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quarta-feira, 25 de julho de 2018

ROBERTO CAMPOS, pensamento vivo.


Morto em 2001, o economista e diplomata Roberto Campos estaria hoje com 100 anos. 

Dele, além de artigos, li os dois volumes do excelente livro "A Lanterna de Popa" onde ele procura iluminar seu passado de contribuições e uma lúcida visão crítica do Estado Brasileiro e suas vicissitudes.

Seguem algumas de suas excelentes máximas:

"Relembre algumas de suas melhores frases sobre quanto o Estado estorva (atrapalha, coloca uma série de empecilhos) a vida de empresas e cidadãos, publicadas pelo Estadão:


“O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele pode nos dar é sempre menos do que nos pode tirar.”

“Nossa Constituição é uma mistura de dicionário de utopias e regulamentação minuciosa do efêmero.”

“Uma vez criada a entidade burocrática, ela, como a matéria de Lavosier, jamais se destrói, apenas se transforma.”

“Continuamos a ser colônia, uma país não de cidadãos, mas de súditos, passivamente submetidos às ‘autoridades’ – a grande diferença, no fundo, é que antigamente a ‘autoridade’ era Lisboa. Hoje, é Brasília.”

“Todo mundo sabe que o dinheiro do governo é gasto para sustentar universidades ruins e grátis, para classes médias que podem pagar. Nada melhor. Garante comícios das UNEs da vida, ótima preparação para futuros políticos analfabetos.”

“O doce exercício de xingar os americanos em nome do nacionalismo nos exime de pesquisar as causas do subdesenvolvimento e permite a qualquer imbecil arrancar aplausos em comícios.”

“Sou chamado a responder rotineiramente a duas perguntas. A primeira é ‘haverá saída para o Brasil?’. A segunda é ‘o que fazer?’. Respondo àquela dizendo que há três saídas: o aeroporto do Galeão, o de Cumbica e o liberalismo. A resposta à segunda pergunta é aprendermos de recentes experiências alheias.”
“O PT é um partido de trabalhadores que não trabalham, estudantes que não estudam e intelectuais que não pensam.”

“Nossas esquerdas não gostam dos pobres. Gostam mesmo é dos funcionários públicos. São estes que, gozando de estabilidade, fazem greves, votam no Lula, pagam contribuição para a CUT. Os pobres não fazem nada disso. São uns chatos.

“É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês. São os filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola.”

“Fui um bom profeta. Pelo menos, melhor que Marx. Ele previra o colapso do capitalismo; eu previ o contrário, o fracasso do socialismo.”

“Segundo Marx, para acabar com os males do mundo, bastava distribuir. Foi fatal. Os socialistas nunca mais entenderam a escassez.”

quarta-feira, 2 de maio de 2018

“A nostalgia das Ossadas”

Roberto Campos

NÃO DEIXE QUE UM PROFESSOR COMUNISTA ADOTE SEU FILHO


Por este artigo de Roberto Campos é possível ter uma boa sinopse dessa época do regime militar.
 “Atualmente fala-se novamente nos atos revolucionários ou melhor dos atos do regime militar, muitos jovens não vivenciaram esta época então aproveito este momento no blog para mostrar  esta matéria de Roberto Campos publicada no O Globo e Folha de Sâo Paulo em 04.08.1996 e que parece bem atual.”



“Uma revolução não é o mesmo que convidar alguém para jantar, escrever um ensaio, ou pintar um quadro… Uma revolução é uma insurreição, um ato de violência pelo qual uma classe derruba a outra”     Mao Tsé-Tung

Dizia-me um amigo argentino, nos anos 60, que seu país, rico antes da Segunda Guerra, optara no pós-guerra pelo subdesenvolvimento e pelo terceiromundismo. E não se livraria dessa neurose enquanto não se livrasse de três complexos: o complexo da madona, o fascínio das ossadas e a hipóstase da personalidade. 

Duas madonas se tinham convertido em líderes políticos – Evita e Isabelita. As ossadas de Evita foram alternativamente sequestradas e adoradas, exercendo absurdo magnetismo sobre a população. E a identidade nacional era prejudicada pelo fato de o argentino ser um italiano que fala espanhol e gostaria de ser inglês…

A Argentina parece ter hoje superado esses complexos. Agora, é o Brasil que importa (sem direitos aduaneiros como convêm ao Mercosul) um desses complexos.

Os estrangeiros que abrem nossos jornais não podem deixar de se impressionar com o espaço ocupado pelas ossadas: as ossadas sexuais de PC Farias, as ossadas ideológicas dos guerrilheiros do Araguaia e as perfurações do esqueleto do capitão Lamarca! Em vez de importarmos da Argentina a tecnologia de laticínios, estamos importando peritos em “arqueologia moderna”, para cavoucar as ossadas do cemitério da Xambioá. Há ainda quem queira exumar cadáveres e ressuscitar frangalhos do desastre automobilístico que matou Juscelino, à procura de um assassino secreto. Em suma, estamos caminhando com olhos fixos no retrovisor. E o retrovisor exibe cemitérios.

Na olimpíada mundial de violência, os militares brasileiros da revolução de 1964 não passariam na mais rudimentar das eliminatórias. Perderiam feio para os campeões socialistas, como Lênin, Stálin e Mao Tsé-Tung. Seriam insignificantes mesmo face a atletas menores, como Fidel Castro, Pol Pot, do Camboja, ou Mengistu, da Etiópia.

Fidel Castro e Che Guevara
Os 136 mortos ou desaparecidos em poder do Estado, ao longo das duas décadas de militarismo brasileiro, pareceriam inexpressivos a Fidel, que só na primeira noite pós-revolucionária fuzilou 50 pessoas num estádio. Nas semanas seguintes, na Fortaleza La Cabaña, em Havana, despachou mais 700 (dos quais 400 membros do anterior governo). E ao longo de seus 37 anos de ditadura, estima-se ter fuzilado 10 mil pessoas. Isso em termos da população brasileira equivaleria a 150 mil vítimas. Tiveram de fugir da ilha, perecendo muitos afogados no Caribe, 10% da população, o que, nas dimensões brasileiras, seria equivalente à população da Grande São Paulo.

