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domingo, 28 de novembro de 2010

O Exército e o ovo da serpente

Clóvis Rossi
FOLHA DE S. PAULO

Do subchefe operacional da Polícia Civil do Rio, Rodrigo Oliveira, na quinta-feira: "A comunidade [da Vila Cruzeiro] hoje pertence ao Estado".

Que bom. Mas é indispensável perguntar: não deveria ter sido sempre assim? E não só com a Vila Cruzeiro, mas com todas as comunidades espalhadas pelo Brasil.Por não ter sido sempre assim, fertilizou-se o campo para a criminalidade, a grossa e a miúda.

Cabe também perguntar -e talvez seja a pergunta-chave- por que demorou tanto tempo para recuperar a Vila Cruzeiro se, agora, todo mundo diz que se trata de um bastião do narcotráfico?

Por que foi preciso que a bandidagem praticasse, no asfalto, cenas de guerrilha explícita para que as autoridades reagissem?

O cotidiano de medo a que vivem submetidos os brasileiros, nas grandes e médias cidades, não bastou para requisitar o auxílio das Forças Armadas. Talvez porque o medo é individual, não oferece cenas coletivas de barbárie como as que se viram nos últimos dias no Rio (e, não convém esquecer, em São Paulo anos atrás).

A omissão, para dizer o menos, das autoridades incubou o ovo da serpente. Abortá-lo agora é infinitamente mais complicado, até porque o recurso ao Exército para ajudar na invasão do Complexo do Alemão é uma confissão tácita de que a polícia, por si só, não consegue ganhar a guerra.

Até entendo o horror que muitos, esta Folha inclusive, expressam ante a hipótese de as Forças Armadas serem chamadas em auxílio da polícia. Há argumentos fortes para rejeitar a ideia.

O problema é que a alternativa parece ser a de devolver a Vila Cruzeiro aos antigos "donos". Se eles toparem ficar quietos no morro, sem o fogaréu que acenderam no asfalto, acabará sendo a acomodação de sempre. E a serpente parirá um ovo muito mais robusto lá na frente.
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Droga de combate

José de Souza Martins
 O ESTADO DE S. PAULO

De como a desordem da sociedade da favela processa a cultura do medo e da dúvida, na qual a derrota da população torna-se óbvia: no conformismo, na resignação, até na subserviência eleitoral

Que guerra é essa? Uma semana inteira de luta armada na região metropolitana do Rio, com dezenas de veículos queimados, dezenas de mortos, feridos e presos e muitas vítimas inocentes, segundo os especialistas em conceitos e os leitores de manuais, não é, no que aos bandidos se refere, terrorismo nem tem conotação ideológica e política. Do lado da polícia e das Forças Armadas, trata-se de combate ao crime comum. Definição difícil de entender.

Para as pessoas comuns, crime ainda é o do assaltante, do ladrão, do agressor, do assassino, do sujeito socialmente destrutivo. Fica muito difícil entender a repressão à criminalidade organizada e territorializada, bem armada e onipresente, como repressão a batedor de carteira. Falta alguma coisa na doutrina e na prática entre nossa antiquada repressão institucionalizada à criminalidade e a obsoleta concepção de combate militar ao inimigo externo.

Qualquer um entende que quando um território cai sob tutela de um poder paralelo, como está acontecendo no Rio, com economia própria, exército próprio, e justiça própria, que resiste a medidas de policiamento e enquadramento por parte do Estado, já não estamos em face de crime comum. O tráfico de drogas, através de seus grupos armados, proclamou a independência política e territorial de favelas do Rio e, portanto, o Brasil já não é o Brasil dos mapas e livros escolares. Quando uma autoridade chega lá, no fundo, chega por concessão do tráfico. As autoridades federais e as do Estado estão interpretando como se fosse de menos o que é de mais.

