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sábado, 9 de agosto de 2014

A degeneração do Mercosul

 EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO  

A última cúpula do Mercosul, em Caracas, prestou somente para reafirmar que o bloco econômico não tem outra utilidade senão a de servir como palanque político. O Mercosul está sendo usado, cada vez mais, para legitimar posições ideológicas que representam o atraso e que estão condenando esta parte da América do Sul à estagnação. Esse melancólico papel ficou claro quando os chefes de Estado ali reunidos deram muito mais importância a tópicos que nada têm a ver com questões comerciais - que deveriam ser, afinal, sua preocupação central.

A presidente Dilma Rousseff até tentou trazer um importante assunto para a pauta - a defesa de um acordo de livre-comércio do Mercosul com a Aliança do Pacífico, o dinâmico bloco formado por México, Peru, Colômbia e Chile. Mas foram palavras ao vento, pronunciadas com o único propósito de caracterizar Dilma, candidata à reeleição, como uma presidente preocupada em realizar bons negócios para o Brasil e em ampliar os horizontes do Mercosul. Mas o discurso da petista caiu no vazio e nem foi mencionado na declaração final da cúpula Assim como Dilma, a maioria dos demais chefes de Estado parecia estar ali apenas para cuidar de seu peixe. Mercosul, cada um por si foi o apropriado título de reportagem do jornal El País sobre os bastidores do encontro.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por exemplo, usou a reunião para obter respaldo a seu autoritarismo e a suas desastrosas iniciativas econômicas, que recentemente causaram convulsão no país. Logo no início da declaração oficial do encontro, por exemplo, os chefes de Estado condenaram "todo tipo de violência e intolerância que busque atentar contra a democracia e suas instituições, tais como os lamentáveis acontecimentos que ameaçaram, no início do ano, a ordem democrática legalmente constituída pelo voto popular" na Venezuela. Portanto, para o Mercosul, foi a oposição a Maduro que atentou contra a democracia, e não a resposta truculenta do governo, que causou mais de 30 mortes e resultou na prisão arbitrária de dissidentes.

Na declaração final, raras foram as menções a iniciativas para articular os mercados regionais - e mesmo essas poucas sugestões retratam o viés bolivariano que predomina no bloco. Presidente do Mercosul e anfitrião do encontro, Maduro ficou à vontade para desfiar seu rosário de bobagens sobre integração. Ele defendeu, por exemplo, a união entre o Mercosul e a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), o bloco bolivariano criado pelo falecido caudilho Hugo Chávez. A intenção, disse o venezuelano, é "ir muito além do que se convencionou chamar de livre-comércio". Para ele, é necessário "transcender" esse conceito, "chegando ao comércio justo e integrador". A situação de penúria econômica da Venezuela mostra o que tal discurso significa. Embora a prudência recomendasse a rejeição da proposta de Maduro, o Mercosul, que não consegue deslanchar nem em seu atual formato, aceitou negociar a criação dessa "zona econômica complementar", conforme se lê em um dos documentos da cúpula.

Já a presidente argentina, Cristina Kirchner, aproveitou a cúpula para obter apoio do Mercosul à sua guerra contra os credores apelidados de "abutres" aqueles que não aceitaram os termos da renegociação da dívida do país e ganharam na Justiça americana o direito de receber integralmente o que a Argentina lhes deve. Cristina, que agora preside o Mercosul, foi bem-sucedida: na declaração final, consta uma nota especial que lhe oferece respaldo "irrestrito".

Abastardado, reduzido cada vez mais a um fórum de oportunistas bolivarianos, o Mercosul caminha para a irrelevância, deixando passar excelentes possibilidades de negócios mundo afora. Quem melhor resumiu esse estado de coisas foi o sempre honesto presidente uruguaio, José Mujica, após o encontro de Caracas: "Quando volto ao Uruguai (depois de alguma reunião do Mercosul), as pessoas me perguntam o que decidimos... Eu sei lá o que decidiram. Fizemos uma declaração".

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Mercosul rumo ao engessamento

"Se o objetivo for apenas político, de formar uma anacrônica trincheira contra os “ricos”, tudo certo. Mas se visar ao desenvolvimento pela rota segura do comércio exterior, nada feito."

Nós e nossa contumaz mania de jogar pela janela experiências consolidadas em nome da ideologia.




