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domingo, 27 de maio de 2018

Greve de caminhoneiros’. Onde?

Elio Gaspari: ‘- O Globo

De uma hora para outra, houve uma greve de caminhoneiros e o presidente da Petrobras, Pedro Parente, tornouse o responsável por dias de caos. Duas falsidades.

O que houve não foi uma greve de caminhoneiros, mas uma doce parceria com os empresários do setor de transporte de cargas rodoviárias. Diante dele, o governo capitulou. A repórter Míriam Leitão mostrou que só 30% dos caminhões pertencem a motoristas autônomos. Na outra ponta estão pequenas empresas subcontratadas e grandes transportadoras. Uma “greve de caminhoneiros” pressupõe greve de motoristas de caminhão. Isso nada tem a ver com estradas obstruídas.

Pedro Parente não provocou o caos. Desde sua posse na presidência da Petrobras, ele descontaminou-a do caos que recebeu. Na base dessa façanha esteve uma nova política de preços, acoplada ao valor do barril no mercado internacional. É assim que as coisas funcionam em muitos países do mundo. Se o preço do diesel salgou a operação do setor de transporte de cargas, o problema é dele, não de uma população que foi afetada pelo desabastecimento e agora pagará a conta. Os empresários sabiam muito bem o tamanho da confusão que provocariam.

O sujeito oculto da produção do caos foi o governo de Michel Temer. No seu modelito Davos, orgulhou-se da política racional de preços dos combustíveis. Já no modelito MDB-DEM-PP-PR-PPS, fez de conta que ela não teria custo político. Deveria ter provisionado um colchão financeiro para subsidiar a Petrobras, mas essa ideia era repelida pelos sábios da ekipekonômica. Diante do caos, descobriram que o colchão era necessário.

O governo tolerou a bagunça e associou-se ao atraso. A primeira reação de Temer deveria ter sido a responsabilização dos empresários, desmistificando a ideia de “greve dos caminhoneiros”. Bloqueou estrada? Reboco o caminhão, caso ele não pertença ao motorista. Queimou o talonário do policial que multou o veículo? Prendo-o. Só mudou o tom e exerceu a autoridade na sexta-feira, usando a força federal para desobstruir estradas.

Desde o primeiro momento tratou-se do caso com o gogó, deixando que o problema deslizasse para a Petrobras e seu presidente. Conseguiram piorar a discussão, beneficiando grupos de pressão, com o dinheiro dos outros.

A lição de Pedro Parente para os sábios
Na entrevista teatral e inútil que os ministros deram na quinta-feira, o doutor Carlos Marun defendeu a capitulação do governo diante da suposta greve dos caminhoneiros, referindo-se ao que denominou de “realidade brasileira”.

Teve toda razão, mas essa realidade está aí há 518 anos.

Em 2013, o prefeito Fernando Haddad aumentou as tarifas de ônibus e foi para um evento em Paris com o governador Geraldo Alckmin. Numa esticada noturna, cantaram “Trem das Onze”. Deu no que deu. O economista Edmar Bacha, conselheiro econômico do candidato Alckmin, cunhou a expressão Belíndia. Hoje se vê que os economistas belgas precisam aprender a viver com a realidade da Índia.

A política de preços da Petrobras estava certa. O que faltou foi combinar com os russos, com o setor de transporte de cargas rodoviárias, com as empresas e, finalmente, com os motoristas de caminhão. Faltou sobretudo acautelar-se. Perplexos, os belgas acordaram na Índia.

Pedro Parente foi satanizado até mesmo pelo senador Cássio Cunha Lima (PSDBPB), que o acusou de “arrogância” e pediu sua demissão. O senador Eunício de Oliveira (MDB-CE) seguiu na mesma linha, e o candidato a presidente Henrique Meirelles, corifeu do liberalismo de Temer, foi gloriosamente evasivo.

