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segunda-feira, 13 de maio de 2019

Incerteza na Venezuela

Movimento liderado por Guaidó recebeu firme respaldo do Grupo de Lima, formado por Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Canadá

         
Notas & Informações, O Estado de S.Paulo
02 de maio de 2019 | 03h00

O levante deflagrado na terça-feira passada pelo presidente constitucional da Venezuela, Juan Guaidó, para tentar depor o ditador Nicolás Maduro lançou o país na incerteza. Em meio a informações desencontradas sobre os desdobramentos do movimento liderado por Guaidó e sobre a reação de Maduro, a oposição recebeu firme respaldo do Grupo de Lima, formado por Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Canadá. Em nota, os membros da organização “rechaçam que tal processo seja qualificado como golpe de Estado” – ou seja, enxergam legitimidade no levante.

O Grupo de Lima fez um chamamento às Forças Armadas da Venezuela “para que manifestem sua lealdade ao presidente encarregado, Juan Guaidó, na função constitucional de seu comandante em chefe”, e que “cessem de servir como instrumentos do regime ilegítimo para a opressão do povo venezuelano e a violação sistemática de seus direitos humanos”. Exigiu também que Nicolás Maduro “cesse a usurpação” do poder para que haja transição para a democracia e responsabiliza diretamente o ditador “pelo uso indiscriminado da violência” contra os opositores. Por fim, oferece “apoio político e diplomático às legítimas aspirações do povo venezuelano de voltar a viver em democracia e liberdade, sem a opressão do regime ilegítimo e ditatorial de Nicolás Maduro”.

Em 23 de janeiro, Juan Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional, proclamou-se presidente interino da República invocando o artigo da Constituição que lhe dava autoridade para declarar vaga a Presidência da República em caso de ruptura constitucional – Maduro havia sido declarado “usurpador” pela Assembleia Nacional após tomar posse, duas semanas antes, para exercer um novo mandato, obtido numa eleição escandalosamente fraudada. Sua ilegitimidade como presidente foi reconhecida pelo Grupo de Lima, pela Organização dos Estados Americanos e pela União Europeia, que respaldaram Guaidó como responsável por conduzir a Venezuela a novas eleições.

Maduro, no entanto, aferrou-se ainda mais ao poder, desafiando o que está escrito na Constituição de seu país e toda a mobilização liderada pelos Estados Unidos para pressioná-lo. O ditador tem o apoio da Rússia, interessada em explorar a situação para desgastar os norte-americanos. “A ingerência de Washington nos assuntos internos de um Estado soberano é uma violação grosseira do direito internacional”, disse em nota o chanceler russo, Serguei Lavrov, que acrescentou: “A continuação dessas medidas agressivas terá as mais sérias consequências”. Já o assessor de Segurança Nacional norte-americano, John Bolton, disse que o ditador Maduro está cercado de “escorpiões” e que é só “questão de tempo” que deixe o poder. Estados Unidos e Rússia parecem dispostos a fazer da Venezuela uma nova Cuba, pivô da guerra fria que marcou a relação entre os dois países no século passado.

A Venezuela atravessa gravíssima crise econômica e humanitária, e a revolta contra o ditador Maduro parecia mesmo inevitável. O problema é que talvez Juan Guaidó tenha superestimado sua mão num jogo em que Maduro dispõe de centenas de generais sob seu controle, vários deles presenteados pelo regime com o controle de diversos setores da economia. A ferocidade e a firmeza da repressão ao levante indicam que destituir Maduro será uma tarefa muito mais complexa do que se poderia imaginar.

Diante de uma situação tão incerta quanto explosiva, o governo brasileiro fez bem ao adotar um tom cauteloso e ao praticamente descartar uma intervenção militar, ainda que o presidente Jair Bolsonaro tenha deixado claro que o levante é bem-vindo. Neste momento, é preciso que, entre os atores relevantes para a crise venezuelana, prevaleça o bom senso – o que continua a faltar, por exemplo, ao PT, que em nota oficial “condena a tentativa de golpe na Venezuela” e diz que o levante foi um “fracasso” porque os venezuelanos dão “claro apoio” a Maduro “após anos de políticas voltadas ao bem-estar da população”. 