Mercosul rumo ao engessamento
EDITORIAL O GLOBO


Depois da Venezuela, bloco pode abrir as portas a Bolívia e Equador, ou seja, absorver parte da Alba, palco de Chávez. Será impossível fechar amplos acordos de comércio


O noticiário argentino sobre a contagem regressiva para o governo de Cristina Kirchner fechar definitivamente o cerco em torno do Grupo Clarín terminou, em certa medida, deixando em segundo plano, no noticiário sobre a América Latina, o encontro de cúpula do Mercosul em Brasília, semana passada, com a presença da presidente argentina. Também a ausência do caudilho venezuelano Hugo Chávez, prestes a se submeter em Cuba à quarta operação contra um câncer, reduziu o interesse em torno da reunião — a presença de Chávez é sempre garantia de algo bizarro.

E como a própria agenda da cúpula não ajudou, a reunião foi uma das menos interessantes dos últimos tempos. Mas não de todo, porque se voltou a tratar da entrada de Bolívia e Equador como sócios plenos do bloco. Assim, o Mercosul, depois de permitir o ingresso da Venezuela de Chávez, numa manobra oportunista de Brasil e Argentina, prepara-se para absorver outra parte da Alba, a Aliança Bolivariana para as Américas, palco armado pelo próprio Chávez para nele desfilar com seu proselitismo contra o “imperialismo”. Neste ritmo, o próximo passo para o Mercosul será absorver Cuba, Nicarágua, assim por diante.

Se o objetivo for apenas político, de formar uma anacrônica trincheira contra os “ricos”, tudo certo. Mas se visar ao desenvolvimento pela rota segura do comércio exterior, nada feito. O Mercosul caminha para o engessamento nas negociações multilaterais e para a insignificância.

Submeter o Mercosul à Alba — impensável tempos atrás — é uma decorrência até lógica da manobra golpista de Brasil e Argentina de aproveitar o afastamento de Lugo da presidência do Paraguai pelo Congresso, tachar o fato (polêmico), sem maiores discussões, de um atentado contra a democracia, e afastar o país do bloco, contrabandear Chávez para dentro do Mercosul e torná-lo fato consumado.

Como o Congresso paraguaio se recusava a votar o salvo-conduto para a Venezuela ser convertida em membro titular do Mercosul, a punição ao país resolveu o problema. O Paraguai, porém, deverá retornar ao bloco depois das eleições de abril. Contratou-se uma provável crise para o primeiro semestre.

Enquanto isso, acordos bilaterais continuam a ser feitos no mundo e se forma outra união comercial no continente (Chile, Colômbia e México, a Aliança do Pacífico), com mais flexibilidade do que este Mercosul bolivariano.

Se é difícil imaginar algum acordo com países importantes do ponto de vista comercial com Chávez à mesa — ou um fiel seguidor de sua corrente ideológica —, o que dizer de Evo Morales e Rafael Correa, da Bolívia e Equador?

No final de janeiro, missão da União Europeia terá reunião de cúpula no Brasil e depois se encontrará com a bancada do Mercosul. Será um teste para o bloco já sob influência chavista. Vide os rumos do governo de Cristina K. Não se pode ser otimista.
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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Um prego no caixão do Mercosul




O Estado de S.Paulo

Mais um prego foi posto no caixão do Mercosul, com a decisão final do Senado paraguaio contra o ingresso da Venezuela no bloco. No próximo ano o Paraguai voltará a participar das decisões da união aduaneira, depois de cumprida a truculenta suspensão imposta pelos governos brasileiro, argentino e uruguaio. Haverá cinco presidentes nas reuniões de cúpula, mas a participação de um deles será considerada ilegítima por um dos sócios fundadores do clube. E como poderá funcionar esse clube, se os seus estatutos já foram desmoralizados quando três dos seus membros decidiram sobrepor as considerações políticas - ou simplesmente ideológicas - aos compromissos jurídicos?

O Paraguai foi suspenso do Mercosul porque as presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner decidiram classificar como golpe a deposição do presidente Fernando Lugo, mesmo sem evidência de violação de qualquer lei paraguaia. O presidente uruguaio, José Mujica, mostrou-se fraco e acabou aceitando as imposições de suas colegas.

Nesse momento, o processo de adesão da Venezuela ao Mercosul ainda tramitava no Senado paraguaio. Sabia-se da forte oposição ao projeto, mas faltava a decisão. Brasil, Argentina e Uruguai já haviam aprovado, mas o ingresso do quinto sócio dependia de uma resolução unânime. As presidentes brasileira e argentina quiseram aproveitar a suspensão do Paraguai para abrir a porta ao novo sócio. O presidente uruguaio, José Mujica, mostrou-se novamente fraco e acabou concordando, contra a opinião do vice-presidente e do ministro de Relações Exteriores de seu país. Nos dias seguintes, os dois criticaram severamente o golpe e denunciaram a violência contra as instituições do bloco.

