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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

ESTADÃO: "A tragédia do ensino médio"

A qualidade e empregabilidade futura de nossa mão de obra vem sendo severamente comprometida nos últimos 16 anos. Desde a famigerada "aprovação automática" AINDA no primeiro ano do governo FHC (falecido Carlos Renato Min da Educação) que esse déficit vem se avolumando e agravando.
A reportagem do Estadão faz uma objetiva radiografia sem, contudo, SEQUER tangenciar a gravíssima incidência da ideologia marxista em expressiva quantidade de estabelecimentos de ensino públicos país a fora.
Vale a leitura e reflexão.


A tragédia do ensino médio
Em 2018, segundo a pesquisa, quase 4 em cada 10 jovens na faixa etária de 19 anos não concluíram o ensino médio na idade considerada para esse ciclo educacional

         
Notas & Informações, O Estado de S.Paulo 14 Janeiro 2019  

Recente estudo sobre a evolução do acesso ao sistema de ensino e sobre sua qualidade, promovido pelo movimento Todos pela Educação, uma entidade sem fins lucrativos integrada por pedagogos, gestores escolares e representantes da iniciativa privada, mostra como a crise educacional do País vem sacrificando o futuro das novas gerações. 

Em 2018, segundo a pesquisa, quase 4 em cada 10 jovens na faixa etária de 19 anos não concluíram o ensino médio na idade considerada para esse ciclo educacional. E, do total de brasileiros nessa faixa etária, 62% já estão fora da escola e 55% pararam de estudar ainda no ensino fundamental. O estudo foi promovido com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Todos pela Educação definiu uma lista de cinco metas para o crescimento e modernização da educação brasileira até 2022 e, na pesquisa de 2018, constatou que o País continua longe de alcançá-las.

Uma das metas era fazer com que o Brasil tivesse, até o ano passado, mais de 90% dos jovens de 19 anos com o ensino médio completo. Em 2018, só 63,5% atingiram esse objetivo. E, como a qualidade desse ciclo educacional é ruim, entre os alunos que conseguem concluí-lo muitos apresentam conhecimento insuficiente em leitura, ciências e matemática, enfrentando problemas para ler palavras com mais de uma sílaba, identificar o assunto de um texto, reconhecer figuras geométricas e contar objetos. Na Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2017, o ensino médio alcançou o nível 2 de proficiência, numa escala de 0 a 9 – quanto mais baixo é o número, pior é a avaliação.

Com excesso de matérias, currículo desconectado da realidade socioeconômica e conteúdos ultrapassados, o ensino médio é considerado o mais problemático de todos os ciclos do sistema educacional. E é justamente por isso que ele se destaca por altas taxas de abandono e de reprovação.

“Falta muito para avançarmos e há um desafio para a educação básica como um todo. Muitos jovens estão fora da escola ou não se formam por causa da qualidade do ensino. Se o aluno avança de etapa sem uma base sólida e chega ao ensino médio com déficit, ele é quase induzido a sair do sistema de ensino”, afirma o diretor de políticas educacionais do Todos pela Educação, Olavo Nogueira Filho.

O desinteresse dos estudantes pode ser visto já na primeira das três séries do ensino médio, onde 23% dos alunos abandonam as salas de aula. E é justamente por isso que a taxa de crescimento de concluintes das três séries não tem a velocidade necessária para atingir a meta prevista para 2022, lembram os técnicos do Todos pela Educação.

Entre 2012 e 2018, o número de concluintes na faixa etária de 19 anos cresceu apenas 1,9% por ano, em média, quando seria necessário que aumentasse 7,2% anualmente, para que a meta pudesse ser atingida. “O crescimento é muito lento. Ainda estamos muito distantes para dizer que o País está a caminho da universalização do ensino básico”, diz o gerente de políticas educacionais da entidade, Gabriel Corrêa.

Na realidade, os problemas estruturais do ensino médio são antigos e a saída é conhecida. Em vez de concessões a modismos pedagógicos e políticas demagógicas, é preciso reduzir o número de matérias, rever os currículos e tornar os gastos no setor mais produtivos, mediante programas de aprimoramento da formação de professores, por exemplo. E tudo isso exige maior articulação entre o governo federal e as áreas educacionais dos Estados e municípios.

