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quinta-feira, 25 de julho de 2019

Cair na real

- ZEINA LATIF ESTADÃO - 25/07

A fraqueza da economia não é conjuntural e transitória, mas sim estrutural 



Em meio a doses de desânimo em relação ao quadro econômico, muitos questionam quando será possível uma arrancada do crescimento. A resposta passa pela compreensão do porquê o Brasil está estagnado.

Fazer diagnósticos não é tarefa fácil e há muitas divergências entre os economistas. Alguns dão mais peso a choques de curto prazo, como a Argentina ou a greve dos caminhoneiros no ano passado. No entanto, estivesse a economia mais sólida, choques adversos teriam impacto mais modesto e transitório.

Outros apontam para a mudança da política econômica nos últimos anos, com o corte dos gastos públicos e do crédito dos bancos estatais. Seria como uma crise de abstinência pela falta dos impulsos econômicos promovidos no passado, sem uma compensação tempestiva do setor privado.

Sem dúvida, há setores que sentem bastante o menor protagonismo estatal, como a construção civil. O segmento habitacional, por exemplo, sofre com o encolhimento do Minha Casa Minha Vida, que era responsável por mais de 70% da oferta de moradias. Vale também colocar na conta os grandes projetos de infraestrutura. Ocorre que foi a mudança do regime de política fiscal que permitiu taxas de juros do Banco Central inéditas no País, produzindo a recuperação paulatina do crédito e o crescimento do mercado de capitais.

Ainda que esses fatores acima possam ser relevantes para compor o quadro de estagnação, não seriam a razão principal para a fraqueza da economia. A importância excessiva dada a eles acaba sendo justificativa para a defesa de estímulos de curto prazo, como a liberação do FGTS.

É crucial, porém, que essas políticas estejam inseridas em um contexto mais amplo de reformas estruturais, para evitar desperdício de recursos e de tempo. Isso porque o grande problema da economia brasileira é estrutural, com encolhimento do potencial de crescimento. Pelas estimativas do economista sênior da XP, Marcos Ross, ele seria atualmente ligeiramente inferior a 1%, ante em torno de 3,5% na média das gestões FHC e Lula.

Foram muitos recursos públicos gastos de forma ineficaz, como o crédito subsidiado para setores que poderiam acessar o mercado de capitais e sem impor contrapartidas de metas de investimento; renúncias tributárias setoriais, em vez de se promover a inovação e o treinamento da mão de obra para todos os setores; projetos questionáveis de infraestrutura, etc. Além disso, houve aumento da insegurança jurídica, em função das frequentes mudanças de regras do jogo, como na tributação e em regulações de setores. O resultado é a infraestrutura insuficiente e deteriorada, mão de obra pouco qualificada, parque produtivo obsoleto e problemas de gestão das empresas, que sofrem com o custo Brasil.

Os problemas não param aí. O difícil ambiente de negócios gera distorções na estrutura produtiva, pois é barreira natural para entrada de novas empresas em muito setores e ameaça as médias empresas existentes. O resultado é a maior concentração nos setores, prejudicando os consumidores. Além disso, estimula-se a informalidade, reduzindo a produtividade da economia.

Há analistas que depositam excessivo otimismo no avanço das reformas. Um ambiente econômico estável contribui certamente para o avanço da agenda econômica (gastamos tempo demais discutindo a taxa Selic), mas não é automático. É necessário esforço reformista, o que não é fácil. Basta notar as idas e vindas de anúncios do governo, como a redução das tarifas de importação de bens de capital e informática. E não será uma reforma sozinha que permitirá a aceleração do crescimento ao menos para o patamar mundial (3,5%), como no passado. Não há bala de prata.

Vamos encarar os fatos. Não há milagre para gerar uma arrancada de crescimento. A fraqueza da economia não é conjuntural e transitória, mas sim estrutural.

Caberá ao governo Bolsonaro avançar na agenda de reformas, com a ingrata realidade de que o grosso do benefício poderá ficar para uma próxima administração.

