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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O desgoverno do mundo


Os Brics são unânimes em querer mais poder no FMI, mas não são harmoniosos na questão agrícola na OMC
21/06/09

Rubens Ricupero

"COMO EXPLICAR a desordem do mundo?", a frase de Gustavo Corção foi um dos temas que o embaixador João Guimarães Rosa nos propôs no exame de ingresso ao Itamaraty meio século atrás, em 1958. A desordem, a ausência de autoridade central, aprendi mais tarde, caracterizava o sistema internacional, o que um clássico da disciplina, Hedley Bull, intitulou "A Sociedade Anárquica".

Por um par de anos após o fim da URSS criou-se a falsa impressão de que algum tipo de "ordem" podia ser imposta pelo poder unilateral dos Estados Unidos. Contudo, a somatória do desastre do Iraque, do colapso da ordem econômica e do fracasso em liquidar o terrorismo marcou os limites do poder norte-americano.

Obama herdou poder debilitado por muitos golpes simultâneos. O ponto de partida de sua estratégia é uma posição de fraqueza, talvez temporária: a necessidade de reconstruir o poder e a vontade.

Enquanto a tarefa não se conclui, a última coisa que deseja é envolver-se em nível mais grave de conflito com a Coreia do Norte e o Irã. Ou tomar iniciativa internacional que exija engajar as reservas de poder que lhe restam. Não é apenas por livre opção e convicção idealista que o novo governo se mostra amistoso, conciliador, multilateralista, modesto em deixar a outros o centro do palco. É também porque precisa "fazer da necessidade uma virtude". Esse semivácuo de poder favorece a ressurreição de agrupamentos desejosos de ocupar espaço: G7, G8, G20, Brics etc.

O que todos eles pretendem é contribuir para o que se chama de "governança" do mundo. Não é que o mundo careça de governo ou leis, embora imperfeitas e incipientes. O que seriam o sistema das Nações Unidas, com a ONU propriamente dita, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio (OMC), os organismos especializados, suas constituições, convenções, tratados?

A questão é que essas organizações são vistas como ingovernáveis, incapazes de tomar decisões efetivas pelo tamanho (a Assembleia Geral da ONU tem 193 membros) ou pelo caráter não representativo de órgãos como o Conselho de Segurança.

Tenta-se assim escapar para grupos menores, supostamente coesos, onde se definiriam consensos a serem convertidos em decisões nas instituições competentes. É como se, diante da disfuncionalidade do nosso Congresso, decidíssemos partir para grupos pequenos de governadores ou partidos poderosos, a fim de resolver impasses na reforma tributária ou previdenciária. Estou vendo daqui o sorriso de ceticismo de nossos leitores. O que ele me diz é que o problema maior não está tanto nos defeitos de desenho e funcionamento do Congresso, apesar de numerosos, mas nas divergências profundas sobre a própria substância das matérias.

O mesmo ocorre na vida internacional. É isso que explica porque viram letra morta os compromissos do G-20 para concluir a Rodada Doha de comércio ou evitar o protecionismo. Ou porque o G7 se desmoralizou após décadas de fiasco em coordenar os mais ricos acerca de medidas para evitar crises econômicas, ajudar a África ou concordar sobre a invasão do Iraque. Não se pense que será diferente com os Brics, unânimes em querer mais poder no FMI, mas não tão harmoniosos em agricultura na OMC, no ingresso da Índia e do Brasil no Conselho de Segurança ou em utilizar o foro para abrir o mercado russo à carne suína do Brasil.

Minha história de 1964

Minha história de 1964

Além de Marcos Sá Correa, autor do furo jornalístico da operação "Brother Sam", devo ser dos raros brasileiros que queimaram pestanas sobre os documentos secretos da Biblioteca Lyndon Johnson, em Austin, Texas.
31/03/2014

Rubens Ricupero

Além de Marcos Sá Correa, autor do furo jornalístico da operação "Brother Sam", devo ser dos raros brasileiros que queimaram pestanas sobre os documentos secretos da Biblioteca Lyndon Johnson, em Austin, Texas. Na época, em 1975, eu era conselheiro da embaixada do Brasil em Washington (EUA). 

Naquele clima de tímida abertura do general Geisel e incipiente relaxamento da censura, estourara como bomba a revelação, pelo "Jornal do Brasil", de que o governo americano tinha preparado um plano de contingência para apoiar logisticamente os militares rebeldes, caso houvesse luta prolongada em abril de 1964. 

Dias depois da publicação, recebi instruções sigilosas para verificar em Austin o que mais continha de comprometedor o arquivo secreto do presidente Johnson. Como a parte espetacular já havia sido divulgada pelo jornal, concentrei-me nos meses de preparação do golpe e, sobretudo, na colaboração que se seguiu. 

Despachei ao Itamaraty quilos de documentos. Até hoje não sei se alguém chegou a ler a maçaroca ou se os papéis se juntaram ao mar morto de arquivos nunca lidos. 

O que me impressionou de saída foi a intimidade que se criou entre funcionários americanos chefiados pelo embaixador Lincoln Gordon e a equipe tecnocrática incumbida de planejar o governo Castelo Branco, dirigida por Roberto Campos. 

Os EUA estavam de fato empenhados em converter o Brasil numa espécie de vitrina de sucesso da experiência anticomunista inspirada nos melhores padrões das instituições ianques. 

Talvez tenha sido uma das primeiras tentativas de "nation building", de engenharia social para reconstruir um país desde zero. Chegava-se à ingenuidade de discutir em telegrama qual seria o salário das professoras primárias! 

Os americanos de então não se pareciam aos trogloditas da era Reagan ou de Bush filho. Remanescentes da Presidência Kennedy, crentes na Aliança para o Progresso, partilhavam com Johnson a fé no ativismo social das leis contra a segregação, dos programas de saúde e assistência aos pobres da "Great Society." 