Sem fortalecer o ensino de disciplinas essenciais e sem motivar os alunos do ensino médio a concluir esse ciclo educacional, o Brasil continuará incapaz de formar mão de obra tão produtiva quanto a de outras economias emergentes. Não conseguirá formar o capital humano de que necessita para voltar a crescer de modo sustentado. E perpetuará as condições do atraso, da desigualdade e da pobreza, impedindo que as novas gerações se emancipem intelectual, social e economicamente. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A loteria Enem

O texto faz uma excelente, apesar de breve, descrição das mazelas de um sistema que tem tudo para ser inclusivo e eficiente, não fora a intervenção ideológico de educadores proselitistas quanto a onírica "esquerda" e a falta de ética e de honestidade do cidadão que se aproveita das falhas para "defender o seu".


Tinha tudo para dar muito certo e ser uma excelente ferramenta de avaliação do ensino público brasileiro.

Tá na hora da sociedade cobrar nas urnas essa lamentável falha.





A loteria Enem 
NÍLSON JOSÉ MACHADO
FOLHA DE SP 

A prova tem falhas logísticas e há incerteza sobre os critérios de correção; as questões têm textos longos demais e apresentam filtros ideológicos

O governo federal acaba de receber cerca de 3,4 milhões de inscrições para as pouco mais de 100 mil vagas no ensino superior pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada). Foram 1,7 milhão de candidatos (os alunos podem se inscrever para mais de um curso). Em média, mais de 30 candidatos disputam cada vaga.

Trata-se do maior vestibular do país, e a sua forma de organização poderia sugerir um grande avanço ao poupar os alunos das gincanas dos múltiplos vestibulares. Mas tal processo seletivo constitui, de fato, um enorme monstrengo educacional, uma espécie de loteria.

O primeiro sintoma de anomalia é o fato de o Enem ser o instrumento de avaliação utilizado.

Mesmo quando realizado de modo absolutamente consistente, sem os desvios logísticos e conceituais que têm acompanhado o exame nas últimas realizações, o Enem não foi projetado para ser um processo seletivo. Ele não é adequado para classificações finas, como as que ocorrem nos vestibulares. A prova poderia até ser utilizada como um indicador, entre outros instrumentos, mas nunca como o elemento decisivo para a aprovação.

Os maiores desvios decorrem, no entanto, do modo atabalhoado como o Enem tem sido realizado.

Problemas logísticos como roubos de provas, quebras de sigilo, inadequações na pré-testagem e nas dimensões dos bancos de itens têm se sucedido, ano a ano, minando a integridade e a credibilidade da prova. Além disso, há questões estruturais referentes às provas.

Com a transformação de uma única prova de 63 questões em quatro provas, uma para cada área em que se organiza o ensino médio, com 45 questões cada uma, o teste ficou excessivamente longo para o conteúdo que examina.

Ocorreu então um desbalanceamento, com uma supervalorização da prova de redação. Tal problema tem sido amplificado pelo fato de as incertezas nos critérios de correção da prova terem sido levadas aos tribunais competentes e estarem, hoje, no centro das discussões.

Há outras questões conceituais que eivam o processo de elaboração do Enem: a premissa de que as questões das provas devem ser "contextualizadas" é uma delas.

Em muitos dos itens da prova, a palavra "contexto" é tratada como se significasse uma abreviatura de "com muito texto". Os enunciados tornam-se desnecessariamente longos, levando alguns professores a dar um conselho excêntrico: sugerem que os alunos não leiam os enunciados logo de início, indo diretamente à pergunta feita. Eles garantem que, na maioria das vezes, a resposta correta pode ser indicada, sem perda de tempo.

Outro desvio conceitual mais sutil é a interpretação da contextualização como filtro ideológico primário. De modo defensivo, quase cínico, os alunos "aprendem" e divulgam regrinhas do "politicamente correto", referentes, sobretudo, a questões ambientais ou aos direitos humanos, tais como definidos em catecismos partidários.

