Mostrando postagens com marcador Xico Graziano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Xico Graziano. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de junho de 2014

Esguelha ideológica

 XICO GRAZIANO
O ESTADO DE S.PAULO


O teatro separatista, mais uma vez, repetiu-se no campo. Na primeira cena, o governo anuncia o Plano Agrícola e Pecuário para a "agricultura empresarial". Passado alguns dias, divulga o Plano Safra da "agricultura familiar". Belos discursos, amoldados para cada evento, animam uma trama típica do maniqueísmo político. Um país, duas agriculturas.

O Brasil é a única nação importante do mundo que separa a sua agropecuária em dois lados: o do "agronegócio" e o "familiar". Uma política que deveria reforçar a ação pública em favor dos pequenos produtores no campo, desgraçadamente, serve ao modo de governar que distingue a sociedade entre "nós" e "eles". Ou, pior, entre os "bons" e os "maus". Dividir para reinar, ensinava Maquiavel.

Quem, em 1996, criou o programa de apoio e fortalecimento da agricultura familiar (Pronaf) foi o então presidente Fernando Henrique Cardoso. A ideia inicial era, na prática, resguardar uma fatia dos recursos do crédito rural - sempre abocanhado pelos poderosos do agro -, obrigando sua alocação compulsória aos pequenos produtores rurais. Estes foram definidos como os de área máxima com até quatro módulos fiscais. Havia ainda a destinação de recursos públicos, a fundo perdido, para investimentos na infraestrutura de produção e comercialização de núcleos associativos e cooperativados. Funcionou muito bem.

Essa estratégia de desenvolvimento rural considerava que, pequenos ou grandes, todos os agricultores, independentemente das características da produção, precisam e merecem progredir na vida, incorporando as modernas tecnologias para elevar a produtividade, conquistar qualidade, conseguindo, assim, competir na economia de mercado. Sob esse prisma, qualquer política voltada para o meio rural deve ser integradora. Jamais divisionista.

Ao mudar o governo, de Fernando Henrique Cardoso para Lula, a gestão da agricultura brasileira acabou separada em dois ministérios. A partir de então, o conceito de "agricultura familiar" começou a ser totalmente deformado, passando a significar os "pobres" no campo, em oposição aos "ricos", aglutinados no "agronegócio". Jamais, em tempo algum, se produziu tamanha bobagem no pensamento agrário. Mera, e retrógrada, ideologia.

Sabem os estudiosos da economia e da administração, mesmo os iniciantes, que por "familiar" se considera a gestão de um negócio, independentemente do tamanho do empreendimento. Ao contrário das corporações, uma empresa familiar se rege pelas decisões de seus próprios donos. Na agricultura significa que os proprietários tocam com seu trabalho a fazenda, havendo apenas auxílio eventual de mão de obra assalariada. Familiar, sempre, refere-se ao comando da atividade produtiva.

Nos EUA, as estatísticas mostram que cerca de 90% dos agricultores se classificam como familiares. Graças ao avanço da mecanização, um pai com dois filhos, por exemplo, mostra-se capaz de conduzir áreas de terra cada vez maiores, submetidas à elevada tecnologia. Essa tendência da agricultura norte-americana se assemelha aqui, no Brasil, especialmente à das fronteiras do Centro-Oeste. Grandes fazendas, com soja ou milho, exploram-se espetacularmente com mão de obra familiar, não raro a mulher participando dos trabalhos de campo, sentada no banco do trator, ao lado do marido e dos filhos. Agronegócio familiar.

Inexiste contradição nos termos. Mas, por aquelas razões difíceis de explicar, talvez por causa da histórica ojeriza ao sistema latifundiário, aqui somente se considera familiar quem é pequeno produtor rural. Passou a ser o tamanho, e não a gestão, o critério fundamental. Remetido ao jogo da política, o conceito de agricultor familiar desvirtuou-se completamente, acabando associado à pobreza rural, ao atraso, à subsistência na terra. Nele se incluíram os assentamentos da reforma agrária.

A esguelha ideológica cresce quando se limita o agricultor familiar à produção de comida popular. O discurso enviesado diz assim: "O agronegócio serve à exportação, quem alimenta o povo é a agricultura familiar". Besteira pura. No Paraná, por exemplo, que é grande produtor nacional de soja, quem domina o campo são os sitiantes enquadrados no Pronaf. Seu sucesso depende do cooperativismo. Na famosa Cocamar, situada em Maringá, entre 12 mil associados, 80% cultivam até 50 hectares. Conduzem suas lavouras familiarmente, participam diretamente do agronegócio, remuneram-se pela receita da exportação dos grãos. Modestos, mas capitalistas, numa boa.

