Mostrando postagens com marcador Roberto Pompeu de Toledo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Roberto Pompeu de Toledo. Mostrar todas as postagens

sábado, 25 de maio de 2019

‘Viva la muerte!’


 - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO REVISTA VEJA


Com pouco mais de quatro meses de existência, o governo Bolsonaro já garantiu o favoritismo para empalmar o troféu Millán-Astray de obscurantismo. Millán-Astray é o general das hostes fascistas na Guerra Civil Espanhola celebrizado pelo brado “Abajo la inteligencia, viva la muerte”. O governo Bolsonaro, com sua ofensiva contra a universidade (“Abajo la inteligencia”) e seu festival de licenças e incentivos para que a população desfrute das melhores condições de matar-se entre si (“Viva la muerte”), cumpre à perfeição a dupla palavra de ordem do general.

São essas as duas iniciativas nas quais mais se empenha o governo. A reforma da Previdência não vale; é causa do governo paralelo do ministro Paulo Guedes, à qual Bolsonaro empresta apenas distraído cuidado. A investida contra a universidade ganhou tração com o anúncio de cortes em seus orçamentos, mas responde a uma característica central de Bolsonaro e do bolsonarismo. O antiesquerdismo é a motivação primária, mas alimenta­-se também de um anti-intelectualismo de fundo que a direita brasileira bebeu nas matrizes europeias e na América do modelo Trump. O avanço na batalha conheceu um tropeço na inépcia do primeiro escolhido para o Ministério da Educação, mas parece ter encontrado no atual, Abraham Weintraub, um soldado suficientemente bom de briga para encará-la.

O capítulo do culto à morte, adequado complemento ao desprezo pelo saber, tem merecido empenho ainda mais explícito do governo. Em janeiro Bolsonaro assinou decreto facilitando a posse das armas. O ministro Sergio Moro, sob cujas barbas brotam tais medidas, explicou na ocasião que posse, ou seja, ter armas guardadas em casa, difere de porte, que é circular com elas. “O porte é uma situação diferente, que precisa de análise mais profunda”, disse em entrevista à GloboNews. Mas quem se importa com Moro? Bolsonaro não, e neste mês, com a “análise mais profunda” relegada ao baú dos atropelos ao ministro da Justiça, assinou decreto credenciando diversas categorias profissionais a zanzar com armas na cintura. Tanto quanto o decreto em si, foi eloquente do bangue-bangue acalentado pelo governo o ambiente em que se deu sua assinatura, com deputados e senadores, eufóricos e boçais, a fazer os dedos de revólveres. Pelo grotesco, a cena ficará nos anais da truculência assim como, nos anais da corrupção, ficou a cena da turma de Sérgio Cabral de guardanapo na cabeça num restaurante de Paris.


A ofensiva de Bolsonaro contra a universidade alimenta-se também de anti-intelectualismo

O general Millán-Astray é lembrado pelo episódio em que contracenou com o então mais respeitado intelectual da Espanha, o filósofo Miguel de Unamuno. No dia 12 de outubro de 1936 comemorava-se no salão nobre da Universidade de Salamanca, da qual Unamuno era reitor, o dia da descoberta da América. Fazia três meses que o levante do general Franco contra o regime de Madri arrastara o país à guerra civil e à divisão em duas zonas, uma sob os franquistas, apoiados por Hitler (ué, ministro Araújo, mas ele não era de esquerda?), e a outra sob a resistência republicana. Salamanca ficava na zona franquista, e naquele dia a universidade estava coalhada de militares e membros da “Falange”, a versão local do nazismo e do fascismo. Millán-­Astray fez um discurso em que atacou o País Basco e a Catalunha como “cânceres no corpo da nação”. Sua fala foi celebrada por um “Viva la muerte” vindo da plateia (era o grito de guerra de Millán-­Astray) e saudações fascistas.

Unamuno, que até então apoiara o levante de Franco contra a bagunça dos governos republicanos e os ardis dos comunistas, tomou a palavra. “Todos me conhecem e sabem que sou incapaz de me calar. Há momentos em que calar é mentir”, começou. “Havia um silêncio cheio de medo”, narra o historiador Hugh Thomas. Unamuno continuou: “Acabei de ouvir um brado necrófilo e insensato”, e acrescentou que a Millán-Astray faltava “grandeza espiritual”. O general cortou-o: “Abajo la inteligencia! Viva la muerte”. Unamuno retomou: “Este é o templo da inteligência, e eu sou seu sacerdote mais alto. Vós profanais este sagrado recinto. Ganhareis, porque possuís a força bruta. Mas não convencereis, porque para convencer é necessário persuadir. E para persuadir é necessário possuir o que vos falta: a razão e o direito, em vossa luta”. Unamuno foi retirado do recinto sob escolta e até morrer, apenas dois meses e meio depois, ficou em prisão domiciliar. Ele tinha razão: ganhou a força bruta. Sobreviveu-lhe, como legado, seu discurso contra a barbárie e a irracionalidade, para ser lembrado onde for que pairem como ameaças.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Rescaldo do Rescaldo

Uma excelente reflexão de um notório jornalista.
Resta-nos, como sociedade, redirecionarmos nossa atenção e prioridades. Creio nunca ter sido antes, em nossa história republicana, ser tão urgente o chamado ao cidadão comum para sua participação mais atuante e madura na governança social. Governança Social é a sociedade exercendo a fiscalização do Estado. Precisamos aprender e praticar.

Rescaldo do Rescaldo
ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
REVISTA VEJA

Um anúncio da safra da Copa... anúncio de quê, mesmo? Houve tempo em que os anúncios iam direto ao ponto — "Beba Coca-Cola". Hoje a criatividade sufoca as marcas. Houve um anúncio da safra da Copa, sabe-se lá do quê, em que um homem, de costas, vinha e depositava no chão a maleta que trazia no braço, na pose de quem chegava a algum lugar. "O futebol está voltando para casa", dizia o locutor. E não é que o futebol voltou mesmo para casa? Voltou para a querida Europa de nascença. País do futebol, hoje, 100 anos depois de o kaiser Guilherme II dar o pontapé inicial à I Guerra Mundial, 91 anos depois do putsch de Munique, 75 anos depois do início e 69 do fim da II Guerra Mundial, 53 depois da construção e 25 da derrubada do Muro de Berlim, nove anos depois da eleição e um depois da renúncia do papa Ratzinger, é a Alemanha. É lá que se joga um futebol alegre e bonito. No Brasil, joga-se um futebol "de resultados" dotado da singular característica de não produzir resultados.

