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quinta-feira, 29 de março de 2012

Segurança alimentar na AL e Caribe

Quando comecei a recolher material para minha tese de mestrado "Segurança Alimentar no contexto da Segurança Hemisférica" deparei-me com o problema de o Brasil considerar o tema APENAS na questão da desigualdade social e da restrição do acesso monetário ao alimento.
A questão é bem mais ampla do que o especialista abaixo estabelece. Pessoas pobres e de poder aquisitivo também sofrem da insegurança alimentar pela obesidade mórbida (também entre pobres), hormônios, alimentos contaminados de toda sorte e problemas na logística e validade dos alimentos disponibilizados para regiões da AL e Caribe.
O controle do acesso ao alimento, notadamente em regiões acidentadas com a presença de ilícitos (Peru, Colômbia, México, El Salvador etc) fazem das populações reféns de grupos, gangues etc
O que ele aponta nem o Brasil, com o estardalhaço de Lula querendo acabar com a fome no mundo, sucedeu. O tema é complexo e recebe menos atenção mundial do que o superaquecimento planetário. Como não tem promoção de ONG multimilionárias e com muita visibilidade, depende de ações de difícil articulação da OEA e FAO. Taí uma excelente bandeira e causa para se promover em nosso confuso país.



Segurança alimentar na AL e Caribe
José Graziano da Silva
Valor Econômico 

Erradicar a fome é um desafio em todos os cantos do planeta. E a América Latina e Caribe é a região em desenvolvimento em melhor condições de fazê-lo, superando o paradoxo de ser uma das maiores produtoras de alimentos do mundo e conviver com mais de 50 milhões de subnutridos.

Este será um dos temas em discussão nos próximos dias em Buenos Aires, durante a 32ª Conferência Regional da FAO para a América Latina e o Caribe, reunião ministerial que ajuda a definir as ações da organização em nível mundial e definir suas prioridades de trabalho na região.

A conferência aproxima a FAO dos países da região e garante que o trabalho da organização atenda às suas necessidades. É um exercício que se repete em diferentes regiões do mundo. Em meados de março, foi realizada no Vietnã a Conferência Regional para a Ásia e o Pacífico. Nessa reunião, que contou com a participação de 39 países, ficou clara a necessidade de estratégias regionais de arroz e aquicultura e de apoiar as pequenas ilhas do Pacífico na criação e fortalecimento dos circuitos locais de produção e consumo vinculados ao turismo.

O potencial da cooperação Sul-Sul para enfrentar os desafios, somada à vontade dos países em compartilhar seus conhecimentos, foi outra notável conclusão da conferência asiática e que tem grande potencial também na América Latina e Caribe.

Brasil e Argentina, entre outros países, possuem conhecimentos na área de agricultura tropical que pode ajudar o desenvolvimento de outros países da região e do mundo. No caso brasileiro, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) - pelo domínio tecnológico - e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) - por ser a cara da nossa cooperação externa - são atores fundamentais e precisam ter estrutura, institucionalidade e recursos adequados à contribuição que o Brasil pode e quer dar a nível mundial.

Da conferência em Buenos Aires, espera-se sair com prioridades claras para o trabalho da FAO na região e reafirmar o nosso compromisso conjunto para a erradicação da fome.

Isso não só é compatível com o desenvolvimento econômico, a gestão sustentável dos recursos naturais e a mitigação e adaptação às mudanças climáticas, mas também é uma contribuição para atingir esses objetivos.

Há uma grande convergência entre as agendas de mudanças climáticas e segurança alimentar: ambas exigem mudanças significativas no sentido de padrões mais sustentáveis de produção e consumo. Há poucos meses da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (Rio +20), temos a oportunidade e a necessidade de explorar essa convergência, que oferece a possibilidade de um novo caminho de desenvolvimento mais sustentável, inclusivo e que contribua na redução da desigualdade na América Latina e no Caribe.

Essa desigualdade se deve principalmente à concentração de renda e dos meios de produção. Por exemplo, a América Latina e Caribe é a região mais desigual do planeta em relação ao acesso à terra.

A insegurança alimentar é uma das manifestações da nossa desigualdade: a causa da fome na América Latina e no Caribe é a incapacidade dos pobres de comprar a comida de que necessitam. É um problema de acesso, esse é o nosso calcanhar de Aquiles.

Para resolver o problema, é necessária uma abordagem em âmbito social, econômico e produtivo. É essencial melhorar o acesso dos pobres em todos os sentidos: acesso a melhores empregos e renda; acesso a oportunidades; à terra e água.

As crises recentes recordam a vulnerabilidade que a região ainda tem: a inclusão social ainda depende, em grande parte, do crescimento econômico. No entanto, vários países conseguiram proteger a população vulnerável usando programas de transferência de renda e outras estratégicas de proteção social e incentivos econômicos e produtivos.

Esses programas são especialmente importantes nas áreas rurais, onde cerca de metade da população regional que vive em situação de pobreza extrema está localizada. Muitos são pequenos agricultores sem acesso a recursos naturais e apoio produtivo.

Apoiar esses agricultores familiares traz um duplo benefício. O setor representa uma das populações mais vulneráveis à fome mas, apesar da sua situação precária, é responsável por produzir a maior parte do alimento consumido na região.

Apesar de desempenhar importante papel, o setor ainda tem um grande potencial a ser desenvolvido. Os benefícios podem ser multiplicados se a agricultura familiar for vinculada a programas de transferência de renda, ao fortalecimento de mercados locais e também à alimentação escolar.

Não existem receitas mágicas para garantir o direito à alimentação, mas acabar com a fome não é tão difícil ou caro quanto mandar alguém à Lua. Erradicar a fome é uma meta possível, mas exige o compromisso de toda a sociedade e ações nos níveis nacional e internacional. A FAO está pronta para contribuir para esse objetivo, apoiando os países em seus esforços. Espero que a Conferência Regional em Buenos Aires dê um passo a mais, decidido, nessa direção.

José Graziano da Silva é diretor-geral da agência Food and Agricultural Administration (FAO).
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sábado, 23 de julho de 2011

O que se come em 1 semana



Dê uma olhada no tamanho da família, a dieta alimentar de cada país, a disponibilidade de alimentos e a despesa com comida, em 1 semana.


obs: Observem, também, a qualidade do que se come.

