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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Histórias mal contadas


RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO 

RIO DE JANEIRO - Longa vida a Ronaldo, mas, do ponto de vista do biógrafo, só será possível escrever um livro independente -"não-autorizado", como se diz- a seu respeito quando ele não tiver condições de atrapalhar a investigação. Esse é o problema de qualquer biografado vivo: não ser confiável. Mesmo que prometa "abrir tudo", ele constrangerá as fontes com o peso de sua presença e induzirá a que soneguem informações ou nem recebam o escritor.
Dito isto, não há biógrafo que não lamba os beiços ou esfregue as mãos diante dos desafios de se escrever uma biografia de Ronaldo. Sua brilhante trajetória como jogador de futebol e sua incrível série de contusões e recuperações já garantiriam uma narrativa emocionante sob o aspecto humano -a origem na pobreza, a luta na grande área, a dor, o estoicismo, a vitória e a fartura de dinheiro, sexo e festa, tudo em níveis que o torcedor comum nem pode conceber.
Mas este é só o esmalte, a superfície. O irresistível numa biografia de Ronaldo seria jogar luz nas zonas de sombra -aquelas que, tanto quanto os gols, as conquistas e os contratos, compuseram a sua personalidade. E elas não são poucas. Começaria pela convulsão a poucas horas da final da Copa de 1998 e, apesar disso, sua presença em campo contra a França- o quê, como e por quê aquilo aconteceu.
Seguiria com a história de seu casamento com a modelo e atriz Daniela Ciccarelli, em 2005, e a separação três meses depois; o constrangedor episódio com os travestis num motel da Barra, no Rio, em 2008; o namoro platônico com o Flamengo e seu inesperado casamento com o Corinthians, naquele mesmo ano; e, finalmente, a queda em desgraça, a aposentadoria e a mal contada alegação de hipotireoidismo para aplacar a ira dos corintianos contra ele.
Como eu disse, longa vida a Ronaldo. Mas que vida a ser contada!
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Acervo de trilhões

Um texto leve, divertido e que nos convida à reflexão.
De um mestre da literatura brasileira.
Muito bom.

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RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO 

Na sexta-feira, os jornais deram com alarde que a quantidade de informação hoje acumulada no mundo é de 295 trilhões de megabytes -algo assim como 21 zeros e quebrados. E que, se essa informação fosse gravada em CD-Roms de 730 megabytes cada, seriam necessários 404 bilhões de discos. Os quais, uns sobre os outros, com 1,2 mm de espessura cada, formariam uma pilha que iria da Terra à Lua e talvez ainda mais longe, à Barra ou ao Recreio.

Apesar de até há pouco não saber o que significava um byte -se nele cabia apenas uma humilde piada de papagaio ou a Encyclopaedia Britannica inteira- , vibrei ao ler isto. Eu próprio sempre gostei de acumular informação, relevante ou não. Já soube de cor a ficha técnica de incontáveis filmes do passado, as letras de inúmeras marchinhas de Carnaval e a escalação dos times mais improváveis, como o Bonsucesso e o Canto do Rio.

Desde então, tenho vivido desse estoque de informações. Aliás, conservo mais informação do que preciso para viver ou trabalhar. Por exemplo, nunca me prevaleci do fato de saber que a defesa do Canto do Rio, em 1955, era Celso, Charuto e Arnóbio; Roberto 2º., Moreno e Dico, e que a linha do Bonsucesso, naquele mesmo ano, era Barbosinha, Soca, Alemão, Décio e Benê. Durante décadas, essas informações se limitaram a acumular poeira em algum sótão da minha memória.

Mas, a partir deste momento, tais informações, das quais ninguém até então sentira falta, estão sendo publicadas na Folha, um jornal de grande circulação. Com isso, as escalações da linha do Bonsucesso e da defesa do Canto do Rio foram automaticamente incorporadas ao acervo de trilhões de megabytes no ciberespaço.

