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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Médicos com nota vermelha


O artigo ressalta o resultado, paulatino e contumaz, da falta de controle e de fiscalização, por parte do Estado, e da falta de ética e de responsabilidade dos responsáveis pelo ensino superior no Brasil. Amigos, estamos no segundo ano da segunda década do século XXI. Será que, de fato, estamos preparados para ingressar no primeiro mundo?!?!?


MÉDICOS COM NOTA VERMELHA 
EDITORIAL
CORREIO BRAZILIENSE


A proliferação descontrolada de cursos superiores Brasil afora levou a resultado previsível. Formam-se profissionais sem condições de exercer a profissão: médicos incapazes de fazer diagnósticos, engenheiros que não calculam uma estrutura, professores que não sabem dar aula, jornalistas que não apuram nem escrevem uma reportagem.

Há 18 anos, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por lei específica, realiza o Exame de Ordem. Com ele, avalia se o bacharel em direito está de fato munido de competência técnica para o exercício da profissão. O índice de aprovação não chega a 20% — demonstração de que as faculdades jogam no mercado brasileiros com diploma na mão, mas inaptos para elaborar petições e atender atos processuais.

O mau desempenho não se restringe aos formados em direito. Tramita no Congresso Nacional projeto de lei que cria exame semelhante para médicos. A iniciativa não constitui unanimidade. De um lado, encontram-se os que a aplaudem. Alegam que o médico lida com vidas. Sem preparo, mata e aleija. De outro, os que a rejeitam. Seria irresponsabilidade deixar o aluno concluir o curso e, só então, dizer-lhe que não poderá exercer a profissão.

O Conselho Federal de Medicina ainda não tomou posição sobre o assunto. Mas conselhos regionais saíram na frente. O de São Paulo (Cremesp), por exemplo, aplica a prova desde 2005. Contudo, só este ano tornou-o condição para o registro profissional. No período em que era opcional, 4.821 estudantes se submeteram ao teste. Nada menos de 46,7% foram reprovados.

O percentual assusta. Assusta mais se pensarmos que só voluntários faziam a prova na certeza de que estavam preparados. Os outros fugiam da avaliação. Agora, todos serão testados. O realismo autoriza concluir que o retrato de corpo inteiro não será nada lisonjeiro. Mostrará jovens que fizeram o curso, se submeteram a provas regulares, foram considerados aptos, mas não estão. Impõe-se frear-lhes a caminhada até que se qualifiquem.

É lamentável que entidades de classe tenham de preencher o vácuo deixado pelo governo. O Executivo tem obrigação de fiscalizar a qualidade das instituições de ensino para evitar o baixo rendimento dos alunos. Ao omitir-se, permite que o mercado seja invadido por médicos, advogados, professores, jornalistas, sociólogos, tradutores e tantos outros incapazes de exercer a profissão. A necessidade de exame de proficiência é a confissão de que o Estado não faz a sua parte.
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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A demagogia das cotas



EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo 


Ao aprovar o projeto de lei que obriga as universidades e as escolas técnicas federais a reservar 50% de suas vagas para alunos da rede pública, na semana passada, o Senado não se limitou a fazer demagogia com as chamadas políticas de ação afirmativa. Sua decisão, além de mascarar o problema da má qualidade do ensino médio, é quase inócua, em seu alcance, uma vez que 45% dos 900 mil alunos matriculados nas 59 instituições federais de ensino superior cursaram o ensino básico em escolas municipais ou estaduais.

A constatação é do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (Fonaprace), que acaba de divulgar o Perfil Socioeconômico e Cultural dos Estudantes de Graduação das Universidades Federais Brasileiras. O trabalho foi realizado a partir de um levantamento iniciado em novembro de 2010 e concluído em julho de 2011. A base de dados foi fornecida pelo Ministério da Educação (MEC) e cada instituição pesquisada forneceu, online, informações quantitativas e qualitativas que foram avaliadas pelos técnicos do Fonaprace. A pesquisa é por amostragem, tem um índice de confiabilidade de 95% e levou em conta somente os alunos das universidades federais matriculados em cursos presenciais. Em outras palavras, o levantamento não cobre os cursos a distância, oferecidos por meio de sistemas de televisão e internet.

