Mostrando postagens com marcador Ricardo Amorim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ricardo Amorim. Mostrar todas as postagens

sábado, 25 de maio de 2019

Competir ou morrer

RICARDO AMORIM     REVISTA ISTO É

O custo de um carro para o mercado interno é 40% maior que o de seu equivalente mexicano. Se exportado, os impostos somariam 15%. No México, o índice é de meros 2%


O momento é crítico. Entraves comprometem nossa competitividade, limitando investimentos e levando ao fechamento de fábricas, como as da Eli Lilly, Roche e Ford. Só com a fábrica da Ford, 2.800 empregos serão perdidos.

Por que isto está acontecendo? Alta carga tributária, excesso de encargos trabalhistas, alto custo logístico, ampla flutuação cambial e juros elevados. A indústria é um grande empregador, o setor mais produtivo e com os mais altos salários, mas também é um dos mais tributados. Isto nos condena a produzir e exportar produtos de baixo valor agregado. Dos dez principais produtos que exportamos no primeiro trimestre, nove são commodities. A consequência? Menos empregos e salários mais baixos.

Pela alta carga tributária, não atraímos investimentos para exportação de veículos, como o faz o México. Lá, além da produção para mercado interno, há uma produção ainda maior para o externo. Em 2018, o México exportou 88% da produção, o Brasil 22%.

Aqui, faltam programas para estimular exportações, impedindo o aproveitamento da grande capacidade ociosa e geração de empregos. Exportar é uma necessidade para a indústria receber investimentos externos e sobreviver. Por causa da grande flutuação cambial e sem grandes receitas de exportação, as multinacionais não têm previsibilidade de ganhos, deixando de investir. Preferem levar os recursos e os empregos para países onde as condições são mais favoráveis.

Após a entrada em vigor do acordo de livre comércio de automóveis e autopeças entre o Brasil e o México, a questão ficou ainda mais importante. Abertura de mercado é bem-vinda. Traz o potencial de aumentar nossa competitividade e integrar mais o Brasil na cadeia global de produção, mas para isso, necessitamos de equidade nas condições. Caso contrário, a indústria nacional será aniquilada e a produção e os empregos migrarão para o México.

Hoje, o custo de produzir um veículo no Brasil é 18% maior do que no México. Quando se acrescentam os impostos, caso o veículo seja vendido no mercado interno, os custos totais no Brasil são 40% maiores. Caso seja exportado, o carro pagará 15% em impostos.

No México, esse índice é de 2%.

Uma reforma tributária ampla é fundamental para novos investimentos e mais empregos. Enquanto não acontece, uma solução transitória seria aumentar o Reintegra, criado para compensar os impostos pagos na exportação, dos atuais 0,1% para 9%. Ou o Brasil acaba com seus problemas de competitividade ou os problemas de competitividade acabam com o Brasil.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Somos todos desonestos

 Ricardo Amorim
ISTO É.


Somos todos desonestos

Era uma vez um jovem honesto e idealista que, um dia, descontente com o rumo do país, resolveu entrar para a política. Seu objetivo: mudá-lo para melhor. Em sua terceira campanha eleitoral, finalmente se elegeu vereador.

Eleito, ele começou a enfrentar dificuldades na Câmara Legislativa Municipal. Três anos depois, nada do que propôs havia sequer sido votado, quanto mais aprovado. Enquanto isso, diversos de seus colegas aprovavam tudo o que queriam, normalmente apenas em benefício próprio.

As eleições se aproximavam e, com elas, a necessidade de financiamento para a próxima campanha e de alguma realização para apresentar a seus eleitores. Ele resolveu que, em nome de um bem maior, seu projeto de um país melhor, por uma única vez aceitaria participar de um esquema ilícito para aprovar seu projeto e financiar a campanha. Afinal, o que era uma única "pequena" irregularidade em relação a seu importante e grandioso projeto?

Depois disso, ele se elegeu deputado estadual, deputado federal e há mais de 20 anos é senador. Nesse meio tempo, aprovou inúmeros projetos. Hoje, é rico, poderoso e invejado. O jovem que 40 anos antes quis entrar para a política para mudar o país não o reconheceria. Ele virou político para combater pessoas como a que ele mesmo acabou se tornando.

Cercado por outros corruptos, hoje ele sequer acha que o que faz é corrupção. É apenas a forma como as coisas são feitas. Nós, seres humanos, temos a habilidade de acostumarmo-nos com quase qualquer situação, o que é muito útil para lidar com as mudanças que a vida sempre traz. Infelizmente, esta habilidade vem com um grande ônus. Nós nos acostumamos e consideramos normal o que a maioria está fazendo, principalmente se incluir nosso próprio grupo social. Até ao nazismo, em um dado contexto histórico, muitos acabaram se acostumando e até aderindo. No Brasil, acostumamo-nos com a corrupção.

A percepção é que a maioria é corrupta. Trouxas são os que não aproveitam as oportunidades de benefícios próprios que determinados cargos ou situações criam.

Essa percepção acaba determinando as ações de muitos e criando uma profecia auto-realizável. Se você acha que essa história só vale para políticos e empreiteiros, atire a primeira pedra quem nunca traiu a namorada, colou na prova ou guiou no acostamento.