Fico me perguntando se, entre esses trilhões ou quatrilhões de informações, haverá muitas outras tão irrelevantes quanto as que acabo de fornecer.
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Braços dados


RUY CASTRO 
FOLHA DE SÃO PAULO

Alguém já disse que a Grécia produziu mais história do que foi capaz de digerir. Pois imagine o Egito, por ser ainda mais antigo e carregar nas costas, pelos séculos, grande parte dessa história -pelo menos a que não foi desviada para Paris, Londres, Berlim e outras cidades que se sentiram no direito de pilhá-lo.

Uma importante amostra do que sobrou está no Museu Egípcio do Cairo, um repositório do engenho humano, exibindo artefatos com até 6.000 anos de existência -por cuja integridade o rei Tutancâmon, ele próprio quase dessa idade, vela com seus olhos arregalados e carapaça de ouro.

Por uma dessas fatalidades, o museu fica no pior endereço do mundo esta semana: a praça Tahrir, no centro do Cairo, palco do protesto de milhões contra o ditador Mubarak e, desde quarta-feira, cenário da violência provocada pelos esbirros deste homem que está há décadas no poder. Se a brutalidade recrudescer e alguém usar armamento pesado, a história é que levará o primeiro tiro.

A ameaça ao Museu do Cairo, na verdade, começou ainda antes, no fim de semana, quando, aproveitando-se da aglomeração -e pisoteando o passado, o histórico e o sagrado-, saqueadores internacionais tentaram furtar o tesouro. O Exército os reprimiu, mas disso resultaram múmias destruídas, estátuas danificadas, vitrines quebradas, peças de joalheria roubadas.

Dias depois, foi emocionante ver dezenas de jovens de braços dados, formando uma corrente humana para cercar o museu, tentando protegê-lo de pessoas que, em nome da política, poderiam voltar à carga. Em nome da política, só isso -porque, não raro, esta apenas acoberta interesses outros, ainda menos nobres. O ser humano não falha, e um canalha de mão leve pode provocar maior prejuízo do que centenas de idealistas, de qualquer naipe, armados de coquetéis molotov.
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Caça aos obesos


RUY CASTRO 
FOLHA DE SÃO PAULO

Woody Allen disse certa vez que foi recusado no time de xadrez de seu colégio "por problema de altura". A ideia é ridícula, e é claro que Woody inventou tal sandice para fins cômicos. Mas a ela pode-se acrescentar esta outra, nada inventada e nada cômica, recém-noticiada: sobre as candidatas a professoras da rede estadual de ensino de São Paulo, que, depois de aprovadas nos concursos, teriam sido consideradas "inaptas" no exame médico, por serem obesas (Cotidiano, 2/2).

O argumento, segundo o Estado, é o de que o candidato deve gozar "de boa saúde" e, pelos padrões da OMS, a obesidade "pode ser uma doença". Ou seja, uma professora obesa "pode" ter um enfarte ao ensinar os alunos a extrair uma raiz quadrada. Enfim, "pode". Ou não -como todo mundo.

É o mesmo raciocínio que, há alguns Carnavais, levou a Prefeitura do Rio a preferir um rei Momo magro. Não queria arriscar-se a um piripaco do próprio num baile de sua responsabilidade -o que levou o Momo vigente a operar o estômago e emagrecer 80 kg para continuar Momo. Mas o povo nunca aceitou os Momos magros e eis que, agora, estão voltando os gordinhos.

É curioso tal tipo de discriminação acontecer nesses tempos tão politicamente corretos, em que ninguém mais pode ser chamado de crioulo, anão, zarolho, perneta ou bicha -embora os eufemismos usados no lugar das velhas ofensas não atenuem o constrangimento. Já os obesos podem continuar sendo chamados de obesos e vistos com maus olhos pelas pessoas "normais", que os impedem de exercer atividades públicas.

