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domingo, 28 de julho de 2013

Fascismo em nome de Deus

Um tema sério a ser encarado de frente pela sociedade frente a mais absoluta incapacidade do Estado resolver de forma adequada frente aos demais vultosos gastos no SUS.


Fascismo em nome de Deus
DRAUZIO VARELLA
FOLHA DE SP


Um Estado laico tem direito de submeter a sociedade inteira a uma minoria de fanáticos?

Há manhãs em que fico revoltado ao ler os jornais.

Aconteceu segunda-feira passada quando vi a manchete de "O Globo": "Pressão religiosa", com o subtítulo: "À espera do papa, Dilma enfrenta lobby para vetar o projeto para vítimas de estupro que Igreja associa a aborto".

Esse projeto de lei, que tramita desde 1999, acaba de ser aprovado em plenário pela Câmara e pelo Senado e encaminhado à Presidência da República, que tem até 1º de agosto para sancioná-lo.

Se não houver veto, todos os hospitais públicos serão obrigados a atender em caráter emergencial e multidisciplinar as vítimas de violência sexual.

Na verdade, o direito à assistência em casos de estupro está previsto na Constituição. O SUS dispõe de protocolos aprovados pelo Ministério da Saúde especificamente para esse tipo de crime, que recomendam antibióticos para evitar doenças sexualmente transmissíveis, antivirais contra o HIV, cuidados ginecológicos e assistência psicológica e social.

O problema é que os hospitais públicos e muitos de meus colegas, médicos, simplesmente se omitem nesses casos, de forma que o atendimento acaba restrito às unidades especializadas, quase nunca acessíveis às mulheres pobres.

O Hospital Pérola Byington é uma das poucas unidades da Secretaria da Saúde de São Paulo encarregadas dessa função. Lá, desde a fundação do Ambulatório de Violência Sexual, em 1994, foram admitidas 27 mil crianças, adolescentes e mulheres adultas.

Em média, procuram o hospital diariamente 15 vítimas de estupro, número que provavelmente representa 10% do total de ocorrências, porque antes há que enfrentar as humilhações das delegacias para lavrar o boletim de ocorrência.

As que não desistem ainda precisam passar pelo Instituto Médico Legal, para só então chegar ao ambulatório do SUS, calvário que em quase todas as cidades exige percorrer dezenas de quilômetros, porque faltam serviços especializados mesmo em municípios grandes. No Pérola Byington, no Estado mais rico da federação, mais da metade das pacientes vem da Grande São Paulo e de municípios do interior.

Em entrevista à jornalista Juliana Conte, o médico Jefferson Drezzet, coordenador desse ambulatório, afirmou: "Mesmo estando claro que o atendimento imediato é medida legítima, na prática ele não acontece. Criar uma lei que garanta às mulheres um direito já adquirido é apenas reconhecer que, embora as normas do SUS já existam, o acesso a elas só será assegurado por meio de uma força maior. Precisar de lei que obrigue os serviços de saúde a cumprir suas funções é uma tristeza".

Agora, vamos ao ponto crucial: um dos artigos do projeto determina que a rede pública precisa garantir, além do tratamento de lesões físicas e o apoio psicológico, também a "profilaxia da gravidez". Segundo a deputada Iara Bernardi, autora do projeto de lei, essa expressão significa assegurar acesso a medicamentos como a pílula do dia seguinte. A palavra aborto sequer é mencionada.

Na semana passada, o secretário-geral da Presidência recebeu em audiência um grupo de padres e leigos de um movimento intitulado Pró-Vida, que se opõe ao projeto por considerá-lo favorável ao aborto.

Pró-Vida é o movimento que teve mais de 19 milhões de panfletos apreendidos pela Polícia Federal, na eleição de 2010, por associar à aprovação do aborto a então candidata Dilma Rousseff.

Na audiência, o documento entregue pelo vice-presidente do movimento foi enfático: "As consequências chegarão à militância pró-vida causando grande atrito e desgaste para Vossa Excelência, senhora presidente, que prometeu em sua campanha eleitoral nada fazer para instaurar o aborto em nosso país".

Quem são, e quantos são, esses arautos da moral e dos bons costumes? De onde lhes vem a autoridade para ameaçar em público a presidente da República?

