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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O homem primitivo


Paulo Rebêlo

Quem mora sozinho por muito tempo, enfrenta dois fenômenos padronizados que só variam de intensidade, de acordo com a pré-disposição de cada um. O primeiro e mais fácil de perceber é a liberdade social e psicológica que, uma vez experimentada, pouquíssimos desejam voltar atrás.

Desaparecer por uma semana e não dar satisfação a exatamente ninguém sobre onde esteve ou quem com esteve, é bem parecido com o ato de pular de pára-quedas. A adrenalina daqueles poucos segundos pode ser temporária, nunca se tornando necessária. Fica aquele gostinho de quero mais, logo esquecido pela rotina semanal. No entanto, a adrenalina pode atingir um ápice contagiante em certas pessoas, a ponto de você transformar o paraquedismo em hábito e, depois, em vício. O resultado é que você nunca mais vai querer abandonar o paraquedismo. A liberdade passa a ser uma condição de pré-existência na sua vida.

O segundo fenômeno, em geral, é uma consequência direta do primeiro e só é percebido depois de vários anos, quase sem querer. É o desapego a uma série de conceitos sociais que, com o tempo, você percebe que são pueris, inócuos e, quase sempre, inúteis. Pode ser um reles desapego material. E também pode ser um desapego com si mesmo. É quando você entende que “viver bem com pouco” deixa de ser uma questão de mera sobrevivência para se tornar um estilo de vida. Menos compromissado com opiniões alheias, problemas insolúveis e paixões insalubres.

Alguns estudiosos desocupados definem esse comportamento como uma volta às origens primitivas do homem como figura social. Seria a acentuação dos nossos instintos mais básicos de individualidade. Não é à toa que tantas vezes uma relação afetiva, ou até mesmo a tentativa de alguém furar esse bloqueio primitivo de liberdade, coloca em xeque toda uma vida e sanidade mental que levaram anos para amadurecer.

Você supera aquela fase de tratar sua casa como o seu feudo, seu domínio. Fica para trás aquela noção de ter exatamente as coisas onde você quer que estejam, na bagunça ou organização que você entende. Mesmo que isso signifique, eventualmente, esquecer comidas podres na geladeira, ter garrafas vazias espalhadas pelo quarto, nunca ter comida para oferecer às visitas e considerar aquelas latas de sardinha suas melhores amigas nos tempos difíceis da ressaca.

Com o tempo, você percebe que seu feudo é apenas mais um conceito abstrato, dentre tantos outros que você se forçou a esquecer. Que existe uma floresta lá fora que também não vai lhe exigir contratos, nem amarras e, quem sabe, estará cheia de outros animais errantes e primitivos como você. E que um teto nada mais é do que isso: um teto. E tetos são iguais em qualquer lugar. Podem ser maiores, mais frios e até mais confortáveis, mas continuarão sendo apenas tetos - mesmo que seja o seu teto.

ENTRE O ERRADO E O ERRANTE – 

Está provado, historicamente, que qualquer grupo ou pessoa que fuja a um padrão imposto pela maioria terá dois caminhos a percorrer: ou se transforma no anormal, no bicho-do-mato, no outsider – para usar um termo moderninho; ou então vai precisar perder muitas paixões e amizades na vida até conseguir largar essa adrenalina primitiva de ter as rédeas da própria vida, sem metáforas e sem amarras.

O problema é que, quanto mais o tempo passa, mais acentuada é a impressão de que você precisa de outras pessoas o tanto quanto elas precisam de você – e para defender-se, o mínimo a ser feito é tentar não ser uma necessidade para ninguém, por mais que você tenha precisado de alguém, um dia, para sobreviver.

Para os amigos e paixões de uma vida, eventualmente você será a pessoa errada na hora certa. Quando, na verdade, você apenas pode ser um errante sem lugar e sem hora para chegar. No final, nada vai importar. Aquelas pessoas que aprendem a conviver com esses animais errantes e desapegados, às vezes até aprendem a admirá-los e, ocasionalmente, ficarão lhe esperando à lareira quando você voltar da floresta, cansado, ferido e livre. Enquanto outras, simplesmente vão desaparecer sem olhar para trás. Como se nada tivesse acontecido. 

Como os drogados nos guetos, as pessoas primitivas reconhecem o vício e admitem as possíveis consequências a longo prazo. O grande revés não é saber quando parar, nem por quem parar. Mas, sim, por quê parar. Sempre. E enquanto você continua a vagar como um andarilho pela vida das pessoas, sem mais procurar por um motivo, a única verdade absoluta dentro de sua mochila é o velho ditado de que, enquanto você sorrir, o mundo sorrirá com você. Mas chore, e você irá chorar sozinho.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ferreiro

Grato Marina Almeida.

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Era uma vez um ferreiro que, após uma juventude cheia de excessos, resolveu entregar sua alma a Deus. Durante muitos anos trabalhou com afinidade, praticou a caridade, mas, apesar de toda sua dedicação, nada parecia dar certo na sua vida. Muito pelo contrário: seus problemas e dívidas acumulavam-se cada vez mais.
Uma bela tarde, um amigo que o visitara - e que se compadecia de sua situação difícil - comentou:
"É realmente estranho que, justamente depois que você resolveu se tornar um homem temente a Deus, sua vida começou a piorar. Eu não desejo enfraquecer sua fé, mas apesar de toda a sua crença no mundo espiritual, nada tem melhorado".
O ferreiro não respondeu imediatamente. Ele já havia pensado nisso muitas vezes, sem entender o que acontecia em sua vida. Entretanto, como não queria deixar o amigo sem resposta, começou a falar e terminou encontrando a explicação que procurava. Eis o que disse o ferreiro:
"Eu recebo nesta oficina o aço ainda não trabalhado e preciso transformá-lo em espadas. Você sabe como isto é feito?
Primeiro eu aqueço a chapa de aço num calor infernal, até que fique vermelha. Em seguida, sem qualquer piedade, eu pego o martelo mais pesado e aplico golpes até que a peça adquira a forma desejada. Logo, ela é mergulhada num balde de água fria e a oficina inteira se enche com o barulho do vapor, enquanto a peça estala e grita por causa da súbita mudança de temperatura. Tenho que repetir esse processo até conseguir a espada perfeita: uma vez apenas não é suficiente".
O ferreiro deu uma longa pausa, acendeu um cigarro e continuou:
"Às vezes, o aço que chega até minhas mãos não consegue agüentar esse tratamento. O calor, as marteladas e a água fria terminam por enchê-lo de rachaduras. E eu sei que jamais se transformará numa boa lâmina de espada. Então, eu simplesmente o coloco no monte de ferro-velho que você viu na entrada de minha ferraria.
Mais uma pausa e o ferreiro concluiu: "Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Tenho aceito as marteladas que a vida me dá, e às vezes sinto-me tão frio e insensível como a água que faz sofrer o aço. Mas a única coisa que peço é: "Meu Deus, não desista, até que eu consiga tomar a forma que o Senhor espera de mim. Tente da maneira que achar melhor, pelo tempo que quiser - mas jamais me coloque no monte de ferro-velho das almas".