O regime militar, por muitíssimo menos, combateu os que à ditadura se opunham como inimigos internos a serviço de potências estrangeiras. Mas o tráfico, sim, está a serviço de difusa potência estrangeira, ameaça a segurança nacional, compromete nosso modo de ser e ameaça o futuro do Brasil ao comprometer a saúde e as identidades das novas gerações, roubando-lhes pelo vício a lealdade que deveria ser a base da nação, o sentimento de pertencimento que nos faz pátria e povo. O drogado é reles cidadão do tráfico, um condenado a ser ninguém.

Para a população é muito difícil compreender o uso de tanques de guerra para combater esse inimigo interno e ao mesmo tempo ser tolerante e benevolente com os consumidores de drogas, fonte alimentadora do tráfico e de todos esses poderes antirrepublicanos e antibrasileiros. Sem cortar a veia que nutre com o dinheiro bem ou mal ganho do viciado os poderes crescentes do tráfico, há risco de que a movimentação destes dias não fique nos limites de mera demonstração de força do governo. Se não houver uma política coerente e de conjunto que desvende e desmantele as conexões entre o usuário de drogas e o produtor, o fornecedor e o distribuidor, em poucos dias as ligações criminosas se restabelecerão.

Os bandidos sairão fortalecidos porque terão aprendido as novas táticas dos que lhes oferecem combate, como, aliás, tem acontecido até aqui. Ao longo das últimas décadas aprenderam técnicas de organização corporativa, transformaram a mentalidade delinquente em ideologia política e mística social, adotaram padrões empresariais de gerenciamento de dinheiro e de criação de infraestrutura econômica, logística e militar. Criariam redes de intimidação e de apoio. Criaram outro país. Como, então, não se trata de terrorismo nem de política?

Sem uma política abrangente de combate ao tráfico, continuaremos nessa lenga-lenga de espetaculares demonstrações periódicas de poder pelas quais se tenta manter o tráfico nos limites estritos do comércio de drogas. Desde a década de 1990, o Exército é chamado a ocupar os morros cariocas, quase sempre quando ocorre um evento internacional no Rio ou se tem algum em perspectiva, como agora a Copa e a Olimpíada. Mas nesses casos a intervenção é para garantir a segurança dos visitantes, dos que passam, mas não ficam. Os nativos, a população local, especialmente a dos morros, continuarão sujeitos às balas perdidas da política perdida. Terão que continuar fingindo que está tudo bem, que a guerra não é com eles, saindo para o trabalho sem saber se vão voltar, voltando sem saber se vão sair novamente na manhã seguinte. A desordem da sociedade da favela está criando uma cultura, que é a cultura do medo, da falta de esperança, da falta de certeza, a cultura da dúvida e do duvidoso. Nenhuma sociedade se constitui com base nessas referências precárias. A derrota da população é óbvia, no conformismo, na resignação e até na subserviência política e eleitoral. Isso anestesia mais do que droga.


José de Souza Martins, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. É autor de a Aparição do demônio na fábrica (editora 34)

Carcaça de uma sociedade

 José Padilha

 O ESTADO DE S. PAULO

A tragédia carioca, maldito fruto de instituições públicas que convertem miséria em violência

Por que o Rio de Janeiro é uma cidade tão violenta? Por que tem um número tão alto de homicídios e de assaltos todo ano? Por que grande parte da capital carioca, sobretudo as áreas mais carentes, está dominada por grupos armados? Por que a história do Rio é marcada pela repetição de acontecimentos traumáticos na área de segurança pública, acontecimentos que chamam a atenção do mundo?

Vigário Geral e Candelária explicitaram a violência absurda da polícia carioca. O sequestro do Ônibus 174 demonstrou a precariedade dessa polícia e deixou à mostra a violência de um ex-menino de rua que preferiu “tentar a sorte” a se entregar ao Estado que o torturou a vida inteira. O brutal assassinato de Tim Lopes mostrou que os traficantes cariocas não são Robin Hoods do morro, mas criminosos que utilizam métodos brutais. A tortura de jornalistas de O Dia por milicianos deu origem à CPI que revelou máfias de bombeiros, policiais civis e policiais militares no comando de comunidades carentes, com o apoio de vereadores, deputados estaduais e até deputados federais. E, finalmente, o ataque sistemático do tráfico a vários pontos da cidade, e a reação subsequente da polícia, “desentocou” um verdadeiro exército armado na Vila Cruzeiro e o expôs para todo mundo ver.