Sim, é verdade que a maioria dos alimentos básicos (arroz, feijão, mandioca, leite, batata) advém de pequenas propriedades. Fato estatístico. Quando, porém, se analisam as condições da produção e o fluxo de comércio, verifica-se que, majoritariamente, o abastecimento nas grandes cidades se garante pelo trabalho de agricultores que, embora pequenos, utilizam elevada tecnologia, ligados no mercado. Pequenos, e bons, empresários rurais.

Essa complexidade da economia agrária submerge no palco da encenação política. Quando a presidente Dilma Rousseff anunciou, primeiramente, um crédito de R$ 156,1 bilhões para o agronegócio e, depois, de R$ 24,1 bilhões para a agricultura familiar, cavou artificialmente um fosso que, na realidade, inexiste na roça. As cerimônias turvam a realidade agrária.

A agricultura sustentável de que o Brasil carece não se construirá apartando os agricultores entre patronais e familiares, como se existissem os de primeira e os de segunda classe. Ao contrário. Ao favorecer os mais fracos, incluindo os assentados da reforma agrária, uma política agrícola inteligente buscará integrá-los, juntos, ao ciclo do progresso tecnológico no campo.

Sem segregação.

domingo, 21 de outubro de 2012

Ciência dos alimentos



Xico Graziano
O Estado de S. Paulo



Forte polêmica esquentou o mundo da biotecnologia. Pesquisadores de várias partes do mundo contestaram experimento, realizado na França, relacionando os alimentos transgênicos com câncer. Foram além. Denunciaram logro no trabalho.

A pesquisa testou o efeito em ratos de laboratório de ração contendo milho geneticamente modificado, tolerante ao herbicida Roundup (milho RR). No experimento, porém, descobriram-se grosseiros erros metodológicos. Cientistas brasileiros da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), norte-americanos das Universidades da Califórnia e da Flórida, ingleses do King"s College, de Londres, combateram os resultados, apontando falhas inaceitáveis. Com os mesmos dados poderia ter sido provado o contrário, ou seja, que o milho transgênico reduziu, e não aumentou, o risco de câncer nos bichinhos.

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EF-SA) publicou análise desqualificando a pesquisa conduzida por Giles-Eric Séralini, conhecido ativista contrário ao uso da engenharia genética na agricultura. Aposição apriorística dele construiu uma conclusão equivocada. Picaretagem científica.

Vem de longe a discussão sobre a cor ideológica da ciência. Nas ciências sociais, sabidamente, existe enorme dificuldade de os cientistas se isentarem de suas posições políticas nos estudos que realizam. A visão de mundo afeta, inevitavelmente, suas formulações teóricas, induzindo ao viés. Por essa razão existem tantas polêmicas na sociologia e na economia.

Nas ciências exatas, por outro lado, praticamente inexiste relação entre conhecimento e ideologia. Na física ou na química, os fenômenos analisados são quantificáveis na exatidão. Mede-se a velocidade da luz, detalham-se as estruturas moleculares. Na matemática, dois mais dois são quatro, e acabou.

Já nas ciências naturais, como a biologia e a agronomia, que estudam os seres vivos e j seu ambiente, os fenômenos, j além de complexos, variam em sua manifestação. Sua mensuração é difícil, estimada, nunca precisa. Podem-se observar tendências, leis gerais a guiar os processos vitais, mas cada i um deles pode reagir distintamente aos estímulos do meio onde vivem. Existem incertezas, imprecisões.

Como diz o caboclo, aqui é que o bicho pega. Mesmo quando não são politicamente engajados, os pesquisadores raciocinam segundo seus princípios culturais e éticos. Isso, obviamente, cria distinções dentro dos laboratórios. Sabendo ser impossível a isenção ideológica, as normas científicas exigem que sejam conhecidos, e divulgados com clareza, os pressupostos básicos e a metodologia dos estudos, estabelecendo uma espécie de lealdade na busca da verdade.

O rigor do método científico separa o bom conhecimento do fajuto. Este surge da empulhação, da fabricação de resultados segundo objetivos não confessáveis. Aqui parece enquadrar-se essa pesquisa sobre o milho transgênico RR e o câncer. Nem a estirpe nem a idade dos ratinhos alimentados em laboratório se conheciam, e sabe-se que, naturalmente, ratos mais idosos tendem a contrair mais câncer do que os jovens.