Pedro Parente fez o que devia como presidente da Petrobras. Quem desafiou a “realidade brasileira" foram Temer, sua ekipekonômica e a claque belga que os aplaudia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Trump e os marajás brasileiros



ELIO GASPARI
O GLOBO 

Ele vai trabalhar por US$ 1, seus similares nacionais poderiam pelo menos respeitar os tetos constitucionais


Donald Trump fixou em um dólar o seu salário anual. Perderá US$ 1,6 milhão, uma mixaria para quem tem um patrimônio estimado em US$ 3,7 bilhões. Pode-se dizer que isso é coisa de demagogo. Ou de vigarista. Esse foi o adjetivo que lhe dedicou Michael Bloomberg, outro bilionário. Como prefeito de Nova York de 2002 a 2013, ele assumiu o mesmo compromisso e recebeu exatos US$ 12.

Bloomberg foi um grande prefeito, e Trump é uma grande ameaça. Ambos emitiram um sinal. Se alguém lhes contasse que no Brasil os governos da União e dos estados têm tetos constitucionais para os salários de seus servidores, mas eles são sistematicamente descumpridos, veriam nisso uma oportunidade para mostrar aos eleitores por que entraram na política.

Quem estoura os tetos não são os servidores que tomarão ferro com a reforma da Previdência ou os que estão sendo chamados a pagar a conta da farra do Rio de Janeiro. Estourar teto é coisa para maganos, grandes burocratas, magistrados e até mesmo professores universitários. Ninguém faz nada ilegal, e aí é que está o problema. Dentro da legalidade, fabricam-se mimos que, livres da dentada do Imposto de Renda, custam à Viúva algo como R$ 10 bilhões anuais. Esse dinheiro seria suficiente para salvar as finanças do Rio por um ano e ainda sobraria alguma coisa.

Quando aparecem os mimos da magistratura e dos procuradores, vem a grita de que se pretende mutilar a independência do Judiciário. Se alguém divulga a lista de premiados do magistério, vê-se uma ameaça à autonomia universitária. Quem pede para ver o preço dos auxílios e vantagens do Legislativo é um perigoso cerceador das liberdades públicas. Ministros da caravana de Temer, muito bem aposentados antes de completar 60 anos, informam que o Brasil precisa reformar sua Previdência e continuam acumulando os contracheques que produzem a ruína fiscal.

Cada corporação beneficiada embolsa em silêncio, deixando a defesa de seus interesses a cargo de vagas associações de classe. A dos magistrados chegou a criticar os ministros do Supremo que condenaram “gambiarras” e “puxadinhos” que levam os salários de desembargadores a R$ 56 mil (MG), R$ 52 mil (SP) e R$ 39 mil (RJ), quando o teto salarial dos servidores é de R$ 33,7 mil. Um levantamento dos repórteres Eduardo Bresciani e André de Souza mostrou que a Justiça tem pelo menos 13.790 servidores ganhando acima do teto.

Chega a ser uma malvadeza acreditar que o Judiciário é o pai da farra salarial dos marajás. Ele é apenas o mais astuto e, muitas vezes, o mais prepotente. Podendo ser parte da solução, decidiu se transformar em paladino do problema.

Trump e Bloomberg toparam trabalhar por um dólar, mas são bilionários. A magistratura brasileira poderia limpar esse trilho, decidindo que nenhum servidor, a qualquer título, pode levar para casa mais de R$ 33,7 mil mensais. Ninguém passará fome.


Infelizmente, em junho passado o juiz mineiro Luiz Guilherme Marques pediu para ficar sem o seu reajuste enquanto durar a crise da economia nacional. Dentro da lei, ele ganha R$ 41 mil líquidos. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais indeferiu seu pedido, pois salário é coisa “irrenunciável”.
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domingo, 18 de setembro de 2011

A grande entrevista de Jacqueline Kennedy


ELIO GASPARI
FOLHA DE SP

Saiu nos Estados Unidos o pacote de sete longas entrevistas que Jacqueline Kennedy deu ao historiador Arthur Schlesinger Jr. em 1964, poucos meses depois do assassinato de seu marido. É um retrato de uma grande mulher, dona de um vontade de ferro e imbuída de um raro sentido da História, escondida atrás de uma delicada aparência de refinada futilidade. Lia melhor que o marido, guardava até rabiscos e tinha um fino senso de humor: "'Primeira-Dama' parece nome de cavalo de corrida".

