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terça-feira, 30 de junho de 2020

Um futuro sequestrado

Bom dia a todos.


Saneamento Público, Saúde Pública e Educação serão nossa tábua de salvação em meio a um imenso oceano revolto e estamos a quilômetros da ilhota mais próxima, ainda longe do continente da estabilidade. Precisamos, antes, nadar e assegurar nosso fôlego na ilhota.
Essa tríade FUNDAMENTAL continua AMEAÇADA em baixo de nossos narizes. A saúde pública só veio à baila em função da pandemia do COVID 19 só que a mídia novamente conseguiu bombardear o Bolsonaro tirando o foco do caos e da ineficiência de anos de desgoverno do PT e da esquerda a começar pelo Sarney.

FHC tentou melhorar, mérito para ele neste mister, colocando o comunista senador e economista José Serra como Ministro da Saúde que se deparou com um horroroso corporativismo de médicos, hospitais e laboratórios até ter o bom senso, transformado em infelicidade, de fazer "um mero comentário" sobre a responsabilidade social das figuras públicas e o impacto de seus exemplos na sociedade. Falava ele de Xuxa e seus shortinhos dentro da bunda farta e amplamente copiados por meninas a partir de cinco anos. Ele fez esse comentário em função da ENORME quantidade de meninas pré-adolescentes GRÁVIDAS em hospitais públicos nas periferias das grandes cidades.

Foi um mero comentário mas munição suficiente para a Rede Globo (sempre ela) que passando aos serviços das corporações devoradoras do Erário na área de Saúde iniciou uma lenta, sistemática e evidente campanha para derrubar Serra daquele ministério e sua missão saneadora. Ele caiu porque a sociedade, sobretudo a diretamente beneficiada por suas ações, O DEIXOU SÓ!!!

Foco agora na tríade mas na vertente da Educação e, a partir de janeiro de 2019, onde a esquerda, irrefragável e absolutamente capilarizada e profundamente arraigada na estrutura de Educação, em todos os 5 565 municípios, sistematicamente (Abraham Weintraub denunciou mais de 30 mil cargos assomados em todos os níveis da estrutura da educação pública e, de longe, a maior quantidade de novos cargos criados a partir do governo Dilma).
Essa colossal "estrutura do mal" veio DETONANDO todo e qualquer esforço de se sanear a cáustica estrutura que está, e continua, sequestrando o desenvolvimento cultural e intelectual da futura mão de obra laboral da sociedade brasileira. O ministro colombiano foi o primeiro a ser sistematicamente cassado, encurralado nas comissões no Congresso sobre o escandaloso desinteresse da sociedade interessada em preservar a condenação em segunda instância. Ele caiu. Também caiu um "templário" lutando contra o marxismo cultural até ter a infelicidade de ser "mal interpretado" em uma "apologia" ao nazismo (que até hoje me esforço para procurar entender onde ele foi ofensivo em suas palavras). Então, os acólitos de meninas tocando o corpo nu de um homem "obra de arte viva" uma vez mais venceram e, sob a mais serena cagância da sociedade "em busca de um país melhor", um culturalmente diferenciado secretário nacional de cultura foi alijado...e os que tem um quezinho de esclarecimento, prosseguiram em sua luta em favor da segunda instância...
Um timaço sendo, sistematicamente, detonado, mais um negro de destaque é, novamente, bombardeado pela estrutura e não vi ninguém ainda da sociedade esclarecida em campanha para defendê-lo. Duvido que ele prossiga, pois um negro genuíno em uma sociedade onde "negros ao andar nas calçadas "as pessoas atravessam as ruas" para a calçada oposta (segundo a atriz Camila Pitanga) tenta iluminar um novo e bom caminho para o futuro da sociedade e, essa mesma solenemente o ignora e o deixa sozinho na cruel campanha difamatória que já abraçou outros países.
Ele está sozinho, afundará sozinho e irá para o ostracismo sozinho....aquela confusa sociedade que consegue pensar...o deixou sozinho....

Então agora me dirijo aos que, pelo menos em tese, querem um país melhor mas que, continuam hipnotizados em questiúnculas, em factóides, em STFs, Moraes, "fake news" e uma infindável trilha de bobagens sem qualquer futuro...

"Qual é a de vocês?!?!" 
"Qual é a agenda clara e consistente de vocês?!"
Como é que vocês querem que um país melhor saia de toda essa confusão DELIBERADAMENTE alimentadas por postagens inúteis em termos de tentativa de solução em curto e em médio prazos?
Elegendo "conscientemente" 49% de NOVOS na política (260 novos -nunca foram deputados) e cuja expressiva maioria JÁ DETONA a administração de quem quer melhorar o país?!?!

Está muito difícil vislumbrar, tampouco entender, um "norte", uma direção para onde essa massa de pessoas de bem e decentes está andando. As mídias criaram um perfeito "exercito de Brancaleone".

As eleições para os maiores predadores dos orçamentos federal e municipal será em poucos meses. Que DESASTRE dessa vez advirá das urnas?

"Pasárgada!!! Onde te encontras?!"

domingo, 20 de novembro de 2016

O peso da educação dos pais


Estadao.com.br

Pesquisa do IBGE mostrou a importância da educação dos pais no progresso dos filhos nos estudos; melhoria do ensino básico é determinante para reduzir desigualdade social de forma sólida


Pesquisa do IBGE sobre mobilidade social comprovou que quanto maior for a escolaridade dos pais, maior tende a ser o progresso dos filhos nos estudos. Por conseguinte, as chances profissionais desses jovens dependem, em grande medida, da educação de seus pais. Essas conclusões ajudam a entender por que a melhoria do ensino público básico, aquele que atende as crianças de famílias mais pobres, é determinante para reduzir a desigualdade social de forma sólida, razão pela qual é nesse estágio que deveriam se concentrar os investimentos estatais na área de educação. 

Com a precariedade do ensino público básico, os meninos que hoje desistem da escola antes de adquirir escolaridade minimamente satisfatória – quer porque não conseguem conciliar as aulas com o trabalho precoce, quer porque frequentar a escola não faz sentido nem para eles nem para suas famílias – serão, no futuro, os pais cujos filhos estarão destinados a formar a base da pirâmide social. Esse círculo vicioso precisa ser rompido, para que se pavimente o caminho do desenvolvimento sustentável nas próximas décadas e para que a mobilidade social no Brasil não continue a ser apenas uma ilusão resultante de arroubos populistas e fórmulas mágicas.

A pesquisa Suplemento de Mobilidade Sócio-ocupacional, a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2014, foi feita com pessoas a partir dos 25 anos e que moravam com os pais aos 15 anos. É o primeiro levantamento do IBGE a abordar de que maneira a origem sócio-ocupacional dos pais exerce influência sobre o futuro dos filhos no que diz respeito à educação e ao trabalho.

Um dos recortes mostra que 23,6% dos filhos cujos pais não foram alfabetizados até os 15 anos de idade também eram analfabetos pelo menos até aquela idade, situação que os condenou aos piores empregos. Apenas 4% dos filhos de pais naquela condição conseguiram completar o ensino superior. Já entre os filhos cujos pais completaram o ensino superior, somente 0,5% não havia se alfabetizado antes dos 15 anos, e nada menos que 69,1% completaram o nível superior.

Esse cenário se repete em relação à renda. Para os trabalhadores sem instrução básica cujos pais são igualmente analfabetos, a renda média é de R$ 717. Já para os trabalhadores sem instrução básica cujos pais atingiram o nível superior de educação, a renda média chega a R$ 2.324. Ou seja, mesmo que o trabalhador não tenha boa formação, seu salário melhorará caso seus pais tenham tido educação até os níveis mais altos. Já os trabalhadores com nível superior cujos pais são analfabetos terão uma renda média de R$ 2.603. O valor sobe para R$ 6.739 caso os pais também tenham nível superior.

Esses números mostram que a baixa escolaridade dos pais dificulta a trajetória profissional e educacional dos filhos. Entre os filhos cujos pais são analfabetos, 63,6% também não tiveram instrução ou avançaram apenas para o início do ensino fundamental. Enquanto isso, dos filhos cujos pais completaram o ensino médio, 12,4% chegaram à universidade e, destes, 41,2% conseguiram diploma de ensino superior.

Isso significa que o avanço da escolaridade dos brasileiros nas últimas décadas ainda não foi suficiente para romper a desigualdade. Mesmo que o número de crianças entre 7 e 14 anos fora da escola tenha caído de mais de 15% na década de 90 para 2% em 2014, os filhos de famílias com menos recursos continuam destinados a ter condições de vida semelhantes às dos pais.

Nada indica que a situação possa melhorar num futuro previsível, especialmente quando se observa a parte da pesquisa a respeito das crianças que precisam trabalhar – e, portanto, não conseguem avançar nos estudos. Entre os filhos cujos pais são agricultores, 59,6% começam a trabalhar antes dos 13 anos de idade, enquanto o porcentual cai para 7,5% entre os filhos cujos pais são acadêmicos, cientistas ou artistas. 


Trocando em miúdos, a origem socioeconômica, como nas antigas sociedades estamentais, tende a condenar parte dos brasileiros à condição de cidadãos de segunda classe.  
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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Jornalismo de transeuntes

CLAUDIO DE MOURA CASTRO
O Estado de S.Paulo 

Entram em greve os funcionários de hospitais do Estado de Minas Gerais! Obviamente, é notícia para a imprensa. Entrevistam-se grevistas e sindicalistas, com queixas dos salários aviltantes, das condições de trabalho, das promessas feitas, da ausência de reajustes nos últimos dois anos, etc. Depois falam os pacientes que tiveram suas cirurgias adiadas ou, depois de longa espera, não foram atendidos. Chega, então, a vez dos administradores dos hospitais. E, de quebra, o que pensa o incauto que vem passando pela rua. Tudo é razoavelmente apresentado. Mas isso é bom jornalismo?

