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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Acelera e freia

Numa crônica sutil e inteligente Veríssimo antevê o futuro, podes crer.
Se ela fugir dessa dinâmica abaixo prevista e se mantiver firme na austeridade se ele concorrer eu voto nela, sem dúvida alguma.

Acelera e freia
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Luis Fernando Verissimo 

Acontece muito na administração de clubes de futebol. Uma direção gastadora é seguida por uma direção austera, uma aceleradora por uma freadora, uma irresponsável - ou "audaz" na sua própria avaliação - por uma realista. A gastadora gasta o que não tem, compra times de sonho e deixa o clube num buraco, do qual a austera precisa tirá-lo. Sacrifica-se então o futebol pela economia e a sensatez. O que geralmente não dá certo e leva a torcida a pedir audácia de novo, e outro acelerador na direção.

A analogia com o Brasil de Lula e de Dilma é quase perfeita. Como a torcida, no futebol, o povo se interessa por resultados, não por contas ajustadas. Os resultados vieram com Lula, as contas ficaram para Dilma. Os resultados foram evidentes - aumento do poder de consumo de quem antes não consumia, mobilidade social inédita, empregos em alta -, mas as contas pertencem àquele nebuloso mundo do longo prazo e da estabilidade estrutural, nada menos palpável. Os resultados explicam, em parte, a popularidade de Lula, que ainda crescia no fim do seu governo. Não se sabe como a austeridade afetará a opinião nacional sobre Dilma.

A analogia só não é perfeita porque os ciclos de aceleração e freadas de um clube de futebol afetam o humor passageiro da sua torcida enquanto a decisão de um governo de gastar mais ou menos mexe com a vida de uma nação inteira, e não apenas sua vida econômica. A opção de investir ou cortar é uma escolha ideológica do Estado, diferente da simples necessidade de evitar a falência ou desmoralização de um clube.

Num país que precisa crescer extraordinariamente a ortodoxia econômica pode ser uma distração. Um governo cuja prioridade declarada é eliminar a miséria do país não pode fazer isso usando uma contabilidade convencional, ou a calculadora do inimigo. Ou talvez a audácia da Dilma seja fechar o cofre e, ao mesmo tempo, contratar o Ronaldinho Gaúcho.

Ou talvez tenha havido um entendimento, um testa a testa, entre Lula e Dilma na transmissão do cargo.

Lula - Você pisa no freio, sai do governo em desgraça e eu volto em 2014 nos braços do povo para acelerar outra vez.

Dilma - Combinado! 
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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Tiririca e Sarney


VERISSIMO
O GLOBO 

O Richard Nixon certa vez defendeu sua nomeação de um juiz reconhecidamente inadequado para a Corte Suprema americana com o argumento de que a mediocridade também precisava estar representada no tribunal. Perfeito. Todos os tipos de cidadãos devem ser representados numa democracia. Nesse sentido o recém-empossado congresso brasileiro talvez seja o mais representativo da nossa história. Além dos medíocres, muitos outros brasileiros têm voz, ou pelo menos presença de terças a quintas, no Congresso. Alguns setores são até super-representados, como o dos grandes proprietários rurais e o dos milionários. Apesar destes pertencerem à menor minoria no país, têm uma bancada bem maior que a da maioria pobre. Mas, em geral, todos os eleitores brasileiros, todos os tipos e todas as características nacionais, têm representação em Brasília. Não lamente o novo Congresso, portanto. Eles são nós.

Tomemos o Tiririca e o Sarney. Os dois seriam exemplos, respectivamente, de desvirtuamento do processo eleitoral e de aviltamento dos costumes políticos, uma vergonha. Ou duas vergonhas. Tiririca um inocente transformado em legislador por uma galhofa, Sarney eternizando-se no comando do Senado pelo seu poder de manobra e de conchavo, um cordeiro e uma raposa representando os extremos da nossa desilusão com a fauna parlamentar. Mas Tiririca não representa apenas os palhaços do Brasil. A galhofa que o elegeu é uma manifestação política, ou anti-política, que tem história no país e ou representa os que não sabem nada de nada e não querem saber, ou os que sabem tanto que votam em palhaços e rinocerontes para protestar. 

De qualquer forma, os simples e os enojados também têm sua bancada. E existe algo mais brasileiro, folclórico e até enternecedor do que Sarney e seu amor pela mesa diretora? Falar mal do Sarney é um pouco como falar mal de um velho tio excêntrico, mas cujas peripécias divertem a família. 

