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terça-feira, 22 de julho de 2014

O correto uso do papel higiênico

A sensibilidade de um imortal da Academia Brasileira de Letras que nos deixou que, de forma sutil e lírica, nos alerta para a anomia social em aceitar um totalitarismo ideológico que já nos envolve de forma, até, charmosa, como tudo que nossa esquerda sempre fez nos últimos trinta anos.
Vale a pena a leitura.

'O correto uso do papel higiênico'

João Ubaldo Ribeiro
O Estado de S.Paulo

Esta é a última crônica escrita por João Ubaldo Ribeiro, enviada na quarta-feira, 16, e que seria publicada no domingo, dia 20.

O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28%, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.

Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum Estado ou no País todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabete e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o Estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.

Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma – chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote –, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.
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domingo, 25 de maio de 2014

Ser ou não ser

JOÃO UBALDO RIBEIRO
O GLOBO 

Não parece haver, nem de longe, o entusiasmo anterior. Ninguém discute a escalação do time, ninguém pintou rua ou fachada

Acho que já tive a oportunidade de referir-me aqui às muitas glórias futebolísticas de Itaparica. Poderia estender tais glórias a diversos outros esportes, mas estes estão sujeitos a controvérsias, como a protagonizada por meu saudoso amigo Luiz Cuiuba, já lá se vai algum tempo. Em acalorada discussão no Largo da Quitanda, ele sustentou que as Olimpíadas eram uma jogada ardilosa para subverter nossos valores mais caros e, principalmente, trocar nossas lindas mulheres pelos bagulhos dos gringos. Baseado na conformação física de algumas atletas estrangeiras que vira na televisão, notadamente as campeãs de lançamento ou levantamento de pesos, ele não conseguia compreender como aquelas jamantas descomunais podiam ser o ideal olímpico. Claro que era para ludibriar a gente. Queriam convencer-nos a nos livrar de nossas mulheres, afamadas em todo o mundo pela sua excelsa formosura, e, em troca, recebermos ideais olímpicos, Deus que nos protegesse daquelas baleias parrudas, opinião esta acatada pela grande maioria dos presentes.

Portanto, para não entrar em terreno muito polêmico, fico no futebol, suficiente para render diversos volumes de histórias. Difícil é saber por onde começar. Nasceu em Itaparica, por exemplo, Chupeta, o maior jogador de futebol que os céus do Brasil jamais cobriram e ainda há testemunhas que não me deixam mentir. Foi com um time itaparicano que ocorreu um evento singular, já lembrado aqui, mas merecedor de nova menção. Num jogo, se não me engano, contra uma agremiação de Maragogipe, Vavá Paparrão fraturou a perna em dois lugares, mas só notou depois que o jogo acabou e o sangue esfriou. Finado Nascimento, respeitado no futebol e na clarineta, era o juiz de maior autoridade no Recôncavo e grande disciplinador, chegando a aplicar cascudos em certos atletas de conduta particularmente reprovável.

Em matéria tática, houve muitas inovações na ilha, que não foram à frente por uma série de circunstâncias. Assim ocorreu com o esquema bolado pelo técnico e cartola Júlio Perrengue, o injustiçado 10-10, que nunca foi adotado por ninguém, mas devia ter tido uma oportunidade. Júlio me explicou uma vez que o esquema dele consistia em fazer os dez jogadores de campo saírem de bolo para cima do adversário, arreganhando os dentes e dando gritos de guerra, assim infundindo terror nas hostes opositoras. Menção se faça, outrossim, a avanços notáveis que, por falta de marketing, se perderam, entre eles o jogo eólico, que consistia em usar os ventos do dia em proveito do time. Antigamente, isso era feito com a ajuda de um mestre de saveiros conhecedor íntimo dos ventos e das virações, mas hoje deve ser programável para computadores. Por exemplo, o jogador sabe que, naquele instante, o vento forte tal ou qual vai soprar e aí cobra o escanteio conforme o dito vento, é uma coisa altamente científica, que a ilha já praticava em priscas eras.

Nas Copas, como em todos os eventos que envolvem a nacionalidade, nossa participação nunca faltou. A de 1950 foi trágica, com gente passando mal, revolta ou até rompimento com os santos e outros eventos traumáticos, até hoje recordados pelos mais antigos. A de 1954 não valeu, por causa de Mr. Ellis, um juiz inglês, cujo nome nunca esqueci, vastamente denunciado como ladrão pelos narradores e comentaristas e responsável claro pelos quatro a dois que a Hungria nos aplicou. Houve pancadaria no estádio, durante e depois do jogo, e vários conterrâneos se ofereceram para combater na guerra que viria, contra a Inglaterra, a Hungria, as duas juntas ou quem lá fosse, pois que nunca corremos de guerra.

Na nossa primeira Copa, em 1958, lançamos aos ares a campanha Seca Lidirrólmi para a final. Lidirrólmi, na pronúncia local, era Liedholm, artilheiro da Suécia que fez o primeiro gol do jogo contra o Brasil. O brado “seca Lidirrólmi!” prorrompeu do Jardim do Forte e rasgou as nuvens por sobre todo o Recôncavo. Jamais alguém havia sido secado daquela forma tão unânime e simultânea. Vozes despeitadas podem negar, mas o fato é que Lidirrólmi não fez mais gol nenhum, e, naquele dia inesquecível, como sabemos, o time dele perdeu de cinco a dois.

Desta feita, contudo, não parece haver, nem de longe, o entusiasmo anterior. Ninguém discute a escalação do time, ninguém pintou rua ou fachada, ninguém comprou bandeira nova para pendurar em cima da varanda. Que estaria acontecendo? O patriotismo que parecia ser parte indissociável do DNA itaparicano foi atacado por algum vírus destrutivo? Graves questões, acompanhadas do pressentimento de que o mundo vai acabar, ou qualquer coisa assim. E mais lenha foi lançada à fogueira depois do pronunciamento de Zecamunista. O festejado líder subversivo voltou, como sempre vitorioso, de um concorrido torneio de pôquer em Ipiaú e, ao chegar ao Bar de Espanha e ver que se falava sobre a Copa, começou um imediato discurso em que afirmou que era dever de todo patriota brasileiro ser contra a Copa.

— Nós vamos organizar uma grande manifestação, uma passeata geral! — disse ele, com o punho no ar. — Essa Copa não é nossa, é deles! O povo da ilha sairá em peso às ruas para protestar!

E, segundo ele me informou ao telefone, a coisa ficou séria e a ideia da passeata recebeu a adesão de praticamente toda a ilha.

— Mas agora eu tenho de desligar, não posso perder a reunião da organização da passeata, que vai ser daqui a pouquinho.

— Eu pensei que já estava tudo organizado.

— Mas não está — disse ele. — Eu descobri que temos que mudar a hora da passeata para todo mundo ter tempo de ver o jogo.

domingo, 6 de abril de 2014

As coisas mudam

JOÃO UBALDO RIBEIRO
O GLOBO  

Um alemão me perguntou se adotamos toque de recolher nas grandes cidades, após o qual todo mundo se tranca e só sai de ambulância, camburão ou tanque

O título de hoje faz uma afirmação não muito original, mas inevitável. Não estou mais em Paris desta vez e, sim, em Berlim, cidade onde já morei e aonde volto sempre que posso, porque é das minhas duas ou três preferidas e vale muito a pena ser visitada. Quando o muro caiu, eu morava aqui. Um dos comentários mais frequentes entre os visitantes costumeiros era de que aqui, como em outras capitais europeias, a cidade já estava pronta. Ao contrário do Brasil, onde tudo parecia mudar de nome, endereço ou aparência, depois de uns poucos meses de ausência, aqui tudo estava no lugarzinho de sempre, desde o monumento grandioso à lojinha na esquina da Nürnbergerstrasse.

Não mais. É um escândalo. Espero que, quando fizer minha indispensável revisita ao Zoológico, ainda o encontre lá, com a mesma aparência e no mesmo lugar, até porque não deve ser fácil carregar elefantes e hipopótamos de lá para cá. Claro, era de se antecipar que, com a unificação da Alemanha, a cidade fosse mudar, mas isto me aparece um abuso. O restaurantezinho de nome italiano que ficava a poucos metros daqui virou uma espécie de antro ameaçador, em que dá um certo medo de entrar. Fechou até — acreditem! — aquele restaurante ótimo do EuropaCenter, na sobreloja, onde as garçonetes eram simpaticíssimas, falavam todas as línguas e conseguiam adaptar ao freguês todos os pratos do menu. Muito inquietante.

Mas não somente a aparência de Berlim mudou. Do ponto de vista brasileiro, agora há também notáveis diferenças. Não vim fazer palestras ou leituras desta feita, vim para bater perna mesmo, de maneira que não encontro plateias curiosas sobre nós, como de outras vezes. Parecem jazer no passado os tempos épicos em que eu era obrigado a discutir os índios que frequentavam nossos quintais no Rio de Janeiro e ser tido como deslavado mentiroso, por responder que não conhecia a Amazônia. Mas, se não há plateias para fazer perguntas interessantes, há sempre com quem trocar umas palavrinhas, sobretudo com motoristas de táxi, meus preferidos. Faz pouco tempo, o Brasil era lembrado com entusiasmo e admiração e Lula era frequentemente citado quase no mesmo tom.

Deve ser a Copa. Não sei que assombrações podem estar sendo divulgadas na imprensa, mas agora não se referem mais, com os olhos acesos, aos traseiros de nossas mulheres e a seu temperamento tão dadivoso, amplamente apregoados pelas agências de viagem, nem mesmo lembram o sol e o carnaval, nem mesmo cantam “ai, se eu te pego”. Agora querem saber se não vão ser assaltados dentro do hotel. Não fiz uma pesquisa de opinião, mas, pelo que ouvi, especialmente de Helmut, a quem já lhes apresento, a preocupação é essa. Em algumas coisas, mesmo os mais pessimistas têm dificuldade em acreditar, como os arrastões em restaurantes, mas do resto eles têm medo. Um deles chegou a me perguntar se adotamos um toque de recolher nas nossas grandes cidades, após o qual todo mundo se tranca a sete chaves e só sai de ambulância, camburão ou tanque do Exército, porque já viram pela televisão tropas de combate nos centros urbanos, do mesmo jeito que no Afeganistão ou na Síria.