Em princípio, há dois destinatários para essa notícia. O primeiro são os interessados diretos em saber como evolui o confronto, o que há de novo. O segundo é o grande público, precisando tomar conhecimento do que acontece no seu entorno.

Se estivéssemos na Somália, uma sociedade reduzida ao mais primitivo nível de governabilidade, o natural é que os dois lados se digladiassem e, por conta própria, encontrassem a solução. Se tivessem de matar uns aos outros, o que fazer? É a lógica do sistema. A sociedade seria mera espectadora.

Mas é diferente numa sociedade democrática. Não evapora o embate entre as partes, é óbvio. Mas entra em cena um elemento novo e fundamental, algo que podemos chamar de "opinião pública" - embora seja mais complicado que isso. Essa visão da sociedade sobre o bem comum ou o interesse coletivo é fundamental para lançar as âncoras que permitem mediar o conflito. A sociedade "acha" que esse trabalho precisa ser mais bem remunerado - ou não. Ou acha que é inaceitável uma greve de pessoas tão críticas para a saúde coletiva - ou não. Ou aceitaria arcar com mais impostos para dar aumentos a esses funcionários - ou não.

Uma sociedade democrática destila posições sobre grandes temas e vai formando consensos à medida que novos se vão sucedendo. Embora o Estado tenha seu espaço de manobra, numa democracia, precisa dessas percepções e desse valores, para que possa melhor legislar e encaminhar a solução dos conflitos. O Estado deve refletir em suas ações o que percebe ser a visão do bem comum, compartilhada pela sociedade.

É alimentado com tais percepções que vai intervir no caso. Se o governante interpretar mal o que se passa na cabeça dos membros da sociedade, não será reeleito. Apesar das imperfeições dessa mecânica, democracia é isso. Contrasta com versões mais tecnocráticas de governo, nas quais os administradores têm mais latitude para usar seus próprios valores e julgamentos.

Se o conflito for resolvido apenas como resultado do choque de forças entre as partes, nada impede que a solução se distancie do interesse da sociedade. O governo pode ceder demais, criando um sistema de saúde financeiramente inaceitável. Ou se cria um confronto violento, com cicatrizes difíceis de sarar. Por isso o governo deve desempatar os impasses, considerando o peso da opinião da sociedade, pois, indiretamente, esta é também parte interessada. E é assim que deve ser.

Mas para que seja assim é preciso que a sociedade entenda o que está acontecendo. E a fonte principal de informação é a imprensa, seja ela em papel, na nuvem, no rádio ou na TV.

Uma coisa é noticiar um ladrão preso em flagrante. A vítima relata o roubo. O ladrão confessa. Não chega a haver visões discrepantes. Outra é uma greve ou qualquer confrontação. No caso, há três lados, cada um puxando a brasa para sua sardinha. Houve promessas de aumento? Os salários são baixos, comparados com categorias semelhantes? As negociações foram conduzidas corretamente? Há recursos para pagar mais? Em suma, quem tem razão?

Para formar uma opinião ponderada é preciso conhecer as respostas e depois integrar os elementos, dando a cada um o peso que lhe corresponde. Mas isso exige tempo e conhecimentos técnicos. De economistas que acompanham as finanças e os custos da saúde, de especialistas em saúde pública, e assim por diante. Portanto, a imprensa não estará cumprindo o seu papel de alimentar o sistema democrático com notícias se não for além de entrevistar as partes. É claro, jornalistas não têm nem tempo e nem conhecimento técnico para tais aprofundamentos. Portanto, é preciso ir bem mais longe.

Para sanar o problema a primeira providência é limpar o campo, desqualificando as afirmativas factuais que são incorretas. Por exemplo, os salários são realmente piores? Houve promessas? Como são as condições de trabalho? E por aí afora. Em seguida, mapear os contornos do problema. Daí a importância vital de consultar quem sabe, e não apenas quem vem passando pela rua. Há pessoas cujas trajetória profissional e formação técnica permitem interpretar com maturidade os argumentos que estão em jogo. É essencial ouvir essas pessoas, reconhecidas por seu conhecimento e sem interesses diretos em uma parte ou outra. Muitas vezes, quem mais sabe também torce para algum lado. A solução é ouvir também quem torce para o outro.

Já se disse que o jornalismo é o rascunho da História. Mas é preciso uma séria interpretação, em muitos casos, mediada por pessoas que dominam o assunto e falam sobre ele. Para ser bom jornalismo é preciso ir além do que disseram as partes interessadas ou gatos-pingados pescados na rua. Mas nos livremos de intelectuais deitando falatório incompreensível. Nem eles são tão infalíveis nem há mais clima para uma sociedade tutelada por "sábios".

Na cozinha das redações há que decidir quanto espaço abrir para os observadores qualificados. É correta a preocupação de tornar a notícia fácil de ler e atraente - ajudada pelo pitoresco de quem passa na rua. Equilibrar esses ingredientes é um dos legítimos desafios da profissão. O inaceitável é limitar-se a um amontoado de veemências do sindicato, lamentos dos não atendidos, burocratês dos administradores e opiniões de transeuntes.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O quartinho das ferramentas



O quartinho das ferramentas
Claúdio de Moura e Castro
Veja

Faz anos. fui voar de asa-delta em Chattanooga. Como o vento não é domesticável, custou muito até que soprasse certo. Esperei longas horas no local de aterrissagem. Na manhã de sábado, chegou um americano pesadão, em uma caminhonete abarrotada de madeira. Depois de empilhar as tábuas no chão, tirou do estojo um teodolito e pôs-se a medir. Curioso, pensei, engenheiro que descarrega caminhão! Mas. em seguida, munido de uma cavadeira, furou quatro buracos. Virou o cimento e construiu quatro blocos, para servirem de alicerce do que prenunciava ser um quartinho. Desapareceu antes do fim da manhã.

Como o cimento precisava secar, só voltou no dia seguinte. Com uma serra circular de mão, pôs se então a cortar e a pregar as peças de 2 por 4 polegadas que compõem a estrutura da cabana. Alguns compensados foram içados, para fazer o telhado, logo coberto de telhas de asfalto. Em seguida, mais compensados para fechar as paredes. Quando pousei à tarde. a cabana estava pronta, e já desaparecera o engenheiro-pedreiro-carpinteiro. Um dia de trabalho: uma cabana pronta e benfeita.

Recentemente, vi outra cabana sendo construída, desta vez no Brasil. Como era apenas para a duração de uma obra, era mais rústica. Foi também feita de peças estruturais de pinho e compensado hidráulico. Como os esteios foram fincados no chão. sem cimento, não foi necessário esperar ate" o dia seguinte. Na prática, levou o mesmo tempo que a americana. Vejam a grande diferença: a cabana brasileira foi feita por cinco operários!

Quando economistas falam de produtividade, referem-se a uma relação entre o que se aplica na produção de alguma coisa e o que se obtém ao fim do processo. A produtividade da mão de obra reflete quantas horas de trabalho foram necessárias para produzir algo — no caso, uma cabana.

Como o senhor americano produz o mesmo que cinco brasileiros, em tempo equivalente, nesse exemplo concreto, ele é cinco vezes mais produtivo do que o nosso operário. A graça do exemplo é que. além de ser real. oferece uma situação rara. em que podemos comparar a feitura de duas cabanas iguais, em um processo produtivo que depende pouco do restante da cadeia de produção.

Quanto valerá cada cabana? Depende. Se as duas forem vendidas pelo mesmo preço, cada operário brasileiro ganhará um quinto do que o americano vai ganhar. Se os brasileiros ganharem o mesmo que o americano, a cabana custará cinco vezes mais.

No primeiro caso, os operários brasileiros permanecem muito mais pobres. No segundo, o país deixa de ser competitivo pelos altos custos. No mundo real, ficamos pelo meio do caminho. O exemplo não mede a produtividade brasileira, pois é um caso isolado. Mas pesquisas rigorosamente conduzidas mostram o mesmo, uma gigantesca diferença de produtividade entre os dois países.

É preciso entender que medidas agregadas da produtividade brasileira escondem mais do que revelam. A empresa Gerdau tem aciarias no Brasil e nos Estados Unidos. Segundo seus engenheiros, em processos comparáveis, os operários aqui e lá têm exatamente a mesma produtividade. Ou seja, a improdutividade dos brasileiros não tem o endereço das nossas boas empresas.

Ao lidarmos com os nossos operários, ficamos irritados com o pouco que rendem. Mas como poderiam saber mais se não houve quem os ensinasse? Em contraste, os que voltam dos Estados Unidos se revelam mais produtivos. Nas escolas de lá ou no trabalho. aprenderam certo.

Nossa produtividade é baixa em virtude de inúmeros fatores, amplamente decantados: portos e estradas inadequados, a hidra burocrática fungando no cangote dos empresários, impostos complicados e sufocantes, juros altos...