Mas eram soldados da Guerra Fria, dispostos a pagar, nas fatídicas palavras de Kennedy, qualquer preço e confrontar qualquer adversário para assegurar a liberdade. 

Na sua "História da Guerra Fria", André Fontaine vê no golpe brasileiro a primeira manifestação de uma tendência: o apoio dos EUA a movimentos armados contra governos simpáticos à União Soviética. 

Logo depois da derrubada de Goulart, ocorreria o incidente do Golfo de Tonquim, começo da trágica escalada da Guerra do Vietnã. No ano seguinte, a intervenção na República Dominicana, o golpe contra Ben Bella na Argélia e o massacre de 300 mil comunistas na Indonésia dariam sequência à série, que culminaria no golpe argentino de 1966 e no dos coronéis gregos de 1967. 

Não foram os americanos que provocaram a polarização e a radicalização da sociedade brasileira. Quis, porém, a fatalidade que coincidisse com o acirramento do conflito ideológico mundial um fenômeno nacional que, em condições diversas, talvez não nos tivesse feito perder 20 anos de democracia.
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O refundador da diplomacia


Rubens Ricupero

Quando se detectam laivos de arrogância no Brasil, convém voltar ao exemplo do barão do Rio Branco


A maior contribuição de Rio Branco não foi haver assegurado ao Brasil 900.000 km² de território. Foi obter esse resultado sem disparar um tiro, imprimindo à diplomacia brasileira duradouro caráter pacífico.

Se estamos prestes a completar 142 anos de paz ininterrupta com dez vizinhos (que já foram 11), isso se deve à maneira pela qual se processou a definição do patrimônio territorial.

O ato fundador da política externa de um país é traçar no terreno o espaço da soberania. Quando a definição se faz por conquista e guerra, a herança de rancor e antagonismo perdura às vezes para sempre. Países de passado imperial como a Rússia são condenados a viver quase em permanente estado de tensão e beligerância em relação aos seus vizinhos.

Rio Branco morreu em 10 de fevereiro de 1912, um século atrás. Tinha apenas 20 anos quando começou a Guerra do Paraguai, conflito sobre o qual escreveu extensamente. Compreendeu então que "o recurso à guerra é sempre desgraçado". Da mesma forma que o barão de Cotegipe, poderia ter exclamado: "Maldita guerra! Vai nos atrasar 50 anos!".

Embora o Brasil tivesse saído vencedor, a guerra foi interminável e cruenta, deixando sequelas como a "questão militar", que enfraqueceram a monarquia e acabaram por levá-la à ruína. Seu impacto sobre a geração de Rio Branco e Joaquim Nabuco explica a opção que fizeram pela diplomacia e pelo direito para resolver conflitos.

Rio Branco desejava um Brasil forte e capaz de se defender de agressões. Não partilhava, porém, do fascínio pela força de seus contemporâneos -Bismarck, Theodore Roosevelt-, que conduziria à catástrofe da Primeira Guerra Mundial dois anos após sua morte. Embora valorizasse a herança da diplomacia do Império, considerava encerrada a orientação que, desde 1850, levara o país a envolver-se em sucessivos conflitos no Prata.

Foi o refundador e, a rigor, o criador da política externa contemporânea, ao modernizar o Itamaraty e deslocar o eixo da diplomacia de Londres para Washington, o centro do poder emergente da época. Soube usar a influência dos EUA em favor dos interesses brasileiros.

Antecipou o que hoje se chama de poder inteligente ("smart power") ao empregar a erudição histórica para triunfar nas arbitragens. Em outros casos, como o do Acre, mostrou-se mestre do moderno conceito de poder brando ("soft power") ao dosar concessões, trocas de território e compensações financeiras para evitar guerra de conquista. Liquidados os contenciosos de limites, pôde lançar as bases da unidade sul-americana com o Pacto do ABC (Argentina, Brasil e Chile).

No momento em que se começa às vezes a detectar no comportamento brasileiro laivos de recém-adquirida arrogância, convém voltar ao exemplo de equilíbrio e moderação do barão. Comentando a possibilidade de que países latino-americanos pudessem ceder à loucura das hegemonias e da prepotência, dizia ele que o Brasil do futuro continuaria a confiar na força do direito. E saberia conquistar "pela sua cordura, desinteresse e amor da Justiça a consideração e o afeto dos povos vizinhos, em cuja vida interna se absterá de intervir".
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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Corrupção e declínio

O embaixador Ricupero faz uma importante e esclarecedora radiografia dos efeitos da corrupção em todos os níveis governamentais.
Cabe, como sempre, a sociedade buscar por intermédio de informação e participação, corrigir esse mal pelo voto.
Ademais, ele é um intelectual, um erudito cuja produção intelectual vale a pena ler sempre.




Corrupção e declínio
RUBENS RICUPERO
FOLHA DE SP




Temos problemas parecidos aos italianos, mas a agenda brasileira é ditada por queda de ministros e escândalos
Ao contrário do que sustentam alguns politicólogos, a corrupção inseparável do presidencialismo de coalizão praticado no Brasil acabará por gerar crises crescentes de governabilidade até ocasionar o declínio da economia e a destruição do regime político. Os que se fixam apenas nas maiorias legislativas não enxergam dois fatores que solapam o sistema na raiz.

O primeiro é a destruição da confiança, base, como ensinava Bobbio, da democracia. O fenômeno já abarca entre nós quase a totalidade da opinião pública informada. Ninguém mais acredita que partidos e candidatos tenham outro objetivo que não seja o enriquecimento rápido e ilícito. No limite, a perda de confiança conduz a explosões de cólera conforme vem ocorrendo nos países árabes, onde a causa principal da revolta das multidões é o protesto contra a injustiça e a corrupção dos governantes. Em nossa história esse sentimento desempenhou papel crucial na mobilização da classe média nas crises do suicídio de Vargas, da eleição de Jânio, do impedimento de Collor, e, ao lado do anticomunismo, do golpe de 1964. O governo se felicita com razão da expansão dos setores médios e sua transformação em maioria, mas deveria lembrar que o comportamento político da classe média se caracteriza pela intolerância ante a corrupção. À medida que o setor se expande, essa intolerância só tende a aumentar.