Do lado brasileiro, o grande craque da Copa foi o Cristo Redentor. Durante a transmissão da final, a televisão fez seguidas tomadas do Cristo com o Maracanã ao fundo, ou com a Lagoa Rodrigo de Freitas e a orla de Ipanema ao fundo. A Copa no Brasil teve obras superfaturadas, estádios destinados à ociosidade, promessas de obras viárias não cumpridas, viaduto desabado e operários mortos, mas no momento final apareceu o Cristo para segurar as pontas. O milagre que faltou no gramado veio do alto, como é próprio dos milagres. O Redentor entrou em campo, em transmissão ao vivo captada até os confins do universo, para marcar um gol mais bonito do que o de Robben contra a Espanha.

A vitória do Brasil na Copa de 1958 iniciou uma revolução copernicana na geopolítica do futebol. A vitória de 1970, a terceira em quatro Copas, consolidou a convicção de que subdesenvolvidos, em futebol, eram os europeus. A Copa de 2014 repõe as coisas em seus lugares. Rico é rico, pobre é pobre, e rico fala mais alto e mais grosso que pobre em tudo. Tal qual ocorre no geral do comércio internacional, subdesenvolvido é o exportador de matéria-prima. O Brasil, no futebol, virou exportador de matéria-prima, e não se vislumbra como possa escapar dessa sina. Há uma coisa chamada mercado, em primeiro lugar. Em segundo, há internamente uma engrenagem reunindo cartolas, técnicos, empresários, olheiros e outros agentes mancomunados no grande negócio, ilícito em boa parte, da exportação de jogadores. Em terceiro, de modo cruelmente insidioso, já se introjetou no moleque das peladas o sonho de jogar no Barcelona, não no Corinthians ou no Flamengo.

Angela Merkel assistiu ao jogo inaugural da Alemanha, contra Portugal, e, mostrada várias vezes na TV, festejou cada um dos quatro gols do seu time. Voltou para assistir à final, contra a Argentina, e festejou a conquista do torneio. Como diria o Ancelmo Gois, deve ser terrível viver num país onde o futebol é explorado para fins políticos. Dois turistas alemães foram presos por roubar uma escultura alusiva ao futebol no saguão do Aeroporto de Guarulhos. Deve ser terrível a criminalidade naquele país. O craque alemão Schweinsteiger, depois da conquista, fez uma "saudação especial" a Uli Hoeness, ex-presidente do Bayern de Munique, hoje cumprindo pena por evasão fiscal. Deve ser terrível viver num país em que se incentiva o crime.

Dia do jogo Brasil x Alemanha, num bairro central de São Paulo. O vizinho amanhece já tocando sua vuvuzela. Jogo do Brasil é assim. A festa começa muitas horas antes. Há um clima de eufórica espectativa no ar. Vuvuzelas, buzinas, bandeiras. O clamor da vuvuzela do vizinho intensifica-se à medida que vai chegando a hora. Aí começa o jogo. Um a zero para a Alemanha, dois, cinco a zero. Vuvuzela calada. Seis a zero, sete a zero. Então, aos 45 minutos do segundo tempo, Oscar escapa, engana o goleiro Neuer e marca. Gol do Brasil!!! A vuvuzela dispara. Fica-se imaginando o vizinho levantando do sofá, aturdido, arrasado, mas atento ao chamado do dever. Nem Oscar comemorou. Mas quem possui uma vuvuzela assumiu com ela um compromisso moral, mesmo que seu grito esganiçado àquela altura soasse como um gemido.
.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Homo connectus

Sinais dos tempos.
Quero ver onde isto vai dar?!?!
Melhorou a capacidade analítica e argumentativa do cidadão?!?!
Suas escolhas de três anos para cá foram substancialmente melhores que as dos anos anteriores?
A situação social e econômica que vivemos atualmente traduzem uma melhoria que se justifique esta febre?
Importantes e boas reflexões.


Homo connectus
Roberto Pompeu de Toledo
Veja


Uma charge em recente número da revista The New Yorker mostrava uma animada mulher, ao telefone, convidando os amigos para uma festinha em sua casa. “Vai ser daquelas reuniões com todo mundo olhando para seu iPhone”, ela diz. O leitor captou? A leitora achou graça? Cartunistas são mais rápidos do que antropólogos e mais diretos do que romancistas. Captam o fenômeno quase no momento mesmo em que vem à luz. O fenômeno em questão é o poder magnético dos iPhones, BlackBerries e similares. O ato de compra desses aparelhinhos é um contrato que vincula mais que casamento. As pessoas se obrigam a partilhar a vida com eles.

Na charge da New Yorker, a mulher estava convidando para uma festa em que, ela sabia – e até se entusiasmava com isso –, as pessoas ficariam olhando para seus iPhones ainda mais do que umas para as outras. É assim, desde a sensacional erupção dos tais aparelhinhos, e não só nas ocasiões sociais. O mesmo ocorre nas reuniões de trabalho. Chegam os participantes e cada um já vai depositando à mesa o respectivo smartphone (o nome do gênero a que pertencem as espécies). Dali para a frente, será um olho lá e outro cá, um na reunião e outro na telinha. Não dá para desgarrar dela. De repente pode chegar uma mensagem, aparecer uma notícia importante, surgir a necessidade de uma consulta no Google.