1 - Alemanha: Família Melander de Bargteheide.
Despesa com alimentação em 1 semana: 375.39 Euros / $500.07 dólares





2 - Estados Unidos da América: Família Revis da Carolina do Norte 
Despesa com alimentação em 1 semana: $341.98 dolares




3 - Italia: Família Manzo da Secília
Despesa com alimentação em 1 semana: 214.36 Euros /  $260.11 dolares





4 - México: Família Casales de Cuernavaca 
Despesa com alimentação em 1 semana: 1,862.78 Pesos / $189.09 dólares






5 - Polónia: Família Sobczynscy de Konstancin-Jeziorna 
Despesa com alimentação em 1 semana: 582.48 Zlotys / $151.27 dólares





6 - Egito: Família Ahmed  do Cairo 
Despesa com alimentação em 1 semana: 387.85 Egyptian Pounds / $68.53 dólares



7 - Equador: Família Ayme de Tingo 
Despesa com alimentação em 1 semana: $31.55 dólares




8 - Butão: Família Namgay da vila de Shingkhey 
Despesa com alimentação em 1 semana: 224.93 ngultrum / $5.03 dólares




9 - Chade: Família Aboubakar do campo de refugiados de Breidjing
Despesa com alimentação por semana: 685 Francos / $1.23 dólares






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sábado, 2 de julho de 2011

Muito mais alimentos, sem reduzir a pobreza


WASHINGTON NOVAES
O Estado de S.Paulo


Na reunião em que foi eleito diretor-geral da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), da ONU, há poucos dias, o ex-ministro brasileiro José Graziano da Silva assegurou - com sua experiência de gestor do programa de combate à fome entre nós - que esta será a sua prioridade: enfrentar esse problema no mundo, para que até 2015 o número de carentes de alimentos no planeta, hoje em torno de 1 bilhão, se reduza à metade. "É o desafio do nosso tempo", disse na ocasião o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, lembrando que um dos complicadores dessa questão, "o protecionismo dos ricos" à sua produção de alimentos, só tem aumentado. E isso quando a própria FAO alerta que os preços desses produtos continuarão a subir nos próximos dez anos. E que a produção precisará crescer 70% até 2050, para alimentar os 9,2 bilhões de pessoas que estarão no mundo nessa época.

Não é a única preocupação de Annan. Ele alertou também para os crescentes compra e arrendamento de terras em outros países por especuladores e fundos de alto risco de países industrializados. Só em 2009 foi comprada na África uma área equivalente ao território da França (FAO, 27/6). São movimentos decorrentes das incertezas econômicas do mundo, com investidores buscando garantias reais, no momento em que os papéis financeiros chegam perto de US$ 600 trilhões, para um produto bruto mundial na casa dos US$ 60 trilhões anuais. E no momento em que Nouriel Roubini, um dos pouquíssimos economistas a prever a crise de 2008-2009, alerta (Estado, 23/6) para o forte aumento do "risco de uma parada e um duplo mergulho em economias avançadas", em seguida a altas pronunciadas nos preços de alimentos, petróleo e commodities, que fazem "ressurgir o espectro da inflação".

Em reunião do G-20, nos mesmos dias, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, afirmou que os mercados agrícolas, "os menos transparentes", vão se transformando, "sem regras, em loteria, na qual a sorte sorri para os mais cínicos". Por isso mesmo, o Brasil declarou seu apoio a um Sistema de Informações dos Mercados Agrícolas, administrado pela FAO, que possa coibir movimentos indesejáveis nessa área. Mas não aceita um mecanismo de estabilização de preços agrícolas. Para o ministro da Agricultura brasileiro, o único caminho para isso é "aumentar a produção".

Tudo acontece num cenário paradoxal. Um relatório da própria FAO - Perdas globais de alimentos e desperdício de comida - assegura (11/5) que um terço dos alimentos produzidos no mundo, cerca de 1,3 bilhão de toneladas anuais, se perde ou é desperdiçado. São 670 milhões de toneladas nos países industrializados e 630 milhões nos demais. Os consumidores ricos, diz o documento, desperdiçam 222 milhões de toneladas de frutas e hortaliças - tanto quanto toda a produção de alimentos na África. Isso quer dizer um desperdício per capita de 95 a 115 quilos anuais nos EUA e na Europa. Nessa mesma hora, lembra o Banco Mundial, com a crise no Oriente Médio e na África, o preço dos alimentos ali já subiu 36%.

Mas o que se fará? Estender a todo o mundo o padrão de consumo de alimentos já vigente nos países mais ricos? E como? Há quase duas décadas o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) chama a atenção: para isso seriam necessários mais dois ou três planetas como a Terra. Lester Brown, diretor do Earth Policy Institute, acha (New Scientist, 5/2) que a "bolha de alimentos" vai tornando insustentável a situação da água e da terra. Na Índia, 175 milhões de pessoas são alimentadas com grãos produzidos com água retirada em maior quantidade que a reposta. Na China são 130 milhões. Segundo Brown, metade da população mundial já vive em países com escassez de água - "e esta noite mais 219 mil pessoas se terão acrescentado à população mundial" (mais de 80 milhões por ano).

Trazendo para o Brasil a questão do combate à fome, que será preciso fazer? Segundo o IBGE, 10 milhões de brasileiros vivem com até R$ 39 por mês; 4,8 milhões moram em domicílios sem renda alguma; ao todo, a população de "miseráveis" chega a 16,2 milhões (equivalente à população total do Chile); abaixo da linha da pobreza - R$ 70 por mês - estão 8,5% dos 190 milhões de habitantes; 5,7 milhões vivem com R$ 40 a R$ 70 por mês; só no Estado de São Paulo são 1.084.402 "miseráveis". O governo federal pretende investir R$ 20 bilhões para enfrentar o problema, dos quais R$ 16 bilhões do Bolsa-Família (que é a única renda de 88% dos 13 milhões de beneficiários). Mais uma vez, pode-se comparar esse investimento com os mais de R$ 150 bilhões anuais pagos em juros a bancos e investidores em papéis da dívida.

Não há dúvida de que já somos o segundo maior produtor de alimentos no mundo, atrás apenas dos EUA. E o Ministério da Agricultura espera aumentar a produção em 23% em uma década. Mas, como observa o ex-ministro Rubens Ricupero (Folha de S.Paulo, 26/6), esse desenvolvimento só se sustentará se formos capazes de encontrar soluções para "os desafios do meio ambiente". Para justificar a preocupação lembra ele números citados pelo também ex-ministro José Carlos Carvalho: "No Vale do Rio Doce, um hectare sustentava 2,8 cabeças de gado; hoje, mal chega a 0,6".

E assim vamos no mundo dos paradoxos. A produção de alimentos cresce, sobem os preços, "commodities" transformam-se em garantia para investimentos, juntamente com a compra de terras em países mais pobres. Mas não se consegue sair de perto do número terrível de 1 bilhão de famintos no planeta, 40% da humanidade vivendo abaixo da linha da pobreza. A China caminhando para se tornar grande potência, mas Xangai, sua cidade mais populosa (acima de 20 milhões de habitantes), baixando legislação para proibir que cada família tenha mais de um cachorro - a política do "cachorro único" (ainda assim, mais de 5 milhões de cachorros; de quanto se precisará para alimentá-los?).
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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Suicídio da agricultura


Os últimos meses tem apresentado assuntos voltados para a agricultura no mundo, notadamente quanto à dificuldade em se produzir para atender às crescentes demandas das classes sociais que estão emergindo nos BRICs.

Nossa chance para desenvolvimento em uma sociedade com baixo índice de aproveitamento escolar e de formação.

O tema requer acompanhamento constante.