O segundo fator subestimado é o preço crescente, em termos econômicos, dos arreglos com partidos. Argumenta-se que o dinheiro envolvido na corrupção é insignificante comparado ao tamanho da economia. Pode ser verdade em relação às somas do suborno e da extorsão. O problema está no custo astronômico da multiplicação de ministérios inúteis, cargos supérfluos, perda de eficiência, irracionalidade na aplicação de recursos, incompetência na escolha e gestão de projetos dos quais são exemplos o trem bala e Belo Monte. E o custo das reformas que não se fazem porque mexem com os interesses dos partidos da coalizão? No início dos 1970 o setor público poupava 6% do PIB, parte do qual investido em infraestrutura de energia e transportes. Hoje, o governo é deficitário e não consegue investir. Quanto dessa perda se deve ao custo político da coalizão? Por que um presidente como Lula nem sequer tentou propor a reforma da estrutura sindical herdada do corporativismo fascista apesar de ser uma das bandeiras históricas do seu partido?

Por décadas a Itália foi também governada por coalizões corruptas e ineficazes. Não tem importância, alegava-se, pois o dinamismo e a inovação das pequenas empresas garantiam o crescimento. A ilusão se desfez quando o fim do regime terminou esclerosando a economia. Em grau distinto, alguns de nossos problemas se parecem aos italianos: crescimento lento, investimento baixo, incapacidade de aumentar produtividade e competitividade, aposentadorias precoces. Política doente contagia a economia. O sintoma de nossa doença é que, em vez de ser dominada por essas questões, a agenda brasileira é ditada semana após semana pelos escândalos de corrupção e a queda de ministros.

Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda no governo Itamar Franco.
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terça-feira, 19 de julho de 2011

Sinfonia inacabada

Sinfonia inacabada
 GAZETA DO POVO

O que está acontecendo com o mundo? Uma espécie de reprise do Anjo Exterminador de Buñuel
(Rubens Ricupero*) 

O panorama mundial lembra o que diziam de Mahler as línguas ferinas de Viena: que ele não sabia como terminar uma sinfonia. Toda a vez que a orquestra dava a impressão de atingir o clímax, a música recomeçava do zero.

Se olharmos para o mundo ao redor é um pouco isso o que vemos. Nos EUA a crise brinca de criar falsas esperanças: a recuperação do emprego e o aumento de produção de um mês são desmentidos no seguinte. Na Europa a alternância de quebra-não quebra refaz o tempo todo o percurso circular Irlanda-Grécia-Portugal, com a Espanha esperando o turno.

Na diplomacia de Obama dois problemas foram no início separados do resto para serem confiados a mediadores experientes e consagrados: o de Israel e os palestinos, a George Mitchell e o Paquistão-Afeganistão a Richard Holbrooke. Dois anos e meio depois, Mitchell renunciou, Holbrooke morreu e ambos os problemas estão piores do que antes. As duas guerras herdadas de Bush não tiveram melhor sorte.

A retirada no Iraque e no Afeganistão não deve enganar ninguém. No fundo corresponde ao conselho que o jornalista francês Bernard Fall deu aos americanos no Vietnã: “Declarem vitória e caiam fora”.

A “Primavera Árabe” é a mesma coisa: não consegue desabrochar em verão. No Egito ninguém sabe se os militares deixarão o poder; no Bahrein e no Golfo, a democratização foi firmemente contida.

No Iêmen, na Síria, na Líbia, os governos resistem com graus distintos de êxito. Nem a operação militar da Otan contra Gaddafi logrou superar a indecisão. O que está acontecendo com o mundo? Uma espécie de reprise do Anjo Exterminador de Buñuel, na qual invisível maldição impede os convivas de deixarem a casa? Uma “paz dos cemitérios” como o aparente triunfo da reação sobre as revoluções de 1848, que apenas escondia o lento apodrecimento dos antigos regimes?

As razões são provavelmente tão diversas e complexas como os próprios problemas. Contudo não é arriscado afirmar que a mediocridade das lideranças mundiais e as profundas divisões dentro dos países explicam muito da paralisia atual. Não se diga que a culpa é da crise financeira. A década de 1930 foi muito pior, o que não anulou lideranças fortes e resolutas para o bem e para o mal.

Uma dessas lideranças decisivas era a do ex-diretor do FMI, Strauss-Kahn. Os que o viram atuar descrevem como se substituía aos líderes nacionais a fim de coordenar não só a sempre dividida União Europeia, mas até o governo alemão!

Sem lideranças convictas, não saem do lugar negociações vitais das quais depende o futuro do mundo: mudança climática, a Rodada Doha de comércio, a guerra das moedas. Quem acredita ainda na expectativa despertada pelo G20?

Inaugurado em meio a entusiasmo mágico, o destino de Obama é fiel espelho da situação geral. Tendo perdido a iniciativa estratégica, o governo contrasta com implacável oposição de demagogos e lunáticos de direita. Nunca foi tão verdadeira a descrição do poema de Yeats: os melhores carecem de qualquer convicção ao passo que os piores estão cheios de passional intensidade. Não é, convenhamos, receita adequada para permitir revigorar uma posição de liderança.

*Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda no governo Itamar Franco.
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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Suicídio da agricultura


Os últimos meses tem apresentado assuntos voltados para a agricultura no mundo, notadamente quanto à dificuldade em se produzir para atender às crescentes demandas das classes sociais que estão emergindo nos BRICs.