Definitivamente, na ginástica do extermínio, os militares brasileiros se revelaram singularmente incompetentes. Também em matéria de tortura nossa tecnologia é primitiva, se comparada aos experimentos fidelistas no Combinado del Este, na Fortaleza La Cabaña e nos campos de Aguica e Holguín. Em La Cabaña havia uma forma de tortura que escapou à imaginação dos alcaguetes da ditadura Vargas ou dos “gorilas” do período militar: prisioneiros políticos no andar de baixo recebiam a descarga das latrinas das celas do andar superior.

O debate na mídia sobre os guerrilheiros do Araguaia precisa ser devidamente “contextualizado” (como dizem nossos sociólogos de esquerda). Sobretudo em benefício dos jovens que não viveram aquela época conturbada. A década dos 60 e o começo dos 70 foram marcados mundialmente por duas características: uma guinada mundial para o autoritarismo e o apogeu da Guerra Fria. Basta notar que um terço das democracias que funcionavam em 1956 foram suplantadas por regimes autoritários nos principais países da América Latina, estendendo-se o fenômeno à Grécia, Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura e à própria Índia, onde Indira Ghandi criou um período de exceção.

Na América Latina, alastrou-se o que o sociólogo O’Donnell chamou de “autoritarismo burocrático”. O refluxo da onda democrática só viria nos anos 80, que assistiria também à implosão das ditaduras socialistas.

Uma segunda característica daqueles anos foi a agudização do conflito ideológico. Na era Kennedy (1961-63), que eu vivenciei como embaixador em Washington, houve nada menos que duas ameaças de conflito nuclear. Uma, em virtude do ultimato de Kruschov sobre Berlim, e outra, a crise dos mísseis em Cuba. Em meados da década, viria a tragédia do Vietnã.

É nesse contexto que deve ser analisado o episódio dos guerrilheiros do Araguaia e da morte de Lamarca. Não se tratavam de escoteiros, fazendo piqueniques na selva com canivetes suíços. Eram ideólogos enraivecidos, cuja doutrina era o “foquismo” de Che Guevara: criar focos de insurreição, visando a implantar um regime radical de esquerda. Felizmente fracassaram, e isso nos preservou do enorme potencial de violência acima descrito.

Capitão Lamarca
Durante nossos “anos de chumbo”, não só os guerrilheiros sofreram; 104 militares, policiais e civis, obedecendo a ordens de combate ou executados por terroristas, perderam a vida. Sobre esses, há uma conspiração de silêncio e, obviamente, nenhuma proposta de indenização. Qualquer balanço objetivo do decênio 1965-75 revelará que no Brasil houve repressão e desenvolvimento econômico (foi a era do “milagre brasileiro”), enquanto nos socialismos terceiromundistas e no leste europeu houve repressão e estagnação.

É também coisa de politólogos românticos pensar que a revolução de 1964 nada fez senão interromper um processo normal de sucessão democrática. A opção, na época, não era entre duas formas de democracia: a social e a liberal. Era entre dois autoritarismos: o de esquerda, ideológico e raivoso, e o de direita, encabulado e biodegradável.

Hoje se sabe, à luz da abertura de arquivos, que a CIA e o KGB (que em tudo discordam) tinham surpreendente concordância na análise do fenômeno brasileiro: o Brasil experimentaria uma interrupção no processo democrático de substituição de lideranças. Reproduzindo o paradigma varguista, Jango Goulart, pressionado por Brizola, queria também seu “Estado Novo”. Apenas com sinais trocados: uma república sindicalista.

As embaixadas estrangeiras em Washington, com as quais eu mantinha relações como embaixador brasileiro, admitiam, nos informes aos respectivos governos, três cenários para a conjuntura brasileira: autoritarismo de esquerda, prosseguimento da anarquia peleguista com subsequente radicalização, ou guerra civil de motivação ideológica. Ninguém apostava num desenlace democrático…

Parece-me também surrealista a atual romantização pela mídia (com repercussões no Judiciário) da figura do capitão Lamarca, que as Forças Armadas consideram um desertor e terrorista. Ele faz muito melhor o perfil de executor do que de executado. Versátil nos instrumentos, ele matou a coronhadas o tenente Paulo Alberto, aprisionado no vale da Ribeira, fuzilou o capitão americano Charles Chandler, matou com uma bomba o sargento Mário Kozell Filho, abateu com um tiro na nuca o guarda-civil Mário Orlando Pinto, com um tiro nas costas o segurança Delmo de Carvalho Araujo e procedeu ao “justiçamento” de Mário Leito Toledo, militante do Partido Comunista que resolvera arrepender-se.
Aliás, foram dez os “justiçados” pelos seus próprios companheiros de esquerda. Se o executor acabou executado nos sertões da Bahia, é matéria controvertida. Os laudos periciais revelam vários ferimentos, mas nenhum deles oriundo de técnicas eficientes de execução que o próprio Lamarca usara no passado: tiro na nuca (metodologia chinesa), tiro na cabeça (opção stalinista) ou fuzilamento no coração (método cubano). As Forças Armadas têm razão em considerar uma profanação incluir-se Lamarca na galeria de heróis.

As décadas de 60 e 70, no auge da Guerra Fria, foram épocas de imensa brutalidade. Merecem ser esquecidas, e esse foi o objeto da Lei de Anistia, que permitiu nossa transição civilizada do autoritarismo para a democracia. Deixemos em paz as ossadas. Nada tenho contra a monetização da saudade, representada pela indenização às famílias das vítimas. Essa indenização é economicamente factível no nosso caso. Os democratas cubanos, quando cair a ditadura de Fidel Castro, é que enfrentariam um problema insolúvel se quisessem criar uma “comissão especial” para arbitrar indenizações aos desaparecidos. Isso consumiria uma boa parte do minguado PIB cubano!

Nosso problema é saber se a monetização da saudade deve ser unilateral, beneficiando apenas as famílias dos que se opunham à revolução de 1964. Há saudades, famílias e ossadas de ambos os lados.”