O que vale para reuniões sociais e de trabalho vale também para as sessões do Supremo Tribunal Federal. Quem assistiu pela TV Justiça, na semana passada, ao início do julgamento das competências do Conselho Nacional de Justiça, assistiu a uma cena exemplar. Falava o representante da Associação dos Magistrados Brasileiros. A TV Justiça, com seu apego pela câmera parada, modelo Jean-Luc Godard, enquadrava o orador e, atrás dele, quatro cadeiras da primeira fila da assistência. Três delas estavam ocupadas, a primeira por uma moça que, coitada, não conseguia se livrar de um ataque de espirros, e as outras duas por cavalheiros cujo tormento, igualmente compulsivo, era não conseguir se livrar dos smartphones. (Se o leitor ainda não se deu conta, o melhor, na TV Justiça ou na TV Câmara, é observar o que se passa ao fundo.)

Os dois cavalheiros apresentavam reações características do Homo connectus. Um olho lá, outro cá. De vez em quando, um deles guardava o telefoninho no bolso. Será que agora vai sossegar? Não; minutos depois, sacava-o de novo. E se chega uma mensagem? Uma notícia? Às vezes o smartphone exigia mais que um simples olhar. Requeria o afago dos dedos, naquele gesto que antes servia para espanar uma sujeirinha na roupa, e hoje é o modo de conversar com a telinha. Quando o representante da Associação dos Magistrados terminou o discurso, veio ocupar a cadeira que estava vazia. Agora era sua vez! Sacou o smartphone e, olho lá e olho cá, ele o põe no bolso, tira, olha, consulta de novo, enquanto o orador seguinte se apresentava.

O telefoninho esperto vem provocando decisivas alterações na ordem das coisas. O ser humano é instigado a desenvolver novas habilidades, como a de tocar na tela e conduzi-la ao fim desejado, sem que desande, furiosa e insubmissa. Implantam-se novos hábitos sociais. No tempo do celular puro e simples, aquele bicho que só telefonava, havia restrições a seu uso. Não em ambientes mais debochados, como a Câmara dos Deputados por exemplo, onde sempre foi e continua a ser usado sem peias. Em lugares de maior compostura, os celulares são evitados porque fazem barulho – disparam a tocar campainhas ou musiquinhas e só permitem comunicação via voz. Já os smartphones podem ser desativados na função telefone mas continuar, em respeitoso silêncio, na função telinha. Daí serem socialmente mais aceitáveis.

Há uma grande desvantagem, porém. O aparelhinho parte a pessoa ao meio. Metade dela está na festa, metade no smartphone. Concluída sua oração, metade do senhor da Associação dos Magistrados continuou na sessão do Supremo, metade evadiu-se para o aparelhinho. Pode ser que o aparelhinho lhe tenha trazido informações fundamentais para sua causa. Mas pode ser também que tenha perdido informações fundamentais, ao não acompanhar o orador seguinte. Qual o remédio, para a divisão da pessoa em duas, metade ela mesma, metade seu smartphone? Abrir mão do aparelhinho, depois de todas as facilidades que trouxe, está fora de questão. Se é para abrir mão de um dos dois lados, que seja o da pessoa. Por exemplo: inventando-se um smartphone capaz de sugá-la e reproduzi-la em seu bojo. As reuniões sociais, as de trabalho e as sessões do Supremo seriam feitas só de smartphones, sem a intermediação humana. Delírio? O leitor esquece do que a Apple é capaz.
.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Mundo que vai, mundo que volta


ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
REVISTA VEJA

Não é todo dia que se assiste a uma página virada na história do mundo. O modesto estado americano de Indiana (modesto em termos da federação a que pertence) começará a virá-Ia a partir do início do próximo ano letivo, em setembro, quando suas escolas deixarão de ensinar obrigatoriamente a letra de mão aos alunos. Há algum tempo corre nos Estados Unidos o debate sobre a utilidade de ensiná-la. O tempo aí empregado seria mais bem aproveitado em disciplinas hoje mais pertinentes, a começar pelo manejo do teclado do computador. Mas Indiana é o primeiro estado a tomar a medida oficial, por meio de instrução às escolas. Obrigatório será o ensino do teclado. A letra de mão, que também atende pelo bonito nome de cursivo, com origem em "correr" e "corrente", terá ensino facultativo. Ela hoje corre bem menos, coitada. e é bem menos corrente que os caracteres do computador.

O cursivo, como até os chimpanzés saberiam prever, foi atropelado impiedosamente pela eletrônica. Que as cri.anças precisam familiarizar-se desde cedo com o computador é ponto pacífico. Discutível é se o abandono do cursivo trará perdas às novas gerações. Especialistas acenam com possível involução na capacidade motora e na coordenação entre olho e mão. Outros pergutam como as crianças de hoje assinarão os cheques que as esperam na vida adulta - se é que ainda haverá cheques, e se é que algum truque digital não virá a substituir as assinaturas.

A máquina de escrever já foi um golpe na letra de mão. A rigor, a prensa de Gutenberg, muito antes, já fora um golpe. Mas nenhum deles acertou em cheio. O computador sim, com seu avanço totalizante sobre a vida. A morte do cursivo pode resultar no fenômeno, inédito na história, de uma criança de hoje não conseguir ler o que o pai escreveu na escola, ou numa cana, ou num diário. Aqueles traços redondos como argolas, inclinados para a direita como matagal ao vento, engatados uns aos outros como vagões de trem, que diabos seriam? O cursivo difere bastante da letra de fôrma. O filho achará que o pai escrevia em árabe.

A ilegibilidade de um texto em letra de mão não é ocorrência nova na história. Documentos do século XVI só os paleógrafos são capazes de decifrar. Mas sempre se passou um tempo considerável, até que uma maneira de escrever caducasse aos olhos dos vindouros. O que se desenha de inédito no horizonte é o fenômeno se dar no espaço de apenas uma geração. Os avanços tecnológicos têm ocorrido velozmente, mas corte tão nítido e abrupto, a erguer-se como muro generacional intransponível, ainda estava por vir. É um mundo que vai embora.

