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terça-feira, 5 de março de 2019

Educação para todos


Cristovam Buarque*: - O Globo

Brasil continua com mais de dez milhões de adultos analfabetos, só 40% dos jovens terminando o ensino médio sem qualidade

Um dos exemplos do populismo da elite brasileira é a defesa da ideia de “universidade para todos” sem que o defensor assuma compromisso e lute por outros sete objetivos: “erradicação do analfabetismo de adulto”, “alfabetização de todas as crianças na idade certa”, “garantia de conclusão de ensino médio com qualidade igual para todos”, “cada jovem com a mesma chance na disputa por uma vaga nos cursos mais demandados”, “garantia de que os selecionados para as universidades vão poder concluir seus cursos”, “confiança de que os formados estarão preparados para o exercício de suas profissões” e “possibilidade de que serão capazes de aperfeiçoamento para os novos conhecimentos e profissões que surgirão ao longo de suas vidas profissionais”. Sem estas sete lutas, a reivindicação de “universidade para todos” é um slogan demagógico por não defender as mudanças estruturais de que a educação brasileira de base e nosso ensino superior precisam para educar bem a todos.

As cotas para afro-brasileiros buscavam, e conseguiram em parte, mudar a cor da cara da elite brasileira. No entanto, a política de ampliar vagas para ingresso na universidade sem garantir aumento de egressos no ensino médio com qualidade provoca um crescente número de alunos que entram, mas não concluem o curso universitário — se concluem, não recebem a necessária qualificação para o desempenho de suas profissões no mundo contemporâneo. No fundo, “universidade para todos” sem “educação de base para todos com qualidade igual” é uma proposta dentro do espírito do individualismo neoliberal: atende quem pode pagar boa escola e oferece vagas para quem não tem boas escolas; sem a revolução de que o Brasil precisa.

Precisamos de um programa de educação de base com a máxima qualidade igual para todos. Isto é possível, mas não atrai votos, porque exige de 20 a 30 anos para chegar a todo o Brasil, substituindo o atual frágil sistema municipal por um robusto sistema federal. Em 2003, o novo governo da época chegou a iniciar um programa de erradicação do analfabetismo de adulto, o Brasil Alfabetizado, e iniciou experiência visando à federalização da educação de base, o Escola Ideal. A partir de 2004, o governo parou estes dois programas e concentrou sua estratégia em ampliar vagas nas universidades, facilitando o ingresso no ensino superior. Alguns jovens conseguiram ingresso, mas o Brasil continua com mais de dez milhões de adultos analfabetos, apenas 40% dos jovens terminando o ensino médio sem qualidade e sem reduzir a desigualdade entre escolas dos ricos e escolas dos pobres.

“Universidade para todos” sem as sete outras metas é uma bandeira para políticos de olho na popularidade eleitoral imediata, não no reconhecimento histórico posterior, “Educação de base para todos” seria assunto para estadistas, capazes de mobilizar eleitores e sociedade em uma estratégia para que “os filhos dos pobres estudem em escolas tão boas quanto as dos filhos dos ricos”, e disputem em igualdade de condições o ingresso nos cursos mais demandados nas melhores universidades.

A política educacional de beneficiar indivíduos, em vez de mudar a estrutura da educação, é uma forma de “neoliberalismo social”: facilita a entrada no ensino superior para alguns, sem dar oportunidade a todos para uma educação de base com a máxima qualidade. Os 15 anos dessa política já mostraram que apenas alguns foram beneficiados, mas sem a mesma chance para todos. A revolução está em assegurar igualdade de qualidade na educação e fazer as reformas que nossa universidade precisa para ser instituição de excelência.

*Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília e foi senador (PPS-DF)

sábado, 9 de junho de 2018

O professor caminhoneiro

Cristovam Buarque- O Globo

Vota-se mais na política que promete carros do que na que defende a educação

Há décadas o Brasil desvia recursos da educação, do saneamento, da saúde, da moradia e de outros setores sociais para fazer as estradas, pontes, viadutos, avenidas que a indústria automobilística exige; além dos sacrifícios fiscais e das taxas de juros subsidiados, sem os quais o Brasil não se transformaria no 8º maior produtor de automóveis do mundo. Esses sacrifícios foram feitos sem reclamação, porque a inflação permitia a ilusão de recursos públicos para todas as prioridades: as sociais e as automobilísticas. O resultado é sermos grandes produtores de carros e um dos últimos países em educação, saúde, distribuição de renda, com uma cultura que prioriza mais o tanque de gasolina dos automóveis do que a qualidade de alimentação dos filhos; mais a pavimentação das vias do que a qualidade das escolas; vota mais na política que promete carros do que na que defende educação.

Graças aos caminhoneiros, estamos descobrindo que, para reduzir o preço do diesel, será necessário tirar dinheiro de outros gastos. Os caminhoneiros estão mostrando que um real gasto em uma despesa não pode ser gasto simultaneamente em outra. Antes isso era possível graças ao estelionato da inflação.

Descobrimos a aritmética; falta descobrir a política para escolher de onde retirar os recursos necessários, sem comprometer a educação e outros gastos sociais. Do total de R$ 9,5 bilhões destinados ao subsídio para o diesel, o governo propõe retirar R$ 55 milhões da educação. Os defensores da educação devem descobrir que não basta mais reivindicar, é preciso lutar para retirar recursos de outros setores: das mordomias e de outros desperdícios históricos pagos pelo Estado brasileiro, beneficiando a elite.

A greve nos ensinou que o Brasil esgotou o modelo econômico e social pelo qual o progresso está no aumento do PIB, mesmo ao custo da depredação ecológica; concentração de renda; violência; atraso educacional, científico e tecnológico; cidades degradadas. Mostrou também que foi um erro a opção pelo transporte rodoviário entre cidades, no lugar do ferroviário, hidroviário ou por cabotagem; como foi erro priorizar o transporte urbano por carros privados, no lugar do transporte coletivo, de preferência movido por combustíveis renováveis. Recebemos a lição de que é estúpido o sistema de distribuição que obriga um litro de leite ou uma dúzia de ovos a viajar centenas de quilômetros entre produtor e consumidor, contrariando o eficiente modelo do “slow food”, criado pelo italiano Carlo Petrini e defendido no Brasil pelo agrônomo João Luiz Homem de Carvalho, que propõe a produção de alimentos próximo ao consumidor.

A paralisação foi suficiente para o governo decidir subsidiar o óleo diesel, sacrificando gastos em outros setores. Pena que os militantes continuem prisioneiros da época da reivindicação em vez de lutar para que o subsídio seja financiado sem sacrifício de gastos na educação e sem cair na ilusão inflacionária. Para tanto, bastaria lutar por reduzir apenas 0,6% dos gastos previstos para o Senado e a Câmara de Deputados.

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Cristovam Buarque é senador pelo PPS-DF e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Quem somos nós?