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RUBENS RICUPERO
FOLHA DE SÃO PAULO

Excelente desempenho da atividade econômica só vai se sustentar se o Brasil encontrar uma solução para os desafios do ambiente
Se a agricultura brasileira não conseguir sustentar a impressionante trajetória das últimas décadas, será devido à incapacidade de resolver com inteligência o desafio do meio ambiente. 
Talvez não haja na história econômica do Brasil nenhum exemplo tão indiscutível de transformação de eficiência e produtividade como na agropecuária. Essa modernização só se tornou possível graças à pesquisa tecnológica, que erradicou o pessimismo sobre a agricultura tropical. 
A tecnologia, afirma-se, permitiria expandir a produção sem devastar mais a floresta e o cerrado que restam. Os 70 milhões de hectares de pastagens degradadas poderiam servir de reserva à expansão agrícola ou florestal. 
Em teoria, tudo isso é verdade. Na prática, o que se vê é pouco. Sinais positivos como o aumento de produção em proporção maior do que a expansão da área plantada são largamente compensados pela destruição. De forma inexorável, a fronteira agrícola avança rumo ao coração da floresta amazônica. 
O choque da devastação em Mato Grosso estimulada pelo projeto de lei aprovado na Câmara provocou a mobilização do governo em verdadeira operação de guerra. O resultado foi pífio: a destruição apenas se reduziu marginalmente.
Essa mesma desproporção entre esforços de preservação e resultados precários, geralmente revertidos logo depois, caracteriza o panorama de desolação em todas as regiões e em todos os biomas: mata atlântica, caatinga, Amazônia, cerrado, árvores de Carajás convertidas em carvão para o ferro-gusa. 
As entidades do agro protestam que suas intenções são progressistas. Contudo o comportamento de parte considerável de seus representados desmente as proclamações. Mesmo em Estado avançado como São Paulo e lavoura rentável como a da cana, quantos recuperaram as matas ciliares de rios e nascentes? 
Tem-se a impressão de reeditar o debate sobre o fim da escravatura. Todos eram a favor, mas a unanimidade não passava de ilusão. 
É fácil concordar sobre os fins; o problema é estar de acordo sobre os meios e os prazos. Sempre que se falava em datas, a maioria desconversava: o país não estava preparado, era preciso esperar por futuro incerto e distante. 
Em 1847, um agricultor esclarecido, o barão de Pati de Alferes, se escandalizava com a aniquilação da mata atlântica no manual prático que escreveu sobre como implantar uma fazenda de café: "Ela mete dó e faz cair o coração aos pés daqueles que estendem suas vistas à posteridade e olham para o futuro que espera seus sucessores". 
De nada adiantou: o café acabou devido à destruição dos solos. A joia da economia imperial deu lugar às cidades mortas fluminenses e paulistas. Não foi só naquela época. No auge da pecuária no vale do rio Doce, como lembra o ex-ministro José Carlos Carvalho, um hectare sustentava 2,8 cabeças de gado; hoje, mal chega a 0,6!
Produto do passado da erosão e da secagem das nascentes, o processo agora se acelera por obra do aquecimento global, que atingirá mais cedo e mais fortemente áreas tropicais como o Brasil. Sem compatibilização entre produção e ambiente, o destino da agricultura será o do suicídio dos fazendeiros fluminenses e do rio Doce.
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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Receita brasileira contra a fome


José Graziano da Silva
Valor Econômico


Alimentar 9 bilhões de bocas em 2050, quando a humanidade terá um contingente 35% maior que o atual, não é obra que se possa deixar ao improviso.

Um repertório ecumênico de iniciativas no plano da cooperação internacional e das políticas locais terá que ser acionado de forma progressiva e articulada para elevar a oferta mundial de alimentos em 70% até lá, conforme preconiza a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

Para que o alimento chegue à mesa de quem tem fome nenhum segmento da produção rural poderá ser descartado; nenhuma escala negligenciada.

Um dos requisitos dessa travessia é o salto de 60% no nível atual do investimento agrícola. Ele não ocorrerá se a ajuda internacional ao desenvolvimento não recuperar o foco na agricultura que hoje recebe apenas 4% dos recursos, contra 17% nos anos 80. Ademais, a equação não fechará sem forte parceria entre investimentos públicos e privados nos países em desenvolvimento, cujos governos devem assumir a segurança alimentar como política de Estado.

Sejam quais forem os cálculos prospectivos, a densidade dessa maratona está diretamente relacionada à capacidade de articular três dinâmicas: a) por razões ambientais e de esgotamento de fronteiras, a produtividade - leia-se, pesquisa, fomento e extensão rural- terá um papel preponderante no processo; responderá por 90% da oferta adicional prevista; b) America Latina e África, as duas últimas geografias com espaço para interligar o esforço de produtividade à incorporação de novas áreas, devem fornecer mais 120 milhões de hectares a esse mutirão planetário; c) ao contrário do que ocorreu na Revolução Verde, nos anos 50, desta vez a batalha da produção não poderá abstrair as intersecções com três modalidades de "fomes" então ignoradas: a "fome" de empregos; a "fome" de direitos sociais, sobretudo nas fronteiras rurais, e a "fome" de equilíbrio ambiental. A batalha da produção, ademais, não deve subestimar as intercorrências da especulação financeira sobre a segurança alimentar das nações.

Não há um modelo de negócio ou panacéia institucional capaz de assimilar todas as demandas embutidas nessa empreitada que definirá um pedaço do século XXI. É nesse sentido que a experiência brasileira emerge como uma referencia encorajadora. Longe de figurar como um modelo irretocável, com um histórico rural intrinsecamente avesso à glamourização, o Brasil soube combinar políticas pragmáticas e assim aplainar caminhos e estabelecer razoável complementaridade entre escalas distintas no atendimento da segurança alimentar e do mercado mundial de commodities.

O Brasil elegeu a agricultura familiar como protagonista e também investiu fortemente em pesquisa agropecuária

A "modernização conservadora" implementada na agricultura brasileira nas décadas 70/80/90, ao mesmo tempo em que multiplicou a produção de forma notável consumou em três décadas uma transição rural/urbana que a maioria dos países ricos levou um século para concluir. Um êxodo de 30 milhões de pessoas semeou periferias metropolitanas conflagradas e desigualdades sociais e regionais asperamente acentuadas no espaço rural.

A economia fixou suas duras circunstâncias, mas decisões estratégicas posteriores mostraram que por mais rigorosas que sejam as circunstâncias há sempre escolhas a serem feitas. O Brasil escolheu investir fortemente em pesquisa agropecuária, em políticas de crédito direcionadas e, com maior ênfase a partir do guarda-chuva de ações do Fome Zero, desde 2003, elegeu a agricultura familiar um protagonista relevante no combate à fome e à miséria.

Poucos países dispõem hoje de um escudo de segurança alimentar como o brasileiro, que acode a emergência da exclusão, mas cuida de superar a sua origem fortalecendo a base da pirâmide de renda, com a elevação do salário mínimo, bem como a agricultura familiar, assegurando-lhe crédito, assistência técnica e uma demanda cativa desdobrada em duas frentes relevantes.

Por lei, 30% da merenda escolar diária de 47 milhões de crianças e adolescentes deve ser adquirida junto aos pequenos produtores. Na outra ponta, o Programa de Aquisições de Alimentos do governo federal investiu R$ 3,5 bilhões nos últimos sete anos na aquisição de 3,1 milhões de toneladas de alimentos de 160 mil agricultores. Em média, 14 milhões de pessoas são beneficiadas com esses produtos todos os anos.

A contrapartida dessas políticas é que, desde 2003, a taxa de pobreza na área rural caiu de 52% para 33%; três milhões de pessoas saíram da miséria no campo (28 milhões em todo o Brasil) e a renda média da agricultura familiar aumentou 33%, contra 13% da média nacional.