O mundo que volta, quem o traz é o comandante Hugo Chávez. É o mundo dos reis cujas doenças eram escondidas do povo - afinal eles tinham parte com os deuses, que não ficam doentes - ou, se as revelavam, o faziam só em parte, sem especificarlhes a natureza nem a gravidade. Vá lá, o presidente eleito Tancredo Neves e seus médicos tentaram esconder a doença que o acometia, e os presidentes franceses também têm, ou tinham, como norma não dar satisfações ao público quanto a esse item. Mas o Brasil se corrigiu. O linfoma da então candidata DiLma Rousseff foi noticiado ao primeiro momento. E mesmo na França, onde os presidentes Georges Pompidou e François Mitterrand disfarçaram os respectivos cânceres enquanto puderam, dificilmente o mesmo procedimento se repetiria. No mundo democrático fixa-se a doutrina de que entre as obrigações do mandatário inclui-se a de dar conta ao eleitorddo de seu estado de saúde.

De novo podemos invocar os chimpanzés. Até eles saberiam dizer por que Chávez não veio se tratar no Brasil. Aqui, o segredo da doença não duraria 24 horas. Cuba oferece as ideais condições de censura - ou de encarceramento, se preciso for - para a manutenção de um segredo. Restam, como sempre ocorre, as especulações. A mais radical é a de que não haveria doença alguma. Estaria em curso uma farsa, com o fim de preparar uma suposta vitória sobre a suposta doença que revelaria a força invencível do líder. Outra é a de que se trata de câncer de próstata, e nesse caso o chimpanzé, agora travestido de especialista em psicologia dos caudilhos, interpretaria o caso a partir da constatação de que cirurgia da próstata pode resultar em esterilidade ou mesmo impotência. Ora, como um líder de tão másculas virtudes, herói do povo e salvador da pátria, se arriscaria a ser visto como estéril? Ou IMPOTENTE?
.

terça-feira, 12 de julho de 2011

A república que não foi


Roberto Pompeu de Toledo
Veja 



Fará 100 anos, em agosto, que começou a ser publicado em capítulos no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. O livro é hoje um clássico da literatura brasileira e o Policarpo do título um de seus personagens mais marcantes. Mesmo quem não leu o livro tem uma ideia de quem se trata – o patriota tão patriota, tão enamorado e orgulhoso das coisas do Brasil, e tão avesso à influência estrangeira, que um dia enviou uma representação à Câmara dos Depurados propondo a adoção do tupi como língua oficial, em lugar do importado português. Tão patriota que proibiu em sua casa o jantar de frango com o estrangeiro petit-pois. Tinha ele ser com guando. 

Até lá pela metade do livro Policarpo Quaresma é personagem de comédia. Encanta-se com a magnitude dos rios brasileiros e tem tanta fé na dadivosidade do solo pátria que, quando vira agricultor, se recusa a usar adubo nas plantações. Depois toma corpo um outro Quaresma, agora personagem de tragédia. O livro deve sua grandeza a essa transição. Como um herói do teatro grego, ele vai consumir-se numa luta perdida. Mas, à diferença elos heróis gregos, não é a manipulação dos deuses que o enreda na malha da danação. São as pragas bem terrenas do Brasil que tanto amou. A saúva que corrói suas plantações. O torniquete dos constrangimentos e das multas que, ao recusar-se a participar de uma fraude eleitoral, se fecha contra sua atividade de produtor rural. 

Lima Barreto (881-1922) é um ficcionista com pés muito firmes na realidade do seu tempo. Alvo preferencial de sua crítica – e de sua ira – é a política dos primeiros anos da República. Triste Fim de Policarpo Quaresma passa-se no tempo do marechal Floriano Peixoto (1891-1894) e da Revolta da Armada, o movimento que precipitou uma guerra de seis meses na Baía de Guanabara entre os rebeldes da Marinha e as forças do governo. Quaresma, que ainda acreditava em Floriano, decide alistar-se nas forças governistas. Vai fazê-lo apresentando-se pessoalmente ao presidente, a quem conhecera no tempo em que trabalhou no Ministério da Guerra. Tem a intenção de aproveitar a oportunidade para apresentar-lhe um memorial em que compendiara os problemas da agricultura. 

O Itamaraty, então palácio presidencial, tem uma atmosfera de bulício e bajulação. Floriano, que como sinal do almoço recém-terminado ainda tinha um palito na boca, atende um e outro, recebe elogios, ouve apelos de "Energia, marechal". Quando chega sua vez, depois de apresentar-se como voluntário, Quaresma começa a falar da agricultura. Floriano ouve-o com enfado. "Trouxe até este memorial", diz Quaresma. "Deixa aí", responde o presidente. Chama o próximo. É um oficial a quem precisa anotar uma ordem. Pega então do lápis e, na falta de outro papel, rasga um pedaço das primeiras páginas do manuscrito de Quaresma. 

O retrato que o livro apresenta de Floriano é arrasador. O olhar era "mortiço, redondo, pobre de expressões", próprio de uma "ausência total de qualidades intelectuais". Aquele que outros viam como o "Marechal de Ferro" possuía, segundo Lima Barreto, a "tibieza de ânimo" como traço predominante e um temperamento marcado por "muita preguiça". Ao longo da Revolta da Armada, Quaresma experimentará da rotina sem sentido dos tiros perdidos dos navios para os fortes, e vice-versa, transformados a certa altura em diversão para a população até a matança cruel que se seguirá, como vingança à derrota dos insurretos. Agora perfeito e consumado personagem de tragédia, morrerá por força da injustiça e da ferocidade dos detentores do poder, mas também dos efeitos da desilusão e da solidão de suas causas. 

O livro investe contra Floriano, os militares e o "Santo Ofício Republicano". Lima Barreto, que tinha o vezo de atalhar o relato ficcional com diatribes de editorialista, acusava o "nefasto e hipócrita positivismo", a ideologia dos militares que proclamaram a República, de um "pedantismo tirânico, limitado e estreito, que justificava todas as violências". Ele era mais um dos desencantados com a "república que não foi", como se dizia na época – a dissipação da ideia de república num mar de intolerância, de desonestidade e de mistificação. 

