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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Educação aquém das metas

Ruy Martins Altenfelder Silva
Correio Braziliense 


Presidente do Conselho Diretor do CIEE Nacional e do Conselho de Administração do CIEE e presidente da Academia Paulista de Letras Jurídicas

O Plano Nacional de Educação 2011-2020 já começa com atraso. Enviado pela Presidência da República ao Congresso em dezembro de 2010, teve a apresentação do parecer da comissão especial da Câmara dos Deputados prorrogada no último dia 15 — dentro de um rito que prevê, ainda, votação em plenário, apreciação pelo Senado e sanção presidencial. Outro aspecto merece reflexão nesse processo de aprovação: a baixa repercussão na sociedade de um plano que afetará, para o bem ou para o mal, pelo menos as duas próximas gerações e constitui um dos gargalos mal resolvidos do país.

O CIEE, que há quase meio século cuida da inclusão profissional de jovens — e, portanto, atua na delicada intersecção entre os mundos do saber e do fazer —, vem detectando a constante queda de qualidade do ensino nas últimas décadas e sua influência negativa na empregabilidade jovem, que hoje bate na casa dos 12,6% na faixa etária de 20 e 24 anos e dos 22,9% no segmento 15 a 17 anos, segundo o IBGE, em contraponto aos cerca de 6% registrado entre a população economicamente ativa. E não é por falta de vagas, pois há milhares delas não preenchidas por falta de candidatos adequados.

Olhando o país como um todo, merecem elogio a universalização do acesso ao ensino fundamental e sua extensão para nove anos; o recente (embora ainda insuficiente) estímulo ao ensino técnico; a vinculação de benefícios assistenciais à frequência escolar dos filhos; o ProUni; e outras iniciativas que asseguram avanço na quantidade das matrículas nos três níveis da educação formal. A questão que se coloca, neste momento, é como as 20 metas do novo PNE poderão contribuir efetivamente para atenuar o sombrio cenário da educação embora até aqui as análises precisem se restringir ao campo das intenções, pois ainda não foram testadas na prática (lembrando que, nesta, a teoria pode ser outra).

Entre as metas, sete visam à valorização do professor, com iniciativas que vão desde a ampliação para 75% do número de mestres e doutores no corpo docente das instituições de ensino superior até a adoção de critérios técnicos para a nomeação de diretores de escolas — hoje feita por indicação política, planos de carreira, etc. Detalhe: o rendimento médio do profissional da educação não poderá ser inferior ao dos demais trabalhadores com escolaridade semelhante.

Com a questão praticamente resolvida no ciclo fundamental, o PNE fixa metas para o acesso à educação infantil e aos ensinos médio e superior — ponto em que o otimismo sofre uma queda, considerando o balanço de resultados do PNE atual. Por exemplo, aponta que 50% das crianças de até três anos devem ter acesso a creches. Entretanto, esse mesmo patamar já constava do atual PNE, mas o percentual concretizado não atinge 20%. O mesmo documento previa a erradicação do analfabetismo entre os brasileiros com mais de 15 anos até o final de 2010 — mas vergonhosa taxa ainda está em 9,7%. Isso sem falar do analfabetismo funcional e da incapacidade de os alunos da 3ª série do fundamental de resolver continhas de somar ou de interpretar um texto simples, por deficiência de leitura.

Também é ausência notável no novo PNE uma menção à necessária reestruturação do ensino médio regular, apontado por respeitados especialistas como ciclo de estudo sem foco preciso, sendo quase um curso preparatório para o vestibular, com excesso de matérias no currículo, em muitas das quais o aluno não vê utilidade para sua formação, entre outros aspectos que contribuem para inchar as taxas de evasão. Ponto positivo, entretanto, para a expansão do ensino médio técnico, com a duplicação do número de vagas, o que vem atender em parte à explosão da procura por parte de jovens que concluem o fundamental e já estão de olho nas oportunidades do mercado de trabalho.