Uma consulta popular sobre a 'identidade do brasileiro', sobre os traços comuns ou predominantes que conferem a todos os nascidos nesta terra uma distinção entre os povos, provavelmente ensejaria tantas respostas quanto for o número de respondentes

* ITAMAR MONTALVÃO, O Estado de S.Paulo - 02 Abril 2018

Uma consulta popular sobre a “identidade do brasileiro”, sobre os traços comuns ou predominantes que conferem a todos os nascidos nesta terra uma distinção entre os povos, provavelmente ensejaria tantas respostas quanto for o número de respondentes. Há quem diga que só é possível falar em “nação brasileira” no que tange à narrativa única que é comumente ensinada nas escolas, pois tal é a multiplicidade de “brasis” que convivem e interagem dentro do mesmo território e falam a mesma língua que, na prática, é difícil apontar origens históricas, culturais e religiosas que sejam comuns a essa miríade de comunidades que compõem o Brasil. Estaríamos mais próximos, portanto, da ideia de um povo submetido às mesmas leis de um Estado único do que propriamente a de uma nação, vale dizer, um conjunto de indivíduos que reconhece a existência de um passado formador comum e, sobretudo, comunga as mesmas aspirações em relação ao futuro.

Os múltiplos tremores políticos e sociais que na segunda década do século 21 vêm embaralhando as cartas que até então explicavam o Brasil e a natureza de sua gente, com especial destaque para as chamadas lutas identitárias, expuseram ainda mais essa fragmentação. Das grandes (e difusas) manifestações de junho de 2013 – que se repetiriam dois anos mais tarde pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff – sobreveio um profundo sentimento de inquietação que permeia diferentes estratos sociais. Foi precisamente essa angústia coletiva que levou o senador Cristovam Buarque, o jornalista Francisco Almeida e o sociólogo Zander Navarro a formularem uma única e singela pergunta a 14 dos mais respeitados pensadores brasileiros da atualidade: por que somos assim?

O resultado está no livro Brasil, Brasileiros. Por que Somos Assim? (Verbena Editora, 2017, 338 páginas), uma riquíssima coletânea de 16 textos – assinados por Alberto Aggio, Augusto de Franco, Bolívar Lamounier, Flávio R. Kothe, John W. Garrison II, José de Souza Martins, Loreley Garcia, Lourdes Sola, Luís Mir, Marco Aurélio Nogueira, Marcus André Melo, Mércio Pereira Gomes, Paulo César Nascimento e Socorro Ferraz – que oferece aos leitores variadas interpretações sobre o Brasil e o nosso modo de ser. A organização da obra foi feita pelo trio citado no parágrafo anterior. A propósito, Cristovam Buarque e Zander Navarro também são autores de dois ensaios, Como somos e O Brasil contra si mesmo, respectivamente.

O livro parte de uma ideia central segundo a qual o Brasil não passa por uma crise, como muitos pensam, pois “crise” pressuporia uma ruptura de tal forma da estrutura política, social e econômica que, pouco a pouco, ela se tornaria absolutamente ineficaz, “mergulhada crescentemente em processos que não apontam para a sua finalização”, como fica bem explicado na apresentação do livro. De fato, uma crise com esse grau de comprometimento do tecido social e das instituições não traduz com acuracidade o caso brasileiro. Em que pese a fragilidade das “pontes” entre os diferentes estamentos, não há nada que indique, pelo menos por enquanto, que as eventuais hostilidades possam extrapolar o limite das contraposições narrativas próprias das lides políticas. Da mesma forma, nada pode ser dito contra a higidez do Estado Democrático de Direito no Brasil. Nossas instituições estão de pé e têm se prestado a tratar das mais prementes questões nacionais, sem prejuízo de eventuais reparos que possam ser feitos à atuação de alguns de seus membros, bem como da desconfiança que parte dos que ocupam posições de autoridade nos três Poderes possam despertar, em maior ou menor grau, em seus concidadãos.

Com efeito, em Os bruzundangas e as possibilidades da República Marcus André Melo reflete exatamente sobre o vigor institucional brasileiro ante os inúmeros desafios que se lhe impuseram nos últimos anos. “Malgrado o sentimento público de rejeição a tudo que aí está, a democracia não vai mal. (…) A doença política no país resulta do confronto entre instituições robustas de controle e o fortalecimento da capacidade da sociedade civil em monitorar governos e representantes. Assemelham-se às dores do parto de uma nova ordem”, escreve o cientista político.

Aos autores não foi dada nenhuma orientação sobre a condução dos trabalhos. Todos tiveram absoluta liberdade para oferecer suas respostas à indagação fundamental, inclusive quanto ao formato. No livro, o leitor encontrará artigos acadêmicos, ensaios e pensatas. John W. Garrison II deu um tom biográfico a seu texto, O Brasil e os brasileiros: um olhar externo (otimismo é preciso!), fazendo uma interessante correlação entre as suas experiências no Brasil, para onde veio ainda recém-nascido com os pais, um casal de missionários da Igreja Metodista, e diversos acontecimentos de nossa História a partir de 1954.

O texto de Garrison destoa dos demais não só pelo estilo, mas também pelo olhar. Em geral, predomina o pessimismo em relação ao atual estado da sociedade brasileira, sobretudo por se tratar de cientistas sociais, em sua maioria, que são “leitores críticos das realidades sociais e seus condicionantes históricos.”

Da frustração e da desconfiança hoje presentes em amplos segmentos sociais surgiu um perigoso sentimento de rejeição da política dita tradicional como meio eficaz para a composição dos conflitos sociais e, principalmente, para direcionar os passos para o futuro.

Não por acaso, observa-se a busca desenfreada por uma “novidade” que não se sabe exatamente quem nem o que é. Esse mar de incertezas que hoje banha nossas visões sobre o País enseja, entre outras razões, uma série de reflexões sobre o presente e o futuro. Algumas delas o leitor encontrará em Brasil, Brasileiros. Por que Somos Assim?, um excelente ponto de partida para quem deseja se situar nestes tempos peculiares.

* JORNALISTA




sábado, 12 de novembro de 2016

República corporativa

CRISTOVAM BUARQUE
O Globo - 12/11




O Brasil já teve nomes antes de República Federativa do Brasil, mas nenhum se ajustaria melhor à realidade política atual do que o nome de “República Corporativa dos Brasis”. Somos um país dividido em uma parcela moderna e outra excluída da educação, da saúde, da renda, da participação política; e a parcela moderna é dívida em corporações, sem um interesse nacional comum e sem uma perspectiva de longo prazo que beneficie as futuras gerações.

Não há um sentimento de nação federativa, cada grupo deseja se apropriar da maior parcela possível dos recursos públicos e da maneira mais imediata. Aliam-se entre eles para forçarem os governos a atenderem a todas as reivindicações e gastarem mais do que os limites possíveis e provocam endividamento, juros altos e inflação. Mas as corporações ganham com isto: a dos bancos, com os juros; dos sindicatos, porque passam a se justificar como o promotores dos periódicos reajustes de salários; os empresários, porque remarcam os preços.

Os empresários não querem abrir mão dos fartos subsídios que recebem; com o argumento de manter os empregos; os sindicatos dos trabalhadores se aliam aos patrões para exigirem mais recursos dos governos, tirando dinheiro inclusive da Educação e da Saúde para investimentos de interesse de empresas. As classes médias reclamam dos impostos elevados, mas não reclamam da má qualidade dos serviços públicos, porque desejam melhorar apenas os serviços privados financiados com subsídios públicos. Magistrados já conseguem recursos públicos para pagar a escola privada de seus filhos; parlamentares dispõem de serviço médico especial. Na República Corporativa, procura-se aumentar os ganhos de cada grupo, não como beneficiar a todos e ao país.