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Precisando de amor

Grato Marina Almeida

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Luis Fernando Veríssimo
Quem não gosta de ser amado?
Ser paparicado?
Receber atenção especial, presentinhos e beijinhos doces?
Quem não gosta de surpresinhas gostosas, beijo na boca e abraços apertados? Quem é que de livre e espontânea vontade prefere a solidão a uma boa companhia?
Ora, todo mundo quer uma boa companhia e de preferência para o todo sempre.
Mas conviver com essa "boa companhia" diariamente por 3, 5, 10, 15, 25 anos é que é o difícil.
No começo dos relacionamentos e até 1 ano de vida amorosa, tudo são mais ou menos flores.
Brigas e discussões, (caia fora dessa fria).
Não adianta você dizer que depois de três meses apenas que "encontrou o amor de sua vida", porque o amor precisa de convivência para ser devidamente testado.
Nesse mundo maluco e agitado, as pessoas estão se encontrando hoje, se amando amanhã e entrando em crise depois de amanhã.
Uma coisa frenética e louca que tem feito muita gente, que se julgava equilibrada, perder os parafusos e fazer muita besteira.
Paixão, loucura e obsessão, três dos mais perigosos ingredientes que estão crescendo nos relacionamentos de hoje em dia por causa da velocidade das informações e o medo de ficar sozinho.
As pessoas não estão conseguindo conviver sozinhas com seus defeitos, vícios e qualidades, e partem desesperadamente para encontrar alguém, a tal da alma gêmea, e se entregam muitas vezes aos primeiros pares de olhos que piscam para o seu lado.
Vale tudo nessa guerra, chat, carta, agência, festas e até roubar o parceiro de alguém. É uma guerra para não ficar sozinho.
Medo?
Com medo de se encarar no espelho e perceber as próprias eficiências?
Com medo de encarar a vida e suas lutas?
Então a pessoa consegue alguém (ou acha que está nascendo um grande amor), fecha os olhos para a realidade e começa a viver um sonho, trancado em si.
Mesmo, nos quartos e no seu egoísmo, a pessoa transfere toda a sua carência para o (a) parceiro (a), transfere a responsabilidade de ser feliz para uma pessoa que na verdade ela mal conhece.
Então, um belo dia, vem o espanto, a realidade, o caso melado, o "falso amor" acaba, e você que apostou todas as suas fichas nesse romance fica sem chão, sem eira nem beira, e o pior: muitas vezes fica sem vontade de viver.
Pobre povo desse século da pressa!
Precisamos urgentemente voltar o costume "antigo" de "ter tempo", de dar um tempo para o tempo nos mostrar quem são as pessoas.
Namorar é conhecer, é reconhecer, é a época das pesquisas, do reconhecimento...
Se as pessoas não se derem um tempo, não buscarem se conhecer mais, logo em breve teremos milhares de consultórios lotados de "depressivos" e cemitérios cada vez mais cheios de suicidas "seres cansados de si mesmos...". Faça um bem para si mesmo e para os outros, quando iniciar um relacionamento procure dar tempo para tudo: passeie muito de mãos dadas, converse mais sobre gostos e preferências, conheça a família e mostre a sua, descubra os hábitos e costumes.
Parece careta demais?
Que nada, isso é a realidade que pode salvar relacionamento e muitas vidas. Pense nisso e se gostar, passe essa mensagem para frente; quem sabe se juntos, não ajudamos alguém carente de amor a encontrar um motivo para ser feliz?
Muita pretensão?
Não, só vontade de te ver feliz.
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terça-feira, 12 de outubro de 2010

A folha do dia

Grato Marina Almeida.