ECONOMISTA-CHEFE DA XP INVESTIMENTOS

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Triste episódio

Zeina Latif *- O Estado de S.Paulo

A combinação de governo sem credibilidade com apoio ao movimento aumentou a fatura

Difícil explicar para a sociedade indignada a complexidade que envolve a paralisação dos caminhoneiros. Para piorar, ninguém quer ouvir explicações de um governo com reduzida credibilidade. O resultado é o apoio de parcela importante da sociedade à greve.

A raiz da crise está nos equívocos de governos passados, como apontado por Samuel Pessôa. Os caminhoneiros reagiram à queda do seu rendimento e às incertezas em relação ao rendimento no futuro. De um lado, fretes deprimidos pela recessão e pelo crescimento excessivo da frota de caminhões (54% entre 2008 e 2014) estimulado por crédito subsidiado. De outro, o ajuste expressivo do preço do principal insumo dessa atividade, depois de vários anos de preços controlados, que gerou um custo em torno de US$ 40 bilhões para a Petrobrás, segundo especialistas.

A conta do artificialismo na economia tardou, mas apareceu, gerando uma sensação de que toda a culpa da crise é do governo atual, ainda que este tenha sua parcela de responsabilidade. Um governo enfraquecido que não consegue mais aprovar reformas, resistir a pressões de grupos de interesse e restabelecer a ordem.

Os motoristas autônomos e as pequenas transportadoras têm razão em reclamar da flutuação excessiva do preço do diesel, pois não conseguem repassar tempestivamente esse custo ao valor do frete. Além disso, não há mecanismos de proteção (hedge) disponíveis. Mas isso não justifica uma paralisação ampla e duradoura, bloqueando estradas e afetando setores vitais.

A Petrobrás também tem razão de repassar ao consumidor a alta do dólar e do diesel no mercado internacional. É necessário preservar sua solidez financeira e capacidade de investir. Pode-se discutir a forma de repasse, mas não o repasse em si.

O cenário externo mudou, o preço do diesel subiu e a conta precisa ser paga. Em condições normais, parte do choque de custo seria absorvida pelo setor produtivo, e, certamente, o grosso seria repassado ao consumidor final. Na saída desorganizada de agora, o ônus para a sociedade ficou bem mais alto, pelo impacto fiscal e na economia.

A combinação de governo sem credibilidade, apoio da sociedade ao movimento e eleições aumentou a fatura. A redução de R$ 0,46 no litro do diesel é significativa e as demais medidas do acordo lembram o Brasil do passado.

O impacto na atividade econômica não será desprezível. Há destruição de riqueza, como na indústria de alimentos; há perdas que não serão recuperadas, como no setor de serviços (meios de pagamentos e companhias aéreas, para citar alguns); e prejudica-se a saúde financeira de empresas, que poderão ter dificuldades para honrar compromissos. Mais difícil ficará a vida dos desempregados.

Além disso, a imagem do País foi afetada, sendo que as mudanças de contratos, como no caso do pedágio, e o sentimento de vulnerabilidade da Petrobrás podem afastar investidores.

Esse triste episódio revela várias fragilidades do Brasil: a resistência de grupos organizados às reformas estruturais, como o fim de subsídios; a vulnerabilidade da sociedade ao populismo e a fraqueza das instituições. Órgãos de controle não reagiram como deveriam. Atos ilegais dos grevistas não foram condenados e o acordo proposto pelo governo em vários pontos vai na contramão da defesa da concorrência, como apontado por Marcos Lisboa.

O comportamento da classe política e dos poderes preocupa. Com a fraqueza do Executivo, a responsabilidade deveria ser ainda mais compartilhada pelos demais poderes e esferas de governo. Houve oportunismo e omissão de muitos. Os governadores, de uma forma geral, lavaram as mãos, enquanto deveriam participar da solução com a mudança de cálculo do ICMS sobre o diesel e garantir o fluxo nas estradas. Lamentavelmente, alguns presidenciáveis pegaram carona na crise.