Havendo vontade de liquidar as assombrações burocráticas, bastam canetaços bem aplicados. E. com bons contratos, empreiteiras resolvem os gargalos de infraestrutura. Esse é até o lado fácil. O árduo é elevar a produtividade dos muitos milhões de operários esparramados pelo território e vivendo em mundos distantes das boas práticas de trabalho. Senai e Senac ensinam certo e mostram o caminho. Mas capacitar toda essa gente está além dos seus orçamentos. E prosperidade sem produtividade é miragem impossível.
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Dilma, não desperdice nossos recursos nesse sistema educacional



Dilma, não desperdice nossos recursos nesse sistema educacional
Gustavo Ioschpe
Veja

 Excelentíssima presidente da República, deputados e senadores:

Está em suas mãos a decisão de aprovar ou vetar dois projetos de lei que aumentam o gasto em educação, um deles destinando 75% dos royalties do pré-sal para a área e o outro, o Plano Nacional de Educação, estipulando que dobremos o volume de gastos nos próximos dez anos. dos atuais 5% do PIB para 10% do PIB.

Nos últimos dez anos eu venho escrevendo sobre educação brasileira, e nela militando, com apenas um propósito: melhorar radicalmente a qualidade do ensino no país para que possamos dar um salto de desenvolvimento. Faço-o por espírito público, mas também por egoísmo: quero que meus filhos vivam em um país melhor que este que temos agora. Não ganho dinheiro com esse tema, não defendo interesse de nenhum grupo público ou privado, nacional ou estrangeiro. Ajo como se munido de uma procuração para falar em nome dos milhões de alunos das péssimas escolas públicas brasileiras, que não têm voz nem vez no debate político nacional.

Por isso, espero que a senhora e os senhores acreditem em mim quando digo: eu defenderia qualquer medida para a qual houvesse evidências de que impacta positivamente o nível de aprendizado dos nossos alunos. Se essa medida fosse algo tão fácil e simples quanto aprovar uma lei, então eu ficaria mais feliz ainda. E, se essa medida tivesse como consequência secundária melhorar a renda dos 5 milhões de brasileiros que trabalham no sistema educacional, isso me deixaria triplamente contente. E, mesmo que não busque popularidade nem pretenda fazer-lhes companhia em atividades eleitorais, tampouco sou masoquista, de forma que ficaria mais alegre ainda em defender algo que vem sendo pedido pelos manifestantes de rua e por uma série de almas caridosas que clamam para que a senhora e os senhores aprovem as ditas leis. Por tudo isso. adoraria me juntar a esse coro dos que bradam por mais recurso. Mas não posso. Porque não consigo faltar com a verdade, nem ignorar décadas de evidências, nem consentir que duas dádivas que recebemos — a capacidade de trabalho do povo brasileiro, que gera os impostos de que os senhores estão prestes a se apropriar: e as riquezas minerais enterradas em nossa costa — sejam tão clamorosamente desperdiçadas em um sistema que é um Midas ao contrário: transforma o ouro que recebe em desperdício e ignorância.

A senhora e os senhores devem ter ouvido que o Brasil investe pouco em educação. Que os países que deram grandes saltos educacionais aumentaram seus gastos no setor para viabilizar seus avanços. Que se gastarmos mais conseguiremos resolver nossos problemas. Que se pagarmos mais aos nossos professores haveremos de recuperar sua combalida autoestima e finalmente trazer "os melhores" alunos para o magistério, para que elevemos a qualidade dos mestres de amanhã. Bem, desculpem-me pela franqueza e pela linguagem direta, mas a urgência e a gravidade do assunto tornam-nas necessárias: isso é tudo mentira. Deslavada.

O Brasil não gasta pouco em educação. Como mostram os dados do levantamento mais respeitado do mundo na área, o Education at a Glance de 2013, investimos em nossa educação básica 4,3% do PIB, contra 3,9% do PIB dos países desenvolvidos. Se olharmos para os gastos educacionais como um todo, ainda gastamos um pouco menos, mas isso é basicamente porque nosso sistema universitário público é minúsculo e gasta bem menos, no total, do que esses países, em que a maioria da população da faixa etária correspondente cursa o ensino superior. Nosso investimento por aluno, quando comparado ao nível de renda brasileiro, é basicamente o mesmo dos países desenvolvidos. (A senhora e os senhores, cercados por gente que quer ter mais dinheiro para administrar, provavelmente viram esses dados em seus valores absolutos nominais, em dólares. Como se fizesse sentido comparar gastos nominais em países que têm renda três ou quatro vezes maior do que a nossa, e como se em alguma atividade os valores nominais de países desenvolvidos e em desenvolvimento fossem semelhantes...).

Talvez a senhora e os senhores já saibam que gastamos o mesmo que os países com os melhores sistemas educacionais do mundo, mas acreditem que esses são patamares de nações que "já chegaram lá". Já devem ter ouvido alguém falar que, quando esses países deram seu salto educacional, gastaram perto dos 10% do PIB que tencionamos agora gastar. Novamente: é mentira. Creio que o gráfico ao lado se encarrega de desmontar essa empulhação sem maiores delongas (os dados originais e outras bibliografias estão em twitter.com/gioschpe). São dados da Unesco para países que são referência no mundo em melhoria educacional, além dos nossos vizinhos. Cobrem o período de 1970 (quando esses dados começam a ser coletados) a 2012. Tanto faz se olharmos para o período todo ou só para o momento (1970-89) em que a maioria desses países começou a dar seu salto, a conclusão é a mesma: não houve elevação de investimento antes, durante ou depois das melhorias, e os patamares de investimento chegam no máximo à casa dos 5% do PIB. Tanto faz se o PIB é de país rico, como Espanha e Inglaterra, ou de países em desenvolvimento, como China e Chile.

Finalmente, sobre os professores. Como já escrevi em vários artigos aqui, há diversas pesquisas em que os próprios professores são entrevistados, e a maioria diz que escolheu a profissão porque a ama, gosta dela e não pretende abandoná-la. Não creio que essa categoria tenha uma autoestima menor do que a média, portanto. Muito se fala dos poucos casos de países que conseguem atrair os estudantes mais talentosos para a docência, mas esse é o típico caso da exceção que confirma a regra. Mesmo nos países mais bem-sucedidos, em geral o jovem que opta pela carreira de professor não é o mais qualificado de seu grupo etário. Os mais competentes acabam optando por profissões da iniciativa privada, em que seu talento será valorizado. Professor é carreira pública, com as limitações, engessamentos e estabilidade comuns às demais funções públicas. O que a maioria dos países top consegue fazer é pegar esse jovem mediano e, através de formação excelente e acompanhamento continuado ao longo da carreira, transformá-lo em um profissional competente. É o que deveríamos buscar fazer também.

Entendo que a senhora e os senhores querem fazer algo pela educação brasileira. Porém, como diz o vulgo, de boas intenções o inferno está cheio. Estão agindo sob a premissa errada: de que nossos problemas se resolvem com dinheiro. Isso é falso. Não é nem uma questão da quantidade de dinheiro, nem da forma como esse dinheiro é gerido. Precisamos de muitas coisas para nossa educação, e as mais importantes não têm nada a ver com dinheiro. Onde focar? Na melhoria das universidades de pedagogia/licenciatura, que são totalmente teóricas e ideológicas e não preparam ninguém para a docência. Na seleção criteriosa de diretores de escola. No estabelecimento de um currículo nacional. Na criação de expectativas altas para todos os nossos alunos, especialmente os mais pobres. Coibindo o absenteísmo docente. Fazendo com que a jornada de aulas seja aproveitada, sem tempo desperdiçado com atrasos, anúncios, chamadas, conselhos de classe. Impedindo professores de achar que encher a lousa de matéria e mandar que os alunos copiem é uma aula. Alfabetizando aos 6 anos de idade. Desinchando o currículo, especialmente no ensino médio, e dando opção de cursos técnicos e profissionalizantes nessa etapa. Prescrevendo e corrigindo mais dever de casa. Utilizando avaliações constantes e intervenções rápidas quando se identifica um aluno com problema.

Poucos itens acima podem ser resolvidos na esfera federal. A maior parte é de responsabilidade de prefeitos, governadores e seus secretários de Educação. Hoje, a maioria deles faz um trabalho muito ruim. Jogar mais um caminhão de dinheiro nas mãos dessas pessoas, com esse sistema, será a garantia de um desperdício colossal. Se ao fazerem um péssimo trabalho eles são recompensados com o dobro de recursos, que incentivo terão para melhorar?! Espero que os senhores parlamentares não se rendam ao populismo. Caso sucumbam, presidente Dilma, use o seu poder de veto. Talvez não ajude na sua próxima eleição, mas certamente beneficiará os colegas do seu neto.
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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Sem educação não há futuro -



PAULO BROSSARD
ZERO HORA


Levei um choque na manhã em que li a notícia estampada na primeira página da Zero Hora, como faço todos os dias, segundo a qual o pior resultado apurado pelo Ministério da Educação mediante a avaliação processada pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) estava no sul do país. Eu não ignorava que a qualidade do ensino sul-rio-grandense estivesse em nível pouco desejável, mas também não esperava que lhe fosse reservada esta deplorável qualificação, até porque o resultado nacional não é lisonjeiro... Basta dizer que foram tímidos os avanços no Ensino Fundamental, que envolve 98% dos alunos entre 7 e 14 anos, e em relação ao Ensino Médio, que atende os jovens de 15 a 18 anos, foi de estagnação. Neste quadro geral e neste cenário, forçoso é reconhecer, é lamentável a posição do ensino na Província de São Pedro.

