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domingo, 6 de março de 2011

O dilema de Sofia na Líbia

CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO

GENEBRA - Muammar Gaddafi, ao contrário de Hosni Mubarak e Ben Ali, resolveu ficar e lutar, deixando a comunidade internacional sem alternativas realmente atraentes para reagir.

As opções disponíveis só não são zero porque sempre é possível torcer para que o regime se desmanche sem que o resto do mundo precise fazer mais do que condená-lo verbalmente ou impor sanções cujo efeito, se houver, será a médio ou longo prazo.

Enquanto isso não acontece, enquanto o sangue continua correndo e enquanto se arma nas fronteiras uma tragédia humanitária, o dilema de Sofia para o mundo é assim descrito na revista eletrônica "Jadaliyya" (Polêmica), editada pelo Instituto de Estudos Árabes de Washington:

"De um lado, a inação internacional em face das atrocidades na Líbia parece inaceitável. Do outro lado, o deplorável registro de anteriores intervenções internacionais inspira pouco entusiasmo", escrevem Asli Bali, professor de direito na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e Ziad Abu-Rish, candidato ao doutorado no Departamento de História da universidade.

O envio direto de tropas está fora do cardápio, a julgar pelo que disse, na semana passada, o secretário norte-americano de Defesa, Robert Gates: "Na minha opinião, qualquer futuro secretário de Defesa que aconselhe o presidente a mandar de novo grande número de tropas americanas a Ásia, Oriente Médio ou África deveria ter sua mente submetida a exame".

Que tal então implementar uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia, para evitar que Gaddafi bombardeie os rebeldes e seus territórios ou para impedir que traga mais mercenários para dar continuidade ao banho de sangue?

Respondem Bali e Abu-Rish: "Não protegeria a população civil do aparelho coercitivo do regime (que não é principalmente aéreo)", além de levantar dúvidas sobre a aplicabilidade ("as forças internacionais derrubariam um avião líbio?"). Mais: proibir voos poderia bloquear uma via de resgate de civis líbios e fecharia uma avenida para defecções por membros da Força Aérea.

Mandar armas para os rebeldes? Primeiro, eles precisariam ser treinados para usá-las, e não há instrutores disponíveis no terreno. Segundo, "poderiam cair nas mãos erradas e serem usadas contra nós", escreve James Lindsay, do Council on Foreign Relations.

Lindsay lembra que o pós-Gaddafi pode não ser um regime estável e, sim, "algo que se pareça mais à Somália" (um dos grandes fracassos das tropas norte-americanas).

Por fim, um grave risco político apontado na análise da Economist Inteligence Unit, braço de pesquisa da mitológica revista britânica: "Qualquer ação militar pelos governos ocidentais correria o risco de deslegitimar as rebeliões que já ocorreram e minar possíveis revoltas populares em outras partes".

Há virtual consenso, entre autoridades e acadêmicos, de que a propriedade da democracia que se busca tem que ficar com os locais. Os exemplos de Afeganistão e Iraque mostram que mudanças de regime a bordo de tropas estrangeiras não são um modelo a ser seguido.

A menos que a situação no terreno se resolva logo, a comunidade internacional terá que escolher o menor entre tantos riscos.
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quinta-feira, 3 de março de 2011

Um fracasso global


CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO

Ouso discordar da manchete de ontem desta Folha, que dizia: "EUA atropelam a ONU e anunciam sanções à Líbia".

Na verdade, aconteceu mais ou menos o contrário: o mundo, o mundo todo, é que foi atropelado pelas revoltas árabes e, talvez por isso, demora uma eternidade para tentar conter os massacres.

Se alguém disser que previu a onda de revoltas que começou em dezembro na Tunísia, ou está mentindo ou o fez em voz tão baixa que ninguém ouviu.

O fato é que o mundo todo está feito tonto tentando entender o que está acontecendo e antever o futuro, pelo menos o futuro imediato.

Há especialistas que até se atrevem a fazê-lo, geralmente em tom apocalíptico.

Diz, por exemplo, Elliott Abrams, que serviu no Departamento de Estado sob George Walker Bush e agora é pesquisador do Council on Foreign Relations: "[Gaddafi] deixará para trás uma terra arrasada sem governo alternativo, sem verdadeiros partidos políticos, sem experiência em eleições livres, imprensa livre, tribunais independentes ou qualquer um dos blocos constitutivos da democracia".