Helmut, nome fictício que empresto a um motorista de táxi amigo meu, que faz ponto numa transversal do Ku’damm (e continua lá, Deus é grande), estava com planos de comparecer à Copa, mas agora se encontra meio dividido. A violência, contudo, não é o principal fator de sua dúvida, antes pelo contrário. Não temos grande intimidade, mas agora me ocorre que ele leva uma forte parecença com Peter Lorre, no papel do Vampiro de Dusseldorf. De qualquer forma, tivemos um diálogo digno de nota, enquanto eu procurava a lojinha onde costumava comprar bagulhinhos para levar de lembrança ao Brasil e que também sumiu.

— Eu vi outra coisa interessante sobre o Brasil, na televisão — disse ele. —Sempre vejo coisas interessantes sobre o Brasil. Nesta eu não acreditei muito, mas talvez você possa me dizer se é verdade.

— Qualquer coisa que se diga sobre o Brasil pode ser verdade, Helmut, você já deve saber disto.

— É, eu sei, mas isto... Bem, é o seguinte. Eu vi que o sujeito pode matar a mulher em casa, se arrumar, sair para dar parte na polícia, confessar, assinar um papel e voltar para casa na hora, sem problema, é isso mesmo?

— Não, que é isso, também não é assim.

— Ah, foi o que eu pensei. É porque tudo estava contado com detalhes e eu até vi as caras de uns dois que fizeram isso.

— Bem, a verdade é que pode acontecer. A lei brasileira é muito moderna. Mas não se mata tanto assim. Nesses casos mesmo, é porque o assassino não foi preso em flagrante, é réu primário e tem domicílio conhecido. Mas não fica impune, é processado depois. E, se for condenado, vai para a cadeia, como em qualquer outro lugar.

— Nessa reportagem, eles diziam isso. Mas ainda nenhum deles tinha sido condenado.

— É, demora um pouco.

— Muitos anos?

— Sim, a depender do caso, dos advogados e assim por diante.

— Grande país — disse Helmut.

— Como assim?

— Agora estou pensando em acabar minha velhice por lá. Sem aquela... Sem minha mulher, vai ser muito divertido — concluiu ele, com uma risadinha meio vampiro de Dusseldorf.

domingo, 20 de outubro de 2013

Um passeio no Zoológico

 JOÃO UBALDO RIBEIRO
O GLOBO


Temos também esses parques em grandes cidades brasileiras, mas com animais praticamente torturados e sujeitos a condições acabrunhantes


Não há motivo para pânico ainda, mas talvez para certa inquietação. Em muitas lojas, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais aqui de Berlim, estampa-se, em local visível, um peremptório aviso aos fregueses: não se aceitam, sob nenhum pretexto, notas de quinhentos euros. Nas lojas onde não postam o aviso, quem tenta usar uma nota dessas recebe um olhar suspeitíssimo, se sente um Al Capone e fica com medo de que chamem a polícia. A loja prefere receber de volta a mercadoria escolhida a sequer tocar na nota maldita, não adianta insistir. Nas grandes lojas, os caixas também fazem um ar de extrema desconfiança, mas, quando a venda vale a pena, pegam a nota como se ela estivesse contaminada por uma bactéria mortífera e a levam para um exame pericial. Já devem ter inventado uma máquina especializada nesse serviço, porque o exame leva pouco tempo e se declara um alívio geral, quase festivo, quando o funcionário volta depois da perícia, já segurando a nota com o carinho devido a quinhentos euros legítimos. Suspiros, sorrisos e manifestações quase festivas se seguem, uma verdadeira confraternização internacional.

Já tomei vários sustos, pois, como lhes disse uma vez, carrego o infortúnio de ter a cara errada em toda parte. Nos Estados Unidos, tenho cara de cucaracha e, em formulários que patenteiam a obsessão racial americana, sou classificado como “hispânico”, lembrete para que não fique me achando branco, porque lá branco é uma coisa e hispânico, mesmo se louro de olhos azuis, é uma das três “raças” mais comuns, distinta de African Americans e de brancos. Devo ser a cara de Evo Morales e suponho que dou sorte em não me acharem descendente de negros africanos, porque a barra para estes, como sabemos, costuma ser mais pesadinha do que para hispânicos. E, quando não sou hispânico, creio que minha cara é de árabe, o que certamente já foi responsável por episódios pouco gloriosos em minha movimentada existência, como no dia em que, no aeroporto de Chicago, decidiram que minha aparência se encaixava num tal perfil do terrorista que na época usavam e me fizeram um checape minucioso, antes de me liberarem com o que me pareceu alguma relutância. E também houve um dia, no aeroporto de Atlanta, em que me retiraram da fila que já estava à entrada daquele canudo pelo qual se faz o embarque no avião para me revistarem, com direito a ter o traseiro fuçado por um cachorro, que, por sinal, demorou um pouco para dar seu veredito, me deixando com temor de ser enviado imediatamente para a prisão de Obama, em Guantánamo.

Na França, também tenho cara de árabe e na Espanha, como nos Estados Unidos, tenho cara de hispânico, ou seja, imigrante de alguma ex-colônia espanhola, que não costuma (ou não costumava, antes de a crise econômica bater por lá, fazendo com que os trocados gastos pelos turistas da América do Sul abafem momentaneamente o antagonismo) ser recebido de braços abertos. Em Portugal, tenho cara e fala de brasileiro e os funcionários da Imigração não costumam responder ao bom-dia jovial com que manifesto meu contentamento em estar de volta à terrinha. Uma vez, tentando caracterizar-me como grande amigo do país, apontei para minha comenda portuguesa, orgulhosamente espetada na lapela, e me veio a impressão momentânea de que aquele esbirro de maus bofes ia pedir meu encarceramento e deportação como impostor. Na Alemanha, tenho cara de turco. E cara de nordestino no Brasil, o que, como se noticia de vez em quando, pode render-me até linchamento. É duro.

É duro, mas, mesmo com este meu aspecto de cúmplice da quadrilha responsável pela falsificação de notas de quinhentos euros, Berlim continua a ser uma das cidades mais fascinantes do mundo. Ao contrário dos estereótipos que, no Brasil, alimentamos sobre os alemães, a cidade é alegre e gentil, aberta e hospitaleira, tanto quanto uma grande cidade pode ser. Em uma mercearia da Kantstrasse, é possível até comprar farinha de Feira de Santana, ou todos os ingredientes para uma feijoada. Ou, se não se puder fazer a feijoada pessoalmente, achar um restaurante que a sirva. Não descarto nem mesmo uma moquequinha, ou um tabuleiro de baiana na Breitscheidplatz. Entre museus, exposições, concertos, performances especiais, livrarias, restaurantes de todos os tipos e categorias e uma pulsação que não cessa dia e noite, é difícil escolher e achar tempo para ver e experimentar tanta coisa.

De minha parte, não dispenso a visita de sempre ao Zoológico, que não ouso descrever, porque não me considero capaz. Na entrada, topei novamente com um grupo de crianças, percorrendo tudo na companhia de uma professora. Ir ao Zoológico, assim como a museus e correlatos, é considerado uma importante ação educativa. Um bom Jardim Zoológico faz parte da educação que todos devemos dar à juventude e me vi, mais uma vez, encantado com o que se apreende e compreende por lá, abrindo a cabeça para o muito deste mundo cujo conhecimento nos é necessário e indispensável. E aí observei, mais uma vez, como as coisas são relativas. Temos também zoológicos em grandes cidades brasileiras, mas o estado em que no geral são mantidos, com animais praticamente torturados e sujeitos a condições acabrunhantes, como acontece no Rio de Janeiro, não é educativo, antes muitíssimo pelo contrário. O que em Berlim educa, no Brasil deseduca. Não estou propondo que se gaste dinheiro com a reabilitação dos zoológicos brasileiros, temos outras prioridades. Mas sugiro que os eliminemos, enquanto forem chiqueiros infectos e cruéis, porque, do jeito em que estão, são muito danosos à educação dos jovens e do povo em geral. Já não gastamos o necessário com a educação. Então pelo menos paremos de gastar com a deseducação e a promoção da insensibilidade. Mas não aposto nem uma nota de quinhentos euros que isto venha a acontecer.
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domingo, 21 de julho de 2013

O fantasma da órfã



JOÃO UBALDO RIBEIRO
O GLOBO 

A propalada truculência da presidente está virando folclore e em lugar de força, mais parece denunciar exasperação impotente


Atribuem ao presidente Kennedy a observação de que a vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã. Melancólica verdade, sobretudo na política, que sempre a confirma sem perdão, bastando ver como as mãos políticas que hoje afagam são as mesmas que ontem apedrejavam e vice-versa. Em nosso caso, temos ainda uma tradição de adesismo por que zelar, bem como a prevalência do Sonho Brasileiro, que é descolar uma mamata vitalícia em algum lugar do governo ou do estado, porque aqui governo e estado são a mesma coisa. Entra um governo novo e declara “o estado é nosso e só faz o que nós queremos”. Isso torna impossível a realização do sonho sem que o sonhador abandone o inditoso derrotado e passe para o lado do futuroso vencedor. Suponho que devemos encarar essas coisas com compreensão e até caridade, pois o pessoal está apenas querendo sobreviver e subir na vida, é natural.