Até a sua morte, em 1994, aos 65 anos, Jackie deu apenas três entrevistas. Na primeira, dias depois do assassinato de Kennedy, criou o mito de "Camelot", a lenda de cavalaria medieval semelhante, em sonho, ao governo de seu marido. A segunda saiu do cofre agora. A terceira só será conhecida em 2067.

Jackie sofrera como poucos. O pai (que ela adorava), tomou um porre e não apareceu na cerimônia do seu casamento. Morrera-lhe um filho com poucos dias de vida e, em Dallas, teve os miolos do marido espalhados no vestido.

Nas sete conversas de 1964, Jacqueline falou para o século seguinte. John Kennedy não tinha defeitos e seu papel fora servi-lo. Uma Amélia chique. Ao contrário do que se esperava, a cama da Casa Branca ficou fora da pauta. Há apenas uma breve referência a um adversário político que se orgulhava de jogar squash e fazer sexo uma vez por semana, numa insinuação sobre a saúde débil de Kennedy. Ela contou o caso e gargalhou, junto com Schlesinger. ("Jacqueline Kennedy -- Historic conversations on life with John F. Kennedy" vem junto com seis CDs. O pacote está na Amazon e nos Estados Unidos o e-book pode ser baixado por US$ 9,99. Ouvir Jackie com sua adorável e afetada língua presa é um bálsamo para quem convive com a sonoplastia de Lula.)

Kennedy chorou nos dias seguintes à fracassada invasão de Cuba, em 1961, quando 2.500 exilados da força expedicionária foram capturados pelas tropas castristas. Sua descrição dos prisioneiros quando retornaram, trocados por tratores, mostra a alma da senhora: "Eles tinham uns rostos maravilhosos, como os de El Greco. Muito magros."

Jacqueline conta a crise dos mísseis soviéticos colocados em Cuba com alguma emoção. Nunca o mundo esteve tão perto da Terceira Guerra, mas Kennedy só lhe contou o rolo quatro dias depois de seu início. Ele não sugeriu que deixasse Washington, mas ela pediu para ficar. (Em Moscou, alguns familiares da nomenclatura viajaram.)

A moça criada na Nova Inglaterra, lapidada na França e casada numa família de milionários primitivos, lustrou a biografia liberal de Kennedy, mas tropeçou em dois personagens. E que personagens: Franklin Roosevelt e Martin Luther King.

A respeito de Roosevelt, relembrou:

"Ele (Kennedy) às vezes o considerava um charlatão - charlatão é uma palavra injusta, e você entende o que estou dizendo, um pouco poseur, esperto."

Com Martin Luther King a coisa piora: "Ele me contou de uma gravação do FBI de quando King esteve aqui para a Marcha da Liberdade (a do discurso do "eu tive um sonho"). (...) Ligava para umas garotas, armando uma festa de homens e mulheres, uma orgia no hotel. (...) Eu não posso ver retratos dele sem pensar, sabe, aquele homem era horrível." (Kennedy, cuja cama já fora grampeada, tentou intimidar King com a "vigilância" do FBI, mas ele se fez de bobo.)

No dia 16 de outubro o companheiro Obama inaugurará o memorial de King em Washington, onde há monumentos a Thomas Jefferson, Abraham Lincoln e Roosevelt.

A conta do golpe foi para Lyndon Johnson

Amaestria de Jacqueline Kennedy na construção e na propagação do mito de seu marido pode ser comprovada numa referência que faz ao Brasil em sua entrevista.

A certa altura ela diz que Kennedy achava que João Goulart era "falso" e "ladrão". Nessa conversa, ocorrida em junho de 1964, ela recorda que "os Estados Unidos reconheceram a junta do Brasil muito rapidamente. (...) Uma desilusão. (...) Jack nunca teria feito isso."

A família e a equipe de Kennedy desprezavam o vice-presidente Lyndon Johnson e, depois de Dallas, trataram-no como se fosse o primeiro-ministro da União Soviética, mas essa conta não é dele. É de "Jack".

