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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Mais trabalhadores estrangeiros


O Estado de S. Paulo




O governo vê apenas o lado positivo do excepcional aumento do número de estrangeiros que obtiveram visto para o trabalho regular no País no primeiro semestre (26,5 mil, ou 19,4% mais do que nos seis primeiros meses de 2010). Para o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, este é o resultado do crescimento da economia brasileira, que atrai trabalhadores de países que não vivem um momento tão favorável. Mas é preciso examinar o problema do qual o rápido crescimento da fatia do mercado de trabalho ocupada por estrangeiros dá apenas indicações: o da escassez de mão de obra qualificada, que o crescimento econômico tornará cada vez mais agudo se não for encarado com competência e presteza.

Com o aumento da produção, crescem os investimentos e a demanda por mão de obra, interna e externa. Como diz o ministro, "o Brasil virou a meca do trabalho para estrangeiros, especialmente para nossos vizinhos da América Latina". Na sua avaliação, porém, a mão de obra estrangeira ainda representa um contingente ínfimo se comparado com o tamanho da população, razão pela qual ele não vê riscos para o mercado de trabalho dos brasileiros. De fato, não se vê nenhuma ameaça ao emprego do trabalhador local na entrada de estrangeiros, como destacou o ministro.

Mas a qualificação dos estrangeiros que obtiveram visto para trabalhar no País neste ano mostra um outro aspecto da questão. De acordo com as estatísticas do Ministério do Trabalho, dos 26.545 estrangeiros que entraram no País no primeiro semestre, 23.483, ou 88,5%, têm pelo menos o segundo grau completo, sendo que 15.044, ou 56,7% do total, têm curso superior completo ou habilitação legal equivalente(e 997 têm pós-graduação ou título de mestre ou de doutor).

Esses dados indicam que muitas empresas podem estar buscando no exterior o profissional qualificado de que necessitam, mas não encontram aqui. O problema já afeta diversos setores econômicos e tende a se agravar nos próximos anos, em razão da demanda gerada por investimentos programados em setores como habitação, saneamento, energia, transportes, tecnologia de informação e turismo.

As conhecidas deficiências do sistema educacional impõem um pesado ônus ao País, que não conseguirá reformá-lo no curto prazo. Por isso, as empresas que mais sentem a carência de pessoal qualificado procuram treinar mão de obra por seus próprios meios, às vezes até mesmo no local de trabalho.

Nas crises pelas quais o País passou nas últimas décadas, profissões como a de engenheiro foram pouco estimuladas. Profissionais formados desistiram da carreira ou procuraram emprego no exterior. Hoje, o País se ressente fortemente da escassez desses profissionais. De acordo com o Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura, no Brasil há 7 engenheiros por mil pessoas economicamente ativas, enquanto nos países industrializados esse índice varia de 12 a 24 por mil.

Pesquisa feita em escala mundial por uma empresa de recursos humanos e divulgada há alguns meses revelou que o Brasil é o terceiro país com mais escassez de talentos profissionais no mundo (o mais carente é o Japão, por causa do envelhecimento de sua população; em seguida, está a Índia, que se tornou um polo mundial de tecnologia de informação). Essa carência é notável na área técnica, sobretudo de engenharia, mas se estende a setores variados e a funções que vão de motoristas a operários e operadores de máquina.

Até a construção civil, que é a porta de entrada no mercado para trabalhadores sem qualificação, carece de profissionais. Faltam mestres de obras e montadores, por exemplo. Algumas construtoras treinam seus profissionais no próprio canteiro de obras. Em outros segmentos, é crescente a presença de mão de obra estrangeira.

São medidas de emergência, que não resolvem o problema essencial. É indispensável e urgente que o País prepare adequadamente, e na quantidade devida, a mão de obra necessária para o crescimento sustentado e para a melhoria das condições de vida da população.
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Caça aos talentos

A reportagem faz uma breve e importante radiografia acerca do impacto da falta de qualificação dos profissionais no mercado sem, todavia, se aprofundar nas causas ou apontar soluções.
Vale, ainda assim, ler e acompanhar o tema.


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Diogo de Hollanda
Valor Econômico

O Brasil tem pouco tempo para reverter um déficit que se agravou com a expansão da economia e se tornou uma das maiores ameaças ao desenvolvimento do país: a falta de profissionais qualificados. Diferentemente de outros períodos, quando se concentrou em Estados e ramos específicos, a carência agora afeta todas as regiões e um amplo leque de setores. O universo de funções também é mais heterogêneo: vai do operário de chão de fábrica ao CEO preparado para lidar com os novos desafios das corporações. "A situação nunca foi tão crítica", diz o diretor de desenvolvimento da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende.