Roberto Campos escreveu este artigo quando tinha 78 anos, e era deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro.
Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco).
É autor de “A Lanterna na Popa” (Ed. Topbooks, 1994)









segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

É preciso uma "pastoral das vítimas"


Roberto Campos
01/02/98

Democracia, já se sabe, não é um assunto fácil de esgotar. Senão, não teríamos essa interminável discussão sobre ela. Todo mundo tem alguma opinião a respeito. E não é para menos. Mas, só para esquentar um pouco o motor, é bom lembrar que há mesmo uma vasta disputa teórica sobre a idéia. Entre algumas posições atualmente representativas, teríamos, por exemplo, a de J. Habermas, que a entende como "processo": o ponto de partida legitimador (pós-metafísico, como diz ele) estaria nas eleições e na prática das instituições democráticas.
Já R. Dworkin a vê como "substância". É o conteúdo concreto, não os procedimentos eleitorais e outros típicos das formas representativas parlamentares, que conta. Na realidade, estão se multiplicando no Terceiro Mundo as "illiberal democracies" (democracias não liberais), em que se praticam os ritos eleitorais formais, mas os eleitos mutilam subsequentemente as liberdades políticas e econômicas. Não escapamos, como se vê, do paradoxo do ovo e da galinha. Quem veio primeiro? A "substancia democrática", que legitima o processo político subsequente, ou o "processo democrático" que gera em seguida a substância correspondente?
Para complicar um pouco mais, segundo o estudioso da ética John Rawls, é preciso um conteúdo de valor _uma sociedade em que certo mínimo de valores não seja partilhado pela grande maioria não só não é democrática, como não é uma sociedade. É uma aglomeração.
O paradoxo é que a democracia, tal como a entendemos, pressupõe que cada qual possa pensar e determinar suas ações como queira. Mas, para que funcione, é preciso que todos concordem em alguns princípios comuns básicos. Os gregos de Atenas, inventores do termo, tentaram uma famosa experiência de democracia direta. Diferente das idéias atuais, pois as mulheres, por exemplo, ficavam presas dentro de casa, sem direito a palpite... Na realidade, um populismo desenfreado, em que a maioria dos cargos era preenchida por sorteio.
Não durou muito: 30 anos. E fez uma senhora salada. Condenou à morte Sócrates, por causa das suas idéias filosóficas, e também o filho do seu grande líder político Péricles, porque aquele, general vencedor, não pudera socorrer um barco que afundara durante a batalha. Pressionou arrogantemente os vizinhos e arranjou guerras para todos os lados. Mas, como eram muito inteligentes, os atenienses legaram ao nosso tempo uma idéia extremamente interessante e racional, a "isonomia", a igualdade de todos perante a lei _que era o que mais ou menos corresponderia à nossa noção de "democracia".
A idéia da norma clara e válida para todos realmente tem de estar no fundamento de qualquer sociedade que pretenda considerar-se democrática. Tudo o que obscurece a compreensão das regras do jogo é a negação disso, a negação da isonomia. Se ninguém sabe qual é a norma que se aplica, se vai depender da interpretação de alguém depois do fato, onde ficará o princípio da universalidade e igualdade do tratamento de todos os cidadãos?
Mas a norma não pode ser um enfeite, um objeto de retórica, para advogados ou políticos falarem bonito. Só tem sentido quando é um comportamento que a sociedade se empenha em fazer cumprir por todos. E como ano novo é tempo de dar uma geral nas idéias, talvez seria útil refletirmos sobre esse tema. Somos um país de um espantoso excesso de normas, dezenas de milhares, entre leis, decretos, portarias e toda a parafernália. E de muitas no papel, não na prática real. Ora, a suposição básica do Estado de Direito (em verdade, desde Roma) é que o cidadão não pode ignorar a lei. A multiplicação normativa não é menos séria do que a cancerosa.
O problema não é só nosso, é claro, porque o mundo está ficando cada vez mais complicado. Mas nós temos uma firme tradição de complicar o que puder ser complicado. A propósito, pouco antes da virada do século passado fez-se, nos Estados Unidos, uma pesquisa de opinião entre 73 pessoas proeminentes sobre como seria o futuro, cem anos depois. Previsões divertidas. E erradas. Uma delas foi de que as leis seriam tão simples que haveria pouca necessidade de advogados e de que o crime seria raro, porque os criminosos seriam impedidos de se reproduzir!...
Continuamos a não saber bem como surgem os criminosos. Uma proporção de sociopatas, de tipos anti-sociais, existe em todas as partes, sem que se tenha idéia de por que isso acontece. Fatores contributivos podem ser muitos. Certamente a urbanização maciça tem a sua parte, da mesma forma que a erosão dos valores e pontos de referência tradicionais, a marginalização econômica, a droga, não sabemos se fatores genéticos. O fato é que não há soluções simples.
O brasileiro nunca teve lá, que se diga, uma grande convicção de respeito pela lei e pela autoridade. Quem sabe, algum atavismo colonial.
Nossa esperteza, a preferência pelo "jeitinho", não é bem uma característica do cidadão pleno. Na ex-URSS, havia algo equivalente, sem a nossa habilidade tropical: tratava-se de sair da regra sem chamar demasiada atenção. Ainda ficamos meio espantados com o europeu tranquilamente acostumado a reclamar os seus direitos e a cobrar desempenho dos seus políticos. Acreditamos na mágica do papel escrito. Se passou pelo ''Diário Oficial'', tudo resolvido. Ledo engano!
Não há muito, Dominic Tarantino, presidente de uma das maiores empresas de auditoria do mundo, resumiu em uma frase modelar o que os investidores esperam: "estabeleçam o império da lei ('rule of law') nos mercados emergentes''. Muitos deles têm leis e regulamentos. Não muitos têm o império da lei. Importa o que vale mesmo, não o que está no papel, que aceita qualquer coisa. Nós, com a nossa reconhecida originalidade, invertemos, tornando os menores de 18 anos inimputáveis _para alegria geral dos traficantes. Não se poderia pensar nenhum método melhor para perverter as "crianças". Ainda há os que vêem no indivíduo desajustado e ''associal'' apenas um revolucionário de esquerda em embrião...
Nossa criminalidade assusta muito, sujando ainda mais nossa imagem, que, por justas e injustas razões, está mais pra lá do que pau de galinheiro. É óbvio que o governo não tem mágica para endireitar tudo o que está torto. Mesmo porque criminalidade, injustiça, pobreza estão por toda a parte. Mas dose é dose, e há uma questão básica de atitude. E subdesenvolvido demora décadas para descartar idéias obsoletas vindas de fora.
Há dez anos, um deputado trabalhista inglês, que todos por aqui conhecem de nome, Tony Blair, fez a seguinte afirmação: "Esta nova falta de respeito pela lei não pode ser atribuída às privações materiais". Devia saber do que estava falando, porque outro inglês, J. Young, em 1989, escreveu, no respeitado "Time Higher Educational Supplement", que "no imediato pós-guerra houve um consenso, numa larga faixa da opinião informada, que a principal causa do crime eram as condições sociais de empobrecimento''... Mas na Grã-Bretanha, por exemplo, entre 1951 e 1972, a renda real disponível por pessoa aumentou 64%, enquanto a criminalidade mais do que dobrou, com um aumento de 172%. Num período predominantemente trabalhista...
O sensacionalismo da mídia pode induzir algumas pessoas a procurarem representar um papel criminoso. Mas, sobretudo, o que é preciso é bom senso e mudança de atitudes. A lei é para ser cumprida, ponto. A tolerância _tipificada pela passividade diante das ocupações do MST, por exemplo_ estimula a imitação, fechamento de estradas, distúrbios nos presídios (que custam caríssimo ao contribuinte, para não falar no resto) e o que mais ocorra a qualquer grupo insatisfeito e combativo. Parece até que há uma pastoral dos presos (ou dos bandidos, sei lá), mas ninguém se lembrou de fazer uma pastoral das vítimas, infelizmente muito mais numerosas do que os próprios malfeitores. Não é a violência policial (exacerbada pelo ambiente geral de "compreensão" do criminoso) que dará resultados. Ela deve ser coibida implacavelmente. Não por implicância ideológica contra toda autoridade, mas pela preferência pelo estado de Direito.