Não menos lustrosos foram os resultados do agronegócio. O Brasil colherá este ano a maior safra de grãos da sua história (cerca de 157,4 milhões de toneladas). É líder em diferentes mercados e nas últimas décadas, sua agricultura registrou o maior ganho de produtividade do mundo, 3,5% ao ano, em ascensão. É esse repertório diversificado de avanços, e o conhecimento científico que lhe deu sustentação, graças às tecnologias da Embrapa assimiláveis pela grande e a pequena escala, que o país quer compartilhar com outras nações na maratona para vencer a corrida contra a fome nos próximos anos.

José Graziano da Silva está licenciado do cargo de Representnante Regional da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) para a América Latina e Caribe.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Alta dos preços agrícolas, ameaça ou oportunidade?

O tema acerca de Segurança Alimentar é um dos mais abrangentes, em meu ponto de vista, que tangencia todas as dimensões de Segurança e Defesa, daí o  fato de ter sido o escolhido para minha tese de mestrado em Segurança e Defesa no Interamerican Defense College e Universidad del Salvador.


A começar pelos problemas climáticos e desastres ambientais, a oferta de alimento, seguro e sustentável, na mesa do cidadão é um desafio enorme. Aliado a isto existem os protecionismos explícitos praticados pelos países do G8 e comunidade européia. 


Quando comentei com muitas reservas a aproximação de Lula com Sarkozy também me referia a este deletério absurdo de barreiras não alfandegárias, sutis e, por vezes, letais, para nossa exportação para os países signatários da OMC. Todavia a ideologia e a mídia com pendores sensacionalistas durante a pré-campanha, não evidenciou esses constantes e contumazes detalhes de nossa pauta diplomática, focando, apenas, na compra de caças franceses. Outro ponto que não foi melhor abordado foram os constantes elogios do jornal francês Le Monde à política econômica e o sucesso de gestão de Lula.


Como dizia o Barão do Rio Branco: Entre países não há amizades, há interesses. A política externa nossa impregnada de ideologia parece não ter, ainda, percebido este pequenino detalhe. A política externa representa interesses da sociedade e não vaidades de governantes.








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Marcos Sawaya Jank
O Estado de S. Paulo  

A recente alta dos preços dos produtos agrícolas e dos alimentos novamente desperta sinais alarmistas no Brasil e no mundo: temores de pressões inflacionárias, ameaças de desabastecimento e agravamento do problema da fome em algumas regiões do planeta. Na esteira da alta vêm as revoltas de consumidores e o risco de queda de governos, com destaque para os recentes levantes no mundo árabe, que é notório importador líquido de alimentos. De fato, se olharmos para a História, não faltam exemplos de conflitos e guerras causados pela falta de commodities agropecuárias, energéticas e minerais.

É, todavia, também verdade que o problema da fome no século 20 esteve e está muito mais relacionado com a falta de renda do que com a disponibilidade global de alimentos. A imensa injeção de tecnologia com o melhoramento genético, a introdução de insumos modernos, a mecanização, a biotecnologia, o manejo das lavouras, a integração das cadeias produtivas, a melhoria nos transportes e da armazenagem e a globalização dos mercados permitiram que a produção de alimentos explodisse e juntamente com ela a população mundial, permitindo ao mesmo tempo um forte crescimento do nível de urbanização e da renda per capita nas principais economias emergentes.

Nas últimas quatro décadas, o Brasil tornou-se o terceiro maior exportador mundial de produtos do agronegócio e referência notável de competitividade na área tropical do planeta, com uma pauta cada vez mais diversificada, gerada por sistemas eficientes de produção de alimentos, bebidas, fibras, rações e agroenergia. Um setor que exporta hoje US$ 76 bilhões, gera 16 milhões de empregos apenas no campo, interioriza o desenvolvimento e incorpora alta tecnologia, tendo se tornado benchmark global em diversas cadeias produtivas.

Mas, ainda assim, nos últimos anos temos assistido a recorrentes problemas de oferta em importantes regiões agrícolas do planeta em razão de inundações, chuvas excessivas, secas, doenças e outros fatores inerentes ao sistema. Os estoques dos principais grãos encontram-se no nível mais baixo dos últimos 30 anos e muitos especialistas já preconizam que caminhamos para uma década com déficits estruturais de oferta no mundo.

O primeiro impacto da alta dos preços agrícolas são as análises precipitadas e as recomendações equivocadas de políticas. Tal é o caso da carta do presidente da França, Nicolas Sarkozy, que propõe a velha e fracassada receita da formação de estoques reguladores e controles de preços pelos governos centrais. Não é de espantar que a proposta de controlar a oferta, em vez de expandi-la, venha exatamente de um país campeão em gerar distorções nos mercados agrícolas mundiais. O clássico protecionismo da Política Agrícola Comum da União Europeia tem profundas raízes francesas. No acesso aos mercados, são tarifas altíssimas e cotas de importação aplicadas cirurgicamente sobre as commodities mais importantes, escaladas tarifárias que protegem contra a importação de produtos de maior valor adicionado e toda sorte de barreiras não tarifárias. Na produção e na exportação, são subsídios altamente distorcivos que deterioram a concorrência mundial. A solução para ampliar a oferta mundial e reduzir o preço das commodities agrícolas não é mais intervenção governamental no mundo, mas sim menos distorções, com a redução das tarifas, cotas, subsídios e outras proteções que impedem que a plena expressão das vantagens comparativas se manifeste.

Internamente, é hora de refletir sobre a imensa responsabilidade que esta nova crise global representa para a agricultura brasileira. O Brasil é o país mais bem posicionado do planeta para dar um salto de produção nas cadeias produtivas da agricultura com rentabilidade e sustentabilidade. Mas esse setor tem sido altamente prejudicado pela valorização do câmbio, pelos gargalos da infraestrutura, pelas deficiências da defesa sanitária, por um conflito cada vez mais insano entre desenvolvimento agrícola e conservação ambiental, sem contar os inaceitáveis conflitos agrários e as restrições aos investimentos na ampliação da área agrícola brasileira. Na questão do Código Florestal, por exemplo, corremos o risco de ver imensas áreas produtivas sendo compulsoriamente transformadas em florestas, ao mesmo tempo que continuamos permitindo o desmatamento de imensas áreas de florestas com baixa aptidão agrícola. Isso porque depois de 500 anos ainda não fizemos um simples zoneamento capaz de apontar onde deve ficar a agricultura e onde devem ficar as florestas.

É hora de constituir uma verdadeira força-tarefa público-privada para atuar organizadamente ante o desequilibro de oferta que se desenha no mundo. Em vez de taxar, incentivar. Em vez de controlar a oferta e a demanda, expandir a produtividade. Fazer com que a eficiência já obtida dentro das propriedades rurais chegue às estradas, ferrovias, hidrovias e aos portos. Equilibrar desenvolvimento agrícola e conservação ambiental, modernizar a legislação trabalhista no campo, ampliar os investimentos nacionais e estrangeiros, aumentar a racionalidade e fortalecer as nossas instituições. Este é certamente um importante desafio para o novo governo, com repercussões não apenas para o Brasil, mas para o planeta, já que até 2050 será necessário aumentar em 70% a produção agrícola mundial.

