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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Choque do petróleo, desordem mundial


Vinicius Torres Freire – Folha de S. Paulo

Apocalipse petrolífero parece adiado, mas política mundial em ruínas facilita crises

O choque do petróleo anunciado com exagero na segunda-feira (16) havia sido adiado pelo menos até a noite desta terça (17). Mesmo na disparada do começo da semana, de qualquer modo, os preços do barril tinham chegado apenas a níveis registrados em maio ou julho.

Segundo relatórios de bancões multinacionais, essa carestia do combustível não seria suficiente para danificar a economia americana. Ainda nesta terça-feira, os sauditas disseram que até o final do mês estarão produzindo tanto quanto antes dos ataques a suas instalações de processamento de petróleo.

Parece claro, porém, que a crise não está apenas aí, em mais um episódio dos conflitos do Golfo, no caso, os embates indiretos entre Arábia Saudita e Irã. O problema é que as frequentes desordens mundiais, em particular no dito Oriente Médio e cercanias, estão sob nova e péssima administração. A cortesia da bagunça mais recente é de Donald Trump em particular, embora os americanos estejam promovendo desastres além da conta desde a invasão do Iraque de 2003 (ou do golpe que armaram no Irã de 1953? O desastre vem de longe).

Por mero e neutro exercício, suponha-se que os ataques tenham sido lançados por uma das facções envolvidas na guerra civil (e também regional) do Iêmen. Então: 1) Os Houthis, como são chamados no Ocidente, são capazes de destruir o centro petroleiro do país que exporta uns 16% do petróleo do mundo; 2) Guerra e massacres praticamente ignorados no Iêmen podem provocar um colapso na economia mundial. Hum

Ainda por mero exercício, suponha-se que o Irã tenha sido o responsável direto ou indireto pelo ataque à Arábia Saudita. Neste caso hipotético, um país já avariado por sanções econômicas americanas não se importa de correr o risco de pelo menos um ataque “cirúrgico” (desculpem o clichê vicioso) a seus centros petroleiros, infraestrutura ou instalações militares. Segundo jornalistas americanos que ouvem fontes no governo de seu país, essas teriam sido as hipóteses de retaliação oferecidas a Trump.

Ressalte-se: uma facção da guerra civil do Iêmen e um Irã irado ou desesperado a ponto de se arriscar em uma guerra podem provocar um colapso econômico global. Note-se de passagem que os Emirados Árabes Unidos, também envolvidos na confusa guerra do Iêmen, são responsáveis por 6% das exportações mundiais de petróleo. O vizinho Iraque, sob guerra e terrorismo permanentes desde 2003, outros 8%.

O rolo mais recente dos americanos com o Irã recomeçou com Trump, que na prática rasgou os acordos de limitação de armas nucleares. Para quê? Até o ano passado, quase ninguém dava muita bola para a guerra e o morticínio no Iêmen, afinal, terra de gente não-branca e muçulmana, vidas que não valem grande coisa na opinião pública ocidental, no entanto uma guerra de potências petroleiras.

As questões alarmantes parecem óbvias. Na ordem politica mundial, os danados da terra estão sempre se danando, é verdade. Mas, ruim com tal ordem, pior ainda sem. Os acordos formais e tácitos estão indo à breca, mais recentemente graças à contribuição de demagogos mais ou menos autoritários, ineptos ou dementes, Trump entre eles, mas não apenas.

As tentativas mais cínicas de paz, estabilidade, equilíbrio de forças e opressão moderada são exemplos maiores de fina razão quando comparadas às provocações demagógicas e nacionalismos agressivos, recentes e cada vez mais frequentes.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Para entender a miséria da Venezuela

VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 01/05

Preço do ovo, salário e petróleo contam um pouco da vida impossível no vizinho

A vida cotidiana parece impossível na Venezuela. Parece inviável até quando a gente compara a dureza dos vizinhos à situação terrível das famílias muito pobres no Brasil, que recebem em média R$ 186 por mês do Bolsa Família e pagam R$ 2,50 pelo quilo do arroz mais barato. Pode ser pior.