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Certo dia um professor estava aplicando uma prova e os alunos, em silêncio, tentavam responder as perguntas com uma certa ansiedade.
Faltavam uns quinze minutos para o encerramento e um jovem levantou o braço e disse: professor, pode me dar uma folha em branco?O professor levou a folha até sua carteira e perguntou-lhe porque queria mais uma folha em branco, e o aluno falou: eu tentei responder as questões, rabisquei tudo, fiz uma confusão danada e queria começar outra vez.
Apesar do pouco tempo que faltava, o professor confiou no rapaz, deu-lhe a folha em branco e ficou torcendo por ele.
A atitude do aluno causou simpatia ao professor que, tempos depois, ainda se lembrava daquele episódio simples, mas significativo.
Assim como aquele aluno, nós também recebemos de Deus, a cada dia, uma nova folha em branco. E muitos de nós só temos feito rabiscos, confusões, tentativas frustradas, e uma confusão danada...
Outros apenas amassam essa nova página e a arremessam na lixeira, preferindo a ociosidade, gastando o tempo na inutilidade.
Talvez hoje fosse um bom momento para começar a escrever, nessa nova página em branco, uma história diferente, visando um resultado mais feliz.
Assim como tirar uma boa nota depende da atenção e do esforço do aluno, uma vida boa também depende da atenção e da dedicação de cada um.
Não importa qual seja sua idade, sua condição financeira, sua religião... Tome essa página em branco e passe sua vida a limpo.
Escreva, hoje, um novo capítulo, com letras bem definidas e sem rasuras. E o principal: que todos possam ler e encontrar lições nobres.
Não se preocupe em tirar nota dez, ser o primeiro em tudo, preocupe-se apenas em fazer o melhor que puder.
Pense que mesmo não tendo pedido, Deus lhe ofereceu uma outra folha em branco, que é o dia de hoje.
Por isso, não se permita rabiscar ou escrever bobagens nesta nova página, nem desperdiçá-la.
Aproveite essa nova chance e escreva um capítulo feliz na sua história.
Use as tintas com lucidez e coragem, com discernimento e boa vontade. Não poupe as palavras: dignidade, amizade, fraternidade, esperança e fé.
Assim, ao terminar de escrever esse novo capítulo da sua vida, você não verá rasuras nem terá que reescrevê-lo em tempo algum, porque foi escrito com nobreza e sabedoria. 
Pense nisso! Aproveite este dia e ame com todas as forças do seu coração, sem restrições, sem ver defeitos ou tristezas. Conjugar o verbo amar é escrever uma história feliz.
Não espere que a melhoria, a prosperidade e o bem-estar caiam do céu milagrosamente, sem fazer força.
Tudo tem o preço da conquista, da busca, da participação, do esforço.
São muito potentes os talentos que você dispõe, ainda não explorados pelo seu pensar e sentir, e muitas são as suas possibilidades de crescer e conquistar o que mais quer ou precisa, chegando à felicidade.
Basta que não amasse nem rabisque de forma inconseqüente essa página em branco, chamada hoje.
Colaboração de Maria J. Nascimento Silva
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um dia o Rei teve uma idéia.

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Marina Colasanti
.Era a primeira da vida toda, e tão maravilhado ficou com aquela idéia azul, que não quis saber de contar aos ministros. Desceu com ela para o jardim, correu com Ela nos gramados, brincou com ela de esconder entre outros pensamentos, encontrando-a sempre com igual alegria, linda idéia dele toda azul.
Brincaram até o Rei adormecer encostado numa árvore.
Foi acordar tateando a coroa e procurando a idéia, para perceber o perigo. Sozinha no seu sono, solta e tão bonita, a idéia poderia ter chamado a atenção de alguém.
Bastaria esse alguém pegá-la e levar. É tão fácil roubar uma idéia: Quem jamais saberia que já tinha dono?
Com a idéia escondida debaixo do manto, o Rei voltou para o castelo. Esperou a noite. Quando todos os olhos se fecharam, saiu dos seus aposentos, atravessou salões, Desceu escadas, subiu degraus, até Chegar ao Corredor das Salas do Tempo.
Portas fechadas, e o silêncio.
Que sala escolher?
Diante de cada porta o Rei parava, pensava, e seguia adiante. Até chegar à Sala do Sono.
Abriu. Na sala acolchoada os pés do Rei afundavam até o tornozelo, o olhar se embaraçava em gazes, cortinas e véus pendurados como teias.
Sala de quase escuro, sempre igual. O Rei deitou a idéia adormecida na cama de marfim, baixou o cortinado, saiu e trancou a porta.
A chave prendeu no pescoço em grossa corrente. E nunca mais mexeu nela.
O tempo correu seus anos. Idéias o Rei não teve mais, nem sentiu falta, tão ocupado estava em governar. Envelhecia sem perceber, diante dos educados espelhos reais Que mentiam a verdade. Apenas, sentia-se mais triste e mais só, sem que nunca mais tivesse tido vontade de brincar nos jardins.
Só os ministros viam a velhice do Rei. Quando a cabeça ficou toda branca, disseram-lhe que já podia descansar, e o libertaram do manto.
Posta a coroa sobre a almofada, o Rei logo levou a mão à corrente.
  • Ninguém mais se ocupa de mim - dizia atravessando salões e descendo escadas a caminho das Salas do Tempo - ninguém mais me olha. Agora posso buscar minha Linda idéia e guardá-la só para mim.
    Abriu a porta, levantou o cortinado.
    Na cama de marfim, a idéia dormia azul como naquele dia.
    Como naquele dia, jovem, tão jovem, uma idéia menina. E linda. Mas o Rei não era mais o Rei daquele dia.
    Entre ele e a idéia estava todo o tempo passado lá fora, o tempo todo parado na Sala do Sono. Seus olhos não viam na idéia a mesma graça. Brincar não queria, nem Rir. Que fazer com ela? Nunca mais saberiam estar juntos como naquele dia.
    Sentado na beira da cama o Rei chorou suas duas últimas lágrimas, as que tinha guardado para a maior tristeza.
    Depois baixou o cortinado, e deixando a idéia adormecida, fechou para sempre a porta.
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domingo, 3 de outubro de 2010