Roberto Campos, 80, economista e diplomata, é deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).

Em defesa dos bodes


Roberto Campos
Edição 1 631 - 12/1/2000

A globalização comercial e tecnológica permitiu o salto dos Tigres Asiáticos e o alívio da pobreza na China

É reconhecida a proficiência brasileira em três coisas: no futebol, no Carnaval e na busca de bodes expiatórios. Globalização e neoliberalismo são os bodes na moda. Aquele, inocente. Este, inexistente.

Falar na ameaça do neoliberalismo em país de moeda inconversível, com 40% do PIB sugados por impostos e dívida do governo, só pode ser masturbação de socialistas nostálgicos. E a globalização não deve ser julgada pelo que não é. Ela não é uma invenção maldosa do capitalismo moderno.

Houve episódios de fragmentação e ondas de globalização no decorrer da História. As globalizações mais importantes foram a do Império Romano e a da belle époque do liberalismo, entre 1860 e a I Guerra Mundial, quando, além do livre movimento de mercadorias e capitais, havia livre circulação de pessoas.

A atual globalização não é uma conspiração americana para manter sua hegemonia. Os Estados Unidos são hegemônicos simplesmente porque ganharam a II Guerra Mundial, pelo colapso do socialismo e por liderar a nova revolução tecnológica. A globalização convive com movimentos de integração regional, como a União Européia, precisamente como contrapeso à dominação americana.

A globalização não é responsável pelo desnível industrial nem pela pobreza da periferia. Ao contrário, foi a globalização comercial e tecnológica que permitiu o salto tecnológico dos Tigres Asiáticos e o alívio da pobreza na China, que quinze anos atrás exportava menos que o Brasil e hoje exporta quatro vezes mais. Como o comércio internacional cresce quase o dobro do PIB mundial, os países abertos ao comércio e ao investimento vêm crescendo muito mais que os de economia fechada.

Fala-se no Brasil nos perigos da "desindustrialização" e da "desnacionalização" em virtude da abertura comercial que fizemos desde 1990. Mas as reais dificuldades de nossa indústria advieram de políticas internas que nada têm a ver com liberalismo ou globalização: sobrevalorização cambial, juros escandalosos (resultantes dos déficits fiscais), tributação asfixiante.

Países como Cingapura, Taiwan e mesmo o Chile prosseguiram seu crescimento em plena globalização. Outra queixa exagerada é quanto à volatilidade dos capitais financeiros. Essa volatilidade só é grave à medida que os países recipientes exibem vulnerabilidades oriundas de déficits fiscais, de sobrevalorização cambial ou de porres creditícios do setor privado por desregramento do sistema bancário.

O Brasil sofreu fuga de capitais em virtude dos dois primeiros fatores, Coréia e Malásia em função do último, Indonésia em função de todos eles. A volatilidade não perturbou Taiwan, Cingapura nem a Austrália.

A atitude sensata para o Brasil é administrar competentemente nossa inserção na economia globalizada do futuro. E, dentro da OMC, continuar lutando tenazmente contra "assimetrias" e "hipocrisias".

A "assimetria" é a insistência dos países industrializados em ampliar a liberação de serviços e as regras de proteção de seus investimentos sem a contrapartida da liberalização de importações agrícolas. A "hipocrisia" é tornar mandatórias no comércio internacional cláusulas sociais (que ignoram diferenças da produtividade da mão-de-obra) ou refinadas exigências ambientalistas. Estas, sob pretextos ecológicos ou humanitários, podem servir de barreiras protecionistas contra as exportações oriundas de países mais pobres.

Qual a alternativa à globalização? Nenhuma. Isolarmo-nos da revolução tecnológica para proteger empregos é suicídio, porque a perda de competitividade geraria estagnação, destruindo empregos. Houve em novembro passado, nas Filipinas, uma reunião de grupos antiliberais de 31 países, sob o pomposo título de Conferência Internacional sobre Alternativas à Globalização.

O resultado foi patético. Além de xingamentos à chamada tríade maligna - FMI, Bird e OMC -, acusada de cumplicidade na "ofensiva neoliberal do capitalismo monopolista contemporâneo", a conferência desovou duas recomendações concretas: um calote financeiro pelo não pagamento da dívida externa e um calote intelectual pelo não reconhecimento de patentes tecnológicas. Seriam assim punidos os dois principais protagonistas do desenvolvimento globalizado: os investidores e os inovadores.

Diz o economista hindu J.K. Mehta, da Universidade de Allahabad, que o subdesenvolvimento é principalmente falta de caráter, e não escassez de recursos ou de capital. Ele tem razão.

Roberto Campos foi conomista e diplomata, foi deputado federal, senador e ministro do Planejamento
.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"Exclusão social"


Roberto Campos

Veja, 18/3/98

Dizia Winston Churchill que a diferença entre o capitalismo e o socialismo é que naquele os resultados são melhores que as intenções; neste, o contrário acontece. 