Neste 16 de outubro se passa o               Dia Mundial da Alimentação. Estudiosos da questão da fome concordam que o desafio da segurança alimentar não se vencerá facilmente até 2050, quando se estima que a população mundial venha, com 9 bilhões de pessoas, a se estabilizar. Três processos básicos determinarão o sucesso nessa difícil empreitada contra as restrições alimentares dos povos: expansão das áreas de produção; desenvolvimento tecnológico, elevando a produtividade na agropecuária; e surgimento de novas alternativas de comida.             

A engenharia genética cumprirá papel imprescindível rumo à segurança alimentar. Após | 15 anos, desde que deixaram os laboratórios e seguiram para o campo, as variedades transgênicas, manifestadas em dezenas de espécies Vegetais, já ocupam 160 milhões de hectares, plantadas por 16,7 milhões de agricultores, em 29 países. Recebidas inicialmente com temor, nunca se avaliou tanto uma tecnologia. Mesmo procurando chifre em cabeça de cavalo, jamais se provou qualquer dano à saúde humana em decorrência de alimento geneticamente modificado. Nenhum caso.

Novas gerações de organismos geneticamente modificados surgem dos laboratórios mundiais. As primeiras transgenias forneceram resistência das plantas a herbicida, depois às lagartas, daí não pararam mais de evoluir. A engenharia genética está inventando plantas resistentes à seca, tolerantes à salinização dos solos, suportáveis a solos mais pobres. Surgem grãos mais ricos em proteínas e vitaminas, frutas mais duráveis ao armazenamento. Nos animais, acaba de ser anunciada, na Nova Zelândia, uma vaca transgênica capaz de produzir leite sem a proteína beta-lacto-globulinay responsável por causar alergia em até 3% das crianças no primeiro ano de vida. Incríveis fronteiras da ciência dos alimentos.

Normas internacionais proíbem produtores orgânicos de cultivar plantas transgênicas. Cada vez mais se comprova, porém, com biossegurança, o seu benefício na sustentabilidade dos sistemas produtivos. Superplantas transgênicas, resistentes às pragas e doenças, eliminarão o uso dos agrotóxicos na lavoura. Afora o preconceito ecológico, nenhuma razão agronômica opõe o orgânico ao transgênico. Inimigos hoje, poderão andar de mãos dadas amanhã.

Conhecimento científico não rima com ideologia nem com intolerância. Ele se move, estimulado pelo dinamismo civilizatório, pelo desafio do desconhecido. Transilvânia, em latim, significa “além da floresta”. Na Romênia, acredita-se que lá viveu o assustador Conde Drácula, o mais famoso dos vampiros. Mera crença. Nada que ver com transgênico. Pura ciência.
.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Café do Cerrado mineiro

XICO GRAZIANO

O ESTADÃO 


O terroir chegou ao café. Termo característico da viticultura, o atributo da origem, única e delimitada, anima a cafeicultura nacional. Exigentes consumidores da bebida, especialmente do expresso, agradecem. Qualidade certificada não tem preço.

No centro desse virtuoso processo no campo se encontra a Federação dos Cafeicultores do Cerrado, com sede em Monte Carmelo (MG). Ali, ao nordeste do Triângulo Mineiro, se desenvolve um modo de produção peculiar, diferente dos tradicionais cafezais. Os agricultores contam com a vantagem da boa altitude das terras, essencial para a qualidade do café. Mas, além disso, eles cultivam "café com atitude". Não se trata de mero jogo de palavras.

Sabe-se que as plantações em terrenos elevados, entre 800 e 1.300 metros, ganham vantagens na formação e no amadurecimento dos grãos de café. O frescor noturno, contraposto aos dias ensolarados e quentes, melhora a bebida, deixando-a mais encorpada, com aroma intenso. Historicamente, locais de excelente clima e altitude foram aproveitados nas encostas da Serra da Mantiqueira, em lavouras distribuídas pelas belas montanhas entre São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.

Mais recentemente, de forma inusitada, também se descobriram vantagens agronômicas nas chapadas de altitude, próprias do cerrado brasileiro no Centro-Oeste. Assim, subindo até o Oeste da Bahia, uma nova cafeicultura começou a ser configurada. Seus produtores contam não apenas com a sorte da natureza - terras planas, solo profundo, elevada altitude, clima ameno -, mas investem firmemente na tecnologia do café. Aqui mora a diferença.