Com sua permanente preocupação com o futuro dos jovens, o CIEE só tem a aplaudir a estratégia 3.6 da Meta 3 do PNE, dedicada ao ensino médio. Ela consagra expressamente o estímulo à expansão do estágio para estudantes do ensino médio profissionalizante e regular, preservando seu caráter pedagógico e alinhando-o à grade curricular da série em curso, "visando ao aprendizado de competências próprias da atividade profissional, à contextualização curricular e ao desenvolvimento do estudante para a vida cidadã e do trabalho". Exatamente o que ocorre com os programas que administra em total sintonia com a Lei do Estágio (11.788/2008).
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Educação e crescimento econômico

Uma excelente resenha crítica do artigo da pesquisadora american a, anexado.
Ela comprova a necessidade do conhecimento aprofundado que segue de encontro frontal com nossa cultura do corta, copia e cola. 
Vale muito a pena ler ambos. 


FERNANDO VELOSO
FOLHA DE SP


Estudos comprovam que a qualidade da educação influi mais no desempenho do país que acesso à escola

A educação é amplamente reconhecida como um dos principais determinantes do crescimento econômico. De fato, alguns dos países que mais cresceram nas últimas décadas -Coreia do Sul, Hong Kong e Cingapura- aparecem regularmente no topo das avaliações internacionais do nível de aprendizagem dos estudantes.

Existem pelo menos três mecanismos por meio dos quais a educação pode estimular o crescimento. O primeiro fator está relacionado à elevação do nível de qualificação da população e, em função disso, da produtividade do trabalho.

Os outros dois estão associados à sua importância para o progresso tecnológico. Por um lado, a educação aumenta a capacidade de inovação na economia e favorece o surgimento de novas tecnologias. Além disso, facilita a absorção de tecnologias já existentes e sua adoção no processo produtivo.

A despeito das diversas razões teóricas e dos casos de sucesso, somente na última década a relação empírica entre educação e crescimento foi claramente estabelecida. O processo por meio do qual isso ocorreu contribuiu de forma importante para a compreensão do papel da educação para a elevação do padrão de vida da população.

Em um conhecido estudo publicado dez anos atrás, "Where Has All the Education Gone?", Lant Pritchett (anexei o PDF) mostrou que, apesar de vários indicadores educacionais terem melhorado significativamente nas últimas décadas em vários países da África e da América Latina, o crescimento desses países foi nulo ou mesmo negativo se analisado durante o mesmo período. As evidências empíricas encontradas por Pritchett foram alçadas à categoria de "paradoxo da educação" por William Easterly em seu livro "The Elusive Quest for Growth", o que motivou uma série de estudos.

Dentre as várias explicações, a mais importante foi a que estabeleceu o papel crucial da qualidade da educação. Em várias pesquisas, Eric Hanushek mostrou que o nível de aprendizagem dos alunos, medido pelo seu desempenho em testes padronizados de matemática e ciências, tem um grande impacto no crescimento econômico.

Além disso, a qualidade da educação tem um efeito muito maior no desempenho econômico do que medidas de quantidade, como taxas de matrícula e número de anos de estudo da população.

Segundo Hanushek, o fraco crescimento econômico da América Latina em comparação aos países do Sudeste Asiático deve-se em grande medida ao fato de que, apesar dos progressos em indicadores de quantidade, a qualidade da educação nos países latino-americanos ainda é muito baixa.

O desafio para esses países será complementar o acesso à escola com políticas que assegurem um nível elevado de qualidade da educação. Disso dependerão suas perspectivas de crescimento econômico sustentado.

FERNANDO VELOSO, 44, é pesquisador do Ibre/FGV.
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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Soltar pipas para baixo

Quando estava na vida ativa organizacional lembro que meu chefe, nas reuniões semanais, comentava os problemas que nós, da Força Aérea, enfrentávamos na relação gerencial, institucional e orçamentária com os demais ministérios e instituições civis. Via de regra tínhamos problemas que nos custavam caro ao já combalido orçamento, sem falar no TCU e Ministério Público com o bafo na nossa nuca.