Insurreição e mito

William Waack: - O Estado de S.Paulo

Fatores abrangentes tornam difícil a ação comandada pelos EUA para derrubar Maduro

Qualquer que seja o resultado do que está acontecendo na Venezuela, o “golpe de mão” (como se dizia antigamente) contra a ditadura chavista lançado na terça-feira por Guaidó inicialmente carecia de todos os elementos clássicos de ações semelhantes bem-sucedidas, a saber: surpresa, força e velocidade.

A oposição e governos que a apoiam diretamente (como Estados Unidos e Brasil, mas não só) vem “telegrafando” há semanas que pretendem explorar dissidências dentro do aparato militar para derrubar o tirano Nicolás Maduro. Para uma quartelada dar certo esse esforço talvez devesse ter sido mais discreto.

“Golpe de mão” tentado a pedaços desanda em situações de impasse nas quais o controle da hierarquia militar aliado a grupos paramilitares ganha tempo para o ditador a ser desalojado – seria um bom retrato do que acontecia até o 1.º de Maio nas ruas de Caracas. O que leva à questão no fundo essencial, a da força entendida na acepção primordial.

A oposição até aqui não dispõe de tropas para enfrentar tropas. Onde a oposição (e os governos diretamente envolvidos em apoiá-la) julga ter encontrado “força” para um assalto frontal ao regime bem entrincheirado, como aconteceu no dia 30 de abril?

As evidências sugerem que é na convicção da viabilidade de uma insurreição popular alimentada pela miséria e penúria impostas a milhões de pessoas pelo regime chavista, e deflagrada pela “faísca” acendida por lideranças políticas com uma mensagem de esperança no futuro. Ironicamente, isso parece a leitura de panfletos marxistas sobre a Revolução de Outubro, que propagaram durante décadas o triunfo de uma insurreição que nunca ocorreu. Pelo jeito, o mito do grande levante popular é irresistível.

Mitos desse tipo talvez passem longe do staff de gente como Mike Pompeo, o secretário de Estado americano que é egresso de West Point e dirigiu a CIA – cujo mais recente triunfo em manipular personagens empenhados na derrubada de um regime nacionalista-populista num país grande data de 1953 no Irã (o golpe contra Mossadegh). Supõe-se também “frieza” na conduta de um diplomata profissional como John Bolton, assessor de segurança nacional de Trump e especialista em batalhas verbais na ONU e debates na TV.

Ocorre que, no fundo, o problema para a ação montada pela Casa Branca para derrubar Maduro vem de questões estratégicas mais amplas, como a dificuldade (exacerbada por Trump) de se contrapor a Rússia e China, e a profunda desconfiança em relação à política externa americana por parte de aliados tradicionais de vários tipos, como europeus ou a Turquia (“mérito” de Trump). A julgar pelo que disse a própria Casa Branca, Maduro confia muito em Vladimir Putin e teme bem menos do que se imaginava as ameaças de embargos e até ação militar de Trump.

A Venezuela transformada em componente delicado de um jogo geopolítico de grande abrangência internacional é testemunho da falta de liderança de Trump (Kennedy e Kruchev se entenderam por cima da cabeça de Fidel Castro em 1962). Agravada, nesse caso específico, pelo fato de atores regionais de relevância, como o Brasil, terem perdido exatamente essa relevância frente a vizinhos turbulentos.

Nesse sentido, é eloquente o contraste entre, de um lado, os “profissionais” com experiência em crises internacionais, como os generais que integram o governo Jair Bolsonaro. E, de outro, o voluntarismo de amadores das áreas de política externa e ideológicas à volta do presidente. Os “profissionais” têm pouco apreço por soluções improvisadas por motivação político-eleitoral, baseadas em duvidosa análise da realidade dos fatos e relação de forças. Não se empolgam com Guaidó. Os amadores adotam parábolas marxistas sobre História.

