantamento de novembro do ano passado, feito pelo FintechLab, encontrou 332 instituições, das quais 58 se dedicavam a créditos e empréstimos, e esse número continua a crescer. 

Consideremos, além disso, os seguintes pontos:

– As grandes plataformas digitais, em várias partes do mundo, começaram a realizar empréstimos a pessoas e empresas. Um exemplo é a Amazon no mercado americano. No Brasil, o site Mercado Livre começa a financiar vendedores. 

– As cooperativas de crédito vêm crescendo enormemente. Se as consolidarmos como se fossem uma única instituição, já seriam o sétimo banco no País. Quando a regulamentação de empréstimos de pessoa para pessoa (“peer-to-peer”) vier a público, essas instituições poderão dar um salto enorme, dada a sua estrutura associativa. Nesse caso, as taxas de aplicação serão muito mais baixas do que as do mercado atual, sem detrimento de uma boa remuneração para o poupador. 

– Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou uma resolução que facilita a transferência automática da conta salário para contas digitais de serviços financeiros que não são oferecidos por instituições bancárias, permitindo o pagamento de contas e de outras operações sem custos ou com tarifas muito baixas. 

– Um exemplo recente dessa movimentação está no acordo realizado entre a BV Financeira e o GuiaBolso, uma bem-sucedida plataforma que nasceu para auxiliar as pessoas a organizar a vida financeira, mas que passou a incluir, mais recentemente, assessoramento de investimentos. A grande vantagem é que os milhões de usuários do GuiaBolso têm suas informações corretas (afinal, são da própria pessoa) e permitem algoritmos de avaliação de risco muito mais precisos.

– A permissão de pessoas e empresas para que seus dados possam ser partilhados e utilizados é uma enorme novidade, que certamente trará grande repercussão no mercado de crédito. 

Alguém poderá dizer que esses movimentos ainda são muito pequenos para afetar o mercado de empréstimos bancários. Entretanto, não tenho dúvida de que estamos diante de um movimento de ruptura que não deve ser subestimado. A velocidade do avanço tem sido notável. 

* É ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS.

domingo, 25 de maio de 2014

Ainda a estagnação do crescimento

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS
O Estado de S.Paulo 

Viajei esta semana a Cuiabá para participar de um evento e levei um choque. Embora soubesse que lá a preparação para a Copa não ia bem, a situação ao vivo e em cores mostrou-se muito pior do que imaginava. No aeroporto, a única coisa pronta é a parte velha e tudo indica que pouco vai mudar até o dia 13 de junho, data do primeiro jogo a ser lá realizado. Apanhar um táxi é uma aventura, tal é o estado da praça em frente ao terminal de passageiros. A jovem que vendeu o tíquete da Cooperativa pediu que tivesse cuidado para não ser atropelado, dada a confusão de veículos.

O aeroporto fica no município de Vargem Grande e é relativamente distante do centro de Cuiabá. Todo o trajeto foi feito por ruas secundárias, numa incrível confusão viária. As vias principais estão em obras e não me parece que estarão adequadamente prontas até junho. Finalmente, o mais incrível é que a construção do veículo leve de transporte (VLT) está no seu início, mas os buracos ocupam o canteiro central da avenida. Com humor resignado, um executivo de lá me disse que até a Olimpíada a obra deverá ficar pronta. Pena que o evento seja realizado no Rio de Janeiro.

O descrito acima ilustra uma realidade bastante clara. O efeito econômico da Copa será muito menor do que o imaginado por seus organizadores. Os investimentos serão muito menores do que os prometidos, concentrando-se mais nas próprias arenas, boa parte das quais ficará completamente subutilizada nos anos subsequentes, uma vez que não há torcida que preencha minimamente muito dos estádios (meu filho, André, informou-me que a última final do campeonato amazonense foi assistida por pouco mais de 3.100 espectadores), incluindo grandes eventos musicais. Poucos investimentos que deixariam efeitos multiplicadores permanentes, como metrôs, VLTs, trens e outros do tipo, foram realizados.

Além disso, a Copa pouco empolgou a população, como mostrou pesquisa recente do Datafolha, quando 66% das pessoas consultadas disseram que o evento trará mais prejuízos do que benefícios para o País. Essa percepção reforçou uma situação de redução nas expectativas de consumidores e produtores, acelerando a queda na atividade. Não apenas os produtos associados à Copa venderam pouco, como boa parte do comércio relata uma alta inesperada de estoques, levando muitos fornecedores a reduzir a sua atividade. A Whirlpool, por exemplo, acaba de dar férias coletivas para 5 mil dos seus funcionários, reforçando o movimento de outros setores importantes, como o setor automotivo. É bastante provável que alguns desses funcionários sejam dispensados nos próximos meses.

