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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Paradoxos da globalização

Monica De Bolle*

“A culpa é do capitalismo global, financeirizado e desigual.” 

Frases de efeito como essa ressurgem sempre que o mundo é sacudido por evento inesperado. A crise financeira de 2008 foi evento inesperado. O voto britânico pela saída da União Europeia (UE) foi evento inesperado. Complexos, ambos suscitam perguntas e levantam teses. Mas, para todo problema complexo existe uma solução clara, simples, e errada. A solução não é acabar com o capitalismo ou reverter a globalização.


O que diz a literatura empírica e acadêmica sobre a globalização? É verdade que a globalização aumentou a desigualdade mundo afora? De onde vem o sentimento nacionalista que se alastra nas economias maduras? Seria hora de repensar o ritmo da integração global?

As evidências. Em livro recém-publicado, o economista Branko Milanovic, um dos maiores especialistas mundiais em desenvolvimento econômico e desigualdade, desvelou gráfico famoso, hoje conhecido como o “gráfico do elefante”. Ao analisar os aumentos da renda por habitante ajustados pela inflação em relação aos níveis globais de renda entre 1988 e 2008 – auge da globalização –, o autor descobriu que a parcela da população global que mais se beneficiou foi a classe média. Ou seja, ao contrário do que reza o senso comum, a classe média global passou por notável expansão durante o período de maior aceleração da globalização, entre a queda do muro de Berlim e a crise de 2008. Grande parte disso deve-se ao aumento considerável da classe média na China e no restante da Ásia. O gráfico impressiona pois, além de contradizer ideias preconcebidas, revela outro ponto interessante: a parcela que menos se beneficiou da globalização foi justamente a composta por pessoas pertencentes à classe média baixa dos países maduros.

O formato de tromba de elefante vem da constatação de que os ganhos dos rendimentos no meio da distribuição global de renda cai abruptamente quando se chega aos 20% mais ricos, apenas para subir novamente de modo súbito quando se alcança o topo do topo, isto é, o 1% mais rico.
Portanto, a globalização não aumentou a desigualdade de renda no mundo – na verdade, a globalização contribuiu para reduzi-la. Contudo, o que ocorreu foi que parte relevante da classe média mais vulnerável nos países desenvolvidos foi excluída desse processo. Sua renda não subiu, nem caiu – portanto, não houve piora absoluta. Porém, essas pessoas foram testemunhas de ganhos acelerados nas rendas dos mais ricos de seus países, e da renda de países mais pobres no mundo, criando um perigoso sentimento de exclusão relativa.

De certo modo, é esse sentimento que hoje se manifesta de maneira difusa em movimentos como o Brexit, a ascensão de Donald Trump nos EUA, a adesão aos discursos de políticos nacionalistas como Marine Le Pen na França. Digo de maneira difusa pois a sensação de terem sido privados de algo provoca reações diversas nessas pessoas – do resgate das velhas tradições à xenofobia, do nacionalismo cego à vontade de retomar a autonomia nacional, fora de grandes blocos e projetos como a UE, que naturalmente levam a que se ceda parte da soberania.

Seria a hora de reaver o ritmo da integração global? Em seu The Globalization Paradox, o economista e Professor de Economia Política da Universidade de Harvard Dani Rodrik descreve o trilema da globalização: a ideia de que não é possível ter, simultaneamente, um regime democrático, plena autonomia nacional, e globalização, sobretudo a globalização acelerada que marcou uma era. Há que se escolher duas dessas três premissas – a terceira, seja qual for, é sempre incompatível com as demais. O Brexit, por mais que pareça ser suicídio político e econômico para muitos, é expressão do trilema. A opção de retirar-se da UE foi exercida para que se pudesse recuperar autonomia nacional, já que sua relativa redução não mais servia à parcela da população que sente-se privada dos ganhos com a globalização.

Eis, portanto, o paradoxo: a globalização reduz desigualdade, mas o faz de modo demasiado desigual. O desafio não é revertê-la. O desafio é descobrir como atenuar a desigualdade da redução da desigualdade.