Relembro que ele  sempre comentava: “Estamos amadurencendo, estamos aprendendo com as experiências.” Um dia não resisti e lhe perguntei ao fim de sua preleção para a platéia lotada: “Comandante, eu poderia chegar para uma senhora de 65 anos (chamamos a Aeronáutica carinhosamente de “viúva”) e dizer para ele não se angustiar com seus erros porque ela está em processo de amadurecimento e aprendizado? Uma senhora que já participou de uma guerra mundial, guerrilhas na selva e está para lançar um satélite no espaço (foi antes do acidente em Alcântara, no Maranhão)?  Bem, o silêncio seguido de uma observação amigavelmente jocosa, foi seu retorno.

Com o tempo descobri a resposta: Nossa força de trabalho sempre foi predominantemente jovem, por causa das aposentadorias precoces, concursos públicos etc,  e nunca termos tido o bom hábito de debatermos, como o europeu e americano, as “lições aprendidas”, daí não registrarmos os passos, acertos e erros de um processo ou projeto. Via de regra um responsável por projeto importante “passava para a reserva” ou era aprovado em concurso público e não passava bem “a história” de seu setor nem todo o conhecimento adquirido, não escrito, dos meandros não constantes de manuais, estatutos e regulamentos.

Ampliando a projeção para nossa sociedade vejo que, de fato, somos uma sociedade jovem. Os professores, Phd, do mestrado que cursei sempre falavam: “Os países da AL são sociedades muito jovens, ainda estão amadurecendo.” Entendi, com as aulas e palestras de outros professores, embaixadores e demais autoridades, oriundos da Europa, Ásia e África, que comparávamos às deles, milenares e fruto de muito sofrimento, guerra e invernos rigorosos. Observei que todos os países do antigo G8 sofreram duas guerras e invernos rigorosos. Esses eventos históricos e sociais têm a virtude de aglutinar os cidadãos em torno de objetivos comuns de bem-estar coletivo. Nossa Constituição Federal jamais passaria no crivo de um vilarejo da Europa Setentrional, notadamente onde o inverno é mais impiedoso.

Aprendi, fruto de leituras e aulas com experts, que muitos cidadãos europeus morreram em casa, durante as duas guerras mundiais sem serem atingidos por uma bala ou estilhaço de bombas ou de material explodido como projétil. Morreram em casa de frio ou de doenças causadas por infecções, epidemias, vírus etc etc. Guerra e Inverno educavam na marra os cidadãos a pensarem no vizinho, na rua e no bairro. Galerias entupidas de lixo quando no inverno ou nas guerras impediam o fornecimento de gás e proliferavam insetos, roedores, pragas etc.

Com o passar dos anos os europeus se habituaram a se antecipar aos problemas acompanhando e cobrando nas pautas de campanhas políticas. Viram que apoiar insanamente projetos megalômanos (i. e. nazista e facista – sem se esquecer que foram eleitos em segundo turno em processo de votação democrático) causavam irremediáveis problemas em longo prazo.

Outro exemplo é que guerra e inverno produzem líderes engajados, com experiência vivida, prontos para defender projetos de Estado, com a sociedade cobrando a fatura caso se desviassem do comprometido. Vários exemplos de Estadistas europeus viveram os percalços das guerras e invernos rigorosos.

O que vemos hoje nos movimentos sociais de contestação na Europa são fruto de memória coletiva registrada acerca da perda de confiança da sociedade nos representantes do Estado. Eles sabem, por experiência passada e registrada, que o que os salva da calamidade é um 
Estado bem estruturado e gerenciado. Quando o Estado falha as greves e conflitos surgem de imediato, não precisam de caras-pintadas nem de petês articulando (ontem na oposição, hoje na situação).