Os inúmeros feriados dos próximos dias também contribuirão para a redução das vendas, produção e PIB. Como as pesquisas mostram, as expectativas empresariais também estão sendo afetadas pelas incertezas e custos associados à energia elétrica, e a taxa de investimentos deve se manter relativamente estável, similar ao baixo nível dos últimos anos.

Não tenho dúvida que deveremos rever, para baixo, nossa atual projeção de 1,3% para o crescimento do PIB deste ano, ainda mais uma vez.

Com esse cenário, a estagnação econômica dos últimos quatro anos estará mais do que caracterizada. Um período longo como esse revela algo estrutural e não um evento fortuito. Fica demonstrado que algumas das hipóteses utilizadas pela política econômica atual se mostraram totalmente equivocadas, a saber:

(1) Um pouco mais de inflação não criaria problemas. Desde que o teto da meta não seja ultrapassado, tudo estará bem. Como se sabe, não apenas a inflação deste ano vai ultrapassar o teto da meta, como a redução e controle artificial de preços de energia e de transportes tem de ser mantida a qualquer custo;

(2) Bastaria estimular a demanda, que a oferta cresceria. Na realidade, isso até aconteceu, mas o que cresceu mesmo foram as importações. Que o diga a indústria;

(3) Os investimentos subiriam com o tamanho do orçamento do BNDES e outros bancos públicos, bem como no volume de incentivos (ou como gosto de chamar, caramelos) tributários. Os dados do IBGE mostram a estagnação na taxa de investimento brasileiro em níveis compatíveis apenas com crescimento modestíssimo, como o dos últimos tempos;

(4) Os investimentos subiriam em decorrência de um intenso ativismo governamental que criasse "modelos" para as operações das empresas. O desastre do setor elétrico ilustra bem o que ocorreu;

(5) A economia cresceria puxada por uma elite de super campeões nacionais. Além de não existir crescimento, vários desastres empresariais recentes mostram a fragilidade da proposição. A realidade é que não existirão muitas empresas campeãs globais num sistema pouco competitivo. E o Brasil vai muito mal no quesito competitividade. O indicador do IMD, divulgado na semana passada, mostra que, nos últimos quatro anos, o Brasil perdeu posições, caindo do 38.º lugar para o 54.º, num grupo de 60 economias analisadas. Como colocou o professor Carlos Arruda (da Fundação Dom Cabral e coordenador do estudo), "entre 2010 e 2013, o Brasil vinha perdendo posições relativas, porque a competitividade de outros países vinha aumentando. Agora, em 2014, aconteceu algo diferente, a perda foi absoluta. O Brasil perdeu para ele mesmo. A competitividade, de fato, diminuiu".

Os casos de sucesso, como a Embraer, ainda são exceções e resultam de um processo de longo prazo e de condições especiais. Ainda assim, como mostra a própria Embraer, não haverá campeões de verdade sem um desenvolvimento tecnológico contínuo e consistente. O exemplo da cadeia do agronegócio é ilustrativo: seus custos (de mão de obra, logística e tributários) têm subido como em todos os outros setores da economia. Entretanto, a cadeia é competitiva porque há uma contínua elevação da eficiência e da produtividade, que permite a absorção de maiores despesas sem perda de competitividade nos mercados globais.

Como não me canso de repetir, crescer não é fácil. Discursos triunfalistas não resolvem o problema.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O crescimento é um processo de longo prazo


JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

O ESTADO DE SÃO PAULO 


Em nosso último encontro, discutimos que o crescimento é, antes de tudo, um processo de longo prazo. Em todo o mundo, as regiões e países sempre vivem surtos de expansão, nem sempre duráveis. Entretanto, são poucos os lugares onde uma tendência sustentada de crescimento emerge entre as flutuações de prazo mais curto. Entender quais são as causas do sucesso, não apenas econômico, mas também social, tem exigido grande esforço dos economistas e de outros cientistas sociais.