Autobiografia em advérbios

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NIVALDO PEREIRA
Já dei um abraço em Hermeto Pascoal. Já tive um fusca verde-água chamado Bugrelau. Já pulei fogueira de São João. Já fui mordido por dois cachorros. Já passei de ônibus pela cidade maranhense de Imperatriz. Já perdi a conta de quantas vezes vi o filme Hair. Já acampei em Mangue Seco. Já tomei um porre medonho de licor de maracujá. Já li catecismos do Carlos Zéfiro. Já me escondi debaixo da cama. Já caminhei na Muralha da China. Já contei estrelas e tive medo de criar verrugas nos dedos. Já fui míope e quebrei os óculos. Já fui rezado contra mau-olhado. Já li fotonovelas. Já tomei choque elétrico em torneira de chuveiro. Já fiquei 15 dias mancando de uma perna depois de uma injeção de Benzetacil. Já acordei tarde no dia da última prova de um vestibular. Já aprendi a levantar depois de um escorregão.
Nunca aprendi direito a empregar o past perfect do inglês. Nunca li Proust. Nunca gostei muito de bossa nova. Nunca tive ambição de ser milionário. Nunca quis conhecer os Estados Unidos. Nunca subi no Cristo Redentor. Nunca fui a Manaus. Nunca voei de helicóptero. Nunca comi pato no tucupi. Nunca provei cachaça com cobra dentro da garrafa. Nunca acreditei em Papai Noel. Nunca imaginei que um dia viesse morar em Caxias do Sul. Nunca soube diferenciar um Monet de um Manet. Nunca deixei de gostar da voz de Gal Costa. Nunca usei jeans rasgado que não fosse pelo tempo de uso. Nunca tive tolerância com gente que pede desculpas por tudo. Nunca esqueci do remorso sentido depois de matar um passarinho com estilingue. Nunca farei tatuagem porque tenho horror a agulhas. Nunca considerei a palavra nunca um fim para sempre.
Não sei dançar conforme a música. Não sei assoviar vaiando. Não sei estalar os dedos para indicar intensidade. Não morro de amores por bife à milanesa. Não tenho paciência para ler manuais de instruções. Não gosto de noites de domingo em frente à televisão. Não admito que falem mal do Odair José. Não consigo disfarçar o medo quando raramente monto a cavalo. Não discuto crenças nem religiões. Não acho graça em tomar cerveja sozinho. Não suporto crediários. Não recebo panfletos distribuídos na rua. Não tenho disciplina para praticar esportes. Não vejo filmes com Mel Gibson. Não tenho a menor vocação para pechinchar. Não sei tocar nenhum instrumento. Não sinto fome logo que acordo. Não tomo leite puro. Não tenho medo de avião. Não tenho coragem de saltar de pára-quedas. Não vejo problema em sempre mudar de opinião.
Quase morri depois de um sarampo. Quase morri de novo depois de outro sarampo. Quase acertei o terno da loto na única vez em que joguei. Quase acreditei que devia ser publicitário e não jornalista. Quase enlouqueço quando escuto a transmissão de um jogo de futebol pelo rádio. Quase perco a compostura se falam comigo gritando. Quase espumo de raiva quando sou acordado cedo por alguma ligação de telemarketing. Quase constipei de tanto chorar na cena final de La Strada de Fellini. Quase gaguejei de emoção ao apertar a mão calorosa de Mercedes Sosa. Quase fui ao delírio quando vi uma montagem londrina de Jesus Cristo Superstar. Quase explodi de encantamento entre vaga-lumes numa certa noite estrelada da Chapada dos Veadeiros. Quase vivo implicando comigo mesmo por não saber ao certo o ponto de conter e o de ultrapassar as intensidades da vida.
Ainda hei de conhecer o Alasca. Ainda quero ler Proust. Ainda quero me comunicar sem as restrições do idioma. Ainda espero viver sem ter medo do próximo. Ainda sonho com a casa de amplo quintal e fértil jardim. Ainda pretendo caminhar bastante por esses chãos de Deus. Ainda vou rir e chorar outras vezes com Giulietta Masina em Noites de Cabíria. Ainda quero inventar macaquices com as crianças pequenas. Ainda quero aprender a tocar um instrumento. Ainda desejo passar muitas tardes em Itapuã. Ainda tenho no pé esquerdo a cicatriz de um caco de vidro da infância. Ainda guardo a lembrança do primeiro banho de rio. Ainda dói quando lembro daquele passarinho morto. Ainda gosto de contos de fadas e de mitologia. Ainda anseio explorar outros eus de mim. Ainda voarei de paraglider. Ainda perderei todo e qualquer medo de viver feliz.
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Grato Marina Cassino de Almeida.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Tempo que Foge

.Grato Adelbo Clementino.
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.O Tempo que Foge     
Contei os meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui parafrente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.  Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.  Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.Não tolero gabolices.  Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.  Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos,normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto deassembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger eperpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais. 
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar daidade cronológica, são imaturos.  Não quero ver os ponteiros do relógioavançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos fatos à limpo".
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral  (ou síndico).
Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ousobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porquegosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: - Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "As  pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.
Já não tenho tempo para ficar explicando aos medianos se estou ou nãoperdendo a fé porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius deMoraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a "última hora"; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente.
Caminhar perto delas nunca será perda de tempo.

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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ouvir: Escutar Atentamente

Grato Marina Almeida.
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Ouvir: Escutar Atentamente
Norm Anderson
Ouvir é "fazer um esforço consciente para escutar." É "prestar atenção" a uma outra pessoa.
Ouvir é fundamental para uma boa comunicação e parte vital do relacionamento íntimo. Inclui prestar atenção a mensagens que são enviadas através de uma variedade de meios.
Ouvir é importante porque torna a comunicação possível e esta é essencial para o desenvolvimento de relacionamentos. Assim, ouvir é algo de grande importância. Quando alguém envia mensagens sem que haja alguém para lhes dar atenção e fazer um esforço para recebê-las, a comunicação não acontece.
Há outra grande razão para que o ouvir seja tão importante: nós aprendemos quando ouvimos. Quando as pessoas deixam de ouvir umas às outras, raramente os relacionamentos se desenvolvem. Os mal-entendidos são freqüentes, o trabalho em equipe é deficiente e os erros são comuns. As pessoas podem estar tão concentradas em enviar mensagens que dedicam pouco ou nenhum tempo para ouvir as mensagens que estão sendo emitidas pelos outros. A insensibilidade em relação aos outros é freqüente e as pessoas, não raro, se distanciam emocionalmente.
Quando o ouvir é deficiente, é virtualmente impossível que as pessoas se conheçam e compreendam umas às outras. Ao contrário, elas se sentem ignoradas, como se os pensamentos que expressam não sejam importantes o bastante para que alguém lhes preste a devida atenção. As pessoas se sentem sozinhas ou isoladas. A frustração torna-se comum e cresce o nível de estresse. As pessoas querem se expressar, compartilhar suas idéias com outras. Elas querem e necessitam ser ouvidas.
Isto nos faz voltar à necessidade de atenção, o chamado respeito. Ouvir também é uma forma de cuidado, quando alguém dedica tempo para ouvir, demonstra que se importa.
Resultados do estímulo de ouvir: as pessoas se sentem importantes. A comunicação positiva aumenta. Nós aprendemos. Cresce o entendimento interpessoal. O trabalho em equipe melhora, Diminuem os erros e enganos.
"Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se." - Tiago 1.19
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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Duas Histórias

Grato Marina Almeida.
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Duas Histórias