A carta do golpe militar no Brasil foi colocada no baralho no dia 30 de julho de 1962, durante uma reunião do presidente Kennedy com o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon. (Nesse dia ele começou a gravar suas conversas no Salão Oval, inclusive essa.)

Em setembro, o Departamento de Estado aprontou um documento, intitulado "Proposta de política de curto prazo: Brasil". Ele propõe o "rápido reconhecimento e apoio a qualquer regime que os brasileiros instalem, substituindo Goulart". (Os Estados Unidos reconheceram o novo governo no dia 2 de abril, enquanto João Goulart ainda estava no Brasil.)

Nos últimos meses do governo Goulart, Arthur Schlesinger, que trabalhara com Kennedy, escreveu o seguinte: "Chegará o momento em que teremos de perguntar se é do nosso interesse que Goulart continue a cambalear até o fim do seu mandato, em 1965, (ou se) fosse 'aposentado' antes da data marcada".
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terça-feira, 31 de maio de 2011

Elio Gaspari

Apareceu a reserva de mercado eletrônica
ELIO GASPARI
O GLOBO 

A livraria da Amazon bloqueia a venda de e-books em inglês para títulos que foram editados em português

O MERCADO editorial brasileiro tropeçou numa lombada do atraso. Apareceu um misterioso bloqueio que impede a clientes da Amazon a compra de títulos em inglês de e-books que foram editados em português. É a reserva de mercado eletrônica.
Há mais de um século, os livros em português são mais caros que as edições estrangeiras. Jogo jogado, pois não se pode comparar a escala do mercado nacional com a do americano ou do francês. Com o surgimento de livrarias globais, e das tabuletas, a patuleia passou a dispor de fornecedores ágeis e pode comprar os livros (sempre em inglês) no dia do lançamento em Nova York, por metade do preço.
Um curioso achou três livros traduzidos para o português cujas edições eletrônicas estão bloqueadas na Amazon para clientes da América Latina e do Caribe. São os seguintes: "Fordlândia", "Caçadores de Obras-Primas - Salvando a Arte Ocidental da Pilhagem Nazista" (ambos da Rocco) e "Caçando Eichmann" (Objetiva).
Nenhuma das duas editoras lançou esses títulos em português no formato eletrônico. Só em papel. Disso resulta que o freguês brasileiro precisa pagar entre R$ 48 e R$ 57 por livros que na Amazon custam entre R$ 22 e R$ 24, no original, para a clientela livre do bloqueio.
Nem todos os títulos editados em português estão bloqueados nessas editoras. Podem ser baixados da Amazon, sempre em inglês, o monumental "Pós-Guerra", de Tony Judt, bem como "Conversas que tive comigo", de Nelson Mandela.
Quando os fabricantes de carroças viram a chegada do automóvel, disseram que aquelas máquinas provocariam surtos neurastênicos em mulheres. Depois, os fabricantes tentaram bloquear a produção de um sujeito chamado Henry Ford. Assim como os carros, os livros eletrônicos vieram para ficar. Eles já superaram a venda dos volumes em papel na Amazon.
A editora Objetiva assegura que não tem nada a ver com o bloqueio de "Caçando Eichmann". A Amazon quer se instalar no Brasil a partir de 2012. Tomara que não queira fazê-lo criando um mercado de segunda classe, formado por consumidores impedidos de comprar títulos na sua loja americana. Se o livro em inglês não pode ser vendido em Pindorama, basta que ela diga que isso acontece por determinação contratual do editor americano e de seu agente, com os nomes dos dois.

MESTRE TALLEYRAND
Uma lição do genial chanceler francês Talleyrand (1754-1838), para quem já ouviu falar em confidencialidade.
Diplomata, sedutor e amigo do alheio, recebeu uma oferta de propina de um empresário russo: "Darei 3.000 rublos a Vossa Excelência e ninguém saberá".
Talleyrand respondeu: "Dê-me 5.000 e conte a quem quiser".