Ela é tanto mais desairosa quando o ensino no Rio Grande era um dos dois melhores em todo o Brasil, tempos que lembram o saudoso secretário Coelho de Souza. A verdade é que hoje a realidade é outra e a indagação que deve ser feita é como e por que isto ocorreu. Dispensável dizer que a causa não será única, mas várias como sói acontecer, e não será no espaço de um artigo que se poderá apontá-los. Com esta ressalva, mencionarei apenas um. Não direi novidade que o ensino supõe a conjugação de variados elementos, a partir do professor, a cordialidade, o respeito, a cordura, a serenidade, o exemplo, sem falar na competência referente ao que ensina e na maneira de ensinar e em quanta coisa mais. Ora, parece-me inegável a emergência de um fator novo, pouco ou nada compatível com as qualidades exemplificativamente aludidas, que chamarei de belicosidade, na ausência de melhor designação. Ontem não entrava no colégio, hoje tomou conta do ensino e foi além. O ensino e a belicosidade são incompatíveis. Não sei se diga que na medida em que o ensino se foi desfigurando a belicosidade crescente ou se na medida em que a belicosidade chegou à sala de aula a qualidade do ensino entrou a mermar. O fato é que parece ter havido uma convergência da violência com o declínio da qualidade do ensino. A violência ou a belicosidade tem ou vem tendo várias modalidades, inclusive a do sindicato ou que outro nome tenha. Não ignoro que a menção a este dado poderá desagradar a um ou outro setor, mas tenho o hábito de dizer o que penso ainda que pedindo desculpas pelo eventual desgosto que possa causar. Estou convencido de que o sindicato consorciou-se com o ensino, impurificando o ambiente com seu mau hálito. Um fato é inconteste: o sindicato agigantou-se e o ensino decaiu.

A propósito, lembro que quando a senhora presidente mostrou-se desgostosa com a aferição do PIB em determinado triênio e sua influência com o PIB do ano de 2012, desprezou-o publicamente, como se a sua medição tivesse alguma culpa no caso, e não se limitasse a medir o que vira e sentira, preferindo os maravilhosos benefícios da educação como critério a revelar as realidades nacionais, lembrei que além da educação nada ter com o pífio resultado do PIB, e o que era mais, o ensino brasileiro não estava em condições de recomendar o país. Infelizmente, ficou confirmado que a emenda fora pior que o soneto. A senhora presidente ficaria melhor servida se voltasse ao PIB como é em todo o mundo e também na Alemanha, na França e na Itália, que são as três maiores economias da Europa, e ainda na Espanha e no Reino Unido tiveram "crescimento negativo" e nem por isso romperam relação com o respectivo PIB.

O PIB mostra que o momento presente é grave, tanto que aí está o perigo da desindustrialização. Os dados do ensino alarmam, pois sem educação não temos futuro.

Mal no presente, comprometidos para o futuro, será que nos resta só o passado?
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Apagão da família

 CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O ESTADÃO


A sociedade assiste, assombrada, a uma escalada de crimes cometidos no âmbito de famílias de classe média. Transformou-se o crime familiar em pauta ordinária das editorias de polícia. O inimigo já não está somente nas esquinas e vielas da cidade sem rosto, mas dentro dos lares. Mudam os personagens, mas as histórias de famílias destruídas pelo ódio e pelas drogas se repetem. A violência não se oculta sob a máscara anônima da marginalidade. Surpreendentemente, vítimas e criminosos assinam o mesmo sobrenome e estão unidos pela indissolubilidade do DNA.

A multiplicação dos crimes em família tem deixado a opinião pública em estado de choque. Paira no ar a mesma pergunta que Federico Fellini pôs na boca de um dos personagens do seu filme Ensaio de Orquestra, quando, ao contemplar o caos que tomara conta dos músicos depois da destituição do maestro, pergunta, perplexo: "Como é que chegamos a isto?". A interrogação está subjacente nas reações de todos nós, caros leitores, que, atordoados, tentamos encontrar resposta para a escalada de maldade que tomou conta do cotidiano.

A tragédia que tem fustigado algumas famílias aparece tingida por marcas típicas da atual crônica policial: uso de drogas, dissolução da família e crise da autoridade. Não sou juiz de ninguém. Mas minha experiência profissional indica a presença de um elo que dá unidade aos crimes que destruíram inúmeros lares: o esgarçamento das relações familiares. Há exceções, é claro. Desequilíbrios e patologias independem da boa vontade de pais e filhos. A regra, no entanto, indica que o crime hediondo costuma ser o dramático corolário de um silogismo que se fundamenta nas premissas do egoísmo e da ausência, sobretudo paterna. A desestruturação da família está, de fato, na raiz da tragédia.

Se a crescente falange de jovens criminosos deixa algo claro, é o fato de que cada vez mais pais não conhecem os seus filhos - e filhos também não se interessam por seus pais e avós. Na falta do carinho e do diálogo, os jovens crescem sem referências morais e âncoras afetivas. Recebem boas mesadas, carros e viagens. Mas, certamente, trocariam tudo isso pela presença dos pais. Sua resposta é uma explosiva combinação de revolta e ódio.

Psiquiatras, inúmeros, tentam encontrar explicações nos meandros das patologias mentais. Podem ter razão. Mas nem sempre. Independentemente dos possíveis surtos psicóticos, causa imediata de crimes brutais, a grande doença dos nossos dias tem um nome menos técnico, porém mais cruel: a desumanização das relações familiares. O crime intra e extralar medra no terreno fertilizado pela ausência. O uso das drogas, verdadeiro estopim da loucura final, é, frequentemente, o resultado da falência da família.

A ausência de limites e a crise da autoridade estão na outra ponta do problema. Transformou-se o prazer em regra absoluta. O sacrifício, a renúncia e o sofrimento, realidades inerentes ao cotidiano de todos nós, foram excomungados pelo marketing do consumismo alucinado. Decretada a demissão dos limites e suprimido qualquer assomo de autoridade - dos pais, da escola e do Estado -, sobra a barbárie. A responsabilidade, consequência direta e imediata dos atos humanos, simplesmente evaporou-se. Em todos os campos. O político ladrão e aético não vai para a cadeia. Renuncia ao mandato. O delinquente juvenil não responde por seus atos. É "de menor".

Certas teorias no campo da educação, cultivadas em escolas que fizeram uma opção preferencial pela permissividade, também estão apresentando um amargo resultado. Uma legião de desajustados, crescida à sombra do dogma da educação não traumatizante, está mostrando a sua face perversa.

Ao traçar o perfil de alguns desvios da sociedade norte-americana, o sociólogo Christopher Lasch (autor do livro A Rebelião das Elites) sublinha as dramáticas consequências que estão ocultas sob a aparência da tolerância: "Gastamos a maior parte da nossa energia no combate à vergonha e à culpa, pretendendo que as pessoas se sentissem bem consigo mesmas". O saldo é uma geração desorientada e vazia.

A despersonalização da culpa e a certeza da impunidade têm gerado uma onda de superpredadores. O inchaço do ego e o emagrecimento da solidariedade estão na origem de inúmeras patologias. A forja do caráter, compatível com o clima de verdadeira liberdade, começa a ganhar contornos de solução válida. A pena é que tenhamos de pagar um preço tão alto para redescobrir o óbvio.

O pragmatismo e a irresponsabilidade de alguns setores do mundo do entretenimento também têm importante parcela de responsabilidade nesse quadro. A valorização do sucesso sem limites éticos, a apresentação de desvios comportamentais num clima de normalidade e a consagração da impunidade têm colaborado para o aparecimento de mauricinhos do crime. Apoiados numa manipulação do conceito de liberdade artística e de expressão, alguns programas de televisão crescem à sombra da exploração das paixões humanas.

As análises dos especialistas e as políticas públicas esgrimem inúmeros argumentos politicamente corretos. Fala-se de tudo. Menos da crise da família e da demissão da autoridade. Mas o nó está aí. Se não tivermos a coragem e a firmeza de desatá-lo, assistiremos a uma espiral de crueldade sem precedentes. É apenas uma questão de tempo.

Já estamos ouvindo as primeiras explosões do barril de pólvora. O horror dos lares destruídos pelo ódio não está nas telas dos cinemas. Está batendo às portas das casas de um Brasil que precisa resgatar a cordialidade captada pela poderosa lente de Sérgio Buarque de Holanda (o pai do Chico) no seu memorável Raízes do Brasil.
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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Apagão de mão de obra e educação básica

A decisão do governo FHC em não reprovar nenhuma criança aprovando-a de forma automática começou a cobrar a fatura.

O apagão de mão-de-obra atual é fruto daquela época, e de lá para cá, onde a criança de sete anos ou mais, dezesseis anos atrás, hoje se encontra com dificuldade de se colocar no mercado de trabalho. Hoje com idade entre vinte e trinta anos, não foram obrigados a passar por qualquer processo seletivo por intermédio de aprovação natural.

Serviços que venham a exigir visão, nível básico de discernimento, visão da realidade onde estão inseridos e capacidade de decisão nos níveis em que trabalham ficam seriamente comprometidos com a baixa qualidade educacional dos atualmente "excluídos".

Será que as opções politicamente corretas foram adequadas?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Escassez de mão de obra?

O autor sublinha uma realidade contumas em termos de atraso ao nosso desenvolvimento.
Ainda não li trabalhos científicos que dissequem tal realidade e apontem uma solução para nossa grave escassez de mão-de-obra de qualidade.

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Marcio Pochmann
Valor Econômico 

 A temática da qualificação da mão de obra não é desprezível no atual momento pois corre o sério risco de se tornar um verdadeiro entrave ao curso do desenvolvimento nacional, quando não um constrangimento adicional ao avanço adequado dos grandes eventos esportivos para 2014 (Copa do Mundo de Futebol) e 2016 (Jogos Olímpicos). Na crise internacional transcorrida no fim de 2008, o ciclo de expansão produtiva com forte emprego assalariado formal iniciado três anos antes foi arrefecido, o que permitiu postergar resoluções necessárias em torno da temática da qualificação da força de trabalho no país.