Releve o leitor voltar à nossa rasa vidinha de cada dia, mas é irresistível. Se ressuscitassem hoje Policarpo Quaresma e Lima Barreto, veriam que continuam os embustes com a palavra "república". Hoje temos um Partido da República. Aquele do Ministério dos Transportes.
.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Claro enigma

Roberto Pompeu de Toledo


Veja 

Duas hipóteses benignas, existentes desde que a mente humana tomou forma, conduzem a um enigma. sempre que ocorrem desastres naturais como o que assolou a Região Serrana do Rio de Janeiro. A primeira
hipótese é a de que Deus existe. A segunda, mais benigna ainda, a de que Deus, Ser Superior que é, só pode ser dotado dos mesmos atributos de delicadeza, generosidade e correção que, somados, resultam naquilo
que os homens entendem por "bondade". Se Deus existe, e se é bom, como explicar castigo como o infligido a Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis, ou antes ao Haiti, ou antes do Haiti à costa asiática dos
tsunarnis, ou muito antes ainda a Lisboa. por ocasião do devastador terremoto de 1755?

Ainda no caso de Sodoma e Gomorra, vá lá, a Bíblia explica direitinho.
Eram cidades habitadas por pecadores: logo, mereceram o castigo. Mas, no grosso das ocorrências, como explicar que sejam atingidos igualmente inocentes e culpados, virtuosos e pecadores? Voltaire, um dos vários filósofos do século XVIII impressionados com o terremoto de Lisboa, escreveu, refutando as teses ,de vingança divina: "Lisboa, que não existe mais, teria mais vícios / Que Londres ou Paris, mergulhadas nas delícias? / Lisboa está em ruínas, enquanto se dança em Paris".

Difícil, para quem busca respostas além das pedestres questões climáticas e geológicas, ou das repisadas causas políticas e sociais, atinar com uma razão para as catástrofes da natureza. No caso presente, porém, bem consultadas as estrelas e bem analisados os rastros dos pássaros, a resposta é clara: a catástrofe veio para nos lembrar de quem somos. Existem países em que casas despencam morro abaixo e países em que isso não acontece. Países em que bairros inteiros desaparecem sob a lama e países em que isso não acontece. 

Países em "que pessoas se aboletam em áreas de risco porque não têm alternativa e países em que isso não acontece. Nós pertencemos à classe de países em que casas despencam morro abaixo, bairros desaparecem sob a lama e pessoas se aboletam em áreas de risco porque não têm alternativa.

Avisos do céu são desferidos em pontualíssimos momentos. O maior desastre natural da história do Brasil deu-se na hora mesma em que se encerrava o mais enfatuado governo da história do Brasil. As porras da
prosperidade haviam sido escancaradas. A pobreza dera lugar aos prazeres do consumo. O presidente dispensara lições de governar que humilhavam todos os antecessores. O aviso "veio nos recolocar em nosso
lugar. Ou seja, o 73°, na última medição do Índice de Desenvolvimento Humano, atrás de pobretões da Europa do Leste como a Romênia, a-Sérvia e a Bulgária da família Rousseff, assim como, na vizinhança, do Chile, da Argentina, do Uruguai, do México, da Costa Rica e ate do Peru.

Sorte nossa que na apuração do IDH, além do PIE per capim, da escolaridade e da expectativa de vida, não entra o critério das casas que desabam dos morros: Se assim fosse, pior ainda seria nossa situação. A jactância ignorante e indigente do governo findo teve, nestes anos todos, o reforço externo do estratagema que, em pane por esperteza de especuladores internacionais, passou a chamar de "emergentes" os países que antes eram no máximo "em desenvolvimento", e a criar o grupo de quase potências identificado pela sigla Bric. Tal moda é fraudulenta. Ela sugere que um país possa ascender à primeira divisão sem levar junto a população. Na semana passada, foi apresentado como cúpula entre as duas maiores potências mundiais o
encontro entre os presidentes dos Estados Unidos e da China. Não. A China é apenas a segunda economia do mundo, nada mais do que isso. E a economia bruta é um pobre critério para medir o desenvolvimento dos
povos. Em IDH, critério melhor, a China vem em 89° lugar, atrás até do Brasil. Os EUA vêm em quarto. Cúpula entre eles por enquanto ainda equivale a um Flurninense x Olaria. Pelo menos, a China já alcançou a
compreensão de que não vai adiante sem trazer seu povo, e investe pesado nele. No último Pisa. a avaliação do estado da educação mundo afora, os estudantes chineses obtiveram o primeiro lugar em todas as três áreas consideradas - leitura, matemática e ciência. Já os brasileiros, entre os 65 países pesquisados, estão na rabeira nas três - 53° lugar em leitura, 57° em matemática e 53° em ciências. Os desígnios divinos que, ao longo dos séculos, se procuram decifrar, quando se desencadeia a fúria dos elementos, no caso da Serra
Fluminense são bastante claros porque não há neles nada de divino. As responsabilidades pela catástrofe se situam aqui embaixo mesmo.
.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Alívio! Nunca mais nunca antes

 Roberto Pompeu de Toledo
Veja 

Houve um tempo, raciocina o professor Ricardo Morante, em que era obrigatório fazer tudo numa grande ordem. "As coisas, por exemplo, começavam todas pelo começo e acabavam pelo fim”. O professor Morante é um personagem de ficção. Figura no romance Doutor Pasavento, do catalão Enrique Vila-Matas. O tempo em que as coisas tinham começo e fim é localizado por Morante na década de 70 - a de sua mocidade. Não lhe custou muito compreender que se tratava de uma ilusão. Não há histórias acabadas. Isso é uma invenção da literatura. "A literatura", explica Morante. "consiste em dar à trama da vida uma lógica que não existe. Na minha opinião, a vida não tem trama, nós é que a acrescentamos, quando inventamos a literatura."