Acredito em cada palavra acima, mas, no fundo, estou também defendendo o meu peixe -precavendo-me para se, um dia, a Folha ou a Companhia das Letras concluir que, por ter passado dos 100 kg, tornei-me inapto a escrever uma coluna ou uma biografia.
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Garota do "Último Tango"

Ruy Castro
FOLHA DE SÃO PAULO

Dezembro de 1972. O ditador era Médici e vivíamos sob censura. Mas da Europa vinham ecos de um filme que Bernardo Bertolucci acabara de lançar, "Último Tango em Paris", com Marlon Brando e uma novata, Maria Schneider, 19 anos. Pelos relatos, que falavam de nudez frontal, práticas heterodoxas e sexo quase explícito, sabíamos que tão cedo não o assistiríamos por aqui. E, de fato, "Último Tango" foi proibido no BRASIL assim que estreou em Paris.

Foi proibido, mas nada nos impedia de encher páginas com as fotos de Brando e da garota, como fizemos em "Manchete" -muitos homens perdiam o sono por causa da bela Schneider. Com isso, todo mundo no BRASIL sabia que "Último Tango em Paris" existia, e que a censura brasileira, zelosa da nossa menoridade, o proibira.

Em janeiro de 1973, deixei "Manchete" e o BRASIL, e fui trabalhar em Portugal. Lá, surpresa: a ditadura salazarista, mesmo sem Salazar, não se limitava a proibir certos filmes -não deixava também que se falasse deles nos jornais e muito menos que estavam proibidos. Donde, para o povo português (que não lia revistas estrangeiras), "Último Tango" nem sequer existia.

Poucos meses depois, fui a Londres e assisti ao filme num CINEMA em Piccadilly. Não me abalou particularmente -tinha amigos no Rio que levavam uma vida mais agitada que a daquele casal. Lamentei que, no BRASIL e em Portugal, não nos deixassem ser adultos e decidir o que achávamos do filme.

Dali a um ano, a 25 de abril de 1974, Portugal fez a "Revolução dos Cravos", liquidou a censura e liberou tudo. "Último Tango" estreou em Lisboa cinco dias depois. No BRASIL, com a abertura "lenta, gradual e segura", o filme só seria exibido em 1979 -quando seu poder de choque se tornara zero e as acrobacias de Maria Schneider (morta esta semana, aos 58 anos) já não tiravam o sono de ninguém.
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Benesses tardias


Ruy Castro
FOLHA DE SÃO PAULO 

Na chuva, quase desceu pela enxurrada a revelação de que ex-governadores estaduais, vivos ou mortos, efetivos ou suplentes, não importa que nem tenham esquentado o trono, ou seus filhos e viúvas, fazem jus a invejáveis pensões por "aposentadoria", mesmo que os vivos (muito vivos) as acumulem com seus salários de parlamentares.

Entre os beneficiados, contam-se conhecidos marotos, de que não se esperava outra coisa, e políticos em quem o manto da retidão parecia assentar tão bem -vê-se agora que era só uma capa, a se tirar do armário para usar no Congresso e devolver ao cabide ao fim do dia.

A última beneficiada a vir à tona é uma senhora de 89 anos, filha de um político que governou Santa Catarina nas décadas de 1890 e 1920 e, depois, tornou-se aeroporto, ponte, avenida, time e estádio de futebol. Bem, se o benefício abrange eras tão priscas, por que não recuá-lo aos primórdios?

Eu sugeriria uma pensão aos herdeiros de Martim Corrêa de Sá, o primeiro carioca nato a governar o Rio (1602-1607) e que doou aos franciscanos o morro de Santo Antônio para a construção de seu convento, o qual está lá até hoje. Idem, aos herdeiros de Luiz Vaía Monteiro, o "Onça" (1725-1732). Em seu tempo -"no tempo do "Onça"-, políticos, militares e padres corruptos, contrabandistas de ouro e de escravos e pilantras em geral não levaram boa vida.