Começa na origem dos cafeicultores. Ao contrário das antigas regiões agrícolas, que se apegam ao passado e, naturalmente, tendem à acomodação, o Cerrado recebeu jovens empresários rurais, aventureiros da terra, que romperam suas origens familiares para abrir as fronteiras da Nação. Recebendo forte apoio da pesquisa agronômica, sua ousadia produtiva venceu obstáculos, quase dogmas agrícolas, criados pela cultura da "terra roxa" na faixa litorânea da Mata Atlântica.

Um "DNA de inovação" carregam os produtores rurais do Cerrado mineiro, conforme diz Francisco Sérgio de Assis, operoso presidente da federação, que agrega 2.500 cafeicultores. Estes se espalham por 55 pequenos, e prósperos, municípios mineiros, identificados pela origem geográfica comum. Exemplo da nova geração do campo, Serginho fugiu das geadas do Paraná, sua origem, para domar o desconhecido Cerrado. Protagonizou, num quarto de século, uma extraordinária história de sucesso. Epopeia rural.

A cafeicultura do Cerrado mineiro, atualmente com 170 mil hectares ocupados, vestiu, desde o seu nascimento, nova roupagem tecnológica. As distintas condições de solo e clima, somadas à falta de mão de obra, exigiram romper com padrões tradicionais da cafeicultura. A colheita é basicamente mecanizada. Terrenos planos favorecem a operação das enormes máquinas, que se sobrepõem às linhas do cafezal vibrando suas hastes para causar a derriça dos grãos. Impossível nas montanhas.

Na época seca do ano, os cafezais recebem irrigação, seja por gotejamento rasteiro, molhando as raízes debaixo da copa, seja por aspersão, esguichando por cima das plantas. Ninguém desperdiça água por lá. Adubação, química e orgânica, mais o controle fitossanitário são impecáveis. Colhido com baixa umidade, sem chuvas, os grãos não "ardem" no terreiro. O pacote tecnológico custa caro, mas assegura alta produtividade e boa qualidade. A bebida do café resulta levemente adocicada, às vezes achocolatada, longa finalização na boca. Típica do Cerrado mineiro.

Nessa quebra de paradigma promovida pelo Cerrado mineiro se destaca a organização dos produtores. Estruturados em sete associações e oito cooperativas, mais um órgão de pesquisas, todos se aglutinam na Federação dos Cafeicultores. Esta controla os programas de certificação e de sustentabilidade no campo. Seu orçamento se origina no recolhimento de 25 centavos de real por saca comercializada, quer dizer, eles tiram dinheiro do bolso para executar sua estratégia. Merecidamente, receberam a primeira certificação por origem geográfica no Brasil, cuja marca se grafa nas sacas de café vendidas mundo afora.

Curioso anda o ranking nacional do café. O Estado de Minas Gerais firma-se, de longe, como o maior produtor brasileiro, responsável por 52,7% da colheita, seguido pelo Espírito Santo, com 24,2%. São Paulo ocupa, bem abaixo, o terceiro lugar e, pasmem, as lavouras do Oeste da Bahia já ultrapassaram o Paraná na quarta posição. Brigando pelo quinto lugar se encontra, acreditem, Rondônia. Caminhos da lavoura cafeeira.

No território mineiro, dentre as três regiões produtivas - o Sul de Minas, a Zona da Mata e o Cerrado -, este responde por apenas 22% da produção estadual. Perde, em quantidade, das regiões tradicionais. Gaba-se, porém, pela qualidade. Com razão. A bebida originada nas lavouras do Cerrado mineiro, duplamente certificada, com selos de origem geográfica e de sustentabilidade, começa a dominar o mercado externo. No Japão as butiques de café o vendem, cada xícara, pelo equivalente a R$ 15.

Sempre se afirmou, com certa razão, que o Brasil exporta o melhor café, torrando no mercado interno o restolho. A situação já melhorou muito, depois que a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) lançou seu selo de garantia, puxando a qualidade para cima. Depois, com o expresso, os cafés especiais se destacaram. Agora, chegou o lance decisivo: a certificação do café. Minas Gerais saiu na frente.