História número um

Muitos anos atrás, Al Capone possuía virtualmente Chicago.
Capone não era famoso por nenhum ato heróico.
Ele era notório por empestear a cidade com tudo relativo a contrabando, bebida, prostituição e assassinatos.
Capone tinha um advogado apelidado "Easy Eddie". Era o seu advogado por um excelente motivo. Eddie era muito bom!
Na realidade, sua habilidade, manobrando no cipoal legal, manteve Al Capone fora da prisão por muito tempo.
Para mostrar seu apreço, Capone lhe pagava muito bem.
Não só o dinheiro era grande, como Eddie também tinha vantagens especiais.
Por exemplo, ele e a família moravam em uma mansão protegida, com todas as conveniências possíveis.
A propriedade era tão grande que ocupava um quarteirão inteiro em Chicago. Eddie vivia a vida da alta roda de Chicago, mostrando pouca preocupação com as atrocidades que ocorriam à sua volta.
No entanto, Easy Eddie tinha um ponto fraco.
Ele tinha um filho que amava afetuosamente. Eddie cuidava que seu jovem filho tivesse o melhor de tudo: roupas, carros e uma excelente educação.
Nada era poupado. Preço não era objeção. E, apesar do seu envolvimento com o crime organizado, Eddie tentou lhe ensinar o que era certo e o que era errado.
Eddie queria que seu filho se tornasse um homem melhor que ele.
Mesmo assim, com toda a sua riqueza e influência, havia duas coisas que ele não podia dar ao filho: ele não podia transmitir-lhe um nome bom ou um bom exemplo.
Um dia, o Easy Eddie chegou a uma decisão difícil.
Easy Eddie tentou corrigir as injustiças de que tinha participado.
Ele decidiu que iria às autoridades e contaria a verdade sobre Al "Scarface" Capone, limpando o seu nome manchado e oferecendo ao filho alguma semelhança de integridade.
Para fazer isto, ele teria que testemunhar contra a quadrilha, e sabia que o preço seria muito alto.
Ainda assim, ele testemunhou.
Em um ano, a vida de Easy Eddie terminou em um tiroteio em uma rua de Chicago.
Mas aos olhos dele, ele tinha dado ao filho o maior presente que poderia oferecer, ao maior preço que poderia pagar.
A polícia recolheu em seus bolsos um rosário, um crucifixo, uma medalha religiosa e um poema, recortado de uma revista.
O poema:
O relógio de vida recebe corda apenas uma vez
E nenhum homem tem o poder de decidir quando os ponteiros
pararão, se mais cedo ou mais tarde.
Agora é o único tempo que você possui.
Viva, ame e trabalhe com vontade.
Não ponha nenhuma esperança no tempo, pois o relógio pode parar a qualquer momento."

História número dois

A Segunda Guerra Mundial produziu muitos heróis.
Um deles foi o Comandante Butch O"Hare.
Ele era um piloto de caça, operando no porta-aviões Lexington, no Pacífico Sul.
Um dia, o seu esquadrão foi enviado em uma missão.
Quando já estavam voando, ele notou pelo medidor de combustível
que alguém tinha esquecido de encher os tanques.
Ele não teria combustível suficiente para completar a missão e retornar ao navio.
O líder do vôo o instruiu a voltar ao porta-aviões.
Relutantemente, ele saiu da formação e iniciou a volta à frota.
Quando estava voltando ao navio-mãe viu algo que fez seu sangue
gelar: um esquadrão de aviões japoneses voava na direção da frota americana.
Com os caças americanos afastados da frota, ela ficaria indefesa ao ataque.
Ele não podia alcançar seu esquadrão nem avisar a frota da aproximação do perigo.
Havia apenas uma coisa a fazer.
Ele teria que desviá-los da frota de alguma maneira.
Afastando todos os pensamentos sobre a sua segurança pessoal, ele
mergulhou sobre a formação de aviões japoneses.
Seus canhões de calibre 50, montados nas asas, disparavam enquanto ele atacava um surpreso avião inimigo e em seguida outro.
Butch costurou dentro e fora da formação, agora rompida e incendiou tantos aviões quanto possível, até que sua munição finalmente acabou.
Ainda assim, ele continuou a agressão.
Mergulhava na direção dos aviões, tentando destruir e danificar tantos aviões inimigos quanto possível, tornando-os impróprios para voar.
Finalmente, o exasperado esquadrão japonês partiu em outra direção.
Profundamente aliviado, Butch O"Hare e o seu avião danificado se dirigiram para o porta-aviões.
Logo à sua chegada ele informou seus superiores sobre o acontecido.
O filme da máquina fotográfica montada no avião contou a história com detalhes.
Mostrou a extensão da ousadia de Butch em atacar o esquadrão japonês para proteger a frota.
Na realidade, ele tinha destruído cinco aeronaves inimigas.
Isto ocorreu no dia 20 de fevereiro de 1942, e por aquela ação Butch se tornou o primeiro Ás da Marinha na 2ª Guerra Mundial, e o primeiro Aviador Naval a receber a Medalha Congressional de Honra.
No ano seguinte Butch morreu em combate aéreo com 29 anos de idade.
Sua cidade natal não permitiria que a memória deste herói da 2ª Guerra desaparecesse, e hoje, o Aeroporto O"Hare, o principal de Chicago, tem esse nome em tributo à coragem deste grande homem.
Assim, se porventura você passar no O"Hare International, pense nele e vá ao Museu comemorativo sobre Butch, visitando sua estátua e a Medalha de Honra. Fica situado entre os Terminais 1 e 2.
O que têm estas duas histórias de comum entre elas?
Butch O"Hare era o filho de Easy Eddie!
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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Nada acontece por acaso!

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Grato Marina Cassino de Almeida.



Nada acontece por acaso!

