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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Política e meios de comunicação


Fernando Henrique Cardoso
O Estado de S. Paulo


Escrevo esta crônica nas vésperas de partir para o Japão e a China, de onde só regressarei depois de publicado o texto, daqui a duas semanas. É sempre arriscado, nestas condições, falar sobre a agenda política. Será mesmo? O marasmo é tão grande, que possivelmente ao voltar e reler os jornais encontrarei os mesmos temas: a CPI, a corrupção com suas teias enredadas, os candidatos às prefeituras já conhecidos e suas previsíveis alianças, o PIB que cresce pouco, os juros que finalmente começam a cair, a inadimplência dos devedores, as demandas por reformas tributárias, as soluções caso a caso para diminuir os estoques das empresas (principalmente automobilísticas) e assim por diante. Dá até preguiça passar os olhos pelas colunas e notícias da mídia, sem falar das TVs, que repetem tudo isso com sabor de press release, emitido seja pelo governo, seja por empresas.

Ainda recentemente, um sociólogo mexicano falando na Fundação iFHC e referindo-se a outro aspecto da mesma questão, disse que o resultado das eleições em seu país independe das campanhas eleitorais. Isso porque quando a propaganda partidária tem vez na mídia, a "opinião" já está enraizada nos eleitores, pois nos anos anteriores se elegeram os heróis e os vilões cujas virtudes e defeitos foram repetidos todo o tempo, sem contestação crítica. Será muito diferente entre nós? É desta maneira que se exerce nas modernas sociedades de massa o controle ideológico da opinião, seja pelos governos, seja pelos grupos dominantes na sociedade, econômicos ou políticos.

A sensação do já visto que alimenta a modorra e leva ao tédio e ao descaso com a política é, entretanto, enganadora e perigosa. A despeito de tudo, nem só de manipulação da opinião vive uma sociedade. De repente, quando menos se espera, não são as "forças do mercado" nem o "pensamento único" (que em nosso caso, menos do que neoliberal, é de esquerda desenvolvimentista-autoritária) que comandam a vontade popular. É o que vemos agora na Grécia e na França, onde a vitória de Hollande, a despeito do irrealismo de algumas de suas promessas, ecoa até na alma de Obama e o rígido dogmatismo tedesco, fantasiado de racionalidade de mercado, vê-se cerceado por aspirações de outra natureza. Convém, portanto, não sobre-estimar a força das verdades preestabelecidas. Mormente em nossos dias, quando a internet permite que um sem-número de opiniões divergentes circule sem que os leitores ou ouvintes da grande mídia se deem conta.

Não digo isso para aceitar o conformismo vigente em muitos meios de comunicação, mesmo porque, para fazer frente a ele, o desconcerto causado pela variabilidade de opiniões das mídias sociais e mesmo pela mistura entre lixo eletrônico e real opinião é insuficiente. Digo para alertar: a despeito de parecer que a política, principalmente a partidária, é mais enganação do que afirmação de interesses e valores que podem enfrentar a luz do sol, no final das contas, o que decide nossa vida em sociedade é a política mesmo. Portanto, sensaborona ou não, repetitiva ou não, controlada pelos que mandam ou não, dependemos dela. Nos dias que correm, sobretudo nos regimes democráticos, não há política sem comunicação; logo, é melhor tomar coragem para ler e ouvir tudo que se diz, mesmo quando partindo de fontes suspeitas.

A precondição para que haja alternativas ao que aí está é manter a liberdade de expressão, mesmo que haja distorções. Isso não exclui uma luta constante contra estas, não para censurá-las, mas para confrontá-las com outras versões. Afastando por inaceitável qualquer tentativa de "controle social da mídia", o acesso de opiniões divergentes aos meios de comunicação poderia criar um ambiente mais favorável à veracidade das informações. Por exemplo: será que é democrático deixar que os governos abusem nas verbas publicitárias ou que as empresas estatais, sub-repticiamente, façam coro à mesma publicidade sob pretexto de estarem concorrendo em mercados que, muitas vezes, são quase monopólicos? E que dizer do tom invariavelmente otimista das declarações sobre a superação da crise financeira global oriundas de setores empresariais interessados ou, em nosso caso, da marcha contínua para o êxito econômico reiterada pelos governos? O efeito deletério desse tipo de propaganda disfarçada não é tão sentido na grande mídia, pois nesta há sempre a concorrência de mercado, que a leva a pesar o interesse e mesmo a voz do consumidor e do cidadão eleitor. Mas, nas mídias locais e regionais, o pensamento único impera sem contraponto.