OS TRÊS PS
O consultor Antonio Palocci sabia o risco que corria ao prestar serviços ao Banco Santander. As cláusulas de confidencialidade impedem que o banco conte quanto pagou e quem presenciou as palestras do doutor.
Em 2009, o Santander foi autuado pela Delegacia de Assuntos Internacionais da Delegacia da Receita Federal de São Paulo. Coisa de R$ 4 bilhões. À época, o banco recorreu e informou que tinha "plena confiança nas instituições brasileiras".
A então secretária da Receita Lina Vieira foi defenestrada meses depois. Com ela, saíram o superintendente de São Paulo e a delegada de instituições financeiras.
A banca brasileira gosta de transgredir uma regra das casas tradicionais inglesas e americanas, segundo a qual não se deve fazer negócios com os três Ps: Politicians, Press e Priests (Políticos, Imprensa e Padres).

EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo está convencido de que toda a questão do patrimônio de Antonio Palocci resume-se a dois vazamentos, um para dentro da Projeto e outro para fora, coisa dos tucanos, segundo o doutor.
O idiota solidariza-se com o ministro e com o tucanato, à espera de que vazem alguma coisa em cima dele.

SIGA O DINHEIRO
De um escorpião:
"A consultoria Projeto, de Antonio Palocci, faturou R$ 20 milhões em 2010. Talvez se deva fazer uma nova pergunta: Para onde foi o dinheiro?"
Em 2005, viu-se que Delúbio Soares, ao contrário de Palocci, arrecadara "quantias não contabilizadas", mas boa parte dos maganos que estão denunciados no Supremo Tribunal Federal nada deram ao comissário. Apenas receberam.

13 ANOS
É dura a vida do cidadão. Em 1995, Jorge Nelson Ribeiro, analista de câmbio do Banco Central, foi responsabilizado por um vazamento de informações.
Retiraram-no do cargo, mandando-o para o serviço de atendimento de balcão.
Satanizado, ele foi à Justiça. Dois anos depois, ganhou direito a uma indenização de R$ 20 mil e à recondução ao posto que ocupava. No seu direito, o BC recorreu.
Passaram-se 13 anos, o caso já passou pela mesa de sete desembargadores federais e nada.
Enquanto isso, surgiram o Google, o iPod e o iPhone, Bin Laden detonou as torres gêmeas e foi passado nas armas, mas o processo do servidor continua à espera de quem faça o seu serviço.

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Um Frank Wisner para cada época


Elio Gaspari 
O Globo 

O companheiro Obama misturou política externa e marquetagem. Resultado: quase queimou o filme do embaixador Frank Wisner, um dos melhores diplomatas de sua geração. No início da crise egípcia, mandou- o ao Cairo para conversar com Hosni Mubarak. Ele reuniu-se com o faraó no dia 2 e obteve o compromisso de que deixaria o poder depois da eleição de setembro. Para a multidão da Praça Tahrir, era pouco. Os marqueteiros da Casa Branca engrossaram o coro e a secretária de Estado, Hillary Clinton, informou que a transição deveria ser negociada com o vice-presid e n t e O m a r S u l e iman. Poucas horas antes, Wisner dissera o contrário, que a permanência de Mubarak era necessária. Ele sabia do que falava e acabou prevalecendo, mas deu à diplomacia americana um tom de Casa da Mãe Joana. Tamanho desencontro parece coisa do governo Bush.

Dentro de alguns meses se saberá o que aconteceu entre o dia em que Wisner voou para o Cairo e a hora em que ele trombou com Madame Clinton. Uma coisa é certa: nesse lance, o profissional é Wisner, até porque Mubarak continua no palácio. Aos 72 anos, aposentado, o embaixador é um laureado veterano. Nos anos 90, sem barulho, convenceu os russos a desmontar sua máquina de guerra bacteriológica. Em 2008, costurou o acordo da independência do Kosovo. Durante o governo Bush, tentou negociar um caminho para o programa nuclear iraniano. Deu em nada, assim como ninguém o ouviu quando avisou que a invasão do Iraque seria um erro.