Querendo atender à corporação a qual pertence e da qual depende na sua reeleição, cada parlamentar faz acordos concedendo tudo o que as corporações pedem, pressionando nos corredores do Congresso. Por isso, no Brasil, a inflação não é apenas um fenômeno econômico e monetário, é um fenômeno cultural e moral, devido à formação política de uma República Corporativa, sem controle, nem prioridades.

Os Brasis não aceitam a ideia de um limite para os gastos públicos porque isso exigiria que alguma corporação perdesse para outras — ou para os que não têm corporação. Elas fogem da disputa, se oferecem mutuamente benefícios, preferindo a ilusão do aumento ilimitado de recursos com o falsificado dinheiro da inflação.

A proposta de emenda à Constituição que define um limite nos gastos traria o realismo na política, forçaria uma disputa entre grupos com o sentimento mínimo de nação. Entretanto, por mais necessária que seja para frear a voracidade corporativa dentro da democracia, a PEC poderá fracassar por falta de uma liderança que consiga convencer os brasileiros corporativizados a fundarem uma República Federativa de um só Brasil. Condição básica para o realismo fiscal.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Tristes tempos

 
Cristovam Buarque 
O GLOBO

Debate político se limita ao confronto entre dois grupos que se acusam

Tristes tempos em que até o dicionário foi corrompido. Para alguns, um instrumento constitucional é definido por golpe, mesmo se houver prova de crime pela presidente; para outros, o uso deste instrumento se justifica diante da corrupção e do desgoverno, antes mesmo de analisar provas do crime.

Tristes tempos quando o debate político se limita ao enfrentamento entre dois grupos que se acusam mutuamente de corruptos ou de golpistas. Um lado preocupado apenas em interromper um governo legal, mas que perdeu a legitimidade, por ser inoperante, incapaz de conduzir as reformas sociais e econômicas de que o país precisa, contaminado pela corrupção; o outro concentrado na defesa deste governo a qualquer custo, cego aos erros e às mentiras; chegando ao ponto de dizer que o desemprego decorre da luta contra a corrupção.

Ambos acreditam que, depois da decisão sobre o impeachment, aprovado ou recusado, o país retomará seu rumo, seja sob o novo governo Temer ou o velho governo Dilma. Não se vê debate sobre como: retomar o crescimento do PIB e fazê-lo contemporâneo com o avanço técnico e científico; distribuir a renda; erradicar o analfabetismo; assegurar educação de qualidade para cada criança independente da renda dos pais e da cidade onde mora; como recuperar nosso abismal atraso na capacidade científica e tecnológica e de inovação; como aumentar a produtividade, garantir estabilidade monetária e fiscal, equilibrar as contas públicas, controlar os endividamentos; como atender à saúde, enfrentar a violência urbana, dar sustentabilidade à Previdência; como emancipar os pobres da necessidade de bolsas e cotas. Parece que o Brasil real desapareceu.

Tristes tempos em que a política se faz sem percepção da história. Como se estivéssemos em um campeonato de futebol, com apito final depois de cada eleição. Não se discute as causas atuais e históricas que nos condenam. Nem se considera que, no dia seguinte ao impeachment, se aprovado, mesmo com a credibilidade de novo presidente, todos os problemas continuarão, inclusive as suspeitas sobre os políticos; e que os derrotados irão para as ruas em nome da luta contra o que, acreditam, foi um golpe. Tampouco se discute que, se o impeachment não passar, a população, indignada e desencantada, continuará nas ruas com apoio crescente de desesperados, desempregados, empobrecidos, manifestando-se contra um governo desacreditado e submetido a outros pedidos de impeachment.

A solução estaria em uma eleição antecipada, seja para todos os cargos ou apenas para presidente e vice-presidente. Havendo aceitação dos principais atores, isto é possível com uma reforma constitucional. Mas, é pequena a probabilidade de aceitação de uma medida de bom senso, diferente das propostas pelo debate simplista e imediatista do impeachment ou não impeachment.

Tristes tempos em que as pessoas de bom senso se sentem estrangeiras em seu próprio país.

Cristovam Buarque é senador (PPS-DF)
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domingo, 20 de março de 2016

A outra corrupção

CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO - 19/03






Os julgamentos por suspeitas de corrupção têm impedido a avaliação do governo Lula/ Dilma na transformação da estrutura socioeconômica do Brasil. Nenhum governo chegou ao poder com tantas promessas de mudar a realidade brasileira e nenhum esteve tanto tempo à frente da nação, à exceção de Vargas.

Mas, ao olhar ao redor, a avaliação não é positiva.

O Bolsa Família, iniciado no governo anterior com o nome de Bolsa Escola, distribuindo anualmente 0,5% do PIB, deve ser aplaudido por seu caráter de rara generosidade das elites governantes, mas não tem sido um programa transformador. A transformação seria emancipar o povo da necessidade de bolsa, e o governo Lula/ Dilma não avançou neste propósito.

Em um país com a memória da escravidão, o governo Lula/Dilma fez o gesto louvável de criar instrumentos para incluir pobres e descendentes de escravos no ensino superior, com cotas, Prouni, Fies, além de abrir mais 14 universidades federais. Criar mecanismos para que os filhos de alguns pedreiros ingressem na universidade é um gesto positivo, mas não tem, em si, caráter transformador da estrutura social. A transformação viria de reformas no sistema educacional, para fazer com que todos os filhos de todos os pedreiros tivessem condições de disputar vaga no vestibular com a mesma chance que os filhos de seus patrões.

O governo Lula/ Dilma não fez avançar a consciência cívica e política: acomodou as massas e cooptou os movimentos sociais, como CUT e UNE; abriu as portas das lojas para grupos que antes estavam marginalizados, mas não os abrigou como cidadãos plenos; aumentou o número de consumidores, não de cidadãos. Ao abandonarem propostas transformadoras, os partidos progressistas e os movimentos sociais agem como ex-abolicionistas que, ao chegar ao poder, contentam-se em emancipar alguns escravos e reduzir o sofrimento dos outros, sem fazer a Abolição.

No futuro, além da nódoa ética sobre o PT e demais partidos da base de apoio e suas avaliações dos 13% de século do governo Lula/Dilma mostrarão a perda de uma grande oportunidade histórica, um partido com propostas transformadoras chegar ao poder, com um líder carismático de origem popular, vencer quatro eleições seguidas, e abandonar o pudor e o vigor transformador.

O governo Lula/Dilma encontrou um país dividido, social e politicamente, agravou a divisão política e, no lugar de derrubar o muro que nos divide socialmente, apenas jogou algumas migalhas para os excluídos, e não cumpriu as promessas de realizar as reformas estruturais.