Para entender a miséria da Venezuela

VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 01/05

Preço do ovo, salário e petróleo contam um pouco da vida impossível no vizinho

A vida cotidiana parece impossível na Venezuela. Parece inviável até quando a gente compara a dureza dos vizinhos à situação terrível das famílias muito pobres no Brasil, que recebem em média R$ 186 por mês do Bolsa Família e pagam R$ 2,50 pelo quilo do arroz mais barato. Pode ser pior.

Uma dúzia de ovos em Caracas sai por 6.400 bolívares. Um quilo de arroz, por 8.000 bolívares. O salário mínimo, mais o bônus alimentação, é de 65 mil bolívares, US$ 12,50, pelo câmbio oficial. Um frango custa uns 25 mil bolívares. Uma banana (uma unidade), 1.200 bolívares. Mais da metade dos trabalhadores do setor formal ganha um salário mínimo, mas as estatísticas são precárias.

É difícil entender a economia de um país em que a inflação em março era de 1.623.656% ao ano. Baixou um pouco. Havia chegado a 2.688.670%, em janeiro. 

No auge do horror, a inflação brasileira foi a 6.821% ao ano, em 1990. Diferença de milhares para milhões, favor prestar atenção.

A inflação é calculada pela Assembleia Nacional, pois faz muitos anos ninguém acredita nas mentiras do governo (quando os números existem). É preciso recorrer a estimativas privadas ou a instituições internacionais para saber algo tão básico quanto o valor da produção nacional, o PIB.

Os números da ONU (Cepal) e do FMI divergem um pouco, mas desde 2013 a economia encolheu pelo menos 45%. O PIB do Brasil, que vive uma depressão, diminuiu 4,2% no mesmo período. Nos chutes para este ano, a recessão venezuelana deve ser de 10% a 25%.

Em uma década, a produção de veículos caiu uns 95%. Sim, quase tudo se foi, quase não se fabricam carros por lá, como quase mais nada. O que havia de indústria foi arruinado por desordem extrema e por importações, facilitadas pela demagogia do dólar barato e pagas pelo petróleo caro —enquanto durou.

As importações totais do país caíram 85% desde 2012. O país não tem dólares suficientes para comprar produtos no exterior, dá calotes na dívida e se vira com refinanciamentos e empréstimos de russos e chineses. Nos chutes informados do FMI, a taxa de desemprego seria de 35%.

O país começou a entrar em colapso no ano da morte de Hugo Chávez, em 2013. Na média dos últimos 20 anos, cerca de 90% do valor das exportações veio do petróleo (mais de 95%, nesta década). 

O preço do barril baixou muito a partir de 2014, o que explodiu de vez a economia, é verdade.

No entanto: 1) Quase todos os países da América Latina vivem de commodities. Mesmo levando em conta a importância excessiva do petróleo, a Venezuela se desgraçou mais que os vizinhos; 2) O governo gastava como se o preço do barril fosse ficar alto para sempre. Quem tem renda variável e despesa permanentemente alta, um dia quebra; 3) O governo destruiu a PDVSA, a petroleira estatal; 4) Não há nada parecido com política econômica na Venezuela faz mais de dez anos; 5) A produção de petróleo caiu pela metade desde 2013.

O déficit do governo começou a explodir nesta década. Nas contas do FMI, anda pela casa de 30% do PIB (no pior desta crise desesperadora, chegou a 11% no Brasil). O governo paga as contas com emissão de dinheiro (digital, pois nem imprimir notas consegue: falta moeda na praça).

Sim, o boicote americano piorou a situação, o que nem de longe explica o desastre. A reconstrução, se e quando vier, vai depender de anos de tutela e de empréstimos externos de muitas dezenas de bilhões de dólares.

Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Um conto chinês

Monica De Bolle - O Estado de S.Paulo

Apesar da queda da produção de petróleo, o regime de Maduro tem sido capaz de se sustentar

Quando se trata da China, o que se destaca na América Latina são os lados positivos de relação por vezes tão disparatada quanto a cena de abertura do filme de Sebastián Borensztein: uma vaca cai do céu matando uma jovem – após a cena inicial, lê-se “baseado em fatos reais”. Os fatos reais geralmente destacados são a maior integração comercial entre a China e a região, a realidade de que a China já ultrapassa os EUA – em alguns casos – no peso que tem na América Latina, os volumosos investimentos chineses. Segundo dados compilados pelo Inter-American Dialogue, o banco de desenvolvimento da China (China Development Bank, CDB) e o China Ex-Im Bank, duas das maiores instituições financeiras do país, têm sido responsáveis pelo envio de recursos para conjunto seleto de países desde 2005. São eles: Argentina, Brasil, Equador e Venezuela.

Do que é possível saber – transparência não é o forte dos investimentos chineses – a China fez 17 empréstimos para a Venezuela, totalizando cerca de US$ 63 bilhões. Para o Brasil, foram 12 empréstimos no montante de US$ 42 bilhões. Para a Argentina, US$ 18 bilhões por meio de 11 empréstimos. Os dados provavelmente subestimam a presença do investimento chinês na região, sobretudo na Venezuela, onde os arranjos entre os dois governos estão encobertos por véu de mistério.

O que se sabe é que a China, transacional e pragmática, não está mais dando dinheiro ao regime de Nicolás Maduro. Ao contrário, os chineses andam mais preocupados em receber o que lhes é devido, seja na forma de pagamentos diretos, seja por meio de barris de petróleo. Apesar da queda sistemática da produção de petróleo, o regime de Maduro tem sido capaz de se sustentar. O PIB em queda livre e a hiperinflação que engoliu a Venezuela não prenunciam o fim da ditadura.

Mas este não é mais um artigo sobre a Venezuela. Este é um artigo sobre a atuação da China na Venezuela para além do comércio, dos investimentos e das transações opacas entre o país asiático e a PDVSA, a empresa de petróleo venezuelana. Dia desses, assisti a um dos vídeos mais perturbadores que já havia visto sobre a atuação dos chineses na Venezuela. Tratava-se de uma reportagem investigativa do New York Times sobre o que a China anda fazendo na região. Intitulado “O Equipamento Antiprotesto que os Déspotas Amam” (“The Anti-Protest Gear that Despots Love”) e disponível no YouTube, a reportagem mostra como os imensos protestos que tomaram as ruas de Caracas em abril e maio de 2017 foram eliminados. Reparem: não há mais protestos daquela magnitude desde então, ainda que a situação de penúria, miséria, tragédia em que vive a população só tenha piorado. Por quê?

Norinco, a empresa estatal chinesa especializada em equipamentos militares, vendeu para o governo Maduro tanques e veículos desenhados para montar barreiras e arremessar mísseis de gás lacrimogêneo e canhões de água nas multidões. As mortes – muitas não reportadas – e os milhares de feridos nos protestos do ano passado resultaram do uso do aparato antiprotestos fabricado e vendido pelos chineses. O sumiço das multidões desde então deve-se ao medo de ser vítima de um sofisticado equipamento para suprimir demonstrações legítimas e pacíficas. Como soube disso? Não por meio dos jornais, ou por ampla divulgação da reportagem do New York Times pela mídia. Soube diretamente de um jovem político venezuelano hoje exilado aqui em Washington que teve a sorte de escapar – pela fronteira entre o Brasil e a Venezuela – das garras de Maduro. Ele estava lá, nos protestos de 2017. Enfrentou os tanques e foi derrotado por eles.