Esse é o terceiro levantamento do gênero já feito pelo órgão - o primeiro foi realizado entre 1996 e 1997. A terceira edição da pesquisa mostra que os maiores contingentes de estudantes das universidades federais egressos da rede pública estão nas Regiões Norte e Sul, com 71,5% e 50,5%, respectivamente. Nas instituições federais de ensino superior situadas no Centro-Oeste e Nordeste, o contingente de universitários vindos da rede pública de ensino básico é de 40,5% e 41,5%, respectivamente. O Sudeste é a região que registrou o menor índice: 37%.

O levantamento do Fonaprace fez outras constatações importantes. Ele mostra, por exemplo, que o número de alunos negros, pardos e índios e pobres vem crescendo significativamente, ano a ano, nas universidades federais. Entre 2004 e 2011, o aumento desse segmento de estudantes nas instituições mantidas pela União foi de quase 50% e os maiores crescimentos foram registrados nas universidades federais do Norte e do Nordeste.

Em termos socioeconômicos, a pesquisa revela que 69% dos estudantes das instituições federais de ensino superior situadas na Região Norte são das classes C, D e E e 63% pertencem a famílias que recebem até três salários mínimos mensais. No Nordeste, 52% dos alunos das federais pertencem às classes C, D e E e 50% são membros de famílias com renda de até três salários mínimos. Os menores contingentes estão nas instituições federais de ensino superior situadas nas Regiões Sul e Sudeste, onde 34% dos alunos pertencem às classes C, D e E.

No plano nacional, os estudantes da classe A representam 15% do corpo discente das universidades federais, com maior concentração nas instituições da Região Centro-Oeste. O levantamento mostra ainda que somente 28% de pais e 33% de mães dos alunos das universidades federais possuem nível superior completo. Também revela que 57% dos alunos utilizam transporte público para irem às aulas e 11% têm bolsa de permanência. Segundo o Fonaprace, esses números desmoralizam dois mitos que ainda sobrevivem na sociedade brasileira - de que os alunos das universidades federais são, em sua maioria, ricos e que se dirigem a essas instituições com automóvel próprio.

Além de relegar para segundo plano a questão de fundo, que é a reforma do ensino médio, o projeto aprovado pelo Senado impõe enormes encargos burocráticos às universidades federais - a ponto de o MEC alegar que elas não têm a menor condição de cumpri-los dentro do período previsto de quatro anos. Mais grave ainda, se for sancionado pela presidente da República, o projeto comprometerá a autonomia pedagógica dessas universidades, que ficarão impedidas de adotar os critérios que julgarem necessários para avaliar o mérito acadêmico, em seus processos seletivos.
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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Autópsia de um fiasco




"Precisamos dissecar cuidadosamente 
nosso ensino defunto e responder por 
que nossos alunos não aprendem" 

O fiasco da nossa educação fundamental começa a ser percebido. Há cada vez mais brasileiros sabendo que tiramos os últimos lugares no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), uma prova internacional de compreensão de leitura e de outras competências vitais em uma economia moderna. Sabem também dos resultados do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), confirmando plenamente esse diagnóstico moribundo do ensino. Agora, cabe fazer a autópsia do fracasso, dissecando cuidadosamente o defunto: por que os alunos não aprendem? 

Tão retumbante fracasso tem múltiplas causas. Contudo, o presente ensaio assesta suas baterias em uma causa fatal, mas pouco considerada. Vejamos uma constatação surpreendente e assustadora: o Pisa mostrou que os alunos das famílias brasileiras mais ricas entendem menos um texto escrito do que os filhos de operários da Europa e de outros países com educação séria. Portanto, não é a pobreza dos alunos ou das escolas que explica o vexame. 

Por que nossos alunos não entendem um texto escrito? Submeto aqui a hipótese de que reina nos impérios pedagógicos e nos autores da moda uma atmosfera que desvaloriza a tarefa de compreender o que está escrito no papel. Veja-se a seguinte citação de B. Charlot: "Os saberes científicos podem ser medidos em falsos e verdadeiros, mas não os conteúdos de filosofia, pedagogia e história... (Fora das ciências naturais) o mundo do verdadeiro e do falso é do fanatismo, e não da cidadania". 