Afinal, por que o Rio de Janeiro é assim?

Uma resposta, a da esquerda naïve, postula que a violência no Rio de Janeiro decorre da miséria e da luta de classes, e diz que para combatê-la é necessário acabar com as diferenças sociais, distribuir a renda e educar a população. Há também a resposta da direita naïve, que reduz a violência do Rio a um problema de repressão e diz que ela se explica pela falta de firmeza da polícia e das leis.

As duas respostas estão erradas, contradizem fatos conhecidos.

A primeira não dá conta de cidades que têm índices de desenvolvimento humanos (IDH) piores do que os do Rio de Janeiro e índices de violência menores. A segunda está na contramão da história, que demonstra que incrementos na repressão podem piorar os índices de violência. Foi assim no governo Marcelo Alencar, quando o Estado adotou a remuneração faroeste e passou a premiar os policiais em função do número de criminosos que “abatiam”. A partir daí, o número de autos de resistência, de policiais que declararam ter matado criminosos que resistiram à prisão, cresceu e continua absurdo até hoje.

Muitas vezes, o passo mais importante para encontrar a solução de um problema é enunciá-lo corretamente. Ônibus 174, Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 são uma tentativa de enunciar o problema da segurança pública do Rio de Janeiro a partir da premissa de que a violência carioca resulta, em grande parte, da atuação direta de instituições públicas que convertem miséria em violência. À luz dessa premissa, a violência urbana está relacionada à falta de educação e à concentração de renda, mas a relação não é direta e simples, é intermediada por fatores complexos. Acredito que no Rio o mais importante desses fatores seja o efeito perverso que certas organizações administradas pelo Estado têm sobre parte da população.

Ônibus 174 conta a história de Sandro Rosa do Nascimento, um menino que fugiu de uma tragédia familiar e foi viver nas ruas do Rio. Sandro se tornou um pequeno criminoso para sobreviver. Como menino de rua, viu representantes do Estado (policiais militares) matar crianças como ele na Candelária, foi preso e tratado com extrema violência pelo sistema socioeducativo do Estado, foi espancado e obrigado a conviver com traficantes e criminosos muito mais violentos que ele no Instituto Padre Severino e deu entrada no sistema prisional carioca, onde o Estado o colocou em uma cela superlotada e insalubre. O torturou por anos.

A tese de Ônibus 174, exemplificada pela trajetória de Sandro, é muita clara: as organizações que deveriam reeducar os pequenos criminosos os convertem em criminosos violentos. Não fui eu quem formulou essa tese, diga-se de passagem. Foi o próprio Sandro, que a gritou em altos brados da janela do ônibus para quem quisesse ouvir.

Em Tropa de Elite tentei dizer que a mesma coisa acontece no âmbito da polícia. O Estado trata muito mal os indivíduos que se propõem a trabalhar nas organizações policiais. Paga pouco, treina mal, e os submete a uma cultura organizacional militarizada e kafkiana, que tolera a corrupção e estimula a violência. Como disse o capitão Nascimento: “Quem quer ser polícia no Rio de Janeiro tem que escolher: ou se omite, ou se corrompe, ou vai pra guerra”.

Tanto a violência e o desrespeito aos direitos humanos do capitão Nascimento quanto a corrupção desenfreada do capitão Fábio são forjadas no mesmo lugar, pela mesma organização. Certa feita um governador do Rio de Janeiro disse a mim e ao jornalista Rodrigo Pimentel que Tropa de Elite era um filme demasiado pessimista. Em sua opinião, a PM do Rio não era tão corrupta quanto pensávamos. Pelas suas contas, um terço dos policiais do Rio é corrupto, outro terço é honesto, e o restante variava conforme o comando. Se a PM do Rio tem mais de 13 mil homens corruptos, então o problema não são seus homens, é a organização. Os policiais do Rio de Janeiro são vítimas da PM.