Não foram só as mercadorias que sumiram. O espírito republicano e a responsabilidade com o País também.
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* Economista

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O gradualismo e os jovens

Zeina Latif - O Estado de S.Paulo

Os jovens têm pressa e precisam ter perspectiva, em qualquer lugar do mundo

Apesar dos esforços do Ministério da Fazenda para sanear as contas públicas e reduzir o risco fiscal no futuro, como na regra do teto, a estratégia de ajuste fiscal tem sido gradualista. Como consequência, não é possível afastar tempestivamente o risco de insolvência, que poderá ameaçar a estabilidade econômica recentemente conquistada.

O gradualismo não decorre de erro de diagnóstico ou falta de empenho da equipe econômica, mas sim da rigidez orçamentária. Os gastos obrigatórios comprometem, desde 2015, praticamente toda a receita líquida do governo federal. Em 2017, estes equivaleram a 101% da receita líquida, sendo 53% despendidos com a Previdência.

Não basta, portanto, a austeridade do Executivo para fazer o ajuste fiscal. O Congresso precisa ser parceiro na empreitada, aprovando reformas estruturais que reduzam o engessamento do orçamento. Não tem havido apoio para cortar gastos e, para piorar, muitas vezes o Congresso impõe derrotas ao governo, sem se preocupar de onde virá o dinheiro. O próximo presidente precisará ter muita habilidade política.

O gradualismo é mais palatável politicamente, mas implica muitos riscos. Os países ficam mais vulneráveis ao humor dos investidores e às condições de liquidez internacional.

A experiência argentina recente é exemplo disso. O governo Macri não conseguiu reduzir o déficit público (4,8% do PIB), comprometendo, assim, o ambiente econômico. O financiamento inflacionário do déficit (em 1,5% do PIB, segundo o FMI) pressiona a inflação, o que é particularmente grave em uma economia tão dolarizada. Corrói-se a credibilidade do Banco Central, que também não foi suficientemente zeloso. As contas externas são também afetadas pelo déficit público e pela inflação elevada que valoriza o peso argentino em termos reais. Estrago completo, especialmente para um país que deu calote na dívida no passado não tão remoto.

A situação brasileira é menos complexa no curto prazo, pois o governo Temer conseguiu reduzir a inflação e os fundamentos externos são sólidos. Os desafios do próximo presidente, no entanto, não serão muito diferentes daqueles enfrentados por Macri. O Brasil necessita urgentemente de reformas para consolidar a recuperação da economia e dar conta das consequências do envelhecimento do País.

Importante lembrar que o desafio será também dos governadores. Afinal, o gasto com a folha já consome em média 60% da receita líquida; e só vai crescer com o aumento do número de aposentados e pensionistas.

Uma estratégia gradualista no próximo governo, com uma reforma da Previdência tímida (assumindo que o próximo presidente terá clareza de que ela é inadiável) e agenda pobre de reformas, poderá comprometer as políticas públicas e o aumento do emprego e da renda.

Um cenário como esse será particularmente prejudicial às crianças que sofrem com a desigualdade de oportunidades, pelo colapso dos serviços públicos, e aos jovens que adicionalmente sentirão o desemprego elevado. Mas as consequências irão se estender a todos: um país mais violento e com renda per capita praticamente estagnada.

A foto não está nada boa. O desemprego entre os brasileiros entre 18 e 24 anos chegou a 28% no primeiro trimestre deste ano. Há ainda os “nem-nem” – nem trabalham, nem estudam –, que chegaram a 23% no grupo entre 15 e 29 anos em 2017. Triste também a cifra de 170 mil jovens que abandonaram a faculdade, por conta do desemprego dos chefes de família, e os talentos perdidos para o exterior. Dobrou o número de declarações de saída definitiva do Brasil entre 2013/14 e 2017. Dos que migraram para os EUA, apenas 6% não tinham curso superior em 2017, ante 22% em 2013, segundo pesquisa da JBJ Partners.

Uma consequência desse quadro é que os jovens, naturalmente mais precipitados, ficam mais suscetíveis a discursos populistas de presidenciáveis.

Não há espaço para o gradualismo. Os jovens têm pressa e precisam ter perspectiva, em qualquer lugar do mundo. Em Gaza e no Brasil também.

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