Esse é apenas um dos relatos chocantes sobre a atuação da China na Venezuela. O outro diz respeito à empresa de tecnologia ZTE, alvo de sanções dos EUA, que vendeu para Maduro os chips da nova carteira de identidade anunciada em novembro. Para ter acesso a medicamentos, comida, aposentadorias, venezuelanos têm de adquirir a nova carteira, cuja tecnologia permite que cidadãos sejam rastreados e monitorados todo o tempo pela ditadura homicida. Qualquer semelhança com Orwell é mais do que mera coincidência. É a implantação da mais perversa distopia debaixo dos narizes de todos. Onde estão as denúncias?


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* Economista, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University


domingo, 6 de abril de 2014

Autoritarismo crescente

 EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR


Governo da Venezuela, já habituado a tomar da iniciativa privada imóveis comerciais, agora se volta aos donos de imóveis residenciais

O ditador venezuelano, Nicolás Maduro, segue disposto a fazer seu país rumar na direção do caos e do desrespeito completo aos mais básicos dos direitos individuais. Se em 2011 o caudilho Hugo Chávez manifestou o desejo de “expropriar” (o eufemismo comunista para o roubo cometido pelo Estado) as propriedades no balneário caribenho de Los Roques, agora Maduro coloca em prática outra violência, ao dar a proprietários meros 60 dias para vender, a preços muito camaradas, imóveis que estejam sendo habitados pelo mesmo inquilino há pelo menos 20 anos. Se alguém ainda tinha dúvidas de que o direito à propriedade já não vigorava na Venezuela, agora pode ter certeza absoluta disso.

A fúria de expropriações começou pelas empresas. Chávez não tinha o menor escrúpulo em nacionalizar empresas de agronegócio, siderúrgicas, petrolíferas, metalúrgicas, fazendas e supermercados. No fim de 2013, com a Venezuela já vivendo uma grave crise de abastecimento cujo maior símbolo é a falta de papel higiênico nos supermercados, Maduro, eleito para suceder ao falecido Chávez, ordenou a invasão da rede de lojas Daka, mandou prender gerentes e promovou uma “liquidação bolivariana”, com eletrodomésticos sendo vendidos por menos da metade de seu preço. Mas o ato desta semana indica que a ditadura bolivariana não está satisfeita em tomar para si imóveis comerciais: agora, também quer os residenciais.

Em qualquer democracia, ninguém pode ser forçado a se desfazer de sua propriedade a não ser sob circunstâncias muito específicas, como um evidente interesse público. Mesmo assim, o proprietário tem direito a uma indenização justa. É um princípio tão óbvio que até mesmo Hugo Chávez o deixou escrito na Constituição bolivariana que promulgou. Mas, como diz o ditado, o papel aceita tudo: importa a maneira como se aplica a Constituição, e os três poderes venezuelanos há muito deixaram claro que o texto de nada vale: basta recordar como a lei maior do país foi atropelada para permitir que Chávez tomasse posse de um novo mandato mesmo estando moribundo, em um hospital de Havana. Em comparação com o circo montado por ocasião da posse, roubar imóveis de seus legítimos proprietários soa como tirar doce de criança.

À violência contra os proprietários de imóveis residenciais soma-se a continuação da repressão nas ruas aos protestos de oposição, e especialmente a resposta bolivariana à tentativa da deputada Maria Corina Machado de retomar seu trabalho de parlamentar. Corina teve seu mandato ilegalmente cassado por Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional venezuelana, em uma dupla violação da Constituição: primeiro, porque as razões alegadas por Cabello não se aplicavam no caso de Corina, que aceitou uma oferta do Panamá para poder falar sobre a ditadura venezuelana em uma reunião da OEA; segundo, porque a cassação ocorreu sem processo no Judiciário venezuelano – o Tribunal Supremo de Justiça não a julgou, limitando-se a simplesmente referendar a decisão de Cabello. Na terça-feira, Corina tentou entrar no Parlamento, mas as milícias chavistas a impediram; a polícia usou gás lacrimogêneo para dispersar tanto os apoiadores de Corina quanto os bolivarianos.