A tese de Tropa de Elite, instanciada na trajetória do aspirante André Mathias, é igualmente óbvia: as instituições que deveriam combater a criminalidade convertem boa parte das pessoas que trabalham nelas em policiais corruptos e violentos. Fazem isso com grande eficiência e em altas taxas.

Acredito que cada um dos casos simbólicos que listei, de Vigário Geral à tomada da Vila Cruzeiro, ilustra essa tese. Cada um deles envolve traficantes, policiais corruptos e policiais violentos cuja subjetividade e comportamento criminoso foram moldados por instituições do Estado.

Fiz um terceiro filme, Tropa de Elite 2, para tentar dizer por que o Estado funciona assim. Em Tropa de Elite 2 o capitão Nascimento é promovido a subsecretário de inteligência e obrigado a lidar com as conexões que existem entre a polícia e a política. São essas conexões, muitas vezes calcadas em interesses e lógicas eleitorais, que criam e mantêm as instituições que descrevi nos filmes anteriores.

Voltando ao mundo real, deixo claro que apoio as UPPs e sou favorável a esse projeto do governador Sérgio Cabral. Reconheço que ele é fundamental para recuperar o território que o tráfico tomou. Acredito que o Rio não pode recuar no primeiro confronto. Todavia, acho que o projeto das UPPs é apenas meio projeto, e não um projeto inteiro. Onde está a reforma da polícia? Não a maquiagem, mas a reforma concreta, o programa eficiente de seleção e treinamento de policiais, o programa de capacitação profissional, o pagamento de salários dignos, o seguro saúde e o auxílio-educação para as famílias dos policiais? Onde está a corregedoria que funciona? Onde está a reforma do sistema prisional? A capacitação dos agentes penitenciários? A reforma do sistema socioeducativo? A boa formação dos seus operadores?

O projeto das UPPs é fundamental para a sobrevivência do paciente, mas ignora as causas da doença. Na ausência de uma real reforma das instituições que mencionei, o esforço e o engajamento da população carioca no projeto das UPPs pode ser em vão. Afinal, quem vai ocupar as comunidades libertadas? A mesma polícia que conviveu com o tráfico de drogas na cidade por mais de 30 anos, o viu crescer e se expandir e o deixou se instalar. O projeto das UPPs não é um projeto da polícia, é um projeto do governo. O que garante, no médio ou no longo prazo, quando este governo sair e outro entrar no lugar, que as UPPs não se tornarão áreas de milícia?

Eu me lembro, na ocasião do Ônibus 174, que o então presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, foi à TV prometer um plano nacional capaz de reformar as instituições ligadas à segurança pública em todo o Brasil. Teve dois mandatos para cumprir a promessa, e não o fez. Depois veio o atual presidente Lula, do PT. Apresentou um Plano Nacional de Segurança bem bolado, escrito pelo professor Luiz Eduardo Soares. Estamos ao final do seu segundo mandato e o plano continua engavetado. Finalmente, não vamos esquecer o PMDB, do governador Sérgio Cabral, que em ambos governos nada propôs de significativo na área da segurança. A verdade é que nos últimos 30 anos nossos políticos ficaram vendo inocentes morrer. Lavaram as mãos.

O que aconteceu no Rio de Janeiro nessa semana foi significativo. Creio que vai acontecer de novo se o governador insistir com as UPPs. E, como a Copa do Mundo e a Olimpíada estão aí, não há outra alternativa viável. Os confrontos serão inevitáveis e recorrentes. Espero que esses confrontos sirvam para, além de libertar comunidades carentes, forçar o governo federal a entrar de cabeça na luta contra o crime e implementar um plano de nacional de segurança sério, capaz de resolver de uma vez por todas o problema da segurança pública no Brasil.