Milton Neves, famoso comunicador da área do futebol, que anda se aventurando na cafeicultura, gosta da jogada. Gol de placa no café!
.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cachaça boa, 'marvada' pinga

 XICO GRAZIANO
O Estado de S.Paulo


A cachaça é um verdadeiro patrimônio nacional. Quem afirma é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no prefácio de belíssimo livro lançado recentemente por Araquém Alcântara e Manoel Beato. Em tempos de carnaval, cabe homenagear a mais brasileira das aguardentes.

Fama de cachaceiro Fernando Henrique não carrega. Mas, como sociólogo, argumenta ser a cachaça "parte antiga" da História brasileira, peça importante da cultura ligada aos caboclos da terra. Por esse motivo, aliás, o Decreto 4.062/2000, de sua lavra, define o termo "cachaça" como vocábulo de origem exclusivamente brasileira. O ato oficial procurou, na época, impedir que os Estados Unidos incluíssem a bebida, por interesses comerciais, na mesma categoria do rum. Nada a ver.

Elaborada a partir da fermentação do caldo da cana-de-açúcar, a cachaça surgiu nos rudimentares engenhos logo após o Descobrimento. Quem a apreciava eram os escravos e colonos, enquanto a elite da época, é óbvio, tomava vinhos e se embriagava com a bagaceira - um destilado de uva, semelhante à cachaça - trazida de Portugal.

O ciclo da mineração nas Minas Gerais, deslocando o eixo econômico e populacional para o Sudeste do Brasil, parece ter trazido estímulos ao consumo da aguardente de cana-de-açúcar. Uma das razões estava no clima, mais frio nas serras mineiras do que na Zona da Mata nordestina. Uma mordida na rapadura, um gole da branquinha ajudavam a aguentar a dureza do trabalho e a espantar a friagem noturna.

A preferência popular - e o preço barato - permitiu à caninha conquistar fatias mais amplas da sociedade colonial, atrapalhando os vendedores portugueses da bagaceira. Estes pressionaram a Corte a proibir por aqui, em 1659, a produção e o consumo da aguardente de cana. Tudo em nome da ordem, é claro. A esdrúxula medida provocou revolta na colônia e a proibição acabou revogada poucos anos depois.

Pesadas taxas de arrecadação foram tentadas para sufocar a produção, mas tampouco se efetivaram na prática. Não houve o que segurasse a expansão dos alambiques. Sinônimo de brasilidade, a cachaça mais tarde frequentaria a mesa dos Inconfidentes, virando símbolo de resistência contra a dominação portuguesa. Na Semana de Arte de 1922, ganhou status de modernidade.

Pinga ou cachaça? Tanto faz, em termos. O dicionário do Aurélio oferece cerca de 140 sinônimos para a aguardente de cana. Além dos já aqui citados, denominam-na por aí de branquinha, quebra-goela, água que passarinho não bebe, uca - esta comum nas palavras cruzadas. Qualquer uma delas surge da fermentação do caldo da cana-de-açúcar por uma levedura (Saccharomyces cerevisiae). Existe, porém, uma diferença básica no modo de produzir, diferenciando o processo artesanal da fabricação industrial.

Nas destilarias artesanais, o mosto, ou garapa da cana, é fermentado naturalmente e colocado em alambiques de cobre, onde o calor promove a evaporação, com a consequente condensação, da bebida destilada. Especialmente por causa dos trabalhos de certificação de origem mineira, nos últimos anos, cachaça passou a se denominar essa aguardente pura, oriunda de pequenos empreendimentos. Estima-se existirem 40 mil produtores de cachaça artesanal no Brasil.

Eles utilizam técnicas variadas para criar a marca característica da sua cachaça. Alguns colocam quirera de milho no fermento, outros utilizam arroz. A variedade da cana plantada, bem como do solo e do clima regional também influenciam no terroir, tal qual ocorre nas vinícolas.

Quem é da roça sabe que nas alambicadas caseiras os bons produtores desprezam a "cabeça" da aguardente, porque o início da destilação gera uma bebida com álcoois superiores, ficando muito forte. A "calda", parte final do processo, também não se presta, pois começa a ficar muito aguada. Aproveita-se, então, apenas o "meio", ou o "coração", que representa 80% do caldo fermentado.

Nenhuma dessas manhas se utiliza nas grandes empresas. A pinga delas originada sai da destilação contínua em colunas de aço inox, semelhantes às usadas na fabricação do etanol combustível. Além do mais, a aguardente é estandardizada com açúcar e outros agentes químicos, visando a adquirir padrão comercial. As marcas famosas existentes - Tatuzinho, 51, Velho Barreiro, entre outras - abastecem 75% do volumoso mercado nacional, estimado em 1,3 bilhão de litros por ano. Como a exportação é pequena, pois o marketing externo do produto ainda é incipiente, o consumo per capita da aguardente de cana no Brasil aproxima-se de 7 litros por habitante/ano. Uma boa dose.