"...O maior erro do ser humano, é tentar tirar da cabeça aquilo que não sai do coração..."
Um dia, um rapaz pobre que vendia mercadorias de porta em porta para pagar seus estudos, viu que só lhe restava uma simples moeda de dez centavos e tinha fome.
Decidiu que pediria comida na próxima casa. Porém, seus nervos o traíram quando uma encantadora mulher jovem lhe abriu a porta.
Em vez de comida, pediu um copo de água.
Ela pensou que o jovem parecia faminto e assim lhe deu um grande copo de leite.
Ele bebeu devagar e depois lhe perguntou:
-- Quanto lhe devo?
-- Não me deves nada - respondeu ela. E continuou:
-- Minha mãe sempre nos ensinou a nunca aceitar pagamento por uma oferta caridosa.
Ele disse:
-- Pois te agradeço de todo coração.
Quando Howard Kelly saiu daquela casa, não só se sentiu mais forte fisicamente, mas também sua fé em Deus e nos homens ficou mais forte. Ele já estava resignado a se render e deixar tudo.
Anos depois, essa jovem mulher ficou gravemente doente.
Os médicos locais estavam confusos. Finalmente a enviaram à cidade grande, onde chamaram um especialista para estudar sua rara enfermidade.
Chamaram o Dr.Howard Kelly. Quando escutou o nome do povoado de onde ela viera, uma estranha luz encheu seus olhos.
Imediatamente, vestido com a sua bata de médico, foi ver a paciente. Reconheceu imediatamente aquela mulher. Determinou-se a fazer o melhor para salvar aquela vida. Passou a dedicar atenção especial àquela paciente.
Depois de uma demorada luta pela vida da enferma, ganhou a batalha.
O Dr. Kelly pediu a administração do hospital que lhe enviasse a fatura total dos gastos para aprová-la. Ele a conferiu, depois escreveu algo e mandou entregá-la no quarto da paciente.
Ela tinha medo de abri-la, porque sabia que levaria o resto da sua vida para pagar todos os gastos.
Mas finalmente abriu a fatura algo lhe chamou a atenção, pois estava escrito o seguinte:
"Totalmente pago há muitos anos com um copo de leite
ass.: Dr.Howard Kelly."
Lágrimas de alegria correram dos olhos da mulher e seu coração feliz rezou assim:
"Graças meu Deus porque teu amor se manifestou nas mãos e nos corações humanos."
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sábado, 11 de setembro de 2010

Sobre príncipes e sapos

Grato Marina Cassino de Almeida.
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Sobre príncipes e sapos

Sempre que respondo a alguém que sou psicanalista, inevitavelmente vem a pergunta: "E o que é a psicanálise?" Os mais sabidos, que j á ouviram ou leram sobre o assunto, dispensam introduções e vão logo ao exame de posições. "E qual é a linha que o senhor segue?" Me dá logo vontade de dizer que prefiro as curvas às retas - no que não estaria sendo infiel ao espírito da psicanálise, onde a curva é sempre o caminho mais curto entre dois pontos. Mas sei que não entenderiam, pois o que querem saber é se sou freudiano, kleiniano, bioniano, junguiano, lacaniano, etc, etc. Acontece que este não é o meu jeito. Preferindo as curvas às retas, sigo o conselho de Guimarães Rosa: só dou respostas para perguntas que ninguém nunca perguntou. E assim, meio num estilo oriental, meio num estilo evangélico, conto uma estória:
"Era uma vez um príncipe de voz maravilhosa que encantava a todas as criaturas que o ouviam. Seu canto era tão belo que seduziu até a bruxa que morava na floresta negra e que por ele também se apaixonou. Mas, diferente de todos os outros, que se sentiam felizes só de ouvir, ela resolveu cantar também. Que lindo dueto faremos, ela pensou. E logo se pôs a cantar. Acontece, entretanto, que bruxas não conseguem cantar afinado. Bastava que ela abrisse a boca para que dela saíssem os sons mais bizarros, que soavam como o coaxar de sapos e rãs. A vaia foi geral. A bruxa se encheu de uma inveja raivosa e lançou contra ele o mais terrível dos feitiços: Se não posso cantar como você canta, farei com que você cante como eu canto. E o príncipe foi transformado num sapo. Envergonhado de sua nova forma ele fugiu e se escondeu no fundo da lagoa, onde moravam os sapos e rãs. Ele ficou em tudo parecido aos batráquios. Menos numa coisa. Continuou a cantar tão bonito quanto sempre cantara. Mas desta vez quem não gostou do canto do novo sapo foram os sapos e as rãs que só sabiam coaxar. O canto novo soava aos seus ouvidos como coisa de outro mundo, que perturbava a concordância de sua monotonia sapal. Severos, advertiram: Quem mora com rãs e sapos tem de coaxar como rãs e sapos. O príncipe-sapo fez cessar o seu canto e não teve alternativas: teve de aprender a coaxar como todos os outros faziam. E tanto repetiu que acabou por se esquecer das canções de outrora. Não, não se esqueceu não... Porque, quando dormia, ele se lembrava e ouvia a música antiga proibida que continuava a se cantar dentro dele. Mas quando ele acordava, se esquecia. Mas não de tudo. Ficava uma saudade indefinível. Saudade, ele não sabia bem de quê. Saudade que lhe dizia que ele estava longe, muito longe do lar..."
Este é o resumo da psicanálise, tal como eu a entendo. É uma estória em que se misturam o amor, a beleza e o feitiço do esquecimento. Decepcionaram-se? Esperavam nomes famosos, conceitos complicados - e ao invés disto eu conto uma estória de fadas. Palavras para fazer as crianças dormirem, dirão. Mas eu acrescento: É para fazer os adultos acordarem ... A psicanálise é uma luta para quebrar o feitiço da palavra má que nos fez adormecer e esquecer a melodia bela. É um ouvir atento de uma canção que só se ouve no intervalo do silêncio do coaxar dos sapos, e que nos chega como pequenos e fugazes fragmentos desconexos. É uma batalha para nos fazer retornar ao nosso destino, inscrito nas funduras do mar da alma.
Li os clássicos. Mas foi pela palavra dos anônimos contadores de estórias de encantamento e no encantamento da palavra dos poetas que a letra morta ficou coisa viva. Melhor do que eu, diz estes segredos do corpo e da alma, Fernando Pessoa. Leia estes versos. Mas leia devagar. Leia de novo. É do nosso mistério que ele fala. É o nosso mistério que ele invoca: Cessa o teu canto! Cessa, que enquanto o ouvi, ouvia uma outra voz como que vindo nos interstícios do brando encanto com que o teu canto vinha até nós. Ouvi-te e ouvi-a no mesmo tempo e diferentes juntas a cantar E a melodia que não havia se agora a lembro faz-me chorar.
E ele pergunta: Foi tua voz encantamento que, sem querer, nesse momento vago acordou um ser qualquer alheio a nós que nos falou?
Será isto? Em nós mora um outro? Nos interstícios do coaxar, uma canção? Que outro é este? Que anjo, ao ergueres a tua voz, sem o saberes, veio baixar sobre esta terra onde a alma erra, e com suas asas soprou as brasas de ignoto lar?
Mora em nós um outro que não se esquece da nossa verdade...
Alguns pensam que psicanálise e poesia são coisas de loucos. Os sapos e as rãs, ao ouvirem as canções do príncipe poeta, só poderiam ter dito: É poeta! É louco! ... E trataram de cura-lo, educando-o para a realidade. Para eles ser normal é coaxar como todos coaxam. Mas a alma, em meio à ruidosa monotonia da vida, continua a ouvir uma voz que vem nos intervalos. Continua a chorar ao ouvir uma melodia que não havia. Continua a ouvir a fala de um estranho que mora em nós, e que nos visita em sonhos.
Continua a ser queimada pelas brasas da saudade de um lar esquecido, do qual estamos exilados.
É bem possível que os sapos e as rãs vivam mais tranqüilos. Para eles todas as questões já estão resolvidas.
Mas existe uma felicidade que só mora na beleza. E esta a gente s ó encontra na melodia que soa, esquecida e reprimida no fundo da alm.
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domingo, 5 de setembro de 2010