Segundo a retórica hirsuta (e às vezes burra) de nossas esquerdas, na raiz da "exclusão social", que se traduz em desigualdades de renda e no desemprego, estariam três personagens tipicamente capitalistas: o neoliberalismo, a tecnologia robotizante e a globalização.

A realidade é outra. Os Estados Unidos são ao mesmo tempo a fortaleza do liberalismo, têm alta densidade tecnológica e se inserem na economia globalizada. Mas são também a maior máquina de "inclusão social" no mundo, gerando mais de 300.000 empregos por mês para nativos e imigrantes.

A flexibilidade do mercado de mão-de-obra é parte essencial da explicação. Tanto assim que no contexto europeu, afligido por grave desemprego, os países como a Inglaterra e a Holanda, que flexibilizaram sua regulamentação laboral, têm desemprego muito menor que o da Alemanha, sem diferenças apreciáveis no grau de globalização e densidade tecnológica.

É certamente um paradoxo que a economia americana, a mais selvagem na reengenharia e downsizing das empresas durante o ajuste dos anos 80, seja a que goze hoje de menores taxas de desemprego. A crueldade inicial foi mais que compensada por saltos de produtividade.

No Brasil, a "exclusão social", traduzida na elevação do desemprego no setor formal (85% dos novos empregos se geram no setor informal, à margem da lei), nada tem a ver com os citados personagens. O neoliberalismo é uma ficção num país onde sobrevivem monopólios estatais (inclusive de câmbio), a moeda é inconversível, as importações voltaram ao obsoleto regime de licença prévia e a regulamentação trabalhista é amordaçante. Com uma participação do comércio exterior no PIB de apenas 15%, a economia está longe de ser globalizada. E a densidade tecnológica e o nível de automação são primitivos pelos padrões europeus e americanos.

A explicação tem de ser buscada alhures. A responsabilidade pela "exclusão social" recai principalmente sobre as posturas antiliberais e anti-reformistas esposadas pelas nossas esquerdas. Basicamente, nosso medíocre crescimento e baixa "empregabilidade" derivam de três fatores:

a) o inadequado nível de investimentos;
b) os encargos trabalhistas desincentivadores das contratações;
c) a falta de liberdade empresarial. 

Ao defender os monopólios estatais, as esquerdas reduzem nosso potencial de absorção de capitais privados nacionais e estrangeiros e, portanto, nossa capacidade de gerar empregos. Como o governo despoupa, é levado a aumentar impostos ou a financiar-se a juros altos, asfixiando a atividade privada.

A onerosa regulamentação trabalhista, defendida pelos sindicatos, expulsou 57% da mão-de-obra para a economia informal, à margem da proteção previdenciária e do sistema de crédito. Os sindicatos, hoje em declínio no mundo inteiro, são assim agentes de "exclusão", pois, se protegem os empregos e salários dos já empregados, nada fazem pelos desempregados (a não ser talvez torná-los inempregáveis).

Curiosamente, nossos políticos de esquerda não se pejam de apoiar a manutenção de privilégios previdenciários para o setor estatal, assim como a universidade gratuita para os ricos, surrupiando recursos que deveriam caber à educação de massa.

O outro elemento faltante em nossa dinâmica de desenvolvimento é a liberdade empresarial. Somos ainda a república dos "alvarás", com empresários oprimidos por um sistema fiscal confuso e dependentes de uma infra-estrutura controlada por estatais ineficientes.

A melhor contribuição que poderiam dar nossas esquerdas é parar de dizer bobagens sobre globalização e desemprego tecnológico e deixar que o Brasil tenha um real banho (e não apenas uma benzedura) de liberalismo e capitalismo. Chega de boas intenções. Precisamos de resultados.

Roberto Campos foi embaixador e deputado federal
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A nova aliança atlântica

Roberto Campos
Domingo 07 de fevereiro de 1999

Na década dos 80 emergiram várias teorias sobre o "declinismo" ou o "decadentismo" americano. A grande nação estaria sofrendo de "sobreextensão imperial" - moléstia que explica o perecimento de vários impérios do passado. Essa "sobreextensão" pode resultar de aventuras militares, do debilitamento financeiro pelo excesso de encargos ou do esgotamento do modelo político-ideológico.

Este último fator explicou a espetacular implosão do império soviético em 1989. Na mesma década, começou-se a falar que o século 21 deixaria de ser o século do Atlântico para se tornar o século do Pacífico. Sucediam-se no Japão proezas tecnológicas, o país se tornara o maior credor do mundo, começava a se manifestar o dinamismo chinês, e os "tigres asiáticos" se distanciavam crescentemente dos demais "emergentes".

Na Europa receava-se o surgimento de uma nova doença, a "euroesclerose". Conquanto se confirmasse a superioridade do capitalismo sobre o socialismo, tornaram-se comuns avaliações depreciativas do capitalismo americano, de tipo individualista e bucaneiro, comparativamente ao capitalismo europeu, um pouco mais dirigista e assistencialista, e sobretudo ao capitalismo japonês, que parecia conciliar proeza tecnológica, coesão social, baixo desemprego e crescimento sustentado. Estaria à vista na franja do horizonte, o "século asiático".

Na atual década dos 90 a conjuntura global mudou dramaticamente. Os Estados Unidos deram a volta por cima, enquanto que a economia japonesa entrava num longo período de estagnação, insensível a juros baixos e estímulos fiscais, numa espécie de "armadilha de liquidez".

A Europa iniciou sua dieta de emagrecimento pois que a preparação para a moeda única, iniciada em 1992 com o Tratado de Maastricht, impôs severos tetos ao déficit público. Os emergentes asiáticos continuaram sua trajetória ascendente, reforçada pelo surto de crescimento das regiões capitalistas da China Continental, mas foram afinal colhidos pela crise em 1997.

Que está na raiz da retomada do crescimento americano, que tornou esse país a verdadeira locomotiva do fim do século?

Em primeiro lugar, a aceitação, mais desinibida do que na Europa ou Japão, do capitalismo competitivo, que resulta, como dizia Schumpeter, numa constante "destruição criadora". Com menores encargos assistenciais que os europeus, os americanos exploraram melhor as virtuosidades da redução de impostos para estímulo da oferta privada (supply side economics).

Em segundo lugar, a flexibilidade da mão-de-obra, quer em termos de livre negociação salarial, quer de mobilidade física em busca de oportunidades de trabalho.

Em terceiro lugar, o espírito de inovação, que não se confina ao aspecto tecnológico, mas que abrange qualquer medida que contribua para incrementar o "valor adicionado".

