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quarta-feira, 11 de julho de 2018

Haddad e o discurso petista

Celso Rocha de Barros - Folha de S. Paulo

Se o PT tiver um plano B, espero que também tenha uma retórica B

Desde que Fernando Haddad derrotou José Serra na eleição para prefeito de 2012, tornou-se presidenciável, e isso foi um dos problemas de sua prefeitura. Projetos que tinham sua assinatura foram criticados de modo completamente desproporcional, porque criticar Haddad era criticar o futuro candidato do PT a presidente. As faixas para ônibus, por exemplo, também foram introduzidas no Rio de Janeiro na administração Eduardo Paes, sem tanta controvérsia. Discussões sobre grafite e limpeza pública, ou sobre bicicletas, sempre foram debates sobre em quem votar para presidente.

De qualquer forma, com Lula fora do páreo, essa seria uma boa hora para Haddad começar a lucrar com a reputação de presidenciável, que até hoje só lhe causou problemas.

O ex-prefeito vem se mexendo. Na semana passada, entrou para a tendência “Construindo um Novo Brasil” (a antiga “Articulação”), grupo majoritário dentro do PT liderado por Lula. Até então, Haddad era próximo à “Mensagem para o Partido”, de Tarso Genro e José Eduardo Cardoso. Foi um movimento de candidato.

E Haddad tem seus trunfos. Sua administração combateu a corrupção, teve políticas bem avaliadas (em geral, muito mais bem avaliadas do que seu mandato) e foi fiscalmente responsável. Não há muito mais gente entre os quadros petistas de primeira linha que tenha esse currículo.

Mas aí é que está: se for para lançar Haddad com o discurso atual do PT, essas vantagens serão desperdiçadas. Porque o discurso atual do PT é uma porcaria.

Não há nenhuma possibilidade de Fernando Haddad dizer com sinceridade que apoia o regime de Nicolás Maduro. Se for para dizer isso, lancem alguém mais burro, ou que minta melhor. Haddad já passou tempo suficiente olhando para um orçamento público para saber que é preciso reformar a Previdência. Vão lançar o sujeito a presidente para fazê-lo passar vergonha dizendo que não tem déficit, ou que basta parar de pagar juros para os rentistas? Haddad ficou aquele tempo todo na USP lendo Habermas para mandarem ele agora ir lá na frente de todo mundo dizer que o Moro é agente da CIA?

Se quiserem entender melhor o que estou dizendo, olhem para o que Ciro Gomes vem passando. Depois de alguns meses muito bons para sua campanha, Ciro tem escorregado em entrevistas e ofendeu racialmente o vereador Fernando Holiday.

Eu gostaria de poder dizer que essas besteiras (e a ofensa grave) que Ciro disse foram só manifestações de seu temperamento, mas não acho que seja só isso. Ciro está falando as besteiras que acha que precisa dizer para atrair os eleitores de esquerda. Como lhe falta a prática em ser burro, a burrice soa ainda pior quando ele a diz. A mesma coisa vai acontecer com Haddad se o PT lançá-lo para presidente sem mudar o discurso oficial do partido.

Não espero que político seja 100% transparente em campanha. O candidato Haddad teria que fazer gestos retóricos para seu público, como Alckmin faz ao eleitorado que perdeu para Bolsonaro, que, por sua vez, nem sequer vai aos debates.

Mas a esta altura já era de se esperar que o PT tivesse aprendido a fazer campanha pensando em como vai governar. Se tiverem um “plano B”, espero que também tenham um “discurso B”. Até porque, é difícil substituir Lula, mas qualquer coisa é melhor que esse “discurso A”.
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Celso Rocha de Barros doutor em sociologia pela Universidade de Oxford

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Números iguais dizendo outra coisa

Celso Rocha de Barros - Folha de S. Paulo

Faltam quatro meses para a eleição e, até agora, a disputa parece ser anormal

A nova pesquisa Datafolha trouxe resultados bem diferentes da realizada em abril. Os números são quase exatamente os mesmos. Mas esses mesmos números, a tão pouco tempo da eleição, são um resultado muito diferente.

A discussão central entre os analistas da eleição de 2018 é se ela será uma eleição "normal". Haverá de novo uma polarização entre a centro-direita e a centro-esquerda, como vinha sendo PSDB vs. PT? O peso de estrutura de campanha, alianças, horário de TV e dinheiro será o mesmo que foi nas eleições anteriores? Não era esse o quadro no Datafolha de abril.

Lula ainda liderava tranquilamente, mesmo depois de condenado, e sem Lula na eleição a expectativa era de alta abstenção (uma evidente anormalidade). Mas esperava-se que Lula, depois de preso, perdesse seus votos para outra candidatura de esquerda.

Da mesma forma, Bolsonaro, o candidato mais extremista a disputar com chances a eleição presidencial brasileira em toda a nossa história, aparecia bem colocado, em segundo lugar, muito à frente dos candidatos de centro-direita. Mas esperava-se que esses votos de Bolsonaro voltassem para o centro conforme a candidatura de Alckmin se consolidasse. Faltam quatro meses para a eleição e, até agora, nada disso aconteceu. Os votos de Lula continuam não indo para lugar nenhum, e Bolsonaro continua bem na frente de Alckmin. Os votos de centro-esquerda estão indo para a abstenção, os de centro-direita estão indo para o extremo.

A eleição continua anormal. E faz muita diferença que o quadro tenha continuado assim depois de dois meses. Já deu tempo para desistir de Lula depois de vê-lo sendo preso, e pouca gente desistiu. Os eleitores de direita já sabem que têm uma opção mais moderada em que votar, mas os bolsonaristas não estão migrando para Alckmin.

Isto é, as pessoas que estão se desviando do normal das eleições brasileiras parecem ter convicções bem mais fortes do que achávamos. Nada disso vai mudar por inércia.

Para que a eleição volte a ser disputada em torno do centro, serão necessários gestos políticos grandes, o apoio de Lula a alguém, vitórias de Ciro contra o PT na disputa por aliados (por exemplo, pelo PSB), uma ofensiva muito bem-sucedida de Alckmin contra Bolsonaro.

Não se sabe se esses gestos serão possíveis, se terão tempo de tornarem-se eficazes, ou se neutralizarão um ao outro. O PT vai conseguir resistir à ofensiva de Ciro sobre o patrimônio eleitoral lulista? Se conseguir, será capaz de lançar candidato próprio viável ou a centro-esquerda vai cair dividida? Alckmin conseguirá derrubar Bolsonaro mesmo carregando os pesos mortos de Aécio e da participação no governo Temer? O Datafolha sugere que, no momento, é mais fácil fazer política de dentro da cadeia do que de perto do Planalto.

Até outubro, as máquinas políticas vão rodar, e a pressão pela normalização da eleição será maior. Mas, mesmo se o segundo turno for entre os bons e velhos PT e PSDB, que ninguém se engane: as máquinas não vão continuar rodando indefinidamente sem injeções periódicas de legitimidade. As atuais lideranças precisam se retirar, os partidos precisam se reorganizar ou abstenção e extremismo serão o novo normal.
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Celso Rocha de Barros é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford.

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