Desde o segundo trimestre de 2009, contudo, a produção nacional voltou a se recuperar, fruto das positivas políticas anticíclicas adotadas pelo governo federal. Tanto assim que, no ano de 2010, a economia registrou forte expansão do Produto Interno Bruto (PIB), com impactos significativos na geração de mais de 2 milhões de empregos formais. Por força disso, algumas regiões e setores de atividade econômica apresentaram, inclusive, alguns sinais de escassez relativa da mão de obra qualificada. Em geral, é possível assumir que o emprego de profissionais das engenharias pode ajudar a observar - ainda que sinteticamente - o impacto da expansão econômica sobre a determinação do nível de ocupação do trabalho qualificado.

No contexto de expansão das atividades econômicas que demandam crescentemente força do trabalho mais qualificada, devem ser considerados primordialmente os elementos determinantes da oferta laboral, sobretudo aquela derivada das engenharias, frente às suas interligações com outras categorias profissionais. Assim, não há com deixar de relacionar o processo de formação superior nas engenharias, uma vez que o ensino superior no Brasil é constituído por duas centenas de universidades, 127 centros universitários e quase 2 mil faculdades e institutos de educação tecnológica, responsáveis pela absorção de quase 6 milhões de alunos.

A demanda por engenheiros em 2014 pode chegar a quase 650 mil novos profissionais

Nos dias de hoje, são cerca de 830 mil pessoas que se graduam anualmente, equivalendo a menos de 26% do total de vagas ofertadas a cada ano pelo ensino superior. Das 3,2 milhões de vagas disponíveis pelo conjunto dos cursos de graduação, 322 mil são de responsabilidade da área das engenharias (engenharia, produção e construção), ou seja, 10,2% do total de vagas abertas no país por ano. Para esse contingente de vagas, registram-se mais 770 mil candidatos (12,5% do total de candidatos aos cursos de ensino superior), o que resulta em 2,4 candidatos por vaga em todo o Brasil (para mais detalhes, ver a publicação Radar nº 12, do Ipea, de fevereiro de 2011).

No ano de 2009, houve a graduação de 47,1 mil engenheiros, que equivaleram a apenas um pouco menos de 15% do total de alunos que ingressam nos cursos de engenharia. Isso significa que as engenharias registraram elevados índices de evasão, impondo baixa quantidade de concluintes nos cursos de graduação e certo desperdício de recursos humanos e financeiros para vagas não ocupadas ou ocupadas por período demasiadamente longo. Além disso, assinala-se também o problema associado à qualidade formativa dos engenheiros, uma vez que 42,3% dos concluintes das engenharias que se formaram em 2008 são oriundos de instituições de nível superior que detêm baixo desempenho na proficiência acadêmica, segundo informações do Ministério da Educação (MEC). Ainda para o MEC, somente um em cada grupo de quatro graduados provém de instituições com nível superior de alto desempenho educacional.

Adicionalmente, ressalta-se que a oferta total de engenheiros formados no Brasil não se encontra ainda plenamente absorvida pelas atividades tradicionais das engenharias. Em plena década de 2000, por exemplo, constatou-se que, do total da mão de obra qualificada nas engenharias, estimada em 550 mil profissionais, havia menos de 1/3 exercendo atividades finalísticas da profissão. Esse desvio na alocação dos profissionais das engenharias em relação ao emprego final resulta de duas décadas anteriores de baixa demanda de engenheiros devido ao contido dinamismo econômico e quase ausência de investimentos em infraestrutura nacional.

Da situação atual de disponibilidade nacional de engenheiros, deve-se considerar o ingresso do contingente de graduandos a cada ano e o desvio de profissionais para outras áreas de ocupação, o que pode permitir antever alguns dos possíveis constrangimentos à demanda de pessoal qualificado a serem atenuados. Em 2009, por exemplo, 323 mil engenheiros foram contratados em todo o país, o que significou duas vezes mais a abertura de vagas que o verificado no ano 2000. Se a economia brasileira vier a crescer 6% em média nos próximos quatro anos, por exemplo, a demanda por engenheiros em 2014 pode chegar a quase 650 mil novos profissionais.

É em função disso que a formação de mão de obra qualificada no Brasil requer atenção, seja no processo formativo, seja no ambiente de contratação por parte das empresas. A ampliação das vagas no ensino superior pressupõe enfrentar simultaneamente tanto a qualidade dos cursos ofertados como a enorme evasão dos estudantes. Ao mesmo tempo, cabe mencionar a necessidade da oferta de cursos de readaptação ao ambiente de trabalho nas engenharias para aqueles profissionais que se encontram desviados e podem retornar às atividades finalísticas tradicionais. Considera-se que, do ponto de vista da demanda de mão de obra qualificada, há espaço para avançar nas relações de trabalho, especialmente naqueles setores mais dinâmicos em termos de contratação de trabalhadores.

O processo de formação no próprio local de trabalho pode ser uma oportunidade desenvolvida com apoio das instituições de representação dos trabalhadores e do governo federal, o que inibiria o veto à contratação de profissionais sem prévia experiência profissional. Também a restrição à elevadíssima rotatividade contratual permitiria que os investimentos na qualificação da força de trabalho pelas empresas se convertessem em maior segurança na própria ocupação por maior tempo. Isso implica planejamento democrático e participativo, sobretudo dos diretamente interessados em impedir que a escassez de mão de obra seja mais um obstáculo ao curso do desenvolvimento nacional.

Marcio Pochmann é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Escreve mensalmente às quintas-feiras.
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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CONTINUA O DESMONTE DO ENEM

O GLOBO



Se a incúria do poder público foi a protagonista da tragédia na Região Serrana, ela também patrocina, quase ao mesmo tempo, mais uma ação para o desmonte do Enem, um dos melhores instrumentos criados para substituir o vestibular como porta de entrada na universidade. Infelizmente, a credibilidade do Exame Nacional do Ensino Médio vem sendo destroçada a golpes sucessivos de inépcia desfechados pelo Ministério da Educação (MEC) e seu Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pela aplicação do teste, já utilizado por várias universidades, no processo de seleção de vestibulandos. 

As constantes e graves falhas na condução do exame explicitam algumas das clássicas deficiências do serviço público brasileiro, convertido de vez numa casta por forças políticas que há alguns anos mantêm o poder em Brasília. Protegido contra qualquer sistema comezinho de cobrança de eficiência, embora com salários muitas vezes acima dos pagos no mercado para as mesmas funções, o funcionalismo federal custa muito ao contribuinte e não dá um retorno compatível com o peso dos impostos cobrados à sociedade. Pelo contrário, tem gerado sérios problemas, como os do Enem. 

Provas já foram furtadas por deficiência no sistema de vigilância contratado; folhas de testes terminaram sendo distribuídas com páginas de gabarito trocadas; e, agora, como se fosse para completar o calvário de centenas de milhares de estudantes, o acesso ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), para o candidato escolher as opções de cursos, tem sido, no mínimo, problemático. Devido ao previsível grande volume de acesso - surpreendente apenas para o MEC/Inep -, muitos estudantes não conseguiram entrar no sistema. O prazo foi prorrogado, o mínimo que o ministério poderia fazer. Mas os problemas continuaram. Houve até - pela segunda vez no Enem - invasão de informações privadas, permitida por falha técnica de quem montou o deficiente esquema de registro por meio da internet. 

Algumas conclusões se impõem. Uma delas: a máquina burocrática não aprende com o erro - e já foram vários no Enem. Com o engavetamento da reforma administrativa formulada na Era FH, métodos minimamente modernos de gestão - como o estabelecimento de metas e a distribuição de bônus por resultados - continuaram ao largo da máquina federal, enquanto são adotados, com sucesso, em governos estaduais e municipais. Sem uma gestão que responsabilize, mas também estimule o funcionário, o erro é apenas um acidente de rota. Mesmo que se repita. 

Outra evidência é a incapacidade de haver troca de experiências dentro do próprio aparato estatal. Inscreveram-se neste último Enem 3,3 milhões de estudantes, para disputar 83 mil vagas no ensino superior. Os números são elevados, mas a Receita Federal processa, sem maiores dificuldades, declarações de 24 milhões de contribuintes pessoas físicas, enquanto a Justiça Eleitoral registrou e apurou, com a costumeira eficiência, bem mais de 100 milhões de votos na última eleição. Por que não recorrer à experiência destas equipes? 

Mas parece não haver esta atenção no setor público. A cada demonstração de incompetência como estas cresce mais de importância a decisão da presidente Dilma de instituir um Núcleo de Gestão e Competitividade. Trabalho para ele não falta. 
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Educação, ciência e tecnologia: prioridades do novo governo

Jorge Werthein
Correio Braziliense


Doutor em educação pela Stanford University, foi representante da Unesco no Brasil e é vice-presidente da Sangari Brasil e do Instituto Sangari

A presidente Dilma Rousseff foi clara em seu discurso de posse no Congresso Nacional: “Junto com a erradicação da miséria, será prioridade do meu governo a luta pela qualidade da educação, da saúde e da segurança”. Demonstrou plena consciência das necessidades mais urgentes do país. Deu destaque, evidentemente, à educação, em especial a sua qualidade. Concomitantemente, o ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou plano de ação que terá como prioridades a educação infantil, a qualidade do ensino fundamental, o ensino médio e a valorização do magistério. Nada poderia ser mais alvissareiro no ano que se inicia.