O perigo é que as forças do pós-Lula/ Dilma não façam o que eles não fizeram; porque juízes prendem políticos e limpam a política por um período, mas não derrubam a "cortina de ouro" que divide o Brasil; julgam a corrupção no comportamento dos políticos, mas não a corrupção nas prioridades das políticas.

sábado, 9 de agosto de 2014

Desalojados da utopia

 CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO 


Bolsa Família passou a ser vista como solução, e não abrigo provisório


É antigo o apoio aos desalojados por causa de desastres naturais, raro o apoio aos desalojados pelos modelos econômicos e sociais. Ninguém com sentimento humanista deixa de reconhecer o papel positivo da transferência de renda para abrigar famílias pobres, que ficaram desalojadas ou excluídas dos benefícios do progresso. Sem essa ajuda, elas estariam na mesma situação das vítimas das tragédias naturais. Mas falta humanismo naqueles que veem os abrigos como a solução para as dificuldades que as vítimas de tragédias atravessam ou naqueles que comemoram o aumento no número dos que vivem em abrigos, fugindo dos horrores da pobreza.

Essa visão predomina entre os que defendem as transferências de renda como solução para o problema da pobreza, sem a percepção de que os necessitados da Bolsa Família são desalojados e desabrigados pelo modelo econômico, que a transferência de renda busca mitigar sem eliminar a exclusão. Por isso, chamam de beneficiados, e não de necessitados, os desabrigados.

Na sua forma atual, sem escola de qualidade, o programa Bolsa Família está sendo um abrigo para proteger necessitados. Comemorar o aumento no número de pessoas que dela necessitam é igual a ver como solução definitiva o abrigo provisório para desabrigados por catástrofes.

A necessidade da Bolsa Família decorre da interdição histórica de um pedaço de terra para as famílias rurais, que foram desalojadas pelo modelo voltado para o mercado externo; ou devido à constante migração de pobres para as cidades em busca de emprego que não existe ou de baixos salários que não atendem às necessidades básicas. Deve-se também ao desvio de recursos para criar infraestrutura econômica e pagar juros da dívida que ela exigiu, no lugar de investimentos em serviços públicos, sobretudo, educação de qualidade para todos.

Até recentemente, essas falhas do modelo econômico eram percebidas por aqueles que lutavam por um mundo sem desalojados sociais. O fracasso dos regimes socialistas desfez as propostas e as bandeiras de luta por uma economia comprometida com o social. No Brasil, a convergência desse fracasso com a ascensão da esquerda ao poder acomodou de tal forma os políticos que todos passaram a justificar as medidas mitigadoras como se fossem o limite possível da utopia. A Bolsa Família passou a ser vista como solução, e não abrigo provisório. E seus beneficiados vistos como integrados ao modelo e não mais como desabrigados por ele.

A aceitação do modelo, que desaloja os excluídos, desalojou as esquerdas, tirou-lhes o vigor transformador, acomodou-as na aceitação dos abrigos como se fossem o céu social.

Até aqui nenhum candidato a presidente disse: “Enquanto uma família precisar, receberá a Bolsa Família, mas não descansarei enquanto o modelo social continuar provocando desalojado que precisa de abrigo provisório”.
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sábado, 26 de julho de 2014

Desculpe, David Luiz


CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO  

Nós, políticos, não estamos ganhando a Copa do Bem-Estar

Os EUA tiveram uma guerra civil que custou cerca de 600 mil vidas. A Alemanha foi derrotada duas vezes no período de 27 anos e a França foi ocupada pelos alemães. Outros países tiveram grandes traumas por terremotos e maremotos. Nossos traumas foram derrotas no futebol: para o Uruguai, em 16 de julho de 1950, e Alemanha, em 8 de julho de 2014. Sofremos por causa dos 7 a 1 no futebol, mas esquecemos dos 103 a zero para a Alemanha em Prêmios Nobel.

A realidade social não nos traumatiza porque nossos grandes problemas foram banalizados.

Consideramos tragédia ter o quarto melhor time de futebol do mundo, mas não nos traumatiza quando, no dia 1º de março de 2011, a Unesco divulgou que estamos em 88º lugar em educação; nem quando, em 15 de março de 2013, o PNUD divulgou que estamos em 85º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano; ou quando o Banco Mundial nos coloca como o oitavo pior país em concentração de renda; ou ainda quando soubemos que somos o 54º país em competitividade no mercado mundial; ou quando o IBGE divulgou, em 27 de setembro de 2013, o aumento no número de adultos analfabetos de 2011 a 2012.

Nenhum trauma aconteceu quando a Transparência Internacional nos reprova em corrupção; ou quando vemos que, no ano passado, 54 mil brasileiros foram assassinados no país e outros 50 mil mortos no trânsito. Não nos traumatiza o fato de que 50 milhões de brasileiros — desalojados históricos pelo modelo econômico — passariam fome se não fossem as pequenas transferências de renda, como se eles fossem abrigados depois de uma inundação. Não nos choca a destruição de 9% a mais de florestas em 2013 do que em 2012.

Sofremos com as derrotas no futebol porque elas não foram banalizadas, são exceções na nossa trajetória de vitórias. Não nos traumatizam os desastres sociais porque nos acostumamos a eles e nos acomodamos. Por isso, não exigimos de nossos líderes políticos o mesmo que exigimos dos jogadores e técnicos.

Ao ouvir David Luiz pedir desculpas porque não foi “capaz de fazer seu povo feliz, pelo menos no futebol”, pensei que deveria pedir desculpas a ele, porque sou parte da seleção brasileira de líderes políticos e não consigo fazer o necessário para facilitar a vida de cada brasileiro em busca de sua felicidade.

O político não proporciona felicidade, como um artilheiro que faz gols, mas deve eliminar os entulhos sociais, tais como transporte público ineficiente, fila nos hospitais, escolas sem qualidade e violência descontrolada, que dificultam o caminho de cada pessoa em busca de sua felicidade pessoal. Esses entulhos sociais que povoam o Brasil provam que nós, os políticos brasileiros, não estamos ganhando a Copa do Bem-Estar, base necessária, embora não suficiente, para a felicidade de cada pessoa.

Por isso, eu e todos os políticos com mandatos, não David Luiz, devemos pedir desculpas por não eliminarmos os entulhos que dificultam a busca da felicidade pelos brasileiros.
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sábado, 19 de outubro de 2013

Cortina de ouro



CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO



O Brasil é um exemplo. Somos um país dividido, com a população separada


Em uma noite morreram 359 pessoas tentando atravessar o Mediterrâneo, de países pobres para ricos. Estima-se que 280 morrem, em um único ano, tentando atravessar a fronteira entre a América Latina e os Estados Unidos, contra 809 que morreram tentando pular o muro de Berlim em todos os 28 anos de sua história. O número de mortes é muito maior se considerarmos milhões que morrem por não terem dinheiro para saltar os muros dos bons hospitais em busca de atendimento médico com qualidade.

O mundo derrubou a Cortina de Ferro, separando a escassez nos países socialistas dos benefícios nos capitalistas, e construiu uma Cortina de Ouro, que serpenteia o planeta por dentro de cada país, separando as necessidades dos pobres dos privilégios dos ricos.

O que aconteceu à margem da Ilha de Lampedusa chamou atenção pelo tamanho da barbaridade concentrada em uma noite sobre emigrantes tentando sair da pobreza da África para a riqueza da Itália. Mas todos os dias morrem muito mais pessoas por não conseguirem saltar os muros que fazem parte da Cortina de Ouro, que cercam as boas escolas para impedir que nelas entrem crianças de famílias de baixa renda. De um lado do muro, uma famosa foto mostra o edifício de apartamentos de luxo no bairro Higienópolis de São Paulo e, no outro, uma favela chamada Paraisópolis.