Enquanto que, na década dos 80, os japoneses superavam os ocidentais em inovações no processo fabril, na atual década são os americanos os pioneiros nas inovações no setor de finanças, serviços e tecnologias científicas. Obedecendo a impulsos de mercado, antes que à "política industrial" de burocratas iluminados, os americanos assumiram a liderança dos setores de tecnologia mais dinâmica como informática, telecomunicações e engenharia genética.

Se a década dos 80 foi predominantemente asiática, a dos 90 hegemonicamente americana, é provável que na próxima década assistamos a um renascimento europeu. Este será facilitado por dois motivos. Primeiro, a criação da moeda única, que formará um mercado comercial e financeiro de 6,5 trilhões de dólares, pouco abaixo dos 8 trilhões do mercado americano. Ambos os grupos exportam cerca de 11% do PIB e têm uma porcentagem do comércio mundial em torno de 18%.

Há na Bolsa americana 9.900 firmas listadas contra 9.000 nas bolsas européias. Em segundo lugar, porque a economia européia está corrigindo sua defasagem tecnológica em relação aos Estados Unidos, no tocante à tecnologia de finanças, informática, engenharia genética e telecomunicações.

Começam a surgir na Europa os "venture capitalists", voltados profissionalmente para o fomento das inovações. Na década dos 80 os Estados Unidos tinham uma séria desvantagem em relação à Europa: era seu grave déficit gêmeo - o fiscal e o cambial. Hoje o primeiro deles se transformou em superávit mas o segundo, que atinge a casa dos 300 bilhões de dólares anuais gera a apreensão de um eventual colapso do dólar.

Em compensação, os Estados Unidos mantêm duas vantagens: (1) mercado de trabalho mais flexível, resultando em menor desemprego; (2) perfil demográfico mais favorável. Comparativamente à Europa, os problemas fiscais ligados ao envelhecimento da população são menores nos Estados Unidos, onde o envelhecimento é menos rápido, maior o influxo de imigrantes, menos generosa a seguridade pública e mais forte o sistema de capitalização privada.

A perspectiva de um século 21 sob hegemonia asiática é cada vez mais remota, em virtude da crescente integração atlântica entre a Norte-América e a Europa. Essa integração não é propriamente comercial - pois permanecem intensos os atritos mercantis - mas sim financeira e tecnológica. Isso se traduz no fenômeno das mega-fusões e incorporações.

Na indústria automobilística, fundiram-se a Daimler-Benz e a Chrysler. No setor financeiro, fala-se na absorção no Banker's Trust pelo Deutsche Bank. Nas telecomunicações, o grupo inglês Vodaphone adquiriu a Air Touch americana, tornando-se o maior operador mundial de celulares.

São indicadores dessa grande aliança transatlântica em formação o movimento de desregulamentação, as alianças tecnológicas, a integração de complexos financeiros, a uniformização de técnicas gerenciais e a grande onda de fusões e incorporações. 

Contrastando com essa integração da aliança Atlântica, existe uma crescente marginalização dos países emergentes, seja, na América Latina, seja na Cortina de Ferro. O fluxo de capitais que para lá se dirigiam em busca de maior rentabilidade, praticamente secou. Os empréstimos de bancos comerciais dos países credores aos países emergentes caíram de 121 bilhões de dólares em 1997 para 10 bilhões no ano passado.

Cada vez mais o capital flui de ricos para ricos do que destes para os pobres. E os fluxos destinados à compra de ações e títulos de renda fixa se inverteram drasticamente, em resultado das sucessivas crises - a mexicana, a asiática, a russa e agora a brasileira. Em todos esses casos, as desvalorizações monetárias criaram o medo de perdas patrimoniais, que supera o atrativo dos juros altos. E permanece a conhecida lei de Krugman: "não há penas desvalorizações cambiais ou desvalorizações controladas, nos países emergentes".

Nos países desenvolvidos, as desvalorizações cedo se auto-limitam, porque despertam no exterior a vontade de compra dos ativos depreciados. Os fluxos de capitais para os países emergentes se tornaram cada vez mais seletivos, confinando-se hoje a países considerados "apostas estratégicas", como China, Coréia, México ou Polônia. A Rússia e a Indonésia saíram do radar dos investidores. E o Brasil, que no ano passado atraiu 24 bilhões de dólares de investimentos diretos, corre atualmente o risco de perder o caráter de "aposta estratégica".

Para evitar esse desfecho, temos que fazer com que a taxa cambial reencontre rápido seu ponto de equilíbrio, terminando-se o severo "overshooting" sofrido pelo real. É necessário controlar o repique inflacionário através de um ajuste fiscal rigoroso e da manutenção de uma economia desindexada.

Mas o grande trunfo brasileiro para continuar a ser uma "aposta estratégica" está nas privatizações. Longe de ser postergadas em virtude da crise, elas devem ser aceleradas como elemento contributivo para a solução da crise.
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domingo, 29 de janeiro de 2012

