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sábado, 25 de maio de 2019

Sonhos e realidades do ensino superior no Brasil

Caberia aos reitores das universidades públicas liderar um esforço para racionalizar custos
     
José Goldemberg, O Estado de S.Paulo
20 de maio de 2019 | 03h00

Universidades foram criadas na Europa quase mil anos atrás: a Universidade de Bolonha, na Itália, em 1088 e a de Paris, na França, em 1170, esta em torno da Catedral de Notre-Dame. Pela de Universidade Bolonha passaram Dante Alighieri, Petrarca e muitos outros. Aos poucos elas se espalharam pela Europa e pelo resto do mundo em torno de igrejas, em entidades independentes, muitas vezes criadas pelos próprios alunos e pelos governos.

No período medieval as escolas das universidades dedicavam-se principalmente a estudos de teologia, direito civil e ciências humanas, mas aos poucos se expandiram para todos os campos do conhecimento, como medicina e “ciência experimental”, que corresponde hoje à área de ciências exatas e engenharia.

Universidades preparam a mão de obra altamente qualificada que faz funcionar a sociedade moderna, desde a produção e distribuição de energia, água e saneamento, até agricultura, transporte, habitação, ciências econômicas e ciências humanas. Preparam também os pesquisadores que tentam descobrir os segredos da natureza e abrem caminho para novos processos e tecnologias para combater doenças e aumentar o conforto das populações. Na área de humanidades, estimulam o desenvolvimento de novas ideias filosóficas e políticas que podem influir poderosamente no destino das nações. Historicamente, o melhor exemplo dessa influência é a enorme ebulição intelectual e social que levou à Revolução Francesa, em 1789, e às guerras de libertação das antigas colônias francesas no Sudeste da Ásia e da África.

Existem hoje cerca de 10 mil universidades no mundo, com aproximadamente 200 milhões de estudantes – em média são 30 universitários por mil habitantes. No Brasil são 8 milhões de estudantes (40 por mil habitantes), 1 milhão dos quais em universidades públicas, gratuitas, e 7 milhões em universidades privadas, que cobram mensalidades. O acesso ao ensino superior público no Brasil exige um processo seletivo, já que as vagas disponíveis são em número muito menor que o de alunos que competem por elas.

Países estruturaram seu sistema universitário de formas diferentes: na França e na Itália o ensino universitário é todo público e gratuito e existem vagas asseguradas para todos os alunos que concluem o ensino secundário (que também é público e gratuito). Existem poucas universidades privadas, nelas os alunos pagam mensalidades elevadas.

Nos Estados Unidos é o oposto: existem poucas universidades estatais (em que os estudantes pagam pouco) e inúmeras privadas, em que as mensalidades são elevadas. Cada instituição usa seus próprios critérios de admissão de alunos. O que aconteceu nos Estados Unidos é que se criou também um sistema para os estudantes que não querem fazer cursos que duram quatro ou cinco anos, mas cursos técnicos que lhes dão formação em dois ou três anos e acesso mais rápido ao mercado de trabalho. Estes são os colleges, ou colégios comunitários parecidos com as nossas Fatecs, o Senai e o Sesc, além de algumas escolas técnicas federais.

Como é natural, algumas universidades se distinguiram das demais nos EUA, onde o ingresso é altamente competitivo, como Harvard, MIT, Princeton, Stanford, Chicago e algumas outras. É em torno delas que se concentram as atividades de pesquisa de vanguarda do país.

Na França, como nos Estados Unidos, o mesmo ocorreu, e além das universidades foram criadas as grandes écoles, em que há vestibulares e a meritocracia é determinante para admissão. Algumas delas existem desde 1750, Napoleão Bonaparte estudou numa delas; mais tarde, quando dirigente da França, criou outras, como a Escola Politécnica.

O sistema brasileiro foi estruturado a partir de 1934, quando foi criada a Universidade de São Paulo (USP), que valorizou a pesquisa científica e a área de humanidades. Antes disso havia em São Paulo apenas escolas profissionais, como a Faculdade de Direito, a Escola Politécnica, a Faculdade de Medicina e outras além, é claro, das escolas militares. Com a criação da USP foi introduzido o regime de dedicação integral ao ensino e à pesquisa, que a tornou uma universidade de custo elevado, como o são as universidades de pesquisa do mundo todo: o custo médio de cada aluno é de cerca de US$ 12 mil por ano (aproximadamente R$ 50 mil).