Apocalíptico ou realista, o diagnóstico não deixa margem para corrigir o passado. Mas, quanto ao presente, deveria haver meios de intervenção que impeçam a terra arrasada. Nada contra impor sanções à Líbia, congelar contas do ditador, parentes e cúmplices.

Mas nada disso serve para enfrentar o problema imediato que é parar a sangria.

Aí entra-se no território da governança global, que, a rigor, inexiste. A exasperante lentidão com que se move a ONU, só pior no caso da União Europeia, denuncia essa inexistência. As sanções, tal como até agora propostas, parecem destinadas mais à consciência do público ocidental do que a evitar o sangue. Que, de resto, ninguém sabe onde mais vai correr.
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O emergente submergiu



CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO

No caso da tragédia do Rio, é só somar 1+1+1 e o resultado inexorável será a incompetência do poder público e o retrato de um país que tem mais de submergido que de emergente.
Primeiro 1 - O "Jornal Nacional" de quinta-feira mostrou que choveu mais em Portugal e na Austrália do que no Rio de Janeiro. Mas o número de mortos no Rio foi esmagadoramente superior.
Segundo 1 - O serviço de meteorologia emitiu aviso especial sobre a iminência de fortes chuvas precisamente nas áreas que acabaram sendo devastadas. Uma das prefeituras reconheceu ter recebido o aviso cinco horas antes da explosão. Nada foi feito.
Terceiro 1 - A manchete desta Folha, ontem, mostra que desde 2008 o Rio de Janeiro sabia perfeitamente que havia riscos tremendos nas cidades que foram as principais vítimas.
O que foi feito? Nada.
Tudo somado, o que se tem é o óbvio fato de que chuvas torrenciais podem acontecer, deslizamentos formidáveis também -e, até aí, a culpa é só da natureza-, mas falta, no Brasil, acontecer a prevenção.
Já nem digo a prevenção original, a de proibir construções em áreas de risco. A incompetência do poder público impediu que essa providência fosse tomada e, se fosse, seria inócua. Falta fiscalização.
Refiro-me à prevenção de, diante da iminência da catástrofe, minimizar os danos ou, ao menos, as mortes, os danos mais terríveis, mesmo nesta era de predominância da finança sobre a vida.
Posto de outra forma, o poder público não está presente nem antes, nem durante e nem depois da tragédia. Chama a atenção, pelo menos de longe, o fato de repórteres chegarem a locais aos quais, segundo informam, nenhum socorro conseguira chegar.
Em vez de emergente, o Brasil parece mais país em construção. Precária, muito precária.
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Olhares externos sobre a eleição

Olhares externos sobre a eleição


Inverto a direção desta "Janela": em vez de olhar para o mundo, fico um pouco de como o mundo está olhando para o Brasil em modo eleição. Antes, convém dizer que não se trata de um resumo exaustivo, até porque é raro que jornalistas estrangeiros, em qualquer país, consigam dizer algo que já não tenha sido tratado na mídia local.
O sentimento mais ou menos generalizado da mídia externa é que aparece no "New York Times": "Analistas têm poucas dúvidas de que Rousseff prevalecerá no dia 31 de outubro, dada a onda de prosperidade no Brasil e o apoio popular ao governo Lula".
Esse sentimento se mescla à surpresa com o fato de que a eleição não foi decidida no primeiro turno, ao contrário do que apontavam as pesquisas até a antevéspera da votação. Interessante é a interpretação do "Monde": "Brasileiros se recusam a dar um cheque em branco para Dilma Rousseff".
Interpretação diferente aparece no sítio "MercoPress", uma agência eletrônica de notícias do Mercosul: "Analistas acreditam que o apoio a [Marina] Silva foi um voto de protesto contra os dois principais candidatos". Aliás, a votação de Marina e seu papel de eventual "king maker" é outro sentimento muito presente nos jornais externos.
Agora que não há mais Marina, para onde irão seus votos? "MercoPress" acredita que a maior parte irá para Serra, porque Serra e Silva (Silva, Marina, não Silva, Lula) podem ter fechado um acordo".
Chute ou furo? Saberemos em breve.
Como há um virtual consenso de que, em política econômica, ganhe quem ganhe, haverá poucas mudanças, as inquietações se voltaram principalmente para a política externa de um futuro governo Dilma (sempre partindo do pressuposto de que ela é favorita).
O "Washington Post" ouviu José Eduardo Cardozo, coordenador da campanha de Dilma, avisar que ele espera que sua candidata siga, no geral, o exemplo de Lula, tanto em assuntos domésticos como externos, "o que [para o jornal] incluiu laços cordiais com líderes autoritários como Fidel Castro e o iraniano Mahmoud Ahmadinejad".
São esses laços que incomodam líderes ocidentais e boa parte dos analistas internacionais. Como Juliette de Rivero, da Human Rights Watch, que criticou o Brasil pela abstenção na Comissão de Direitos Humanos da ONU em decisões que condenaram a Coreia do Norte e o Congo. De Rivero ressalva, de todo modo, que, este ano, o Brasil votou contra a Coreia do Norte.
Nos jornais da rede McClatchy, aparece Marco Aurélio Garcia, assessor diplomático de Lula e coordenador do programa de governo de Dilma, dizendo que Dilma "manterá os princípios básicos [da política externa]". Ou seja promover a integração sul-americana, incrementar as alianças com países em desenvolvimento e manter o relacionamento com os Estados Unidos (em nível excelente, aliás).
Marco Aurélio prevê ainda diferenças apenas de estilo e diz que Dilma, inicialmente, voltará o seu foco para assuntos domésticos.
Coincide com o que tenho dito nas entrevistas que dei a meios internacionais, usando inclusive uma metáfora exagerada, ao estilo Lula: o presidente é do tipo efusivo, que beija na boca até líderes que acaba de conhecer; Dilma é muito mais reservada e apenas estenderá a mão para eles. Nem mesmo beijinho no rosto.