Tive um professor, Phd especialista em Rússia, que havia estudado por trinta anos aquele país. Quando ele deu aula para minha turma eu comentei com ele que de acordo com o site da revista Economist, que eu assinava, as notícias falando acerca do crescimento da China tiveram muito menos acesso do que aquelas que comentavam a repressão de Putin que exterminou os terroristas chechenos em um teatro. Ele me respondeu que a Europa tem uma atenção constante com a Rússia.

No ano seguinte o professor voltou para dar aulas no momento em que havia uma publicação da mesma revista com uma charge de Putin estendendo a mão direita de forma suave e a mão esquerda, feita de ferro, batendo firme em uma mesa. A mensagem era que ele cedia a presidência democraticamente e concorria para ser primeiro-ministro, o que é até hoje controlando o presidente, apagado. Novamente a edição daquela revista teve um número recorde na Europa. Perguntei ao professor e ele me respondeu assim: “Se mais de sessenta por cento do gás de sua cidade viesse da Rússia você também não compraria essa revista?”. Respondeu e matou a charada. E completou: “Isso é a memória coletiva das privações das guerras e do inverno.”...Memória...coletiva...palavras-chave.

Trazendo esse conceito para os dias de hoje, em nossa sociedade, tenho mais um exemplo do porque temos comportamento de sociedade jovem. Enquanto ainda temos sérios problemas de saúde, saneamento, cidades alagadas, pessoas há mais de um ano morando em alojamentos improvisados, epidemias de dengue, problemas de energia elétrica, infra-estrutura, evasão escolar, apagão de mão-de-obra, volta da inflação, nossos representantes no Congresso estão presos, diariamente, a questiúnculas: Palocci, kit anti-hemofibia, discriminação lingüística, etc etc...

Sim, de fato, somos jovens e muito imaturos. Nosso processo de crescimento ainda nos dará muita dor desnecessária por focarmos nossas energias e recursos em direções erradas.

Lendo o belo livro “A menina que roubava livros” e também já tendo lido “O caçador de pipas”, cada um retratando a vivência coletiva de sociedades de idiossincrasia milenares, remeto minha lembrança a minha infância, em Mesquita, na Baixada Fluminense, quando empinava pipas, papagaios, nas ruas. Lembro dos “filhinhos de papai” tentando empinar as suas das varandas ou janelas dos apartamentos, longe do contato dos meninos de rua....nossa sociedade seriam os meninos de apartamento, que viviam sem sair para as ruas, amadurecer como crianças normais e que se contentavam e soltar (empinar)  pipas para baixo, da janela de seu quarto, protegido das traumáticas experiências da rua. Nós nas ruas calejados em estratégias de nos divertir fugindo dos garotos mais velhos e dos “rapas” que nos levavam pipas, linhas, rabiolas e tudo.

Enquanto isso, os garotos das janelas, protegidos, tentavam teorizar sobre a arte de colocar uma pipa no ar. De certa forma, nós vivíamos as dores do crescimento real, o contato com a globalização e o desafio de viver em diferentes culturas e circunstâncias, já os meninos das janelas seriam os que tenderiam a normatizar a atividade das pipas da mesma forma que tentam impor na sociedade suas visões obtusas acerca de comportamento sexual e de proteção do cidadão contra a opressão de se aprender, e bem, os difíceis meandros da língua portuguesa.

Enfim, dores do crescimento...
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Educação, caso de política ou de polícia?

Frei Betto - Correio Braziliense - 22/10/2010


O IBGE divulgou, a 17 de setembro, a Síntese de Indicadores Sociais 2010. O IBGE é um órgão do governo federal. Portanto, não está a serviço da oposição nem dos detratores do governo Lula. Felizmente, é sério e isento. Os dados concernentes à educação no Brasil são estarrecedores.

Em 2009, 14,8% dos jovens de 15 a 17 anos se encontravam fora da escola. E 32,8% daqueles que tinham entre 18 e 24 anos deixaram os estudos sem completar o ensino médio. (Haja mão de obra desqualificada e candidatos ao narcotráfico...).