Nossa chance para desenvolvimento em uma sociedade com baixo índice de aproveitamento escolar e de formação.

O tema requer acompanhamento constante.





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RUBENS RICUPERO
FOLHA DE SÃO PAULO

Excelente desempenho da atividade econômica só vai se sustentar se o Brasil encontrar uma solução para os desafios do ambiente
Se a agricultura brasileira não conseguir sustentar a impressionante trajetória das últimas décadas, será devido à incapacidade de resolver com inteligência o desafio do meio ambiente. 
Talvez não haja na história econômica do Brasil nenhum exemplo tão indiscutível de transformação de eficiência e produtividade como na agropecuária. Essa modernização só se tornou possível graças à pesquisa tecnológica, que erradicou o pessimismo sobre a agricultura tropical. 
A tecnologia, afirma-se, permitiria expandir a produção sem devastar mais a floresta e o cerrado que restam. Os 70 milhões de hectares de pastagens degradadas poderiam servir de reserva à expansão agrícola ou florestal. 
Em teoria, tudo isso é verdade. Na prática, o que se vê é pouco. Sinais positivos como o aumento de produção em proporção maior do que a expansão da área plantada são largamente compensados pela destruição. De forma inexorável, a fronteira agrícola avança rumo ao coração da floresta amazônica. 
O choque da devastação em Mato Grosso estimulada pelo projeto de lei aprovado na Câmara provocou a mobilização do governo em verdadeira operação de guerra. O resultado foi pífio: a destruição apenas se reduziu marginalmente.
Essa mesma desproporção entre esforços de preservação e resultados precários, geralmente revertidos logo depois, caracteriza o panorama de desolação em todas as regiões e em todos os biomas: mata atlântica, caatinga, Amazônia, cerrado, árvores de Carajás convertidas em carvão para o ferro-gusa. 
As entidades do agro protestam que suas intenções são progressistas. Contudo o comportamento de parte considerável de seus representados desmente as proclamações. Mesmo em Estado avançado como São Paulo e lavoura rentável como a da cana, quantos recuperaram as matas ciliares de rios e nascentes? 
Tem-se a impressão de reeditar o debate sobre o fim da escravatura. Todos eram a favor, mas a unanimidade não passava de ilusão. 
É fácil concordar sobre os fins; o problema é estar de acordo sobre os meios e os prazos. Sempre que se falava em datas, a maioria desconversava: o país não estava preparado, era preciso esperar por futuro incerto e distante. 
Em 1847, um agricultor esclarecido, o barão de Pati de Alferes, se escandalizava com a aniquilação da mata atlântica no manual prático que escreveu sobre como implantar uma fazenda de café: "Ela mete dó e faz cair o coração aos pés daqueles que estendem suas vistas à posteridade e olham para o futuro que espera seus sucessores". 
De nada adiantou: o café acabou devido à destruição dos solos. A joia da economia imperial deu lugar às cidades mortas fluminenses e paulistas. Não foi só naquela época. No auge da pecuária no vale do rio Doce, como lembra o ex-ministro José Carlos Carvalho, um hectare sustentava 2,8 cabeças de gado; hoje, mal chega a 0,6!
Produto do passado da erosão e da secagem das nascentes, o processo agora se acelera por obra do aquecimento global, que atingirá mais cedo e mais fortemente áreas tropicais como o Brasil. Sem compatibilização entre produção e ambiente, o destino da agricultura será o do suicídio dos fazendeiros fluminenses e do rio Doce.
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quarta-feira, 18 de maio de 2011

A volta da igualdade

Somos um país muito rico, contudo mal administrado não só pelo governo central como todos os entes federados divididos em 26 estados e 5640 municípios.


Acredito que o cerne da questão seja um lugar comum extremamente repetido ao longo dos últimos 30 anos nos quais o cidadão teve, paulatinamente, um aumento substancial de sua consciência social, ainda que mostrando-se incipiente. Trata-se de Educação. A propósito da última estapafúrdia ação de uma minoria ideológica incrustrada no governo, precisamos tornar o cidadão, em ações que vão muito além das salas de aula, conscientes de seu potencial.


A propósito do abaixo exposto, ainda, o governo Lula, nos últimos oito anos, não fugiu à regra que tanto criticou quando era oposição:  os bancos sob seu governo, saíram mais ricos e mais poderosos.


Se a sociedade mantiver-se em constante abulia intelectual, não teremos, com toda nossa riqueza, condições de avançarmos ao primeiro mundo.






A volta da igualdade
RUBENS RICUPERO
FOLHA DE SÃO PAULO

Só ela poderá restituir às sociedades ocidentais os valores afogados no naufrágio das finanças globais

O debate político sobre a igualdade está se reatualizando em quase toda a parte menos no Brasil. A causa principal é a perversidade da crise financeira. Desde 1980, com a cumplicidade dos governos Reagan e Thatcher, os financistas elevaram a desigualdade a níveis estratosféricos nos EUA e na Inglaterra.

Quando a crise desabou, os banqueiros saíram mais ricos do que nunca e cobraram das vítimas a conta da destruição.

Não admira que, abandonadas pelos governos que deveriam defendê-las, as massas desempregadas e empobrecidas engrossem a direita delirante nos Estados Unidos e xenófoba na Europa.

Talvez o único efeito benéfico dessa colossal injustiça seja o renascimento do debate sobre a igualdade. Livros e estudos originais alimentam a discussão e fornecem base para arrependimentos que se multiplicam entre os socialistas europeus. O exemplo mais espetacular foi o do New Labour, de Tony Blair, que acaba de suprimir o New do seu endereço eletrônico.

