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quinta-feira, 25 de julho de 2019

Novo premiê, mesmas incertezas


Boris Johnson assume como primeiro-ministro britânico com a principal missão de resolver o impasse em torno do Brexit

       
Notas & Informações, O Estado de S.Paulo
25 de julho de 2019 | 03h00

O ex-prefeito de Londres, ex-ministro do Exterior e novo líder conservador Boris Johnson foi incumbido pela rainha Elizabeth II de formar o novo governo do Reino Unido. Sua principal missão como primeiro-ministro, se não a única nos próximos três meses, será resolver a mais grave crise enfrentada por seu país em tempos de paz na história recente, o impasse em torno do Brexit.

A antecessora de Johnson no número 10 de Downing Street, Theresa May, caiu justamente por não ter conseguido aprovar no Parlamento um plano de separação negociada entre o Reino Unido e a União Europeia (UE). Os termos negociados por May com a UE em Bruxelas foram rejeitados nada menos do que três vezes pela Câmara dos Comuns. A pressão do tempo agora recai sobre os ombros de Johnson: com ou sem acordo, o Reino Unido estará fora da UE no dia 31 de outubro. De acordo com as autoridades em Bruxelas, a UE não admite negociar este prazo mais uma vez.

Boris Johnson foi uma das vozes mais efusivas a favor do Brexit no curso da acirrada campanha plebiscitária de 2016, quando os britânicos decidiram sair da UE por 52% a 48% dos votos. Em seu primeiro discurso após a audiência com a rainha no Palácio de Buckingham, Boris Johnson disse que seu “mantra” na disputa pela liderança do Partido Conservador foi “realizar o Brexit, unir o país e derrotar (o líder trabalhista) Jeremy Corbyn”, e “é isso que fará”.

A missão de levar a cabo a vontade da maioria dos britânicos de sair da UE agora está nas mãos de um apaixonado defensor da ideia. Theresa May, a despeito de ter cumprido seu mandato com profissionalismo e espírito público, sempre foi identificada como remainer, ou seja, uma defensora da permanência do Reino Unido na UE. Entretanto, se Johnson é um legítimo leaver, há dúvidas se o premiê terá habilidade política para conduzir um processo tão complexo como o Brexit de modo a evitar as pesadas consequências que uma saída “dura”, ou seja, sem acordo de transição, teria sobre a economia de seu país e sobre a vida de milhões de britânicos.

Boris Johnson é tido como um político de grande preparo intelectual e ampla visão. Mas seus discursos contraditórios e o pouco apreço que tem pelos detalhes de uma negociação mantêm no ar uma boa dose de incerteza quanto ao futuro do Brexit. Antes de ter sido escolhido para liderar os conservadores e, consequentemente, ser o primeiro-ministro, Johnson dizia que, eleito, levaria o Reino Unido para fora da UE “com ou sem acordo” no dia 31 de outubro. Agora, embora mantenha firme a posição sobre o prazo, já admite que a saída não negociada é “uma possibilidade remota”.

O ponto nevrálgico para um Brexit negociado é a questão da fronteira entre a Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido, e a Irlanda republicana ao sul, país-membro da UE. Não se admite o restabelecimento de uma fronteira física ou aduaneira entre os dois países desde o Acordo da Sexta-feira Santa, assinado em 1998 pelos governos britânico e irlandês. O acordo pôs fim ao sangrento conflito entre nacionalistas da Irlanda e unionistas da Irlanda do Norte. É justamente a aliança com o Partido Unionista Democrático (DUP, na sigla em inglês) que garante aos conservadores a maioria no Parlamento britânico e a prerrogativa de indicar o primeiro-ministro.

Para tentar solucionar esse impasse, a ex-primeira-ministra Theresa May concebeu o que chamou de backstop, uma união aduaneira temporária entre as Irlandas a fim de evitar o controle de mercadorias na fronteira até que uma solução definitiva fosse encontrada. Não deu certo com ela e não há o que indique que dará certo no governo de Boris Johnson. O impasse está mantido.

O governo do Reino Unido tem um novo chefe, mas as incertezas permanecem. Boris Johnson pode tanto entregar o que prometeu como pode ter um dos mais curtos mandatos como primeiro-ministro. O Parlamento britânico não irá sustentar um governo que leve o Reino Unido a um Brexit não negociado.

domingo, 26 de maio de 2019

O futuro da Europa em xeque

*Maria Clara R. M. do Prado: 
- Valor Econômico

Pesquisas têm revelado a expansão dos partidos eurocéticos, populistas e radicais de direita na preferência do eleitor

Em trajetória por diferentes cidades europeias, o filósofo francês Bernard-Henri Levy, trasvestido de "one man show", encenou a peça-monólogo de sua autoria "Looking for Europe" (Procurando pela Europa), entre os meses de março e maio. Em quase duas horas de espetáculo, um delirante personagem vocifera um texto solto, repleto de citações desamarradas, caminhando de um lado para outro, com um constante movimento de braços a marcar o ritmo da fala.