Comparado aos demais países do Mercosul, o Brasil tinha a maior taxa de abandono do nível médio — 10% dos alunos. Na Argentina, 7%; no Uruguai, 6,8%; no Chile, 2,9%; no Paraguai, 2,3%; e na Venezuela, 1%.

Por que nossos jovens abandonam a escola? Os principais fatores são a falta de recursos para pagar os estudos e o reduzido número de escolas públicas; o desinteresse; a constante repetência, provocada por pedagogias ultrapassadas, desmotivação e frequente ausência de professores; a dificuldade de transporte e a necessidade de ingressar precocemente no mercado de trabalho.

Para se ter um aluno empenhado em fazer um bom ensino médio é preciso que a motivação seja despertada na pré-escola e no ensino fundamental. Ora, como alcançar esse objetivo se nossas crianças ficam, em geral, apenas quatro horas por dia na escola? A média latino-americana é de seis horas!

Apesar disso, houve avanços nos últimos 10 anos, quando quase dobrou o número de jovens de 18 a 24 anos que concluíram o ensino médio ou ingressaram na universidade. Se em 1999 apenas 29,6% dos alunos terminaram o ensino médio, em 2009 o índice subiu para 55,9%. Em 1999, 21,7% tinham 11 anos de estudos (tempo suficiente para completar o ensino médio). Em 2009, 40,7% frequentaram a escola durante 11 anos. Em 1999, 7,9% ingressaram na universidade; em 2009, 15,2%.

Em 2009, 30,8% dos jovens entre 18 e 24 anos concluíram algum curso de qualificação profissional. Em 2004, apenas 17,2%. Esse avanço se deve ao empenho do governo em multiplicar o número de escolas técnicas, bem como o Sistema S (Senai, Senac etc.), e as bolsas de estudos concedidas via ProUni.

Por trás dos dados positivos se escondem desigualdades gritantes. Em 2009, 81% dos jovens de 15 a 17 anos entre os 20% mais pobres estavam na escola. Entre os 20% mais ricos, o índice subia para 93,9%. Graças ao sistema de cotas e ao ProUni, dobrou o número de universitários com mais de 25 anos que se declaram negros: 2,3% em 1999 e 4,7% em 2009. Já o índice dos que se declaram brancos é quatro vezes maior: 15%.

O Brasil conta com 3,6 milhões de crianças com menos de quatro anos de idade e é ínfimo o número de creches para elas. O que significa que estão sujeitas a graves desvios pedagógicos por longo tempo de exposição à TV, permanente convivência com adultos ou idosos, muitas vezes entregues a vizinhos enquanto os pais cumprem o horário de trabalho. A Constituição assegura, no Capítulo II — Dos Direitos Sociais, “assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até seis anos de idade em creches e pré-escolas”. Quantas empresas cumprem?

Segundo o IBGE, até 14 anos de idade há, no Brasil, uma população de pouco mais de 54 milhões de pessoas. Dessas, 5 milhões, ou 10,9% do total, vivem em situação de risco, em moradias sem água tratada, rede de esgoto e coleta de lixo. O Nordeste concentra a maior parte dessas crianças: 19,2%. E o Maranhão e o Piauí lideram essa estatística. A pesquisa apontou ainda que quase 39,4% dos alunos do ensino fundamental frequentam escolas sem rede de esgoto e 10% delas não contam nem com água potável.

Falta muito a fazer. Enquanto a educação brasileira não alcançar o nível mínimo de qualidade, continuaremos a ser uma nação desigual, injusta, subdesenvolvida e dependente. Também, pudera; embora a Constituição exija que sejam aplicados 8% do PIB na educação, o investimento do governo na área não chega a 5%. E o orçamento do Ministério da Cultura para 2011 é inferior a 1%.

Não é de estranhar o nepotismo na Casa Civil e os Tiriricas na corrida eleitoral. Além de educação, falta ao Brasil vergonha na cara. Desse jeito, o descaso da política para com a educação acaba virando caso de polícia, tamanho o crescimento da violência urbana. 