As considerações de Morante ocorrem durante diálogo com o narrador do livro, o "Doutor Pasavento" do título. São ambos escritores, Morante conta que "o filme de sua vida" é Viagem à Itália, de Roberto Rossellini. E isso porque a história se abre com um diálogo que já vai avançado entre um casal (Ingrid Bergman e George Sanders). O espectador tem a impressão de ter entrado no cinema no meio da sessão. "Com essa primeira sequência", diz Morante, "creio que Rossellini estava consciente de que, já que a vida é um tecido contínuo e qualquer princípio é arbitrário, uma narração pode começar num momento qualquer, na metade de um diálogo, por exemplo."

O doutor Pasavento não só concorda como lembra que não é por outro motivo que a Literatura começa com relatos de viagem. Na Antiguidade, "não se sabia ainda o que era contar uma história, mas se sabia perfeitamente o que era uma viagem". Ela fornecia a "trama ideal", porque, "se havia uma coisa que tinha um começo e um fim, essa coisa era a viagem". Daí a Odisseia, de Homero, que conta a atormentada viagem de Ulisses de volta para casa. 

"As viagens tinham um começo e um fim. Isso punha uma ordem nas coisas se a gente quisesse contar uma história e demarcá-la de forma que começasse e terminasse."

O que vêm fazer o professor Morante e o doutor Pasavento numa coluna que costuma tratar de assuntos da atualidade? O leitor esperto já adivinhou. O diálogo entre eles vem a propósito das duas mais candentes ocorrências destes dias: o ano novo é o governo novo. O.k., é bonito e útil numerar o tempo e viver um dia como o do réveillon, com suas promessas de recomeço. Dá margem a esperanças e manifestações de generosidade. Mas a esta altura, já avançados para meados de janeiro, retomamos a consciência de que o ano novo é, e sempre foi, lima fraude. Nenhuma trama se fechou. Seus fios se estendem, inconclusos e em grande parte desconexos, ano novo adentro, sem atenção ao vão esforço, tão humano quanto andar de pé, de aprisioná-los no calendário e dar-lhes algum sentido.

Do governo novo quase se pode dizer a mesma coisa. Claro, a pessoa no comando é outra, sua formação e personalidade são outras, até seu sexo é outro. Mas, já não fosse um governo do mesmo partido, constituído em grande pane pelos mesmos integrantes do anterior, ainda resta que, no plano mais geral da história do país, nenhuma trama se findou, assim como nenhuma outra começou, mesmo porque, como diria o professor Morante, na vida real não há trama. Quem se iludia pensando o contrário era o presidente que encerrou seu mandato no último dia 31. Ele achava (e continua achando) que havia reinaugurado o Brasil. "Nunca antes neste país", foi seu bordão. Nunca antes o país conhecera um presidente capaz de igual jactância.

Se se pode adiantar algo de altamente positivo com a posse de Dilma Rousseff é que nunca mais se ouvirá o "nunca antes". Ela não poderia ousar dizê-lo sem ofender o antecessor. Ele é que reinventou o país; a ela só cabe continuar-lhe a obra. De todo modo, ela não diria mesmo. Não tem o mesmo tosco sentido da história, e deu mostra disso na passagem do discurso de posse em que afirmou que "um governo se alicerça no acúmulo de conquistas realizadas ao longo da história", e emendou que, por isso, era "justo lembrar que muitos, a seu tempo e a seu modo, deram grandes contribuições às conquistas do Brasil de hoje".

Foi uma rápida menção. Dilma conteve o recado, no qual incluiu também a noção de que governos são uma mistura entre mudança e continuidade, em 51 das 3612 palavras do discurso no Congresso. Menos que 1,5% do total. Foi breve a pomo de talvez ter driblado a atenção do antecessor e esperta a ponto de não citar nomes, para não ferir-lhe a onipotência. Não importa. A inteligência, o bom gosto e o bom-senso agradecem.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Elogio da inexistência