A escada que permitiria o salto de um lado para o outro seria colocar as crianças dos dois lados em escolas com a mesma qualidade.

Mas a Cortina de Ouro está sendo consolidada entre países, por muralhas ou polícia de fronteira; e, dentro de cada país, visíveis ou não, pelos muros de shopping-centers, escolas, hospitais e condomínios. Mas, em vez de espalhar os benefícios construídos pela modernidade, a civilização parece estar preferindo fazer uma humanidade dividida. O Brasil é um exemplo. Somos um país dividido, com a população separada por uma Cortina de Ouro.

A tarefa dos abolicionistas foi derrubar, por meio de uma lei, o muro que separa escravos-negros de livres-brancos. A Cortina de Ferro foi derrubada pelos martelos nas mãos dos moradores de Berlim Oriental. A derrubada da Cortina de Ouro só será possível com leis que assegurem ao professor brasileiro ser tratado com o reconhecimento máximo.

Mas parece que estamos longe disso. Talvez não seja coincidência que, no mês em que morrem africanos fugindo para a Itália, nas vésperas do Dia do Professor, tenhamos mestres em greve no Brasil, em busca de pequenos aumentos salariais. Alguns deles sendo vítimas de violência policial.

Ao cometer o crime de depredar bens públicos ou privados, os manifestantes, ao lado dos professores, estão provavelmente sem saber e por caminhos errados lutando para derrubar a Cortina de Ouro, como os berlinenses fizeram com a cortina de ferro.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Beijo do desprezo



O abandono de nossas escolas não matadiretamente, mas dificulta o futuro de cada criança que não estuda

CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO


Não é difícil perceber como as manchetes das revistas do último fim de semana se referem à tragédia humana da boate Kiss de Santa Maria: “Quando o Brasil vai aprender?”, “A asfixia não acabou”, “Tão jovens, tão rápido e tão absurdo” e “Futuro roubado”. É também uma tragédia que pode ser associada às escolas de todo o Brasil. É como se a boate de Santa Maria fosse uma metáfora da escola brasileira.

Na primeira delas, os jovens perderam a vida por inalar um gás venenoso; na outra as crianças perdem o futuro por não inalarem o oxigênio do conhecimento. A imprevidência de proprietários, músicos e fiscais levou à morte por falta de ar; a de políticos, pais e eleitores leva a uma vida incompleta por falta de educação. A tragédia despertou para os riscos que correm nossos jovens em seus fins de semana em boates, mas ainda não despertou para o que perdem nossas crianças e jovens no dia a dia de suas escolas.

Estamos fechando boates sem sistemas de segurança, mas ainda deixamos abertas escolas sem qualidade. Os pais começaram a não deixar seus filhos irem a boates inseguras, mas levam confiantemente suas crianças a escolas que não asseguram o futuro delas. Exigimos que as boates tenham portas de emergência, mas não exigimos que as escolas sejam a porta para o futuro das crianças.

A tragédia de Santa Maria provoca a percepção imediata da fragilidade vergonhosa na segurança de boates, mas a tragédia de nossa educação, apesar de suas vítimas, não é percebida. Isto porque ela é uma tragédia à qual nos acostumamos e nos embrutece, ou porque são crianças invisíveis pela pobreza, ou ainda porque somos um povo sem gosto pela antecipação, só ouvimos o grito de fogo e vemos a fumaça depois que matam. Por isso fechamos os olhos à tragédia da educação que hoje devasta a economia, a política e o tecido social do Brasil.

O abandono de nossas escolas não mata diretamente, mas dificulta o futuro de cada criança que não estuda. Se as escolas fossem de qualidade para todos, teríamos menos violência urbana, maior produtividade, mais avanços no mundo das invenções de novas tecnologias e um país melhor.

Por isso, ao mesmo tempo em que choramos as trágicas mortes dos jovens de Santa Maria, choremos também pelo futuro das crianças que não vão receber a educação necessária para enfrentar o mundo. Choremos pelos que perderam a vida na boate ao respirar o ar venenoso, e pelos que não vão receber nas escolas o ar puro do conhecimento.

Não vamos recuperar as vidas eliminadas na boate Kiss, podemos apenas chorar e nos envergonhar. Mas podemos evitar o desperdício das vidas que estão hoje nas “Escolas Kiss”: metáfora que une boate e escola, sobretudo, quando lembramos que a boate se chamava Kiss, nome que também deveríamos dar às nossas escolas de hoje: beijo do desprezo. Desprezo pelas vidas de jovens ou pelo futuro de nossas crianças.
Cristovam Buarque é senador (PDT-DF)
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sábado, 20 de outubro de 2012

Esgotamento e inflexão

Uma importante reflexão sobre nosso futuro. 
O ex-Reitor da UNB e ex-Min da Educação aponta pontos sofríveis para sustentação de nosso desenvolvimento social harmônico.
Vale a reflexão.


Esgotamento e inflexão
CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO


Nos últimos vinte anos de governos social-democratas, o Brasil melhorou graças à continuidade de quatro pilares: a democracia, a responsabilidade fiscal, a generosidade das bolsas e uma política econômica de crescimento. Estes pilares estão se esgotando.

A democracia se esgota porque não foi capaz de fazer a reforma política; não implantou um sistema ético para o financiamento de campanhas; e não barrou a corrupção.

A responsabilidade fiscal se esgota porque a reforma do Estado não foi feita, não houve controle dos gastos, nem mudança na gestão pública.

A generosidade social começou ainda no governo militar com a aposentadoria rural. Mas foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu segundo mandato, que adotou a concepção das bolsas, transferindo renda para quatro milhões de beneficiários. Lula ampliou este número para 12 milhões e elevou o valor do salário-mínimo em taxas superiores às da inflação. A presidente Dilma Rousseff ampliou ainda mais os beneficiários. Mas os programas de pura transferência de renda não estão sendo capazes de induzir a emancipação da população pobre.

O crescimento econômico manteve-se com o mesmo padrão básico: ampliação de produção, exportação de commodities agrícolas ou minerais e produção de bens industriais para o mercado interno, sofrendo, no entanto, uma desindustrialização em função da âncora cambial, da falta de competitividade, do Custo Brasil e da falta de capacidade para inovação. Este modelo não foi capaz de dar o salto para uma economia de alta tecnologia, com respeito ao meio ambiente, estruturalmente distributiva e pelo qual o propósito não seja apenas aumentar o PIB, mas aumentar o bem-estar da população.

Há um esgotamento nos quatro pilares da social-democracia brasileira, sendo necessária uma inflexão que permita completar com uma reforma política, criando mecanismos que tornem a corrupção impossível, eliminando a influência do poder econômico nas eleições. A responsabilidade fiscal precisa ser completada por reformas na gestão, na política fiscal e no controle dos gastos. A generosidade das transferências de renda precisa ser substituída pela emancipação da população para que nenhuma família brasileira precise de ajuda. E a economia precisa incorporar o equilíbrio ecológico, a distribuição de renda, a produção de bens distributivos e o salto para uma sociedade criadora de bens de alta tecnologia, caminhando para aumentar o bem-estar social, não apenas o PIB.

