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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O México amedrontado

É importante que nossa sociedade conheça o assunto, pois não estamos muito distante dessa situação.
Estuda-se nas principais universidades do mundo, por professores e alunos civis, Segurança e Defesa. Os estudos envolvem todos os segmentos da sociedade civil organizada em ação de entorno da origem e desenvolvimento desse tipo de crime. São as denominadas "ameaças transnacionais" por existirem em mais de um país com características semelhantes.
Aqui em nosso país as universidades não estudam este tipo de crime por achar que Segurança é coisa de militar e de polícia, crença muito alimentada pelos veios intelectuais e acadêmicos. O problema reside na incapacidade de uma sociedade antever os movimentos dos crimes e se antecipar com as medidas apontadas por especialistas que terão como base estudos acadêmicos.
Nesse caso específico algumas das ameaças transnacionais estão em ação coligada, de acordo com a nomenclatura reconhecida tanto pela ONU como pela OEA: Narcotráfico, tráfico de armas, "maras e pandilhas".
Vale a pena acompanhar este tipo de assunto.

.O México amedrontado
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Medo, desespero e revolta - sentimentos cada vez mais comuns entre os mexicanos diante da ineficácia do governo no combate ao narcotráfico e da reação cada vez mais violenta dos criminosos - estão registrados no editorial em que o jornal El Diario, o mais importante de Ciudad Juárez, no Estado de Chihuahua, pergunta aos grupos de traficantes o que querem ver publicado em suas páginas. O editorial é mais um registro, entre tantos surgidos nos últimos tempos, da situação dramática que vive o México, por causa das baixas produzidas pela guerra contra o narcotráfico.
Desde o fim da década de 1990, com o enfraquecimento dos cartéis colombianos, os grupos criminosos mexicanos passaram a dominar o mercado de drogas dos Estados Unidos. Tão logo tomou posse no cargo, em dezembro de 2006, o presidente mexicano, Felipe Calderón, declarou guerra ao narcotráfico, nela empregando forças da Polícia Federal, do Exército e da Marinha. Apesar das prisões de alguns dos principais traficantes, os cartéis mexicanos respondem com violência cada vez maior às ações do governo.
Estima-se que, desde seu início, a guerra contra o narcotráfico já tenha provocado 35 mil mortes, não apenas de pessoas diretamente envolvidas nos combates - policiais, militares e traficantes -, mas também de civis sem nenhuma ligação com os grupos criminosos, inclusive mulheres e crianças. Pelo menos 95% dos assassinatos continuam sendo de autoria desconhecida.
O caso mais chocante foi descoberto no mês passado, quando um imigrante equatoriano - um sobrevivente da matança - revelou a execução de 72 estrangeiros que tentavam entrar ilegalmente nos Estados Unidos, entre os quais pelo menos dois brasileiros, por um grupo de traficantes conhecido por Los Zetas, que queria recrutá-los como matadores de aluguel. O crime ocorreu no Estado de Tamaulipas.
As execuções de agentes federais, os assassinatos cometidos nos últimos anos e o crescente tráfico de drogas e armas tornaram Ciudad Juárez - separada de El Paso, no Texas, pelo Rio Bravo - conhecida como "a cidade mais perigosa do mundo". Por medo de represálias dos grupos criminosos, os jornais locais, assim como parte da imprensa do resto do país, pouco têm noticiado sobre suas ações. Não é o caso de El Diario. Por isso ele se tornou alvo dos criminosos.
Na semana passada, dois repórteres fotográficos do jornal foram atacados por pistoleiros quando chegavam a um restaurante. Um deles, Luis Carlos Santiago Orozco, foi morto na hora, outro ficou gravemente ferido. Em 2008, outro profissional do jornal, o repórter policial Armando Rodríguez, fora assassinado quando saía de casa para levar a filha à escola. No ano seguinte, o policial que investigava o crime também foi assassinado. Os assassinos não foram identificados.
[ ]Di[/ ]ante do vazio de poder em Chihuahua, "não há garantias para que os cidadãos desenvolvam suas vidas e suas atividades com segurança" e o jornalismo "tornou-se uma das profissões mais perigosas", diz o jornal.
Numa crítica ao governo, o editorial do jornal reconhece que os criminosos "são, nesse momento, as autoridades de facto na cidade, porque os poderes instituídos legalmente não conseguem fazer nada para impedir que nossos companheiros continuem sendo executados", e lhes pede que digam "o que querem de nós, o que pretendem que publiquemos ou deixemos de publicar".
O governo reagiu com irritação, afirmando que não aceita nenhuma forma de trégua com o narcotráfico e que continuará a combatê-lo com o rigor possível. Quanto ao trabalho da imprensa, assegurou que qualquer agressão contra os meios de comunicação será combatida "como uma afronta à sociedade inteira e à nossa democracia". Ninguém pode duvidar das intenções do governo mexicano. Mas o fato é que mais de 30 jornalistas foram mortos desde o início da guerra contra o narcotráfico - o que torna o México um dos países mais perigosos do mundo para o trabalho jornalístico, de acordo com o Comitê para a Proteção de Jornalistas.
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A guerra do México e o Brasil