Repudia, desse modo, a indiferença diante da desigualdade, uma das marcas da chamada 'revolução' de Blair. Um dos coautores do manifesto ideológico do então líder trabalhista chegou a declarar em 1998 que o partido se sentia à vontade com a ideia de que alguns sejam imundamente ('filthy') ricos, desde que paguem impostos!

Na tentativa de reencontrar o compasso moral e readquirir a razão de existir, os partidos progressistas passaram a tomar a sério a possibilidade de recuperar a paixão pela igualdade. Apanágio dos escandinavos e mito criador, essa paixão e somente ela poderá restituir às sociedades ocidentais o senso dos valores afogado no naufrágio das finanças globais.

Tenciono examinar em alguns artigos as obras que merecem divulgação entre nós, mas antes gostaria de registrar a estranha ausência de tendência similar no Brasil. Não é que nos tenhamos tornado alheios à desigualdade brasileira que tanto nos angustiou e envergonhou até data recente.

O motivo será até de boa índole: estonteados pela glorificação dos incipientes resultados colhidos na redução da pobreza e da desigualdade, muitos são levados a crer que o problema está resolvido ou em vias de solução.

Cabe, portanto, precisar melhor as coisas. Os ganhos são reais, significativos e visíveis: redução da pobreza absoluta de 34% e da extrema em 50% em menos de 15 anos.

O problema é que se parte de tão baixo _o critério da pobreza absoluta é menos da metade do salário mínimo e o da extrema, menos de um quarto_ que as conquistas são muito insuficientes. O mesmo ocorre com a desigualdade, com declínio médio anual de 1,2%, o que coloca o Brasil entre os 16 países de maior redução. Nesse ritmo, no entanto, levaremos mais de 25 anos para chegar ao índice dos americanos!

No aniversário da Abolição não se pode deixar de sentir alegria com a notícia de que os auto-declarados pretos avançaram 43% na renda e os pardos 48,5% na década passada, contra 20% dos brancos, segundo o estudo 'Desigualdade de Renda na Década' da FGV (www.fgv.br/cps/dd).

Não é razão, porém, para alimentar a auto-complacência, pois muito resta a fazer como indica o debate mundial que pretendo cobrir nesta série.
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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Visões sobre o Brasil

por Lucas Toyama  
Canal Rh

Ele tem uma visão privilegiada do Brasil. Olhares múltiplos de quem esteve no governo, quando foi ministro do Meio Ambiente (1993-94) e da Fazenda (1994), de quem já assumiu postos importantes de organizações internacionais, como a Secretaria Geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) e a Subsecretaria Geral da ONU, e de quem mantém o vigor analítico junto com uma moçada cheia de gás, atualmente, o embaixador Rubens Ricupero é diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap).

Talvez tantas experiências distintas tenham possibilitado a Ricupero fazer leituras assertivas – e críticas – do Brasil ontem, hoje e do futuro. Ele enxerga o progresso vivenciado pelo Brasil nos últimos tempos, mas é parcimonioso quanto à euforia ufanista que toma conta de discursos acalorados e cheios de empolgação. Está confiante com o novo governo, mas afirma ser ainda muito cedo para analisá-lo, justamente pela sua incipiência. Cordial e de fala mansa, ele gosta de discorrer sobre este País que vem ajudando a construir e para o qual prepara futuros profissionais. Confira a entrevista concedida ao Canal Rh em revista.

Canal Rh: Como o senhor avalia o momento do Brasil em termos econômicos??
Rubens Ricupero: No geral, estamos vivendo um momento positivo, que vem num crescente desde que voltamos à democracia, há 26 anos. A participação de todos no processo democrático criou estabilidade, um cenário político favorável, com alternância de partidos. Tudo isso faz com que tenhamos conceitos macroeconômicos bem definidos, com uma solidez jamais vista.

Canal Rh: Esta bonança econômica já foi mais evidente?
Ricupero: Sim. Vejo algumas nuvens. Nos dois últimos anos, sobretudo no último, houve um exagero no estímulo à economia, com intuito eleitoral. Agora, precisamos lidar com a inflação em crescimento. Outro ponto complicado são os altos gastos públicos, com o déficit em conta corrente aumentando de forma assustadora.

Canal Rh: Diante desse cenário, o que esperar do novo governo?
Ricupero: O governo de Dilma, ainda muito incipiente, fez alguns anúncios pertinentes, sobretudo aqueles relacionados ao corte de gastos, ao aumento não exagerado do salário mínimo. A orientação está correta. Todavia, ainda está muito no início e até agora não se sabe como esses cortes serão efetuados, como vão acontecer.

Canal Rh: O Brasil está mesmo no centro das atenções mundiais ou há certa euforia ufanista nisso tudo?
Ricupero: Há uma precipitação. É verdade que a situação melhorou, mas ela ainda é muito recente. Tenho acentuado que só se pode felicitar um país por ter mudado de patamar quando o crescimento econômico aliado a avanços sociais forem uma realidade por 25, 30 anos, como acontece com a Coreia do Sul. Na América Latina, o único país nessas condições é o Chile. Os demais são países de comportamento irregular e não contam com políticas públicas de qualidade, tais quais às chilenas.

Canal Rh: Mas os avanços no Brasil são inegáveis...
Ricupero: Sim, sem dúvidas. Mas me dá a impressão de que vamos conforme o vento. Estamos bem porque nos últimos anos, com exceção da crise recente, o mundo estava em situação favorável. Nunca houve tanta demanda por commodities. Mas, se as condições mudarem amanhã, não vamos sustentar esse cenário positivo. Há muito gasto. Mesmo num cenário de sonho em matéria de commodities, o Brasil não evitou
déficit em conta corrente. Isso mostra que a qualidade das políticas públicas deixa a desejar. Portanto, esse alarde todo em cima do Brasil
é exagerado.