Sorriso

.Grato, Marina Cassino de Almeida.
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Sorriso

Vinicius Fortin
Caro distribuidor de sorrisos falsos, tenho um péssimo costume de escrever muito, mas desta vez eu quero ser o mais breve possível. Então, pare e pense: por que são necessários os tão usados sorrisos falsos? Por que mostrar às pessoas algo tão valioso quando não se é sincero?
Relacionamentos interpessoais são muito importantes na nossa vida. Família, amigos, colegas de trabalho, etc. São pessoas que compartilham da sua companhia no dia-a-dia, que contribuem para a sua formação e que são ajudadas pela sua presença. Mas para manter um bom relacionamento alguns agrados são necessários. E é aí que está o problema.
Todo mundo acha que o mais importante para um bom relacionamento é presente, agrado, companhia, etc. Agora me diz, quem gosta de estar ao lado de alguém mal humorado? Melhor, tente dar um presente para a sua namorada com a cara toda amassada de ressaca. Leve um chocolate para a sua mãe, jogue na mesa da sala enquanto ela assiste à novela e vá para o seu quarto.
Acreditando que vocês não tenham achado nenhuma destas situações muito agradáveis vou em frente e digo que estes itens podem ser importantes, mas não são os essenciais. Não são completamente eficazes em um relacionamento.
Agora, meu amigo, acorde de manhã, sorria e deseje a todos um ótimo dia. Chegue em casa, abrace sua mãe depois olhe nos olhos dela e, com um largo sorriso, diga que você a ama. Acorde sua namorada com um beijo suave e espere-a abrir os olhos com um belo sorriso.
O sorriso é algo tão especial que pode ser percebido há milhas de distância. Quer provar isso? Então experimente mandar um torpedo agora para qualquer um com a mensagem: .Vc é mto importante p/ mim. Obrigado por estar ao meu lado..
Ligue no celular da sua namorada às 3h da manhã e diga .Eu levantei para pegar uma bolacha na geladeira e resolvi ligar só para dizer que eu te amo..
Meus caros seres humanos, isso é relacionamento.
A gente gasta muito tempo preocupado com todos os nossos problemas e muitas vezes não percebemos o quanto nos faz falta exibir a nossa arcada dentária (mesmo que seja incompleta). E quase nunca percebemos o quanto isso faz falta para todas as pessoas que estão ao nosso lado.
Criem esse costume. Mostrem seus dentes e digam às pessoas o que sentem por elas. Não se apegue ao conceito de que estar junto, ou trazer um presente é o suficiente. Seja sincero consigo mesmo e da próxima vez que pensar que o seu sorriso é algo sem valor e que pode ser exibido para qualquer um, lembre-se de mim.
Lembre-se de que na vida bombons serão comidos, flores murcharão, roupas ficaram velhas, mas aquele dia que você acordou com aquela pessoa especial sentada na beira da cama esperando para te dar um beijo, meu amigo, esse dia você nunca mais esquecerá.
Seja feliz. Seja sincero. Ame. Mostre e SORRIA.
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O que eu consigo, o que eu quero, o que eu posso

Grato minha irmã Dária.


Rosana Hermann

Voltei a fazer terapia. Eu não estava planejando, mas aconteceu por acaso e estou tirando ótimo proveito das consultas. Hoje, por exemplo, eu aprendi que há termos complexos e bonitos para o que a gente é, para o que a gente quer, para o que pode ou não pode fazer. As duas palavra que aprendi são Filogênese e Ontogênese.

Filogênese refere-se à parte física e biológica, aquilo que nasce com a gente, que determina a limitação do que a gente consegue ou não fazer. Eu sou baixinha, não posso ser jogadora de basquete. Sempre fui mais para gordinha, nunca pude pensar em ser modelo. Portanto, meu querer no mundo real tem que estar condicionado a essas realidades filogenéticas. Querer ser modelo de passarela sendo baixinha é pedir pra passar a vida sofrendo. Não é comigo.
A parte da ontogênese diz respeito a sua criação. Seus valores morais, educacionais, culturais, religiosos. Se você foi criado num ambiente vegetariano é pouco provável que você queira ser um dono de churrascaria. O que você quer está ligado a tudo isso que você é, como você foi criado e vive sua vida.
E além do que a gente consegue e quer, tem aquilo que a gente pode ou não pode fazer. Essa é a parte complicada.