O mais grave dos desvios, no entanto, é a pretensão de utilização de uma sofisticada Teoria da Resposta ao Item (TRI) na correção das provas. As limitações na qualidade e na quantidade dos itens dos bancos de questões minam qualquer possibilidade de sucesso no recurso a tal parafernália matemática.

Objetivamente, o que se conseguiu foi a transformação da correção da prova em uma verdadeira loteria. Ninguém sabe, ao certo, quantos pontos vai obter. Aos alunos, cabe fazer o exame e torcer ou rezar por uma boa sorte.

O ponto mais notável em todos esses desacertos é a recepção passiva dos resultados do Enem como um tipo legítimo de credenciamento pela maior parte das escolas.

Já passou da hora de as boas escolas privadas manifestarem seu desapreço pela grande loteria que a prova se tornou, após serem depositadas tantas e tão justas expectativas sobre ela.
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Aprender ou passar no vestibular?

 JOCA LEVY
O ESTADÃO



Discute-se muito a baixa qualidade do ensino público, com efeitos sobre as classes de menor poder aquisitivo. Deveriam também causar aflição sérios tropeços das escolas privadas, inclusive as que obtêm as melhores notas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Esses problemas, que passam despercebidos pela maioria dos pais e educadores, afetam jovens das classes mais altas, supostos candidatos mais prováveis à elite intelectual do País.

Os pais precisam desde cedo decidir se o plano para seu filho é aprender ou passar no vestibular. É possível aprender e passar no vestibular, mas é limitada e frustrante a trajetória intelectual da criança cujos pais estabelecem como meta o vestibular, não o aprendizado.

As escolas chamadas "convencionais" parecem ter por objetivo boas notas no Enem e no vestibular, não propriamente o aprendizado. Há crescente pressão dos pais nesse sentido. Não percebem que educação voltada para a competição e o vestibular é,acima de tudo, desinteressante para a criança. E sem interesse não há aprendizado.

A educação voltada para o vestibular busca prioritariamente habilitar o profissional a competir dentro de padrões estabelecidos por uma conveniência de massificação. Talentosos e ignorantes são, juntos, conduzidos com o gado para uma mesma faixa de referência na vizinhança da média.

Os mais inteligentes (não necessariamente os mais bem treinados para tirar notas) não têm oportunidade de seguir seus processos próprios de exploração, retenção e desenvolvimento intelectual. São forçados a seguir método desenhado com requisitos mínimos para a compreensão dos medíocres.

A ideia de permitir que desponte uma elite intelectual sofre resistência, silenciosamente. Por séculos de tradição aristocrática, a elite, ainda que tivesse maior oportunidade de desenvolvimento intelectual, dominou pelos sobrenomes, não por méritos pessoais. A democracia trouxe o desprezo pela elite e a noção irrefletida de que todos devem ser iguais. Grande erro! Todos não devem ser iguais, mas devem, sim, ter iguais oportunidades de desenvolvimento de suas habilidades. E os mais talentosos devem ser estimulados e prestigiados.

Cada pai deve empenhar-se em livrar os filhos da cultura da comparação, que os aprisiona na mediocridade, e habilitá-los a usufruir plenamente seus talentos, tendo por referência apenas a excelência, não a concorrência.

O jovem deve, sim, ter disciplina, mas não aprender por disciplina. Equívoco corriqueiro é estabelecer que aprender e tirar boas notas são obrigações da criança. Só se aprende por interesse. Para uma criança, as obrigações são chatas e desinteressantes. Toda criança sadia, minimamente bem educada e com ambiente emocional estimulante é capaz de aprender. Basta que o aprendizado seja interessante. Se lhe for apresentado como obrigação, contudo, o melhor que uma criança disciplinada fará é decorar, o que ajuda a tirar notas e passar no vestibular, mas não a integrar o conhecimento ao processo mental, ou seja, aprender.

Notas não avaliam a criança, mas a capacidade de ensinar e de disciplinar das escolas e dos pais, que, portanto, exigem boas notas em benefício de sua própria imagem na sociedade, não em benefício da criança. Boas notas não preparam a criança para uma vida de realizações.

