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domingo, 6 de março de 2011

"Líbios estão redescobrindo o que significa ser um povo",

Hisham Matar 

"Revolução não é sobre a remoção de Gaddafi, o que está acontecendo é que os líbios estão redescobrindo o que significa ser um povo e uma sociedade", diz o escritor 
O pai do autor líbio Hisham Matar está preso há anos pelo regime de Muammar Gaddafi. Matar falou ao “Spiegel Online” sobre o futuro do seu país, o papel da Europa ao apoiar a ditadura de Gaddafi e a necessidade de verdade e reconciliação na Líbia, se o déspota cair. 

Quando os protestos na Líbia começaram, vocês montaram uma espécie de sala de notícias em seu apartamento em Londres. O que vocês estão fazendo ali? 
Hisham Matar: É uma rede de amigos, de líbios exilados. Fazemos uma dúzia de ligações por dia para a Líbia. Estamos tentando coletar, corroborar e publicar os relatos das testemunhas. Descobri que os médicos são fontes particularmente boas: estão acostumados a ter certo distanciamento emocional. 

Como está o humor entre seus amigos? 
Matar: Nos primeiros dias, houve muita ansiedade sobre o que aconteceria. Quando as coisas começaram a avançar tão rapidamente, surgiram aspirações e esperanças. Agora, a única questão que resta é quanto tempo vai levar até que Gaddafi desista –e quantas outras pessoas terão que morrer. 

Em que ponto vocês tiveram certeza de que este seria o fim de Gaddafi? 
Matar: Senti no sábado da semana passada, quando Benghazi ficou totalmente sob o controle dos manifestantes. Foi um ponto de virada, porque é a capital do Leste e tradicionalmente a parte mais politicamente ativa do país. 

A sua família fugiu da Líbia quando o senhor tinha 15 anos de idade. O senhor então se mudou para o Cairo, e daí foi para a faculdade em Londres. O seu pai, diplomata e empresário, foi sequestrado e preso pelos homens de Gaddafi em 1990. Que papel Gaddafi teve em sua vida? 
Matar: Ele roubou o meu pai de mim. Ele prendeu meus parentes, ele matou muitos dos meus amigos. Ele é meu inimigo. Contudo, pior do que minhas perdas pessoais, foi ele ter mantido todo o país atrasado e forçado o povo líbio a viver em permanente estado de loucura. Ele representa um tipo de pesadelo para a Líbia do qual estou começando a acordar. 

Um pesadelo que parecia não ter fim... 
Matar: Todo mundo ficou surpreso com os eventos, até as pessoas que passaram a vida inteira estudando a Líbia. Mas quando os protestos começaram, foi surpreendente como de fato não eram surpreendentes. Sinto nas vozes dos líbios que conheci toda minha vida. Parecem diferentes, seus pescoços livres das amarras. Gaddafi foi a pessoa sob a qual todos nós sofremos. Estamos todos unidos em nosso sofrimento sob seu regime.

O que o senhor pensou quando viu os governos ocidentais em 2003 declarando parceria com Gaddafi e seduzindo-o desde então? 
Matar: Achei asqueroso. Afinal, não estamos falando de um pobre país africano que precisa urgentemente de dinheiro líbio e faz vista grossa para a ditadura. Estamos falando sobre a Europa e os EUA, os países mais ricos da Terra. Quando começam a fazer vista grossa para essas coisas, isso abala sua fé na humanidade. 

O Ocidente estendeu a vida da ditadura? 
Matar: Não tenho dúvidas sobre isso. Mas isso torna a revolução ainda mais notável. Não havia apenas um ditador brutal com todo o dinheiro do mundo, mas ainda por cima ele tinha aprovação internacional. Ainda assim conseguimos. Isso nos dá uma profunda sensação de confiança. 

O senhor voltará para a Líbia para desempenhar um papel na nova democracia? 
Matar: Não sei. Sou escritor, e artistas enriquecem a sociedade sendo leais à sua arte, não à política. Como cidadão, posso encontrar uma forma de exercer meu papel. Estou ansioso pelo dia em que poderei rever meu país e meu povo. 

O senhor acredita que seu pai ainda vive? 
Matar: Tenho esperanças. Uma vez terminada a revolução, meu irmão e eu vamos procurá-lo. Mas neste instante não podemos fazer nada. Para muitos líbios, há uma história nacional e uma história pessoal nesses eventos. E a história pessoal tem que aguardar. 

O que vai acontecer depois? 
Matar: O que me dá esperança é a forma que o povo está se conduzindo. Rapidamente montaram comitês para administrar os suprimentos e a infra-estrutura. Quando os manifestantes capturaram 18 mercenários em Benghazi, eles os alimentaram e vestiram, deram assistência médica, colocaram seus passaportes na mesa, chamaram um advogado... 

...em vez de se vingarem. 
Matar: São essas coisas que me deixam muito esperançoso. Esta revolução não é sobre a remoção de Gaddafi, isso é apenas uma das histórias. O que está acontecendo é que os líbios estão redescobrindo o que significa ser um povo e uma sociedade. As revoluções não são sobre coisas negativas. Você não pode fazer uma revolução que é apenas para remover, aniquilar ou se livrar de alguém. Tem que ser sobre o que você quer criar. Os líbios estão tentando alcançar um ideal com o qual vêm sonhando há muito tempo. A remoção de Gaddafi é só um meio para um fim. 