Uma dúzia de ovos em Caracas sai por 6.400 bolívares. Um quilo de arroz, por 8.000 bolívares. O salário mínimo, mais o bônus alimentação, é de 65 mil bolívares, US$ 12,50, pelo câmbio oficial. Um frango custa uns 25 mil bolívares. Uma banana (uma unidade), 1.200 bolívares. Mais da metade dos trabalhadores do setor formal ganha um salário mínimo, mas as estatísticas são precárias.

É difícil entender a economia de um país em que a inflação em março era de 1.623.656% ao ano. Baixou um pouco. Havia chegado a 2.688.670%, em janeiro. 

No auge do horror, a inflação brasileira foi a 6.821% ao ano, em 1990. Diferença de milhares para milhões, favor prestar atenção.

A inflação é calculada pela Assembleia Nacional, pois faz muitos anos ninguém acredita nas mentiras do governo (quando os números existem). É preciso recorrer a estimativas privadas ou a instituições internacionais para saber algo tão básico quanto o valor da produção nacional, o PIB.

Os números da ONU (Cepal) e do FMI divergem um pouco, mas desde 2013 a economia encolheu pelo menos 45%. O PIB do Brasil, que vive uma depressão, diminuiu 4,2% no mesmo período. Nos chutes para este ano, a recessão venezuelana deve ser de 10% a 25%.

Em uma década, a produção de veículos caiu uns 95%. Sim, quase tudo se foi, quase não se fabricam carros por lá, como quase mais nada. O que havia de indústria foi arruinado por desordem extrema e por importações, facilitadas pela demagogia do dólar barato e pagas pelo petróleo caro —enquanto durou.

As importações totais do país caíram 85% desde 2012. O país não tem dólares suficientes para comprar produtos no exterior, dá calotes na dívida e se vira com refinanciamentos e empréstimos de russos e chineses. Nos chutes informados do FMI, a taxa de desemprego seria de 35%.

O país começou a entrar em colapso no ano da morte de Hugo Chávez, em 2013. Na média dos últimos 20 anos, cerca de 90% do valor das exportações veio do petróleo (mais de 95%, nesta década). 

O preço do barril baixou muito a partir de 2014, o que explodiu de vez a economia, é verdade.

No entanto: 1) Quase todos os países da América Latina vivem de commodities. Mesmo levando em conta a importância excessiva do petróleo, a Venezuela se desgraçou mais que os vizinhos; 2) O governo gastava como se o preço do barril fosse ficar alto para sempre. Quem tem renda variável e despesa permanentemente alta, um dia quebra; 3) O governo destruiu a PDVSA, a petroleira estatal; 4) Não há nada parecido com política econômica na Venezuela faz mais de dez anos; 5) A produção de petróleo caiu pela metade desde 2013.

O déficit do governo começou a explodir nesta década. Nas contas do FMI, anda pela casa de 30% do PIB (no pior desta crise desesperadora, chegou a 11% no Brasil). O governo paga as contas com emissão de dinheiro (digital, pois nem imprimir notas consegue: falta moeda na praça).

Sim, o boicote americano piorou a situação, o que nem de longe explica o desastre. A reconstrução, se e quando vier, vai depender de anos de tutela e de empréstimos externos de muitas dezenas de bilhões de dólares.

Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)

domingo, 27 de janeiro de 2019

Brasil na lama e em ruínas

Vinicius Torres Freire: - Folha de S. Paulo

Além do vômito letal da represa de lixo da Vale, obras públicas caem aos pedaços

Faz mais de cinco anos, a gente tem a impressão de que o Brasil está em ruína progressiva. O sabor político do sentimento depende do gosto ideológico do freguês. Quanto ao sentido literal da expressão “ruína”, há sinais e sintomas evidentes de que o país está caindo aos pedaços.

Por exemplo, qualquer pessoa sensata vai se perguntar como é possível que se repita em três anos um horror como esse das barragens de Minas Gerais, essa desgraça revoltante na represa de lixo da Vale. Mas a coisa já ia longe.