Confúcio, o famoso sábio chinês, dizia que, "apesar das muitas conquistas da humanidade, devemos a nossa existência aos primeiros 20 centímetros de solo e ao fato de chover". É verdade! Mas, além da água das chuvas e dos minerais do solo, a civilização moderna, globalizada, urbana, consumista e hiperconectada só existe porque o homem desenvolveu tecnologias agropecuárias que trouxeram imensos ganhos de eficiência e importantes quedas nos preços reais dos alimentos. Este é o momento certo e o país certo para avançar com firmeza nessa equação.
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O desafio da Fome

Este tema ainda será prioritário na agenda nacional. Relembro que o presidente Lula iniciou uma campanha mundial com o fito de gerar mais visibilidade para si do que, propriamente, dirimir o problema em casa.
Há um enorme elenco de causas incidentes que ainda não foram tratados com seriedade, dentre eles o baixo índice de saneamento global no país.
A Segurança Alimentar, no mundo, é vista como uma dimensão bem maior do que a questão do poder aquisitivo, carro-chefe e, talvez, único, do problema como é encarado no Brasil. Ressalta-se que crianças com sobre-peso também podem ser desnutridas ou fora dos critérios básicos promulgados pala FAO no mundo.
Enquanto não ser resolver problemas básicos de saneamento, energia elétrica de qualidade e sustentável e vias de acesso terrestres não se consegue debelar o problema da desnutrição.
E assunto de gente grande.

EDITORIAL - ESTADO DE MINAS - 13/10/2010

No Brasil, o direito à alimentação é garantido pela Constituição

Vinte e nove países ainda apresentaram níveis alarmantes de fome e mais de 1 bilhão de pessoas não tinham o que comer em 2009, de acordo com um novo relatório sobre a situação no mundo todo. Líderes mundiais estão longe de uma das Metas do Milênio, estabelecidas em 1990, de reduzir pela metade o número de pessoas famintas em 2015, segundo o Índice Mundial da Fome, publicação anual do Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares e outras entidades assistenciais. A maioria desses países fica na África Subsaariana e no Sul da Ásia. As crianças são citadas como especialmente vulneráveis. “Países com número elevado de pessoas que passam fome precisam agir para melhorar a nutrição das crianças durante os primeiros mil dias depois da concepção, incluindo nutrição pré-natal e programas de educação nutricional para mulheres grávidas”, alerta Marie Ruel, chefe da Divisão de Pobreza, Saúde e Nutrição do instituto.

A desnutrição na primeira infância perpetua a pobreza de uma geração para outra. A porcentagem de pessoas subnutridas caiu de 20% em 1990-1992 para 16% em 2004-2006. A Organização das Nações Unidas (ONU) acredita que o número de pessoas que passam fome caia de 1 bilhão em 2009 para 925 milhões este ano. Mas o índice mostra que algumas regiões ainda estão lutando contra o problema e que as causas da fome diferem em todo o mundo, de acordo com o relatório. Nos últimos 20 anos, globalmente, o índice mundial da fome melhorou 24%. No entanto, o progresso varia enormemente de uma região para outra. Os 10 países com os piores indicadores de fome – todos classificados como “extremamente alarmantes” ou “alarmantes” – foram a República Democrática do Congo, Burundi, Eritreia, Chade, Etiópia, Serra Leoa, Haiti, Comoros, Madagascar e República Centro-Africana.

No Brasil, a fome reside onde há pobreza e falta de acesso a direitos sociais básicos. Mesmo com a mobilização histórica da sociedade civil pela causa e a implementação de políticas públicas de segurança alimentar, ainda existem em todo o país pessoas que não têm acesso a alimentos em quantidade e qualidade suficiente para a manutenção da saúde. A desnutrição infantil dá sinais mais claros do problema nas áreas rurais e urbanas. No Rio de Janeiro, na Cidade de Deus, um levantamento feito em 2008 mostrou que 22% das mais de 2 mil crianças pesquisadas estavam desnutridas. Em Alagoas, 9,5% das crianças de até 5 anos apresentam desnutrição crônica (baixa altura em relação à idade). Em fevereiro, a alimentação passou a ser um direito garantido na Constituição Federal (CF), incluído no artigo 6º da Carta, passando a ser assegurado pelo Estado. Resta agora ao poder público cumprir a determinação constitucional. Nos últimos anos, programas assistencialistas têm dado bons resultados, mas ainda são frágeis para apagar de vez essa mácula da vida nacional.
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A gangorra da fome no Caribe e AL

O artigo é importante pois faz uma radiografia acerca das condições com as quais a fome no Hemisfério Ocidental é tratado.

O autor, todavia, adstringe-se a problemas conjunturais sublinhando, sobretudo, questões acerca de gestões de políticas monetárias e financeiras dos países envolvidos.

Por outro lado, tenho outras convicções, dentre elas é a questão da produção de alimentos, no mundo, ser buscado em países oonde se tenham mais estabilidades sociais e econômicas e, sobretudo, tenham uma capacidade de infra-estrutura que possibilite a produção de alimentos ser mais eficiente e sustentável posto que, desastres ambientais, também, são fatores incidentemente fortes nessa equação. Por melhores que sejam as políticas econômicas nos países, por mais forte que sejam as moedas e o câmbio mais regular e confiável, no momento em que houver furacões, maremotos e terremotos conforme vemos, fartamente, na mídia, toda e qualquer produção é destruída e todo o investimento esvai-se.

Como tenho uma tese acerca do assunto, acompanhei as deliberações da FAO e os Objetivos do Milênio da ONU nos últimos cinco anos e não vi a perspectiva que acabo de comentar ser considerada, apesar de ter tido contato com cidadãos dos países citados em seminários e congressos internacionais dando conta do problema que ressaltei.

Apesar do tema no Brasil, por orientação do Planalto, ser tratado como mero problema de poder aquisitivo, a Segurança Alimentar é muito mais ampla e vale a pena ser melhor observada pela sociedade.

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.A gangorra da fome no Caribe e AL
José Graziano da Silva - Valor Econômico - 14/10/2010