Ou esta outra, de E. Morin, afirmando que, "em lugar da especialização, da fragmentação de saberes, devemos introduzir o conceito de complexidade". Critica também "o princípio consolidado da ciência, o determinismo – segundo o qual os fenômenos dependem diretamente daqueles que os precedem e condicionam os que lhes seguem". Ou ainda a afirmação de D. Lerner, de que "não faz falta saber ler e escrever no sentido convencional... Quem interpreta o faz em relação ao que sabe... Interpretações não dependem exclusivamente do texto em si". 

Nesses textos, há asneiras irremediáveis e assuntos que coroariam um processo de amadurecimento intelectual. Contudo, para jovens que iniciam seus estudos, são fórmulas certeiras para uma grande balbúrdia mental, em uma idade que pede a consolidação de idéias claras e a compreensão rigorosa e analítica do texto escrito. Embaçamos o ensino ao solicitar aos alunos que "reinterpretem" o pensamento dos grandes cientistas e filósofos, segundo Mortimer Adler, "pedindo sua opinião a respeito de tudo". 

Continua correto o conselho de Descartes de dividir o problema em tantas partes quantas sejam necessárias para a sua compreensão. De fato, a física de Newton é determinista. Nas melhores escolas, é com ela que se afia a capacidade de análise dos alunos – inclusive na terra dos autores citados. As ciências sociais adotam outro determinismo, expresso em distribuições de probabilidades. A filosofia requer ainda mais exatidão no uso da linguagem. Elegância e rigor precisam ser conquistados na língua portuguesa, e as primeiras lições devem ser exercícios de interpretação correta do que está escrito. Ao se enamorarem das idéias turvas acima citadas, nossos professores desviam as atenções que deveriam colimar o uso judicioso das palavras e embrenham seus alunos na indisciplina do relativismo, do subjetivismo e da "criatividade". 

Wittgenstein foi ao âmago da questão ao dizer que "os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento". Quem não aprendeu a usar palavras não sabe pensar. Para Spinoza, "as desavenças humanas são desavenças de palavras". 

O grande desafio dos ciclos iniciais de uma educação é entender as relações entre sons, letras e significados, aprendendo a ler, para que se possa passar a ler para aprender. Lembremo-nos da obsessão de George Steiner, sempre em busca do sentido exato que os autores quiseram dar às palavras. Sem isso, o que vem depois é ruído, é o que respondem nossos alunos às questões cuidadosamente formuladas nas provas do Pisa e do Saeb. Esses miasmas intelectuais não oferecem os alicerces para um distanciamento crítico e produtivo do texto original – tarefa que só pode vir mais adiante. 


Claudio de Moura Castro é economista
(Claudio&Moura&Castro@attglobal.net) 
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sábado, 23 de abril de 2011

Tocando o bumbo

A.P. Quartim de Moraes
O Estado de S. Paulo 


Perdoem-me os leitores a insistência com que volto ao tema, objeto talvez de nove a cada dez artigos que escrevo para esta página, mas alguém tem de tocar o bumbo enquanto os fundamentalistas do mercado continuarem desmoralizando o ofício de publicar livros no Brasil. Meu mais recente ataque de indignação foi provocado por um episódio aparentemente banal, mas claramente revelador da degradação que contamina a gestão do negócio do livro, considerado como uma atividade empresarial diferenciada pela natureza do produto com que trabalha e da responsabilidade cultural, portanto, social, que isso implica.

Procurou-me uma headhunter a serviço de uma casa publicadora importante, atrás da indicação de um profissional para substituir o diretor editorial, que, fiquei sabendo depois, estava de saída por ter atingido a idade-limite para trabalhar na corporação. Enviou-me por e-mail, cumprindo o que acredito que seja um procedimento rotineiro, um "perfil da vaga", com uma extensa discriminação das "atribuições do cargo". A primeira dessas atribuições, no topo da lista: "Direcionar a equipe na seleção de títulos com bom potencial de venda (o grifo é meu), que proporcionem prestígio à marca e que reforcem o catálogo". Quer dizer, essa editora só se interessa por livros que possam vir a vender bem e acredita que seja isso, a publicação de best-sellers, que dará "prestígio à marca". Pode haver confissão mais explícita de rendição à "razão de mercado" em detrimento da missão civilizadora do livro?