As armadilhas da semântica



Roberto Campos
27/02/2000

George Orwell, o escritor inglês que nos deu algumas das obras que melhor iluminaram o ambiente dos difíceis anos que duraram da Depressão à Queda do Muro de Berlim, entre elas as duas terríveis sátiras "1984" e "Animal Farm", foi antes de mais nada um homem de excepcional integridade. Firme nas suas convicções de esquerda, foi voluntário contra os franquistas, na Guerra Civil espanhola. Ferido em combate (numa campanha admiravelmente contada em "Homenagem à Catalunha"), enfrentou com coragem os comunistas, quando estes, na tentativa de assumir o controle do movimento, traíram seus outros camaradas de esquerda. Foi depois objeto de um patrulhamento feroz que tentou transformá-lo numa "não-pessoa". Morreu em 1950, aos 47 anos.
Águas políticas passadas, talvez. A União Soviética, a ex formidável pátria do socialismo, não existe mais, esfarelada em repúblicas conflituosas. Para felicidade do gênero humano, não se realizaram as sombrias previsões orwellianas de "1984" _uma sociedade hipertotalitária, metida em guerras intermináveis, impondo ao povo um brutal controle do pensamento e da expressão_, o "novopensar" (newthink) e a "duplafala" (doublespeak). A televisão não se tornou um instrumento de massificação ideológica em favor do Big Brother, sendo, ao contrário, um instrumento de denúncia, que dificulta o ocultamento de selvagerias ditatoriais.
As previsões de Orwell não se realizaram ao pé da letra. Mas os verdadeiros escritores têm o dom de entrever formas da realidade que escapam facilmente aos olhos da multidão. Porque alguma coisa do "novopensar" e do "duplofalar" se encontra em nosso cotidiano. Raramente as mensagens que a humanidade troca entre si são meramente descritivas. Em geral, atingem-nos mais pelas associações de idéias e sentidos. Não haveria poesia, nem literatura, nem mesmo prece, sem adjetivos, metáforas e toda a ilimitada teia de ligações que vão se estabelecendo entre as palavras, ao longo do tempo. Mas o que faz prece ou poesia pode fazer também intriga e malefício. Questão de intenção e de dose.
Parece que mesmo línguas robustas, como o inglês, vêm perdendo a velha simplicidade por conta da "duplafala". Nos Estados Unidos, parece praga. Não há muito, uma companhia que estava mandando embora 500 empregados esclareceu: "Não caracterizamos isto como dispensa de pessoal; estamos gerenciando nossos recursos administrativos". Há consultores que trabalham especialmente no ramo de mandar gente embora e apresentam seus serviços como "consultoria para terminação e colocação externa" ou "engenharia de reemprego". No Canadá, um acidente de helicóptero foi higienizado como "desvio de um vôo normal". E os advogados do famoso jogador de futebol americano O. J. Simpson, o tal que teria matado a mulher (em quem dava surras) e o amante dela, pintaram essa relação como mera "discórdia marital". E consta que na Universidade da Califórnia, em Berkeley, a turma da educação física passou a chamar-se de "departamento de biodinâmica humana".
Exemplos inesgotáveis, alguns engraçados, outros ridículos. Mas embaçam a percepção da realidade, embora hoje não tão sinistros como no auge dos totalitarismos.
Uma ilustração recente tem pegado por aí muita gente distraída. Temos ouvido muito a expressão "excluídos" para designar grupos de pessoas de baixa renda ou supostamente marginalizadas. Há palavras apropriadas para as situações concretas: "pobre", "analfabeto", "doente", "desempregado", "drogado", por exemplo, designam situações em que determinadas pessoas objetivamente se encontram num dado momento. No resto da sociedade, espíritos decentes certamente sentirão um dever de solidariedade e, sem dúvida, pensarão no que possa ser feito para mudar esse estado de coisas.
A exclusão, no entanto, supõe uma ação deliberada contra o excluído, no caso, essa gente pobre, desempregada etc. Portanto subentende que alguém impeça à força que ela tenha acesso a bens que todos desejam. O "excludente" passa a ser indiciado como "culpado" por essa situação penosa.
Essa generalização é safada, porque sub-repticiamente legitima todas as demandas de supostos "excluídos", à custa dos demais. Houve políticas deliberadas (e criminosas) de exclusão, como a nazista, contra os não-arianos, e a comunista, contra os não-proletários.
Mas há formas de "exclusão" legítimas e até indispensáveis à existência do indivíduo e da espécie. Os países costumam fechar suas fronteiras para não serem atropelados por massas de imigrantes deslocados de outras paragens. O abuso da palavra "excluído" é particularmente frequente nas conferências internacionais. Muitos países se queixam de serem "excluídos" pela globalização, pela revolução tecnológica ou pelo liberal-capitalismo. Ao mesmo tempo praticam um nacionalismo excludente, que hostiliza capitais estrangeiros, supridores de poupança e tecnologia. Ou se impõem automutilação tecnológica, como o Brasil, com sua política de nacionalismo informático. Para não falar de países recipientes de ajuda externa, que gastam dinheiro em armamentos ou guerras tribais.
Essa confusão semântica atrapalha a compreensão do desenvolvimento econômico. Antes do processo de acumulação que é a civilização, os bandos dos nossos primitivos tataravós viviam em "equilíbrio" com a natureza _quer dizer, em média, pouco mais de 10 anos, chegando a em torno de 20 anos ao tempo de Roma, e só alcançando 40 anos nas sociedades industrializadas, no final do século passado. Fome, frio e doença eram a regra geral. E permanente guerra de pilhagem entre tribos e clãs. A escassez universal era a regra que gerava a violência.
A aquisição da racionalidade tem sido um longo esforço humano de "inclusão" ao longo de milênios. A globalização é um fenômeno de "inclusão" e não o contrário. Pelo menos usar as palavras sem deformar a mensagem está nas nossas mãos. E é parte da solução.

Roberto Campos, 82, economista e diplomata, foi senador pelo PDS-MT, deputado federal pelo PPB-RJ e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).
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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

"coprofilia"

O texto é de 1996, fez doze anos, e vejam como é absolutamente atual. O político mais erudito que tivemos depois de Rui Barbosa, o falecido Sen Roberto Campos nos antecipa o denuncismo sem propostas da mídia, com o neologismo "cropofilia".

O papel da mídia ética e eficiente é reunir conhecimentos em busca de soluções e orientar seu leitor e a sociedade a fim de se obter a melhor forma de se resolver problemas sociais e econômicos. Vê-se, desde épocas remotas, que nossa mídia apenas denuncia com forte sensacionalismo.

Se a sociedade, de fato, se importasse ou estivesse ligada, doze anos já teríamos construído outro Brasil mais ético.



Uma nova doença: a "coprofilia"
Roberto Campos 
14/1/96

"Metade da ciência é descobrir as respostas exatas; metade é formular as perguntas corretas"
Alfred Whitehead

A mídia brasileira está atacada pela síndrome da "coprofilia". Essa combinação de palavras gregas significa "amor ao excremento". Consiste na transformação de impropriedades administrativas, ou praxes eleitorais quase rotineiras, em "escândalos" éticos.

É um moralismo hipócrita. Enquanto a moralidade é uma virtude, o moralismo é um cacoete.
Exemplo de coprofilia é a celeuma levantada em torno da pasta rosa e do caso Sivam. Celeuma que impede uma análise racional dos fatos subjacentes e a adoção de corretivos adequados. Nenhuma coisa nem outra tem a ver com presidente Fernando Henrique Cardoso. E nem de longe deveriam servir de argumento ou pretexto para o retardamento das reformas ou desgaste da autoridade presidencial.