José Padilha é cineasta e diretor de "Ônibus 174", "Tropa de Elite", "Tropa de Elite 2", "Garapa" e "Segredos da tribo"

O manto do silêncio

Míriam Leitão

O GLOBO

Eu posso explicar atos extremos cometidos por jovens durante a ditadura. Os que, naquela época, tomaram o poder empurraram os jovens para corredores estreitos que não levavam a outro caminho que não a radicalização ou omissão. O que não posso entender é como hoje, quatro décadas depois, se queira impedir o acesso à informação sobre aquele passado sob que pretexto for.

Pessoas que jamais fariam o que fizeram foram sendo envolvidas na lógica da radicalização. Mesmo os que não pegaram em armas, não entraram nos grupos mais radicais de guerrilha urbana ou rural, sabem da engrenagem do absurdo. Uma ditadura faz isso. Ela fecha portas a quem quer participar da política e influir nos rumos nacionais. A maioria se abstém; uma parte não está convencida de que haja possibilidade de fazer alguma diferença, os mais convictos querem fazer algo e, dentre eles, os mais afoitos acabam cometendo atos que os jogam no meio de uma guerra. Eles nada disso fariam se o governo não estivesse dominado por um poder ilegítimo e repressor como o que tivemos aqui de 1964 a 1985.

Há uma diferença entre os que, na oposição, praticaram atos que, aos olhos de hoje, são condenáveis, e os que dentro do aparelho do Estado torturaram e mataram. Os primeiros são vítimas; os outros, algozes. Assim é e assim será, mesmo que haja casos de vítimas inocentes atingidas pelos dois lados. Nada justifica a ditadura. Nenhum argumento da época ou de hoje é sólido o suficiente para abonar atos condenáveis como as cassações políticas, perseguições, tortura e morte de opositores políticos. Como definiu Ulysses: "a sociedade foi Rubens Paiva e não os facínoras que o mataram."

A presidente eleita participou desse confronto em que de um lado havia o terror de Estado e do outro um grupo reduzido de jovens. Alguns deles foram mais longe, pegaram em armas, se militarizaram, entraram em confronto físico, morreram ou viram seus amigos morrer. Ela diz que se orgulha desse passado, não deve ter medo de discuti-lo e explicá-lo às novas gerações. É natural que o Brasil queira conhecer a história da presidente que nos vai governar por quatro anos. Interromper esse debate por ato de censura, como foi o do Superior Tribunal Militar, no período pré-eleitoral, ou agora, sob a acusação de que toda aquela informação é lixo, é entrar numa contradição insanável. Quem tem orgulho do seu passado, quem acha inclusive que merece ser indenizado por ele, não pode impedir que ele seja conhecido de forma objetiva e completa. Não pode impor um roteiro edulcorado do passado, sob pena de criar mitos, versões falsas, manipular os fatos.

Todos os que eram jovens naquela época gostam hoje de se creditar pelos riscos que apenas alguns correram. Uma das verdades é esta: foram poucos os que tiveram coragem e conhecimento do que realmente se passava no país. Era difícil até obter a informação que levava os jovens à ação - armada ou não - contra o regime. A falsificação sufocante e majoritária era de um "país que vai pra frente"; a cobrança comum era de que toda crítica ao governo era um ato impatriótico. O país crescia no milagre dos anos 1970. Era mais fácil acreditar apenas na informação onipresente de que o governo estava certo e o presidente era muito popular porque era torcedor de futebol. A bolsa subia, o país estava com pleno emprego, e os poucos que chegavam à universidade tinham enormes chances. Sobre a vasta exclusão não se falava nos órgãos de imprensa, ou por censura ou por decisão editorial. Esperto era ser individualista, ganhar dinheiro e esquecer aqueles fatos incômodos levantados por alguns poucos de que o país estava num caminho inaceitável.