Tudo se perdoa e tudo se aceita com a frase “Que figura...”. O indestrutível Sarney representa a persistência do gosto nacional por “figuras”. Mas há um caso flagrante de sub-representação no Congresso, além dos sem-terra e dos pobres. Quando o senador Paim olha em volta do senado não vê nenhum outro negro como ele a não ser um eventual garçom servindo o cafezinho. Nada é perfeito.
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Entre grades



VERISSIMO - O Estado de S.Paulo

O Vladimir Nabokov certa vez deu uma curiosa explicação sobre a origem do seu romance Lolita. Disse que sua inspiração fora a notícia que lera em algum lugar sobre uma experiência feita num jardim zoológico em que ensinaram um gorila a desenhar, e o primeiro desenho feito pelo gorila foi das barras da sua jaula.

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Se Nabokov não estava deliberadamente tentando enlouquecer um entrevistador - afinal, o que o gorila entre grades tem a ver com a história da paixão de um homem mais velho por uma menina de 12 anos, e seu trágico desfecho? - sua resposta pode ter vários significados. Um deles é o confinamento dentro do próprio texto que é a sina de todo autor, mais evidente no caso do narrador de Lolita, um prisioneiro do seu estilo tanto quanto da sua obsessão por ninfetas. Como o gorila artista dentro da sua jaula, o narrador escreve sobre os seus limites. O seu verdadeiro assunto é a linguagem.

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Humbert Humbert, o narrador de Lolita, escreve em vários níveis de paródia. Parodia a vulgaridade americana do ponto de vista de um intelectual europeu mas também faz uma a paródia do intelectual europeu deslocado e ridicularizado no Novo Mundo, em que o autodesprezo pela sua impostura cultural se mistura com a culpa. Mas ele não pode se livrar nem do seu pedantismo nem da sua obsessão. Lolita está cheio de jogos de palavras, imagens preciosistas, símbolos obscuros, referências literárias - toda a parafernália da ostentação intelectual mobilizada para um só fim, o de justificar uma paixão incomum. Tanto o gorila quanto o Humbert Humbert descrevem o que os separa do mundo.

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No livro A Última Tentação de Cristo de Kazantzakis há um diálogo em que um personagem diz a outro que seus olhos não entendem a mensagem de um profeta porque não veem nada além das palavras. "Mas o que as palavras podem dizer? Elas são as grades negras de uma prisão onde o espírito grita para ser ouvido." No seu livro Speak, Memory (Fala, memória) o próprio Nabokov diz que está "cativo num zoo de palavras". A ideia das palavras como grades que impedem a expressão do espírito ou como uma insatisfatória seleção sem alternativas de animais atrás das cercas de um zoo deve ter ocorrido a muitos autores. Em toda a fascinante literatura da Clarice Lispector, por exemplo, se repete este choque com o limite da linguagem, esta incapacidade angustiante de dizer o indizível, de ultrapassar as grades. O que se quer dizer está sempre lá fora, além das palavras.

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"A glória de Deus é encobrir, mas a glória dos reis é tudo investigar", disse Salomão (Provérbios 25:2). Substitua-se "reis" por escritores e artistas e sua busca de glória pela investigação de toda a experiência humana e seus mistérios, e chegamos ao Nabokov e seu gorila. Nunca ultrapassaremos as grades. Podemos no máximo sacudi-las com mais ou menos talento ou vigor, mas resignados à ideia de que a verdadeira glória de Deus começa onde termina a linguagem.

Pois se trata de um Deus ciumento, senhor de todas as nossas paixões, e indisposto a compartilhar sua glória, ou sua literatura, com quem quer que seja. Mesmo o Nabokov ou a Clarice. 
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Detalhes



VERISSIMO
O GLOBO

Não quero fazer intriga, mas na hora de ser cumprimentada pelos representantes estrangeiros depois da posse a Dilma recebeu a Hillary e o Hugo Chávez com a mesma efusão – mas deu um passo à frente para receber a Hillary. Não sei o que isso possa sinalizar sobre novas diretrizes para nossa política externa, mas deu na vista.


A posse esteve cheia de detalhes assim. Da sua entrada na Câmara até chegar à mesa onde seria diplomada a Dilma foi distribuindo beijos e aí também se notou uma variação com possíveis conotações políticas. Em alguns ela dava um beijo, em outros dois beijos. É verdade que alguns (do PMDB), depois de receberem um beijo da Dilma, se apressavam a ficar na frente dela de novo para receber outro, mas assim mesmo a quantidade de beijos deve ter significado algo. Estabeleceu-se uma hierarquia instantânea, os beijados e os bi-beijados, que pode muito bem se refletir em futuras votações no Congresso.

O tempo gasto com beijos também marcou a primeira grande diferença de se ter uma mulher na presidência. Eu não me lembro de nenhum presidente ter custado tanto a chegar na mesa por ter ficado distribuindo beijos no caminho. Nem o Itamar, nas mulheres.