Vários outros princípios e paradigmas de conduta estão também envolvidos na questão, entre os quais sobressai o “farinha pouca, meu pirão primeiro”, farol ético que parece nortear nossa formação coletiva, tal o vigor com que se evidencia no comportamento de nossos governantes. Às vezes penso que a frase devia constar de algum emblema nacional, é muito injusto que não receba o reconhecimento merecido. No momento, a farinha ainda não está propriamente pouca, mas há sempre os previdentes, que não querem deixar seu pirão aos cuidados do acaso. Melhor tratar de farejar os ares e descortinar por onde anda a temível assombração da derrota, para ir-se afastando dela quanto antes. Não sei se já começou a debandada, mas acho que pelo menos há alguns sinais dela, difusos nos noticiários e comentários políticos.

O moral do governo não parece andar muito alto. O saco de gatos dos ministérios é um espetáculo triste, desanimado, desarvorado e sem aparentar saber muito para onde ir, ou o que fazer. Ninguém — arrisco-me a dizer que nem mesmo a presidente — é capaz de lembrar todos os ministérios e muito menos todos os ministros. Sabe-se que muitos destes se esgueiram obscuramente pelos corredores e salas dos fundos do poder, sem sequer terem a chance de dar um bom-dia à presidente, quanto mais de despachar alguma coisa. Fica aquela pasmaceira, interrompida por momentos de falatório vago e repetitivo, que não prenunciam nada de importante. E há, seguramente, ministros que, se perguntados de surpresa, não saberão bem o que fazem suas pastas, acrescido o pormenor de que vários ministérios, ou grande parte deles, não fazem nada mesmo, a não ser dar despesa.

A reação às manifestações de rua mostrou um esforço atarantado para manter a aparência de calma, equilíbrio e controle da situação, quando era visível que não havia nada disso e estava todo mundo de olho arregalado e sem saber o que dizer ou, pior ainda, fazer. Comentou-se em toda parte que, como já teria acontecido antes com frequência, a presidente peregrinou ao ex-presidente, para saber dele como agir, porque ela mesma não fazia ideia, o que vem sublinhando a imagem de despreparo e insegurança mal articulada que ela cada vez mais projeta. Ouvidos também os vizires do momento, saiu do Planalto uma voz chocha e pouco inspiradora, naquele tom de professora repetindo uma aula decorada a contragosto e sem nenhum entusiasmo ou até confiança, propondo absurdos, tentando espertezas quase amadorísticas e, em última análise, mostrando a incompetência do esquema que a rodeia.

A tal governabilidade, que tanto mal tem produzido, tão pouco bem tem causado e nunca funcionou direito, servindo basicamente para o intricado jogo das nomeações, colocações, favores e outros objetivos dos nossos homens públicos, está cada vez mais caindo pelas tabelas. Todo dia um cai fora, outro proclama dissidência e independência, formam-se alas e subalas, o rebuliço surdinado é grande. A turma da base aliada, que sempre deu trabalho e aporrinhação e nunca agiu pelos belos olhos da nação, começa a enxergar um governo fraco e a querer distância dele, ainda mais com as ruas pressionando. A corte continua lá, o ex-presidente continua lá, mas é de se acreditar que, de agora em diante, a solidão da presidente vai agravar-se.

A inflação está voltando e as negativas e bravatas das autoridades não convencem, diante da realidade dos preços. As declarações otimistas do ministro da Fazenda são recebidas quase com deboche. O crescimento é minguado, e a economia cambaleia cada vez mais e o governo caracteriza seu comportamento por ações meramente conjunturais e pontuais, respondendo de forma superficial e casuística aos problemas que aparecem. Os índices de popularidade da presidente desabaram e mesmo um antes improvável segundo turno nas eleições já está sendo previsto. Até uma surpreendente vaia de prefeitos ela tomou em Brasília. Tudo isso com certeza provoca inquietude na alma e comichões nos pés de quem quer ficar longe da órfã derrota.

Para completar o quadro, o governo não dispõe de um Big Bang para apresentar, no encerramento destes seus quatro anos. Nenhuma grande obra, nenhum grande passo, nenhum grande marco. Inflação subindo, PIB baixando, educação alarmante, saúde escangalhada, infraestrutura desmantelada, transporte urbano infernal, segurança pública impotente, estrutura fiscal pervertida, ferrovia Norte-Sul em descalabro, transposição do São Francisco roubada e sucateada — nada a apresentar, nada a trombetear, nada a comemorar. A propalada truculência da presidente está virando folclore e em lugar de força, mais parece denunciar exasperação impotente. Cara de derrota para o governo e ninguém vai querer ser o pai dela. Mas receio que não terão dificuldade em apontar a mãe.
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domingo, 21 de outubro de 2012

A zelite


JOÃO UBALDO RIBEIRO
O Estado de S.Paulo



Vejamos aqui, que novidades há, neste que espero ser um domingo ensolarado e ameno, em que o distinto leitor e a cativante leitora (cartas sobre como estas designações são machistas devem, por caridade, ser encaminhadas ao editor) possam tirar muito proveito do que ainda nos dadiva a Natureza? Não muitas, acho eu. Talvez as novidades mesmo estejam nas páginas de medicina ou ciência dos jornais, onde sempre anunciam o sensacional estudo que desmente outro sensacional estudo de anos atrás, como acontece principalmente em relação a alimentos. A notícia mais recente, se não me trai outra vez a vil memória, é a respeito do camarão. Parece que aboliram a vingança do camarão. A vingança do camarão estava em que o freguês podia comê-lo, mas, em compensação, o colesterol entrava em órbita. Agora não mais, pelo menos até realizarem novo estudo. Periodicamente, a verdade científica vira mentira e, pensando bem, não há grandes novidades nem nas páginas de ciência.

E, infelizmente, não são tampouco grande novidade os acontecimentos terrificantes em hospitais. De cabeça, lembro agora o da senhora que mataram, injetando-lhe café com leite na veia. Anteriormente, em outro hospital, um paciente morreu, após lhe darem sopa também por via endovenosa. Mataram um terceiro, trocando por glicerina o soro que receberia. Administraram a recém-nascidos remédio contra verrugas por via oral, causando lesões horrendas e permanentes. Amputaram por engano o braço de um bebê. E, como é de nossa prática de povo cordial, tolerante e compreensivo, não vai haver responsáveis em qualquer desses casos e de inúmeros outros como eles, muito menos reparação para as vítimas. Nenhuma novidade.

No setor das grandes questões nacionais, o julgamento do mensalão se aproxima do fim, grande parte do suspense inicial já se foi e agora o que se espera é, no interessante dizer do comentarista que escutei no rádio de um táxi, a customização das penas, ou seja, a definição das punições que receberá cada um dos réus condenados, por sinistro desígnio da zelite. Acho difícil haver um problema que não tenha sido causado pela ação da zelite, é um grande achado. E talvez nele esteja, afinal, uma novidade. Não muito importante, quiçá, mas, na falta de outra, quebra o galho. Creio que já podemos cogitar da inclusão de "zelite" nos dicionários como mais um coletivo da lavra popular, com a observação de que por enquanto leva o predicado ao plural, mas no futuro talvez perca essa peculiaridade. Acredito que logo estaremos dizendo coisas como "a zelite não vai aceitar" ou "ele pertence à zelite paulista". Não deixa de ser uma contribuição ao vocabulário da perseguida língua portuguesa.

Resta, porém, definir direito o que é zelite. Não é muito fácil, pelo menos para quem acompanha o noticiário brasileiro. Por enquanto, lembra um pouco o que sucede com a palavra "democracia" e cognatas. Qualquer regime - e tem sido assim em toda a História contemporânea - pode apregoar ser uma democracia. A Alemanha Oriental era a República Democrática Alemã e a Coreia do Norte é oficialmente a República Democrática Popular da Coreia. Fenômeno semelhante acontece com a zelite, na direção oposta. É desejável ser democrático e é odioso ser da zelite; elogia-se com o primeiro e xinga-se com a segunda.

Além disso, a zelite vem desempenhando um papel comparável ao dos comunistas de antigamente. No Brasil, com a notável exceção de Oscar Niemeyer e Zecamunista, sofremos de uma lastimável escassez de comunistas sobre os quais fazer recair a culpa de tudo o que diabo apronta. Os comunistas, como testemunharão os mais velhos, tinham muita serventia e até moças de conduta avançadex, como se dizia, eram fruto da doutrinação dos comunistas. A zelite e seu braço direito, a imprensa venal, corrupta e a serviço de interesses tenebrosos, vêm preenchendo essa lacuna, tão aflitiva para quem não tem nada de substancial a dizer em sua defesa, a não ser, talvez, o inconfessável.

Mas que diabo é a zelite? Sabemos que a palavra vem de "elite". No caso, elite política e econômica. Imagina-se que a elite política seja composta por quem está no poder. Presidente da República é zelite política, assim como os que exercem alguma fatia do poder. Que outro critério haveria? Ou a elite política está diretamente no governo ou o exerce mediante fantoches e paus-mandados, caso em que, ao denunciar a zelite, estaria denunciando a si mesma. Qual a zelite que se opõe aos que estão no poder? A zelite financeira está com eles, os bancos prosperando e ganhando dinheiro como nunca, como já comentou o próprio ex-presidente Lula. A zelite empresarial também não parece descontente, a não ser quanto a um ponto ocasional ou outro. A zelite das empreiteiras, então, nem se fala. A zelite artístico-intelectual, além de não ter poder concreto para nada, não costuma pensar uniformemente. Não me ocorre nenhuma outra zelite à qual se possa atribuir a culpa dos infortúnios enfrentados pelos réus do mensalão. Quem aprontou a trapalhada foram eles, mas a culpa não é do despreparo e dos erros deles, é da zelite.