O típico adulto moderno dá prioridade ao cultivo de seu próprio sucesso, numa rotina, no mais das vezes, intelectualmente improdutiva. Mais fácil é não se envolver na formação intelectual dos filhos, não ler para eles sobre a História do homem, não explicar porque a Terra é redonda, o que são as estrelas, a origem da vida, a evolução e as diferenças das espécies, não ensinar a brincar com números (no lugar de videogames, que mantêm a criança abobalhada), não despertar logo cedo o interesse pelo conhecimento, a curiosidade pelas coisas da natureza.

Mais conveniente é terceirizar por completo a educação, entregar as crianças à escola e esperar que voltem com um diploma, que não diz que o filho se tornou uma pessoa instruída, mas apenas que os pais cumpriram o seu dever segundo a convenção dos nossos tempos. Para o filho pouco serve aquele canudo, senão, talvez, para arrumar um emprego. Para o pai o diplomado filho é uma sentença absolutória da negligência intelectual a que abandonou a cria.

Formam-se legiões de burros, rasos, ignorantes, imaturos com diplomas (muitos com boas notas!). Pessoas destituídas da oportunidade de desenvolver seus talentos individuais. Enlatadas, padronizadas, como ditizadas. Dirão os pais que bem preparadas para competir no mundo moderno, mas, na verdade, aleijadas de suas competências subjetivas e jogadas para competir na mediocridade a que foram rebaixadas.

Não é à toa que no curso da educação moderna pessoas brilhantes - de Winston Churchill, Albert Einstein e Warren Buffett a Bill Gates e Steve Jobs - em algum momentos e desgarraram da educação convencional ou a deixaram ter influência secundária em sua formação intelectual. São pessoas que se recusaram a entrar na competição e se desenvolveram muito acima dela.


"Aprendizagem que privilegia apenas o intelecto dificilmente atinge o ser humano completo. O melhor exemplo disso são as informações formatadas exclusivamente para o vestibular. É um rio que passa na vida do vestibulando e que deságua no oceano do esquecimento. Quando a gente aprende algo e dele não se esquece nunca mais, é porque o coração e a alma também foram tocados. Quando o conhecimento é elaborado no intelecto, passa pelo sentimento e determina uma vontade, aí, sim, ele não desgruda mais da gente."
Helena Trevisan 

JOCA LEVY: Advogado , é pai de Três adolecentes
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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Além da média


JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO 
O Estado de S.Paulo


Mesmo com falhas, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é o espelho do ensino no Brasil. Mais do que indicar onde matricular os filhos, o exame mede o desempenho de cada uma das escolas em comparação ao conjunto do País. Dá samba, mas não cabe em uma nota só. É preciso desagregar os números e identificar onde o problema é mais grave, quais são os bons exemplos e se é possível replicá-los para melhorar as escolas que ficaram para trás.

A média brasileira melhorou, mas continua baixa. Os 548 pontos, convertidos para uma escala de 0 a 10, equivalem a meio aponto acima do mínimo para aprovação. Como toda média, ela omite muitas desigualdades. Sem conhecê-las, é impossível ter um plano eficiente para reduzi-las, diminuir a distância das piores para as melhores e aumentar a própria média.

A nota média das escolas privadas brasileiras do ensino médio é 15% mais alta do que a das públicas: 608 a 527. Considerando-se o preço das mensalidades das particulares, a diferença de 81 pontos não é tão grande. Se a nota máxima fosse 10, a distância seria inferior a 1 ponto.

A distância parece maior porque há poucas escolas públicas de excelência: apenas 8 entre 14.247 tiveram média igual ou superior a 700 em todo o País: 0,06%. Nas particulares, 52 de 5.172 superaram o equivalente a uma nota 7:1%. Dito assim, parece o roto falando do esfarrapado. A percepção de que ensino privado é igual a qualidade vem do fato de que 87% das escolas de excelência serem particulares.

Elas fazem a fama, e muitas outras escolas privadas deitam na cama, mesmo sem merecer. A desigualdade entre as particulares é maior do que no ensino público. Há dezenas de milhares de alunos pagando por um ensino pior do que o das melhores escolas públicas. A média das 10% piores escolas particulares no Enem é 557, enquanto a média das 10% melhores entre as públicas é 564.