Considerações críticas ao espetáculo à parte, a romaria de Bernard-Henri, que começou em Milão e incluiu Barcelona, Atenas, Kiev, Budapeste, Gdansk, Berlim, Vinus e Viena, entre outras, buscou disseminar um alerta contra a tendência de crescimento dos partidos de extrema direita no continente e do populismo que ele reputa como "um vento mau que assola a Europa".

Em Lisboa, no dia 6 de maio, o escritor e filósofo enalteceu sob largos aplausos a Revolução de 25 de Abril, que havia recém completado 45 anos. A data encaixava-se bem no objetivo de reafirmar a importância da democracia e do multiculturalismo para a continuidade do projeto de Europa unificada, iniciado com a criação da Comunidade Econômica Europeia, em 1957. Para ele, vive-se hoje na região, como um pesadelo que regressa, os conflitos que marcaram o que ele chama de "miniatura da Europa que era a Bósnia há 25 anos".

A peregrinação de Levy, na tentativa de evitar que a Europa "sucumba à mediocridade e à covardia", coincidiu com as vésperas das eleições para um novo período legislativo do parlamento europeu, a serem realizadas neste mês, entre os dias 23 e 26, nos 28 países que hoje compõem a UE. Há, em verdade, uma grande preocupação por parte dos liberais e dos partidos de centro direita e de centro esquerda, sem falar nos intelectuais, com a perspectiva de que os partidos de extrema direita conquistem desta vez uma significativa presença na instituição que representa o segundo maior eleitorado no mundo. A rigor, estas eleições são vistas como a mais importante de todas para o parlamento europeu.

Motivos não faltam. Para começar, a indefinição sobre a conclusão do Brexit criou um problema de última hora com relação ao tamanho do parlamento. Desenhado para abrigar 751 assentos, foi reduzido para 705 pelas autoridades europeias na certeza de que na época das eleições deste ano as condições da saída do Reino Unido já estariam totalmente definidas. Diante dos sucessivos impasses políticos de Londres e contra a vontade da primeira-ministra Theresa May, o número de assentos voltou a 751 de modo a abrigar os parlamentares britânicos, sem que se saiba ao certo o que acontecerá quando o Brexit for efetivamente assinado.

A reviravolta abriu uma grande oportunidade política para Nigel Farage, ex-UKIP, um eurocético de primeira hora, que tem liderado as pesquisas de opinião no Reino Unido para o parlamento europeu com o seu atual partido, que ele chamou de Brexit.

Na sondagem realizada pelo Instituto Opinium para o jornal The Observer, no dia 12 de maio, o partido Brexit, de Farage, liderava as intenções de voto com 34% do total, uma participação maior do que a soma das preferências dadas ao partido trabalhista (21%) e aos representantes do partido conservador (11%).

No âmbito mais largo da UE, as pesquisas têm revelado a expansão dos partidos eurocéticos, populistas e radicais de direita na preferência do eleitorado. Diante do quadro, Levy teme o que chama de "terceiro suicídio da Europa" e diz que está na hora de lutar uma "nova batalha pela civilização".

Tem razão. O movimento em prol das bandeiras nacionalistas está em plena marcha. O maior líder da extrema direita na Europa hoje, o vice-presidente e ministro do interior da Itália, Matteo Salvini, está à frente das articulações que visam a formação de um bloco, com vistas às eleições ao parlamento europeu, entre os diversos partidos que se posicionam contra a imigração, contra a UE, contra o pluralismo e que, via de regra, têm as mesmas posições sobre as questões de identidade. São contra o aborto e o casamento igualitário de gênero. Usam uma retórica eloquente, com ênfase nas palavras salvação, patriotismo e unidade nacional, sempre priorizando os naturais de cada país.

Salvini tem pretensões de promover o populismo de direita no mundo e já conseguiu formalizar uma aliança entre o seu partido, a Liga, com o AfD da Alemanha, o Finns da Finlândia, o Partido Popular Dinamarquês, o austríaco Partido da Liberdade e com o francês Agrupamento Nacional, ex-Frente Nacional, de Marine Le Pen.

Outros partidos radicais de direita estão na mira, como o Partido Lei e Justiça (PiS) que lidera o governo na Polônia, o partido Liberdade e Democracia Direta (SPD) da República Checa, o Partido da Liberdade holandês, o Movimento 5 Estrelas, também italiano, e o Vox, que nas eleições do último abril conseguiu garantir 24 cadeiras no parlamento espanhol. O Fidesz, que governa a Hungria, tem feito parte da coalizão do Partido Popular Europeu.

Há no meio político europeu um grande esforço dos representantes dos partidos moderados junto aos eleitores para que a maioria das cadeiras no parlamento europeu continue com os partidos de centro, centro-direita e centro-esquerda, e com os liberais.

Mais do que em qualquer outro lugar no mundo, todos na Europa se lembram das consequências da ascensão ao poder, nos anos 30, do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, sucessor do Partido dos Trabalhadores Alemães, fundado em 1919 como um partido de extrema-direita que pregava o fim da República de Weimar, o antissemitismo e o antibolchevismo. Cresceu com a convicção dos eleitores alemães de que seria a salvação da cultura ocidental, um lema que volta a ganhar espaço político 74 anos depois do mundo ter se defrontado com a vergonha do holocausto.

*Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin - Comunicação Inteligente e autora do livro "A Real História do Real".


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