A palavra já cria raízes em nossa terminologia política e, ao que tudo indica, terá vida longa, porque serve para fingir que se está explicando alguma coisa. Foi pegado com a boca na botija ou mentindo deslavadamente, os planos deram errado? Distribua uma nota ou faça um discurso, mostrando como a responsável é a zelite. O pessoal ganha, chega ao poder já pela terceira vez, está no topo da zelite governante e, no entanto, a zelite, até mesmo através do voto, fica atrapalhando. É por essas e outras que dá vontade de arrolhar a zelite e sua imprensa e estabelecer aqui uma verdadeira democracia, igual à da Coreia do Norte.
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domingo, 1 de abril de 2012

O jumentinho de Nosso Senhor - João Ubaldo

 JOÃO UBALDO RIBEIRO

O Estado de S.Paulo 


Hoje é Domingo de Ramos e me lembrei de estampas dos livros de minha infância, mostrando Jesus entrando em Jerusalém, cercado por folhas de palmeiras agitadas pelo povo e montado num jeguinho. Nos presépios era também frequente a figura de um jeguinho ao canto, assim como nas cenas que mostravam a fuga da Sagrada Família para o Egito. Animal tido pelos mais velhos, no Nordeste, como abençoado, não só ajudou e transportou o Senhor e a Sagrada Família, como recebeu a graça de portar na cernelha uma cruz de pelagem mais escura, que testemunha o afeto que lhe tinha o Cristo. Não há jeguinho sem essa cruz nas costas - e essa cruz também simboliza o trabalho duro que lhe cabe em seus mais ou menos 50 anos de existência, trabalho que faz sem se rebelar, sem ficar doente, sem exigir trato, nem mesmo alimento, pois come qualquer capim ou mato e até mesmo caixas de papelão, se não achar mais nada.

Na cidade grande, creio que pouca gente sabe o que é um jegue. Sabe-se que é parecido com um cavalo e pode ser denominado indiferentemente de jumento, asno, burro, jerico e outros nomes, todos para nós insultuosos, seguindo a prática humana, que talvez revele muito de nossa natureza, de considerar xingamento ser chamado pelos nomes de animais amigos ou úteis, como cachorro, vaca ou galinha, e achar elogio receber apelidos de feras ou predadores, como tigre, águia ou raposa. Na verdade, a designação "burro" devia ser reservada ao híbrido macho resultante do acasalamento entre um jumento e uma égua, que não são da mesma espécie. Quando nasce uma fêmea, o nome que lhe é dado é "mula". Mas parece que isso vem caindo em desuso, de maneira que, para muita gente, jegue e burro são a mesma coisa.

E o jegue continua a levar fama de pouco inteligente e de temperamento abrutalhado. Maior injustiça não pode haver, é exatamente o contrário. Os jeguinhos desde cedo aprendem seu trabalho, seja levando carga para cima e para baixo, seja até mesmo servindo de "motor" para moagem de dendê, andando em círculos, atado a uma roda de moinho, o dia inteiro. No tempo em que água encanada era difícil em Itaparica, a distribuição da água potável era feita em barricas transportadas em lombo de jegue. Os jeguinhos, que sabiam o caminho de casa e os da freguesia, sustentaram incontáveis famílias de aguadeiros sem dar um tostão de despesa, e tem gente que hoje é doutor de anel no dedo graças ao trabalho deles.

Quanto ao temperamento, costuma ser dócil e amistoso. Conhece o dono e a família do dono e não repele os estranhos em quem não sente ameaça. Pelo contrário, gosta de carinho e é muito agradável, para o tato e os sentimentos, afagar a pelagem aveludada do pescoço de um jumentinho, enquanto se nota que ele recebe o agrado com prazer e apenas não sabe falar. Assim como corta o coração ver, como eu já vi muito na infância, um jeguinho de cabeça baixa, às vezes meio derreado embaixo de uma árvore, a boca entreaberta, volta e meia deixando escorrer uma babazinha. É dor de dente. Deram rapadura a ele, que ele adora como todo mundo, e aí apareceram cáries. Não tinha jeito, não havia como ajudar, mas o jegue, coitadinho, de fato só faltava mostrar à gente o dente que doía.

Não existe perfeição e ele pode ter seus defeitos. De vez em quando, a troco de nada, um jegue perfeitamente ordeiro e cumpridor de seus deveres resolve empacar e a única maneira de fazê-lo ir adiante é levantá-lo com uma retroescavadeira. Ou a maldade de fazer fogo debaixo dele. Não gosta, no que, aliás, não lhe tiro a razão, de passar por pontes, principalmente dessas mais precárias ou altas. Embora raramente, não está acima de dar um coice ou mordida, mas costuma ser em legítima defesa, ou durante uma disputa amorosa.

Apesar de sua inestimável folha de serviços, o jegue não tem o respeito e a estima das novas gerações, pois que, além de tudo, é tecnologia antiga. Ninguém quer mais saber de jegues e agora, naturalmente, todo mundo anda de moto. Os barulhinhos do campo e do mato não virão mais dos passarinhos, do vento nas copas da árvores, dos estalidos dos galhos secos, do farfalho das folhas levantadas pela corrida de um bicho espaventado. Serão barulhos do progresso, escapamento de motos, aceleradas destemidas, curvas audazes. E o cheiro não será o de um curral leiteiro ou da terra molhada pela chuva, será de gasolina, assim como o nevoeiro não se formará entre as nuvens e o horizonte, mas se evolará de canos de descarga fumacentos.

Não há o que fazer, é o progresso. Tudo conspira contra o jumento, nada a seu favor. Até o fato de trabalhar de graça e praticamente não ter custos o prejudica, essas coisas de graça não são boas para a economia. As motos dão escoamento à produção um importante complexo industrial, geram consumo em muitas outras áreas, criam empregos e assim por diante. Nenhum maluco vai comparar um jegue a uma moto, embora eu espere que ninguém venha a pretender modernizar a Bíblia para jovens leitores, fazendo Jesus entrar de moto em Jerusalém, neste caso acho que deve predominar a tradição.

Mas o jegue continua a ajudar. O Brasil está fechando contrato para exportar para a China, num programa chamado Projegue, 300 mil jegues por ano, para serem abatidos, comidos e usados por indústrias de cosméticos. O jeguinho mais uma vez presta serviço, desta feita com a vida. E não mais para sustentar gente, mas para enricá-la. Para mim, comer jumento é uma espécie de canibalismo. Sei que isso pode soar como exagero piegas e talvez seja mesmo. Mas é que é Domingos de Ramos e lembrei os jeguinhos de minha infância, principalmente o jumentinho de Nosso Senhor.
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domingo, 25 de março de 2012

A visita de Zecamunista

 JOÃO UBALDO RIBEIRO

O ESTADÃO 

Relutei em voltar a falar em Zecamunista pela terceira vez em pouco tempo, mas os pedidos foram muitos em toda a vizinhança, que ele visitou brevemente, nos três dias de sua estada no Rio de Janeiro. Revolucionário de um lado e profissional do pôquer de outro, desde seus precoces 14 anos, habituou-se à clandestinidade, a codinomes, endereços secretos e disfarces dos mais variados, de maneira que, segundo ele, o primeiro impulso que sente ao despertar é se esconder da repressão. Só depois de um minuto ou dois, ele acorda de vez, suspira aliviado e canta a Internacional em voz alta, ritual cotidiano. Entre seus disfarces, o mais célebre e sempre lembrado na ilha é do tempo em que ele, ainda bem antes dos 14, fazia sucesso com mágicas de baralho em todo o Recôncavo, de turbante e usando o nome artístico de Abdul Saladim, em alusão a suas origens árabes. Daí para o pôquer foi um pulo e rendam graças aos céus os jogadores de pôquer do Rio por ele ter vindo por motivos estritamente políticos e, como sempre, subversivos.

A pedido dele, fui encontrá-lo na orla, ainda de manhã bem cedo. Ele me esperava de óculos escuros e chapéu enterrado na cabeça, contemplando o mar e usando seu inseparável brochinho da foice e martelo na lapela.

- Mas isto aqui é a paisagem mais linda do mundo - disse ele, com a voz um pouco embargada. - Nem em toda a União Soviética se encontrava uma paisagem que rivalizasse com esta. Nem em Itaparica, a verdade é esta. Até o nome é bom.

- Rio de Janeiro?

- Gua-na-ba-ra, a gente enche a boca. Você sabe o que quer dizer Guanabara em tupi-guarani?

- Eu li não sei onde que quer dizer "baía grande".

- Errado! Ignorância! Alienação! Os índios nem sabiam o que era baía, quanto mais se era grande ou pequena, eles só conheciam esta. A interpretação certa é "seio-mar", isso sim, faz justiça a esta baía extraordinária. Um grande peitão marítimo, um grande, farto e acolhedor regaço feminino! Você não acha que a Baía de Guanabara tem a forma de um peitão, o Grande Peitão?

- Bem, sinceramente, eu já olhei no mapa e nunca me pareceu isso.

- Os índios não tinham Google, para eles era um peitão! Olhada daqui é um peitão absoluto, o Grande Peitão, um peitão magnífico e arrebatador, como somente a carioc... Você reuniu algumas candidatas a se alistar na ala feminina dos Bem-te-vis da Pátria?

- Bem, eu devo confessar que não tenho muito jeito para isso.

- Eu já esperava, você não presta nem como linha auxiliar, nem como inocente útil você tem serventia.

- Eu falei com algumas amigas, mas a verdade é que elas ficaram um pouco desconfiadas do exame que você quer fazer nelas.

- Nelas não! Com elas! Olhe a regência, você quer me difamar, atenção no quinta-colunismo! Eu não vou fazer nada nelas, eu nunca faço nada nas mulheres, eu faço com elas, atenção na preposição, eu mando uma carta de protesto para a Academia e acabo com seu cartaz lá, se é que você tem algum!

- Que é isso, Zeca, também não precisa se exaltar.