Canal Rh: A relação preservação ambiental e desenvolvimento econômico no Brasil está equilibrada?
Ricupero: De maneira alguma. Eu me preocupo muito com o atual governo em relação a esse assunto. Quando foi ministra da Energia e depois da Casa Civil, a atual presidente dava mais primazia aos grandes projetos do que aos impactos ambientais. Concordo com a ideia de que é preciso agilizar procedimentos de licença ambiental, mas isso não quer dizer tapar os olhos para essa questão tão importante. No futuro, podemos ter uma catástrofe no pré- sal, porque a profundidade da perfuração é enorme. Não vejo também nenhuma exposição de uma política ambiental nova ou coerente. Não vi nenhuma ideia interessante, e isso me preocupa.

Canal Rh: Quais os principais desafios de Dilma?
Ricupero: São aqueles mesmos que ela tem enfatizado: educação, saúde e segurança. O ensino público tem mostrado melhorias, mas precisa de tempo para amadurecer. Já em relação à saúde, temos um novo ministro e precisamos observar como ele vai enfrentar os grandes problemas da área, passando, inclusive, pela questão do saneamento. Quanto à segurança, também é difícil saber, porque tudo é recente demais. Mas se percebe que há boas intenções. Com os fins todo o mundo concorda. O problema é se eles chegarão aos fins e como farão isso.

Canal Rh: A infraestrutura pode prejudicar a competitividade brasileira?
Ricupero: Sem dúvida. É um dos problemas mais graves. Investimos muito pouco em infraestrutura. Hoje, estamos investindo menos de 2% do PIB. Nos anos 1970, no final das grandes empreitadas, o Brasil investia mais de 5% do PIB. Seja energia para indústria, seja o transporte para as commodities, tudo isso encarece nosso produto. Veja a soja: quando ela chega ao porto já perdeu a vantagem porque o custo de transporte e de operação é muito alto.

Canal Rh: A educação tem melhorado, mas a qualificação da mão de obra é um entrave hoje, não?
Ricupero: Sim. Mão de obra não qualificada, hoje, é um dos grandes problemas daqui. Mas esse gargalo é resultado de carência de muito tempo.

Canal Rh: E a iniciativa privada paga essa conta?
Ricupero: Às vezes, sim. Há vários exemplos concretos. A Odebrecht, em Rondônia, para a construção da Usina Santo Antônio, fez um treinamento para milhares de locais que estão na obra, em vez de importar trabalhadores de outras regiões. A Petrobras já anunciou que, para poder explorar os reservatórios pré-sal, vai ter de, nos próximos anos, treinar mais de 250 mil pessoas em diversos níveis. Mas não tem outro jeito. A necessidade faz isso.

Canal Rh: Mas a impressão, hoje, no Brasil, é a de que se compram carro e geladeira, mas pouco se estuda. Esse modelo consumista é sustentável?
Ricupero: Eu recolocaria essa afirmação. Há, sim, uma tendência consumista, mas noto também muita gente se dando conta de que a possibilidade de ter êxito na vida e ter emprego está ligada à educação e ao aprimoramento constante. Antes, essa não era uma questão central e, agora, é. Isso faz toda a diferença.
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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aniversários desconfortáveis


RUBENS RICUPERO

FOLHA DE SÃO PAULO

A Itália comemora os 150 anos da reunificação de forma tímida; sem o país, mundo seria mais apagado

"HÁ VITÓRIAS que não se devem comemorar", sentenciava o barão do Rio Branco. Entre elas talvez estejam efemérides desconfortáveis por obrigarem a comparações melancólicas entre o sonho e sua frustrante realização, como os 150 anos da unificação alemã e italiana.
Os alemães até que encontraram uma saída. Festejam os 20 anos da reunificação, data respeitável. Com isso, podem esquecer a proclamação na Galeria dos Espelhos de Versalhes do Segundo Reich, de infausta memória (18/1/1871).
Para não falar no infame Terceiro Reich, o mais abominável Estado da história em termos da morte e do sofrimento que levou a dezenas de milhões de pessoas no mundo inteiro.
No caso da Itália, o problema não se deve à culpa em razão da destruição infligida aos outros, mas à vergonha pela dor causada aos próprios cidadãos.
A interminável crise das instituições culminou num abismo de degradação moral incompatível com a mera evocação dos nomes dos fundadores da unidade, Mazzini, Garibaldi e Cavour.
Compreende-se, portanto, que tenha passado quase em envergonhado silêncio a comemoração dos 150 anos da unificação, em 17 de março. Redimiu-se a data com a execução no Scala de Milão do "Nabucco" de Verdi, na presença do presidente Giorgio Napolitano e do triste personagem que ora chefia o governo.
Quando lentamente se ergueu, majestosa e comovente, a profunda massa coral do canto dos Exilados, quem a ouviu no teatro ou na imaginação não ousaria duvidar de que, sem a Itália, o mundo seria muito mais pobre e apagado.
A dádiva da Itália é o espírito de Francisco de Assis e Dante, o gênio de Tomás de Aquino e Galileu, a invenção de Leonardo e Michelangelo, a graça de Giotto e Fra Angelico, a elegância de Rafael e Botticelli, a majestade de Masaccio e Piero della Francesca, o vigor de Ticiano e Caravaggio, o traço de Bramante e Palladio, a harmonia de Palestrina a Vivaldi, o teatro da Commedia Dell"Arte a Pirandello, a voz humana de Rossini a Verdi e Puccini, a agudeza do pensamento crítico de Maquiavel a Croce e Gramsci.
Notável mais pelas omissões que as presenças, esta lista mostra como é vão tentar resumir o que recebemos da cultura italiana.
Mesmo a beleza e a vida do espírito não bastam para definir o inconfundível na maneira de ser italiana: o profundo sentido de humanidade, aquilo que deu a "Ladrões de Bicicleta", de Vittorio De Sica, e a "Noites de Cabíria", de Fellini, sua marca inesquecível.
É essa humanidade que emanava dos velhos imigrantes italianos anônimos e humildes, que, no poema de Ferlinghetti, se sentavam nas praças de todas as sonhadas Américas dando migalhas aos pombos, esperando um a um a hora de morrer, o "nonino" de Piazzolla na Argentina, o nosso Volpi de mãos nodosas construindo suas molduras e fabricando suas tintas.
Em um romance de Cesare Pavese, um aluno pergunta: "Professor, o senhor ama a Itália?" E ele responde: "A Itália, não; eu amo os italianos".
Como separá-los? No amor da beleza, na luta pela justiça e por tudo aquilo que torna os homens mais humanos, pode-se dizer que somos todos italianos, aplicando à Itália o que diz o salmo: "Em Jerusalém nasceu todo homem", pois nela estão nossas fontes.
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terça-feira, 22 de março de 2011