É claro que uma editora comercial - como o próprio nome está dizendo - é uma empresa, um negócio, que como tal precisa se tornar viável, dar lucro. E para isso precisa que seus produtos, os livros, vendam. Nada contra. Mas, para começar, as editoras de livros não são empresas como outras quaisquer, que podem alegar tranquilamente que responsabilidade social é assunto que não lhes diz respeito. As editoras têm, sim, a responsabilidade irrecusável de retribuir de alguma maneira à sociedade o subsídio que ela lhe concede na forma de renúncia fiscal. Livro, no Brasil, não paga imposto. Muitos editores jamais se deram ao trabalho de parar para pensar sobre as razões desse privilégio.

De qualquer modo, também por essa razão é condenável dar prioridade ao potencial de venda em prejuízo da qualidade de conteúdo. Esse procedimento é o resultado da associação de dois atributos incompatíveis com a responsabilidade social do editor: ganância e ignorância. O indispensável lucro deve ser o resultado de um trabalho muito mais difícil e desafiador do que o de farejar originais que se possam transformar em best-sellers. O que verdadeiramente dá prestígio à marca de uma casa publicadora é a competência para, primeiro, descobrir bons conteúdos; depois, transformá-los em livros que vendam bem.

Seguindo, porém, até com algum atraso, uma tendência que é universal, mas nem por isso auspiciosa, o segmento do mercado editorial brasileiro chamado de trade, aquele dedicado à produção de livros para venda no varejo, está hoje quase totalmente dominado pela obsessão do best-seller, que desconsidera a importância do conteúdo em benefício do desempenho de vendas.

Algumas maravilhosas exceções ainda podem ser encontradas, por conta do idealismo de um punhado de editores-amantes-de-livros, entre as publicadoras de médio e de pequeno portes. Entre as grandes, pouquíssimas são capazes ou estão dispostas a perseguir o equilíbrio entre conteúdo e potencial de vendas. O que lhes importa é exclusivamente a perspectiva de lucro, não para o conjunto do catálogo, mas para cada título individualmente considerado. E esse critério é demolidor, por exemplo, para as possibilidades de publicação de autores novos. Para o futuro da literatura brasileira.

A alarmante decadência dos conteúdos hoje disponíveis nas estantes das livrarias e a crescente escassez de títulos, ficcionais ou não, voltados para a realidade brasileira estão longe de ser levadas a sério pela maior parte dos profissionais envolvidos na produção de livros, pela mídia e até mesmo - especialmente lamentável - pelas entidades representativas do universo livreiro. Em contrapartida, muito se fala, ou melhor, se conjectura, sobre os efeitos da revolução digital na produção de livros, sobre quanto tempo o papel sobreviverá como suporte básico, sobre qual novo tablet vai fazer sucesso no próximo verão. Ou seja, tudo sobre as peripécias de quem está envolvido com a forma dos livros. Nada sobre o que num livro verdadeiramente importa: o conteúdo.

Não me refiro à cobertura midiática. O suplemento Sabático do Estado é um bom exemplo de como literatura e literatos podem e devem ser tratados. O que ninguém parece disposto a discutir é a questão do conteúdo do ponto de vista da política editorial que define os rumos de cada uma das casas publicadoras e do conjunto da indústria do livro no Brasil. Essa é uma discussão necessária, especialmente no momento em que o País avança pelo terceiro milênio com ambição de se tornar potência mundial. Os livros têm um papel a cumprir nisso.

Os empresários do setor editorial, é claro, têm todo o direito de continuar publicando exatamente o que acham que devem, apesar de se beneficiarem de uma isenção tributária concedida a partir do pressuposto de que um editor de livros não pensa só em ganhar dinheiro. Ah, sim! Existe o Instituto Pró-Livro, mantido por editoras com a missão de "contribuir para o desenvolvimento de ações voltadas a transformar o Brasil em um país leitor". Maravilhoso! É realmente importantíssimo estimular o surgimento de novos leitores. Mas não menos importante é pensar na qualidade dos conteúdos a serem oferecidos a eles. É disso que estamos falando.