- Desculpe, mas eu fico transtornado com essas coisas. Somente um cafajeste é que vai chegar para uma mulher, ainda mais a carioca, e dizer que quer fazer um negócio nela. Ele diz que quer fazer um negócio com ela, é diferente, é ali junto. É por essas e outras que desde o tempo de menino que você tenta apanhar mulher e não consegue, muito menos uma carioca, e para arranjar quem o aguentasse teve que engabelar uma jovem inocente em Birigui.

- Bem, de qualquer forma, quando eu disse o nome do exame, elas não gostaram.

- O psicotoque? É preciso ser muito maldoso, para condenar um exame de tanta utilidade, que eu mesmo desenvolvi a partir de certas descobertas de Pavlov. Ele fazia isso com cachorros, mas eu, modéstia à parte, faço com as mulheres, elas ficam babando que nem os cachorros dele, quando me veem, é reflexo condicionado. Mas essas suas amigas ficaram intimidadas foi com sua preposição insidiosa. Acharam que eu queria fazer o psicotoque nelas, mas eu quero fazer é com elas. Você tem obrigação de escrever isso no jornal, eu não quero me ver obrigado a entrar na justiça contra você, por difamação e injúria.

- Tudo bem, eu escrevo, mas não vai adiantar nada, acho que seu movimento não começou bem.

- Porque ainda não começou. Resolvi adiar o lançamento nacional aqui na Guanabara, preciso de uma preparação mais cuidadosa, não pensei que ainda por cima seria sabotado por amigos falsos e conterrâneos pérfidos. Você ainda ouvirá falar muito na ala feminina dos Bem-te-vis da Pátria. Eu tive uma ideia mercadológica, de vez em quando é preciso usar as armas do capitalismo, eu trabalhei muito em agitação e propaganda lá na ilha. 

- Desde que eu nasci, nunca vi agitação na ilha.

- Não aceito insinuações. E minha decisão já está tomada. Vou fazer um anúncio naiternet, somente para as cariocas: "Seja uma comandante dos Bem-te-vis da Pátria! Venha fazer seu psicotoque com Zecamunista em Itaparica! Uma semana com todas as despesas pagas! Para melhor concentração, pais, maridos e namorados não serão aceitos! Não perca esta oportunidade!".

- Até que pode dar certo, Zeca, mas de onde virá a grana?

- Patrocínio. O psicotoque é de interesse nacional, quem já fez confirma. E a mulher carioca é cultura, estou tranquilo, acho que vou de Petrobrás.
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domingo, 18 de março de 2012

A guerra com que nos enrolam




 JOÃO UBALDO RIBEIRO
O Estado de S.Paulo 

Com um certo embaraço para quem é tido, generosa e erroneamente, como conhecedor do que agora ouço chamarem de "Brasil profundo", não entendo praticamente nada de jogo do bicho. É uma ignorância vergonhosa e até mesmo, em algumas ocasiões, fator de exclusão social, porque fico inteiramente por fora de várias conversas. Sei que 24 é veado, porque sou do tempo em que os estudantes cujos primeiros nomes começavam com letras do meio do alfabeto corriam o risco, a depender do tamanho das turmas, de pegar o número 24 e passar o ano inteiro ouvindo piadinhas na hora da chamada. Em Sergipe, saía porrada. E também sei que 34, aliás número de minha cadeira na Academia, é duas cobras, porque sonhei com duas colegas de faculdade, contei a elas e elas, para quem eu de vez em quando fazia um joguinho, pois que eram tempos em que as moças não podiam expor-se a certos ambientes, me aconselharam entre risos que eu jogasse em duas cobras. Dito e feito, ganhei na dezena, comemoramos na cantina, com três coca-colas e três pastéis.

Depois disso, nunca mais joguei. Aliás, minto. Quando eu morava na Bahia, passava temporadas no Rio. Durante uma dessas, no restaurante em que me enturmei, éramos visitados desde as 11 da manhã, pela tarde adentro, por um simpático e sorridente cambista - ou pelo menos acho que era o nome que se dava - que levava as apostas à casa de jogo do bicho (de novo, não sei se é este o nome usado para a porta do estabelecimento onde se fazia a fezinha diretamente; na Bahia era "tenda do bicho"). De vez em quando eu jogava e uma vez, assessorado por um companheiro de mesa, cerquei milhar, dezena e centena, do primeiro ao quinto, numa rodada que chamavam de Paratodos e em outra, baseada num sorteio diferente. Não cravei nada, minha história de acertos ficou naquela dezeninha.

Acabo de confessar que já fui contraventor, não me regenerei para o bom convívio social e, com revoltante cinismo, não manifesto arrependimento algum. Na verdade, vocês devem ter percebido, pelo meu jeito de abordar o assunto, que sou um desses elementos capazes de reincidir a qualquer momento e admito que, se sonhar com o Ronaldinho do Flamengo, sou homem de, levado pelo permanente sorriso do craque, procurar o apontador aqui da esquina e descarregar uma graninha (coisa modesta, de escritor mesmo) no jacaré. Mas atirem a primeira pedra os que me reprovam. Um estrangeiro não entenderia nada do que falei acima, mas vocês todos, inclusive muitos dos que nunca jogaram, entenderam tudo. Ainda outros, também em grande número, estão capacitados a me ensinar muita coisa, ou tudo, sobre o jogo do bicho.

Não se trata de ser a favor de jogos de azar, trata-se de tentar acabar com essa hipocrisia em torno de um jogo tão arraigado em nossa cultura e até mesmo nossa língua. Estou convencido de que, se fosse feita uma pesquisa séria, o povo brasileiro, que joga no bicho de norte a sul, revelaria muito maior confiança no bicho que nos seus governantes, os quais se acostumou a ver como ladrões, privilegiados, mentirosos ou incompetentes. Tudo bem, é para proteger o cidadão, impedindo-o, por exemplo, de gastar o dinheiro do supermercado no jogo. Então vamos também protegê-lo de senas, megassenas, raspadinhas e não sei quantos mais jogos de azar legalizados, onde ele pode perfeitamente fazer a mesma coisa. Claro que é hipócrita quem torce um nariz santimonial para o jogo do bicho, mas joga na megassena, entra no bolo do futebol, curte um pôquer no fim de semana ou dá sua raspadinha.

Agora acaba de ser realizada uma brava operação no Rio de Janeiro, em que grandes bicheiros foram presos. Mais do mesmo filme, uma enorme farsa, uma encenação em que todos fingem acreditar que aquilo vai resolver alguma coisa. Não me manifesto nem contra a decisão judicial que deflagrou a operação, nem contra a polícia que a realizou. Tanto uma quanto outra obedeceram a lei, o que, embora longe de ser a regra entre nós, é pelo menos o cumprimento da lei. Mas essa lei, em toda a nossa história, tem sido ignorada, até agora é ignorada em muitos Estados e sempre dependeu da vontade de quem está no poder. Nunca houve nenhum problema público grave, causado pela tolerância ao jogo do bicho, ao contrário da intolerância.

A intolerância e a guerra ao bicho não se devem a nenhuma proteção do cidadão, que aparece aí somente para enfeitar e dar um aspecto cívico ao besteirol farisaico em que ela se fundamenta. O bicho, variando com as circunstâncias de tempo e lugar, precisa continuar ilegal. Desta forma, nas mãos de um governante sagaz, é até um instrumento político de grande serventia. Seria mais fácil, mais coerente, mais econômico, mais gerador de empregos, mais racional e mais pragmático que ele fosse legalizado. Isso, contudo, poderia ser o golpe de morte num setor não tão desprezível de nossa economia, e não estou sendo irônico. Sem a ilegalidade, para onde iriam as propinas e peitas variadas que, como se diz hoje, "fazem a diferença" para milhares e milhares de chefes de família em todo o Brasil, de policiais civis e militares a autoridades dos mais diversos níveis, além de vereadores e deputados? Pode-se desmontar toda essa complexa rede socioeconômica e suas ramificações, sem um sério impacto? E que dizer dos equipamentos usados nesse combate, seus fabricantes, distribuidores, vendedores e compradores comissionados? Precisamos lembrar que o Rio, assim como Cabul ou Bagdá, é um dos centros urbanos onde se usa rotineiramente equipamento de combate pesado e o mercado brasileiro nessa área fica cada vez mais suculento. O que dá pra rir dá pra chorar, a morte e a violência são um bom negócio para muitos. Assim como a guerra ao jogo ilegal - e nós, os otários de costume, acreditamos e pagamos.
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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Muitas novidades - 2

JOÃO UBALDO RIBERO
O Estado de S.Paulo

A história do pai desnaturado que anunciei no domingo passado me foi contada como verídica. Em Itaparica, ninguém mente, de maneira que com certeza é mesmo. Trata-se do pungente drama vivido por uma família cujo sobrenome, muito importante para o desenrolar dos acontecimentos, aqui será mudado, para não causar problemas. Deu-se que, em certa época, em certa localidade da ilha, um jovem pobre, mas muito trabalhador e esforçado, subiu na vida e criou coragem para pedir em casamento a filha mais nova dos Pimentéis, orgulhosa família descendente de barões do tempo das baleias e de nariz franzido tão empinado que o povo chamava a matriarca de "Quem Bufou?". A família fez tudo para que o noivado não se concretizasse, mas a moça também estava apaixonada pelo rapaz e não houve jeito. Acabou, para se livrar de mais chateação, cedendo a uma exigência do velho "Foi Você" (apelido natural para ele: a velha fazia cara de "Quem Bufou?" e depois o velho vinha atrás, olhando para todo mundo com cara de "Foi Você"). Tudo bem, haveria o casamento, mas nenhum dos filhos do casal levaria o humilde "dos Santos", sobrenome do rapaz. Portariam o orgulhoso Pimentel, mas nada de Santos.