Wisner tomou uma pedrada vinda da barafunda instalada na diplomacia americana. É um caos suprapartidário, reflexo do esgarçamento do aparelho decisório de Washington. Os serviços envolvidos na política externa expandiram - se, segregaram-se e acabam fazendo tanto a coisa (Mubarak fica) como o seu contrário (Mubarak sai). Em 2009, aconteceu algo parecido em Honduras , o n d e Obama denunciou o golpe e tolerou os golpistas.

Numa trapaça da História , sabe - se que todo mês Wisner preside uma mesa de velhos diplomatas reunidos para almoçar e trocar ideias no Metropolitan Club, em Nova York. Discutem política externa, mas não se fazem mesas como as de antigamente. Há mais de meio século, Washington era uma cidade provinciana e os grãoduques da diplomacia jantavam aos domingos na casa de seu pai e homônimo. Era uma mesa para ninguém botar defeito, com Dean

Acheson (secretário de Estado de 1949 a 1953), George Kennan (o formulador da teoria da contenção do império soviético) e, às vezes, Allen Dulles (o criador da CIA). Dela saiu a indicação de Frank Wisner para chefiar o braço clandestino do aparelho de inteligência dos EUA. Foi Wisner quem coordenou a derrubada da primeiro-ministro iraniano em Mossadeq, em 1953, e

do presidente gutemalteco Jacobo Arbenz, no ano seguinte. Pense-se na mão invisível da CIA até o fim dos anos 50 e lá estarão as digitais de Wisner, inclusive no estímulo às atividades dos árabes anticomunistas da Irmandade Muçulmana. (Deixou esse abacaxi para o filho, que foi embaixador no Egito de 1986 a 1991.)

Wisner misturava simpatia e tenacidade. O FBI o acusava de namorar uma princesa romena que seria agente russa. (Seu chefe, Allen Dulles, namorou a rainha da Grécia, que fora da Juventude Nazista.) Muita bebida e enormes obsessões destruíram-lhe os nervos até que, em 1965, aos 56 anos, matou-se com um tiro na cabeça.
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Minha Casa, teu subsídio

Um programa com tudo para dar certo para ajudar a reduzir a desigualdade social e dar mais dignidade...aí entra o "povinho desta terra" e esculhamba tudo.

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 Elio Gaspari
O GLOBO

Falta o governo botar na rua os atravessadores do programa Minha Casa Minha Vida

Se há um novo estilo de governo em Brasília, na semana passada ele mostrou sua capacidade de dar pronta resposta a um problema. Os repórteres Edna Simão e Tiago Décimo revelaram que apartamentos do programa Minha Casa Minha Vida, de um conjunto residencial de Feira de Santana, na Bahia, haviam sido negociados no mercado negro. Além disso, cerca de 10% das famílias beneficiadas atrasavam o pagamento de suas prestações de pelo menos R$50. No dia seguinte, cumprindo determinação da doutora Dilma, os ministérios do Planejamento, das Cidades e a Caixa Econômica informaram que o governo retomará as unidades vendidas irregularmente e correrá atrás dos inadimplentes. Falta botar os atravessadores para fora, se possível em cena pública. Um deles não passará por dificuldades, pois já mostrou que tem uma caminhonete Nissan Frontier, para a qual construiu um discreto abrigo.

O conjunto residencial de Feira de Santana foi o primeiro da safra do Minha Casa Minha Vida. Visitado duas vezes pelo presidente da República e exposto na campanha eleitoral de sua candidata, tem tudo para ser uma joia da coroa da política social petista. São imóveis de dois quartos e sala, subsidiados. Se forem revendidos e se a inadimplência prevalecer, o programa naufragará nas mesmas águas do falecido Banco Nacional de Habitação, criado em 1964 e fechado em 1986, corroído pela inflação e pela demagogia, deixando para trás um rastro de escândalos.

Das 440 unidades de Feira de Santana, 50 já foram passadas adiante. Houve quem trocasse o imóvel por R$500, antes mesmo de receber as chaves. Quem vendeu ganhou um dinheirinho fácil, e quem comprou fez um excelente negócio, levando a preço de banana um apartamento que vale no mínimo R$15 mil. A exposição pública do despejo dos espertalhões será um desestímulo à propagação do golpe. A expulsão dos atravessadores é uma medida de justiça social, pois preserva o Minha Casa, Minha Vida. Por enquanto, a revenda está na casa dos 15%. Se a Caixa e o governo federal ficarem apenas na conversa, até o fim do ano esse percentual dobra.