O sucesso da Universidade de São Paulo criou a ilusão de que seu exemplo poderia ser estendido a todo o País. Esse era o sonho, mas “a verdade efetiva das coisas” – na arguta linguagem de Maquiavel – ou, em outras palavras, “a verdade nua e crua despida de planos fantasiosos” é que não foi possível expandir o sistema de universidades públicas (são 78 hoje), que consomem quase todo o orçamento do Ministério da Educação, de cerca de R$ 100 bilhões por ano.

Para atender em universidades gratuitas todos os 8 milhões de estudantes brasileiros seu orçamento teria que aumentar sete vezes. Daí a expansão do número de universidades privadas, onde os alunos pagam mensalidades elevadas.

O sistema brasileiro de ensino superior é, pois, uma mistura do sistema da França e dos Estados Unidos. Como nesses países, algumas universidades se destacaram graças a lideranças universitárias locais e se tornaram, na prática, comparáveis às “grandes escolas” francesas e às boas universidades americanas, onde o custo médio por aluno é elevado, mas a produção científica é excelente.

Nas universidades federais o custo médio por aluno é de cerca de R$ 27 mil, mas existem variações enormes entre elas. Na Universidade Federal do Amapá o custo é de cerca de R$ 14 mil reais e na Universidade Federal do Rio de Janeiro, R$ 70 mil por aluno.

Obviamente, é necessário um esforço de racionalização, que caberia aos reitores dessas universidades liderar.

PROFESSOR EMÉRITO DA USP, FOI MINISTRO DA EDUCAÇÃO. 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

FORO DE SÃO PAULO: O povo como problema


Sempre que o Foro de São Paulo se reúne, recende o ranço da esquerda autoritária latino-americana. Abundam palavras de ordem contra o “imperialismo americano”, como se a guerra fria não tivesse terminado
         
O Estado de S.Paulo 19 Julho 2018 

Sempre que o Foro de São Paulo se reúne, recende de seus salões o ranço característico da esquerda autoritária latino-americana. Abundam palavras de ordem contra o “imperialismo americano” e invectivas contra o “neoliberalismo”, como se a guerra fria não tivesse terminado. No encontro, todos os problemas enfrentados pelos governos e partidos esquerdistas da região costumam ser atribuídos aos Estados Unidos, a representação do mal absoluto no discurso desses liberticidas. Na edição deste ano, realizada em Havana, não foi diferente: até mesmo a prisão de Lula da Silva foi caracterizada como parte da “guerra de caráter não convencional” que, segundo o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, os americanos deflagraram contra os “líderes progressistas” do continente.

“Exigimos a liberdade imediata de Lula, depois de uma condenação e prisão sem provas, e o direito a ser candidato presidencial nas eleições de outubro no Brasil, respeitando a vontade da maioria do povo brasileiro. Lula livre! Lula inocente! Lula presidente!”, diz a declaração final da 24.ª reunião anual do Foro de São Paulo – que, é claro, denuncia a “ofensiva reacionária, conservadora e restauradora neoliberal” capitaneada pelos Estados Unidos.

Em seu discurso, o ditador Maduro – que liquidou a oposição em seu país, encarcerou e exilou os dissidentes e reprimiu duramente todo tipo de manifestação contra seu governo, responsável pela penúria venezuelana – caracterizou o Brasil como um regime de exceção. Maduro disse ver o “martírio de Lula com dor, mas não com resignação”, denunciando que seu companheiro petista foi “escondido numa masmorra” para “impedir sua ação política”, porque “sabem que Lula livre ganhará a eleição presidencial no Brasil”. E acrescentou: “Basta!”.