Um Estado laico tem direito de submeter a sociedade inteira a uma minoria de fanáticos decididos a impor suas idiossincrasias e intolerâncias em nome de Deus? Em que documento está registrada a palavra do Criador que os nomeia detentores exclusivos da verdade? Quanto sofrimento humano será necessário para aplacar-lhes a insensibilidade social e a sanha punitiva?
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sábado, 24 de março de 2012

O começo do fim da Aids

DRAUZIO VARELLA

FOLHA DE SP

Os que receberam tratamento precoce tiveram 41% menos processos infecciosos do que os demais

Parece ficção, mas esse foi o nome de um congresso realizado na Universidade George Washington, em dezembro último.

Há muito a comunidade científica discute a ideia de que tratar a infecção pelo HIV com antirretrovirais (ARVs) traria a vantagem paralela de impedir a transmissão do vírus.

De um lado, os que consideravam óbvia essa hipótese: se os remédios reduzem a carga viral, a probabilidade de espalhar o vírus tem que diminuir. De outro, os céticos: falta provar.

A controvérsia foi esclarecida com a publicação do estudo conduzido pelo HIV Prevention Trial Network, um consórcio internacional do qual participaram diversos infectologistas brasileiros.

Batizado como HPTN 052, o estudo envolveu 1.763 casais heterossexuais com apenas um dos cônjuges infectado (casais discordantes), residentes em cinco países africanos, Brasil, Tailândia e Estados Unidos. 
Para participar, o parceiro infectado devia estar virgem de tratamento e ter no sangue um número de células CD4 entre 350 e 550/mm³, característica dos que apresentam certo grau de deficiência imunológica, porém ainda insuficiente para chegar à fase de Aids.

Sorteados ao acaso, metade dos participantes recebeu comprimidos contendo ARVs. Para os outros, foram distribuídos comprimidos-placebo aparentemente idênticos, até que suas células CD4 caíssem abaixo de 250.

Em abril de 2011, os resultados se mostraram tão contundentes que o estudo foi encerrado e enviado para a revista médica de maior circulação mundial: "The New England Journal of Medicine". 
Das 28 pessoas infectadas por seus parceiros, 27 faziam parte do grupo-placebo; apenas uma pertencia ao grupo medicado com os ARVs.

Além do benefício na prevenção, os que receberam tratamento precoce tiveram 41% menos processos infecciosos do que os demais, constatação que levou os organizadores a prescrever ARVs para todo o grupo de controle. Para excluir a possibilidade de que os 28 infectados tivessem adquirido o vírus em relações extraconjugais, o HIV colhido na circulação de cada um deles foi submetido a testes genéticos para confirmação de identidade com o vírus do cônjuge. 
Você acha, leitor, que o debate está encerrado?

Claro que não. Em ciência, a resolução de um problema inevitavelmente cria outros. Agora, alinham-se em campos opostos os otimistas, que acham possível conter a epidemia em países inteiros às custas do tratamento precoce dos HIV positivos, contra os que consideram essa estratégia fantasiosa pelas seguintes razões: 

1) É muito difícil identificar todos os infectados pelo HIV. Nos cinco continentes, há 34 milhões, apenas 6,6 milhões dos quais recebendo medicamentos. A cada ano ocorrem 2,7 milhões de infecções novas. Lesoto, país africano com a terceira prevalência mais alta do mundo, lançou em 2004 uma campanha nacional para testar a população inteira. Até hoje, apenas metade dos adultos fizeram o teste. 

2) Os testes anti-HIV não possuem sensibilidade para detectar o vírus nos primeiros dias depois de adquiri-lo, quando a multiplicação rápida na corrente sanguínea torna a transmissão mais provável. Cerca de um terço delas ocorre nessa fase aguda. 

3) Para a estratégia ter êxito, os portadores devem tomar os remédios com regularidade, durante muitos anos, rotina especialmente problemática no caso dos assintomáticos, quando experimentam efeitos colaterais.

4) Prescrever ARVs em grande escala aumenta o risco de tornar o vírus mais resistente. Na África, a resistência do HIV entre os que recebem tratamento aumenta a cada ano que passa.

5) Confiar na atividade protetora dos ARVs poderia levar os portadores a adotar práticas sexuais inseguras para seus parceiros.

6) Embora menos da metade dos que precisariam tomar ARVs tenha acesso a eles, cerca de dois terços dos U$ 7 bilhões anuais investidos no combate à epidemia são consumidos apenas no custeio de programas de tratamento. Haveria recursos para medicar todos?