De fato, a qualidade da educação vem ocupando e preocupando especialistas no assunto já há algum tempo, sobretudo depois que o Brasil conseguiu universalizar o ensino fundamental. Não se trata de um desafio recente, portanto. A baixa qualidade do ensino brasileiro vem se refletindo no desempenho dos estudantes em exames internacionais, como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), e na taxa de analfabetismo funcional, conforme indica o IBGE, ambos ainda vigentes, a despeito dos esforços dos últimos anos.

A presidente reconhece tanto os esforços quanto os desafios ao declarar, no discurso de posse, que “nas últimas décadas, o Brasil universalizou o ensino fundamental. Porém é preciso melhorar sua qualidade e aumentar as vagas no ensino infantil e no ensino médio”. Vale lembrar que essas são as palavras de uma presidente recém-empossada e não mais de uma candidata à Presidência da República. Portanto, trata-se de um compromisso de governo, que reafirma uma promessa de campanha.

O ministro da Educação, por sua vez, acaba de anunciar que, no plano de ação do MEC, está contemplada a proposta de aula em tempo integral, de maneira que o estudante faria o ensino médio e a educação profissional em dois turnos, na mesma escola ou não. A presidente certamente apoia a proposta, uma vez que se comprometeu a aumentar o investimento público no ensino médio e a estender a experiência do ProUni ao ensino médio profissionalizante, de forma a acelerar a oferta de milhares de vagas para que os jovens recebam formação educacional e profissional de qualidade. 

Quanto à valorização do magistério, estratégia fundamental para uma educação de qualidade, a presidente afirmou aos congressistas que “só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação, com formação continuada, remuneração adequada e sólido compromisso dos professores e da sociedade com a educação das crianças e dos jovens”. 

O ministro Haddad também propõe à presidente a adoção de um concurso nacional para professores, em substituição às seleções municipais e estaduais. Assim, prefeituras e governos poderiam escolher os melhores docentes a partir do desempenho deles nas provas, e eles, por sua vez, teriam a possibilidade de escolher onde lecionar. Seria uma forma de valorizar os profissionais mais qualificados em todo o país, os quais certamente receberiam salários mais atrativos. Eis uma importante iniciativa, ainda que não seja fácil implementá-la.

Tudo isso certamente poderá contribuir para que o Brasil alcance as metas nacionais e internacionais que estabeleceu nos últimos anos. “Somente com avanço na qualidade de ensino poderemos formar jovens preparados, de fato, para nos conduzir à sociedade da tecnologia e do conhecimento”, salientou Dilma Rousseff, perfeitamente ciente de que “o mundo vive em um ritmo cada vez mais acelerado de revolução tecnológica”. É o que vêm afirmando também autoridades na área educacional e científico-tecnológica, ao ressaltarem a importância de aumentar a qualidade do ensino de ciências no nível fundamental de forma a estimular e a preparar as crianças para possíveis e promissoras carreiras científicas no futuro.

É inegável a consonância da presidente e de seus ministros Fernando Haddad e Aloizio Mercadante com os discursos mais afinados com a realidade do país e do mundo atual. Se eles veem na educação e no desenvolvimento científico e tecnológico a chave para o desenvolvimento brasileiro e destacam isso em seus discursos de posse, parece claro que o novo governo está disposto a avançar decididamente nessas áreas. Cabe, agora, à sociedade maior participação na discussão e na concretização das propostas. Afinal, da educação, da ciência e da tecnologia também depende o êxito na abordagem das demais prioridades do novo governo, quais sejam o enfrentamento da miséria, das deficiências na saúde pública e da violência.
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terça-feira, 26 de outubro de 2010

O panorama da educação

O ESTADO DE S. PAULO
25/10/2010

O mais recente levantamento comparativo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em matéria de educação - o relatório Education at a glance 2010 - revela que, apesar de ter ampliado os gastos com o ensino fundamental na primeira década de 2000, o Brasil ainda investe só 1/5 do que os países desenvolvidos destinam ao setor.
O levantamento cobre todos os ciclos de ensino e leva em conta a educação pública e privada. Segundo ele, enquanto países como Alemanha, Bélgica, França, Reino Unido, Áustria, Dinamarca, Noruega, Itália, Islândia, Estados Unidos e Japão investem, em média, US$ 94.589 por estudante durante todo o ciclo do ensino fundamental, no Brasil o gasto médio é de US$ 19.516 por aluno. O resultado é que, em matéria de formação e preparo, os estudantes brasileiros continuam muito longe dos estudantes dos países desenvolvidos.
A pesquisa da OCDE comparou os investimentos no ensino fundamental realizados por 39 países e avaliou os resultados por eles obtidos. Entre outros fatores, ela levou em consideração os salários dos professores, materiais pedagógicos, instalações físicas, acesso à escola, número de estudantes matriculados e o papel dos pais na supervisão e aconselhamento das escolas públicas.
O estudo também comparou os benefícios sociais e econômicos resultantes da educação de qualidade, em termos de aprendizagem dos estudantes, condições de empregabilidade e níveis salariais.
Segundo a pesquisa, os níveis de despesa com educação variam consideravelmente entre os 39 países analisados, tanto em termos absolutos como relativos. Países como Dinamarca, Israel, Islândia e Estados Unidos, por exemplo, gastam em todos os níveis de ensino o equivalente a cerca de 6,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Países como a Rússia e a República Eslovaca gastam 4,5%. Destinando ao setor educacional 5,2% do PIB, o Brasil se encontra numa posição intermediária.
O estudo também mostra que, entre os países mais ricos, 90% do investimento em ensino fundamental e médio vem do poder público. Quanto ao ensino superior, em países como a Finlândia, Noruega e Coreia do Sul, 75% dos investimentos são privados. A prioridade do gasto público é dada, assim, à formação básica.
A pesquisa revela ainda que, em pelo menos 8 dos 39 países pesquisados, as instituições públicas cobram dos pais uma contrapartida média de US$ 1,5 mil por ano. Como se vê, nesses países, o ensino público não é inteiramente gratuito.
Entre os países mais desenvolvidos, o ensino de redação, literatura, matemática e ciências representa quase 50% do tempo de instrução obrigatória, para os alunos com idade entre 9 e 11 anos, e 40%, para os estudantes na faixa etária entre 12 e 14 anos. Nos demais países, o tempo gasto com essas atividades básicas varia de 16% a 30%.
Evidentemente, isso faz diferença no aproveitamento e no preparo dos estudantes. Esse também é um dos fatores que os levam, quando adultos, a continuar estudando durante toda sua vida profissional. Por isso, mostra a pesquisa, quanto melhor é a qualidade da formação básica dos alunos, mais valor darão ao ensino superior e aos cursos de pós-graduação, o que os torna menos vulneráveis ao desemprego causado pelas crises econômicas. Entre 1997 e 2007, segundo o estudo, a taxa média de desemprego anual de quem tem nível superior ficou em torno de 4%, em média. Entre os que somente concluíram o ensino básico, a taxa média de desemprego ficou acima de 10%, nos 39 países pesquisados.
O estudo da OCDE mostrou ainda que os países desenvolvidos têm 20 alunos por turma no ensino fundamental. No Brasil, embora o tamanho das turmas tenha diminuído em relação a 2000, o número é de 30 estudantes, nas turmas de 5.ª a 9.ª série do ensino fundamental. É um número alto, o que dificulta o trabalho dos professores.
A pesquisa da OCDE registra avanços na educação brasileira, como a universalização do ensino fundamental. Mas, comparativamente, a formação dos nossos estudantes, de modo geral, continua muito longe de um padrão aceitável.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O panorama da educação

O Estado de S. Paulo - 25/10/2010

O mais recente levantamento comparativo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em matéria de educação - o relatório Education at a glance 2010 - revela que, apesar de ter ampliado os gastos com o ensino fundamental na primeira década de 2000, o Brasil ainda investe só 1/5 do que os países desenvolvidos destinam ao setor.

O levantamento cobre todos os ciclos de ensino e leva em conta a educação pública e privada. Segundo ele, enquanto países como Alemanha, Bélgica, França, Reino Unido, Áustria, Dinamarca, Noruega, Itália, Islândia, Estados Unidos e Japão investem, em média, US$ 94.589 por estudante durante todo o ciclo do ensino fundamental, no Brasil o gasto médio é de US$ 19.516 por aluno. O resultado é que, em matéria de formação e preparo, os estudantes brasileiros continuam muito longe dos estudantes dos países desenvolvidos.

A pesquisa da OCDE comparou os investimentos no ensino fundamental realizados por 39 países e avaliou os resultados por eles obtidos. Entre outros fatores, ela levou em consideração os salários dos professores, materiais pedagógicos, instalações físicas, acesso à escola, número de estudantes matriculados e o papel dos pais na supervisão e aconselhamento das escolas públicas.

O estudo também comparou os benefícios sociais e econômicos resultantes da educação de qualidade, em termos de aprendizagem dos estudantes, condições de empregabilidade e níveis salariais.

Segundo a pesquisa, os níveis de despesa com educação variam consideravelmente entre os 39 países analisados, tanto em termos absolutos como relativos. Países como Dinamarca, Israel, Islândia e Estados Unidos, por exemplo, gastam em todos os níveis de ensino o equivalente a cerca de 6,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Países como a Rússia e a República Eslovaca gastam 4,5%. Destinando ao setor educacional 5,2% do PIB, o Brasil se encontra numa posição intermediária.

O estudo também mostra que, entre os países mais ricos, 90% do investimento em ensino fundamental e médio vem do poder público. Quanto ao ensino superior, em países como a Finlândia, Noruega e Coreia do Sul, 75% dos investimentos são privados. A prioridade do gasto público é dada, assim, à formação básica.