A gente está com a pulga atrás da orelha de uma cabeça com cabelos em pé, aqui em São Paulo. Há notícias em série sobre o mau estado das pontes e dos viadutos da capital do estado mais rico e mais cheio de universidades de ponta do país.

No final do ano passado, um viaduto da marginal do Pinheiros cedeu e foi interditado. Na semana que passou, foi a vez de um viaduto que liga a marginal do Tietê à Via Dutra.

Oito pontes e viadutos vão passar por vistoria de emergência, entre eles duas pontes sobre a marginal do Tietê.

As marginais são uma das duas grandes vias de circulação expressa e de saída da cidade. Se param, a cidade não consegue chegar nem na breca.

Problema local? Hum.

O investimento do setor público, a despesa em “obras”, afunda mais que viaduto paulistano. Na soma dos gastos dos governos federal, estaduais e municipais, o investimento médio de 2015 a 2017 baixou 36,6% em relação à média dos anos “bons” de 2004 a 2013.

Baixou em termos relativos, em proporção do PIB, um desastre (estas contas são baseadas nas séries de investimento calculadas pelos economistas Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, do Ipea).

O investimento é insuficiente para manter e reparar a infraestrutura, segundo os especialistas (é menor que a depreciação). A baixa é brutal nos governos estaduais, o dobro da queda relativa do investimento feito pelo governo federal e pelos municípios.

Em português claro, isso quer dizer que não há dinheiro suficiente para manter, que dirá melhorar, estradas, pontes, viadutos, açudes, barragens etc. O país está apodrecendo fisicamente.

Para piorar, sem obras novas ou consertos, a economia demora a se recuperar. A construção civil foi o grande setor mais desgraçado da economia durante a recessão. Parou de piorar, mal e mal, apenas no ano passado.

Além da falta de dinheiro, escassearam vergonha na cara e competências. Convém lembrar que as maiores empreiteiras eram comandadas por gângsteres, máfias que compravam governos, leis etc. Sabe-se lá mais o que aprontaram.

Desconhece-se o motivo da nova desgraça mineira, mas sabemos de algumas coisas:

1) leis ambientais rigorosas não faltam; há baderna ou coisa pior na fiscalização;

2) muita gente e negócios estão no rastro possível do vômito letal dessas barragens que se esboroam;

3) não há meios de avisar essa gente que fica no caminho do mar de lama tóxica ou modo de tirá-las de lá a tempo. Quando acontece um desastre, por acidente ou incompetência criminosa (a ver), as pessoas morrem como vítimas de bala perdida nos tiroteios das metrópoles brasileiras. Isso é descaso.

Incúria, corrupções, burrices e ignorâncias brasileiras básicas e, ainda pior agora, a falta de dinheiro devem nos deixar mais alertas. Alguém ainda se lembra da desgraça, da tristeza infinita, do Museu Nacional? A queima da memória brasileira, a ponte que caiu ou a lama da mineração podem ser sintomas de coisa pior.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Recaída na crise e nojo de reformas

Vinicius Torres Freire: - Folha de S. Paulo

Quinto ano de sofrimento e Temer empesteiam ideia de reformas na campanha eleitoral

Na média, o desemprego em 2018 não deve ser muito diferente do que se viu em 2017. Algo em torno de 12,5%, dizem chutes informados de boas casas do ramo de previsões. Desemprego alto e persistente é uma draga de salários.

Reajustes mais baixos e inflação um tico mais alta devem jogar pelo ralo mais um tanto do aumento do renda média real de 2018, que não deve chegar à metade do ritmo do ano passado (que havia sido de alta de 2,4%).

O nível de precarização do emprego deve ser igual ou maior. Pesquisas indicam mais receio de piora no mercado de trabalho, desde fevereiro.

Como o povo que leva esta vida vai julgar programas de governo que preguem reformas? Claro que, posta assim, a expressão “reformas” não quer dizer grande coisa.

As mudanças propostas poderiam, por exemplo, até fazer parte de um plano amplo e inteligente de acordo nacional, de uma candidatura que inspirasse esperança e o sentimento de que haverá redistribuição mais justa de perdas.