Amigos, é um assunto importantíssimo.
Recentemente antropólogos, jornalistas, cientistas políticos têm dedicado seus espaços para escrever sobre a situação da sociedade mexicana e a virtual repetição daquele flagelo em nossa sociedade.
Amigos, é necessário se insistir neste tema. É um assunto que toda a sociedade brasileira precisa conhecer e acompanhar, pois não estaremos distante disto em poucos anos.
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A guerra do México e o Brasil :: Clóvis Rossi

FOLHA DE S. PAULO

Cartéis do narcotráfico precisam ser derrotados, ou o Estado mexicano será uma estrutura falida




O texto de Gabriela Manzini, na Folha de ontem, deixa claro que a maior ameaça à liberdade de imprensa hoje, na América Latina, não é Hugo Chávez ou qualquer outro dos caudilhos que governam países da região. São os cartéis mexicanos da droga.

Chegam a impor textos por eles próprios escritos para publicação em jornais regionais, na versão delinquencial do pensamento único.

O pior é que não se trata apenas da liberdade de imprensa que está em jogo na guerra que o governo mexicano trava com o narcotráfico.

Eis o pano de fundo da batalha, na avaliação de Robert Bonner para o número julho/agosto da "Foreign Affairs":

"O México está em uma dolorosa batalha contra poderosos cartéis da droga, cujo desfecho determinará quem controla as instituições políticas, judiciais e de aplicação da lei. Decidirá se o Estado destruirá os cartéis e porá um fim à cultura da impunidade que eles criaram".

"O México poderá se tornar um país de primeiro mundo algum dia, mas jamais atingirá tal status até que quebre o garrote que essas organizações criminais exercem sobre todos os níveis de governos e fortaleça suas instituições judiciais e de aplicação da lei".

Bonner foi administrador da DEA, a agência norte-americana de combate às drogas de 1990 a 1993, e, depois, comissário de alfândega e de proteção da fronteira.

A pergunta seguinte inevitável é esta: dá para ganhar a guerra?

"Destruir os cartéis da droga não é uma tarefa impossível", responde Bonner, contrariando a sensação disseminada de que o governo está perdendo. Sensação obviamente reforçada pelo horrendo crime praticado esta semana contra imigrantes ilegais.

Mas é necessário pôr alguns números que matizam a sensação de violência disseminada e incontrolável:

1 - Noventa por cento dos homicídios envolvem membros de uma gangue matando os de outra quadrilha.

2 - A grande maioria dos homicídios ocorre em apenas 6 dos 32 Estados mexicanos, grande parte deles no Estado de Chihuahua.

3 - Pela análise de Bonner, "o aumento no número de homicídios relacionados às drogas, embora desafortunado, é um sinal de progresso".

Segundo ele, "é consequência, em parte, de ações do governo que desestabilizam os cartéis e negam a eles acesso à áreas nas quais estavam habituados a operar com completa impunidade. Como resultado, os cartéis estão começando a lutar um contra o outro".

Até aí, o lado menos sinistro, digamos. Mas há outro lado que raramente entra nos cálculos: os homicídios não são a única causa da sensação de insegurança, embora possam ser a face mais espetacular. Os brasileiros sabemos perfeitamente que o medo vem também -ou principalmente- de outras ações violentas, aí sim contra os "não combatentes", como sequestros, sequestros relâmpagos, assaltos. Ou, para ficar no mais recente exemplo paulistano, o tiroteio de quinta-feira no Pacaembu.

Se se considerar que a taxa de homicídios no Brasil (25 para cada 100 mil habitantes) quase duplica a do ensanguentado México (14 por 100 mil), os brasileiros, autoridades principalmente, deveriam prestar muito mais atenção à guerra mexicana do que o fazem hoje.
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

A tragédia mexicana

É fundamental que acompanhemos este lamentável desenrolar da desdídia social mexicana.

As maras e pandillas são guangues oficialmente consideradas como "novas ameaças" pela OEA. Eles são os braços da articulação e desdobramento e utilizam-se do tráfico de drogas, de armas e transito de imigrantes ilegais de forma sofisticadamente empresarial.

A capacidade de articulação deles é complexa e, acreditem ou não, internacional e regional, ou seja, estão presentes no sudeste dos EUA, toda a América Central, transmutam-se nas FARC´s e ELN na Colômbia e em regiões da Venezuela e, de acordo com alguns especialistas, têm intercâmbios com a nova gênese do Sendero Luminoso, grupo terrorista peruano da década de 70.

Tivemos notícias recentes de um de seus braços atuando no Paraguai onde, supreendentemente, tivemos presença do PCC.

A questão está que a gênese de suporte, existência e, até, aceitação, é a desigualdade social muito forte nos países e regiões citadas. Eles têm tecnologia e aparato para substituir o Estado onde este não está acessível ou, por eles, não é permitido.