Logo depois da queda de Fernando Lugo, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o chileno José Miguel Insulza, comandou uma missão ao Paraguai. Em seu relatório, ressaltou a normalidade política no país, enquanto os governos de vários países, incluído o Brasil, insistiam em condenar como golpista a recém-instalada administração do presidente Federico Franco.

Nesta semana, finalmente, o Conselho da OEA examinou o assunto. A avaliação foi concluída sem consenso, mas a maioria dos embaixadores apoiou o relatório de Insulza. Não houve comunicado oficial sobre as manifestações, mas, segundo o representante paraguaio, Hugo Bernardino Saguier, 26 dos embaixadores foram favoráveis à opinião do secretário-geral. Apenas 8 foram contrários, incluídos, naturalmente, o brasileiro, o argentino e o venezuelano. Mesmo sem contagem oficial de votos, foi uma indubitável vitória do governo paraguaio. As próprias autoridades do Paraguai pediram o envio de observadores da OEA ao país, a partir de dezembro, para acompanhar a campanha, a preparação e a realização das eleições previstas para abril.

Na quinta-feira, o Senado paraguaio finalmente votou a proposta de ingresso da Venezuela. Houve 31 votos contrários e 3 favoráveis. Onze senadores faltaram. A decisão torna mais complicada a situação do bloco, já comprometida pela truculência das presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner e pela fraqueza do presidente José Mujica.

A legalidade do ingresso da Venezuela já era contestável quando foi decidida pelos três presidentes, na reunião de cúpula de Mendoza. Sem referência à hipótese de suspensão, o Tratado do Mercosul condiciona a admissão de um novo sócio à decisão unânime dos membros fundadores. Essa cláusula foi atropelada.

Outras decisões políticas do Mercosul dependem também de unanimidade. Como se poderá atender a essa condição, depois da volta do Paraguai, se o governo paraguaio rejeitar a presença do quinto sócio? Mesmo sem esse problema, o bloco já estaria em péssimas condições, pela mediocridade de seus objetivos diplomáticos e até por sua incapacidade de funcionar como simples zona de livre comércio. Promissor em seus primeiros anos, o Mercosul é hoje um bloco paralisado e um entrave a qualquer iniciativa mais ousada e mais inteligente de seus membros. Melhor seria enterrá-lo como união aduaneira e retomar com seriedade os objetivos iniciais.
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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Ressentimentos


Política externa é assunto de Estado onde o Senado Federal ouve os interesses da sociedade e  orienta o Executivo acerca dos interesses dos cidadãos para o desenvolvimento harmônico em meio a outros países, onde trocas, notadamente de produtos e serviços, são a base da pauta.
No governo petista a ideologia prevalece em tais relações o que torna tanto investimentos como sociedade temerários do futuro das atuais alianças que tem como objetivo, formar um bloco socialista em toda América do Sul.
O resultado é o que vemos no artigo que segue.