Roberto Pompeu de Toledo
Veja

Com o exército perfilado sob as muralhas de Paris, Carlos Magno passava em revista seus paladinos. O imperador parava o cava­lo diante de cada um e pedia que se identifi­casse. "Sou Salomon da Bretanha, sire", dizia um, levantando a viseira da armadura. "Ulivieri de Viena". dizia outro, repetindo o gesto. "Ber­nardo de Montpellier:" "Alardo de Dordona." "Na­mo da Baviera." Enfim, Carlos Magno aproximou­se de um cavaleiro de armadura toda branca, mui­to bem conservada. "Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildivemi e dos Altri de Corbenu"az e Sura", anunciou-se o cavaleiro. O imperador estranhou. O cavaleiro não levantara a viseira. Perguntou:
"Por que não mostra o rosto?". Nenhuma respos­ta. Carlos Magno insistiu: "Por que não mostra o rosto para o seu rei?". Saiu então uma voz da ar­madura: "Porque não existo, senhor".
Assim começa o romance O Cavaleiro lnexistente do italiano Italo Calvino. Agilulfo não men­tia. Triste e inapelavelmente, não existia. O imperador  pôde comprová-lo o ao enfiar o rosto viseira adentro e verificar que reinava ali o mais completo vazio. Quem julgou que a história de Agilulfo tenha sido evocada a propósito da presidente eleita Dilma Rousseff acertou. Nunca se viu neste país um(a) presidente eleito(a) tão sumido(a). Presidentes elei­tos costumam ser filmados, fotografados, persegui­dos e festejados à exaustão. Muitos viajam para o exterior, entre a eleição e a posse, e a viagem é uma sucessão de históricos encontros, poses em paisa­gens de cartão-postal, entrevistas com perguntas em vários idiomas. Já Dilma ... Refugiou-se no es­conderijo apelidado de Granja do Tono e de lá sai para raras e pontuais cerimônias em que entra mu­da e sai calada. Quando  surge o anúncio de nomea­ção de algum ministro, não é ela, mas interposta pessoa quem o faz. Na trilha do cavaleiro Agilulfo, ela é a presidente eleita inexistente.
Quem julgou, no entanto, que se evocou o ca­valeiro de Calvino para diminuir a presidente eleita do Brasil enganou-se. Qu poderia Dilma  fazer senão inexistir? Era o papel que dela se es­perava, neste entreato, o único possível, e aquele do qual pode vir até a tirar algum proveito. Em tese, o (a) presidente eleito(a) é o sol que se le­vanta; o (a) que sai, o que se põe. A glória e a es­perança próprias das auroras pertencem ao(à) primeiro(a). É a éle(ela) portanto que são devidas todas as homenagens. Ocorre que, neste caso par­ticular, a tese inverteu-se. Temos um presidente em fim de mandato que reclama para si a totalida­de das homenagens disponíveis. Até em cerimô­nia de entrega de troféus aos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro de Futebol comparece, como ocorreu na semana passada. Cansa a asses­soria com pedidos de inaugurações, incha a agen­da de cerimônias destinadas a aclamá-lo, não dá folga aos holofotes. É um pato que se recusa ter­minantemente a mancar.
Nesta circunstância, quem tem juízo que se acautele. Como desafiar um sol que, em aberto desafio às leis da astronomia, não aceita se pôr? Como celebrar o próprio triunfo se o outro não se cansa de lembrar (e com razão, embora o bom­senso e as boas maneiras recomendassem que não fosse tão efusivo a respeito) que o triunfo foi de­le? O esconderijo é a resposta mais adequada à ocasião. A arte da inexistência, o exercí­cio mais, recomendável. Acresce que Dilma é uma obra por fazer. Faltam-lhe o currículo e a biografia com que os pre­sidentes eleitos costumam chegar a essa posição. No livro de Calvino, Carlos Magno pergunta a Agilulfo como pode servir-lhe, sendo inexistente. "Com força de vontade e fé em nossa santa causa". respon­de o cavaleiro. É nesse exemplo que a presidente eleita deve espelhar-se, se um dia aspira a atingir a existência.
Outro livro, O Púcaro Bulgaro, do humoris ta brasileiro Campos de Carvalho, desenvolve-se I em tomo da dúvida sobre a existência de um país . chamado Bulgária. Um dos personagens ensina:
"O que se convencionou chamar a Bulgária é so­bretudo um estado de espírito. Como Deus, por exemplo". Outro argumenta que "o preconceito milenar de que a Bulgária não existe e nunca exis­tiu sobre a face da terra" leva a crer que ela "só possa existir sobre a face de outra coisa". Ora, se a Bulgária não existe, segue-se que não existem os búlgaros. E se não existem os búlgaros muito menos existem, por suposto. os (as) filhos(as) de búlgaros. Dado que Dilma Rousseff é (ou seria, segundo a lógica do livro) filha de pai búlgaro, temos então que ... Chega. Tem coisa aí.
.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

As razões do voto avoado

Roberto Pompeu de Toledo - Veja - 18/10/2010

O nobre parlamentar Tiririca vai desculpar o aparte, mas pior do que está fica. Um Congresso é sempre pior do que o anterior, ensinava um antecessor de Tiririca na Câmara dos Deputados chamado Ulysses Guimarães. Uma das razões para a piora gradual e segura da representação parlamentar é o modo avoado com que o eleitor deposita na urna o voto para deputado. E uma das razões para o modo avoado de votar é a coincidência das eleições parlamentares com as eleições para cargos executivos. A eleição presidencial absorve a maior parte da atenção do eleitor. A de governador vem em segundo lugar. A de senador em terceiro. Lá na rabeira, no cantinho do cérebro, vem a de deputado.

Duas objeções costumam ser levantadas contra o descolamento da eleição parlamentar da executiva. Primeira: isso provocaria uma descoincidência entre os períodos de mandato dos parlamentares e do Poder Executivo. Segunda: duplicaria o custo de produzir uma eleição. Quanto à primeira questão, uma dúvida: será que isso é ruim? Quanto à segunda, uma certeza: e quanto custam para o país Congressos da qualidade dos que nos têm cabido?

Mesmo se a eleição para deputado fosse isolada, sobraria outra razão para o voto avoado: a impossibilidade de o eleitor conhecer os candidatos, sua biografia e projetos. Em São Paulo, um total de 1.276 candidatos apresentou-se à eleição para a Câmara dos Depurados. Para a Assembleia Legislativa, apresentaram-se 1.976. É uma pequena multidão, a disputar um naco de reconhecimento do eleitorado, seja na televisão, seja na internet, seja a pé, nas ruas. Como compará-los? Como, nesse bolo sem cara nem forma, pinçar um?

A impossível escolha de um nome, entre um número desarrazoado de pretendentes, decorre do sistema em vigor no Brasil para a eleição de deputado: a eleição proporcional "uninominal". Só quatro países, além do Brasil, o adotam: Finlândia, Peru, Chile e Polônia. A maioria dos países que empregam o sistema proporcional - aquele em que a representação se faz de acordo com a proporção dos votos aos diferentes partidos - prefere a modalidade da "lista fechada", quer dizer: os partidos elaboram uma lista de candidatos e a apresentam já pronta ao eleitor. Em consequência, não se vota num candidato; vota-se no partido. A multidão de pretendentes individuais dá lugar a um duelo entre siglas. Fica mais viável fazer campanha.

No sistema brasileiro, vota-se num candidato com nome, sobrenome (ou apelido, como Tiririca) e até retrato na urna eletrônica. O eleitor pensa, com razão, que está votando naquele nome e naquele retrato, mas pode ser que não esteja. Quem em São Paulo votou em Tiririca elegeu os deputados Protógenes Queiroz (PCdoB), Vanderlei Siraque (PT) e Otoniel Lima (PRB). Isso ocorre porque as "sobras" do candidato, isto é, os votos que ultrapassam o número mínimo para um partido eleger cada representante , (o tal "quociente eleitoral"), são transferidos para a cesta de seu partido ou sua coligação. Como Tiririca, com seu mais de 1,3 milhão de votos, superou em três vezes o quociente eleitoral de 300.000 votos, contribuiu para eleger três candidatos da coligação que não o haviam atingido. Só um eleitor muito bem informado entende o sistema. A falta de compreensão é outro forte impulso ao voto avoado.