Mas não temos inteligência, ideias de acordo social e candidaturas que inspirem confiança, pelo menos até agora.

A palavra “reformas” está associada a Michel Temer, politicamente pestilencial. A estagnação econômica deve aumentar a antipatia pela ideia, ao menos no pacote em que vinha sendo apresentada até agora.

Quase dois terços da população haviam declarado repulsa à reforma da Previdência. O apoio ao caminhonaço revelou também o tamanho da raiva contra os aumentos dos combustíveis e à “Petrobras que serve aos interesses do deus mercado”. Difícil acreditar que as raivas diminuam.

Vamos saber do efeito material do caminhonaço e suas sequelas na economia apenas por agosto. Até lá, os indicadores econômicos devem ficar bem confusos, com quedas horrendas em maio, compensações em junho e um saldo a verificar em julho, que não será positivo. Resta saber o tamanho do tombo.

O povo, porém, vai sentir a princípio a onda negativa. Os preços subiram. A inflação de junho deve chegar perto de 1%. É plausível que, no início de julho, ouça notícias de que a inflação voltou a 4% ao ano, a maior desde abril de 2017.

Não quer dizer que a inflação será um problema, no que diz respeito à política monetária, claro, apesar de parte chinfrim do povo do mercado financeiro estar ensandecida a pedir taxas de juros mais altas, uma mistura de oportunismo com ignorância. Nem importa muito a taxa específica de inflação, número que não faz sentido para as pessoas da rua, mas o climão.

Pão, frango e gasolina mais caros fazem sentido, mesmo que a inflação geral esteja baixa e sob controle, por enquanto. Por falar nisso, corre nas redes sociais a piada de que Michel Temer vai conseguir cumprir o programa de Dilma Rousseff, metas que a ex-presidente não atingiu: gasolina e dólar a R$ 5 e popularidade em 5%.

O dólar nas alturas é um termômetro “pop” de crise, mesmo que o cidadão não seja direta e imediatamente afetado pela desvalorização da moeda. Em geral, é o único meio pelo qual o povo percebe que há tumulto financeiro, sintoma sabido de mais crise adiante.

Para piorar, quanto finanças práticas, o crédito nos bancos não vai crescer nada neste ano.

Esses são apenas alguns sinais de degradação socioeconômica. O que importa aqui é lembrar que não se vê candidatura que junte sensatez com capacidade de oferecer esperança a uma população que, na maioria, está em revolta contra o sistema político e que tomou nojo da palavra “reformas”, empesteada de vez por Temer e companhia.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Como fabricar uma nova recessão

Vinicius Torres Freire: 
- Folha de S. Paulo

Há pânico na finança, candidatos irresponsáveis, povo bestificado e ausência de governo

O resumo da ópera destes dias de pânico é que aumentou muito o risco de que a economia fique estagnada neste 2018: como em 2017.

Na prática, crescimento de 1%, como no ano passado, é estagnação, aumento quase nulo do PIB per capita.

As ações de empresas que dependem da venda de bens de consumo e serviços mais caros perderam mais sangue do que a média, no massacre quase geral da Bovespa desta quinta-feira (7). É uma espécie de pesquisa da opinião de quem tem dinheiro na Bolsa: o brasileiro vai comprar menos, viajar menos, pegar menos crédito. Então, pau nas ações de empresas que vivem disso.

O indicador da FGV que tenta antecipar o destino do mercado de trabalho recuou pela terceira vez consecutiva em maio. Não se via um trimestre de baixa no Indicador Antecedente de Emprego desde o início de 2015, quando desembestávamos para a recessão.

As taxas de juros na praça, no atacadão de dinheiro do mercado, continuaram a viajar no espaço sideral. Há mumunhas da finança, pânicos e investidor se virando para não perder mais dinheiro, mas o problema de fundo é que há muita gente tentando se livrar de títulos da dívida pública, grosso modo. Em outras palavras, espera-se alta ainda maior dos juros, portanto.