Ressentimentos 
RUBENS BARBOSA
O GLOBO 


O Brasil está assumindo a presidência do Mercosul no momento mais delicado do grupo nos últimos 21 anos. A crise deflagrada em Mendoza, na Argentina, com a suspensão do Paraguai e a inclusão da Venezuela, terá profundas consequências sobre o funcionamento do Mercosul nos próximos anos, cabendo ao Brasil administrar até dezembro os primeiros meses dessa situação inédita.
Os desafios e incertezas colocados pela ausência do Paraguai e pela presença da Venezuela com direito a voto darão à presidência do Brasil uma característica especial e bem distinta das exercidas até aqui.
No tocante aos temas econômicos e comerciais, herdados de reuniões anteriores, dificilmente as conversações poderão ser concluídas. O reinício das negociações com a Venezuela sobre a definição dos compromissos assumidos no Protocolo de Adesão terá prioridade.
Foi constituído um grupo de trabalho com a Venezuela que deverá concluir a definição dos prazos para a entrada em vigor da Tarifa Externa Comum, para a liberalização do comércio com os parceiros do Mercosul, para a incorporação dos regulamentos e normas aprovados pelo Mercosul ao ordenamento jurídico da Venezuela, e a aprovação dos acordos comerciais firmados pelo Mercosul com Israel, Egito e Autoridade Palestina. O Brasil terá que coordenar, durante sua presidência, o ingresso de novo membro, visto que o Equador, convidado, já aceitou.
A agenda externa do grupo em sua nova composição - acordo com a União Europeia e Canadá e a oferta da China de se fazer um estudo de viabilidade sobre um eventual acordo de livre comércio com o Mercosul - também deverá ser examinada, com poucas possibilidades de avanços pelas barreiras protecionistas argentinas e pelas dificuldades da indústria brasileira.O Mercosul entra decididamente em nova fase. Os temas políticos e sociais certamente serão ampliados (Pacto Social, Cidadania, nova composição do Parlamento).
Menor país do Mercosul, o mais pobre, e extremamente dependente da economia brasileira, o Paraguai não tem alternativa e não deverá abandonar o Mercosul. Ameaças como o rompimento do Tratado de Itaipu, que prevê a cessão da parte não utilizada dos 50% da energia que cabe ao Paraguai, não devem prosperar. Além de o Paraguai não ter a quem vender essa energia, o Brasil poderia reagir vigorosamente por ser um assunto de segurança nacional, visto que 20% da energia são consumidos no Sul e no Sudeste do país.
O Congresso paraguaio, se rejeitar a entrada de Chávez, estará criando uma situação que levará o país ao confronto com a Venezuela e demais membros do Mercosul. O entendimento do governo brasileiro é de que Assunção não poderá questionar as decisões tomadas pelo bloco no período de suspensão, em especial a adesão da Venezuela. Dificilmente o governo de Assunção terá condições de levar a cabo essas bravatas nacionalistas, mais para consumo interno do que com intenção de criar uma crise com seus principais vizinhos.
O grande problema para o Brasil - agora na presidência do Mercosul e no futuro - será administrar as frustrações e os ressentimentos do pequeno Paraguai.
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sábado, 21 de julho de 2012

O novo sócio


 MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO


A Venezuela, que está entrando no Mercosul, exibe a lamentável situação política descrita no relatório do Human Rights Watch. Na economia, o PIB cresce este ano puxado, principalmente, pelo aumento do gasto público. A construção de casas populares está sendo turbinada por razões eleitorais. O país exporta petróleo, por isso, os grandes beneficiários da integração podem ser Brasil e Argentina, mas até quando?

Dado que a Venezuela não cumpre o requerimento político básico para entrar no bloco, a grande pergunta é: na economia será um bom negócio? Num primeiro momento, pode ser bom para Brasil e Argentina, na opinião do economista Pedro Palma, da consultoria Ecoanalítica e professor do Instituto de Estudos Superiores de Administração (IESA) de Caracas.

Ele baseia sua tese no argumento de que a Venezuela tem importado cada vez mais para suprir a redução da capacidade produtiva provocada por uma política econômica hostil às empresas. Com o dólar artificialmente baixo, o país consegue reduzir o preço das importações; com um forte controle de preços, tem atingido diretamente a capacidade de produção interna.

A Venezuela vive há muitos anos com inflação anual entre 25% e 30%, a maior da América Latina. Segundo o último dado divulgado, agora está em 21,3% e deve terminar o ano entre 22% e 23%, de acordo com as previsões. O controle de preços é para evitar piora desse problema.

- Podemos exportar muito pouco além do petróleo, devido ao ataque persistente do governo à atividade produtiva privada, que destruiu boa parte da estrutura de produção interna e desestimulou investimentos. As expropriações e estatizações fizeram com que a produção em diversas áreas se tornasse pouco eficiente. Isso é verdade na agricultura, agroindústria, atividade manufatureira básica, como cimento e aço. Isso restringiu a capacidade de geração de oferta interna. Paralelamente a isso, o governo aumentou muito o gasto público - diz Palma.

Os dados mostram essa disparada: no primeiro semestre, a elevação foi de 24% em termos reais, descontada a inflação, na comparação com igual período do ano passado.

Em 2012, o país está crescendo forte. Segundo a previsão do FMI, o PIB deve ter alta de 4,7% este ano - bem acima, por exemplo, da projeção feita para o Brasil (2,5%). No primeiro semestre, a expansão foi de 5,6% em relação ao mesmo período do ano passado. O PIB da construção civil cresceu quase 30%. As importações aumentaram 48% em valor e 38% em volume para atender à demanda criada pelo governo para construir um ambiente favorável nas eleições. E está conseguindo. Hugo Chávez, que tenta o terceiro mandato, continua em primeiro lugar nas pesquisas eleitorais, bem à frente do candidato da oposição, Henrique Capriles.

O quadro político é resultado daquele lento desmonte do arcabouço institucional descrito no relatório "Apertando o cerco: concentração e abuso de poder na Venezuela de Chávez", da Human Rights Watch.

