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terça-feira, 30 de julho de 2019

Celulares viraram casa da mãe joana

 - RONALDO LEMOS FOLHA DE SP - 29/07

É como se os celulares das autoridades tivessem se tornado lugares públicos

Peço perdão pelo título politicamente incorreto.

Mas o fato é que os celulares de muitas autoridades públicas brasileirasviraram uma espécie de casa da mãe joana. Em outras palavras, devido ao descaso absoluto com medidas básicas de segurança, muitas das informações desses aparelhos se tornaram totalmente vulneráveis.

Os fatos divulgados na semana passada sobre a invasão do celular do ministro Sergio Moro e outras autoridades do primeiro escalão podem indicar que o buraco é muito mais profundo. 

A técnica empregada pelos "hackers" da cidade de Araraquara na verdade não requer nenhum conhecimento profundo em tecnologia para ser utilizada. Ao contrário, o procedimento é tão rudimentar e simples que há inúmeros vídeos na internet ensinando como fazer a mesma coisa que os golpistas que vazaram os dados da Lava Jato fizeram (boa parte desses vídeos tem menos de um minuto e meio de duração). 

Ou seja, não é preciso ser hacker com conhecimentos técnicos para executar a modalidade de vazamento que aparentemente afetou centenas de pessoas públicas no país. 

Dado o caráter rudimentar do golpe, é possível conjecturar que potencialmente inúmeros aventureiros —talvez centenas— possam ter resolvido brincar de hacker, experimentando para ver se conseguiriam obter informações de pessoas politicamente expostas. 

É como se os celulares dessas autoridades tivessem se tornado lugares públicos, acessíveis a qualquer pessoa com a paciência de assistir a um vídeo de um minuto e meio e que obtenha o número de telefone de alguma autoridade pública (porque, assim que ela for hackeada, dará acesso também à sua lista completa de contatos para o golpista).

Então qual foi a falha? Como sempre, em casos como esse, o problema acontece em múltiplos pontos. O primeiro é o uso do aplicativo Telegram, que já foi apontado por instituições como a Electronic Frontier Foundation como tendo vários pontos vulneráveis. 

Outro problema é não ter acionado o segundo fator de autenticação do aplicativo, dando-se por satisfeito em utilizar apenas o número do telefone.

Outra vulnerabilidade está no fato de que as caixas de mensagens de voz dos celulares, em regra, podem ser acessadas automaticamente quando recebem uma ligação do próprio número da linha. Como o caso da semana passada demonstrou, fazer spoofing ("simular") um número de telefone é prática trivial hoje.

Mas um dos pontos cruciais é o fato de que não há política de cibersegurança implementada na administração pública brasileira. 

Quem lida com questões de segurança nacional (ou mesmo de interesse público) no primeiro escalão não deveria ter a opção de usar seu telefone comum, cheio de aplicativos comerciais com graus incertos de segurança. É o que acontece nos EUA, onde o presidente (e o primeiro escalão) passa a utilizar aparelhos especiais fornecidos pelas autoridades de segurança institucional, com exceção de Trump, que não topou todas as medidas.

Talvez a visibilidade que esse tema ganhou possa levar ao amadurecimento da cibersegurança na administração pública do país. Esse amadurecimento é tardio. Mas, se a lição da semana passada não foi suficiente, difícil dizer o que será.

READER
Já era: Não prestar atenção em cibersegurança

Já é: Aplicar golpe rudimentar para obter mensagens de aplicativos

Já vem: Continuação das mesmas práticas, já que até agora nada mudou

Ronaldo Lemos
Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

sábado, 25 de maio de 2019

Afinal, o que é ser um especialista?

- RONALDO LEMOS - FOLHA DE SP - 20/05

Pergunte a um especialista de internet quantas horas ele se dedicou ao tema

Dentre as características dos tempos que estamos vivendo atualmente, está um ataque ferrenho à ideia de especialistas. Em muitos círculos o termo virou palavrão. 

Afinal, a única opinião que importa seria do povo, mesmo quando “povo” seja definido como as pessoas (e robôs) que frequentam as redes sociais. Os especialistas, por sua vez, seriam uma opinião de segunda classe quando comparada a essa “sabedoria popular”.

Mas o que seria, afinal, um especialista? Uma das melhores definições existentes é a do escritor Malcolm Gladwell, no seu livro “Outliers” (traduzido no Brasil como “Fora de Série”), de 2008. No livro, Gladwell debate o que seria necessário para que uma pessoa se torne um especialista em um determinado campo.

É nesse contexto que ele oferece uma regra simples: especialista é todo aquele que investiu ao menos 10 mil horas de prática em um determinado assunto. Por exemplo, essa é a média de tempo a que um violinista de talento reconhecido globalmente se dedica sozinho antes da fama.

O próprio Gladwell estima que os Beatles teriam ensaiado ao menos 10 mil horas antes de tocar em Hamburgo no começo dos anos 1960. Ou, ainda, esse teria sido também o tempo que Bill Gates teria dedicado ao ofício de programação antes de finalmente desenvolver o Windows.

Da mesma forma, esse número é uma boa régua para dividir quem se declara especialista em um tema ou não. Se você se dedicou mais de 10 mil horas sobre um assunto, pode se considerar um especialista. Se não fez isso, é ainda um amador.

No entanto, em um livro de 2016, os professores Anders Ericsson e Robert Pool defendem uma versão revisada dessa “regra das 10 mil horas”. No livro (traduzido no Brasil como “Direto ao Ponto: Os Segredos na Nova Ciência da Expertise”), os autores dizem que essa regrinha é útil, mas não é universal.

Outros fatores, como o campo de atuação, podem ser influentes. Em algumas áreas, mais tempo seria necessário. Em outras, menos. Esse seria o caso dos próprios Beatles. Em um estudo feito em 2013, Mark Lewisohn, biógrafo da banda, estimou depois de uma detalhada análise que na verdade eles teriam ensaiado por volta de 1.100 horas antes de tocar em Hamburgo (e não 10 mil).

Além disso, a forma como essas horas são aplicadas também importa. Ficar só na teoria não é suficiente. Os autores defendem que a melhor forma de criar especialistas é colocando as pessoas para treinar suas especialidades na prática, especialmente de forma competitiva com outras pessoas.

É o que os autores chamam de método “Top Gun” (em homenagem à escola da Marinha americana, tornada famosa pelo filme dos anos 1980). Qual a melhor forma de formar bons pilotos de caça? Colocá-los para competir uns com os outros e selecionar os melhores. 

De nada adiantaria investir 10 mil horas na teoria da aviação de caça sem a possibilidade de colocá-la em prática.

Toda essa discussão é útil. No mínimo ela ajuda a distinguir o joio do trigo. Da próxima vez em que você encontrar um especialista na internet, pergunte quantas horas ele se dedicou àquele tema. Pergunte também como ele gastou essas horas. Depois de fazer isso, você terá uma baliza melhor para levar ou não a opinião da pessoa em consideração.

READER
Já era Monopólio da opinião por parte de alguns poucos especialistas

Já é Desvalorização generalizada da opinião de especialistas

Já vem Renascimento do valor da opinião dos especialistas, de forma mais diversificada

Ronaldo Lemos
Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

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