O que acontecerá quando ele sair? 
Matar: O DNA do futuro da Líbia precisa estar na revolução. A natureza da revolução é pacífica, ninguém está levantando bandeiras ideológicas ou religiosas. É sobre liberdade, sobre viver com dignidade e segurança. A Líbia é um país excepcionalmente moderado, é aberto ao mundo. 

O que deve acontecer aos defensores e cúmplices do regime? 
Matar: Deve haver uma responsabilização. Mas a vingança não leva à justiça. Nunca desejei vingança, nem mesmo das pessoas que torturaram meu pai. Estou aliviado em ouvir que as outras pessoas que sofreram muito dizem que foi um regime terrível, mas que não devemos pintar todo mundo com o mesmo pincel. A Líbia vai precisar se engajar em um longo processo de cura, movido pelo desejo que isso não volte a acontecer. Nós já vimos os manifestantes recebendo os diplomatas que romperam com Gaddafi nos últimos dias. Todos nós sabemos por quanto tempo eles defenderam o ditador, mas houve muito poucas críticas. 

O senhor acha que uma comissão da verdade seria uma solução possível? 
Matar: Sim, já falei com amigos na África do Sul sobre isso. Precisamos da profundidade de engajamento intelectual e psicológico diante desta loucura nacional que a Alemanha demonstrou após Hitler. Gaddafi não é Hitler, mas a comparação com o exemplo alemão nos ajuda a entender nossa realidade. É diferente da experiência italiana, onde se livraram de Mussolini, julgaram algumas pessoas e prosseguiram. Nunca houve um confronto genuíno com a psicose italiana. 

Em seu romance “In the Country of Men” (no país dos homens), o senhor escreveu sobre uma família sob o regime de Gaddafi. Para quando podemos esperar um livro sobre a revolução? 
Matar: A arte responde muito lentamente aos eventos políticos. Pergunte-me novamente em 20 anos. 
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A VEZ DE GADDAFI

FOLHA DE S. PAULO

Ditador, que bombardeia manifestantes na tentativa de preservar poder, é novo alvo da revolta que está mudando as feições do mundo árabe

Reprimir manifestações de sua própria população com bombas lançadas de aviões e rajadas de metralhadoras disparadas de helicópteros é, até para os padrões das piores ditaduras árabes, uma sinistra inovação.

Mais recente alvo dos protestos que varrem o mundo árabe, o ditador líbio, Muammar Gaddafi, apela à violência desenfreada em busca de um desfecho diferente do de seus colegas de tirania. O número de mortos, de 300 a 500, segundo estimativas, já é maior do que o registrado no Egito e na Tunísia.

As diferenças entre a Líbia e seus vizinhos não se restringem apenas à magnitude do contra-ataque governamental.

Os 41 anos de ditadura de Gaddafi, ainda mais personalista e repressora que a média dos regimes da região, contribuíram para sufocar o florescimento de qualquer tipo de atuação política. Quando o militar de 27 anos assumiu o poder, num golpe em 1969, o país tinha apenas 18 anos de independência, sob uma monarquia. Antes, havia sido colônia italiana e, num passado mais distante, parte do Império Otomano.

A descoberta de petróleo em 1959 ajudou a Líbia a sair da pobreza extrema e tornar-se uma das nações mais ricas da África; os ganhos não se traduziram, porém, em implantação compatível de infraestrutura e avanços na institucionalização do Estado.

Agora, as defecções de militares e de diplomatas em reação aos massacres promovidos pelo governo revelam fissuras no poder. A bandeira que o país adotava antes da ascensão de Gaddafi é hasteada em embaixadas líbias por diplomatas dissidentes. Torna-se um símbolo da revolta.

A incógnita é o que se seguirá a uma possível derrubada do ditador. "Muammar Gaddafi é história, resistência, liberdade, glória, revolução", discursou o déspota ontem. É, na realidade, a personificação do Estado. Sua queda significaria a dissolução total do regime. Ainda não se conhecem forças minimamente organizadas capazes de ocupar o vácuo, como os militares no Egito.

Assim como ditadores latino-americanos manipulavam a ameaça comunista, o líder líbio, em busca de algum apoio internacional, acena com o risco dos radicalismos islâmicos. Seus apelos dificilmente serão ouvidos.
Os EUA, após ensaiarem uma aproximação com Gaddafi, passaram a criticar com veemência a situação do país. Parecem inclinados a se redimir da atuação atabalhoada que tiveram no Egito, quando sustentaram Hosni Mubarak além do que seria prudente.

O Brasil, até aqui, tem adotado discreta mas firme atitude em relação às revoltas. Mantém cautelosa distância dos eventos da região, onde não tem interesses imediatos. Ontem à noite, sob a presidência brasileira, o Conselho de Segurança das Nações Unidas cobrou "fim imediato da violência".

O mundo árabe já não será mais o mesmo. Se não é certo que as revoltas em curso levem à formação, naqueles países, de regimes plenamente democráticos, parece inevitável que algum tipo de abertura e arejamento sobrevenha.
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