Na economia, a receita tem sido aumentar os gastos públicos, atender a demandas sociais que, de fato, existem, mas que são atendidas como favores paternalistas, e não como direito e, assim, criar o ambiente favorável. A conta certamente virá em aumento da inflação. Se a desaceleração mundial derrubar o preço do petróleo, o país tem queda do crescimento. Esse tem sido o padrão recente e o ponto de preocupação dos analistas. Pedro Palma comenta que os últimos anos terminados em 3 foram de profunda crise na Venezuela. Ele teme que 2013 seja assim também.

- O ano pode ser muito adverso, devido à queda do preço do petróleo e aos profundos desequilíbrios presentes na economia. Uma piora da crise europeia e a desaceleração nas economias dos EUA e da China podem traduzir-se em severas limitações às possibilidades de exportar dos países emergentes, no aprofundamento da queda dos preços das commodities e em restrição e encarecimento do financiamento internacional - disse.

Apesar de a Venezuela estar com gordos números de crescimento a apresentar num ano difícil, já houve o oposto. Anos em que a América Latina inteira cresceu, menos a Venezuela. O país tem tido um crescimento errático, uma política econômica intervencionista, uma tolerância com níveis de inflação muito altos. Para manter sua popularidade, Chávez aumenta gastos públicos usando as receitas do petróleo e até o caixa da PDVSA, uma empresa que tem tido dificuldades de manter o investimento.

A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, foi imaginada para ser um investimento conjunto, mas a parte da Venezuela foi sendo sucessivamente adiada. Mas como ela foi projetada para refinar o petróleo daquele país, que é mais pesado, não se pode mais voltar atrás. O Brasil terá que processar lá o produto a ser importado da Venezuela.

Os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior mostram como está o intercâmbio entre Brasil e Venezuela: em 2011, a corrente de comércio atingiu US$ 5,9 bilhões, o que representou um aumento de 25% sobre 2010. Entre janeiro e junho deste ano, já chegou a quase US$ 3 bi. Na lista dos principais produtos exportados pelo Brasil, há bovinos vivos, carne congelada, aquecedores, peças para veículos. Para a Venezuela, exportamos mais produtos manufaturados, o que não é a regra. Pelo menos, isso.
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quinta-feira, 5 de julho de 2012

A estratégia do atraso


 ROLF KUNTZ
O ESTADÃO 

Desta vez,vai.Com o companheiro Chávez no Mercosul e o comércio regional comandado pelo ministro argentino Guillermo Moreno, o Brasil e seus vizinhos vão desemperrar o comércio exterior - se o governo uruguaio, é claro, desistir de contestar a lambança realizada em Mendoza para a admissão da Venezuela. Por enquanto, há alguns probleminhas, mas nenhum com suficiente importância para impressionar a presidente Dilma Rousseff e seus estrategistas. De janeiro a junho as exportações brasileiras para o Mercosul, US$ 11,1 bilhões, foram 14,7% menores que as de um ano antes. Esse resultado é explicável principalmente pela diminuição de 16% nas vendas para a Argentina, a segunda maior economia do bloco e a principal defensora de barreiras comerciais entre sócios de uma união aduaneira. O ministro Moreno aperfeiçoou essa política, impondo mais restrições burocráticas à importação e obrigando os empresários a exportar um dólar para cada dólar importado.

As demais parcerias estratégicas definidas por Brasília continuam funcionando magnificamente e restaurando, em alguns casos,algumas venerandas práticas de outras eras.Os embarques para a China renderam US$ 21,1 bilhões e ficaram 4,7% acima dos registrados no primeiro semestre do ano passado, mas a relação entre a economia chinesa e a brasileira continuou moldada segundo o velho padrão colonial: troca de matérias- primas por manufaturados. Ninguém deve acusar o governo petista de bancar o moderninho e menosprezar o passado.

Segundo as últimas informações disponíveis no site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, de janeiro a maio o Brasil exportou para a China manufaturados no valor de US$ 892,6 milhões, 5,2% das vendas para aquele mercado. Somando-se os semimanufaturados, chega-se a US$ 2,3 bilhões de produtos industriais, 13,1% do total. O mesmo padrão é observado no comércio com os três parceiros do grupo Bric- Rússia,Índia e China. Os manufaturados vendidos pelo Brasil somaram US$ 1,1 bilhão, 5,5% dos US$ 20,6 bilhões exportados. O total dos industrializados chegou a US$ 3,3 bilhões, 16% do valor faturado pelo Brasil.