Pesquisa feita em setembro pela fundação mostrou que, de 76 empresas, 67% tinham dificuldade em fazer contratações. "Com a manutenção do ritmo de crescimento e o pouco que houve de reação, o quadro ficou mais agudo de lá para cá", afirma Resende, que cita como principal causa do problema a falta de planejamento estratégico e de longo prazo para a qualificação no país. "O Brasil nunca se planejou para crescer como está crescendo e sempre foi reativo em relação à oferta de mão de obra."

De acordo com a pesquisa, a indústria da construção e o setor de bens de consumo são os que têm maior percentual de empresas com dificuldade para recrutar: respectivamente 88% e 80%. Em seguida, aparecem as companhias de serviços (75%), transportes (67%) e siderurgia/metalurgia (67%). Embora cada vez mais generalizada, a escassez é mais intensa em categorias de nível técnico, o que, além da falta de investimento, reflete uma tendência cultural a se depreciar trabalhadores sem curso superior.

Segundo cálculos do diretor da FDC, o país precisa quintuplicar a capacidade de formação de técnicos, hoje excessivamente concentrada no Sistema S, da Confederação Nacional da Indústria (CNI). No ano passado, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) aumentou em mais de 100 mil o número de matrículas - totalizando 2,2 milhões -, mas Resende diz que é necessário investir em outras escolas. "Não podemos fazer milagre", reconhece o diretor de educação e tecnologia da CNI, Rafael Lucchesi, lembrando que atualmente cerca de 60% dos alunos do ensino médio técnico do Brasil estudam no Senai.

Entre as carreiras de nível superior, a maior dificuldade é contratar engenheiros de áreas mais aquecidas, como construção civil, petróleo, química, telecomunicações e agronegócio. Na esfera executiva, as empresas buscam - e demoram a encontrar - profissionais qualificados para os novos itens da agenda empresarial brasileira, como a internacionalização, a profissionalização de companhias familiares, o desenvolvimento de ações de sustentabilidade e uma aproximação mais efetiva do mercado de capitais. O processo torna-se mais angustiante quando se confronta a urgência das empresas com o horizonte, necessariamente extenso, da capacitação profissional. "O desenvolvimento pessoal é lento, longo e tem de ser estruturado", afirma Fábio Ribeiro, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-RJ).

Pressionadas pelo crescente custo da mão de obra - e pelos impactos sobre a competitividade -, as empresas procuram, cada vez mais, soluções customizadas para suas carências. A demanda por cursos "in company", moldados sob medida para clientes corporativos, é a que mais cresce na maior parte das escolas de negócio. Na Fundação Dom Cabral, por exemplo, o segmento responde por 40% do faturamento. No Ibmec, a expectativa é de que, em três anos, passe a representar 50% da receita com cursos executivos - hoje o percentual está na faixa de 30%. "O formato dos programas é o mais diverso: vai desde uma palestra até um curso de 500 horas", explica Eduardo Pitombo, gerente de soluções corporativas do Ibmec.

Para o diretor do Instituto Coppead, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Kleber Figueiredo, além da busca por flexibilidade e velocidade, o sucesso dos "in company" mostra quão diversificadas são as demandas das empresas. "Não existem necessidades uniformes. Cada empresa tem suas carências", diz. Foi justamente essa multiplicidade que levou o Grupo Ibope a criar uma unidade de educação executiva voltada para uma proposta específica: ajudar as companhias a utilizarem as informações na tomada de decisões estratégicas. "Muitas vezes as informações chegam com deficiência na mesa do presidente", diz Renato Borgheresi, diretor do Ibope Educação.

Essa dinâmica do mercado tem pautado os MBA executivos na tarefa de manter os currículos atualizados. No Coppead, o maior peso da internacionalização já havia originado, em 2009, a cadeira "negócios multiculturais" e, neste ano, depois de amadurecer em outras abordagens, foi a vez de a sustentabilidade transformar-se em disciplina formal. Na Fundação Getúlio Vargas (FGV), além da internacionalização, disciplinas como gestão de culturas, valores intangíveis e gestão do conhecimento passaram a integrar o currículo. "Também damos ênfase ao empreendedorismo e à proatividade", conta Marco Túlio Zanini, coordenador do Mestrado Executivo em Gestão Empresarial da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV).