Decepção na estréia

 Rubens Ricupero
FOLHA DE S. PAULO


A abstenção sobre a Líbia no Conselho de Segurança revela como a política externa do novo governo continua distante dos valores democráticos do povo brasileiro.

Com efeito, seja qual for a intenção, a consequência objetiva do voto seria condenar ao massacre os que tiveram a coragem de lutar pela liberdade, gerando admiração no Brasil e no mundo.

Seria, se Brasília não soubesse que a resolução dispunha dos votos para passar. O Brasil garante assim o melhor de dois mundos: não se compromete, pois outros se incumbirão do trabalho necessário e sofrerão o desgaste.

Por que se abster? Segundo a representante do Brasil, porque não cremos que a interdição de voos seja a medida mais indicada para resolver a questão.

Qual seria então essa medida? Os apelos, as exortações, o bloqueio dos bens, o embargo de armas, a abertura de processos no Tribunal Internacional por crimes contra a humanidade?

Mas tudo isso se tentou na resolução anterior, aprovada com o voto do Brasil, só despertando no ditador Gaddafi desprezo e pouco caso.

Desta vez, em contraste, bastou aprovar a resolução para o governo líbio anunciar o cessar fogo, sinal de como estavam errados os diplomatas brasileiros. Por que então a abstenção? A medida é legal, prevista na Carta da ONU. Tinha sido pedida pela Liga Árabe, órgão regional competente. Não foi precipitada, uma vez que se tinham esgotado antes todas as sanções menos graves, conforme exige a Carta.

Medidas de proteção a civis que possam implicar uso de força só devem ser contempladas em último caso, mas essa é exatamente a situação na Líbia. É difícil imaginar exemplo mais extremo do que país onde o governo bombardeia seu próprio povo e ameaça desencadear repressão sem piedade!

Na coluna de 6 de março, lembrei que do parágrafo 139 da declaração das Nações Unidas de 2005, assinada pelo presidente Lula, consta o compromisso de proteger as populações contra o genocídio, os crimes de guerra contra a humanidade e operações de limpeza étnica por meio de "ação coletiva decisiva e em tempo, caso os meios pacíficos se provem inadequados e as autoridades nacionais falhem em proporcionar a proteção".

Lembrei que não seria fácil cumprir tal dever com o voto da China, que não se dissociou do massacre de Tiananmen e da Rússia, que mantém a repressão no Cáucaso. Não imaginei que esses países de rabo preso, mais a Índia, com seus constantes problemas na Caxemira, fossem receber a cúmplice adesão do Brasil.

Ao contrário dos três BRICs, nosso país não é potência nuclear nem militar, dispondo apenas da força da persuasão e do exemplo.

Por tal motivo, a diplomacia brasileira só terá credibilidade se mostrar fidelidade a princípios e valores, aos direitos humanos e à proteção de quem luta pela democracia, condenando, sem seletividade nem hipocrisia, as violações onde quer que ocorram, na Líbia, no Iêmen, em Bahrein.

As primeiras declarações da presidente Dilma fizeram nascer a expectativa de que Brasília se afastaria do oportunismo calculista do governo passado. É uma pena que, no primeiro teste difícil, a diplomacia comece a desapontar nossa esperança.

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Culpa das commodities?

Minha tese de mestrado foi acerca de Segurança Alimentar. Nada a ver com minha atividade original, contudo por tratar-se de um tema de constante potencial de instabilidade política e econômica, tive que transitar por muitos índices estatísticos. 


De fato o que o nosso ex-embaixador e ex-Ministro da Economia diz eu comprovei, os dados de base são de médias históricas muito antigas e são absolutamente herméticos.


Comprovei, também, o que ele diz por intermédio de entrevistas com diplomatas especializados e um representante da FAO: há um protecionismo muito forte dos países do G-8 e União Européia sobre seus produtos e uma forte tendência de controle da produção mundial, notadamente dos países emergentes. Quem sempre sai perdendo são os países de baixa capacidade de produção.


Um dos motivos de eu não ter entendido a pressão de Lula para a compra dos caças franceses foi essa, pois a França, sempre que pode, botou empecilhos na comercialização de nossos commodities na Comunidade Européia.  Foi quando ressaltei que a ideologia e a vaidade em se tornar um líder visível mundialmente estaria afetando os interesses da sociedade brasileira.


O economista em seu artigo abaixo explica, muito bem, o fenômeno.




Culpa das commodities?
Rubens Ricupero
FOLHA DE S. PAULO


A estabilização do preço das commodities agrícolas, que o Brasil tenta em vão privilegiar na agenda internacional desde a conferência de Bretton Woods em 1944, passou de repente a ser prioridade para os presidente da França, do Banco Mundial e para o diretor da Organização Mundial de Comércio.

Por que a súbita receptividade? Não teria havido volatilidade antes ou o tema apenas preocupa quando os preços sobem (raramente) e não quando desabam como durante a maior parte dos últimos cem anos?