Os marqueteiros de Brasília repetem um truque de seus similares durante a ditadura. O Minha Casa Minha Vida é apresentado como uma dádiva D"El Rey aos súditos desafortunados. Quando uma família paga em dia as prestações de seu apartamento, a maior parte do esforço é dela, mas disso não se fala. Resultado: se o governo mostra minha casa como um presente, por que devo pagar o que ele diz que devo? Foi assim que se criou, no século passado, a categoria social dos "inadimplentes do BNH". (Com uma diferença, o BNH beneficiou preferencialmente a classe média, cevando "inadimplentes" no Leblon e no Jardim Paulista.) Seria mais honesto se o governo dissesse que o Minha Casa Minha Vida é uma obra da patuleia que paga os impostos e dos moradores que quitam suas prestações.

Atravessadores de programas sociais não são "sem" seja lá o que fôr. São apenas malandros. Há assentados rurais que vendem seus lotes. Num caso mais radical, em São Paulo já houve invasor de conjunto habitacional que vendeu a posse na noite de sua chegada ao imóvel, sabendo que a tropa de choque da PM poderia aparecer ao amanhecer, como efetivamente apareceu.

Elio Gaspari é jornalista.

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domingo, 16 de janeiro de 2011

Cabral e Dilma culparam os outros e o povo

 Elio Gaspari
O GLOBO

No ano passado, quando as chuvas provocaram a morte de 148 pessoas em Angra dos Reis e na Ilha Grande, o governador Sérgio Cabral estava em sua casa de Mangaratiba, a pouco mais de uma hora da cena das tragédias, e levou mais de um dia para dar o ar de sua graça. Veio com uma lição:

- Eu não faço demagogia. Houve um tempo em que governador aparecia ao lado de traficante, como se ele fosse o John Wayne. Aqui, estavam dois secretários da área. Quem deve vir são as autoridades públicas que podem de fato dar solução e comando ao problema.

Como dizia John Wayne, "o amanhã é a coisa mais importante da vida". A conta de 2010 fechou com 316 mortos, passou-se um ano e as chuvas voltaram. Desta vez, Sérgio Cabral não estava em Mangaratiba, mas no exterior. Quando desembarcou no Rio, já haviam sido contados mais de 300 corpos por conta de temporais que começaram dois dias antes. (Os mortos passaram de 500.)

Ao chegar, Cabral contrariou sua lição de 2010 e visitou as áreas afetadas. Foi acompanhado pela doutora Dilma Rousseff, que ensinou: "A moradia em área de risco no Brasil é a regra, não é a exceção".

Falta explicar por qual critério Dilma e Cabral definem "áreas de risco". O Centro de Friburgo? A cidade de Areal? Bairros urbanizados onde viviam pessoas que pagam IPTU? Em 2010, a explicação demofóbica para a morte de mais de 30 pessoas no Morro do Bumba, em Niterói, sustentou que a patuleia estava em cima do que fora um lixão. Estava, com a permissão da prefeitura, e ninguém foi responsabilizado.

A essa explicação, somou-se a do catastrofismo ambiental. Para quem gosta de falar em calamidades climáticas, vale lembrar que, na Austrália, onde choveu mais do que no Rio, os mortos foram 25 e há dezenas de desaparecidos.

Como no ano passado, os governantes anunciaram esmolas para já e planos para amanhã. Daqui até janeiro do ano que vem, Sérgio Cabral e Dilma poderiam atender ao pedido que Carlos Lyra e Vinicius de Moraes encaminharam a Xangô:

"Pôr pra trabalhar gente que nunca trabalhou".

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O "Capitalismo de laços" da privataria

Elio Gaspari
 O GLOBO

Quais das seguintes informações são comprovadamente falsas:

1) A privataria iniciada em 1990 vendeu 165 empresas públicas, gerou uma receita de 87 bilhões de dólares e reduziu a presença do Estado na economia nacional.