Segundo Zanini, o setor de educação executiva vive um momento de discussão em todo o mundo e busca formas de intensificar o efeito prático de seus programas. "Muitos procuram a escola pela reputação, mas não para dar um salto qualitativo", afirma. A coordenadora do MBA em gestão do IAG PUC-Rio, Ana Heloísa Lemos, concorda e insere essa postura numa mentalidade de desprezo ao estudo. "No Brasil, valoriza-se o título, mas a formação não é verdadeiramente valorizada", diz.

Para a professora da PUC, as próprias empresas têm uma parcela de culpa, ao manter programas de estágio com salários agressivos, muitas vezes transgredindo a carga horária legal (seis horas) e não raro exigindo experiência. "As empresas depois se queixam de que o profissional está mal formado, mas contribuem para isso, criando uma estrutura perversa."
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domingo, 5 de setembro de 2010

.Envelhecimento da população desafia o mercado de trabalho

Uma realidade entre nós há anos e um desafio que ainda não foi bem resolvido.
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.Envelhecimento da população desafia o mercado de trabalho
Autor(es): Agencia o Globo/Chico Otavio
O Globo - 31/08/2010
Interesse pela mão de obra de idosos cresce, mas não acompanha acelerado avanço da faixa etária

Procura-se profissional acima dos 60 anos... Para um mercado de trabalho que insiste em enxergar o Brasil como um país jovem, o anúncio de emprego pode sugerir um trote. Mas não é. Gente como o comerciante Antônio Fiori, a empresária Márcia Lima Gabionetta e a assistente social Renata Hauck faz parte de um pequeno, mas promissor, grupo de empregadores que resolveu trocar o vigor da juventude pela experiência e a assiduidade dos mais velhos. Para as vagas abertas em seus negócios, eles optaram pelo trabalhador idoso.

As projeções indicam que o país a ser revelado pelo Censo 2010 do IBGE terá um contingente de 14 milhões de idosos. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) reforçam o fenômeno: se a população total cresce à taxa de 0,9% ao ano, o incremento de pessoas acima dos 60 anos avança quatro vezes mais (3,8% anuais).

Para muitos, os números sinalizam um problema quando cruzados com as contas da Previdência ou com o sistema de saúde. Há outros, porém, que preferem entendêlos como nicho de negócios: O retorno é garantido. Os idosos são pessoas responsáveis e centradas. Não dão trabalho, não faltam. Já os jovens têm outras ambições, como as baladas do fim de semana afirma o comerciante paulista Antônio Fiori, dono de uma fornecedora de areia e pedras, que acaba de contratar um idoso para gerente.

Como o país está envelhecendo, o desafio civilizatório que se impõe, preveem os demógrafos, é aumentar a idade produtiva da população. Em vez de estimular a ociosidade da terceira idade ou alterar o fator previdenciário, para evitar que o equilíbrio atuarial fique insustentável, a alternativa seria dotar os idosos de capacidade física para adiar a retirada da vida produtiva.

O Brasil não estava preparado para envelhecer. Se a perspectiva era se aposentar e viver no máximo oito anos, hoje a pessoa chega a ter mais 20, 30 anos de vida. Nenhuma sociedade pode jogar fora essa mão de obra diz o médico Renato Veras, diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati/Uerj).

No caminho de volta ao mercado, o aposentado tem deixado a carteira de trabalho em casa. Quase metade dos trabalhadores ocupados acima dos 60 anos (44%) é autônoma, enquanto 31,4% são assalariados, 9,8%, empregados domésticos e 9,7%, empregadores.

Há dois tipos de idosos no mercado informal: o mais escolarizado, que geralmente é um profissional liberal e se beneficia de sua experiência, e o menos escolarizado, que encontramos muito na agricultura explica a economista Ana Amélia Camarano, coordenadora de Pesquisa em População e Cidadania do Ipea.

No ano passado, 55% da população masculina entre 60 e 69 anos ainda trabalhavam. Muitos, principalmente nas faixas de renda mais baixas, prolongaram a idade produtiva para reforçar a diminuta aposentadoria quando a família cresceu.

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Com o idoso, não há tempo ruim.

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O aposentado representa um baixo custo. Não faz questão de carteira assinada e vê o salário como um complemento de renda. Há casos em que nem salário é necessário.

Com vasta experiência acumulada, saúde e vontade de contribuir, o aposentado abraça o voluntariado.

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Demissões espontâneas, aposentadoria compulsória e outros mecanismos encurtam a vida ativa de milhares de trabalhadores.

Há lugares, porém, em que a experiência com os mais velhos foi tão boa que motivou a continuidade: Perdi um serralheiro que ainda trabalhava quando morreu aos 80. Para substituí-lo, quero outro idoso diz a empresária Márcia Lima Gabionetta, dona de uma fábrica de tendas e barracas para feiras.


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