Há, também, o tônus ideológico, notadamente em sua existência mexicana, pois foi um país de forte presença de partidos de esquerda com forte base ideológica e pouco prática sempre usando argumentos de ideais zapatistas de inclusão social, só que quando colocados nas gestões de cidades e regiões, como alcaides, pouco puderam promover de desenvolvimento acretido, até, que culpando, como sempre, "zelites" ou coisa que o valha e similar naquele país.

De toda sorte, em função de nossa idiossincrasia e por não termos tido revoluções ou guerras em nosso território que viessem a implantar a semente da desdídia, a exemplo do que ainda ocorre hoje nos Bálacans e no Oriente Médio, ainda estamos, de certa forma, imunes.  Contudo volto a ressaltar para não perdermos de vista a necessidade do Mercosul e as tendências políticas de nossos hermanos no colar sudoeste de nossa fronteira seca.

Se não tomarmos cuidado este será um perigoso  "efeito tequila" em termos de segurança pública e social.


O caderno especial México em guerra, publicado domingo neste jornal, retrata o desfalecimento das instituições de Estado dessa grande nação invadida pelos cartéis da droga. O país vive a sua mais grave crise desde a sangrenta Revolução de 1910  como relata o repórter Fausto Macedo. A contar de 2007, quando o então recém-empossado presidente Felipe Calderón decidiu militarizar o combate ao narcotráfico, com a mobilização de 50 mil soldados do Exército, as máfias da droga executaram perto de 23 mil pessoas. Quantos são os agentes públicos corrompidos pelos mafiosos não se sabe, mas também hão de se contar aos milhares.


As execuções, não raro de famílias inteiras e à luz do dia, assumem formas bestiais. O narcotráfico faz da violência mais do que uma afirmação de poder: como o terrorismo, destina-se a propagar o pânico e a desmoralizar a autoridade. Em nenhuma parte desse país, onde 11 dos 44 Estados já são dominados pelos narcos, isso é tão clamoroso como em Ciudad Juárez, de 1,3 milhão de habitantes, na fronteira com os Estados Unidos. Com 4,2 mil execuções apenas nos últimos 2 anos, ou 191 por 100 mil moradores, Juárez é considerada pela ONU a cidade mais violenta do mundo.


O governo insiste em que está no caminho certo e se gaba das apreensões de drogas, armas, valores e da captura de traficantes de alto coturno, como o líder de cartel "El Índio", por quem os Estados Unidos ofereciam recompensa de US$ 2 milhões. Mas nenhum observador imparcial dirá que o crime está acuado ou, muito menos, em declínio no México. "Apenas 1% dos bens do tráfico é confiscado", exemplifica o professor de direito Edgardo Buscaglia, um dos maiores conhecedores do assunto no país. Ele ressalta que o comércio de entorpecentes é uma entre 21 modalidades de negócios ilícitos das gangues.


Enquanto, segundo ele, o México se tornou um "paraíso patrimonial" para grupos criminosos das mais diversas procedências, há no país 982 "focos de ingovernabilidade" como os do Iraque, Afeganistão e Paquistão ? território subtraído ao controle da administração pública. Para os críticos, uma coisa e outra provam o fracasso da Iniciativa Mérida, o protocolo de segurança para o México e América Central, assinado em 2007 pelo então presidente americano, George W. Bush, com o pleno apoio do seu colega Felipe Calderón.


Pelo acordo, nos moldes do Plano Colômbia contra as Farc e a droga, os EUA deveriam investir US$ 1,4 bilhão em 3 anos para equipar e capacitar as forças mexicanas, e Calderón deveria lançar uma ofensiva sustentada contra o narcotráfico. Na realidade, o México não cumpriu ainda 77% das cláusulas do plano e os EUA só desembolsaram 21% daquele total. A questão de fundo, porém, é mais complexa do que a incapacidade do governo mexicano para tocar uma estratégia já de si polêmica ou do que a escassez de recursos liberados por Washington. Trata-se do papel dos EUA como "importador" e "exportador" dos dois produtos em que se assenta um negócio de US$ 24 bilhões por ano: drogas e armas.


Vêm do México de 60% a 90% da cocaína consumida no país, o maior mercado mundial de narcóticos. As cadeias americanas estão repletas de pequenos traficantes (em geral jovens negros), mas o uso da substância não é reprimido. "Precisamos nos concentrar no ponto da venda", diz o diretor do Instituto de Fronteira da Universidade de San Diego, David Shirk. Tão ou mais difícil será barrar o fluxo de armas made in USA para o mercado das tropas do crime no outro lado da fronteira.


Ao visitar o México logo depois da posse, o presidente Barack Obama prometeu empenhar-se na ratificação, pelo Congresso, da Convenção Interamericana contra a Fabricação e Tráfico de Armas de Fogo (Cifta). No México, esse comércio é proibido. Nas áreas de fronteira, ao norte, compra-se livremente o que se queira no gênero em qualquer supermercado. E, se depender do Senado americano, submisso ao multimilionário lobby da National Rifle Association, esse estado de coisas se perpetuará. O Cifta está na rabeira da fila dos projetos a serem examinados na Casa. Já dizia o presidente mexicano Porfírio Díaz, no século 19: "Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos."


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