Se a presidente Dilma Rousseff examinasse rapidamente outras parcerias comerciais do País, ficaria provavelmente surpresa com um descuido ideológico de seus estrategistas. A diplomacia brasileira esforçou-se bravamente, a partir de 2003, para evitar maior envolvimento com os mercados do mundo rico - especialmente do Império,como diria o líder Hugo Chávez - , mas as vendas para Estados Unidos e União Europeia ainda proporcionam quase um terço da receita( 32,2% no primeiro semestre deste ano). Mais que isso: os mercados mais desenvolvidos do mundo se mantêm como grandes compradores de manufaturados made in Brazil.

De janeiro a maio,os americanos compraram US$ 5,1 bilhões de manufaturados brasileiros (45% do total importado) e US$2,4 bilhões de semimanufaturados. Os US$ 7,5 bilhões de industrializados corresponderam a 63,8% da receita do Brasil no comércio como Império naqueles cinco meses.

O intercâmbio com a União Europeia também viola o padrão imaginado pelos salvadores do Brasil.Até maio,as exportações de manufaturados para o bloco europeu chegaram a US$ 7,3 bilhões, 37% do total, e as de industrializados, US$ 10 bilhões, 50,7%. Detalhe interessante: vários países europeus estão afundados em recessão e as vendas brasileiras para a região, no primeiro semestre, US$ 23,9 bilhões, foram 7% menores que as de janeiro a junho do ano passado. Mesmo assim, o mercado europeu é mais propício à indústria brasileira que os mercados dos "parceiros estratégicos". Os US$ 12,4 bilhões de manufaturados remetidos aos Estados Unidos e à União Europeia entre janeiro e maio corresponderam a 60% do valor de todas as categorias de produtos exportadas para China, Rússia e Índia.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os Kirchners nunca se deixaram iludir pela tentação de um comércio não colonial com americanos e europeus. Graças à sua perspicácia e à visão estratégica de seus assessores, evitaram qualquer compromisso favorável à intensificação dos negócios industriais com as velhas potências dominadoras. Agora, enriquecidos com a inspiradora participação do companheiro Chávez, os governos brasileiro e argentino poderão reforçar os laços com as potências verdadeiramente comprometidas com o futuro da América do Sul, como os Brics e outros parceiros do "Sul". Mas ainda será possível avançar em outras áreas. Que tal, por exemplo, aumentar os impostos sobre as vendas externas de manufaturados? Mais que um passo, seria um salto na direção de um comércio muito mais parecido com o dos velhos e bons tempos coloniais.
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domingo, 17 de julho de 2011

Boicote ao porco nacional

Elementos que denunciam a dificuldade de se manter as necessárias relação comercias do Mercosul. Ressalta quando o governo não age como Estado e as relações internacionais jogam contra a sociedade brasileira.



Jorge Freitas
Correio Braziliense


Produtores argentinos vão bloquear pontes que ligam o país ao Brasil e impedir a importação de carne suína


Os produtores de carne suína da Argentina se reuniram em Córdoba e anunciaram o bloqueio, dentro de 15 dias, das duas pontes que ligam o país ao Brasil, com a finalidade de impedir a passagem da carne suína brasileira. "Não podemos mais permitir que exista um "chanchoducto" (porcoduto) pelo qual chegam aqui animais de outros países, que afetam nossa produção e provocarão o desaparecimento de pequenos e médios produtores", afirmou Eduardo Buzzi, líder da Federação Agrária. Ele acusa o governo argentino de permitir o que denomina de "invasão" brasileira.

"Vamos fazer o controle dos carregamentos e pedir que os caminhões deem meia volta e retornem ao Brasil", antecipou Ciríaco Fortuna, um dos líderes da federação. A insatisfação dos produtores começou ainda nos anos 1990. Em 3 de abril deste ano, a categoria anunciou que faria piquetes nas pontes, mas depois decidiu suspender o protesto porque o Ministério da Agricultura argentino assumiu o compromisso de "moderar" a entrada de carne suína brasileira. Como o cenário não mudou, agora garantem que vão interromper o fluxo nas pontes, o que pode criar um pequeno incidente diplomático.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína, Pedro de Camargo Neto, disse que os argentinos ameaçam fazer o boicote por uma "questão política". Ele sugeriu que os argentinos se dediquem a melhorar a tecnologia de produção de proteína animal, já que dispõem de milho mais barato.

"As importações de carne suína da Argentina estão estabilizadas, eles deveriam aproveitar para melhorar a produtividade em lugar de fazer política. Podem ser exportadores também."