Juros mais altos já vinham deprimindo e devem deprimir parte dos ânimos restantes de quem ainda pensava em pegar algum dinheiro para investir, que não eram muitos, mas resistiam até abril.

Parte considerável deste pânico financeiro se deve ao súbito entendimento de que é a grande a possibilidade de que na eleição de outubro vença um programa de governo maluco ou repulsivo para os donos do dinheiro grosso. Parte menor deriva da tardia percepção de que não há governo, nem Congresso, nem ninguém com a cabeça no lugar no comando.

Não há nem ao menos alguém que faça pressão para que o tumulto não seja ainda maior. A sociedade, “empresariado”, “x”, assiste à derrocada bestificada, quando não colabora com a ruína, como tantas associações empresariais fizeram no caminhonaço, com oportunismo amador, jeca e burro.

Parlamentares federais e estaduais procuram saquear o resto que sobra e aprovam trens da alegria.

Quanto à eleição, pelo menos até agosto é improvável que um candidato dito de centro, reformista liberal, ganhe vida nas pesquisas. Quanto mais os favoritos de agora digam disparates ou apenas façam planos de governo que causem ojeriza aos donos do dinheiro, maior a propensão à persistência do tumulto.

O que é o disparate essencial? Dizer que a crise fiscal feia que virá em 2019, a falta de dinheiro crítica do governo, não é uma urgência nacional e que será tratada por meio de paliativos ou coisa pior. Quanto mais tempo um candidato favorito viajar na maionese com salmonela, dizendo irresponsabilidades sobre déficit e dívida públicos, mais o ambiente vai se deteriorar.

Caso vença a eleição com essa conversa, esse presidente terá condições reduzidas de governar. Dívida e juros estarão mais altos e a receita do governo será menor, pois o tumulto prejudicará ainda mais a nanoscópica recuperação econômica, se é que ainda haverá alguma.

O que se pode fazer? Um inviável acordo nacional partidário para ajustar as contas públicas e redistribuir perdas, antes de 2019. É puro delírio, sim.

Estamos entrando em um cenário 2002, eleição de Lula, mas com menos opções políticas e econômicas de sair do buraco.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Ninguém segura este país

Vinicius Torres Freire - Folha de S. Paulo

Difícil que o PIB cresça 2% em 2018, com este início de ano pífio e tumulto político

O crescimento da economia no resto deste ano está por um fio de esperança. Depende das intermitências do coração, dos ânimos de consumidores, praticamente. A julgar por conversas recentes, a confiança das empresas vai para o vinagre.

Durante os últimos dez dias, por aí, este jornalista ouviu empresários e executivos a falar em “risco” ou “surto de venezuelização” do Brasil. Não vem ao caso se a hipótese é surtada, talvez um exagero destes dias de pânico. O que importa é o espírito da coisa: assim tende a ser se assim lhes parecer.

Muita gente de empresa parece conformada com o falecimento da aceleração do crescimento em 2018. Pelo menos nestes dias, desapareceu de vez a conversa de que um “candidato responsável de centro” ainda está para crescer nas pesquisas.

Claro que o tumulto recente, dos caminhões ao dólar, nada teve a ver com a lerdeza da economia no primeiro trimestre. Ao contrário. A economia catatônica contribuiu para a revolta geral.

Andávamos devagar, quase parando. Agora, há vento contrário e areia no motor. Caso a economia continue no mesmo ritmo do primeiro trimestre, o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 2018 será de 1,5% (no ano passado, foi a quase estagnação de 1%).

A fim de crescer algo em torno dos 2,5%, que era mais ou menos a média da previsão da praça financeira desde dezembro, a economia teria de crescer 1,1% por trimestre no restante do ano (cresceu 0,4% no primeiro trimestre deste 2018, soubemos nesta quarta, 30, pelo IBGE). Ou seja, praticamente inviável.

Os motivos imediatos da lerdeza são sabidos.

