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domingo, 3 de julho de 2011

O futuro do Brasil passa por mudança em seu papel na nova ordem mundial


Delfim Netto
Carta Capital

O momento que vivemos oferece algumas características que nos estimulam a olhar o que vem por aí na economia. Um desses estímulos me veio da observação recente do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, quando chamou a atenção para o fato de que o Brasil não deve aproveitar inocentemente o excesso de liquidez que existe no mundo. Esse enorme fluxo de dólares vai ter consequências para a nossa economia ao supervalorizar o real e ampliar as dificuldades para a indústria. E abre também a perspectiva de problemas para bancos e empresas que estão se endividando mais do que seria prudente.

Um olhar sobre o futuro permite antever que alguns setores que estão se endividando alegremente além da conta podem ter de enfrentar apertos sérios se a economia mundial voltar a piorar.

Outro estímulo decorre do entusiasmo que vem despertando além-fronteiras o formidável desempenho do setor agropastoril brasileiro. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) divulgou recentemente uma estimativa segundo a qual ao menos 30% do aumento da oferta de alimentos que vai sustentar a demanda da população mundial, de 9 bilhões em 2040, deverá ser garantido pela produção brasileira. Será ótimo se isso vier a se realizar, mas não podemos contar com um desenvolvimento tecnológico que ainda não ocorreu.

Tais cálculos são sempre duvidosos. Lembro que nos anos 70 do último século era seguro que todos estaríamos mortos de fome hoje, caso as previsões estivessem corretas. Minha impressão é de que não cabem no mundo 9 bilhões de pessoas em 2040/2050 com a renda per capita de 20 mil dólares. Seria necessário usar a terra de um outro mundo para produzir comida.  Além disso, quem se arrisca a garantir que a China manterá por mais 20 ou 30 anos o dinamismo econômico de hoje e a estrutura política atual, que já dá alguns sinais de fadiga?

É claro que o Brasil não pode aceitar passivamente o modelo de desenvolvimento agromineral-exportador induzido que lhe está sendo imposto pela nova divisão internacional do trabalho: para a China, o fornecimento universal dos bens industrializados, para a Índia, o fornecimento global dos serviços, e, para o Brasil, o de fornecedor residual de produtos agrícolas e minerais.

O setor, que é o maior poupador de mão de obra, será incapaz de dar emprego de boa qualidade a quase 150 milhões de brasileiros com idades entre 15 e 65 anos que viverão em 2030! A aceitação desse modelo coloca em risco o futuro da economia brasileira como instrumento de construção de uma sociedade justa, com baixos índices de desemprego e suficiente emprego de boa qualidade. O que precisamos é voltar nossas atenções para o futuro do setor criador de empregos por excelência, restaurando as condições de isonomia que permitam aos nossos empresários e trabalhadores da indústria consolidar a expansão do mercado interno que vai assegurar os bons cargos a nossos filhos e netos.

É exatamente a criação dessa capacidade que abre as portas para a construção da sociedade que todos desejamos, capaz de dar igualdade de oportunidade para todo cidadão.

Não deixa de ser perturbador como um grande número de pessoas assume um papel conformista diante do que supõem ser uma fatalidade histórica, que é melhor aceitar do que combater. Aquela divisão internacional do trabalho não tem nada de natural ou inexorável. É apenas produto de uma inteligente política do governo chinês, oportunisticamente aceita na OMC pela simbiótica relação com alguns países (em particular os EUA) e pela complacência de outros, como é o nosso caso.

É claro que o Brasil faz bem em aproveitar o aumento da demanda física de alimentos e minerais por parte da China e as altas de preços estimuladas pela política monetária americana. Como o dólar nominal é a unidade de conta internacional, quando ele perde valor, a contrapartida do mercado é elevar ainda mais os preços das commodities.

Apenas para dar um exemplo: há dez ou 11 anos, um mix de exportação de 1 tonelada do Brasil comprava um mix de 0,9 tonelada da importação. Hoje 1 tonelada exportada compra 1,4 tonelada importada. Isso correspondeu a um choque de “produtividade”, que permitiu a libertação da economia brasileira- da permanente situação de iliquidez externa, cuja  última manifestação foi no final do governo FHC, quando tivemos de correr ao FMI para permitir uma eleição tranquila. Mas é uma temeridade e uma grande imprudência supor que isso não vai mudar nos próximos 20 ou 30 anos…


Delfim Netto economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Davos e nós

ANTONIO DELFIM NETTO 
FOLHA DE SÃO PAULO

O conhecimento dos ensinamentos da "escola" neoclássica é necessário, mas não suficiente para a formulação adequada da política econômica que tenta maximizar o emprego e o PIB com o controle da inflação e do balanço em conta corrente. Por maior que seja a resistência de seus seguidores para aceitar a ideia, deveria ser claro que ela, sub-repticiamente, envolve a crença em leis "naturais".
De vez em quando, entretanto, nos momentos mais eufóricos, os neoclássicos baixam a guarda e revelam o fato.
Agora mesmo, em Davos, um dos seus mais representativos defensores, o Institute of International Finance (IIF), um "think-tank" localizado em Washington (financiado pelo sistema financeiro internacional), declarou por seu porta-voz que o Brasil "deveria abandonar a ideia de controlar o real e permitir a evolução natural do seu valor".
E completou: "Se existem pressões naturais dos fundamentos econômicos elevando o valor do real, todo esforço para controlá-lo será custoso e inútil". Ao final, ele disse que deveríamos "deixar o real encontrar naturalmente um valor de mercado mais realista e focar outras coisas, como a política fiscal".
O primeiro conselho é naturalmente duvidoso porque não há relação estável entre "fundamentos" e taxa de câmbio. O segundo faz sentido.
Entretanto por motivos não naturais. Devemos praticar um controle nos gastos de custeio e realizar uma enérgica mudança no financiamento da dívida pública para levar o juro real do Brasil, a um prazo adequado, ao nível internacional. Esse é o ponto. Não há nenhuma lei natural que garanta que somos um caso teratológico (produzido por qualquer "gene": inflação no passado, insegurança jurídica, planos fracassados etc.) que exige, naturalmente, a maior taxa de juro real do mundo.
Os mercados de bens e serviços são diferentes dos financeiros, onde se determina a taxa cambial. Nos primeiros, enfrentam-se dois grupos antagônicos (compradores e vendedores distintos) e o equilíbrio é produzido por suas forças relativas. No segundo, quando o valor de um ativo se eleva, sua demanda necessariamente não cai.
Pode (como ocorre frequentemente) elevar-se porque cada agente é, alternadamente, comprador ou vendedor. É isso o que ocorreu com a moeda (taxa de câmbio) após as espetaculares "inovações" financeiras e a informática transformaram-na numa "mercadoria" comprada e vendida diariamente num mercado que é 20 vezes maior do que o de bens e serviços transacionados externamente.
É mais do que evidente que a concorrência financeira não limita a flutuação da taxa de câmbio.

*Antônio Delfim Netto, economista e político brasileiro.
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