Escritor, é autor de Alfabetto - autobiografia escolar (Ática), entre outros livros

terça-feira, 12 de outubro de 2010

MEC admite mau resultado do programa

MEC admite mau resultado do programa
O Globo - 11/10/2010



 O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, André Lázaro, admite que o Brasil Alfabetizado teve um impacto menor do que o esperado na redução do analfabetismo.

Mas considera excelente o formato do programa e defende maior participação do Sistema Único de Saúde (SUS) no atendimento oftalmológico e na distribuição de óculos para a população iletrada: A queda (do analfabetismo) não é proporcional aos nossos esforços.

Segundo ele, 80% das turmas do Brasil Alfabetizado funcionam no Nordeste.

Essa seria a explicação para a diminuição mais acentuada do analfabetismo entre a população de 15 anos ou mais na região: de 22,43%, para 18,7%, de 2004 para 2009.

No Brasil, a redução foi de 11,45% para 9,7%.

Lázaro reconhece que as taxas de analfabetismo permaneceram no mesmo patamar em três regiões: no Sudeste, a variação foi de 6,62% para 5,7%, entre 2004 e 2009; no Sul, de 6,28% para 5,5%; e no CentroOeste, de 9,18% para 8%. E, no Nordeste, ela tem caído em ritmo menor do que o desejado.

Isso significa que a gente não tem conseguido alcançar os analfabetos.

Para ele, porém, o Brasil Alfabetizado tem muitos pontos positivos: Temos um excelente programa. O desenho é bom, porque dá autonomia aos parceiros. E o foco no Nordeste tem apresentado resultados. Na região urbana, a taxa de analfabetismo de 15 a 29 anos (1,76%) já é bastante reduzida. Os nossos maiores desafios estão na população idosa e rural.

Lázaro aposta nas parcerias com prefeituras e governos estaduais. Para ele, o MEC não teria como tocar sozinho um programa da magnitude do Brasil Alfabetizado, que não conta sequer com uma rede de escolas. Segundo o secretário, 30% das turmas funcionam na casa dos alfabetizadores, igrejas e salas comunitárias.

Ele acredita que o Brasil cumprirá a meta das Nações Unidas, que prevê chegar a 2015 com taxa de analfabetismo de 6,7%. E, embora evite criticar o IBGE, diz que espera o resultado do censo para saber o tamanho do problema, pois a Pnad é feita por amostragem e pode conter erros.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Cenas de um país caricato.

Se fôramos contar a um marciano ou estrangeiro ririam decerto, eu função da realidade apresentada. Analfabeto trabalhando no MEC só pode ser piada.
Como o problema persiste há mais de 25 anos claro está que não deve ser atribuído a um presidente ou gestão, é mais profundo e penetra nas três esferas da vida pública, a começar no município.
Como também se dá em grandes cidades, o fenômeno não se adstringe a lugares ínvios do território. 
Resta-nos esperar uma radiografia honesta para saber onde a sociedade está errando por omissão dinâmica.
Cumpre relembrar que o TSE acusou mais de cinquenta por cento de analfabetismo funcional entre os 134 milhões de eleitores.
E haja 80% de aprovação para "aprovar" isso que está aí.




MEC GASTA R$ 2 BILHÕES E NÃO ALFABETIZA


Brasil Alfabetizado gasta, mas não alfabetiza
Demétrio Weber - O Globo - 11/10/2010