Neste sábado, 16 de outubro, dia Mundial da Alimentação, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) completa 65 anos. Refletir sobre a trajetória conjunta da FAO e do mundo nesse período favorece um aprendizado histórico de inestimável atualidade para a América Latina e Caribe.
As catástrofes econômicas e bélicas que transbordariam em fome e genocídios na primeira metade do século XX, encadeadas à crise de 1929 e à II Guerra Mundial, pavimentariam o caminho para que políticas de natureza anticíclica na área fiscal e monetária ganhassem legitimidade crescente incorporando-se à teoria econômica e ao instrumental do Estado em nosso tempo.
A criação da FAO reflete a institucionalidade resultante dessa dupla travessia política e teórica cujo passo seguinte seria a consolidação da agenda da segurança alimentar e nutricional no pós-guerra.
A principal novidade nesse avanço é que as ações contra a fome e a desnutrição assumiriam contornos de uma salvaguarda permanente da sociedade. Não mais um recurso emergencial.
Além de prevenir e atenuar crises, sua importância deriva da capacidade de qualificar os períodos de alta do ciclo econômico, associando o crescimento à expansão de políticas estruturantes destinadas a equacionar as causas da pobreza e da fome. O incentivo à agricultura familiar é um desses desdobramentos.
Perdas e danos contabilizados na América Latina e Caribe pelo recente colapso da finança mundial evidenciaram a necessidade de reforçar essas diretrizes nas economias locais.
Embora a região tenha resistido melhor à turbulência recente, comparativamente a outros períodos críticos como o colapso da dívida externa, nos anos 80, persistem sinais preocupantes de vulnerabilidade em seu metabolismo.
A Cepal estima um crescimento de 5,2% para a região este ano, um ritmo de recuperação superior ao verificado em crises anteriores (1994-1995; 2001-2004), mas recheado de marcantes assimetrias.
Enquanto o PIB da América do Sul caminha para uma alta média de 6%, as economias da América Central ficarão no meio do caminho (3,1%). Pior é a situação dos países do Caribe, onde se concentram algumas das maiores taxas de pobreza e sete prognósticos de PIB negativo. Esse conjunto terá uma expansão inferior a 1%.
O entrelaçamento de fragilidade e robustez - que se reproduz também no interior de cada país, com graus variados de perversidade - ajuda a entender outro paradoxo. Bastaram três anos críticos, de 2006 a 2009, para que conquistas obtidas em 15 anos de luta contra a fome fossem revertidas, evidenciando-se a debilidade das dinâmicas de inclusão no sistema econômico regional.
Entre o início da década de 90 e 2007, o total de pessoas com fome na América Latina e Caribe recuou de 54 milhões para 47 milhões. Em 2009 a gangorra da fome elevou-se novamente a um patamar próximo ao dos anos 90, castigando a vida de 53,1 milhões de habitantes da região.
Embora o núcleo duro da fome no século XXI encontre-se na África, onde estão oito dos nove países devastados atualmente pela subnutrição, América Latina e Caribe figuram como o único ponto do planeta onde não se verá uma redução expressiva dessa chaga em 2010: a redução prevista limita-se a um modesto contingente de 600 mil pessoas comparado com 2009.
O Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional da América Latina e Caribe 2010, divulgado esta semana pelo Escritório Regional da FAO, aponta três causas que explicam o aumento da fome entre 2006 e 2009 e porque a diminuição foi modesta em 2010. O documento, que pode ser acessado em www.rlc.fao.org, mostra, em primeiro lugar, que o impacto da crise na região foi mais forte do que se esperava; como consequência, populações que conseguiam manter-se sobre a linha da pobreza foram empurradas abaixo dela pelo desemprego e o aumento dos preços dos alimentos; finalmente, a maioria dos Estados nacionais deu mostras de sua fragilidade institucional para responder a crises dessa envergadura, em tempo hábil.
Esse revés, bem como a heterogeneidade do crescimento, guarda sintonia implacável com a acanhada munição fiscal das economias locais, incapazes de acionar medidas anticíclicas para enfrentar a crise. Hoje, a carga tributária média na América Latina e Caribe é de 18% do PIB; a da União Europeia, 39,8%. Pior, mais de 50% da receita da nossa região baseia-se em impostos indiretos, com efeitos regressivos sabidos numa estrutura de renda já perversa.
Sem um novo pacto fiscal, a limitação orçamentária tende a reproduzir a desigualdade e agravar a exclusão. A Guatemala é um caso síntese desse torniquete: o país tem o pior índice de desnutrição da AL e o menor gasto social per capita da região (US$ 350/ano). Na crise, deu-se o inevitável. A exemplo do que ocorreu também em El Salvador, Honduras e Nicarágua, a Guatemala aumentou o endividamento público em 2009. Hoje, os quatro países negociam um programa de ajuste com o FMI que implicará em cortes adicionais no já anêmico gasto social.
Um círculo vicioso como esse não admite a postergação de reformas importantes, mas não deve aspergir desespero neste Dia Mundial da Alimentação. Com 6% da demografia mundial, a America Latina figura hoje como um dos maiores celeiros de alimentos do planeta, gerando 16% da oferta total de carnes, 11% dos lácteos e 7% da colheita de grãos. Sua debilidade, portanto, não advém dos frutos propiciados pela natureza, mas do seu manejo inadequado pela sociedade.

José Graziano da Silva é representante Regional da FAO para América Latina e Caribe
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Fome é "alarmante" em 29 países, revela estudo

 Amigos, o que serve de alerta é o fato de que todos os países apontados no estudo não possuem capacidade de infra-estrutura adequadas ao seu desenvolvimento e que, também,  sofrem com os desastres ambientais, a exemplo dos países do Caribe e América Central que possuem investimentos estrangeiros para mitigar tais problemas.
Como se trata de África e Ásia onde aspectos religiosos e idiossincráticos muito fortes, esses países ficam à mercê da sorte, uma vez que investidores estrangeiros buscam, sobretudo, segurança de retorno de seus investimentos.
Ressalto, entretanto, que estes são apenas parte de uma dimensão mais complexa da Segurança Alimentar, tema que tenho uma tese de mestrado.
Vale a pena acompanhar o assunto.


Fome é "alarmante" em 29 países, revela estudo



Vinte e nove países apresentam níveis alarmantes de fome e mais de 1 bilhão de pessoas não tinham o que comer em 2009, de acordo com um novo relatório mundial sobre a situação no mundo todo.
Líderes mundiais estão longe de uma meta estabelecida em 1990 de reduzir pela metade o número de pessoas famintas em 2015, segundo o Índice Mundial da Fome (GHI), publicação anual do Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares e outras entidades assistenciais.
 "O indicador da fome no mundo permanece em um nível definido como 'sério'", disse o relatório. A maioria dos países com dados "alarmantes" no índice ficam na África Subsaariana e no sul da Ásia. As crianças são citadas como especialmente vulneráveis.
Países com número elevado de pessoas que passam fome precisam agir para melhorar a nutrição das crianças durante os primeiros mil dias depois da concepção, incluindo nutrição pré-natal e programas de educação nutricional para mulheres grávidas, disse Marie Ruel, chefe da divisão de pobreza, saúde e nutrição do GHI.
"Para melhorar a nutrição infantil, os programas e políticas têm de enfocar na janela de oportunidade", disse Ruel. "A desnutrição na primeira infância perpetua a pobreza de uma geração para outra."
A porcentagem de pessoas subnutridas caiu de 20% em 1990-1992 para 16% em 2004-2006. A ONU (Organização das Nações Unidas) acredita que o número de pessoas que passam fome caia de 1 bilhão em 2009 para 925 milhões este ano.
Mas o índice mostra que algumas regiões ainda estão lutando contra o problema e que as causas da fome diferem em todo o mundo, de acordo com o relatório.
"Em comparação com os números de 1990, globalmente o índice mundial da fome melhorou 24%", disse Ruel. No entanto o progresso varia enormemente de uma região para outra.
Os dez países com os piores indicadores de fome --todos classificados como "extremamente alarmantes" ou "alarmante"-- foram a República Democrática do Congo, Burundi, Eritreia, Chade, Etiópia, Serra Leoa, Haiti, Comoros, Madagascar e República Centro Africana.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Crescimento com menos pobreza e fome em um mundo incerto

Amigos  este é um tema reincidente de difícil equacionamento uma vez que países com pouca capacidade de produção tecnológica ou agrícola  não conseguem ser competitivos tampouco atraírem investimentos.
Alguns fatores aprendi que contam, idiossincrasia social, crenças religiosas, infra-estrutura, suceptibilidade a desastres ambientais e, sobretudo, baixa capacidade de promover saneamento e educação aos cidadãos.
Tomando-se como exemplo apenas a América do Sul podemos ver a enorme dificuldade de integração territorial e escoamento de produção em função da topografia e da climatologia. Serras, amazônia, pantanal e cordilheiras impedem, substancialmente, o desenvolvimento econômico e a inclusão social das regiões mais ínvias nos países envolvidos.
Quanto ao Caribe, a suceptibilidade a desastres naturais, tais como terremotos, maremotos e furações estraçalham qualquer iniciativa para se promover infra-estrutura e tornar os produtos agrícolas economicamente competitivos no mundo. 
Enquanto não forem abordados estes tipos de fatores continuaremos no reino do "dever ser".
Vale a pena saber sobre este tema.