JORNALISTA E EDITOR

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

EDUCAÇÃO E POBREZA


EDITORIAL
ESTADO DE MINAS


Presidente lança slogan e promete criar escolas e melhorar o ganho dos professores

Vai na direção correta o primeiro discurso da presidente Dilma Rousseff desde que assumiu o cargo. Quinta-feira, ela aproveitou a retomada do calendário escolar para restabelecer uma relação que parecia esquecida no Brasil: não há ferramenta mais eficaz para o país superar a pobreza do que a educação. Por isso mesmo, ao lançar o que ela chamou de “slogan de largada” de seu governo, que diz ser “país rico aquele que não tem pobreza”, Dilma acrescentou que “nenhum país poderá se desenvolver sem educar bem o seu jovem e capacitá-lo plenamente para o emprego e para as novas necessidades criadas pela sociedade do conhecimento”, disse a presidente. Não faltam dados para confirmar essa realidade, nem mesmo nestes tempos de desemprego baixo e crescimento acelerado da economia. Estudo sobre a evolução do mercado de trabalho nos últimos oito anos, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não deixa a menor dúvida de que a empregabilidade varia na razão direta da escolaridade. 

O número de pessoas ocupadas no mercado de trabalho com 11 anos ou mais de estudo atingiu 13,5 milhões em dezembro, representando aumento de quase 60% em relação ao apurado em 2002. Enquanto isso, os ocupados sem instrução ou com menos de um ano de estudo não eram mais do que 352 mil no fim de 2010, revelando um decréscimo de 60% em relação a oito atrás. Especialistas identificam nessa evolução do perfil da massa trabalhadora a influência das modernas tecnologias, sofisticadas e exigentes quanto ao preparo da mão de obra. Observam que o único segmento com menor qualificação é o da construção civil. Nos demais, a especialização ou, pelo menos, a capacidade de lidar com equipamentos avançados e de compreender manuais de operação são exigências cada vez mais incontornáveis. Uma face perversa da incapacidade de milhares de pessoas de atender a essas exigências pode ser observada em trabalho realizado por técnicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base nos mesmos dados do IBGE. 

É que, apesar de todos os avanços na economia, a dificuldade de acesso ao emprego tem pesado na manutenção e mesmo no aumento da desigualdade entre os trabalhadores, conforme a renda. Entre 2005 e 2010, enquanto caiu de 2,1% para 0,9% o percentual de desempregados entre os trabalhadores de remuneração mais alta, esse índice entre os mais pobres subiu de 23,1% para 33,3%. Com isso, a participação dos que ganham menos no total de desempregados no país aumentou de 37,4% para 45,2%, no mesmo período. Em vez de dar ouvidos aos que insistem em soluções caridosas para esse quadro de injustiça social e de comprometimento da competitividade brasileira, a presidente acerta ao escolher o caminho do aumento da oferta de qualificação. Promete curar o Ministério da Educação dos defeitos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), criar escolas técnicas e investir na melhoria da remuneração e na preparação dos professores dos ensinos médio e fundamental. A intenção é ótima. Urgente é torná-la realidade.
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Professores digitais


GILBERTO DIMENSTEIN
FOLHA DE SÃO PAULO
O que mudará é que o professor que despeja conteúdos automaticamente será mesmo dispensável


Quando encontra dificuldade para ajudar o filho na lição de casa, Bill Gates aciona o professor Salman Khan. "Tudo fica fácil", diz Gates, que, nos últimos anos, vem gastando dezenas de milhões de dólares em sua fundação para descobrir novos jeitos de educar.

Filho de família da Índia e de Bangladesh, Khan tem um currículo capaz de impressionar qualquer gênio: no MIT (Instituto Tecnológico de Massachusetts), fez matemática, engenharia elétrica e ciência da computação; em Harvard, administração. Mas o que impressiona mesmo Gates é o valor das aulas: são de graça e acessíveis a qualquer um -aliás, neste momento, se quiser, você também pode entrar na internet e receber as mesmas aulas.

Khan foi um dos personagens que influenciaram Gates a escrever um texto em que sugere a substituição dos professores convencionais por aulas, acompanhadas de exercícios, gravadas com recursos multimeios por professores como Khan e distribuídas para todos. "É melhor uma boa aula desse tipo do que as dadas por professores medíocres", provoca o criador da Microsoft.