A participação dos alunos da rede pública no Enem é quase a metade da dos da rede privada: 42% deles fizeram o exame, contra 76% nas escolas particulares. A baixa participação dos alunos é um problema em si. Em regra, quanto melhor a escola, mais alunos fazem o exame. Ou seja, a baixa participação não serve de desculpa para desempenho ruim no exame.

Das 27 unidades federativas, só 6 tiveram nota superior à média brasileira. Pela ordem, Distrito Federal, Rio, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas e Santa Catarina. Do outro lado, Estados do Norte e Nordeste tiveram o pior desempenho, especialmente Tocantins e Maranhão. Mas as médias estaduais também escondem grandes desigualdades.

No Rio, por exemplo, o desempenho das 10% melhores escolas no Enem é 143 pontos superior ao das 10% piores. É a maior diferença entre todas as unidades da Federação.

Em todas as 27 UFs, a média das escolas privadas superou de longe a das públicas. O Piauí tem a rede pública com pior média no Enem (495), praticamente empatada com a do Maranhão, com 496. O DF tem a melhor rede pública do ensino médio, com 547 pontos. É também a mais próxima da média das particulares numa mesma UF. A Bahia é o oposto (101 pontos de diferença entre pública e privada).

Esses são alguns dos problemas. Mais difícil é achar soluções. Apesar do bom desempenho, nem as escolas técnicas, nem os colégios militares ou de aplicação (ligados a universidades) podem ser copiados pelas dezenas de milhares de escolas públicas do ensino médio. Tampouco a rede do DF, espacialmente concentrada na UF mais rica do País, pode ser replicada em Estados mais pobres e extensos. Não há saída mágica nem modelo único. Mas o Enem ao menos dá pistas.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Educação: É preciso preencher a cabeça deles


Veja 

O Enem mostra que os brasileiros concluem a escola com deficiências básicas – o que lhes subtrai a chance de competir em igualdade de condições com jovens de todo o mundo

 Quando o prêmio Nobel de Física Richard Feynman (19181988) esteve no Brasil, nos anos 50, ficou assombrado com o que viu. Ao tomar contato com estudantes às vésperas do vestibular, espantaram-no tanto o pendor local pela decoreba de fórmulas como a completa ignorância sobre seu significado. Anos mais tarde, registraria em seus escritos aquilo que entendeu como um paradoxo brasileiro: entre os estudantes do mundo inteiro, os jovens que conheceu nos trópicos eram os que mais se debruçavam sobre a física e os que menos sabiam sobre a matéria. À medida que o ensino médio foi se expandindo no país - em seis décadas, o porcentual de jovens matriculados passou de 3% para os atuais 51 % -, a desvantagem escolar observada por Feynman só se agravou. As aulas são rasas, desinteressantes, incapazes de preparar os estudantes do século XXI para disputar espaço em um mercado de trabalho global, no qual a capacidade de inovar é cada vez mais valiosa. Alerta o sociólogo Simon Schwanzman:

"Se não começar a desatar os nós do ensino médio, o Brasil vai ficar para trás".

O recém-divulgado Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), prova aplicada pelo Ministério da Educação a 3,2 milhões de estudantes do país inteiro, dá a dimensão exata do abismo a vencer. É um espanto. Dos 23900 colégios públicos e particulares submetidos ao teste, não mais que 1.500 ou 6% da amostra - têm nível semelhante ao das escolas de países da OCDE (organização que reúne os mais ricos). O Enem trata de desmistificar uma ilusão que muitos pais cultivam ao matricular seus filhos em uma instituição privada - a de que eles ganharão um passaporte para o sucesso na vida adulta. Pois mesmo muitas das escolas que têm renome, prédios vistosos e mensalidades altas não resistem à comparação com suas congêneres estrangeiras: 80% oferecem na sala de aula qualidade equivalente à das escolas apenas medianas do mundo desenvolvido. Pasmem: na faixa dos 15 anos, estudantes demonstram dificuldade de resolver operações simples de matemática. como frações e porcentagens e de compreender textos curtos.