Corina veio ao Brasil para falar diante do Senado brasileiro na quarta-feira, denunciando o crescente autoritarismo do governo venezuelano – agora ressaltado até pela conferência episcopal do país – e apelando ao Brasil para que deixe de fazer o lamentável papel de cúmplice da ditadura que vem exercendo até agora. Corina aproveitou os 50 anos do golpe de 1964 para apelar a Dilma Rousseff, perseguida pelos militares durante a ditadura. “Esperamos que todos os líderes que sofreram perseguição tenham solidariedade, uma empatia maior com o que estamos vivendo na Venezuela”, disse Corina. Parece difícil que o pedido seja atendido, pois, para o petismo, Maduro é um democrata, independentemente do que faça, e Corina é a “golpista”, de acordo com essa maneira de pensar que confere à esquerda o monopólio da bondade.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Universo paralelo


 EDITORIAL 
GAZETA DO POVO - PR 

O “Vice-Ministério da Felicidade”, o rosto de Chávez em um túnel de metrô e o Natal antecipado por decreto são factoides para desviar a atenção do caos econômico e social por que passa a Venezuela

Em um desses casos em que a realidade supera mesmo a ficção mais surreal, a Sucupira de Dias Gomes, a Macondo de Gabriel García Márquez, a Antares de Erico Verissimo parecem fichinha perto da Venezuela de Nicolás Maduro. O país, que já vinha fora dos trilhos quando Hugo Chávez era vivo, parece ter descarrilado completamente. Já era possível supor que as coisas não iam bem em abril, na campanha eleitoral em que Maduro disputou a Presidência contra Henrique Capriles. Na época, o então candidato bolivariano havia dito que o falecido Chávez lhe havia aparecido, na forma de um passarinho, e abençoado sua candidatura.

Mas, nos últimos dias, o surrealismo tomou proporções que nem mesmo os autores mais criativos teriam imaginado. No fim de outubro, Maduro criou o Vice-Ministério da Suprema Felicidade do Povo Venezuelano, teoricamente com o objetivo de unificar os programas assistencialistas levados a cabo pelo governo do país. Dias depois, o presidente foi à imprensa mostrar imagens do que seria o rosto de Hugo Chávez surgido em um túnel do metrô de Caracas. A última de Maduro foi antecipar o Natal – não de forma alegórica, como quando o comércio começa a exibir enfeites natalinos semanas antes da festa; a antecipação ocorreu por decreto: “Hoje, sexta-feira, 1.º de novembro, quisemos decretar a chegada do Natal, porque queremos a felicidade para todo o povo, a paz”, disse o presidente após visitar a Feira Natalina Socialista, em Caracas, onde conversou com os reis magos e cantou canções típicas natalinas. “O Natal antecipado é a melhor vacina para os que querem inventar tumulto e violência. Natal adiantado. Aqueles que andam amargurados por aí terão uma canção natalina do Pacheco, ou uma seresta para alegrar a alma”, continuou, referindo-se a Francisco Pacheco, um compositor local.

Tantos factoides servem a apenas um propósito: desviar a atenção da sociedade venezuelana para o caos em que se encontra a economia do país. Apesar da enorme riqueza que o petróleo poderia proporcionar à Venezuela, que tem reservas estimadas em quase 300 bilhões de barris (as maiores do mundo), o país vive o caos econômico. A inflação deve fechar o ano em torno de 50% e o próprio Banco Central da Venezuela reconhece, em um relatório divulgado recentemente, que a escassez de produtos é alarmante: na capital, Caracas, 98,8% dos mercados não têm óleo de milho para vender. A situação se repete para outros 15 produtos, incluindo leite (84,3%), açúcar (80,8%) e farinha de milho (73%). O papel higiênico, que se tornou um símbolo do desespero dos venezuelanos por produtos básicos, está em falta em 79% dos estabelecimentos de Caracas.