A pesquisa revela ainda que, em pelo menos 8 dos 39 países pesquisados, as instituições públicas cobram dos pais uma contrapartida média de US$ 1,5 mil por ano. Como se vê, nesses países, o ensino público não é inteiramente gratuito.

Entre os países mais desenvolvidos, o ensino de redação, literatura, matemática e ciências representa quase 50% do tempo de instrução obrigatória, para os alunos com idade entre 9 e 11 anos, e 40%, para os estudantes na faixa etária entre 12 e 14 anos. Nos demais países, o tempo gasto com essas atividades básicas varia de 16% a 30%.

Evidentemente, isso faz diferença no aproveitamento e no preparo dos estudantes. Esse também é um dos fatores que os levam, quando adultos, a continuar estudando durante toda sua vida profissional. Por isso, mostra a pesquisa, quanto melhor é a qualidade da formação básica dos alunos, mais valor darão ao ensino superior e aos cursos de pós-graduação, o que os torna menos vulneráveis ao desemprego causado pelas crises econômicas. Entre 1997 e 2007, segundo o estudo, a taxa média de desemprego anual de quem tem nível superior ficou em torno de 4%, em média. Entre os que somente concluíram o ensino básico, a taxa média de desemprego ficou acima de 10%, nos 39 países pesquisados.

O estudo da OCDE mostrou ainda que os países desenvolvidos têm 20 alunos por turma no ensino fundamental. No Brasil, embora o tamanho das turmas tenha diminuído em relação a 2000, o número é de 30 estudantes, nas turmas de 5.ª a 9.ª série do ensino fundamental. É um número alto, o que dificulta o trabalho dos professores.

A pesquisa da OCDE registra avanços na educação brasileira, como a universalização do ensino fundamental. Mas, comparativamente, a formação dos nossos estudantes, de modo geral, continua muito longe de um padrão aceitável.
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sábado, 16 de outubro de 2010

Serra e o segredo do Bolsa Família

Serra e o segredo do Bolsa Família


Gilberto Dimenstein

Muita gente vai jurar que é mentira o que vou contar hoje, mas posso assegurar que é verdade. Por trás dela, o maior erro de comunicação da histórica do PSDB -- e, em parte, explica o desempenho nas pesquisas de Lula e de sua candidata, Dilma Rousseff.

Ainda no final do governo Fernando Henrique Cardoso, o então ministro da Educação, Paulo Renato Souza, hoje secretário estadual da Educação, tinha proposto ao Palácio do Planalto uma campanha massiva mostrando como a bolsa-escola (a origem da Bolsa Família) chegava a milhões de famílias. Por trás da campanha, uma intenção: Paulo Renato queria ser candidato a presidente e buscava a aprovação do governo e do partido. Via-se claramente o impacto desse programa, na época chamado pelo PT de bolsa-esmola. Vou além: o PT, no Congresso, dificultou a aprovação do projeto, basta ir nos anais das comissões para comprovar o que estou falando.

O secreto dessa história é o seguinte. O então ministro da Saúde, José Serra, também candidato, não queria adversários e, com seus sólidos contatos palacianos, conseguiu vetar a campanha. Serra, como se sabe, saiu candidato e pouco se usou, na época, a bandeira da bolsa-escola.

Não sei se FHC participou ou soube da decisão. Se não sabe, sugiro que pergunte a seus assessores e vai conhecer a verdade. O que sei é que ele se lamenta (e muito) não ter dado visibilidade a seus programas de renda mínima. Aliás, ele diz que é seu maior erro de comunicação.

O fato é que a campanha não saiu, e o PSDB deixou de atar sua imagem a uma ação que, em larga medida, foi faturada por Lula.

Agora, ironicamente, Serra corre atrás do prejuízo e tenta se apresentar mais pai do Bolsa Família do que o próprio Lula. Pelas pesquisas, vemos que, sem essas ações, Dilma teria muito mais dificuldade de se eleger.

Nessa história toda, a verdade é que a bolsa-escola ganhou o país porque foi lançado, em pequena escala, por Cristovam Buarque, então governador de Brasília, e pelo prefeito de Campinas, José Roberto Teixeira. Virou política pública porque o falecido Antônio Carlos Magalhães criou um fundo de combate à pobreza, que fez com que Paulo Renato pudesse disseminar em todo o país o programa.
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sem treinamento para dar aula

O Globo - 11/10/2010
Pedagoga contratada não fez o curso de formação previsto pelo MEC

 Passar creme hidratante nas mãos faz parte da lição numa turma do Brasil Alfabetizado, em Brasília. Os 18 alunos trabalham em áreas como limpeza, lavanderia ou jardinagem. E alguns penam para segurar um lápis. Ou melhor, penavam, porque as aulas, iniciadas em março, já dão resultado.
Quem leva o creme hidratante é a alfabetizadora Marilene Sacramento. Formada em Pedagogia, ela está desempregada.
Antes, trabalhava como auxiliar administrativa terceirizada num ministério.
Marilene recebe R$ 250 por mês nem metade de um salário mínimo.
Faço por amor diz Marilene.
Aos 52 anos, ela nunca lecionou no ensino regular. Sua experiência resumiase a dar aulas como voluntária num centro espírita. Ao ser selecionada pelo governo do Distrito Federal, este ano, ela conta que não recebeu orientação pedagógica nem participou do curso de formação inicial previsto pelo MEC.
Marilene alfabetiza funcionários do Minas Brasília Tênis Clube. Eles são dispensados do serviço na hora de estudar.
As aulas vão de terça à sexta-feira, das 15h30m às 17h50m, numa área coberta com vista para o Lago Paranoá. O clube também serve lanche. Ainda assim, na última sexta-feira, estavam presentes só 12 dos 18 matriculados. Quando estão de folga, eles não costumam ir às aulas.
O governo do DF decidiu reformular sua participação no Brasil Alfabetizado.
De olho num contrato futuro, a organização não-governamental Alfasol está prestando consultoria gratuita para as turmas do programa no DF. Isso inclui um encontro semanal de Marilene com especialistas da Alfasol.
Uma das atividades postas em prática pela alfabetizadora foi a simulação de uma eleição, na semana passada. Os alunos fizeram a vez de candidatos, e a turma lidou não só com conceitos de voto e democracia, como também com números, nomes e cargos.
A riqueza da alfabetização de jovens e adultos está nisso: vai muito além das letras diz a supervisora de pedagogia da Alfasol em Brasília, Clélia Rabelo.
A lavadeira Marlene Maria Alves de Sousa, de 49 anos, conta que aprendeu a assinar o nome com as filhas. Mas, ao receber o contracheque do clube, todo mês, ela não sabia preencher o espaço reservado à data. Aprendeu no Brasil Alfabetizado.
Antes de trabalhar na lavanderia do clube, Marlene atuava no setor de limpeza.
Ela diz que poderia ter sido promovida para a portaria. Mas foi barrada por não saber ler e escrever.
Funcionário da náutica, onde limpa lanchas, Messias Sousa da Silva, de 37 anos, diz que é um pouco vergonhoso ser analfabeto. Ele já trabalhou como cozinheiro e lembra que precisava da ajuda de colegas para ler o cardápio.
Nascido na zona rural de São Benedito (CE), Messias conta que seu pai só valorizava o serviço na roça: Meu pai dizia: não tem caneta melhor do que o cabo da enxada.

O pensar e o repetir

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Ignez Martins Tollini - Correio Braziliense - 07/10/2010

Houve um tempo no qual os alunos eram obrigados a copiar, várias vezes em seus cadernos, frases relacionadas com assuntos ensinados em sala de aula. O professor agia assim para que o aluno memorizasse o conteúdo das frases. Tal método de repetição levava o aluno a gravar em sua mente ideias ou comportamentos considerados adequados. O mesmo acontecia com a memorização de poesias, prática também muito usada na época. Alunos que tinham dificuldade de repetir o que liam ou ouviam achavam essa prática um verdadeiro sofrimento.

Nessa mesma época, havia o desafio das composições. Então, quem sofria eram os alunos que não gostavam de organizar ideias, defender argumentos, criar algo que ainda não tinha sido dito por outros. Em suma, nos primórdios do século 20 o pensar e repetir eram comumente usados na educação escolar.

Fora da escola, o mundo ocidental avançava novas ideias em moldes bem distintos. De um lado, os vencedores da Segunda Guerra Mundial introduziam modernidades nunca imaginadas pelos velhos países europeus. Enquanto isso, a Alemanha, por exemplo, tentava se livrar do poderio nazista. Anos após a derrubada do muro de Berlim, em 1989, os alemães ainda guardam a memória do dogmatismo de uma ideologia que varreu a Europa e deixou a recordação do horror próprio de ditaduras sanguinárias.

Na parte oriental de Berlim, um edifício majestoso mostra como os jovens da Alemanha eram enganados pelo carisma maléfico de Hitler. Na entrada do prédio, a gravação dos gritos e a figura aterrorizante do Füher, em um de seus inflamados discursos, provocavam pavor. Assim, ele influenciava as multidões com sua voz estridente e seu olhar penetrante. Convencia os que o ouviam pela repetição contínua de frases de efeito. Poucos deviam perceber que ele era o próprio mal. O método da repetição foi usado para dominar a mente de jovens e levá-los à dolorosa experiência do nazismo.