2) A expansão do setor privado sobre a mineração, telecomunicações, portos, rodovias e no setor elétrico colocou mais competidores no mercado.

3) Antes da chegada dos europeus, houve na Amazônia uma civilização fundada por extraterrestres.

Seis anos de pesquisas, durante os quais o professor Sérgio Lazzarini, do Insper, mastigou 20 mil dados estatísticos de 804 empresas informam que as duas primeiras afirmações são comprovadamente falsas. Quanto aos ETs da Amazônia, quem quiser, pode continuar acreditando.

Entre 1996 e 2009 a rede do Estado e dos burocratas de caixas de pensão da Viúva expandiu-se. Cruzando-se numeros do banco de dados de Lazzarini descobre-se que, em 1996, num universo de 516 grandes empresas, o BNDES e os fundos Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa) participavam de 72 sociedades. Em 2003, numa amostra de 494 companhias a Boa Senhora estava em 95. Em 2009, num universo de 624, o Estado tinha um pé em 119 empresas.

O trabalho do professor chegará nas próximas semanas às livrarias, com o título de "Capitalismo de laços". Além de mastigar números, Lazzarini foi fundo na documentação do assunto e nos estudos sobre as conexões do mundo empresarial. O livro tem 184 páginas, 51 das quais ocupadas por notas, descrições metodológicas e pela bibliografia.

"Capitalismo de laços" começa recontando a investida recente do palácio do Planalto, do fundo de pensão Previ e do empresário Eike Batista sobre os administradores da Vale. Em tese, a Vale é uma empresa privada. Na prática, pelos "laços", o governo é seu maior acionista e, na ocasião, Batista era o melhor amigo.

Segundo a revista Forbes, ele é o homem mais rico do Brasil. Em 2008, foi o maior patrocinador privado do filme "Lula, filho do Brasil" e, em 2006, o maior doador individual na campanha que reelegeu Nosso Guia. Quem teria sido o maior doador corporativo? A Vale.

A privatização virou privataria (termo que Lazzarini não endossa) quando o tucanato, em busca de recursos e de interessados para os leilões de venda do patrimônio da Viúva, recorreu às arcas dos fundos de pensão e do BNDES. Diz o professor: "Fernando Henrique, longe de "esquecer o que escreveu", em realidade ajudou a sedimentar o capitalismo de laços no Brasil." Durante os últimos oito anos petistas alguns laços desfizeram-se (os de Daniel Dantas, por exemplo), outros, como os de Eike Batista e do grupo JBS-FriBoi (outro grande doador de 2006), estabeleceram-se.

Os laços do andar de cima com o Estado foram magistralmente mostrados por Raymundo Faoro em seu "Donos do poder", um livro de 1957. Lazzarini poderia ter chamado seu livro de "Donos do poder 2.0". Ele fulanizou e quantificou suas afirmações. Estudou a composição acionária das empresas do seu banco de dados para testar uma variante do famoso "diga-me com quem andas e eu te direi quem és" : "Diga-me de qual empresa você é dono que te direi quem é o seu amigo".

O professor trabalhou com um complicado conceito de "centralidade". Simplificando-o quase ao exagero, é como se tivesse estudado a composição acionária das empresas com o olhar de um usuário do Facebook. Em 1996, quem tinha mais "amigos" eram a União (com o BNDES) e a Previ. Em 2009 a situação era a mesma. Com outro critério, olhando-se para os grupos econômicos e seus cruzamentos, hoje quem tem mais amigos é o conglomerado da Andrade Gutierrez, seguido pelo grupo do empresário Carlos Jereissati. Estudando a estrutura das grandes empresas, Lazzarini mostra como é pequeno o mundo dos amigos entrelaçados: 11 grão-senhores participam de 66 conselhos de empresas.

Na epígrafe do livro o professor repete a frase do romance "O leopardo", quando o aventuroso Tancredi (Alain Delon no filme) diz ao tio (Burt Lancaster): "Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude."
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