A autenticidade das informações escapa das deformações advindas da influência das forças estatais (inclusive do setor produtivo estatal) e das empresas privadas precisamente pela voz crítica dos setores da mídia independente, por meio de seus repórteres, editorialistas e mesmo dos proprietários que têm coragem de expor opiniões. Não por acaso, é contra estes que os donos do poder político e os partidos que os sustentam se movem: denunciam que é a imprensa que faz o papel da oposição. Até certo ponto isso é verdade. Mais por deficiência dos partidos de oposição, cujas vozes se perdem nos corredores dos parlamentos, do que por desejo de protagonismo da mídia crítica. Nos países europeus ou nos Estados Unidos, por mais que haja partidarismo nos meios de comunicação ou que por lá prevaleça o mesmismo das notícias que refletem o status quo, sempre há espaço para o outro lado, para o contraponto. Mal termina de falar o primeiro-ministro da Inglaterra e já a voz da oposição, como tal, é transmitida. O mesmo ocorre quando o presidente dos Estados Unidos faz sua apresentação anual ao Congresso.

Obviamente, não basta haver uma mudança na oferta de espaço pela mídia, é preciso que haja vozes de oposição com peso suficiente para serem ouvidas e se fazerem respeitar. Sem esquecer que nas democracias a voz que pesa politicamente é a de quem busca o voto para se tornar poder.
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domingo, 17 de julho de 2011

Por quê?

A capacidade de relativizar a corrupção é antiga em nossa sociedade remontando de nossa colonização quando portugueses estimulavam as relações de "cumpadrio" com representantes e prepostos da corte. 

O motivo pelo qual a sociedade se manteve assim, muitos anos após sua colonização e instauração da República  é por comodidade e ter a oportunidade, individual, de participar em oportunidades próximas da divisão do bolo. Pistolões, apadrinhamentos e indicações com outros favorecimentos sempre foram aceitos e fizeram parte do "imaginário coletivo". Algumas importantes informações ajudam a dar o tônus dessa "abulia" democrática que estamos mergulhados há anos.


Quanto a pouca vontade de mobilização a reportagem de Reinaldo Azevedo, na Veja, (Por que o brasileiro não se indigna e não vai à praça protestar contra a corrupção?)  mostra com mais profundidade esse problema. 

Ademais, ressalta uma enorme imaturidade democrática que levaremos anos para dela nos livrarmos.


Por quê?
Jaqueline Falcão e Marcus Vinicius Gomes*
O Globo


INDIGNAÇÃO EM FALTA

Brasileiros saem às ruas em causas próprias, mas não contra a corrupção


SÃO PAULO e CURITIBA. Em meio a escândalos de corrupção como os descobertos no Ministério dos Transportes, por que os brasileiros não saem às ruas contra esses desmandos? Organizadores de marchas pela legalização da maconha e pelos direitos dos gays, que lotaram as ruas de grandes cidades recentemente em defesa de suas causas, arriscam um palpite: a apatia seria causada por outro mal do Brasil, a impunidade.

O cientista político Marco Magri, um dos organizadores da Marcha da Maconha, vê uma descrença generalizada por parte da população, principalmente porque os três Poderes (Executivo, Judiciário e Legislativo) não têm dado respostas à sociedade contra a corrupção. Para Magri, o sistema de controle do combate à corrupção no Brasil está contaminado.

- Infelizmente, esse tipo de debate é dominado por essas três esferas de poder. Você tem um juiz julgando um deputado. Um funcionário do Executivo cria uma norma que o juiz seguirá. E o deputado vota a lei. Aqueles que deveriam ser o poder de controle um do outro não estão agindo - analisa Magri.