Enquanto estão preocupados com a qualidade da democracia no Brasil, onde a imprensa é livre e as instituições funcionam, o Foro de São Paulo e seus ciosos delegados de partidos de esquerda entendem que a “Nicarágua sandinista”, por exemplo, é uma democracia plena – embora seu ditador, Daniel Ortega, tenha manobrado para se perpetuar no poder e mandado reprimir duramente manifestações contra seu governo, resultando, até agora, em mais de 350 mortos. Segundo o Foro, a Nicarágua de Ortega está sendo vítima da “política intervencionista” dos Estados Unidos, e os manifestantes estariam a serviço de “golpistas” teleguiados pelos americanos.

É evidente que, no léxico do Foro de São Paulo, a palavra “democracia” perde seu sentido estrito, servindo para designar unicamente regimes e partidos autoritários da América Latina que se pretendem legítimos porque julgam expressar a vontade do “povo”. Se o povo não concorda com a interpretação desses seus alegados porta-vozes, pior para o povo. Que o digam os presos políticos de Cuba, governada pela mais longeva ditadura do mundo, anfitriã do encontro “democrático” e “progressista” do Foro de São Paulo.

É em nome desse “povo” que o “campo progressista” latino-americano insiste na libertação de Lula, como se o suposto desejo popular expresso em pesquisas de intenção de voto para presidente fosse mais que suficiente para anular o julgamento que condenou o chefão petista à cadeia. Pouco importam os fatos, as provas e as sentenças de diversos juízes.

No delírio lulopetista, o sistema judicial brasileiro está tão eivado de golpistas que, segundo disse o ex-ministro Gilberto Carvalho a um site do MST, “só há uma forma de tirar Lula da cadeia”: um “levante popular, uma mobilização muito forte, uma radicalização do processo, seja de que forma for, que faça com que eles sintam que está ameaçada a estabilidade do País, e aí, por uma razão de força maior, libertem o Lula”.

O próprio Carvalho, contudo, reconhece que não será tarefa fácil, pois nem sempre o povo está suficientemente esclarecido para defender o PT. Ao comentar a dificuldade de mobilização, o amigão de Lula lamentou: “O povo faltou. O povo faltou no impeachment, o povo faltou na prisão de Lula”. Eis aí, para os espíritos autoritários, o “problema” das verdadeiras democracias: o povo, quando é livre, tem vontade própria.

domingo, 15 de julho de 2012

Avenida Brasil

Um texto leve e descritivo bom para reflexão. Mas não assisto novelas :-)


PAULA CESARINO COSTA
FOLHA DE SP


Mais do que na novela das 21h que tem parado o país, drama, violência, tragédia e esperança se misturam nos 58 km da verdadeira avenida Brasil, que corta o Rio da zona norte à oeste e imobiliza a cidade de maneira mais literal.

Inaugurada em 1946 e pouco cantada em versos, a via simbolizou a industrialização dos períodos Getulio Vargas e JK, entre os anos 50 e 60, e a decadência econômica fluminense dos anos 80 e 90.

Carros, caminhões, ônibus e motos circulam, param e se acidentam em meio a uma paisagem lúgubre.

Pedestres esperam por transporte em pontos caindo aos pedaços, adornados por árvores semimortas. Bicicletas serpenteiam entre as vias ou ficam acorrentadas a postes.

No alto do morro, um castelo de contos de fadas abriga um dos principais centros de pesquisa do país, a Fiocruz. Instalações militares ocupam áreas imensas, abrigando as poucas áreas verdes que um dia chegaram a hospedar os craques da seleção de 70. São oásis de excelência.

Ao rodar por essa avenida, esburacada, violenta, bagunçada e feia, não dá para vislumbrar o renascimento que dizem que está a acontecer.

Às vezes, os números revelam antes uma realidade ainda invisível.

Quase não há mais áreas disponíveis, as poucas estão supervalorizadas. Estão em construção o Arco Metropolitano e o BRT TransBrasil -um corredor exclusivo para ônibus.

Só em 2010, segundo a Fecomércio do Rio, 1,7 mil estabelecimentos se instalaram, com a abertura de 8.921 vagas. No ano passado, dois grandes shoppings foram inaugurados, criando mais de 5.000 empregos. Empresas atacadistas e de e-commerce aproveitam a redução do ICMS de 19% para até 1%.

A avenida Brasil é a principal via de acesso ao Rio e tem encravada em si anos de descaso governamental, à altura de vilão de TV. Mas novela tem sempre final feliz.
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