Chamamos a atenção que o crescimento econômico resulta de causas comuns a todos os países, como a acumulação de máquinas e instalações, a incorporação de novos trabalhadores e a expansão do conhecimento de todas as formas. Entretanto, os casos bem-sucedidos também dependem de causas específicas, como a dotação de recursos naturais, a natureza das instituições, as questões culturais e a política econômica. Como resultado, não existe uma regra geral; ao contrário, o processo de crescimento nos países é construído penosamente ao longo do tempo, e resulta de uma peculiar combinação de processos e políticas gerais e específicas.

Queremos hoje chamar a atenção para uma coisa simples, porém fundamental: o sucesso passado não garante o sucesso futuro, isto é, países podem perder vantagens comparativas, vitalidade e até, viabilidade.

Para tanto, continuaremos a usar a mesma metodologia já usada no artigo anterior: o indicador de crescimento de longo prazo é apresentado como a proporção (%) do PIB per capita de cada região em relação ao dado americano para o mesmo ano. O período coberto vai de 1870 a 2008, último dado da série. A utilização do PIB americano como padrão reflete simplesmente o fato de que, neste período, a economia americana se tornou a maior do mundo. Os dados utilizados são os coletados pelo economista Angus Maddison e estão em dólares de 1990, no conceito da Paridade do Poder de Compra.

No gráfico 1, selecionamos três países latino-americanos: Argentina, Uruguai e Venezuela. Os dois primeiros países são casos clássicos, como Canadá e Austrália, de crescimento muito rápido a partir de meados do século XIX, tendo como motor a produção agropecuária destinada ao abastecimento europeu. O crescimento da renda gerado por esse processo, além dos investimentos em infraestrutura e educação, resultou num PIB per capita muito elevado, que se situou entre 70% e 80% do americano no começo do século XX.

É fartamente conhecido, por exemplo, que a cidade de Buenos Aires se tornou uma das cinco melhores do mundo por volta de 1910-20. Entretanto, a partir da Grande Depressão dos anos 30, esses dois países conheceram um longo processo de recuo na produção per capita até o início do século atual. A pesquisa disponível sugere, sem sombra de dúvida, que o persistente fechamento ao resto do mundo, a inflação e as recorrentes crises políticas retiraram todo o dinamismo do sistema, levando a vários colapsos externos. No caso argentino, o gráfico mostra que a recuperação econômica pós-moratória, tão admirada por alguns colegas, foi totalmente incapaz de recolocar o país numa trajetória mais sustentada de recuperação. As instituições, como educação e Judiciário, e até sua fantástica agropecuária estão encolhendo. O mundo do casal Kirchner começa em Santa Cruz e termina em Buenos Aires. O horizonte do país é cada vez mais estreito.

O Uruguai, entretanto, está se movendo, ligando-se cada vez mais ao dinamismo dos mercados brasileiros, buscando um grande salto educacional (creio que é o primeiro país do mundo a entregar um computador para cada criança na escola) e maiores laços com o resto do mundo, quebrando seu fechamento. Penosamente, pode voltar a crescer mais.

Do nosso terceiro caso falamos neste espaço em julho passado, num artigo denominado "A Venezuela rumo ao desastre".

O país nunca soube aproveitar adequadamente a bonança de seus recursos naturais, sendo um bom exemplo da maldição do petróleo. O que Chávez está fazendo é completar o serviço, e ainda terá tempo para destruir o que resta da economia e da democracia no país.

Em resumo, é sempre possível perder as chances de chegar lá e voltar para trás.

No outro extremo, mas igualmente perturbador, é o que parece começar a acontecer em outros lugares, onde um processo muito rápido e bem-sucedido de crescimento, a ponto de ser chamado de milagre e colocar certos países no rol dos desenvolvidos, perde a energia e é sucedido por uma estagnação sem horizonte para terminar.

Os casos mais vistosos dessa situação são o Japão e a Itália. É certo que a riqueza acumulada permite viver a estagnação com certa dignidade. Como me disse o dono de um restaurante em Verona, "a vida aqui ainda é muito boa". Entretanto, isso vai apenas até um certo ponto, pois as oportunidades para os jovens vão rareando e as tensões se acumulando, especialmente na área do emprego e do conflito regional. Em ambos os países, recorrentes crises políticas são causa e efeito da estagnação.

Como pode ser visto no gráfico 2, Japão e Itália sofreram muito com a Segunda Guerra. Entretanto, a partir de 1950, o crescimento disparou e o PIB atingiu níveis elevados.