O fim das eleições municipais deveria ser o ponto de partida para o debate. Mas, aparentemente, este radicalismo não entrará nos debates. Vamos continuar discutindo como avançar na mesma direção de um modelo em esgotamento, com a mesma política de satisfazer os interesses imediatos de corporações, sem olhar o longo prazo, sem fazer a necessária inflexão histórica.
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sexta-feira, 16 de março de 2012

Escolhas certas

Uma boa revisão histórica de nosso processo de perda de perspectiva social e coletiva na busca de se viver a democracia responsável e participativa.



Escolhas certas
Cristovam Buarque
O Globo

O destino de cada pessoa depende, em grande parte, das escolhas que ela faz ao longo de sua vida; além de fatores sobre os quais não tem controle. No caso das nações, salvo acidentes naturais, o destino depende inteiramente das decisões tomadas de maneira coletiva pela sociedade.

A realidade brasileira é o resultado de nossas decisões no passado. E, pelo que vemos da nossa realidade, muitas escolhas foram erradas. Erramos quando, em nome do novo Brasil que surgia, Portugal escolheu o caminho do latifúndio, do açúcar e da escravidão, em vez de uma economia voltada para o mercado interno, produção em pequenas propriedades, como no Norte dos Estados Unidos da América. Fizemos também a escolha errada ao abandonarmos a educação, proibirmos gráficas e jornais, quase que impondo o analfabetismo pleno ou funcional a todo o novo país. Foram escolhas erradas. 

Quando ficamos independentes, fizemos escolhas erradas ao manter a escravidão por longos 70 anos, com a mesma economia agrária exportadora, latifundiária, com o mesmo abandono da educação. Escolhemos erradamente não distribuir terra aos escravos libertos, não lhes garantir direito algum, nem educar os seus filhos. 

Modernamente, fizemos a escolha errada ao abandonar os sistemas de transporte ferroviário e fluvial pela opção da indústria automobilística como o motor do progresso. Esta escolha marcou o Brasil, induzindo ao endividamento, à concentração da renda para viabilizar a demanda dos novos bens industriais de alto valor. Fizemos a escolha errada de basear nossa indústria em tecnologias importadas intensivas, por meio de capital que não tínhamos, e dispensando a mão de obra que tínhamos sobrando. 

Erramos na escolha de consumir, em vez de poupar; de desmatar, em vez de proteger as florestas; de forçar uma urbanização apressada, em vez de investir nas cidades menores. Sobretudo, erramos ao escolher a opção de financiar os custos de infraestrutura utilizando mecanismos inflacionários que corroeram o tecido social ao longo de décadas. Escolhemos erradamente a ditadura como forma de impor a continuação das escolhas erradas, em vez de apostar na democracia como a forma de corrigir os rumos com novas escolhas. 

Nos últimos 20 anos, com a correta opção democrática, fizemos a escolha errada de induzir o ensino superior, enquanto abandonamos a educação de base que serve de alicerce a todo o edifício social. 

Agora estamos errando na escolha de como combater a violência. Em vez de escolher a construção de uma sociedade pacífica, estamos escolhendo o caminho de garantir segurança para proteger a população rica, convivendo com a violência. Em vez de encarar o problema da violência, procurando pacificar a sociedade brasileira, optamos pelo gasto de bilhões de reais para a proteção da violência urbana ao redor. 

A elite usa carros blindados; seus filhos são rodeados de seguranças nas casas e mesmo nas ruas; compra bonecos inflados, para dar a impressão de que há passageiros dentro do carro. As pessoas passam de carro diversas vezes diante das próprias casas, sem parar, para ver se há algum estranho por perto; armam-se e fazem cursos de defesa pessoal; inundam as ruas de filmadoras contra os ladrões, mas que acabam com a privacidade de todos; vivem cercados por muros e grades dos condomínios e dos shoppings; encastelam- se e aprisionam-se para obterem segurança em vez de paz. 

Estas são escolhas erradas. É preciso segurança contra a violência atual, mas ela será um luta suicida se não fizermos a escolha correta de iniciarmos a construção de uma sociedade unificada e pacífica. A opção de paz, em vez de opção de segregação, consiste em menos muros e em mais pontes. Uma ponte seria a adoção de uma geração de brasileiros, com toda ela em escola de qualidade, criando uma sociedade com a produtividade do conhecimento e a consciência da paz e do respeito. Isto é preciso e é possível. Mas a nossa história mostra uma trágica preferência por escolhas erradas e parciais, prisioneiras do imediatismo, que desprezaram as escolhas definitivas e de longo prazo. Talvez porque depois de uma, duas, três ou mais escolhas erradas a mudança do destino fica mais difícil, mesmo diante das escolhas certas.
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Lições da Grécia

CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO

Este ano foi da Grécia. Mais do que Irlanda, Islândia, Espanha, Portugal ou Itália, a Grécia simbolizou a crise mundial. Mais também do que os EUA em 2008.

Na Grécia, a crise mostrou uma dimensão mais ampla: foi econômica, com forte contração do PIB; política, porque nenhum outro país teve mais greves e mobilizações nas ruas; e social, por causa da consequência do desemprego, inclusive com fome em diversos setores da sociedade.

Na Grécia é possível perceber os escombros deixados por uma economia que apresentou uma exuberância artificial, graças a uma moeda supervalorizada e ao financiamento bancário fácil, permitindo consumo privado e aumento dos gastos públicos; tudo que significa ilusão de uma riqueza provisória.

A Grécia foi, em 2011, a prova de que a riqueza fácil é também efêmera.

Mais que isso, a Grécia foi a prova do fracasso de um modelo de desenvolvimento caracterizado pelo aumento do Produto Interno Bruto, sobretudo o progresso medido pelo aumento da produção material, mesmo às custas da concentração de renda, depredação ambiental, voracidade do consumo, endividamento, irresponsabilidade bancária e governamental, moeda artificialmente forte.

Em 2011 a Grécia foi o símbolo deste modelo, mas pode ser vista também como a origem do pensamento que serviu para adotarmos e executarmos hoje esse conceito de progresso. Foi da percepção e criação da lógica, entre os gregos clássicos, que nasceu a base da ciência e da tecnologia desenvolvidas quase dois mil anos depois no Renascimento Europeu, levando à Revolução Industrial na Inglaterra e à utopia da volúpia e da voracidade das últimas décadas em todo o Globo.

Em consequência é o símbolo do fracasso do progresso que nós, dos séculos XX e XXI, transformamos em sinônimo do consumo supérfluo, do consumismo irresponsável, exigindo gastos públicos além do equilíbrio fiscal, financiamento além da responsabilidade bancária, depredação ecológica além dos limites físicos, endividamento além das possibilidades dos estados, das empresas e das famílias.

A crise da Europa não é apenas financeira, econômica, social, ecológica. Mais do que uma crise é o esgotamento de uma concepção de progresso ao mesmo tempo arrogante em relação à natureza, injusta do ponto de vista social e estúpida do ponto de vista lógico.

A saída não vai estar nas finanças públicas ou bancárias, mas em uma reorientação dos propósitos do desenvolvimento e da própria civilização.