Várias razões explicam o cenário de terra devastada - a começar pelo despreparo dos professores. A maioria deles desembarca na sala de aula sem nenhuma estratégia para despertar o interesse de jovens inseridos em um mundo no qual o saber enciclópédico deixou de fazer sentido diante da internet. Na verdade, as deficiências de nossos mestres começam no nível mais básico. Os egressos das faculdades de pedagogia e das licenciaturas sabem pouco, ou nada, de didática, já que 80% do que aprenderam foram teorias obsoletas permeadas de bordões ideológicos. Às vésperas de formar-se pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Liliane Maria dos Santos, de 27 anos, dá o retrato acabado desse equívoco:

"Eu e meus colegas não estamos preparados para enfrentar a vida real na escola". Sobre o ensino médio pesa ainda um déficit de 40 000 professores, principalmente de matemática, química e física, segundo o MEC. São vagas preenchidas com gente de outras especialidades ou que nem mesmo chegou à faculdade. A escassez de cérebros para o ensino atinge escolas públicas e particulares." É raridade encontrar um professor realmente bom", diz o diretor Adilson Garcia, do Colégio Vértice, em São Paulo, o terceiro colocado no ranking nacional do Enem.

O ensino médio brasileiro se apoia em uma equação que não tem como dar certo: em nenhum outro lugar do mundo se despeja tanto conteúdo na lousa em tão pouco tempo. No afã de suprir todas as demandas do vestibular e agora as do Enem - hoje passaporte de entrada para 167 universidades públicas e mais de 500 particulares -, o currículo só cresce, amontoando temas que mobilizam apenas os estudantes brasileiros. Para se ter uma ideia, o número de tópicos apresentados ao aluno nas aulas de matemática chega a ser dez vezes o que aprende um típico estudante de Singapura (com o detalhe de que nós estamos na rabeira e eles, no topo). A velha cultura corporativista também tem sua parcela no inchaço do currículo. Ele vai inflando à medida que grupos com interesses próprios lutam pela inclusão de mais e mais disciplinas. Ocorreu recentemente com filosofia e sociologia, hoje obrigatórias, e periga se repetir com esperamo e linguagem de sinais, que figuram entre os oitenta projetos do gênero que aguardam votação no Congresso Nacional. "O ensino médio é um verdadeiro massacre de matérias dadas de forma muito superficial", diz a estudante carioca Julia Pimentel, de 16 anos.

Espreme-se tudo isso em uma jornada escolar de quatro horas - quando não menos. Pesquisadores que acompanharam o dia a dia de dezoito escolas públicas durante quase um ano chegaram a uma conclusão estarrecedora: mesmo entre as melhores, o tempo líquido em sala de aula não passava de duas horas e treze minutos, contados no relógio. O desperdício se deve ao absenteísmo dos mestres, às greves e à indisciplina - esta um mal também muito disseminado em colégios particulares, que, em geral, não sabem lidar com o problema. "Ver alunos e professores concentrados na sala de aula é coisa rara", resume Wanda Engel, superintendente do Instituto Unibanco e coordenadora do estudo, feito em parceria com o Ibope. Para efeito de comparação, nos países de melhor ensino os jovens passam, em média, seis horas na escola, às vezes até oito.

Os problemas do ensino médio começam a ser gestados bem antes, no nível fundamental. "Os alunos brasileiros acumulam deficiências tão graves que, ao chegar à etapa seguinte, ficam boiando na aula". diz a doutora em educação Maria Inês Fini. A metade dos 3,6 milhões que chegam a essa etapa acaba debandando dos bancos escolares antes do fim do ciclo - um funil que não condiz com uma economia que demanda cada vez mais gente bem formada. O fracasso do ensino médio torna necessária uma reflexão sobre o modelo brasileiro - único no mundo. Enquanto em países da OCDE os jovens podem escolher entre uma gama de escolas e disciplinas, no Brasil o sistema é igual para todos, maçante e enciclopédico, à revelia das diferenças de interesses e expectativas de cada um . Não custa trazer à realidade brasileira as palavras do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592), que se preocupava com o ensino nas escolas de seu tempo. No período final da Renascença, ele dizia: "Uma cabeça benfeíta vale mais do que uma cabeça cheia".
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