No caso do Japão, a crise se instala com o estouro da bolha imobiliária e da Bolsa, em 1989. Desde então, um cenário deflacionário impera no país, com todos os problemas decorrentes dessa situação, como retração no consumo e no investimento. Uma queda recorrente no tamanho da população, seu envelhecimento (com o consequente déficit estrutural da previdência) e a resistência social à imigração só complicam o quadro. Sem ter onde investir, as empresas acumulam caixa (US$ 2,5 trilhões) e, num país onde a taxa de juros é zero, mais da metade das grandes corporações não tem dívidas!

Na Itália, o PIB per capita (como proporção do americano) já começa a cair a partir de 1980-85, queda que se acentua de 1995 em diante. Desde então, a produtividade da economia parou de crescer (em termos técnicos, a produtividade total dos fatores tem crescimento zero, desde então). Também nesse país, a dinâmica populacional é perversa e os imigrantes são discriminados. Assim como no Japão, reformas que poderiam dar mais dinamismo à economia não avançam. O sistema político não ajuda de forma alguma: basta pensar nos problemas recorrentes do primeiro-ministro e no fato de que o partido que mais cresce (Liga Norte) quer dividir o país em dois.

Encerro dizendo mais uma vez que crescimento é um processo de longo prazo e o desafio de transformar o país de forma sustentável ao longo do tempo é formidável, de todos e de mais de uma geração. Ademais, riscos e novas demandas, como equidade e meio ambiente, estão sempre a aparecer.

Para que se transformem em oportunidades, é preciso, antes de tudo, a vontade e a capacidade de mudar constantemente. Finalmente, é preciso ficar esperto, pois o crescimento nunca está garantido. Em qualquer ponto do processo, é sempre possível estagnar e até retroceder.
.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Crescimento é um processo de longo prazo

O texto é bastante explicativo, acadêmico até. Permite que tenhamos uma boa dimensão do que venha a ser o tal do "sustentável" que tanto se apregoa mas que parece não se pratica.
Uma verdadeira aula, apesar de breve no relato.
Vale a pena conferir.




Crescimento é um processo de longo prazo
José Roberto Mendonça de Barros
O ESTADO DE S. PAULO

O crescimento econômico, em seu sentido mais amplo, é o objetivo de todos os países, especialmente daqueles onde os níveis de renda ainda são modestos. Maior renda possibilita maiores níveis de consumo e de bem-estar, especialmente se também ocorrerem melhoras distributivas que permitam estender os frutos do sucesso a todas as famílias, eliminando os focos de pobreza e a insegurança alimentar. A busca do progresso e do entendimento de suas causas é um fenômeno, do ponto de vista histórico, relativamente recente e vem da época da revolução industrial inglesa e dos economistas clássicos.

Uma das poucas coisas sobre as quais não perduram dúvidas é que o crescimento é um fenômeno de longo prazo. Todas as regiões gozam de certos períodos de expansão, por diversas causas. Entretanto, poucos países conseguem sustentar um progresso suficientemente rápido por longos períodos, de sorte a mudar permanentemente a sociedade e a sua posição relativa entre as nações. Da mesma forma, o sucesso do passado não garante o do futuro, isto é, os países podem perder vitalidade e viabilidade. A China dos séculos 18 e 19 é um bom exemplo a ser lembrado.

Pretendo neste e no próximo artigo mostrar alguns casos de sucesso, a posição do Brasil e alguns insucessos, visando a contribuir para o entendimento das dificuldades que acompanham a busca pelo progresso.

O desenvolvimento é uma contínua superação de tensões, onde a solução de um problema abre a porta de mais dois. Envolve e resulta em modificações de toda a sociedade. Depende de algumas causas gerais, necessárias em todos os lugares (por exemplo, sem investimento não há crescimento) e coisas específicas (dotação de recursos, instituições). É um processo construído, mesmo que muitas vezes não se tenha a total dimensão do evento, no momento de sua ocorrência. As demandas começam mais simples (como superar o riscos de fomes generalizadas ou o colapso do comércio internacional) e vão se sofisticando a partir de sucessos iniciais, passando a incluir a redução de recessões recorrentes, melhor distribuição de renda, redução de desigualdades regionais, inclusão das mulheres e, mais recentemente, a questão ambiental.