A mídia está cansada de saber que em toda a nossa vida republicana não houve político (a não ser talvez em nível de vereador), que se tenha eleito à base de papolina ou sola de sapato. Mesmo as mais carismáticas personalidades buscam apoio na máquina oficial de empréstimos e nomeações, em contribuições de grupos corporativos, ou doações de empresários.

Nossas eleições não são momentos cívicos. Nas áreas pobres e no grande interior, são exercícios de redistribuição de renda. O voto não é apenas um direito e sim o cumprimento de uma incômoda obrigação, em troca da qual o eleitor espera algum mimo: camisetas, "santinhos" e calendários, auxílio para doença e viagens, transporte e merenda nos dias eleitorais. Em muitos casos o candidato passa a ser um instituto de previdência ambulante.

Duas coisas tornam as eleições brasileiras particularmente dispendiosas. Uma é o voto universal obrigatório. No voto facultativo, os eleitores se automobilizam, sem necessidade de incentivo. Outra é o voto proporcional para as Assembléias Legislativas. No sistema de voto distrital, os candidatos são facilmente conhecidos, elegem-se em parte à base de relações pessoais, podendo além disso ser diretamente fiscalizados pelo eleitor.

Essas realidades brasileiras reduzem o "escândalo" da pasta rosa a proporções menores. Singulariza-se uma empresa entre milhares, e uma eleição, a de 1990, como exemplo de degradação política. É verdade que a Lei Eleitoral de então, num casuísmo irrealista depois revogado, proibia contribuições empresariais. Tal era seu o irrealismo que não se previram sanções e punições, sabendo-se de antemão que a lei não "pegaria".

Nos Estados Unidos, só se admitem contribuições de pessoas físicas ou clubes políticos. Mas o voto é voluntário, há uma tradição maior de civismo e são generosas as verbas governamentais para os fundos partidários. Nada disso acontece no caso brasileiro.

A fauna político brasileira é composta de espécimes variados. Há alguns ricos que se autofinanciam. Há os sindicalistas e ex-funcionários de estatais que se apóiam, direta ou indiretamente, nas respectivas corporações. Começam a surgir eleitos por seitas religiosas. Há os políticos no poder, que manipulam as máquinas burocráticas, saqueiam os bancos estaduais e fazem empreguismo eleitoral. O resto é o resto.

Dir-se-á que contribuições empresariais desvirtuam as eleições num sentido pró-capitalista. À parte o fato de que os empresários são cidadãos, com direito a expressarem preferências políticas da mesma forma que os sindicalistas, a verdade é que a política econômica brasileira, principalmente após a redemocratização, tem sido pronunciadamente populista e antiempresarial. O exemplo supremo é a Constituição de 1988, com seus monopólios e o hiperfiscalismo opressor da livre iniciativa. Como explicar o fenômeno?

Na realidade, inexiste uma frente empresarial coordenada. O apoio financeiro-eleitoral dos empresários obedece a motivações variadas e contraditórias. A primeira é "fisiológica": apóiam-se candidatos que prometam verbas, ou se comprometam a promover interesses específicos. A segunda é "ideológica": apóiam-se candidatos que defendem o ideário capitalista e favorecem a liberalização dos mercados. E há o "dinheiro de resgate", dado a políticos de esquerda, que em geral favorecem posições nacional protecionistas, e dos quais os empresários esperam comprar tolerância se chegarem ao poder. Muitos dos grandes empresários, que financiaram generosamente as campanhas de Collor e Fernando Henrique, não se esqueceram de reservar um dinheirinho de "resgate" para Brizola e Lula.

O caso Sivam, que atravessou vários governos, é outro exemplo de sensacionalismo, causador de "paranálise", isto é, a paralisia da análise. Há impropriedades administrativas, aliás já detectadas pelo Tribunal de Contas, que não chegam a configurar um escândalo.

O que sim é necessário, ante o custo do projeto, é uma análise cuidadosa da relação custo/benefício, tarefa a que os militares raramente se entregam com prazer, pois são treinados na cultura da "requisição" e não da "competição" por recursos escassos. O controle do espaço aéreo amazônico e o apoio à navegação são importantes, mas sê-lo-ão a ponto de justificar pesados investimentos? 

Há dúvidas a esclarecer, considerando-se que:
a) inexistem ameaças militares; 
b) o tráfego aéreo é apenas 3% do total do país; e, 
c) os modernos aviões equipados com o "GPS" se orientam por satélites e não por sinais de terra. Não seriam mais urgentes radares de aproximação em alguns aeroportos do Sul, sujeitos a intempéries climáticas? Não será a utilidade de sistemas sofisticados de detecção de contrabando de armas, mercadorias e drogas, anulada pela incapacidade de interceptação, por falta de helicópteros e aviões?

Será que o problema de proteção ambiental, hoje baseado em reconhecimento por satélites, será resolvido pelo Sivam, quando o real obstáculo do Ibama parece ser a insuficiência de guardas florestais e de meios de acesso. Qual o balanço desejável de investimentos entre detecção e interceptação?

O debate se tem centrado em saber se a tecnologia russa é mais barata. Considerando-se que Gorbatchov quase caiu do governo porque um teco-teco alemão pousou na praça Vermelha, e as defesas aéreas russas confundiram um Boeing coreano de passageiros com um bombardeiro, não há porque ser otimista sobre os sistemas soviéticos de vigilância.

A tecnologia francesa é certamente comparável à americana, mas a oferta financeira bem menos atraente que a do Export-Import Bank. Há quem defenda a execução do projeto exclusivamente por firmas e institutos nacionais. Temos certamente nichos de excelência acadêmica e industrial. Mas não temos escala de produção para tornar os custos aceitáveis, não dispomos de financiamento interno e não temos experiência de coordenação de sistemas da espécie.

É aconselhável, no caso, uma certa modéstia. Deveríamos exigir o máximo possível de subcontratação local e compromissos contratuais de continua atualização tecnológica para evitar rápida obsolescência. Deveríamos, a esta altura, estar vacinados contra o nacionalismo tecnológico, que nos levou ao desastre da política da informática, esta sim mais que um "escândalo": um crime contra a competitividade.

Num julgamento objetivo, nem o caso da pasta rosa nem o projeto Sivam justificam o clima de escândalo. Esse clima tem menos a ver com o moralismo político do que com o surto de coprofilia que contaminou a mídia brasileira.

ROBERTO CAMPOS, 78, economista e diplomata, é deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).
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