Ele acha que falta definir um objetivo específico para uma marcha contra a corrupção:

- Não existe um pedido específico nem mecanismos para concretizar uma luta. Iria para a rua pedir o quê? Para a lei ser cumprida? Para que deputados corruptos sejam punidos?

Para Ideraldo Beltrame, presidente da associação que organiza a Parada Gay em São Paulo, os movimentos gay conseguem levar multidões às ruas porque envolvem questões mais práticas:

- São questões objetivas e, normalmente, relacionadas aos direitos de grupos vistos como minorias. E também a corrupção é algo pulverizado, não palpável - diz Beltrame.

O fato de a população ter pontos de vista diferentes sobre o assunto também enfraquece a mobilização. Na visão de Beltrame, mesmo com a corrupção presente no dia a dia, as pessoas só têm a percepção dela quando há um grande escândalo, mas acabam achando que não adianta protestar.

- O movimento dos jovens que pintaram a cara, em 1992, pedindo o impeachment do então presidente Collor foi contra um tipo de corrupção. Mas, como a corrupção no Brasil já é crônica, acontece em diferentes momentos e em diferentes setores da sociedade, as pessoas ainda não incorporaram, como aspecto de cidadania, a luta contra a corrupção de maneira mais ampla - afirma Beltrame.

Movimentos foram cooptados

O presidente do Instituto Brasil e África, Saul Dorval da Silva, membro da Comissão de Política Étnico Racial (Comper) de Curitiba, é mais crítico. Para ele, a ausência de bandeiras contra a corrupção nas manifestações sociais deve-se em grande parte ao atrelamento dos movimentos estudantis e sindicais ao governo:

- A UNE virou um aparelho do governo na era Lula, assim como as centrais sindicais. Sem eles, as minorias voltaram-se para sua própria pauta - diz ele.

Já a coordenadora de logística Manoela Martins, uma das organizadoras da Marcha das Vadias, realizada ontem em Curitiba, diz que a ausência de reivindicações contra a corrupção no protesto se deve ao seu caráter suprapartidário.

- Não queremos partidarizar o movimento. Se levantarmos a bandeira contra a corrupção no governo do PT, por exemplo, estaremos atendendo apenas aos adversários do partido e perdendo o foco da nossa reivindicação, que trata da violência sexual contra a mulher.

A posse de deputados barrados pela Lei da Ficha Limpa e que foram liberados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) foi uma oportunidade não aproveitada pela população de ir às ruas, segundo Beltrame:

- Seria uma oportunidade de tentar garantir que, naquela eleição, quem tivesse ficha suja não se elegeria - diz ele.

* Especial para O GLOBO

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Pobres e ricos



Esta característica social guarda uma correlação direta com o nível de maturidade democrática atingido.

Tempos atrás costumava dizer que não seria bom para o país acabar com os pobres, pois assim haveria uma enorme crise de identidade entre os políticos e religiosos, os intelectuais e poetas certamente entrariam em depressão profunda com risco de suicídio e as ONG's passariam a superlotar a África. A matéria prima de suas risíveis e oníricas existências simplesmente desapareceria.


Todos sempre dizem que lutam em favor dos pobres, mas tão logo chegam ao poder ou às esferas de decisão procuram se locupletar do Erário, abrir caminhos para apaniguados e os pobres, os que não ascendem na escala social, continuam à mercê da sorte.


Viajando pelo interior do país percebe-se o quanto de demagogia criminosa reforça a pobreza das população longe dos grandes centros. 

Enfim...em pleno décimo ano do século XXI continuamos patinando neste baixo padrão de democracia.






J. R. Guzzo



"Melhor seria se houvesse menos gente empenhada em defender os pobres. Todos juram que estão a seu favor, mas se estivessem mesmo deveria haver no Brasil número muito menor de pobres. Já os ricos, que não têm defensor, nunca estiveram tão bem"