Em seu oitavo ano, o programa Brasil Alfabetizado já gastou R$ 2 bilhões, mas teve impacto pequeno na redução do analfabetismo. O índice de iletrados, na faixa de 15 anos ou mais, só caiu de 11,6%, em 2003, para 9,7%, em 2009.  
Criado há oito anos, programa do governo Lula já custou R$ 2 bilhões, mas índice de iletrados caiu menos de 2%.
O faxineiro Edvaldo Félix Bezerra limpa banheiros no setor de transporte e garagem da Câmara dos Deputados.
Entra às 7h e começa o dia sujando o polegar de tinta. Aos 53 anos, Edvaldo é analfabeto e preenche a folha de ponto com a impressão digital. Principal meta do Ministério da Educação (MEC) no início do governo Lula, a erradicação do analfabetismo está longe de virar realidade.
Em seu oitavo ano, o programa Brasil Alfabetizado já gastou R$ 2 bilhões, em valores atualizados, e matriculou milhões de jovens e adultos. Mas o índice de iletrados, na faixa de 15 anos ou mais, caiu menos de dois pontos percentuais: de 11,6%, em 2003, para 9,7%, em 2009, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE.
O número absoluto de analfabetos está na casa de 14 milhões desde 2006, segundo a Pnad. No ano passado, eram 14,1 milhões.
Até o fim de 2010, o Brasil Alfabetizado deverá atingir a marca de 14 milhões de matrículas, considerando-se a quantidade de alunos atendidos a cada ano.
Em 2010, a previsão é atingir 2,2 milhões de jovens e adultos. A maioria das turmas, porém, só começará nos próximos meses, avançando sobre 2011.
Coincidentemente, o total de vagas oferecidas pelo Brasil Alfabetizado (14 milhões) está perto de igualar o número absoluto de iletrados. Ou seja, podese afirmar que o programa do MEC criou condições de atender um número equivalente ao de jovens e adultos analfabetos no país. Os dados da Pnad sugerem, porém, que a iniciativa não surtiu o efeito desejado.
Teste para aferir aprendizado só foi criado em 2009 Outro problema é que o MEC desconhece a eficácia do Brasil Alfabetizado. Só em 2009 o ministério instituiu um teste para aferir a aprendizagem ao final do curso. Como o programa é realizado em parceria com governos estaduais e prefeituras, não é o MEC que aplica a avaliação.
Além disso, cabe aos parceiros informar os resultados. E muitos deixam de fazer isso.
No ano passado, ao renovar as parcerias, o MEC cobrou informações sobre o desempenho das turmas de 2007, quando ainda não havia um teste padronizado.
De 1,3 milhão de alunos supostamente atendidos naquele ano, pelo menos 927 mil teriam concluído o curso e 666 mil teriam sido alfabetizados, segundo as informações que chegaram ao MEC. Como nem todos os parceiros continuaram no programa, os resultados desses alunos não foram enviados.
O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, André Lázaro, diz que a evasão no Brasil Alfabetizado gira em torno de 30%. Embora a Pnad informe que a idade média do analfabeto brasileiro era de 54 anos, o país tinha 5,4 milhões de iletrados com menos de 50 anos, em 2009. A maioria vivendo em áreas urbanas: 3,2 milhões nas cidades e 1,8 milhão no campo.
O faxineiro Edvaldo não é o único analfabeto no setor de transporte e garagem da Câmara.

Raimundo Oliveira, de 53 anos, também usa o dedo para assinar o ponto. Ele abandonou a escola para servidores da Câmara. Edvaldo, que nasceu em Pesqueira (PE), conta que abandonou a escola ainda criança, pois não gostava de estudar e só queria trabalhar na roça: Me arrependi muito porque não estudei quando era novo.
A pessoa que sabe ler conhece muita coisa e pode arrumar um serviço melhor diz Edvaldo, que recebe R$ 600 por mês, somando salário e benefícios.

Até no MEC há analfabetos.