Benesses também para os herdeiros de Gomes Freire de Andrada, que, por 30 anos (1733-1763), governou o Rio e o Brasil, construiu o aqueduto dos Arcos e o paço e retomou para o país o atual Rio Grande do Sul. E o mesmo para os do vice-rei d. Luiz de Vasconcellos (1779-1790), que, pelo amor (platônico) de uma plebeia, aterrou um pântano e construiu um jardim, o primeiro espaço público brasileiro: o Passeio Público, na Lapa. Estes, sim, mostraram serviço.
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sábado, 15 de janeiro de 2011

Mata, arrasa e leva embora



RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO 

É a lama, é a lama. Poço Fundo, o sítio da família de Tom Jobim na pequena São José do Vale do Rio Preto, RJ, também foi parcialmente destruído pelas enchentes da região serrana. O rio que dá nome à cidade transbordou e arrastou casas, árvores e animais às suas margens, inclusive na propriedade que foi inspiração e cenário de, entre tantas canções de Tom, "Águas de Março" (1972).

A letra do samba está cheia de imagens proféticas: é pau, é pedra, é o fim do caminho; é a chuva chovendo, é o fundo do poço, é a noite, é a morte; no rosto o desgosto, é um pouco sozinho -embora, na origem, o poeta estivesse descrevendo as águas que, fechando o verão, lavavam a alma e eram uma promessa de vida no coração do ouvinte.

Mais cruel ainda é saber que o delicioso "riachinho de água esperta", da letra de "Chovendo na Roseira" (1970), também se tomou de fúria destruidora ao se lançar no vasto rio de águas (não mais) calmas. E, em vez da "chuva boa,/ criadeira,/ que molha a terra,/ que enche o rio,/ que lava o céu,/ que traz o azul", veio aquela que, com a ajuda da imprevidência humana, mata, arrasa e leva embora.

sábado, 27 de novembro de 2010

Carnaval no fogo

RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO

Em 2002, uma editora inglesa, a Bloomsbury (a mesma do Harry Potter), encomendou-me um livro sobre o Rio, para uma coleção de livros sobre cidades. Outros da série, a cargo de notórios residentes, tratariam de Nova York, Paris, Sydney, Veneza. Não queriam um oba-oba ou um guia turístico, mas uma reflexão particular sobre cada urbe.
No dia em que comecei a escrever, a duas semanas do Carnaval e com a cidade fervendo de turistas, bandidos obrigaram o comércio de Ipanema a fechar as portas pela morte de um traficante do Pavãozinho. Essa prática, comum nos morros, finalmente chegava à zona sul. Para alguns, era a véspera do Apocalipse -o começo do fim ou o próprio fim.
Abestado, como todo mundo, resolvi esperar. Não havia clima para escrever. Dei uma volta por Ipanema e constatei a nossa derrota. E, então, algumas horas depois, deu-se o milagre. O bloco Vem Ni Mim Que Sou Facinha, com saída marcada para aquele dia, botou seus tamborins na praça General Osório. Os supermercados, bares e lojas seguiram o exemplo e reabriram. E até o poeta Apicius lançou seu livro naquela noite. O Carnaval desafiara os marginais. E ganhara.
Ali me decidi pelo título do livro: "Carnaval no Fogo". Não por acaso, título de uma chanchada da Atlântida, que começava por um desenho de foliões dançando entre labaredas. Descobri que, desde sempre -ou desde Américo Vespúcio, em 1502-, o Rio era isso: uma cidade com a maior vocação para a festa, mas uma festa que se dá sempre sobre brasas. O subtítulo completava a ideia: "Crônica de uma cidade excitante demais".
Os acontecimentos dos últimos dias seguem essa tradição. Com a diferença de que, desta vez, o Rio resolveu devolver o fogo. Resta agora que o Brasil se junte de vez ao Rio nesta batalha -se não quiser ver algo como o México no seu futuro.
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