O desemprego na prática não cai desde setembro do ano passado; o emprego precário e mal pago domina o mercado. O crescimento mais rápido do rendimento do trabalho em 2017 era em parte ilusório; noutra parte, perdeu impulso com o fim da surpresa inflacionária positiva (inflação caindo muito abaixo dos reajustes nominais acordados).

O impulso do saque do FGTS não foi o bastante para o PIB pegar no tranco. As taxas de juros nos bancos pararam de cair desde o fim do ano.

A construção civil voltou a cavar mais um pouco do buraco onde caiu quase morta, em parte porque o governo quebrado dizimou o investimento em obras, apesar de gastar em besteira (favores para setores empresariais, perdões de dívidas, aumentos para servidores federais e, agora, subsídio para o diesel).

Reformas não passaram, entre outros motivos porque o governo vive ocupado em fugir da polícia. Etc.

A dose nova de veneno vem da revolta geral. Ficou evidente a popularidade de ideias lunáticas, do autoritarismo político a soluções erradas para problemas econômicos (crise do diesel, crise fiscal).

Nas ruas, vê-se um monstro de duas cabeças: uma apoia a intervenção estatal paternalista na economia, outra rejeita impostos. O bicho ainda tem um rabo gordo de apreço por salvadores da pátria. Há um chocalho autoritário na ponta.

As maluquices tiveram apoio explícito de vários candidatos e tolerância conivente ou covarde de outros. Todas as flores do pântano florescem, tudo parece possível, em especial o pior.

O país esteve à beira da paralisia econômica, lideranças do Congresso e o governo zumbi de Michel Temer legitimaram e ratificaram chantagens e soluções erradas. Esquerda e direita tentaram faturar a crise. Mais do que mesquinharia política, viu-se oportunismo sórdido e suicida.

Quem vai investir nesse ambiente? A senhora leitora, que é perspicaz, investiria?

domingo, 27 de maio de 2018

Da extrema esquerda a empresas, há adesão e pouca crítica ao paradão do transporte

Vinicius Torres Freire - Folha de S. Paulo

Movimento se tornou porta-voz acidental da raiva das ruas

Quase não se ouve crítica à parada dos transportadores de carga.

É fácil compreender que candidatos à eleição não se atrevam a atacar um protesto contra os detestados aumentos de combustíveis. Mas a adesão ao paradão caminhoneiro vai de empresários a movimentos sociais de extrema esquerda, todos tentando tirar casquinha de uma revolta popular entre bolsonaristas, quando não liderada pelos partidários do capitão da extrema direita.

Pesquisas sobre reações nas redes sociais indicam maioria favorável ao movimento, mesmo que falte gasolina e se espalhe o medo de desabastecimento de comida. A hashtag #TemerAbaixaAGasolina foi para o topo das paradas do Twitter.

Do outro lado, restaram praticamente a alma penada do governo de Michel Temer e os economistas-padrão, que muitas vezes vivem no mundo da lua em que a política é um exotismo exógeno.

Desde que o comércio ocidental ressurgiu, na Idade Média, empresários protestam contra desordens e bloqueios de estradas, digamos, em nota sarcástica. O paradão caminhoneiro, porém, começou com o apoio de várias associações empresariais.

Há protestos, como aqueles dos criadores de animais, da indústria de produtos de carne, de fabricantes de remédios e químicos, de carros. Em geral, são tímidos ou localizados. Não há grita empresarial organizada contra o que antes se chamava de baderna, ainda mais se organizada pela esquerda.

Durante a semana, a esquerda decidiu surfar a onda dos caminhoneiros, de costume seus desafetos. O PT reconheceu a justiça do protesto, mais para bater em Temer e na política entreguista e privatista da Petrobras, mal citando o povo dos caminhões. Mas a Frente Brasil Popular, de movimentos sociais próximos do petismo, e a Frente Povo Sem Medo, à esquerda, aderiram, assim como a CUT e o MTST, de Guilherme Boulos, presidenciável do PSOL.

Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB) ficaram numa crítica suave à falta de diálogo e à frequência dos reajustes da Petrobras, sem condenar sua administração de mercado, estraçalhada por Ciro Gomes (PDT). O Congresso quase inteiro bate em Temer e na Petrobras de mercado.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, presidenciável do DEM, pede que a Petrobras dê uma suavizada nos reajustes e detona Temer. Quer dar ao paradão o sentido de protesto contra impostos.

Henrique Meirelles, até ontem timoneiro da coalizão mercadista que levou Temer ao poder, foi meio nessa linha. Mas, para baixar impostos, diz, é preciso reformar a Previdência. Nota-se, porém, um desejo geral de não reformar coisa alguma, mas de transferir prejuízos privados para fundos públicos.

Empresas de transporte e seus clientes não querem micar com a alta do custo do combustível, que não conseguem repassar aos consumidores, na pindaíba. Reivindicam subsídios do governo falido, o qual ninguém quer bancar.

Há de fato uma revolta contra impostos e governos em geral, vitaminada pela raiva de quatro anos de crise, das corrupções e de Temer. Mas quase todo o mundo quer uma mão estatal, desde que bancada por outrem.

Essa conjunção de repulsas contaminou feito a peste o programa de reformas, como a da Previdência. É o sentimento que parece estar na base do apoio tácito ao movimento caminhoneiro, que se tornou um porta-voz acidental da raiva das ruas. Resta a pergunta: quem ou o quê se quer derrubar agora?

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Vacas mortas na sala da economia

- VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 22/04

Análises da recuperação lerda preferem ignorar o colapso do investimento público


Um elefante na sala é um assunto constrangedor e evidente, que se ignora por alguma conveniência. Na economia brasileira destes tempos bicudos, há umas vacas mortas no sofá. Comenta-se a lerdeza da recuperação, mas pouco se fala dos bichos mortos faz anos, à vista de todo o mundo, empesteando o PIB.

O investimento federal, despesa em obras, em capital, caiu em 2017 a 48% do que era em 2014. No conjunto dos governos estaduais, a baixa foi similar, de acordo com dados compilados pela Instituição Fiscal Independente (deflacionados aproximadamente por esta coluna, pois os números são apenas anuais).

O investimento na construção civil chegou ao fundo do poço, apenas parou de cair, no fim do ano passado, sugerem números do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Entre os setores maiores da economia, é o mais retardado, afora o crédito bancário.

Quanto ao emprego, a construção civil ainda está de certa maneira em recessão. O número de empregos formais no país, com carteira assinada, cresceu 223 mil em um ano, até março, segundo dados do Ministério do Trabalho divulgados na sexta-feira (20). Alta modesta, de 0,6%. A construção civil ainda sangra bastante, porém, perdendo 64 mil postos de trabalho no mesmo período, baixa de 3%.

O colapso não se deve apenas aos cortes feitos a machadadas na despesa de investimento do governo federal e dos estados, é claro. O setor padece do superinvestimento em imóveis nos anos de boom, imóveis que encalhavam até o ano passado.

Mas o talho na despesa de investimentos de 2014 a 2017 foi enorme, ficou perto de 1,2% do PIB, uns R$ 80 bilhões. Equivale a quase dois pacotes de saques de contas inativas do FGTS, aquele dinheirinho que parece ter evitado a estagnação da economia em 2017.

Os estados grandes que mais talharam investimentos não causam surpresa: Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco. Fluminenses e pernambucanos estão entre os brasileiros que mais sofrem com a crise do emprego formal. Não foi apenas a construção que quebrou no Rio, decerto. O estado foi saqueado e destruído por uma das grandes gangues do MDB e sofreu com a ruína do setor de petróleo no Brasil.

Alguém que tenta ignorar esses elefantes e vacas mortas na sala poderá dizer que a baixa do investimento público era dada e inevitável, pois os governos vivem penúria extrema, quando não estão falidos. Gastos privados com novas instalações produtivas também seriam implausíveis, dadas a ociosidade nas empresas e a incerteza sobre o que será o Brasil de 2019.