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha.

Felicidade nacional bruta

Com todo o investimento que se faz no Estado Forte, conforme entendimento doutrinário do atual presidente e de sua candidata, o artigo abaixo ressalta um problema contumaz e renitente: Os serviços públicos colocados à disposição do cidadão, que também é eleitor, são sofríveis e que não levam à inclusão social plena inobstante a um eventual aumento de renda líquida.
De toda sorte é um artigo bem escrito.
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Felicidade nacional bruta

Joseph Stiglitz, esse prêmio Nobel de Economia que é uma espécie de dom Quixote da economia moderna, sugeriu, faz um ano, pouco mais ou menos, que o tal de PIB (Produto Interno Bruto, medida da produção econômica do país) incorporasse outros elementos ligados ao bem estar e ao desenvolvimento sustentável.
Seria o que chamei, em colunas anteriores para a Folha, de FIB (Felicidade Interna Bruta), muito mais importante do que saber quanto aumentaram (ou diminuíram) a produção de carros, de soja, as importações e as exportações --e por aí vai.
Pois bem, o presidente Nicolas Sarkozy, esse mesmo que hoje está sob fogo por estimular todos os demônios xenófobos e por procurar uma saída para a crise pela arqui-percorrida via do corte de benefícios sociais, teve coragem para incorporar o chamado Relatório Stiglitz às contas nacionais.
Criou até uma comissão, presidida pelo próprio Stiglitz, para saber como tornar operacional essa nova maneira de medir a economia. Pois bem: no mês que vem, segundo anuncia o "Figaro", o Insee (Institut national de la statistique et des études économiques), que vem a ser o IBGE francês, começará a publicar um dossiê sobre as condições de vida, levando em conta as diferentes dimensões preconizadas pelo relatório do Nobel.
O jornal antecipa dados bem interessantes. Na área social, por exemplo, calculou-se "o efeito redistributivo do financiamento público da saúde e da educação". Conclusão: tais serviços (assegurados pelo Estado e de qualidade incomparavelmente superior na comparação com o Brasil, por mais que os franceses deles reclamem) representaram 23% da renda disponível dos lares.
Ou seja, cada família francesa teria que gastar 23% mais, se fosse obrigada a recorrer a serviços privados de educação e saúde.
Segunda conclusão: a brecha entre a renda disponível dos 20% mais ricos e a dos 20% mais pobres passaria dos atuais três vezes mais para cinco vezes mais, sem serviços públicos de saúde e educação.
Acho que não preciso dizer o quanto a classe média brasileira, que recorre à escolas privadas para os filhos e a seguro-saúde também privado para a família toda, se beneficiaria se pudesse confiar no setor público.
Fico muito curioso de saber o quanto aumentaria o bem-estar dos mais pobres, condenados a pôr os filhos numa escola pública em geral fraca e a enfrentar as filas dos hospitais públicos, se o Brasil tivesse a coragem de introduzir nas sua contabilidade a FIB inventada por Stiglitz.

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha

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