*Economista, pesquisadora do Peterson Institute For Internacional Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University

O lagarto interior

 Monica Baumgarten de Bolle  
ESTADAO.COM.BR

“A maioria de nós é saudável a maior parte do tempo, e a maior parte de nossos julgamentos e ações são apropriadas a maior parte do tempo. Navegamos o cotidiano permitindo que nossas impressões e sentimentos, a confiança que depositamos em nossas intuições e preferências nos guiem, o que geralmente é justificado pelas nossas experiências. Contudo, nem sempre isso é verdade. Exibimos essa confiança mesmo quando estamos errados, o que um observador independente é capaz de detectar com maior facilidade do que nós próprios.” O trecho é do livro do consagrado psicólogo e estudioso de economia comportamental Daniel Kahneman, Thinking, Fast and Slow.

“E se eu lhe dissesse que a totalidade de sua visão de mundo não tem qualquer relação com informação ou fatos? A política não é simplesmente matéria de julgamento. O posicionamento político de cada um provém de suas necessidades psicológicas. Indivíduos ansiosos devido à incerteza que os cerca serão atraídos por mensagens que oferecem a certeza.” A certeza tem um preço, como afirma o psicólogo Arie Kruglanski em vídeo recém-produzido pelo New York Times, intitulado, justamente, O Preço da Certeza. Em 1989, Kruglanski formulou o conceito de “necessidade cognitiva de encerramento”, comportamento enraizado em todos nós como mecanismo de defesa, de repúdio às incertezas, ainda que o preço a pagar por isso sejam escolhas erradas, que acabem, inclusive, por aumentar as mesmas incertezas que buscamos extirpar.

Não é de hoje que economia e psicologia se entrecruzam no fascinante campo da economia comportamental (“behavioral economics”). As teses, os conceitos, os experimentos empíricos desse riquíssimo campo de pesquisa acadêmica ajudam a explicar não apenas porque o ser humano nada tem de puramente racional, contradizendo alguns antigos preceitos dos modelos econômicos. O cruzamento interdisciplinar entre a economia como ciência social e a psicologia fornecem poderoso instrumental para entender a crescente polarização mundo afora e eleição americana adentro.

Em 29 de junho de 2016, escrevi artigo para este jornal intitulado Paradoxos da Globalização, em que discorri sobre a incerteza causada pela globalização. Em particular, salientei que, embora a globalização não tenha aumentado a desigualdade global, conforme atestam diversos estudos empíricos, ela contribuiu para o aumento do sentimento de exclusão relativa, isto é, da percepção de que ainda que os benefícios sejam identificáveis, alguns se beneficiaram mais do que outros. Os menos favorecidos, conforme atestam outros estudos de economia comportamental, importam-se mais com a sua posição relativa na distribuição de renda do que com eventuais melhorias absolutas em seu padrão de vida. O sentimento de exclusão relativa atiça a incerteza e a inquietude desse grupo, deflagrando a “necessidade cognitiva de encerramento”, o padrão de comportamento em que o mecanismo do pensamento rápido contido na parte mais primitiva do cérebro humano – o lagarto que vive em todos nós – tome decisões desconsiderando parte relevante do conjunto de informações disponíveis, algumas em contradição com a busca pela “certeza”.

Mundo marcado por essa busca incessante de certezas fáceis é mundo perigoso. Trata-se de mundo suscetível às mensagens isolacionistas e xenófobas de Donald Trump, de mundo que cede à tentação do populismo de extrema direita e de extrema esquerda. De mundo, enfim, que para de refletir com o mecanismo lento do cérebro, permitindo a ascensão dos lagartos. Esse mundo não mudará com o resultado das eleições americanas seja ele qual for. A polarização e o repúdio à globalização, o populismo, o protecionismo, as certezas fáceis cobrarão seu preço. Países avançados tenderão a se fechar, países de viés autoritário tornar-se-ão mais atraentes – a eleição americana, afinal, desvelou o fascínio pela Rússia de Putin. Ao final, teremos menos crescimento global, menos renda para distribuir mundo afora.

Diz Arie Kruglanski no fim do vídeo do New York Times: “Duvide de seu senso de virtude e justiça, de suas certezas. A alternativa é o abismo”. A alternativa é o abismo.


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