A forma mais simples de medir o crescimento econômico ainda é dada pela evolução do Produto Interno Bruto (PIB). Sabemos que esta é uma medida imperfeita, pois não incorpora questões como a distribuição de renda e qualidade de vida. Daí porque os economistas começaram também a se utilizar de outras medidas, como o popular Índice do Desenvolvimento Humano (IDH), que, além de renda, incorpora a longevidade e a educação. Entretanto, séries longas para vários países existem apenas para o PIB e a população, o que não é muito grave, pois ao longo do tempo PIB e qualidade de vida são bastante correlacionados.

Também a forma mais simples de comparar o desempenho de países ao longo do tempo é referenciá-los àquele de melhor performance, que no período recente são os EUA. Assim, a evolução do PIB de cada país é apresentada, em cada momento, como uma porcentagem do equivalente americano.

Utilizamos aqui a monumental base de dados coletada pelo economista inglês Angus Maddison, recentemente falecido. O período de análise vai de 1850 até 2008. Os valores estão em dólares de 1990 e são ajustados pela Paridade do Poder de Compra (PPP). [...] o PIB per capita americano, que cresce durante todo o período, refletindo sua ascensão à condição de maior e mais importante economia (embora não seja o maior PIB per capita).

O crescimento brasileiro de longo prazo teve um desempenho mediano, pois, embora a produção tenha crescido, nosso PIB per capita flutua em torno de 20% do americano há mais de cem anos, com um breve pico em torno de 1980, quando pareceu que o País iria decolar. A crise de 1982 liquidou com o sonho do Brasil Potência.

Uma comparação com a Coreia do Sul mostra bem o que dissemos acima. Como se vê [...], o PIB coreano foi por muito tempo similar ou pior que o brasileiro, especialmente considerando os problemas da península no início dos anos 50. Tão próximo quanto 1970, a Coreia era mais pobre que o Brasil.

A partir daí, o desempenho coreano é um fenômeno, colocando o país no grupo dos desenvolvidos. Muito se discutiu do porquê dessa diferença, mas duas razões fundamentais são universalmente aceitas: a Coreia realizou um enorme esforço educacional (este economista estava na Universidade Yale, em 1973, quando os coreanos começaram a chegar em massa para fazer doutorado) e sempre buscou ter uma indústria competitiva, exposta à concorrência global.

Também se discute muito a importância da política industrial, tema bem controverso. Aqui, uma coisa parece segura: além da educação, a Coreia fez esforço na direção de construir um sistema de inovações, que hoje é bem significativo. Por outro lado, tenho dúvidas que a escolha de campeões nacionais tenha sido fator decisivo, dado o grande número deles que foi quebrando ao longo do caminho e o frequente socorro do Estado aos mesmos. Na mesma época, o Brasil também buscou campeões nacionais, sem que isso tivesse catapultado nosso crescimento, embora vários dos grupos ainda existam até hoje.

O caso da Coreia não é o único, [...]o desempenho de Taiwan, bastante parecido com o caso coreano. Na realidade, Coreia, Taiwan, Cingapura e Hong Kong são hoje regiões de alta renda e plenamente desenvolvidas.

[...] o caso do Chile, que apresenta uma evidente reversão na trajetória de crescimento relativo a partir de 1990. Neste caso, não pairam dúvidas de que o sucesso chileno tem tudo a ver com os processos de estabilização, abertura e reformas pelas quais o país passou a partir de 1990. O Chile é mais um caso a mostrar que com inflação alta e persistente não existe crescimento de longo prazo, algo que boa parte da América Latina ainda insiste em desconhecer.

Finalmente, mostramos a evolução relativa dos gigantes asiáticos China e Índia. No caso chinês, é visível a mudança de trajetória a partir de 1980, inclusive com o fator de aceleração. Mas também é visível que nós falamos de um país apenas mediano em termos de renda relativa per capita. É por isso que os chineses não podem parar de crescer, coisa que acreditamos que continuará a ocorrer. Finalmente, o caso indiano, onde o PIB per capita de apenas 10% do americano revela o tamanho do desafio que o país tem pela frente. China e Índia mostram também que a demanda potencial por commodities é absolutamente gigantesca, se ajustarmos por suas populações.

Os casos que mostramos, evidentemente, não são os únicos de sucesso, pois vêm imediatamente à mente os países nórdicos, o Canadá e a Austrália. Entretanto, todos eles mostram, definitivamente, que o crescimento é um processo de longo prazo, de várias gerações. Devemos, pois, ficar vacinados contra autoavaliações triunfalistas que falam que o Brasil desenvolveu com sucesso um novo modelo de crescimento econômico.

É economista

.

GEOMAPS


celulares

ClustMaps