A Argentina é o terceiro maior mercado para a carne suína brasileira, atrás da Rússia e de Hong Kong. Até junho, as vendas para o país foram de 19 mil toneladas, num valor de US$ 56 milhões. O aumento foi de 27% em relação aos US$ 44 milhões do primeiro semestre de 2010. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior informou, por meio da assessoria de imprensa, que o Brasil está obedecendo o pacto de convivência de 60 dias negociado entre os dois governos, mantendo o sistema de licenciamento não automático para a passagem de carros de uma fronteira à outra.

De olho nos votos dos produtores e dos consumidores mais pobres, a presidente Cristina Kirchner lançou, na semana passada, o programa Porco para todos. Ele vai permitir a venda do produto a famílias de baixa renda com descontos de 50%. Para a oposição, a medida é populista. No ano passado, num discurso televisionado, Kirchner chegou a dizer que a carne suína é afrodisíaca. Por isso, seu consumo deveria ser incentivado.
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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Indícios de petróleo reacendem febre do ouro negro no Uruguai

A notícia é muito importante sobretudo pela oportunidade de, também, fortalecer o Mercosul, notadamente frente à falência dos modelos de investimentos econômicos das economias dos países europeus que, por sua vez, detém um grande número de empresas e de investidores que aportam seus recursos em nossos países.

A capacidade de, por intermédio da prospecção e produção do petróleo e seus derivados e da fulgurante arrecadação tributária que nutrirá os estados uruguaios poderá reverberá na criação de outras empresas com tecnologia de maior valor agregado que, no fim, poderá fortalecer o intercâmbio comercial com os demais países do Mercosul.

Vale a pena acompanhar, também notadamente acerca de uma melhor antecipação de nossas empresas para absorverem, via turismo, cidadãos uruguaios que ascenderão de camadas sociais.

Uma excelente notícia.



Indícios de petróleo reacendem febre do ouro negro no Uruguai
Daniel Rittner | De Montevidéu
Valor Econômico 


Energia: Descobertas no interior do país e no Oceano Atlântico atraem multinacionais

Seis décadas de buscas intermitentes e nenhuma gota de petróleo jorrando do solo quase levaram ao abandono dos trabalhos de exploração, mas nunca o Uruguai esteve tão perto como agora de finalmente descobrir reservas importantes de combustíveis fósseis. Uma maré de esperança negra tomou conta do país. Pela primeira vez em sua história, no fim de março, a estatal de energia Ancap anunciou ter encontrado indícios de petróleo em terra. Ao mesmo tempo, grupos americanos, europeus e russos manifestam interesse em participar da segunda rodada de licitações de blocos na plataforma marítima, que o governo lança em setembro.As primeiras rochas geradoras de petróleo - depósitos com quantidades adequadas de matéria orgânica - foram descobertas no departamento de Durazno, em poços terrestres a 150 metros de profundidade. Em junho, houve uma nova descoberta, na vizinha Tacuarembó, em perfurações de até 400 metros.

Isso não significa que o petróleo tenha a pressão adequada para ser retirado, nem que sua produção seja comercialmente viável. Pouco se sabe ainda sobre o volume possível dos recursos naturais. Mesmo assim, percebe-se uma expectativa que lembra a euforia brasileira com o anúncio do pré-sal, embora autoridades uruguaias ainda prefiram manter uma postura de cautela.

"O otimismo é uma noção tremendamente subjetiva. A informação técnica que nós temos mostra a existência de rochas geradoras no Uruguai e a existência de petróleo em pelo menos dois pontos", afirmou ao Valor o diretor nacional de energia do Ministério de Indústria, Energia e Mineração, Ramón Méndez. "Isso naturalmente não garante que haja recursos abundantes, mas são indícios bastante alentadores. As probabilidades são altas, e a história se encarregará de esclarecer o resto."
Até hoje, quem tentou fazer história teve que lidar com fracassos e frustrações. Há seis décadas, o sacerdote católico Antonio Améndola de Tebaldi patrocinou uma campanha para promover a busca por petróleo no interior do Uruguai, mas tudo o que conseguiu foi a alcunha de "padre louco".
Nos anos 70, a empresa francesa de pesquisas geofísicas CGG apontou a existência de potencial petrolífero em alto mar e a Chevron furou dois poços, mas não achou nada de interessante e deixou o país.