Embora seja capaz de assinar o nome e, com algum esforço, ler até frases, Almir Alves Rodrigues, de 37 anos, está no limiar entre o analfabeto absoluto e o funcional, aquele que lê, mas não entende. Almir é faxineiro terceirizado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), agência do MEC responsável pela pósgraduação.
Nascido no Distrito Federal, ele diz que terminou a 4ªsérie do ensino fundamental, mas largou a escola para ajudar a mãe, trabalhando como vendedor de balas e engraxate.
Sei ler muito pouco. O mais difícil são aquelas letras enganchadas diz Almir.
O Brasil Alfabetizado não apareceu na propaganda eleitoral da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. O motivo é simples: o programa, que já foi reformulado uma vez, ainda não consegue funcionar direito. Até 2006, os convênios eram celebrados também com organizações não-governamentais. O MEC acabou com a parceria com ONGs, passando a firmar convênios apenas com prefeituras e governos estaduais.
Um dos objetivos era atrair professores da rede pública para atuarem como alfabetizadores.
A meta era que, pelo menos 75% dos alfabetizadores fossem docentes. Segundo André Lázaro, porém, o percentual de professores gira em torno de 15%. Eles recebem R$ 250 por mês para dar quatro aulas por semana.
O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) foi ministro da Educação no primeiro ano do governo Lula e lançou o Brasil Alfabetizado. Ele critica a mudança de prioridade no MEC.
No início de 2004, logo após a demissão de Cristovam, erradicar o analfabetismo deixou de ser meta do governo: O nível de analfabetismo no Brasil é uma dívida que continua depois dos governos de Fernando Henrique, de Lula e de 25 anos de democracia. Uma vergonha nacional diz.
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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Um em cada cinco brasileiros é analfabeto funcional, diz IBGE

Insistindo em uma radiografia real e necessária.
Os desafios ainda são grandes e complexos.
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Um em cada cinco brasileiros é analfabeto funcional, diz IBGE

.A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada nesta quarta-feira pelo governo, mostra que um em cada cinco brasileiros de 15 anos ou mais (20,3% do total) são analfabetos funcionais, ou seja, tem menos de quatro anos de estudo.

A pesquisa, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) entrevistou 153.837 pessoas em todo o país até setembro de 2009.
De acordo com os dados do ano passado, o analfabetismo atinge que 14,1 milhões de brasileiros (9,7% da população). O número é somente 1,8 ponto percentual menor do que em 2004.
O Nordeste ainda tem o maior índice de analfabetismo, quase o dobro da média brasileira. Mesmo assim, o número caiu de 22,4% da população para 18,7% na região em cinco anos.
A pesquisa ainda aponta que, nas regiões Norte e Nordeste, há mais homens analfabetos do que mulheres, e que 12% da população acima de 25 anos é analfabeta, ou cerca de 13,4 milhões de pessoas.
Segundo dados da Unesco, o Brasil teve uma taxa média de analfabetismo maior do que a da América do Sul entre 2005 a 2008.
Evasão escolar
Apesar do analfabetismo persistente, a Pnad indica que a escolarização no Brasil aumentou desde 2008.
Mais de 96% das crianças de 6 a 14 anos estão na escola em todas as regiões do Brasil e, entre os adolescentes de 15 a 17 anos, o número é superior a 90%.
O índice diminui drasticamente entre os jovens de 18 a 24 anos. Somente 38,5% frequentaram uma instituição de ensino em 2009.
Além disso, os dados da pesquisa mostram que boa parte dos alunos não completa o ensino médio.
Em 2009, a média de anos estudo de brasileiros de mais de dez anos de idade foi de 7,2, quase quatro anos a menos do que o previsto pelo sistema educacional brasileiro.
Atraso no saneamento básico
O acesso dos brasileiros a serviços de primeira necessidade como o saneamento básico ainda cresce em ritmo lento, segundo os dados da Pnad.
De acordo com o estudo, o Brasil ainda tem 40% de domicílios sem rede de esgoto, quase a mesma porcentagem de 2008.
As regiões Norte e Nordeste têm a menor quantidade de casas com saneamento. No Norte, são somente 555 mil domicílios e, no Nordeste, 5,2 milhões.
CliqueQuase metade das cidades no Brasil não tem acesso à rede de esgoto, indica IBGE.
Por outro lado, o IBGE diz que hoje quase 84,4% das casas são atendidas pela rede de abastecimento de água, cerca de dois pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.
O levantamento indica que 1,2 milhão passaram a receber o serviço desde 2008.
Atualmente, 88,6% das casas tem acesso a coleta de lixo e 98,9% à rede elétrica.
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