Desde antigamente, e até hoje, a bebida alcoólica representa fonte de energia barata para a população mais pobre do País. Lembro-me, no final da década de 1970, dos estudos pioneiros coordenados pelo professor Dutra de Oliveira, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, que mostravam a ingestão de pinga como fonte importante de energia para os combalidos boias-frias daquela região. A realidade continua.

Infelizmente, a pinga nacional ajudou a causar uma disfarçada doença que afeta 30 milhões de brasileiros: o alcoolismo. Essa desgraça representa, com certeza, a pior, pela extensão do problema, das nossas tragédias familiares. O crack, a maconha e as demais drogas ilícitas são terríveis. Mas o alcoolismo, legalizado, destrói as pessoas, causa violência contra mulheres e crianças no lar, mata no trânsito. Acaba com o cidadão.

Apreciar uma boa cachaça, seja no carnaval, seja no churrasco com os amigos, não envergonha ninguém, nem mal faz à sociedade. Mas beber socialmente, como se diz, não pode servir para esconder o drama do alcoolismo, um mal que precisa ser reconhecido e combatido.
.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Respeito animal


XICO GRAZIANO
O ESTADÃO



Hoje se comemora o Dia Mundial dos Animais. A data reverencia São Francisco de Assis, falecido em 4 de outubro de 1226. Pregador errante, tratava os bichos como gente, chamando-os a todos de irmãos. Origens do ecologismo.

Nascido na Úmbria (Itália), o santo padroeiro dos animais viveu na época das Cruzadas, escolha beligerante que a Igreja Católica promoveu para tentar dominar o mundo. Apenas pequenos burgos existiam quando o filho do rico comerciante se despojou da riqueza para ajudar a pobreza, tingindo sua pregação com as cores da natureza. Atitude estranha naquele tempo.

Somente séculos mais tarde, ao final do período medieval, a urbanização começava a criar um modo de vida e, consequentemente, uma cultura própria, distanciando as pessoas citadinas, ainda que relativamente, do mundo natural. E somente agora, com a metropolização dos espaços humanos, aí, sim, tal separação acabou quase completa. Vida artificializada.

Faz bem à sociedade atual refletir sobre a relação entre o homem e seu meio originário. Civilização, no passado, era sinônimo de "conquista" sobre a natureza. E nessa história a domesticação dos animais ocupa destaque. Utilizados na tração, no alimento, no vestuário, nas guerras ou na estima familiar, os animais amansados progressivamente se diferenciaram dos bichos selvagens.

Num extraordinário livro, intitulado O Homem e o Mundo Natural (1983), o inglês Keith Thomas mostra como evoluíram, contraditoriamente, o usufruto da natureza e o valor sentimental oferecido aos animais, selvagens ou domésticos. Ele mostra que só a erosão do antropocentrismo antigo, no final do século 17, permitiu à força dominadora dos humanos ceder espaço à simpatia pelo mundo animal.

Predominava no início o aspecto religioso. O homem, ser racional, único portador de alma, capaz de amar o Superior, recebeu das mãos divinas o desígnio de explorar as criaturas para satisfazer sua vontade. Em nome de Deus, e para o bem das pessoas, permitia-se caçar, abater ou aprisionar os animais. Pecado apenas era a crueldade, uma blasfêmia contra a Criação.

Ao ampliar os limites do mundo, porém, o conhecimento científico promove uma revolução no moderno pensamento ocidental. Astrônomos descobrem novos planetas, zoólogos enxergam a vida microbiana, botânicos classificam plantas sem parar, geólogos medem a idade das rochas. A visão criacionista, que coloca o homem no centro do Universo, e tudo justifica em seu nome, aos poucos perde lugar para correntes de pensamento arejadas pelas ideias de Bacon, Descartes, Kant, Hume, Hobbes, entre tantos filósofos iluministas. Começava a sorte dos animais.

Certamente não se esgotou a polêmica que há séculos travam sábios, clérigos e o povo sobre os direitos, e os limites, do homem na exploração do mundo natural. A mesa do debate continua, subordinada agora aos valores trazidos pela modernidade da ecologia. Biodiversidade virou credo. E o bicho selvagem ganhou status nas áreas protegidas dos parques florestais.