O detalhe mais simpático da festa foi a Dilma na base da rampa do palácio e o Lula no topo, os dois se enxergando pela primeira vez naquele dia, e ela abrindo os braços como quem diz “olha nós aqui: dá pra acreditar?”. E ele fazendo o mesmo gesto lá de cima.

A incredulidade com o que estava acontecendo deve ter acometido muita gente, a começar pela Dilma e o Lula.

E o detalhe mais bonito do dia, claro, foi a Marcela Temer.
Já contei mais de uma vez que um dia vi o Millôr arrancar aplausos entusiasmados de uma plateia, durante a Jornada Literária de Passo Fundo, com a leitura de um magnífico discurso em defesa das liberdades democráticas. Quando terminaram os aplausos o Millôr revelou que acabara de ler o discurso de posse do general Garrastazu Médici, que inauguraria o período mais duro do arbítrio militar no governo. Só para lembrar que deve-se dar importância relativa a discursos de posse. No seu, Dilma disse o previsível, mas disse bem. E tocou de forma sucinta mas emocionada no detalhe mais importante do momento, o contraste entre o seu passado na clandestinidade e na prisão, no tempo da luta contra o arbítrio, e a sua investidura como presidente do Brasil. Ela poderia muito bem ter terminado o discurso abrindo os braços e dizendo “Olha eu aqui: dá pra acreditar?”. 
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domingo, 26 de dezembro de 2010

Crer

VERISSIMO 
O Estado de S.Paulo 

O garoto me pediu um cavalo. Eu perguntei: "Um cavalinho de brinquedo?" Ele disse: "Não, um cavalo de verdade." Eu disse que ia ver, mas que seria difícil carregar um cavalo de verdade no meu saco.
Ele ficou me olhando. Depois disse:
- Você não é o Papai Noel de verdade, é?
- Claro que sou. Por que você pergunta?
- Porque no outro xópi tem um Papai Noel igual a você.
- E você pediu um cavalo pra ele?
- Pedi. E ele disse que ia me dar.
- Bom, talvez o saco dele seja maior do que o meu.
- Mas o Papai Noel de verdade é ele ou é você?
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O que dizer para o garoto? É que nós temos o poder da ubiquidade, entende? Ubiquidade. A capacidade de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Onipresença. Pergunte a sua mãe. Só existe um Papai Noel, mas ele está por toda parte. Está em todos os shoppings do mundo. Cada Papai Noel é a manifestação de uma mesma e única entidade superior. Só muda o nome e o tamanho do saco. Eu sei, é um conceito difícil de entender. Ainda mais na sua idade. Há anos, séculos, discute-se a natureza desta entidade multipartida. Existiu um Papai Noel histórico, que viveu e morreu, mas seu espírito perdurou, e perdura até hoje, porque a sua essência transcendia a sua materialidade. Sua sobre-existência supratemporal e a-histórica, como a definiria Kierkegaard, depende de uma predisposição da humanidade para ver na sua figura a idealização de um paradigma infantil de bom provedor, e a eternização da infância num "pai" amável que nunca morre, e volta, ciclicamente, todos os anos, ano após ano, na mesma data. No resto do ano ele reassume a sua imaterialidade mas mantém-se introjetado nos que acreditam nele, controlando suas ações e pensamentos, que serão premiados ou punidos quando da sua rematerialização anual, numa espécie Juízo Final parcelado. Eu, o Papai Noel do outro shopping e todos os milhares, milhões de papais noéis que surgem nesta época do ano somos apenas caras diferentes do mesmo ente reincidente que traz presente ou castigo, representando uma cosmogonia moral que rege o comportamento humano. Há quem diga que esta entidade que recompensa e pune não passa de um mito infantilizante que aprisiona a razão numa superstição obscurantista. Que Papai Noel não existe. Que eu sou uma fraude. Que o Papai Noel do outro shopping é uma fraude. Que todos os outros papais noéis do mundo são impostores, que por trás das suas barbas falsas há apenas pobres coitados tentando faturar alguns trocados sazonais com a crença alheia, e enganando criancinhas. Não é verdade. Pode puxar a minha barba. Eu existo, eu...
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Nisso o garoto fez xixi no meu colo. Foi levado pela mãe, com pedidos de desculpa. Melhor assim, pensei. Minha explicação só iria assustá-lo. E eu só estaria tentando convencer a mim mesmo. Sou gordo, tenho uma barba naturalmente branca, sou quase um predestinado para ser Papai Noel de shopping. Mas todos os anos preciso combater minhas dúvidas. Como em qualquer caso envolvendo crença e fé, o pior são as dúvidas. Com o xixi eu nem me importo.
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Mas veja como crer é importante. Em seguida sentou no meu colo um homem dos seus 40 anos. Não queria me pedir nada, só queria colo. Tinha estourado o limite do seu cartão de crédito nas compras de Natal e precisava que alguém o consolasse. 
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A gafe