Além do mais, haveria outros motivos, ainda obscuros, para a lerdeza. A massa de rendimentos do trabalho tem crescido mais do que as vendas do varejo e muito mais que a demanda de serviços, na verdade em queda. Mesmo quem tem emprego e renda estaria, portanto, pouco propenso a gastar.

Qual o motivo? Um chute mais ou menos informado atribui parte da retranca do consumidor a receios políticos. Outra especulação, tão ou mais razoável, explica a reticência nas compras aos fatos de que ainda há medo de perder o emprego e de que os trabalhos que surgem desde o ano passado são majoritariamente precários. Sem carteira, sem outro vínculo formal e estável: bicos, "por conta própria".

Pois bem, esta aí uma das vacas mortas na sala da economia: a recuperação lerda do emprego formal, que não reage também porque um setor grande como a construção civil ainda está no buraco

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Eleição de Trump vai prolongar crise econômica no Brasil

VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP  

A primeira onda de choque causada pelo meteorito Trump deve durar tempo bastante para ao menos retardar por um par de meses o fim da recessão.

Há outras dúvidas importantes, novas, sobre: 1) a duração do efeito Trump; 2) a capacidade do governo de aprovar contenções do gasto; 3) a capacidade do governo de criar algum estímulo ao crescimento.

Além do plano fiscal básico (teto, Previdência), o governo terá de acelerar de modo radical o programa de mudanças. Cresceu bem o risco de ficarmos encalacrados em uma espiral de lerdeza econômica, tensão sociopolítica e paralisia decisória.

Começando pela dúvida 2. Uma recuperação econômica retardada no mínimo não facilita a aprovação de mudanças socioeconômicas duras, como a da Previdência. O risco continuado de tumulto político-policial e desastres estaduais amplifica as dificuldades.

Continuando pela dúvida 1. Pode ser que o efeito inicial de Trump se dissipe assim que os donos do dinheiro grosso reordenarem suas aplicações, depois da surpresa eleitoral. Quanto tempo vai levar?

A vitória do voto pela saída do Reino Unido da União Europeia, em junho, causou duas semanas de solavancos. Comparada à vitória de Trump, é brincadeira de criança.

O dólar subiu, o que pode ser ruim para a inflação e a dívida de muita empresa. As taxas de juros de longo prazo no Brasil subiram. Sabe-se lá o que será do financiamento externo, ao qual as empresas voltavam a recorrer. Há desânimo com a possibilidade de o Banco Central acelerar a redução das "suas" taxas de juros, praticamente o único, porém lerdo, estímulo restante do crescimento.

O calendário americano e a própria biruta que é Trump criam incerteza, em si ruim, e podem estender por mais seis meses o período de solavancos.

Até o final do ano, a administração Donald Trump deve ter rostos e sentidos menos indefinidos. Até fevereiro, terá um Orçamento, seu programa de fato. Até abril, o Congresso deve ter dado uma "geral" no que passa ou não (as leis de alocação de despesas vão sendo aprovadas até outubro do ano que vem).

Enquanto isso, se vai descobrir se o novo presidente dos EUA se torna menos estrambótico ou vai ser coerente com o que disse em campanha (a coerência, assim como a coragem, não é uma virtude).

Quanto à dúvida 3, trata-se do mesmo problema notado desde quando Michel Temer lançou as linhas gerais do seu plano econômico, em maio, questão agora ainda mais urgente.

O investimento público cairá; concessões e privatizações, de infraestrutura e outras, estão quase paradas. Não fariam quase efeito em 2017, de qualquer modo -poderiam apenas dar ânimo. O plano Temer sempre foi manco quanto a crescimento.

Não há muito o que fazer agora, mas há um pouco.

Não há margem para erro ou atraso no plano de mudanças fiscais (contenção de gastos). O plano de concessões precisa de urgência radical. Limpar com urgência o entulho burocrático que emperra o investimento pode dar alguma ajuda. Ajuda que não se meta em lambança cúmplice com o Congresso, anistias e coisas assim.


O efeito não tende a ser grande no PIB. Mas estamos correndo o risco de estagnação, social e politicamente venenosa depois de três anos de recessão horrenda.
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