Em outra experiência que o mundo passou, a repetição foi também arma de impor o pensamento único e evitar o pensamento individual. Aconteceu na Bielorrússia, a partir de 1917, com a revolução comunista de Lênin. Décadas depois, na cidade de Minsk, capital da Bielorrússia, o local de nascimento de Lênin, a doutrina do líder comunista ainda estava viva e contínua. Eram os anos anteriores à abertura do país para o mundo. As pessoas ainda viviam sob a pressão de excessivo autoritarismo. Estrangeiros não podiam sair sozinhos nas ruas e em todos os lugares os monótonos discursos de Lênin se repetiam infinitamente. Folhetos sobre a vida do líder comunista aguardavam os visitantes nos aeroportos. Visitas a locais de interesse eram acompanhadas por pessoal designado pelas autoridades locais.

Nas escolas, professores utilizavam grandes álbuns, presos em cavaletes, para mostrar e explicar cenas tidas como importantes para o aprendizado dos alunos. Enquanto viravam as folhas do grande álbum, os alunos permaneciam calados. Cenas da guerra da Bielorrússia com a Alemanha, algo considerado importante para ser lembrado pelos alunos, se repetiam. Nas portas dos banheiros das escolas, o retrato de Lênin estava presente. Os discursos desse antigo líder eram apresentados continuamente nos rádios, uma experiência máxima da técnica de repetição. Visitantes provenientes de países democráticos sentiam-se aliviados ao deixar o país e recuperar o direito de, pelo menos, respirarem como lhes conviessem. A supressão dos direitos individuais de pensar e expor seus pensamentos estavam em suas últimas décadas, embora todo o aparato governamental ainda não anunciasse essa novidade.

As duas experiências, da direita e da esquerda, fracassaram. A Europa livrou-se desses dois extremos. Por sua vez, os alunos de hoje já não são obrigados a repetir frases em seus cadernos. Contudo, ainda existem resquícios dos males da repetição e da falsa divisão do pensar da direita e do pensar da esquerda, esses esqueletos do passado. Educadores e políticos que ainda se apegam a esses símbolos do atraso, ao quererem doutrinar política e ideologicamente alunos em sala de aula, deveriam ser convidados a visitar os escombros de um tempo que felizmente ficou sepultado no passado. Os que hoje tentam ressuscitar o mal de ontem, com palavras sedutoras dirigidas aos jovens, deveriam ser tratados como cadernos de repetição de frases colocados nos museus da educação.

Ignez Martins Tollini
Mestre em educação brasileira pela UnB, Master of Sciences in Education (Universidade de Purdue, Indiana, Estados Unidos), Ph.D. in Education (Universidade de Londres, Reino Unido)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O judeu de Bethesda

Uma estimulante leitura, o Prof Claudio Castro, economista especializado em Educação sublinha um problema renintente e de ação pública muito reticente.


Estimular jovens, hoje em dia, para leitura é um desafio.
Estive nesta escola, Walt Whitman, de fato, tanto o bairro como o entorno tem uma população considerável de judeus com tais hábitos. Aos domingos esta escola promove feiras de livros usados com uma impressionante taxa de comparecimento, ao longo do ano. Lá adquiri livros importantes para minhas pesquisas do mestrado ao mesmo tempo que uma profusão de obras com orientação de bibliotecários, funcionários e voluntários, conhecedores de uma boa quantidade de obras.

O que lá me impressionou, muito, foi o acesso natural e voluntário a bibliotecas públicas. A de Rockville, Maryland, onde morava, tinha uma biblioteca pública que parecia uma galeria de arte toda nova, toda, absolutamente toda modernizada.

Há, também, o hábito do cidadão americano de ler livros, lê-se muito mais livros do que revistas, isto eu constatei.

Quanto a outro ponto é a questão de ler e ter como e com quem debater ou conversar, com regularidade; com amigos, colegas, vizinhos e familiares sobre o que se leu até para melhorar a retenção do conteúdo. E isto não temos no nosso país como temos lá. Nas bibliotecas há rodas de leituras sobre romances, obras clássicas etc. Quando houve a calamidade do Katrina as bibliotecas debatiam Os Miseráveis, de Victor Hugo, da mesma forma A Peste, de Albert Camus e Germinal, de Emile Zolá. Tive sorte de ter lido, na juventude, os três e tenho vontade de relê-los, pois a retenção quando se é adolescente é diferente. Durante um seminário que participei, com militares e diplomatas, enquanto aluno, discutíamos passagens dos Miseráveis e a Peste. Tudo isto muito me impressionou.

Para se estimular o hábito profícuo da leitura, para ser eficiente sua retenção, o entorno do estudante e do jovem tem que estar preparado. Tive esta sorte, pois minha mãe havia sido professora primária e minha irmã mais velha uma leitora contumaz em sua juventude, além do hábito de meu pai comprar enciclopédias. Hoje em dia: Malhação, programas vespertinos, orkut, internet e as indefectíveis novelas.

Eu ano passado li 20 livros, no ano anterior tinham sido 12 livros, a questão é que, em meu entorno imediato, eu não encontrei ninguém que se interessasse em discutir nem os livros nem temas atuais de relevência....daí eu ter iniciado um blog, pelo menos eu converso comigo mesmo e alguém pode ler o que entendi ou penso, eventualmente até me corrigem e eu cresço com isto.






Claudio de Moura Castro

O judeu de Bethesda

"Se livro fosse cultura, os cupins seriam os seres mais cultos do globo. Só livro lido é cultura"

Último dia de aula na escola Walt Whitman. Situada em Bethesda, um bairro intelectualmente sofisticado da região de Washington (DC), é uma das melhores dos Estados Unidos. O pimpolho volta para casa. Poderia estar sonhando com três meses de vadiagem, longe dos livros. Mas o sonho duraria pouco. Ao fim da tarde, chega o pai judeu, carregando uma sacola de livros recém-comprados. Chama o filho, esparrama os livros na mesa da sala e começa a montar o cronograma de leituras, incluindo a cobrança periódica do que terá sido lido. Ignoro quantos pais judeus passaram também nas livrarias. Mas imagino que não foram poucos.





Ler livros, glorificar livros, eis uma tradição judaica milenar. Vem de longe e não se buscam muitas explicações científicas para ela. Não obstante, Karl Alexander, da Universidade Johns Hopkins, somando aos 39 estudos sobre o assunto, completou uma pesquisa com alunos do ensino fundamental. Concluiu que, das vantagens acadêmicas acumuladas pelos alunos mais ricos até a 9ª série, dois terços advêm de atividades de leitura mais intensas durante as férias. Segundo a Secretaria de Educação americana, as perdas dos mais pobres nas férias são "devastadoras". Um pai judeu provavelmente diria: ora bolas, é o que sempre pensei. Mas, para a maioria das pessoas, os resultados são surpreendentes. Em matemática, foi possível comprovar que, durante as férias, os alunos esqueceram o equivalente a 2,6 meses de aula. Em outras palavras, somente 2,6 meses depois de recomeçarem as aulas os alunos atingem o nível de competência que tinham no último dia de aula da série anterior. Ou seja, férias são um horror para o aprendizado.
Trata-se de resultados valiosos para países que lutam bravamente para melhorar seu claudicante ensino. É simples, se for possível estancar a sangria do "desaprendizado" – que põe a perder 2,6 meses de estudos –, os ganhos serão enormes. Da ordem de 25%? Que outras intervenções seriam tão poderosas?
Tais ideias abrem caminho para muitas linhas de atividade. Pais interessados e comprometidos com a educação dos seus filhos podem fazer o mesmo que os judeus de Bethesda. Mas, vamos nos lembrar, se livro fosse cultura, os cupins seriam os seres mais cultos do globo. Só livro lido é cultura. Portanto, cobranças sem dó nem piedade. Mas seria só empurrar livros e mais livros goela abaixo dos filhos? Jamais! É preciso desenvolver o prazer da leitura, e o bom exemplo é essencial. À força, pode sair o tiro pela culatra. Que livros? Não adianta comprar Hegel, Spinoza ou Camões, se as leituras favoritas ainda não passaram muito da Turma da Mônica. É fracasso garantido. Os livros devem andar muito próximo do interesse e da capacidade de compreensão dos leitores, sempre puxando um pouco para cima.
Desviando parcialmente do assunto, quero sugerir aos pais que façam manifestações, que acampem em frente à casa dos prefeitos, até que se mude uma situação vergonhosa. Uma pesquisa recente com as bibliotecas públicas brasileiras pôs a descoberto que (além de fecharem às 6 da tarde) apenas 20% delas abrem aos sábados e só 1% aos domingos. Como é possível que, nas horas e dias de folga das escolas, as bibliotecas permaneçam fechadas? No caso das leituras de férias, são os únicos dias em que muitos pais poderiam ir à biblioteca para escolher livros com os filhos.
Para aqueles que cuidam da educação como ofício, as implicações da pesquisa da Johns Hopkins não são menos revolucionárias. Mostram ser preciso fazer alguma coisa, somente para conseguir não andar para trás nas férias. Por exemplo, programas públicos de leitura. Não são programas caros nem complicados, basta criar monitorias para garantir que as leituras sejam feitas.
Em um nível mais ambicioso, sobretudo para alunos mais vulneráveis, poderiam ser criados cursos de férias. Não se trata de fazer a mesma coisa que no período letivo, pois seria repetir um ensino aborrecido e pouco produtivo. Precisamos de projetos intelectualmente desafiadores, atividades que estimulem os miolos, jogos e muitas outras coisas. O que precisa ser aprendido não é muito diferente, mas viria vestido com roupas mais alegres. E, como sabemos que cabeça vazia é oficina do diabo, essas atividades podem até mesmo ter outras consequências benéficas, por evitar rumos pouco recomendáveis em que se deságuam as amplas energias desses jovens.
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