No mundo todo se discute a função dos zoológicos. Críticas ao sofrimento animal os fizeram alargar as baias, ampliar os espaços, climatizar os cômodos, recriar hábitats selvagens, favorecendo o bem-estar dos bichos presos. Um bom movimento. Reconhece-se que, longe daquela arrogância antropocêntrica primitiva, os animais também têm direitos. E dignidade.

Os cientistas continuam na parada. Para eles, os zoológicos podem virar laboratórios de pesquisa, úteis para tornar viável a preservação das espécies selvagens ameaçadas de extinção. A reprodução assistida de animais livrou, por exemplo, o pequeno mico-leão dourado da lista negra do desaparecimento. Trabalho exemplar do zoológico de São Paulo.

Entretanto, para a mente mais sensível, perdeu sentido ético aprisionar animais selvagens para divertir gente. Para estes, zoo é sempre perverso, mesmo bem ambientado. Nem o lazer educativo, missão pedagógica que, felizmente, se expande nesses recintos mundo afora, é capaz de iluminar os olhos tristes dos bichinhos, ou bichões, mantidos presos em minúsculas celas. Tirem-me daqui, parecem solicitar.

Domingo passado (25/9), realizou-se a última tourada em Barcelona (Espanha), proibida pelo Parlamento catalão. Ninguém apostaria nessa lei há alguns anos. Mas o ativismo em defesa dos animais conseguiu suplantar a herança cultural que se alegrava na malvadeza contra os touros. No Brasil, os rodeios foram obrigados a adotar regras de bem-estar animal para sobreviverem. Nem assim fugiram da mira dos ecologistas. Tampouco os circos. Elefantes, tigres, chimpanzés e cachorrinhos desaparecem do espetáculo. Ainda bem.

O rumo dessa mudança comportamental se impõe progressivamente na sociedade. Mas muita crueldade contra animais se pratica ainda por aí. Vejam as prisões, algumas bem decoradas, que roubam dos passarinhos a felicidade de voar livremente - afinal, para isso existem asas. Gaiola, logo, será peça de museu. Tomara.

Resta falar dos "animais" humanos. A figura de linguagem utiliza-se para desqualificar pessoas tidas como insanas, brutas, raivosas. Antigamente se dizia "besta fera". Xingar alguém de "animal" já estigmatizou o jogador Edmundo, envolvido em corriqueiras brigas no futebol. No dito popular, criminosos sanguinários são considerados selvagens, matam sem dó.

Desses tipos desumanizados, o pior, em minha opinião, são aqueles trogloditas, gente rica, que acendem luzes e arremetem seus possantes veículos contra os pobres mortais que teimam em respeitar os limites de velocidade nas estradas. Animais, não, verdadeiros idiotas do trânsito.

Animais merecem respeito.
.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tragédia anunciada



Xico Graziano 
O Estado de S.Paulo

Muitos querem descobrir o culpado pelas enchentes. A pretensão expressa um raciocínio simplista, próprio da tradição cristã ocidental. No dualismo religioso, Deus enfrenta o diabo, o bem contra o mal. Será o temporal uma encrenca do demônio?

Vamos com calma. A chuva, na agricultura, é bênção divina. Na sua busca se rezam terços e fazem promessas. Inexiste na roça pior desgraça que a seca. As sementes esturricam no solo sem germinar e, se nascidas em pé, secam de dar dó. Faltar água na florada esteriliza as flores, aniquila a colheita. Sinônimo da fome.

Gente do campo incomoda-se ao escutar o homem do tempo, urbanoide, dizendo que vai fazer tempo ruim. Ora, nuvens escuras podem estragar a viagem para o litoral, acabar com casamento ao ar livre, molhar a churrasqueira. A lavoura, porém, agradece quando São Pedro lava o céu. Tempo bom!

Temporal é diferente. Se o terreno estiver exposto e, pior, lavrado, erosões se formam com a força das enxurradas. Ventos fortes quebram as plantas e terríveis voçorocas formam cicatrizes no solo. Estrago na roça.

Em meados do século passado, a conservação do solo tornou-se o maior desafio da agricultura brasileira. Estudos mostravam queda na produtividade agrícola, perda de sementes, fragilidade ante as pragas, custos crescentes. O cenário andava desolador em algumas regiões. Combater a erosão virou uma obsessão nacional.