Robert B. Zoellick - Presidente do Banco Mundial
Correio Braziliense - 23/09/2010  

.A necessidade de superar a pobreza extrema e a fome tem sido o centro do esforço global para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) desde sua adoção há uma década. Até as crises dos alimentos, do petróleo e financeira nos últimos dois anos, os países em desenvolvimento progrediam para alcançar esses objetivos embora em ritmos diferentes.

Em 1981, 52% das pessoas nos países em desenvolvimento viviam na pobreza. Em 2005, a proporção havia caído para 25%. Os esforços foram bem-sucedidos até o advento das crises – os níveis de pobreza diminuíram acentuadamente no leste da Ásia, América Latina e na Europa Central e do Leste. Mas isso não chegou a todos. A África Subsaariana continua muito atrás: seus índices de fome e desnutrição têm diminuído, mas não o suficiente para atingir o objetivo de erradicar a fome até 2015.

As crises só agravaram a situação. O Banco Mundial estima que 64 milhões de pessoas a mais passaram a viver na extrema pobreza (com menos de US$ 1,25 por dia) em 2010; até 2015, 1,2 milhão de jovens morrerão; 350 mil estudantes adicionais não completarão o ensino primário e cerca de 100 milhões de pessoas a mais seguirão sem acesso a água potável. Além disso, pela primeira vez na história, 1 bilhão de pessoas irão para a cama com fome todas as noites.

Temos de redobrar os esforços para concentrar a ajuda nos pobres e vulneráveis. Investir na cadeia alimentar para aumentar a produtividade e a quantidade dos produtos agrícolas não ajudará apena a aliviar a fome. Também contribuirá para superar a pobreza, pois 75% dos pobres do mundo vivem nas áreas rurais dos países em desenvolvimento.

Os países de baixa renda podem melhorar os programas de proteção social para ajudar os mais vulneráveis. A nutrição deve ser parte integrante desses programas. A melhoria nutricional acarreta outros efeitos positivos ligados à mortalidade infantil e materna, à educação e à saúde.

O Banco Mundial está trabalhando com o Programa Mundial de Alimentos e a Unicef para melhorar a interconexão entre a nutrição e os programas de proteção social, como na merenda escolar e nos programas de alimentos por trabalho. Em parceria com outras organizações, esperamos aproveitar novos conhecimentos sobre suplementos alimentares para melhorar a dieta dos mais pobres.

A recuperação econômica global será desigual e incerta se não houver o necessário aumento de postos de trabalho. Temos de recuperar o terreno perdido e acelerar o passo para a superação da pobreza. O potencial de crescimento não se limita a alguns poucos mercados emergentes. A implementação de políticas mais sólidas melhorou o desempenho econômico e as oportunidades em muitos países de baixa renda, incluindo na África Subsaariana, que registrou taxa de crescimento anual de 6% durante os cinco anos anteriores à crise.

É imperativo que o foco esteja sobre os trabalhadores – emprego pleno e com máxima produtividade. Nesse contexto, os países devem ter sistemas que gerem habilidades por meio do desenvolvimento da primeira infância, com foco na nutrição, na estimulação e nas habilidades cognitivas básicas. Também devem assegurar que, uma vez na escola, os alunos aprendam sob regras transparentes, bons professores e recursos adequados, enfatizando resultados e o desempenho no sistema educacional mais amplo. É essencial estimular as habilidades exigidas pelos empregadores e promover o empreendedorismo e a inovação.

A recuperação depende também da reação do setor privado. As empresas investem e geram empregos apenas se vislumbrarem retorno. Os países deveriam criar um ambiente mais atrativo para investimentos, estabelecendo regras claras, implementando reformas regulatórias e proporcionando financiamento para os investimentos das pequenas e médias empresas, ao mesmo tempo garantindo a governança e o combate à corrupção.

Nesta semana, durante a avaliação na ONU sobre o progresso nos ODMs, a comunidade internacional precisa olhar além dos números para entender o que podemos aprender com eles e com nossos esforços até hoje. Temos de investir no que funciona e ajustar o que não funciona. O espírito humano pode conseguir coisas incríveis. É preciso dar essa oportunidade a todos.

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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Um copo pela metade

Alguns fatores auxiliam na redução da insegurança alimentar. 
Dentre eles destaco o acesso ao cidadão, mesmo com baixo poder de compra, à informação o que lhe gera uma capacidade, ainda que tênue, de cobrança.
Investimentos adequados em setores básicos permitem uma melhor inserção do cidadão à melhores condições de vida.
Há que se destacar, contudo, a questão das dificuldades estruturais que os países, notadamente os do mar do Caribe e os singrados pela cordilheira dos Andes enfrentam em produzir colheitas diversificadas e competitivas.


Um copo pela metade
José Graziano da Silva
Valor Econômico - 16/09/2010

Dados recém-divulgados sobre fome e pobreza na América Latina e Caribe autorizam um otimismo crítico em relação ao pós-crise na região, derivado do desempenho regional em relação ao objetivo número 1 das Metas do Milênio, que trata da redução de 50% da fome e da miséria até 2015, comparado aos níveis vigentes em 1990.
A Cepal estima que, entre 2002 e 2008, o contingente da pobreza extrema recuou de 22,5% para 12,9%. Em relação à segurança alimentar, a explosão dos preços agrícolas (2006/08) e a crise fizeram o contingente de subnutridos aumentar para 53,1 milhões de pessoas ao final de 2009, quase o mesmo nível de 1990, depois de haver se reduzido a 47,1 milhões no período 2005-2007.

Segundo as novas cifras da fome no mundo apresentadas há poucos dias pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO na sigla em inglês), as projeções para 2010 mostram uma inflexão positiva nesse universo, que agora reúne 52,5 milhões de pessoas. A diferença é pequena, da ordem de 1%. Mas o sinal é coerente com a reversão da linha da iniquidade, graças a uma inédita ênfase dos países nas políticas sociais.

Há obstáculos, porém, ao avanço desse guarda-chuva de inclusão. Seu alcance não terá maior contundência enquanto persistirem gargalos atávicos das sociedades locais, como a má distribuição da terra e a anêmica capacidade fiscal da grande maioria dos Estados nacionais.

Ademais, os resultados escondem assimetrias. Enquanto um punhado de países como Brasil, Chile e Peru - seguido por México, Equador e Costa Rica - percorreu ou está muito próximo de concluir a meta de reduzir a extrema pobreza pela metade, economias mais pobres, casos de Honduras, Bolívia e Paraguai, entre outras, encontram-se bem longe da meta.

A mesma disparidade ocorre em relação à luta contra a fome. No período 2005-2007, por exemplo, países como Nicarágua, Jamaica e Guiana já haviam reduzido pela metade a população subnutrida, enquanto Honduras, Brasil, Peru e Colômbia estavam próximos de fazê-lo. No entanto, cinco outros casos (República Dominicana, Haiti, Bolívia, Suriname e Trinidad e Tobago) praticamente não registravam avanços, ou, pior ainda, a Guatemala, mostrava um nível de subnutrição mais grave que no início da década de 90.