Promete ser uma arma muito utilizada pelo governo, ao longo da campanha eleitoral, falar sobre o perigo que os pobres deste país passariam a correr se a candidata Dilma Rousseff não for eleita para a Presidência da República. Entre as instruções a respeito do que ela deve dizer em seus discursos, ora em avaliação pelas equipes de propaganda da candidatura oficial, parece haver bastante entusiasmo com a tentativa de colar nos adversários uma intenção secreta: governar contra os pobres e a favor dos ricos. A ideia geral, aí, é deixar os outros candidatos, sobretudo o principal deles, numa situação sem saída. Se falarem em mexer no Bolsa Família, nos aumentos reais do salário mínimo e em outros benefícios, estarão mostrando sua verdadeira cara; se prometerem não mexer em nada, estarão mentindo.
A dificuldade desse tipo de plano, como de tantos outros, é combinar com o adversário para que ele cumpra a sua parte. O ex-governador José Serra, a ex-ministra Marina Silva e quem mais houver em campanha não vão anunciar, por exemplo, que acabarão com os pagamentos do Bolsa Família se forem eleitos. Por que diabo fariam uma coisa dessas? Ao contrário, vão assumir o compromisso de manter tudo como está; se quiserem caprichar, podem até dizer que o governo está pagando muito pouco e prometerem um belo aumento a partir de 2011. Nenhum candidato vai, da mesma forma, sair por aí anunciando planos de congelar os salários, cortar o crédito ou eliminar os programas de casa própria. Resta à ex-ministra, nesse caso, a alternativa de sustentar que os opositores dizem uma coisa, mas querem, na realidade, fazer exatamente o contrário. Mas aí é entrar em território incerto; acusações de mentira sempre têm duas mãos, e, numa disputa eleitoral que ameaça bater todos os recordes em matéria de tapeação, chamar o outro lado de mentiroso pode acabar em lucro zero.
Quanto aos pobres, em si, provavelmente seria melhor se houvesse menos gente empenhada em defendê-los. Todos juram que estão a seu favor, mas se estivessem mesmo já deveria haver no Brasil, a esta altura do século XXI, um número muito menor de pobres. Já os ricos, que não têm nenhum defensor, nunca estiveram tão bem quanto agora. Não há sinal de que algum deles tenha ficado mais pobre nesses últimos sete anos, salvo os que se meteram, por sua própria conta, em maus negócios – nada que tenha a ver com alguma decisão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele mesmo, por sinal, já disse que jamais os ricos e as grandes empresas ganharam tanto dinheiro quanto em seu período na Presidência. Poderia dizer, também, que nunca a quantidade de milionários brasileiros cresceu tanto como hoje. Segundo o último balanço do banco de investimentos Merrill Lynch, que calcula anualmente o número de cidadãos com patrimônio financeiro superior a 1 milhão de dólares pelo mundo afora, o Brasil ganhou 33 000 novos milionários entre 2004 e 2008. Dá, em média, um novo milionário por hora.
Não existe nada de errado com nenhuma dessas coisas, é claro. O problema do Brasil, em matéria de renda, não é a quantidade excessiva de ricos – é que há pobres demais. Mas sem dúvida é curioso, em cima dos números atuais, que a candidata oficial acuse os opositores de pretender governar para os ricos. O que poderiam fazer de tão diferente assim, em relação ao que já vem acontecendo? Produzir dois novos milionários por hora, quem sabe, em vez de apenas um? Naturalmente, nada disso faz sentido, mas é o que acontece quando estratégias de campanha se resumem a ficar procurando, o tempo todo, alguma maneira de falar mal dos outros candidatos. Os fatos reais, no caso desse palavrório sobre pobres e ricos, têm bem pouco interesse para quem acusa. O que importa é jogar uns contra os outros, na esperança de impressionar o lado onde há mais eleitores.
Os pobres do Brasil, sabidamente, não precisam de várias coisas; entre elas estão debates desse tipo, em que a ânsia de machucar o adversário pode fazer ruído no noticiário de campanha, mas não lhes põe um real a mais no bolso. Também não precisam de solidariedade, simpatia ou "políticas de renda". O que melhora de verdade a sua situação, como ficou comprovado no mundo dos fatos, são a multiplicação das oportunidades de emprego e a estabilidade da moeda na qual o seu trabalho é pago. O compromisso que mais lhes interessa no momento, por parte de quem pretende chefiar o próximo governo, é este – crescimento sem inflação. Não é o suficiente, num país que precisa melhorar em quase tudo. Mas é indispensável.
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