Mas, se a Grécia é a lição do fracasso de um modelo civilizatório ali nascido, sob uma forma diferente, tanto tempo atrás, ela pode ser também uma lição para o futuro.

Ouvi de um professor universitário grego que seu salário foi reduzido em 40%. Ao perguntar-lhe como sobrevivia, respondeu: “Primeiro tirei o filho da escola privada, coloquei-o na pública e agora tento ajudar sua escola a melhorar; já não tenho como ir ao trabalho de carro, em compensação, como muitos estão na mesma situação, o trânsito flui melhor; reduziram meu salário em 40%, mas também minha carga de trabalho na mesma proporção, e estou aproveitando o tempo livre para atividades que me dão prazer e, às vezes, uma renda adicional; quase não saio para comer fora de casa, mas aprendi a gostar de cozinhar; não tenho comprado roupas novas, mas não tenho sentido falta delas; meus eletrodomésticos não serão trocados nos próximos anos, mas não estou vendo necessidade disso; sinto muita falta de viagens ao exterior, mas estou descobrindo as riquezas turísticas da Grécia, inclusive uma ao lado da minha casa que atrai turistas de todo o mundo. Neste Natal gastaremos muito menos, mas a alegria não será reduzida na mesma proporção”.

Nem todos profissionais gregos podem ter esta lucidez e estas alternativas: as camadas mais pobres não têm como reduzir o consumo, os filhos já estão na escola pública, não têm alternativas de lazer, e nem de trabalho extra que assegure renda adicional; mas, de qualquer forma, esse exemplo é um indicador de que pode vir da Grécia, ao mesmo tempo, a prova do fracasso de um modelo civilizatório e a ideia de inflexão em direção a uma nova civilização, na qual o crescimento da produção econômica deixe de ser o padrão para definir o Bem Estar e a Felicidade; na qual seja possível até mesmo um decrescimento feliz, em harmonia social e com a natureza, sem endividamento, com mais tempo livre, mais bens públicos, com austeridade criativa e gratificante.
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sábado, 8 de outubro de 2011

O ouro do futuro


CRISTOVAM BUARQUE
o globo


Nos séculos XVIII e XIX os reis portugueses usaram o ouro do Brasil para financiar o consumo de suas Cortes, industrializando a Inglaterra. Nenhum deles merece ser responsabilizado pelo desperdício de mais de mil toneladas de ouro, porque não tinham conhecimento da revolução industrial em marcha na Inglaterra, não sabiam que o ouro se esgotaria, não tinham noções de economia, nem tinham técnica para projetar o futuro.

Dois séculos depois, o Brasil ganha na loteria outra vez: a natureza nos presenteia com reservas de um novo ouro. Desta vez, sabemos que o petróleo se esgotará, ou ficará obsoleto, ou proibido por razões ecológicas. Sabemos também que o conhecimento é a base para a Nova Revolução Tecnológica em andamento e sabemos que, se não usarmos corretamente os recursos desse novo ouro, o Brasil perderá, mais uma vez, a chance de transformar os recursos naturais em desenvolvimento social, cultural e econômico.

Desta vez, nossa história não perdoará os responsáveis: em primeiro lugar, a presidente, depois, governadores, senadores e deputados federais.

Foi pensando nessa situação que o senador Aloysio Nunes e eu apresentamos o projeto de lei ao Senado, o PLS 594/2011, com a proposta de que o fluxo de renda dos recursos do Pré-Sal seja transformado em capital permanente e que sua rentabilidade, e só ela, seja usada para financiar o capital do futuro: o conhecimento.

Se os reis de Portugal tivessem utilizado as mil toneladas de ouro para criar um fundo como esse, o ouro poderia até hoje estar em mãos de portugueses. E se tivessem aplicado o rendimento na educação de base e na infraestrutura científica e tecnológica, Brasil e Portugal teriam uma posição completamente diferente no mundo.

A maneira como o petróleo do Pré-Sal será usado, para gastos correntes ou para investimento na transformação radical da economia e da sociedade brasileiras, vai depender das decisões que tomarmos nos próximos dias. Nós não seremos perdoados se queimarmos o petróleo para fazer energia e queimarmos, a cada ano, a renda que ele gera para o consumo imediato.

O nosso projeto (que tem por base emenda não acatada, apresentada ao PL 16/10, com o senador Tasso Jereissati) é uma contribuição ao futuro do Brasil. Contribui também para que os nomes de nossos dirigentes, começando pelo seu, fiquem na história do Brasil de uma maneira completamente diferente daquela dos reis de Portugal, que, então, não tinham as informações de que hoje dispomos.

Este PLS 594/2011 está ancorado em dois pilares. Primeiro, o dinheiro dos royalties e da participação especial formariam o Funpei - Fundo do Petróleo para Formação de Poupança para Educação Básica e Inovação. O Funpei não criará perda para os entes federativos, em relação à arrecadação que eles tiveram em 2010. Caso as projeções da exploração do Pré-Sal se concretizem, a capitalização acumulada do Fundo deve chegar aproximadamente a R$115 bilhões em 2020, sendo R$40 bilhões só de aporte novo, no mesmo ano. O segundo pilar sustentará a Educação de Base e a Inovação Tecnológica, fazendo do Brasil um país com elevada qualificação educacional e capacidade de competição no mundo da economia do conhecimento.

Para isso, os gastos originados do Fundo serão complementares - não substituem os gastos em Educação Básica determinados pela Constituição Federal - e criam um comitê gestor específico formado pelos ministérios da Educação, da Fazenda, do Planejamento e da Ciência e Tecnologia.

A lei 12.351/10 que cria o Fundo Social não evita a exaustão que virá com o fim das reservas de petróleo e pulveriza os recursos, uma vez que são destinados a vários setores. Pode-se prever que os resultados não serão mais expressivos do que aqueles deixados pelo ouro no passado. Sobretudo, depois do veto ao parágrafo segundo do artigo 47, da lei 12.351/10, que destinava 50% dos recursos do Fundo Social para a "educação pública, básica e superior, sendo o mínimo de 80% (oitenta por cento) destinado à educação básica e infantil".

Este novo PLS, que estamos apresentando, é a alternativa capaz de transformar o petróleo em conhecimento. Temos a chance de evitar o erro dos dirigentes portugueses e promover a transformação do petróleo em inteligência e capacidade inovativa.

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domingo, 3 de julho de 2011

Quase 200 anos

Uma importante reflexão acerca da evolução de conceitos e de sociedades nos últimos anos.




Cristovam Buarque
O Globo 


Na semana passada, em Dijon, na França, realizou-se o fórum "Em torno das incertezas: Rio+20" para debater assuntos relacionados à cúpula de chefes de Estado e Governo, que se realizará no Rio de Janeiro, em junho de 2012. Um dos temas debatidos girou em torno do texto "133 perguntas sobre o futuro", que apresentei ao fórum (atualmente já são 168 perguntas - ver no endereço http://bit.ly/is31J6). Mas não há dúvidas que o mais importante dos três dias foi a palestra de dois senhores que somam 184 anos de idade: Stéphane Hessel, com 94, e Edgar Morin, com quatro anos a menos, pois fará 90 no dia 18 de julho.