O mesmo sujeito que joga uma garrafa na rua e se queixa de como sua cidade está suja não joga nem uma bituca de cigarro e elogia a limpeza quando viaja para Miami ou Cingapura. O padrão aqui é sujar e reclamar. Lá, é cuidar e elogiar. A pessoa é a mesma. Precisamos criar condições que estimulem os comportamentos que queremos. A cidade de Nova York, onde morei por quase dez anos, é famosa por ter reduzido radicalmente a criminalidade e a sujeira com tolerância zero a ambas. Aqui, precisamos estender a tolerância zero a todos os padrões errados com os quais nos acostumamos. Aceitando pequenos delitos abrimos a porta para delitos cada vez mais graves, até que eles se tornam a norma.

No Japão, um político corrupto sente tanta vergonha quando descoberto que, muitas vezes, se suicida. No Brasil, até recentemente, políticos corruptos sequer temiam ser punidos.

Tomara que a Operação Lava Jato e punições severas aos culpados comecem a criar uma nova cultura no país, mas se queremos, realmente que o país mude, temos antes de mais nada que ser a mudança que queremos ver.

Ricardo Amorim é economista, apresentador do programa "Manhattan Connection", da Globonews, e presidente da Ricam Consultoria 







segunda-feira, 24 de março de 2014

A revolução por trás do apagão de mão de obra.

A pergunta é: A evolução da formação técno-profissional irá acompanhar para melhor? Com o contumaz desinteresse da sociedade pelo Plano Nacional de Educação, em meu entender, cada vez mais estamos eivando de ideologia marxista a formação de nossos futuros profissionais, de nossa futura economia produtiva. 

É-me uma vergonha ver que a cada quinzena embarco estrangeiros em quantidade crescente para ocupar postos que brasileiros deixam de ocupar por estarem bem aquém dos requisitos mínimos.


A revolução por trás do apagão de mão de obra.
Revista IstoÉ
Por Ricardo Amorim

Mediando um painel em um evento com grandes empresários brasileiros, perguntei a eles qual o maior desafio para o crescimento de suas empresas nos próximos anos. A resposta veio em uníssono: a falta de mão de obra qualificada é, atualmente, seu maior desafio.

O apagão de mão obra não é novidade. À medida que o desemprego no Brasil começou a cair desde meados de 2004, a dificuldade das empresas em contratar bons profissionais tem aumentado e os salários e benefícios dos funcionários subido.

No mercado de trabalho, assim como em infraestrutura e câmbio, o Brasil viu-se forçado a lidar com as dores do crescimento. Nas décadas de 80, 90 e início do milênio, quando o Brasil sustentou uma taxa média de crescimento do PIB de apenas 2% ao ano, faltavam empregos. Desde 2004, a média mais do que dobrou, hoje faltam profissionais qualificados para as vagas existentes.

O aumento da remuneração dos trabalhadores consolidou e fortaleceu o mercado consumidor. Só que a elevação de salários e benefícios não veio acompanhada por igual aumento da produtividade dos trabalhadores, encarecendo produtos e serviços no país. Para piorar, o Real apreciou-se significativamente, colaborando para tornar nossos produtos e serviços ainda menos competitivos em relação aos estrangeiros.

Esta nova realidade tem trazido desafios às empresas e tornou uma eficaz gestão de recursos humanos mais estratégica do que nunca. Atrair e reter talentos nunca foi tão importante, dando início a uma revolução silenciosa, com implicações positivas substanciais sobre a estrutura da nossa economia. Por terem sido praticamente ignoradas até aqui pela maioria das empresas, três transformações merecem destaque.

Enquanto oportunidades profissionais brotam no país nos últimos anos, elas minguam nos países desenvolvidos. Isto provocou uma reversão na histórica perda de talentos que o país se acostumara. Atraídos por melhores oportunidades e remuneração, centenas de milhares de brasileiros que trabalhavam nos EUA, Europa e Japão retornaram ao país, eu entre eles. Além disso, o número de autorizações de trabalho para estrangeiros no país triplicou nos últimos cinco anos. Já há mais de 1,5 milhão de trabalhadores estrangeiros legais iluminando nosso apagão de mão de obra e hoje, quem diria, atraímos até imigrantes ilegais.

Em paralelo, um aumento da expectativa e qualidade de vida, somado a uma futura incapacidade do sistema público de previdência de honrar suas promessas, mais uma sustentada queda da taxa de juros no Brasil, reduzindo a rentabilidade de aplicações financeiras, forçam cada vez mais aposentados a complementarem suas rendas, voltando a trabalhar. Será que as empresas estão prontas para eles?

Por fim, no Brasil, a mão de obra era barata e a tecnologia cara. Não mais. Enquanto os salários vem subindo, o custo de máquinas e equipamentos vem caindo devido à produção chinesa e à apreciação do Real. Um forte processo de mecanização e informatização vem aí, com impactos muito positivos sobre a produtividade, mas exigindo trabalhadores ainda mais qualificados.

Por trás da escuridão do apagão de mão de obra, há uma revolução silenciosa que só começou.

Ricardo Amorim
Economista, consultor, apresentador do programa Manhattan Connection da Globonews, colunista da revista IstoÉ e presidente da Ricam Consultoria. Realiza palestras em todo mundo sobre perspectivas econômicas e oportunidades em diversos setores Único brasileiro na lista dos melhores e mais importantes palestrantes mundiais do site inglês Speakers Corner e economista mais influente do Brasil e um dos dez mais influentes do mundo segundo o site americano Klout.com.
.

GEOMAPS


celulares

ClustMaps