VERISSIMO
O GLOBO

Estranho, muito estranho. Mesmo que não esperassem uma reação tão dura, o que o “tráfico” do Rio tinha a ganhar com os atentados que desencadearam a repressão inédita? Protesto contra a ação das UPPs nos morros ou simples e bravateira demonstração de força – nada disso esconde que o que fizeram foi ruim para eles e pior para os seus negócios. Se o que queriam era justamente levar a afronta a um ponto que forçasse uma reação na mesma medida, o mistério aumenta. 
Pra quê?
As teorias conspiratórias têm sempre uma fraqueza: pressupõem uma inteligência ou um poder de dissimulação irreal dos conspiradores. Qualquer conjetura sobre o que está por trás dessa guerra, ou sobre quem aproveita o seu acirramento, acaba sendo uma especulação sobre o improvável, quando não uma fantasia. Mas o fato é que ela desafia muitas lógicas, a começar pela lógica básica do capitalismo que é a primazia do lucro em qualquer circunstância. O crime organizado não parece tão organizado assim, se é responsável por tamanha gafe em termos de relações públicas. Acima dos estragos que está causando na vida de tanta gente, a guerra está abalando o mercado. Lucros cessantes é o maior terror de qualquer empreendimento. Pode-se imaginar que os lucros do “tráfico”, pelo menos por um tempo, cessarão ou diminuirão. A droga sendo apreendida nos morros é principalmente maconha, que segundo alguns nem droga é. Pode-se supor que o comércio de maconha seja a principal atividade desse exército maltrapilho e bem armado, hoje acuado, que vende para a sua própria classe, e que cocaína e etc. circulem em outros esquemas, mais sofisticados e discretos. Mas todo o mercado foi afetado pela gafe.
O Brasil, como se sabe, é uma país de corruptos sem corruptores. Pelo menos até hoje nenhuma grande empreiteira ou coisa parecida teve que responder por atos de corrupção em que participou como compradora de favores. O mercado de drogas é parecido, um estranho, muito estranho, mercado só de fornecedores. Dos consumidores nunca se ouve falar. Mas, presumivelmente, eles também sofrerão com a gafe. Pelo menos por um tempo.
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A repartição

LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO 

Com quase 80 anos, Paul McCartney tem a cara lisa. Não sei como está a cara do Ringo, o outro Beatle vivo, mas supondo-se que ele também não aparente a idade, e comparando-se a cara dos dois com a dos Rolling Stones, pode-se especular que tenha havido um acordo entre as duas bandas. Em algum momento do final dos anos sessenta os Beatles e os Stones teriam se encontrado em segredo para dividir o mundo e decidir o destino de cada um. Caberia aos Beatles fazer as melhores melodias e sofisticar o rock com álbuns temáticos como o Sargent Pepper’s, aos Stones se manterem fiéis ao “backbeat” básico e serem a versão bandida dos Beatles. Também teriam escolhido o público que queriam e estabelecido qual seria a longevidade de parte a parte e o que caberia de tragédia e de glória a cada lado. Mas principalmente teriam feito a repartição das rugas. Os Stones ficariam com todas e em troca durariam mais. Os Beatles envelheceriam melhor ou, como no caso do John e do George, nem envelheceriam. De qualquer maneira, nunca teriam rugas. Em compensação durariam menos.
O dramaturgo inglês Tom Stoppard (que se parece um pouco com ele) contou que certa vez lhe disseram que Mick Jagger tinha aquelas rugas todas de tanto rir, ao que ele retrucou que nada poderia ser tão engraçado assim. Já as rugas do Keith Richards são claramente as marcas de uma vida vivida aos extremos. Richards provou de tudo, entre secos, molhados e com duas pernas. E sobreviveu para contar: sua autobiografia, chamada apenas Vida, acaba de sair. Num trecho reproduzido na resenha do livro recentemente publicada pela revista New Yorker ele conta que às vezes viajava nas drogas com o John Lennon mas que Lennon não conseguia acompanhá-lo. Depois de tomar e cheirar o que havia, muitas vezes durante dias, ele estava pronto para trabalhar enquanto o John invariavelmente acabava no banheiro, segundo ele, “abraçando a porcelana”.
Mas a quantidade de rugas na cara de Mick Jagger, Keith Richards e os outros Stones não se explica apenas pela passagem do tempo. Elas acumulam funções, são as rugas deles e as rugas que os Beatles não tiveram. Estava tudo combinado.
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