Está em curso ação liderada pelo presidente Sarkozy para tentar controlar o preço dos alimentos na próxima reunião do G20, na França.

A iniciativa deve preocupar o comércio exterior e o agronegócio brasileiros. Ela patenteia a ingenuidade dos que acreditaram numa coincidência estratégica entre os interesses do Brasil e os da França, campeã dos subsídios e do protecionismo agrícola.

Da última vez em que os alimentos aumentaram (2008-09), chamei a atenção na Folha para estudo de Ocampo e Parra mostrando que a alta era só nominal e os preços estavam apenas se recuperando em termos reais.

Ao contrário do índice da FAO (Organização de Alimentos e Agricultura), que parte de base distorcida (1990, auge da queda), os autores do estudo compararam os preços com a média histórica de 1945 a 1980, fase de 35 anos de preços abaixo até da média histórica. Corrigiram as cotações nominais descontando a inflação do período.

Garantido por essas cautelas o estudo revela que: a) os produtos agrícolas sofreram nos anos 1980 colapso só comparável ao de 1920-21; b) a agricultura tropical foi a mais atingida pelo declínio de longo prazo dos preços; c) em 2008 os únicos produtos acima da média anterior (óleo de palma, trigo, bananas e borracha) não possuíam expressão na pauta exportadora do Brasil; d) continuavam muito deprimidos o cacau, o chá, o café, o algodão e o açúcar.

Valeria a pena que entidades brasileiras competentes atualizassem o estudo, utilizando a mesma metodologia. Duvido, no entanto, que o resultado seja muito diferente em relação ao obtido em 2008.

Lembro o precedente para alertar sobre o perigo de aceitar de modo passivo índices, estudos e campanhas que nos chegam com o selo prestigioso de organismos mundiais, escondendo estratégias adversas aos interesses brasileiros.

O problema das commodities agrícolas deve merecer atenção internacional, não apenas devido ao impacto dos preços em países importadores de alimentos.

É preciso não esquecer que a recente mudança para melhor no desempenho econômico da África e da America Latina não teria sido possível sem a recuperação das cotações de commodities.

O equilíbrio e a boa fé exigiriam também eliminar os subsídios dos ricos, que desestimulam a produção de alimentos em países pobres, tornando-os dependentes da ajuda alimentar.

Em seguida, impõe-se coibir a perniciosa especulação financeira em commodities.

Por fim, não se pode pensar em controlar preços agrícolas sem antes controlar fertilizantes, combustíveis e todos os demais insumos do setor que contribuem poderosamente para a formação dos custos dos agricultores.

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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Morrer na praia

Rubens Ricupero
FOLHA DE S. PAULO

A ameaça ao futuro do Brasil decorre do preço pago por Lula pela ilusória apoteose final e a vitória

A sorte do governo Dilma será decidida nos primeiros meses porque no Brasil o curto prazo é muito mais problemático do que o longo. As perspectivas das próximas décadas são mais propícias do que jamais foram no passado, tanto no cenário internacional como nas mudanças estruturais internas. O desafio é chegar lá e não se afogar na praia.

Quatro tendências profundas mudaram para melhor o futuro brasileiro: o fim da explosão demográfica, o término do crescimento selvagem das cidades, a passagem de situação de escassez para abundância de energia (pré-sal, bioenergia) e a consolidação como exportador de peso em mais de doze commodities importantes.

A deriva do eixo econômico mundial em direção à China e à Ásia assegura, por sua vez, demanda forte em volume e preço para a energia e as matérias primas que o país tiver para exportar, sem ter de depender da provável saída da crise por parte dos Estados Unidos, da Europa e industrializados.

O que ameaça esse futuro não vem de fora, mas de dentro: o preço pago por Lula pela ilusória apoteose final e a conquista da sua vitória eleitoral.

Esse custo se expressa em quatro números fatídicos: inflação de mais de 6%; dólar a R$ 1,60; deficit em conta corrente de mais de R$ 50 bilhões (2,5% do PIB); superavit primário de menos de 1% do PIB (descartando a contabilidade criativa).

A inflação é inaceitável, afirma a presidente, como se falasse de uma hipótese. De que forma qualificar então o que os índices revelam? Os preços em elevação não só de alimentos, mas de serviços pressionados por mercado de trabalho apertado, a falta de mão de obra, aumentos salariais acima da inflação, consumo e crédito superaquecidos, corrosão do salário real pelo encarecimento da vida configuram o quadro clássico de inflação em alta em qualquer texto de economia.

A fim de completar os sintomas de curto prazo perigoso, os números indicam a deterioração acentuada da taxa cambial, do rombo das contas externas e do deficit do orçamento.

O discurso oficial demonstra consciência da ameaça. Como o governo atual é em boa parte a continuação do anterior, até nas mesmas pessoas, é natural certo constrangimento em admitir excessos passados nos gastos de custeio e erros na calibragem do estímulo ao consumo e ao crédito.

O país não levou a mal esse pecado venial. Tanto assim que as palavras da presidente cumpriram a primeira tarefa de qualquer governo iniciante: dissiparam os medos e geraram um sentimento geral de boa vontade.

A segunda tarefa, construir a confiança, é mais árdua, pois depende de ações acertadas.

Dessas ações que definirão o destino do governo, a principal se refere não só à melhoria na qualidade dos gastos governamentais, mas à sua efetiva redução: corte não na água (despesas postas no orçamento para serem riscadas), mas para valer.

É ela a chave de tudo o mais: do equilíbrio do orçamento, da diminuição da dívida bruta, da redução do juro real e, por consequência, de retorno a câmbio e contas externas saudáveis.

Se passar nesse teste, a presidente Dilma terá tudo para levar o país mais perto de seu futuro, como desejamos a ela e a nós neste início de ano e de governo.
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