Agora, a estatal Ancap investe US$ 25 milhões anuais em atividades de exploração em terra, por meio da contratação direta de empresas estrangeiras. "Houve muita expectativa no passado, mas foi um erro ter abandonado a exploração diante dos primeiros fracassos. A única coisa que garante o sucesso nessa área é o trabalho permanente ao longo de muitos anos", comentou ao Valor o presidente da Ancap, Raúl Sendic. Novas perfurações no departamento de Salto atingem 2 mil metros abaixo da superfície, e essa profundidade ainda poderá triplicar, afirmou Sendic, ao detalhar os esforços mais recentes de exploração.

Além dos poços terrestres, outra aposta do país está em sua plataforma marítima. Em 2007, foram feitos estudos sísmicos em 2D numa área de aproximadamente 10 mil quilômetros quadrados, que serviram de base para a primeira rodada de licitação de blocos em alto mar, dois anos mais tarde, quando o barril de petróleo estava a US$ 40 no mercado internacional e o planeta se arrepiava com a quebra do banco Lehman Brothers.

Apesar do momento desfavorável, dois blocos foram licitados, a uma distância de até 150 quilômetros da costa. Ambos estão nas mãos de um consórcio formado por Petrobras (40%), pela argentino-espanhola YPF Repsol (40%) e pela portuguesa Galp (20%). Um dos blocos é operado pela Petrobras, que faz os trabalhos em águas rasas, entre 100 e 350 metros de profundidade. Outro é operado pela YPF, em águas profundas, a até 2 mil metros. Nos dois casos, o consórcio está em fase de interpretação e reprocessamento dos dados sísmicos, e tem prazo até 2013 para decidir se vai continuar trabalhando e furar poços.

Para esses trabalhos preliminares, a Petrobras tem orçamento previsto de US$ 5 milhões. Ela considera o Uruguai como uma exploração de alto risco e ainda não decidiu se fará ou não perfurações. Como o país está longe dos atuais centros de produção, um poço em alto mar pode custar em torno de US$ 100 milhões, devido aos gastos com o deslocamento de equipamentos como sondas e rebocadores.

Outros 6 mil quilômetros quadrados foram pesquisados mais recentemente para dar suporte ao lançamento, em setembro, da 2ª Rodada Uruguai. "Esses trabalhos nos fazem ter muito otimismo sobre a possibilidade da presença de hidrocarbonetos na nossa plataforma marítima", disse Sendic. Eles serão apresentados ao mercado em Montevidéu. Depois, a Ancap fará "road shows" em Houston, em Londres e no Rio. A rodada incluirá um total de 13 blocos na bacia de Punta del Este e deverá ser concluída em abril de 2012.

Empresas como Shell, BP, Total, a russa Gazprom e a americana Noble Energy - responsável pela descoberta recente de uma megajazida de gás em Israel - já pediram informações à Ancap sobre a rodada, em um sinal de que pretendem investir no Uruguai. A Petrobras também avalia sua participação.

Em um país que importa 20 milhões de barris por ano, o equivalente a menos de dez dias da produção de petróleo no Brasil, a autossuficiência energética pode parecer uma questão menor. Mas as importações de petróleo e derivados - provenientes principalmente da Venezuela e de fornecedores africanos - somam quase US$ 2 bilhões por ano, e não se deve descartar a hipótese de exportar, no futuro.

Talvez seja um sonho alto demais. O óleo encontrado nos poços terrestres é de xisto betuminoso, cuja viabilidade comercial desperta muitas dúvidas na indústria. Um alto executivo de uma petrolífera estrangeira ouvido pelo Valor, na condição de não ter seu nome revelado, ventila a possibilidade de que as rochas geradoras encontradas no Uruguai sejam uma extensão dos depósitos de xisto já processado no Paraná. Não são reservas desprezíveis, segundo a fonte, mas incapazes de mudar o panorama do setor - mesmo em um país de dimensões pequenas, como o Uruguai. Além disso, nada indica ainda que a experiência em suas áreas offshore será diferente da obtida na bacia de Pelotas, onde a Petrobras não conseguiu resultados positivos, após a perfuração de oito poços, embora preserve seu interesse.

Silenciosamente, o governo uruguaio torce para confirmar suas expectativas até 2014, ano das próximas eleições presidenciais. O próprio Sendic, filho homônimo do histórico líder do movimento guerrilheiro tupamaro, é citado com frequência como provável candidato a vice-presidente em uma chapa da coalizão esquerdista Frente Ampla, liderada pelo ex-presidente Tabaré Vásquez - o atual, José Mujica, está impedido de tentar a reeleição. "O governo sonha com a foto de Sendic com as mãos manchadas de petróleo", diz o cientista político Adolfo Garcé, professor da Universidade da República, em Montevidéu.
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