Muita gente está levando a sério a possibilidade de as novas tecnologias exterminarem o professor como o conhecemos. Haveria uma radicalização do ensino a distância. Já há recursos para que um curso seja dado sem interferência humana. As aulas são gravadas e todos os debates, exercícios e notas são feitos por um programa de computador.
Autor da ideia de um computador por criança, Nicholas Negroponte me disse que está preparando uma experiência para ser lançada em comunidades da África e da Ásia que têm alto índice de analfabetismo. Quer deixar num lugar público computadores conectados à internet para ver como e se as crianças conseguem aprender a ler e a escrever sozinhas. "Cada vez mais o conhecimento vai ser transmitido fora da sala de aula", comentou.


Esse tipo de recurso pode ajudar muito os alunos, especialmente os mais pobres, mas duvido que possa atingir a excelência sem que se viva num ambiente criativo, estimulante, com trocas entre alunos e professores motivados. Qualquer um pode acessar aulas do MIT ou de Harvard, entre outros grandes centros de ensino. Outra coisa é entrar num laboratório e acompanhar, por exemplo, o nascimento de um carro capaz de estacionar sozinho. Esse projeto é desenvolvido no AgeLab, que se dedica a criar produtos e serviços para idosos. Já está criando roupas e acessórios para os mais velhos evitarem acidentes.
Estou aqui em Harvard experimentando uma poderosa combinação do virtual com o presencial, num curso sobre experiências educativas internacionais. Cada aula se transforma num fórum na internet entre os estudantes, conduzido por três monitores. Daí surgem outros fóruns autônomos para cada comentário. Para aprofundar as questões, a classe, separada em três grupos, reúne-se presencialmente.
O professor mistura as aulas expositivas com depoimentos de convidados do mundo inteiro, que, a distância, ilustram os textos curriculares. Um explica como usa a tecnologia para melhorar o ensino em áreas rurais da Índia, outro conta como cria bibliotecas em remotas vilas da Ásia ou da África. Depois da exposição, os convidados respondem às questões dos estudantes. Tudo é gravado e postado na rede.
Tecnologia alguma, porém, supera o entusiasmo de um professor como Fernando Reimers. Ele viaja pelo mundo para conhecer experiências educacionais e participa de algumas delas. Não há software capaz de competir com essa paixão.

O que veio para ficar foi o fato de as informações circularem, criando a possibilidade de que o mundo se converta numa imensa comunidade de aprendizagem. Existem sinais por todos os lados.
Um dos negócios que prosperam no mundo digital são páginas abertas a perguntas que são respondidas por leitores. A diferença agora é que empresas estão contratando especialistas para dar respostas quase imediatamente. Há redes sociais em que se podem aprender todas as línguas importantes. Em outras páginas, são ensinadas expressões e gírias que acabam de surgir. Aprende-se espanhol com alguém que está na Argentina ou na China.

O que vai mudar é que o professor que despeja automaticamente os conteúdos será mesmo dispensável, pois será mais caro e menos eficiente do que uma tela de computador.


PS- Coloquei no www.catracalivre.com.br os links desta coluna: o AgeLab, o MIT, o ensino de línguas, as aulas do professor Khan, as redes sociais para o aprendizado dos idiomas e os cursos gratuitos de universidades.
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Problema natural, ajuda artificial

Iniciativas muito boas, de fato, vale a pena ler e conhecer.


Problema natural, ajuda artificial


Rayanne Portugal
Correio Braziliense  


Professores da UnB e de sete instituições da União Europeia desenvolvem software que auxilia no entendimento e também no aprendizado das questões ambientais

A ciência busca compreender e quantificar os impactos do desequilíbrio ambiental na vida do homem e sua responsabilidade nesse processo desde que se começou a falar com mais responsabilidade em meio ambiente. Pesquisadores trabalham no desenvolvimento de sistemas supercomplexos a fim de antecipar desastres naturais e soluções viáveis para a preservação. Mas o que acontece ao se tentar traduzir essa realidade de forma dinâmica a crianças e jovens? Com esse objetivo, professores da Universidade de Brasília (UnB) e outras sete instituições da União Europeia desenvolveram o software DynaLearn de inteligência artificial (IA) para a educação ambiental. Hoje e amanhã, pesquisadores envolvidos no projeto, iniciado em 2009, promovem o Workshop DynaLearn, em que a nova ferramenta será apresentada a professores, acadêmicos e graduandos. O evento será realizado no auditório da Faculdade de Comunicação da UnB, a partir das 9h nos dois dias. 