Há alternativas ao sistema brasileiro. As mais citadas são a lista fechada e o voto distrital. No distrital, o país é dividido em distritos pequenos, em número igual ao das cadeiras na Câmara, e, em cada um deles, elege um candidato. A eleição deixa de ser proporcional. É majoritária, como a do presidente ou a do governador. Quem tem mais votos está eleito. Não há sistema perfeito. Todos têm seus pontos fracos. O que está claro, depois destes anos todos, é que o adotado no Brasil é o mais imperfeito. E por que não se muda, se se sabe disso há tanto tempo, e já há tanto tempo se discute o assunto? Ora, caro (e)leitor. Porque a ideia é essa mesma. É fazer com que seu voto seja avoado.

Uma das propagandas da candidata Dilma Rousseff na televisão mostra, com apoio de gráficos, a maioria folgada que ela terá no Congresso. Primeira constatação a respeito: é verdade. Segunda: é irrelevante. Ou alguém imagina que, caso o vencedor seja José Serra, o senador Jucá lhe fará oposição? O senador Calheiros? A grande maioria dos deputados da coligação governista eleitos por outros partidos que não o PT? Se é assim, ou seja, se o Congresso é avoado, por que o eleitor não o seria?
.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O dia seguinte

Roberto Pompeu de Toledo - Veja - 04/10/2010

Um mistério ronda a sucessão presidencial no Brasil. Não, não se trata de saber o que vai fazer o novo presidente. Trata-se de saber o que vai fazer o ex-presidente. Haverá, para o presidente Lula, existência possível sem os comícios, as inaugurações, os discursos na ONU, as viagens de chefe de estado? Sem o exército de assessores, os ministros, as ordens para as lideranças no Congresso? Ele sobreviverá à subtração dessa exclusividade da Presidência que é o permanente foco dos holofotes? Haverá a possibilidade de, sem graves danos psicológicos, aceitar a transição para a vida no apartamento de São Bernardo? Jamais um presidente chegou ao fim do mandato com tanta energia para gastar.

Falta ao Brasil o instituto da Ex-Presidência. Copiamos dos Estados Unidos o instituto da Presidência. Recentemente, chegamos ainda mais perto do modelo ao instituir a reeleição. Esquecemos de copiar o instituto da Ex-Presidência. Este tem sua base na proibição de o presidente concorrer uma terceira vez ao cargo. Elegeu-se e reelegeu-se, acabou. Não lhe sobra a possibilidade de, passados quatro anos, voltar a candidatar-se. Dada essa premissa, o costume fez o resto. Cabe ao ex-presidente o papel de político aposentado, por isso mesmo de estadista acima do bem e do mal, chamado eventualmente para missões internacionais ou para dar palpites em momentos críticos, e de resto dedicado às conferências, ao livro de memórias e à gestão de sua “Biblioteca”, como é conhecida por lá a instituição que cuidará dos papéis, das fotos, dos filmes e das tralhas diversas que lhe documentam o período presidencial.

No Brasil, a possibilidade de voltar a candidatar-se joga a aposentadoria para seus limites biológicos. Um presidente que deixa o cargo bem avaliado descerá da cadeira candidato à volta. Juscelino Kubitschek entregou a Presidência com a campanha “JK 65” (o ano no qual haveria novas eleições, não fosse o que se sabe) já no ar. Presidentes de menor estatura, como José Sarney e Itamar Franco, continuaram ciscando pelas bordas, no Senado ou nos governos estaduais. Fernando Henrique Cardoso é o único que se enquadrou no bom modelo americano: foi cuidar das conferências e de seu instituto, calcado no exemplo das “Bibliotecas” dos americanos.

Lula é um caso especialíssimo. Há precedentes de presidentes bem avaliados ao fim do mandato, mas não com 80% de aprovação. Há casos de presidentes que se envolveram na campanha para eleger o sucessor, mas não no mesmo nível. Já houve presidentes embevecidos com os próprios méritos, mas não inebriados. Ele completa o mandato como um bólido sem freios. A resposta às perguntas formuladas no início deste artigo é não. Não se concebe Lula entregue à paz de São Bernardo. Se ganha a oposição, dá para adivinhar seu roteiro de conduta: no dia seguinte volta aos comícios e caravanas, já instituído em candidato à próxima eleição. Ganhando sua candidata, abre-se um mar de dúvidas, decorrentes de nunca se ter visto um ex-presidente com tanto potencial (talvez tantas ganas) de atuar no governo seguinte.

As dúvidas começam pelo local que escolherá como base e evoluem para os modos de atuação. Montará ele um gabinete em São Bernardo? Em São Paulo? Brasília? Com que staff, em quantidade e qualidade? Participará de reuniões no governo? Dará algum conteúdo à sua antiga condição de presidente de honra do PT? Pretenderá fazer-se articulador da coligação governamental? Postulará missões de política externa? Essas interrogações têm, todas, implicações na futura relação entre o ex-presidente e a sucessora. A condição de subalterna que Dilma Rousseff aceitou, e nem tinha como deixar de aceitar, ao longo da campanha, não poderá ser mantida sem prejuízo de seu prestígio, de sua autoestima e da envergadura que se espera de um presidente.

Sobram para Dilma, por isso, pesados desafios. Como permitir a interferência do antecessor sem dar a impressão de ser conduzida por ele? Como repeli-la, sem magoá-lo? Como conciliar a afirmação no mais alto cargo com a existência de um patrono que é também potencial candidato à sua sucessão? Como evitar a fragilizadora impressão de estar apenas preservando a cadeira para devolvê-la ao legítimo proprietário? No limite, como equilibrar-se em meio a armadilhas diversas sem romper com o antecessor? E, rompendo, como tantas vezes já ocorreu entre criador e criatura, na política brasileira, como levar a cabo seu governo? O mistério que ronda a sucessão deita sombras sobre uma relação entre sucessor e sucedida potencialmente delicada como nunca se viu na história da Presidência.

GEOMAPS


celulares

ClustMaps