Acontece que não contavam com a altivez e a astúcia do itaparicano. Para não encompridar a história, o casal teve três filhos e o pai botou neles os nomes de Fulano, Beltrano e Sicrano Pimentel. Dizem que até hoje os parentes brigam para mudar os nomes, situação complicada porque Beltrano e Sicrano se solidarizaram com o pai e registraram os filhos mais velhos como Beltrano Júnior e Sicrano Filho. Já Fulano, compreensivelmente, não fez a mesma coisa, porque puseram nele o apelido de "De Tal", foi muita crueldade da parte da voz do povo. Perguntavam "quem é aquele?" e respondiam "ah aquele é Fulano de Tal, mas pode chamar de De Tal mesmo, que ele atende".

Ainda por cima, por uma circunstância linguística, o "De Tal", pois que o pessoal da happy hour das seis da manhã embola um pouco as consoantes, acabou percebido por muitos como "Dedal" e De Tal passou a também ser conhecido pela alcunha de Dedal, o que - vejam como é esta vida ingrata - levou certos preconceituosos a opinar que ele devia ser costureiro de altas modas afrescalhadas e, portanto, falso ao corpo, designação hoje politicamente incorreta, mas nessa época ser gay não estava ainda na moda e o sujeito precisava ser muito macho para encarar a complexa situação em que ele se viu.

O fato é que a história teve um final melancólico para Fulano, que, na busca de sossego, se mudou para Nazaré das Farinhas, mas dizem que não se deu tão bem, talvez por ter ganho novo apelido, deve ser sina. Lá em Nazaré, me contam que ele é conhecido como Esse Menino e ninguém sabe o nome dele - quer dizer, o sujeito não consegue ser nem Fulano, nem De Tal, é duro. E comentam que o pai desnaturado acabou se consumindo na cachaça, mas nunca arrependido do que perpetrou. Dizem que, pouco antes de morrer, questionado sobre os nomes dos filhos, teria respondido grosseiramente que eles ainda deram sorte, porque os nomes iam ser Merdêncio, Caguêncio e Bostêncio, mas o escrivão sempre achava que pegava mal e não fazia o registro, mesmo que a propina fosse mais gorda que a de um alto governante federal.

Depois desse flagrante da vida real, passo ao também prometido furo de reportagem. Em todos os meus anos de jornalismo, nunca dei um furo de reportagem e fico até meio nervoso. Durante minha mais recente estada na ilha, Zecamunista me visitou algumas vezes para conversar e pronunciar algumas festejadas conferências, mas não deixou transparecer nada de seus planos mais audaciosos. Parecia estar inteiramente concentrado em aperfeiçoar o projeto de instituição do Comitê Proletário de Defesa do Vernáculo, após ter tido algumas experiências traumáticas, a última das quais envolveu uma pizza.

- É bem feito, que é para eu esquecer pizza, o pastelão gordurento que italiano não come e é monopólio do imperialismo ianque e das multinacionais de remédio contra azia! - bradou ele. - E ainda por cima é delivery. O indivíduo pede que lhe entreguem uma pizza e o sacaneta corrige: é delivery, senhor. É delivery a mãe dele, minha pizza é entregue, eu faço questão de que ela seja en-tre-gue! Se o governo não garante nada, pelo menos garanta que a gente vai continuar a entender o que se fala. Eu vou contar o que esse infeliz me disse. A pizza já estava demorando quase uma hora e aí eu liguei para reclamar e sabem o que ele falou? Ele disse "Eu tinha colocado para o senhor de que a delivery ia estar atrasando". Foi isso o que ele me disse e eu quase vou lá com minhas pistolas para fazer justiça pessoalmente e restaurar o primado do homo sapiens, é legítima defesa, estão assassinando a língua portuguesa, são uns antropoides!

Somente no último dia foi que ele me chamou a um canto e confidenciou o que agora é furo de reportagem: fará uma rara visita ao Rio de Janeiro, algum dia do próximo mês. No seu dizer, "a mulher carioca é a deusa no pedestal alcandorado de meu coração e a diaba na usina lasciva de meus nervos tropicais", mas não é bem por ela que ele vem. Pretende fazer no Rio o lançamento nacional dos Bem-te-vis da Pátria, entidade cívica que congregará os brasileiros vigilantes, sob o grito de guerra "Bem Te Vi, Ladrão!". Os militantes usarão camisetas estampadas com um bem-te-vi de binóculo e carregarão um apito que imita o canto do bem-te-vi. Cada vez que passar um político ladrão, apito nele, assim como em estádios, auditórios e demais locais públicos.

- Confio no Rio de Janeiro para salvar o nosso povo - disse Zeca ao telefone, emocionado. - Ainda vamos ler no jornal que um safado desses foi bem-te-vizado para fora do Posto 9.
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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Muitas novidades

JOÃO UBALDO RIBEIRO
O Globo


Eis-me de volta e parece que foi ontem que saí de férias, sensação agravada pela circunstância de que não cheguei a descansar. Por mais que eu tente, o repórter que nunca consegui ser, mas sempre invejei, insiste em pedir outra chance e, mesmo sabendo que mais uma vez não vai dar certo, acabo cedendo. 


Não parei de cobrir os acontecimentos locais e de me inteirar das novidades para passá-las aos leitores, sempre ávidos por saber como estão as coisas lá na ilha. É muito material e não sei se o espaço será suficiente, mas claro que não perderei a oportunidade de demonstrar um tremendo esforço de reportagem, o que sempre foi meu ideal jornalístico. Começo pelas más notícias, para tirá-las logo da pauta. 


Peço um minuto de silêncio por Benebê, Bertinho Borba e Gueba (não tem mais trema e aí me vejo obrigado a explicar entre parênteses que o U do apelido dele se pronuncia), que deixaram nosso convívio. Benebê, mulato de olhos verdes, alto, desempenado e bonito, era um cavalheiro nato e todo mundo vai ter saudades dele. Estava velhinho e já se esperava o desenlace, mas isto não consola, ele vai fazer falta. Quem ouviu não esquece e até hoje comenta o que ele disse, certa feita no bar de Espanha, depois de pensar muito: "O mundo é perfeito." Dito por um jovem qualquer, seria tido na conta de insensatez. Dito por Benebê, pegava profundidade e ninguém se autorizava a contestá-lo levianamente. 


Bertinho, um ano menos velho que eu, jogou bola comigo e continuávamos a nos dar muito bem, só que ele se recolheu depois da aposentadoria e nunca mais botou o nariz fora de casa, todo mundo respeitava - e assim ele viveu seus últimos vinte ou mais anos. E com Gueba partiu o vendedor de mariscos mais antigo do Mercado, prestidigitador melhor que qualquer profissional, como atestava sua habilíssima manipulação de camarões ou lambretas, ocasião em que, magicamente, os graúdos permaneciam em seus recipientes e somente os miúdos passavam para a sacola do freguês. Sim, e morreu Arquivo também, mas, em relação a este, o que se comenta é a suposição, difundida amplamente entre os que o conheceram, de que ele está encontrando dificuldades em ser aceito no inferno. 


Não há dúvida de que os muitos agentes do Capeta em atividade no Brasil já deviam ter avisado lá embaixo que Arquivo seria um fator de desestabilização no inferno, e alguns cidadãos opinam que, inadvertidamente, deixaram que ele entrasse, mas já o expulsaram, depois que ele desacatou Satanás em pessoa. 


A controvérsia permanece, mas, felizmente, o fantasma dele não apareceu para assombrar. Fala-se que muitos conterrâneos têm feito uns ebós e uns despachos para evitar que ele arribe em Itaparica outra vez e, em lugar disso, baixe em Salvador, que hoje em dia está de um jeito tal que ele nem seria notado. Mas chega disso. 


Alegra-me comunicar que Xepa, Beto Atlântico (cada vez mais rico milionário) e Toinho Sabacu se encontram em esplêndida forma. Gugu Galo Ruço e Marquinhos de Edna, cada um também mais rico milionário que o outro, vão fretar um Boeing para ir fazer lipoaspiração de cachaço, bochecha e barriga na América do Norte, decisão tomada depois que ambos cravaram 114 de colarinho, no dia em que botaram gravata para serem homenageados pelos bancos em que têm contas. 


Quanto às barrigas, faz muito que eles não veem os pés e fazem as unhas orientando as pedicuras por meio de monitores de televisão. Eles ficaram assim de tanto se atufarem daquelas comidas de rico milionário, sarapatéis de tripa de faisão, acarajés de trufas brancas, doces de leite de panda e moquequinhas de ostras frescas da Normandia. 


A greve da Polícia Militar rendeu muito assunto e um dia correu o boato de que estava havendo um arrastão na ilha. O comércio e as casas se fecharam e almoçamos trancados no Restaurante do Negão, que felizmente é meu amigo e fez uma exceção. Mas não houve arrastão nenhum. Ainda bem, porque nosso quinhão de cenas de violência já era suficiente. 


A briga de uns dezoito cachorros em torno de uma cadela metidíssima a gostosa, em plena luz do dia e bem em frente à pensão de Esmeraldo, foi uma cena lamentável, o couro comeu solto e os que entendem cachorrês ficaram estarrecidos com os baixos latidos empregados. 


Assim também se passou, em inúmeras ocasiões, com os desentendimentos espalhafatosos entre os sanhaços, os sabiás, os bem-te-vis, os saguis e outros habitantes e visitantes da mangueira lá de casa. 


Tem um sabiá novo, que, não sei por quê, Xepa chama de Edson, de gogó privilegiado e talento de improvisador, mas exibido em demasia e vai ver que é descendente de Waldik, o famigerado sabiá de finado Ezequiel. Ezequiel às vezes tinha de sair de casa para não ficar ouvindo Waldik cantar sem parar dia a noite, só calando o bico depois que a luz era apagada e a televisão ou o rádio eram desligados. Ezequiel deixava a gaiola aberta, para ver se Waldik se mancava e ia fazer a serenata dele em outro lugar, mas ele não ia embora, gostava era da casa, comida e pena lavada que pegava sem fazer força. 