Voltado para professores e alunos do ensino médio, o programa simula causas e consequências de determinados eventos do meio ambiente, principalmente aqueles ligados a desmatamento, acúmulo de lixo, aumento da taxa de doenças virais, erosão, dentre outros. O objetivo é levar às salas de aula maior interatividade para o aprendizado de biologia, física, química, raciocínio lógico, atualidades, geografia e história. 

A partir do programa, o aluno poderá analisar diversas variáveis ligadas às ações do homem e às ações naturais de impacto ambiental, das mais simples às mais complexas. “O diferencial desse projeto é a simplicidade com que ele ensina o estudante. O próprio aluno poderá criar, à frente do computador, esses diagramas, chamados de modelos, e analisar cada ação e reação gerada a partir de uma alteração do ecossistema, natural ou causada pelo homem”, explica Paulo Salles, coordenador do projeto DynaLearn no Brasil e professor do Instituto de Ciências Biológicas da UnB. 

Fátima Brandão, professora do Departamento de Ciência da Computação da UnB (CIC), ressalta a importância dessa nova ferramenta, criada com apoio de pesquisadores de Israel, Alemanha, Áustria, Holanda, Inglaterra, Bulgária e Espanha. “A possibilidade de tornar cada vez mais acessível a professores e estudantes a discussão sobre o papel do homem na preservação de nossos ecossistemas é ótima, principalmente em tempos como os atuais. É papel da educação se preocupar com a formação desses jovens e essa proposta veio para agregar as pesquisas que já vem sendo feitas na área”, afirma. 

Rafael Perciani, 22 anos, recém-formado pela UnB e pós-graduando na área de Inteligência Artificial, confirma a relevância do projeto para o meio acadêmico. “É genial poder trabalhar em um projeto em que estudantes mais novos passam a conviver com softwares complexos como esse.” 


SAIBA MAIS 
Entenda o modelo 

Ao contrário do que muitos imaginam, o objetivo da Inteligência Artificial (IA) não é reproduzir o modelo humano, mas implementar, nas máquinas, capacidade para a realização de tarefas que requerem algum tipo de inteligência e, dessa forma, estendê-la para além dos limites biológicos. O desenvolvimento da IA está voltado para a construção de agentes inteligentes, podendo se dividir em dois campos: de um lado, estão as máquinas, capazes de explorar aspectos da percepção, robôs cada vez mais elaborados no sentido tecnológico; do outro, os chamados sistemas especialistas, programas de computador que desempenham tarefas especializadas como realizar diagnósticos médicos, monitorar outros sistemas, controlar o funcionamento de algum sistema — como o DynaLearn. 

Esses programas têm a capacidade de pensar qualitativamente a respeito das propriedades físicas de determinado ambiente, por exemplo, não se limitando a dados matemáticos e buscando compreender o significado das informações que lhes são oferecidas. Esses modelos não substituem os dados matemáticos, mas permitem o melhor uso de informações incompletas e imprecisas que não se limitam aos números. 

No âmbito da educação, a IA tem crescido de forma acelerada, segundo o pesquisador holandês Bert Bredeweg, um dos idealizadores do projeto DynaLearn. “Estamos perto de ter ambientes de aprendizagem que poderão comunicar conhecimentos de diversas maneiras. John Self, um dos mais importantes pesquisadores das aplicações da IA na educação, usou o termo Gymnasium Cognitivo, um ambiente em que as pessoas poderiam treinar diversos aspectos da cognição, como fazem num ginásio de esportes”, afirma. Segundo o pesquisador, em um futuro pouco distante, programas de computador poderão oferecer aos estudantes o treino de analogias, inferências lógicas, representações espaciais, raciocínio matemático, dentre outros. (RP) 


SERVIÇO 
Demonstrações e palestras sobre o uso da inteligência artificial na educação, hoje e amanhã. Auditório da Faculdade de Comunicação da UnB, ICC Ala Norte. Das às 9h às 18h30, no dia 3, e das 9h às 17h30, no dia 4. Entrada gratuita. A programação completa está disponível no site www.correiobraziliense.com.br/euestudante.

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