O Incra promovia um concurso e premiava os produtores rurais conservacionistas. Lembro-me, no final dos anos de 1960, de a Fazenda Santana do Baguaçu, tocada em Pirassununga (SP) por meu tio, o agrônomo José Gomes da Silva, receber um daqueles valiosos certificados do governo. Plantio em curvas de nível, com terraços transversais à declividade do terreno, era a melhor receita conhecida contra o mal.

Funcionava, mas não resolvia totalmente o problema. Chuvas mais intensas "estouravam" as curvas de nível, piorando o dano. Foram necessários 30 anos para a agronomia desenvolver nova técnica, capaz de garantir a fertilidade agrícola nos países tropicais: o plantio direto. Uma maravilha.

Nesse sistema, o solo não é arado nem gradeado para receber as sementes. Máquinas modernas preparam apenas o sulco de plantio sem remexer no terreno todo, que permanece coberto pela palhada seca. Sem plantio direto os solos arenosos do Cerrado estariam destruídos pela erosão.

Nesse processo, os agricultores descobriram que de nada adianta amaldiçoar a tromba d"água. Sabendo-a inevitável, há que prevenir o seu furor, contrapondo-a com boa agricultura. Aprenderam também que, às vezes, o fenômeno da erosão ocorre mesmo em áreas nativas, como o provam as grotas. Existem catástrofes naturais.

Pense agora na cidade. Nessa mesma época da luta contra a erosão no campo, o fortíssimo êxodo rural invadiu os municípios. Durante décadas o território urbano foi ocupado descontroladamente, moradias roubando as várzeas dos rios. Populações tomaram encostas, asfalto impermeabilizou o solo. Mais tarde, o lixo entupiu bueiros.

Passava o tempo, caoticamente cresciam as metrópoles. Nada segurava o ímpeto do chamado progresso. A expansão urbana nascia no ventre da explosão populacional, carregada de promessas e sonhos, miséria e suor. Habitações precárias ergueram-se alhures, zero de engenharia, mãos calejadas transformadas em pedreiros de araque. Deus nos acuda.

Quem tem culpa pela tragédia da chuva? Todo mundo, e ninguém. A sociedade inteira paga agora pelos erros da civilização, no Brasil e no mundo. Na maioria das vezes, simplesmente a natureza reage às afrontas da soberba humana. O barranco derriça lama, enquanto o rio toma de volta seu quintal. Áreas de risco namoram a morte.

O poder público deveria, sim, ter normatizado a expansão urbana, evitando os desastres. Quando o fez, poderia ter fiscalizado rigidamente, impedindo que casas fossem construídas em áreas frágeis. Mas os governos, infelizmente, permaneceram lenientes. E a sociedade dormiu no ponto. Nada superou a busca do emprego, somada ao desejo do lar.

Políticos, de todos os naipes, pouco fizeram. A direita nunca ligou para o povo. A esquerda tudo justificava na luta pela moradia. Alguns até ofereciam "kit construção" nas épocas eleitorais, como ocorria aqui, nos mananciais paulistanos. Religiosos construíam igrejas para arrecadar o dízimo nos precários bairros. Sobravam alguns acadêmicos a alertar, sem encontrar eco na opinião pública.

Para arrematar o drama, chegou o aquecimento global. Eventos extremos fazem parte da agenda das mudanças climáticas. A pluviometria indica que as chuvas se concentram. É verdade, portanto, dizer que antes não chovia assim. Também é certo que outrora inexistiam tantos riscos. O resultado aparece tristemente na televisão. A desgraça apetece à imprensa. E tende a piorar.

De pouco adianta procurar culpados. Ninguém também aguenta mais ver autoridades anunciando verbas, nem pisar na lama para aumentar a sua fama. Gente oportunista bancando moralista. Basta. Tirar as enchentes da emergência: assim começa a solução contra essas tragédias anunciadas.

Uma lei, urgente, deveria obrigar os municípios a realizar um plano decenal, a favor da ocupação ordenada do seu território. Nele, prevenção deve virar mantra. Uma década com trabalho ininterrupto, dinheiro garantido, cronograma definido, transparência total. Somente assim, com planejamento urbano, se enfrentam as enchentes assassinas.

No campo, o plantio direto ajudou a salvar a lavoura. Na cidade, com agenda atrasada, a lição de casa, obrigatória, será mais complexa. E precisa ainda enfrentar os azares da política. Prefeito que desleixar deveria perder o mandato. Na hora.
.

GEOMAPS


celulares

ClustMaps