Edson parece ir no mesmo caminho, espero que no próximo ano arranje uma namorada e se mude. Nada contra o bel canto, mas tudo tem limite e ele não está com essa bola toda, deixa muito a desejar em matéria de repertório, se comparado a Aguinaldo, seu saudoso antecessor, ou ao próprio Waldik. Mas vejo que, como eu temia, o espaço não vai dar. Tenho que adiar para a próxima semana a história pungente de como um pai desnaturado vingou-se da família da mulher através dos próprios filhos, narrativa para quem tem nervos de aço. E, claro, também preciso informar sobre as visitas que Zecamunista me fez e, finalmente, dar meu almejado furo de reportagem. Não conto agora, mas acho que Zecamunista vai acabar conseguindo mudar o país.
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domingo, 8 de janeiro de 2012

Saindo de férias - JOÃO UBALDO

Saindo de férias
 JOÃO UBALDO RIBEIRO
O Estado de S.Paulo 


Este ano, como sempre, vou viajar nas férias. Mas desta vez acho que lamentarei um pouco o afastamento daqui do terraço. Há muito tempo não lhes conto os acontecimentos no terraço, há novidades. Herculano, o gavião que volta e meia fazia ponto na esquina do alambrado, sumiu de vez. Em compensação, estabeleceu-se nas redondezas o casal de sabiás Wanderley e Ademilde, que deve ter ninho aqui perto e apresenta alguns duetos admiráveis, de manhã cedo e ao entardecer. Instalou-se também um clã de bem-te-vis, chefiado por Arnaldão, bem-te-vizão parrudíssimo, maior que certos pombos, e por Hildete, sua esposa, igualmente fortezinha e disposta.

Pensando bem, Herculano pode ter sido escorraçado daqui por Arnaldão e Hildete e talvez mais alguém da turma de bem-te-vis. Bem-te-vi é jogo duro para qualquer um, inclusive gavião pequeno. Quem conseguir pegar num bem-te-vi tem que ter muito cuidado, porque ele vira o pescoço e dá umas bicadinhas poderosas, que furam a mão. Muitos gaviões do porte de Herculano se dão mal, quando se metem a besta com um bem-te-vi. O gavião localiza o bem-te-vi lá de cima, do meio das nuvens, assenta a mira, recolhe as asas para trás e mergulha em alta velocidade, na direção do que ele imagina ser sua presa. Enquanto isso, o bem-te-vi, cuja visão permite que ele enxergue quem vem lá de qualquer lado, fica na dele, como se não estivesse notando nada. Mas, quando o gavião chega quase a tocá-lo, ele faz uma manobra que o atacante, caça a jato e não helicóptero, não tem tempo nem equipamento para acompanhar. Aí o bem-te-vi fica por cima e desce a lenha no cocuruto do gavião, que chega a babatar no ar, meio desgovernado, para depois recuperar-se e se mandar de volta a seu hangar, certamente decidido a pensar melhor, da próxima vez em que topar com um bem-te-vi.

Mas a novidade interessante mesmo, cá no terraço, não é com o reino animal e, sim, com o vegetal. Receio ter de confessar que o ambiente criado aqui pelas plantas não condiz com a moral e os bons costumes. Admito que salacidade sempre foi geral, com a colaboração diuturna de um exército de polinizadores sem senso de propriedade e sem qualquer pudor, mas agora está passando dos limites. Me lembra uma árvore da casa de finado Jugurta, em Itaparica. Nunca vi essa árvore, não sei nem qual a espécie dela, mas era famosa. Segundo contavam, ela promovia tamanha safadagem que Jugurta e sua dele santa esposa, d. Nadinha, chegaram a pensar em derrubá-la, não o fazendo somente pelo pecado que é derrubar uma árvore. Quando ela florava, mais exibida que 200 rumbeiras de circo, cada flor mais indecentíssima que a outra, se oferecendo a beija-flores, morcegos, borboletas, mamangavas, abelhas, mosquinhas e toda a malta sem-vergonha que se acumplicia nessas horas, eles mandavam cobrir o quadro oval do Sagrado Coração de Jesus que ficava na sala, e não deixavam as crianças ver a descaração transcorrendo no jardim.

Aqui no terraço está assim. Assim, não, pior. Num dos vasos maiores, reside uma fruteira cítrica com problemas sérios de identidade, que resultaram numa situação constrangedora. Ela chegou ainda mocinha, como laranja-lima, mas nunca deu laranja-lima nenhuma. Sua primeira fruta era uma laranja sem caroço, insuportavelmente azeda. Da segunda vez, era uma laranja com caroço, bastante docinha. Mas, de repente, um lado dela começou a produzir, em ritmo industrial, limões galegos. Suspeitei que se tratava de enxertos, mas temo que seja a manifestação mais explícita do clima de promiscuidade reinante. A razão da suspeita é o surgimento, no mesmo vaso, de uma outra arvorezinha, cujos tronco e raízes já se entrelaçam com a tal cítrica que não resolve o quer ser na vida. Não tenho certeza, mas creio que é uma goiabeira e isso poderá não definir-se ainda durante minhas férias. Uma conclusão, porém, já se impõe. A verdade dói, mas tem que ser dita: é uma deslavada suruba vegetal e acho que publicar uma fotografia dela seria proibido em países recatados.

Melhor mesmo, pensando bem, é viajar, escapar um pouco deste ambiente carregado. Embora não seja fácil como pode parecer e requeira prática, minha intenção é não fazer nada. Somado a fortes traços genético-antropológicos, tenho um certo traquejo. Quando Caymmi e eu morávamos na Bahia, de vez em quando não fazíamos nada juntos, na casa dele. Um dia resolvemos dar uma pausa e compor um samba, mas só passamos um tantinho mais que 30 anos nesse trabalho. O tempo foi curto e aí ficamos apenas no estribilho que, aqui no Rio, cantávamos sempre que nos víamos.

Mas nem sempre as coisas se passam como a gente quer e tudo indica que, na minha condição de saltimbanco das letras, vou ser chamado a trabalhar durante as férias. Em telefonema da ilha, Zecamunista me comunicou que está criando o Comitê Proletário de Defesa do Vernáculo e eu, que, apesar de intelectual pequeno-burguês e alienado, pelo menos sei conjugar a maior parte dos verbos e não costumo errar os plurais, serei convocado para a luta.

- Eu não aguento mais! - disse ele. - Você sabe o que outro dia eu ouvi, lá em Espanha? Um xibungueta me disse "eu tinha trago o jornal do senhor, mas o senhor não estava". Eu tinha trago! Não é mais "trazido"! Isso é caso de paredão! Você tem que me ajudar nesse combate!

É, acho que o dever me chama, a situação se agrava. Num segundo telefonema, Zeca relatou o mais recente exemplo da língua atual, um novo particípio passado de "falar", que ele colheu numa roda de pôquer em Salvador.

- Eu tinha falo! - reclamou, a certa altura, um parceiro.

- Pois eu ainda tenho - respondeu Zeca. - Não muito fanático, mas tenho.
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domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz ano-novo


JOÃO UBALDO RIBEIRO
Estadão

Recebi diversas cartas me dizendo que, como cozinheiro, eu era um escritor razoável

Este ano tanto o Natal quanto o ano novo caíram num domingo (desculpem, não sei dizer se eles sempre caem no mesmo dia da semana e, portanto, não estou lembrando novidade nenhuma; tentei fazer as contas, mas não acertei, o finado Cuiuba tinha razão, sou meio fraco da ideia), ou seja, dia em que estas linhas modestas são publicadas. No domingo passado, minha intenção era escrever outra vez sobre o Natal e desejar a vocês boas festas, mas devo ter sido novamente acometido por um dos meus ridículos arroubos cívicos e trocado de assunto sem querer. Volta e meia, escrever é assim. Quando se vê, a desgraça já está feita.

Minha omissão natalina também pode ser devida a um trauma mais ou menos recente. Refiro-me ao dia infausto em que passei aqui uma receita de escaldado de peru, que era o que eu via fazerem, na Bahia, com o que sobrava do peru de Natal. Receio não me haver dado muito bem, porque recebi várias cartas me dizendo que, como cozinheiro, eu era um escritor razoável e outras me esclarecendo que escaldado de peru não é coisa só da Bahia, mas é manjado em todo o nosso imenso Brasil, às vezes chamado por outros nomes. Retiro a receita, retiro tudo. E as restrições ao cozinheiro doeram muito mais que as feitas ao escritor. Mas, porque sei que vai ter gente que na época não soube da grave polêmica, simplifico a única receita pela qual tenho a ousadia de responsabilizar-me. Pega-se o peru que sobrou, não precisa desossar, não precisa nada, basta desmontar a carcaça e usar os pedaços como ingredientes de um cozido. Pronto. Cozido mesmo, com paio, linguiça, quiabo, abóbora, maxixe, jiló, repolho e outras verduras à vontade, carne-seca, o que der na veneta como ingrediente de cozido. Novas cartas de protesto para o editor, por caridade.

Quanto ao presente domingo, claro que não estou esquecendo dar-lhes meus votos de um ano novo excelente, com saúde, tranquilidade e grana. Sei que isso não é alcançável por todos, mas a gente deseja, de qualquer forma. O mundo é perfeito, diz meu velho amigo Benebê em Itaparica, não é como a gente quer. Já pensou se fosse como cada um quer? E, tudo bem pesado, acrescenta Benebê, a graça da vida é isso, nada é certo, tudo pode acontecer, o que parece que é no outro dia não é. Grande verdade, pelo menos não percamos a graça da vida.