Apesar dessas objeções, a possibilidade de conter a epidemia com medicamentos deixou de ser pensamento mágico. A revista "Science" considerou a prevenção do HIV com antirretrovirais a mais importante de todas descobertas científicas do ano passado.
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sábado, 4 de junho de 2011

Bactérias que engordam


DRAUZIO VARELLA
FOLHA DE SÃO PAULO

Seria possível realizar o grande sonho de pessoas modernas: comer e beber à vontade sem engordar? 

HÁ MAIS bactérias no corpo humano do que sonha nossa vã filosofia.

Mais numerosas do que o total de células do organismo inteiro, elas colonizam a pele e as mucosas que revestem a superfície interna dos aparelhos respiratório, gênito-urinário e digestivo.
Na fase intrauterina vivemos num ambiente estéril, porque a placenta cria uma barreira que impede a flora materna de chegar até nós. Assim que o útero de nossas mães decide expulsar o parasita que lhes consumiu as entranhas durante nove meses, caímos num mundo com germes no ar, na água, nas pessoas que nos embalam e até nos seios daquelas que nos alimentam com tanto amor.

Já na primeira mamada, nossos intestinos são invadidos por milhões de bactérias, decididas a encontrar um nicho ecológico que lhes permita cumprir o mandamento supremo da vida na Terra e em qualquer planeta em que tenha existido ou porventura venha a existir: crescei e multiplicai-vos.

Nos míseros 5 milhões de anos em que nossa espécie tem feito de tudo para sobreviver, as bactérias aprenderam que a simbiose com as células intestinais é estratégia mais inteligente do que invadir a mucosa, penetrar os tecidos internos, desorganizar a fisiologia humana e matar o hospedeiro. Em ambiente de convivência harmoniosa podem ter acesso aos nutrientes que ingerimos e até ajudar a digestão de alimentos para os quais não estamos preparados, sem despertar a ira do sistema imunológico.

Em 2006, um grupo da Universidade de Washington observou que os intestinos de ratos obesos abrigavam uma população de bactérias diferente daquela existente nos magros. Três anos mais tarde, o mesmo grupo publicou na revista "Science" um estudo mostrando que ratos magros "alimentados" com a mesma flora bacteriana dos gordos, também ganhavam peso.

Por simples manipulação das bactérias que vivem no intestino, seria possível realizar o grande sonho das mulheres e dos homens modernos: comer e beber à vontade sem engordar?
Pode parecer uma ideia mirabolante, mas faz algum sentido. Há muito tempo os criadores sabem que adicionar pequenas doses de antibióticos à ração faz o gado engordar e que o efeito é tão mais evidente quando mais cedo começa o tratamento dos bezerros.

Se com o gado ocorre esse fenômeno, será que os antibióticos receitados às crianças, desde a descoberta da penicilina, não estariam implicados na epidemia de obesidade que se dissemina pelos cinco continentes?

No último Congresso Internacional sobre o Microbioma Humano, em Vancouver, no Canadá, Martin Blaser, da Universidade de Nova York, apresentou um trabalho comparando dois grupos de ratos criados em condições comparáveis: o primeiro recebeu diariamente doses baixas de antibióticos, enquanto o segundo não foi medicado. No final, os ratos alimentados com antibióticos tinham flora intestinal com menor diversidade do que os outros, pesavam 15% mais e acumulavam 25% mais gordura no fígado (esteatose hepática).

Pesquisadores do consórcio Meta-HIT que se dedicam a investigar a relação entre as condições de saúde e os genes bacterianos presentes no intestino humano, compararam os genes das bactérias presentes nas fezes de 177 dinamarqueses magros com aqueles detectados em 122 conterrâneos obesos ou com excesso de peso. Enquanto as fezes da maioria dos participantes continham cerca de 600 mil genes bacterianos diferentes, pelo menos um terço dos obesos apresentavam ao redor de 360 mil, indicando menor biodiversidade.

Foram identificadas seis espécies de bactérias cuja presença ou ausência permitia predizer em mais de 80% dos casos se pertenciam à flora intestinal de uma pessoa magra ou gorda, enquanto a análise dos fatores genéticos predisponentes à obesidade possibilitava prever com acerto apenas 58% das vezes.
O que não está claro é se as diferenças encontradas entre os microbiomas intestinais são a causa ou a consequência da obesidade, ou se representam fatores que apenas contribuem para que ela se instale.
Ainda levará tempo para surgir um iogurte rico em bactérias capazes de emagrecer sedentários que bebem sem moderação e comem tudo o que lhes oferecem.
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