Não é por acaso que a erradicação da miséria e da fome figura como o primeiro Objetivo do Desenvolvimento do Milênio. Sem avanços substantivos nessa frente, os demais elos da justiça social não evoluem. Os riscos são tão maiores quando se sabe que a instável recuperação mundial não exclui uma recidiva da crise.

Apesar de algumas incertezas em relação à oferta, a FAO não vê, por ora, razões para uma nova alta dos preços, a exemplo da que elevou a cerca de 1 bilhão o total de famintos no planeta, em 2008. Outros flancos, todavia, emergem no vazio de governança pós-crise. Capitais especulativos ensaiam novas aventuras no mercado de commodities.

As ambiguidades desse cenário ocupam a pauta da FAO na reunião de setembro e outubro, em Roma, que vai consolidar a reforma do seu Comitê de Segurança Alimentar (CSA), emprestando-lhe maior abrangência para incorporar representantes da sociedade civil, tanto das organizações não governamentais, quanto do setor privado.

A recomposição dos estoques de segurança é uma prioridade para reduzir as incertezas atuais. A adoção de ajustes para que as Bolsas de futuros voltem a exercer seu papel de âncora do produtor, e não um espaço autônomo da especulação, é outra urgência. Reorientar a ajuda ao desenvolvimento também é uma preocupação que deverá estar presente na agenda do CSA.

Em maior ou menor grau, o desempenho regional durante a crise comprovou que a luta contra a pobreza e a fome ganha pontos quando deixa de ser encarada como responsabilidade subsidiária dos mercados para figurar como uma das balizas da ação pública que qualifica a abrangência e a direção do crescimento.

O Brasil emerge como principal referência dessa nova postura e uma das alavancas indutoras da evolução regional na consecução das metas para 2015. Convivem na América Latina e Caribe inúmeros programas de transferência de renda e combate a fome. Nenhum, porém, reúne como no caso do Fome Zero, um conjunto tão articulado de ações - entre elas, o Bolsa Família, a valorização do salário mínimo, o crédito popular e o fomento à agricultura familiar.

A síntese mais expressiva desse arcabouço, evidenciada na PNAD, é que pelo quinto ano consecutivo houve elevação do rendimento médio do trabalho permitindo que mais de dois milhões de brasileiros deixassem a pobreza entre 2008 e 2009 em pleno auge da crise mundial.

O consenso em relação às políticas sociais na atual campanha presidencial é outra evidencia de que um novo padrão de desenvolvimento caminha para nortear o crescimento do país, com reflexos inevitáveis nas demais economias da região. Seu bônus catalisador é a demonstração crescente, ancorada em resultados, de que mais justiça social redunda em maior legitimidade política. E isso amplia a margem de manobra para agregar reforma tributária e maior igualdade à mecânica do desenvolvimento sustentável.
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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Menos fome no mundo

Fazer a comida chegar a quem precisa de forma segura, sustentável e perene é um dos maiores desafios ainda não totalmente resolutos no mundo.
A disponibilidade de comida varia em função de fatores climatológicos, culturais econômicos e, recentemente, ambientais. Este último tem, até, servido de estorvo para muitas políticas de produção agrícola no mundo.
Ressaltando-se que China e Índia tiveram nos dez últimos anos, mais de 1,5 bilhão de pessoas, juntas, tendo capacidade de comprar e comer carne. A carne, a cada libra, cobra um belo excedente de impacto ambiental.
De toda sorte, vale a pena acompanhar este tema.
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Menos fome no mundo

Pela primeira vez nos últimos 15 anos, o número de pessoas que passam fome no mundo parou de aumentar. Em 2010, de acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a quantidade de pessoas cronicamente desnutridas caiu para 925 milhões, 9,6% menos do que no ano passado, quando havia 1,023 bilhão de famintos no planeta.
É um dado auspicioso, pois indica que, depois de muitos anos, o quadro da fome no mundo parou de piorar, pelo menos em números absolutos. Mas, quando se levam em conta outros fatores e, sobretudo, as metas fixadas pelos líderes mundiais em meados da década passada para o novo milênio, entre as quais a redução pela metade do número de vítimas da fome no mundo até 2015, o resultado é frustrante. O número de pessoas que ainda passam fome continua sendo "inaceitavelmente alto", como observou o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf.
O total de famintos existentes hoje no mundo é pelo menos 15% maior do que em 1996, quando os líderes mundiais concordaram em reduzir esse número ao longo do tempo, até que, em 2015, não ultrapassasse 10% da população, ou 400 milhões de pessoas - número que, ressalve-se, continuaria alto.
Hoje, o total de famintos corresponde a 16% da população mundial. Isso significa que, para atingir a meta definida em 1996 - a primeira das Metas de Desenvolvimento para o Milênio, como ficaram conhecidos os objetivos fixados naquela época -, a porcentagem de pessoas desnutridas precisa diminuir 6 pontos em cinco anos. Nos últimos 19 anos, no entanto, o que se conseguiu foi a redução de apenas 4 pontos porcentuais.
Na primeira redução do número de pessoas cronicamente desnutridas desde 1995, a queda entre 2009 e 2010 foi de 98 milhões. Será necessário repetir esse resultado ininterruptamente até 2015, e com melhoras, para que, até lá, o número de famintos no mundo seja reduzido em pelo menos 500 milhões de pessoas.
A melhora do quadro econômico em todo o mundo neste ano, em particular nos países em desenvolvimento, é apontada como um dos principais fatores para a redução da fome. O aumento da produção agrícola, forçando a baixa dos preços dos cereais - que haviam alcançado seu ponto mais alto em 2008 -, também contribuiu para a melhora do quadro mundial.
A previsão de que, em 2010, a colheita mundial de cereais será a terceira maior da história dá alguma esperança de que a fome no mundo continuará a diminuir - embora fique cada vez mais claro que será muito difícil atingir as metas do milênio.
Paradoxalmente, nesse cenário favorável surgem elementos perturbadores que podem prejudicar as populações mais pobres do mundo e agravar o problema da fome. Nas últimas semanas, as cotações dos cereais subiram continuamente, em razão do temor - até agora infundado, dadas as previsões para a produção mundial - provocado pela quebra da safra de trigo da Rússia e de países vizinhos, devido à seca.
A FAO observa que, nos últimos anos, os países pobres e suas populações mostraram extrema vulnerabilidade às oscilações no mercado de alimentos e capacidade de reação muito baixa quando a situação começa a melhorar. Segundo a FAO, os efeitos de uma crise sobre a fome no mundo não desaparecem quando a crise se vai. Na crise, as famílias mais vulneráveis vendem seus bens para conseguir sobreviver; passada a crise, não dispõem de renda suficiente para recompor seu patrimônio e, quando tentam recuperar o que perderam, têm de reduzir seu consumo de alimentos.
Em resumo, o crescimento econômico é indispensável, mas não é suficiente para eliminar a fome no mundo num período determinado. É preciso que haja também uma ação correta dos governos, no sentido de apoiar a produção agrícola, manter políticas sociais eficazes, preservar instituições que assegurem os investimentos, melhorar a infraestrutura e, sobretudo, criar mecanismos que façam a comida chegar aos mais necessitados.
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