E precisamos ter esperança em melhores dias, se bem que aqui de novo se aplicam as observações de Benebê, pois, sendo perfeito o mundo, os melhores dias de uns serão os piores dias de outros e vice-versa, nunca se sabe. E cada um imagina melhores dias como lhe convém ou como consegue. Eu, de minha parte, não estou disposto a começar o ano com pensamentos negativos e, por conseguinte, junto-me a todos os brasileiros que anteveem um 2012 prenhe de gáudio e venturas. Os presságios já são eloquentes, entre os quais destaco o que nos foi dado, mais uma vez, pelo Senado Federal.

Não tenho certeza quanto aos pormenores, mas li que o Senado Federal interrompeu seu recesso para dar posse ao dr. Jader Barbalho (não sei se ele de fato é doutor, mas, como qualquer brasileiro, conheço meu lugar e trato os homens logo do jeito a que eles estão acostumados). Com a habitual mesquinharia, a imprensa destacou os minguados vinténs que o senador vai embolsar com essa posse antecipada, como se um homem como o dr. Jader fosse dar importância a essa merreca, que só é dinheiro para jornalista morto a fome mesmo. Duvido que, se as obras de Irmã Dulce pedissem, ele não doasse a elas esse trocado todo e mais alguma coisa. (Fica aqui a sugestão às obras de Irmã Dulce, o endereço dele deve estar na Internet).

Ignorou-se o momento cívico, a celebração da solidez de nossas instituições. Quem entra não sai nem a pau, as instituições resistem a tudo. Pobre da sensibilidade que não se viu arrebatada por um frêmito de emoção, ao tomar conhecimento da decisão expedita do Supremo Tribunal Federal, deflagrando todo um vertiginoso processo - mais uma inovação brasileira, a posse expressa. Pois o Pará, estado do qual o dr. Jader é galardão, também se mexeu qual flecha disparada pelo arco de Pery. Diz aqui que o Tribunal Regional Eleitoral de lá diplomou o senador através de um telegrama, antes mesmo de receber a comunicação da decisão do Supremo. E aí o Senado, enquanto o diabo esfregava um olho, mais que depressa saiu do recesso somente para cuidar do assunto e, mais que depressa ainda, voltou ao recesso. Depois dizem que o brasileiro é lento, é a nossa mentalidade derrotista.

Com a lição que esse augúrio encerra, creio que se esvai o pessimismo acaso ainda existente. Há razões para crer que todos os que roubam dinheiro público, sem exceção alguma, continuarão a prosperar, ainda que alguns venham a ser incomodados por investigações rápidas e passageiras. Quanto a devolver o que gatunaram, tampouco há motivo de preocupação, os precedentes são raríssimos e pouco convincentes. Não será investigado nenhum juiz ladrão, todos eles também podem ficar tranquilos. Aliás, devem ficar mais tranquilos ainda, porque uma hora destas o Supremo manda encanar quem disser que há juiz ladrão, mesmo que haja provas. E, num plano mais local, a guerra contra as drogas e o jogo do bicho prosseguirá intimorata, não porque adiante alguma coisa, mas porque, sem ela e toda a dinheirama (dinheiro mesmo outra vez) que movimenta, como ia ficar a vida de tanta gente - das autoridades corruptas aos vendedores de armas, equipamentos e tecnologia? Ou seja, dirão vocês, será tudo o mesmo, com os mesmos tungando os mesmos, da mesma forma. Exatamente. O que dá pra rir dá pra chorar, pensem em quantos não ficarão alegres com essas perspectivas, o mundo é perfeito.

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domingo, 25 de dezembro de 2011

Protegendo as crianças

Só mesmo um imortal de nossa literatura pode colocar um fenômeno jurídico e social, que tangencia a estultice, no seu devido lugar com um sutil e refinado humor.
Vale muito ler a crônica que segue.



Protegendo as crianças 
João Ubaldo Ribeiro
O Estado de S.Paulo

Uma vez falei aqui contra a chamada lei da palmada e fiquei com medo de sofrer uma tentativa de linchamento. Falei contra a lei e não a favor da palmada, mas fui amplamente descrito como um primitivo nordestino, defensor da tortura de criancinhas. Então acho que devo esclarecer que apanhei bastante em pequeno e até admito que o muito que há de torto em minha cabeça possa ser ligado a essas tundas, que iam bastante além de palmadas, em detalhes que não me dá gosto lembrar. No meu currículo, arrolam-se chinelos, tamancos, cabos de escovas, palmatórias (não só em casa, mas também na escola da professora Madalena, em Itaparica), cinturões de todos os materiais, beliscões, puxavantes de orelha, um ocasional cachação e aparentados.

Contudo, embora tenha as naturais queixas, pois que apanhar nunca me pareceu boa coisa, não desejei vingar-me disso nem com os autores das surras, nem com seus descendentes através de mim. Continuei a me dar bem com meus pais até o fim da vida deles e jamais bati em meus filhos, nem sequer com palmadinhas. Aliás, minto. Uma vez, em Salvador, minha filha mais velha, então com uns 5 anos, aprontou tanto e tão incontrolavelmente, que eu também me descontrolei e dei um palmadaço nela. Primeiro e único, porque, assim que vi sua carinha subitamente aterrorizada pela surpresa violenta, me senti um espécie de monstro. Exagero, claro, mas continuo pessoalmente contra não só palmadas como qualquer castigo físico.

Além disso, agora compreendo que devo manifestar-me a favor da lei da palmada. Em primeiro lugar, somos um país que protege muito. Não há ninguém que não esteja protegido - jovens, idosos, mulheres, homossexuais, consumidores, corruptos com direito a foro especial e quem mais nos ocorrer. O menor de idade mesmo é protegido por todos os lados. Creio que é exemplar o caso de um menor que faça 18 anos no dia 10 e, durante um assalto no dia 9, mate o assaltado somente pelo prazer de experimentar o revólver novo. Já vi casos assim, ou piores, em reportagens de televisão. Como somos um país rigoroso quanto à aplicação da lei, o delegado, embora privadamente tenha convicção oposta, é, assim como o juiz, obrigado a fazer valer a norma. Dura lex, sed lex. Portanto, matar com 17 anos e 364 dias é, por assim dizer, permitido, não dá nada. Já matar aos 18 anos pode dar cana séria, ainda que raramente. É talvez oportuno lembrar o episódio havido em Brasília e noticiado nos jornais, em que um homem assassinou a namorada e, no dia seguinte, foi à delegacia, levando a arma e o cadáver, e confessou o crime. Deu lá seu depoimento e foi solto na hora. Eu não conto essas maravilhas a meus amigos estrangeiros porque eles não acreditam, nós somos um país abençoado demais.

Mas desculpem, saí do assunto. O assunto é a lei da palmada. Devo reconhecer que nunca vi o texto do projeto e só sei dele o que ouço e leio aqui e ali. Em meu favor, porém, posso alegar que, como praticamente todos nós, não sou bem cidadão, mas súdito. Esse negócio de dar penada em nossa própria vida não é para nós. Como ensina a história da lei de ficha limpa, o que nós queremos não tem nada a ver com o que fazem do País, a gente não tem nada que se meter. Eles resolvem as coisas e nós vamos sabendo aos poucos, isso quando interessa que a gente saiba, para poder fazer o que eles mandam.

Eu ia dizendo que parece ser meu dever manifestar-me a favor da lei da palmada, que estende a proteção estatal sobre uma categoria desamparada. Antigamente, as crianças podiam ser surradas, afogadas, esfoladas ou fritas, não havia lei que as protegesse. Agora, sim, agora haverá, com certeza também através de novos órgãos oficiais, novos especialistas, funcionários, verbas e assim por diante - os legisladores não esquecem essa prioridade nacional, a criação de postos de trabalho. E a rede não se limita ao Estado. Entram nela, por exemplo, sogras e vizinhos. Calculem quantas sogras, por esse Brasil afora, fiscalizarão as mulheres de seus queridos filhos, essas desmazeladas sem educação doméstica. Não haverá palmada que não seja denunciada à polícia e prevejo que esse mar de proteção poderá espraiar-se de tal forma que teremos delegacias das palmadas e um Disque Palmada 24 horas por dia.

Tenho um pouco de preocupação, é bem verdade, com a obediência à lei, notadamente por pais e mães recalcitrantes ou de outras culturas. Fico pensando na possibilidade de certas situações. Imagino que, denunciada por ter dado meia dúzia de palmadas no Ranulfinho, a mãe do Ranulfinho deva receber a visita de um psicólogo oficial, que tentará demonstrar-lhe a inadequação e inaceitabilidade científica e legal do castigo físico. Ao que a mãe do Ranulfinho, que sempre foi da pá virada e ostenta cabelinhos na venta, diz que o psicólogo é psicólogo lá pras negas dele e que o sacaneta do Ranulfinho vai apanhar toda vez que tornar a abrir a geladeira, morder um pedaço de tudo o que tem lá dentro, deixar a porta aberta e emporcalhar a cozinha toda. Como de fato, dias depois há nova denúncia e novamente a mãe do Ranulfinho manda o governo pastar. Para encurtar a história, virá depois do psicólogo um psiquiatra, a mãe do Ranulfinho dirá que o psiquiatra se meta com a mãe dele e reincidirá, não restando recurso, senão cadeia mesmo. E, já que o pai do Ranulfinho apoia sua mulher, far-se-á a retirada da guarda do Ranulfinho e seus três irmãozinhos. Naturalmente que serão separados, porque ninguém poderá ficar com a guarda dos quatro. E, se não houver parentes ou amigos dispostos, o Estado tomará a si a guarda deles e, enquanto os pais mofam na justa cadeia, eles serão criados na mesma instituição modelar em que foi várias vezes confinado o menor que matou dois e feriu quatro, para experimentar o revólver. O Brasil se aperfeiçoa cada vez mais, o Ranulfinho é um menino de sorte.
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