O presidente Maduro recorre a teorias da conspiração para justificar o desabastecimento, falando em “guerra internacional”, quando na verdade a produção é desestimulada por fatores como o controle estatal dos preços, o que por sua vez estimula um mercado negro que desvia para a Colômbia o pouco que ainda é produzido em solo venezuelano. O Brasil também sofre com os efeitos do descontrole no país vizinho, com empresas brasileiras tendo dificuldade para receber o pagamento por exportações feitas à Venezuela, embora isso seja muito pouco em comparação com a situação de quem não consegue comprar leite ou açúcar.

Os resultados do “socialismo do século 21” ficam evidentes. Os governos anteriores venezuelanos mantiveram o povo na penúria, mas o chavismo já dura quase 15 anos e, mesmo assim, um país premiado com a abundância de uma commodity fundamental para todo o mundo ainda não foi capaz de garantir prosperidade para sua população. Pelo contrário: os venezuelanos não convivem apenas com inflação e desabastecimento, mas também com a violência – a taxa de homicídios venezuelana, segundo as Nações Unidas, foi de 45,1 mortes para cada 100 mil habitantes em 2012 (a do Brasil foi de 25,8). Para colocar ordem no país (é o que ele alega), Nicolás Maduro pediu ao Legislativo venezuelano que aprovasse a Lei Habilitante, para que ele pudesse governar por decreto por 12 meses. Ironicamente, foi justamente na última vez em que vigorou a Lei Habilitante que Chávez decretou a Lei de Preços Justos, a origem de toda a crise de abastecimento.

domingo, 20 de outubro de 2013

Na arapuca chavista


Editorial
Folha

Quando governou a Venezuela de forma interina por mais de cem dias, Nicolás Maduro mostrou-se um presidente fraco. Analistas condescendentes imaginavam que a sombra de seu mentor e padrinho político, Hugo Chávez, o impedisse de arriscar passos próprios.

Não era o caso. Maduro já está há seis meses na Presidência efetiva da Venezuela, e os problemas se acumulam --administrar o país parece um trabalho além de sua capacidade. A inflação anual beira 50%; o PIB crescerá cerca de 1%; o desabastecimento de alimentos aumenta; a insegurança campeia.

Vencedor de uma disputa apertada em 14 de abril, Maduro beneficiou-se eleitoralmente da comoção pela morte de Chávez (1954-2013) e, agora, aferra-se à cartilha populista deixada pelo antecessor.

Repetindo o que Chávez fez quatro vezes no poder, tenta aprovar uma lei habilitante para governar por decreto, durante um ano, na economia e na luta anticorrupção.

Não há sinais, porém, de que Maduro pretenda promover mudanças profundas e necessárias na economia venezuelana. O câmbio, por exemplo, permanecerá controlado, apesar de o dólar ser vendido no mercado paralelo a um preço seis vezes maior do que a taxa oficial.

O aprendiz de caudilho tampouco mexerá no preço da gasolina, a mais barata do mundo --um litro custa R$ 0,03. Mantém-se o populismo, mesmo que signifique não enfrentar o deficit no Orçamento, já de 8,5% do PIB no ano passado.

Enquanto isso, itens básicos, como leite e carne, escasseiam nas prateleiras, já que são pouco produzidos no país e têm a importação dificultada pela falta de dólares.

O descontrole geral anima criminosos organizados, que se sentem à vontade para ampliar remessas de cocaína ao exterior. No mês passado, a polícia da França encontrou 1,3 tonelada da droga num avião comercial que partiu de Caracas --foi a maior apreensão do tipo na história francesa.

Ante fatos negativos, Maduro recorre a outra fórmula chavista: criou o Centro Estratégico de Segurança e Proteção da Pátria. Dirigido por um general e responsável por monitorar "atividade inimiga interna e externa", decide quais dados do governo são secretos ou não. Além disso, qualquer entidade é obrigada a entregar informações solicitadas pelo órgão.

Num país em que a imprensa sofre restrições amiúde, fica ainda mais difícil avaliar o real apoio que o presidente encontra na população. As eleições municipais de dezembro, sem dúvida pouco livres, serão, de todo modo, um termômetro inicial do mandato de Maduro.
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