O debate com eles durou quase três horas em auditório lotado. A primeira gratificação dos assistentes foi ver dois homens com essas idades chegarem caminhando rápido e subirem os degraus do palco, sem qualquer ajuda. Depois do debate, Hessel seguiu para um restaurante, onde jantamos até meia-noite. Morin não pôde ir ao jantar porque precisava viajar por duas horas e meia até Paris para cuidar de sua mudança à casa onde vai morar depois do casamento.

A jovialidade desses quase 200 anos não decorre apenas da capacidade de subir faceiramente os degraus, nem da resistência para falar, jantar ou casar, mas, sobretudo, do conteúdo que apresentam, olhando para o futuro, e da total empatia com os jovens que ali estavam.

Morin gesticula mais, fala com rapidez meteórica e cita muitos autores. Hessel tem gestos mais contidos e fala com mais poesia. Ambos falaram do futuro, preocupados, enfáticos, combativos, otimistas. Cada um denunciou os riscos das crises ecológica, social, política e financeira. Sobretudo, falaram que estas crises decorrem de outra muito maior, a crise do modelo da civilização que surgiu a partir da Revolução Industrial.

Civilização da insegurança, do desperdício, da depredação ambiental, da desigualdade, do desemprego, do endividamento, do consumo de drogas e da droga do consumo. Civilização que, no lugar de usar, se submete ao avanço técnico; no lugar de reduzir, cria necessidades novas a cada instante.

Ao longo de duas horas, eles passaram crítica, lucidez, jovialidade, combatividade. Começaram o discurso pela indignação que carregam e extravasam com a crise ambiental; a desigualdade; a intolerância racial, religiosa, de gênero, de opção sexual; com a falta de compaixão e de respeito à diversidade; com a estupidez da economia, a voracidade dos bancos e dos consumidores.

Hessel convoca os jovens a indignarem-se, como estão fazendo milhares, todos os dias, nos países árabes e na Europa, autonomeando-se de indignados, por inspiração do livro "Indignez-vous", que ele escreveu. Morin fala da esperança de uma "Nova Via", pela qual aponta rumos para uma civilização solidária, inteligente, harmônica.

Da indignação passam à análise crítica, mostrando a falta de lógica da civilização industrial; como a produção destrói; como a economia e a globalização alienam pelo excesso de trabalho de uns e o desemprego de outros; como o luxo do consumo por alguns e o consumo do lixo por outros se engrenam como duas partes de um mesmo sistema. Diante de nós, dizem, há um mundo ameaçado, um planeta maltratado, uma sociedade partida, vazia, drogada.

Pelos discursos percebe-se que os dois senhores não aceitam perguntar se vale a pena o esforço para salvar a humanidade. Não concordam com a ideia de Arthur Koestler de que o cérebro humano é suicida, por carregar um lado lógico com poder tecnológico para mudar o planeta e um lado amoral sem capacidade para dominar os instintos individuais e de curto prazo.

Eles falam da esperança de que todo o desastre atual é prenúncio de um novo tempo, quando a ética controlará a técnica; o prazer substituirá o consumo; a dança substituirá o ritmo chapliniano do fordismo; o antagonismo será substituído pela convivência solidária entre os homens e deles com a natureza.

Os dois passam o otimismo de que estes jovens vão mudar o mundo que continuará depois deles dois.

E desafiam todos à combatividade para que mudem o mundo do futuro, dos duzentos anos adiante. Hessel, aos 94, conclui declamando, de memória, todos os 24 versos do poema de Apollinaire "Sob a Ponte de Mirabeau", que conclui dizendo: "Vem a noite/soa a hora/os dias passam/eu não passo."

CRISTOVAM BUARQUE é senador (PDT-DF).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ervas e flores

Cristovam Buarque - O Globo

Nestes últimos dias, enquanto centenas de bandidos eram presos, diversas crianças nasciam nos morros e favelas do Rio. Os primeiros serão adotados pelos governos ao custo médio de R$20.400 por ano. Os outros serão abandonados pelos governos, nada receberão no começo; depois, não mais de R$2 mil anuais para sua educação que durará poucos anos em péssima qualidade. O Brasil gasta corretamente dinheiro para arrancar as ervas daninhas da sociedade, mas se nega estupidamente a gastar o dinheiro necessário para fazer florescer as flores que são as nossas crianças. 

É tão óbvio o absurdo de adotar bandidos e não adotar também os recém-nascidos que é preciso perguntar o que leva uma sociedade a agir dessa maneira. Uma explicação é a maneira superficial como o Brasil considera os problemas na medida em que eles são visíveis: os bandidos são problemas visíveis, as crianças não atacam, não promovem motim, não votam. Por isso, prisões fazem falta, escolas, não. 

Além de injusto, isto é estúpido porque perdemos o potencial que há dentro de cada criança e corremos o risco de alguns serem levados, por necessidade, à criminalidade no futuro. 

Esta aversão às mudanças estruturais e a preferência pelo jeitinho têm a ver com a histórica característica de uma sociedade atávica e violenta, que defende privilégios graças a uma violência invisível contra os índios e os escravos, contra homens com fome do outro lado da cerca. Vê-se a violência do esfomeado sem trabalho, não a violência da exclusão ao direito de trabalhar na terra improdutiva. 

Na luta contra a violência, prefere-se o jeitinho da superficialidade de prender os "violentos" do outro lado da cerca, ao invés de derrubar a cerca para fechar a fábrica de violência. Usa-se o que é preciso hoje, sem cuidar do amanhã. Para hoje, os policiais, para amanhã, os professores; para hoje as balas, para amanhã os computadores; para hoje mais cadeias, para amanhã mais escolas; para hoje adotar bandidos, para um dia talvez adotar também crianças. O que é para construir o amanhã fica para amanhã. 

E para justificar esta preferência suicida, preferimos não ver toda a violência. Vemos a violência dos bandidos que deve ser impedida com cadeias, não a da exclusão das crianças que nascem no mesmo momento, precisando de escolas. Não vemos as violências invisíveis para podermos ver apenas a violência visível. 

os bandidos é uma condição imediata necessária. Mas é apenas um jeitinho passageiro, que não trará a paz. Livrará a sociedade dos bandidos, inclusive os pobres dos morros, que vivem ao lado do tráfico, perdendo seus filhos, sem incluí-los no mundo da paz e sem protegê-los contra as violências escondidas na invisibilidade. Assim, as violências históricas continuam sendo praticadas como, por exemplo, a mãe de todas as desigualdades: a desigualdade na qualidade da escola e na qualidade da saúde. 

O caminho é construir escolas, privilegiar e formar professores, fazer uma doce revolução pela educação. Além de cadeias para adotar as ervas daninhas com a máxima segurança, é preciso construir escolas iguais, com a máxima qualidade, em todos os morros, bairros e condomínios para adotar uma nova geração de crianças, nossas flores. Se a federalização da luta contra os bandidos é aceita, a federalização da revolução educacional também deve ser. 

Porque, quando todas as crianças tiverem a mesma escola, menos jovens cairão no crime e o futuro será disputado em condições iguais entre as flores dos morros e as flores dos condomínios fechados, combatendo uma lógica, também invisível, na aparente estupidez de adotar os bandidos e não adotar as crianças. Afinal, as ervas daninhas são do presente, as flores apenas uma hipótese para o futuro. 
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