Usei uma metáfora para explicar para minha terapeuta o sentimento de injustiça e indecisão que me impede de fazer algumas coisas que eu acho que quero. Ei-la:
"Às vezes eu me sinto como o motorista de um carro, congestionada numa longa estrada que leva ao litoral, parada na minha faixa. Eu sei que está tudo parado, que não dá pra ultrapassar e só me resta esperar o trânsito melhorar. Estou na estrada certa, no caminho certo, na faixa certa, cumprindo meu dever de bom cidadão.
Enquanto estou ali parada, tentando me distrair, vejo muita gente correndo pelo acostamento e passando por mim e por todos.  Alguns podem até ser multados, mas a maioria vai fazer errado, vai ter benefícios e vai escapar ilesa. E mais, sei da minha experiência de praia que essas pessoas fazem a viagem em duas horas enquanto eu, a certinha, acabo levando quatro a cinco.
É um sentimento ruim, saber que quem faz o certo sofre mais e chega depois, enquanto quem faz errado não é punido, leva vantagem e ainda se sente mais esperto do que todos os bons cidadãos que esperaram a vez."

Eu tenho certeza que nessa 'longa estrada da vida', muita gente se sente assim. Em tudo. Sei que existem os espertos que viajam pelo acostamento, existem as meninas que dão pro professor pra passar de ano, as que dão pro chefe pra subir na vida, as que dão pra todo mundo pra ter um lugar na TV.  (Quer dar, vai lá e dá gostoso, mas...por interesse? #Fail) . Sei que existem os corruptos que vendem a alma, os que vendem o corpo, a mãe, o alheio. Eu sei que o mundo é assim. E é por isso que em alguns dias que sinto que não pertenço a tudo isso. E aí me dá vontade de morar num país de gente certinha, como o Canadá (pra onde minha irmã, que é igual a mim, imigrou em busca de justiça), para a Suécia, onde as coisas funcionam ou para Berlim, uma cidade onde uma mulher tem o direito de ter cabelos brancos sem ser desprezada por estar 'velha'.
Quantas pessoas você conhece no meio artístico que tiveram  o DIREITO de escolher ficar com os cabelos brancos? A Glória Menezes? E quem mais? Bom, a Cleyde Yáconis, que tem mais de 80 e mais algumas senhorinhas. Mas com 50? Quem tem coragem de ter cabelo todo branco sem ser desprezada ou demitida?
E é por isso que eu sou dependente química. Da L'Oreal. A cada 15 dias tenho que passar tinta na raiz porque se eu mostrar meus cabelos  brancos vão descontar das poucas virtudes que eu tenho.

Assim, aqui estou eu, tentando entender o que eu sou, o que eu posso, o que eu quero, o jeito que o mundo é, como as injustiças acontecem, para equacionar a melhor maneira de viver.
O mundo não é justo, coisas ruins acontecem pra pessoas boas e coisas ótimas acontecem pra gente ruim. Uma coisa eu sei: se você quer alguma coisa, fique por perto. Quem chega aonde quer não é o 'melhor', mas o que estava mais disponível e mais próximo.
Nesta vida, tem muita gente que não tem nem a filogênese, nem a ortogênese, nem gênese nenhuma e acaba ficando com o lugar que você queria porque a sorte sobrou pra ela.

Por enquanto, o que eu tenho é aquilo que eu construí. Com muita coragem.

Se eu pudesse eu faria como um velho professor que tive no segundo grau,.. Ele andava com um carimbo redondinho e, em qualquer papel que escrevesse, deixava sua assinatura: venci pelo esforço.

Vou continuar me esforçando.

E com a terapia, sem medo de ser má e torcer pra que todos os imbecis que se vão pelo acostamento e chegam na minha frente se dane de verde AND amarelo.

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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Antes do dia partir... O que valeu a pena hoje?

Grato Marina Cassino de Almeida.



Sempre tem alguma coisa. Um telefonema. Um filme...

Paulo Mendes Campos, em uma de suas crônicas reunidas no livro "o amor acaba", diz que devemos nos empenhar em não deixar o dia partir inultilmente.
Eu tenho, há anos, isso como lema.

É pieguice, mas antes de dormir, quando a noite chega e o sono ainda não veio, eu penso: o que valeu a pena hoje? Sempre tem alguma coisa.

Um telefonema. Um filme. Um corte de cabelo que deu certo. Um e-mail inspirado...
Até uma briga pode ter sido útil, caso tenha iluminado o que andava escuro dentro da gente.

Já para algumas pessoas, ganhar o dia é ganhar mesmo:
Ganhar um aumento, ganhar na loteria, ganhar um pedido de casamento, ganhar uma partida, ou até um presente.
Mas para quem valoriza apenas as megavitórias, sobram centenas de outros dias em que, aparentemente, nada acontece, e geralmente são essas pessoas que vivem dizendo que a vida não é boa, e seguem cultivando sua angústia existencial com cachaça e uísque, mesmo já tendo seu super apartamento, sua bela esposa, seu carro do ano e um salário aditivado.
Nas últimas semanas, meus dias foram salvos por detalhes.

Uma segunda-feira valeu por uma música que não conhecia e alguém me mandou por e-mail... Linda... Que me arrepiou, me transportou para uma época legal da minha vida, me fez querer dividir aquele momento com pessoas que são importantes pra mim.

E assim correm os dias, presenteando a gente com uma música, um crepúsculo, um instante especial que acaba compensando 24 horas banais.

Claro que tem dias que não servem pra nada, dias em que ninguém nos surpreende, o trabalho não rende e as horas se arrastam melancólicas,sem falar naqueles dias em que tudo dá errado:

Batemos o carro... Somos multados, e pra melhorar, depois perdemos a chave do carro no cinema...
Pois estou pra dizer que até a tristeza pode tornar um dia especial, só que não ficaremos sabendo disso na hora, e sim lá adiante, naquele lugar chamado futuro, onde tudo se justifica.

É muita condescendência com o cotidiano, eu sei, mas não deixar o dia de hoje partir inutilmente é o único meio de a gente aguardar com entusiasmo o dia de amanhã...
desconheço a autoria
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