Ficou no imaginário popular a beleza das manifestações de 1968. Mas aquilo foi por pouco tempo e no momento mais suave do regime. Depois, veio o Ato Institucional número 5. Em seguida, o terror de Estado. Quem subia em palanques para lutar com palavras foi empurrado para a radicalização. Quem foi o culpado pelo radicalismo? Ora, os comandantes militares e seus cúmplices civis que tinham o controle do Estado e usaram todas as instituições para sufocar qualquer contestação.

Esse era o contexto. Não se pode julgar os jovens militantes de esquerda daquele tempo com os olhos de hoje. Estou convencida de que se, diante das manifestações de 1968, o regime tivesse reagido dialogando não haveria o que houve.

Hoje, 40 anos depois, o país tem que olhar para esse passado sem vetos. Nunca peguei em armas, mas posso entender quem o fez, porque vi o contexto e sei para onde o terrorismo de Estado empurrava os que, em vez de pensar só em si e nas suas carreiras, tinham vontade de influenciar os destinos do país. Mesmo que estivessem errados em suas convicções, estavam certos na atitude de se opor à ditadura. E foram os mais corajosos.

As novas gerações têm que olhar e debater esse passado. Há quem se pergunte se informações retiradas sob tortura podem ser publicadas. É uma dúvida legítima. Mas a imprensa - como tem feito em algumas matérias - está ouvindo de novo as testemunhas dos fatos, e, quando elas hoje confirmam o que disseram, qual é a justificativa para não publicar? Manter a versão única de quem hoje detém o poder é aceitar de novo a censura.

Não há nada que justifique o manto do silêncio sobre o passado, como esse país fez tantas vezes com vários dos eventos históricos. Só a História resgatada e conhecida pode ensinar o país a não repetir os mesmos erros.

Por que o Rio mudou para melhor

RUTH DE AQUINO


"Quero paz e autoridade", disse na televisão o morador do bairro da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Falou baixo, sem raiva e com confiança. No cenário de fogo e fumaça que tomou as ruas do Rio de Janeiro, com 95 veículos incendiados por bandidos ao longo de seis dias, por que o sentimento da população é de esperança, até de euforia, e não de desalento? Porque o grito de “basta” foi ouvido. Não se fecham mais os olhos à guerra, não se faz mais pacto com traficante, acabou o faz de conta. Há homens de bem no comando e eles não estão na tela do cinema.
Se os bandidos achavam que seus atentados terroristas iriam jogar os moradores do Rio contra o governo, o efeito foi o oposto. A reação fulminante do Estado, com o inédito apoio de blindados da Marinha e a união de várias forças de elite, provocou perplexidade nos lares, dentro e fora das favelas. A desconfiança que, durante décadas, contaminou a relação com os homens fardados foi substituída por uma torcida sincera e atos de solidariedade. A ajuda foi além da colaboração formal, os mais de 1.000 telefonemas protegidos pelo anonimato para o Disque Denúncia. Os homens de preto e cara pintada eram recebidos em seu trajeto com carinho, com acenos, como se os comboios estivessem liberando territórios aprisionados pelo medo. Moradores deixaram suas casas para oferecer água aos policiais. Aplaudiram de suas janelas a passagem dos motociclistas do Batalhão de Choque, os tanques, os comboios dos Fuzileiros Navais e da PM.
Pela primeira vez eu vi, na semana passada, no Rio, a mesma cena que me surpreendera na Colômbia. Em Bogotá e Medellín, tanto nos ex-territórios do tráfico quanto nas praças e pontos turísticos, testemunhei em fevereiro de 2007 como a presença maciça de policiais confortava os moradores, em vez de intimidá-los. Os soldados eram ídolos. A toda hora posavam sorrindo para fotos ao lado de crianças, pais, mães. Personificavam a paz, o fim do terror imposto nas ruas e estradas. A população de classe média e classe alta se submetia solícita a revistas, abrindo bolsas, mochilas e malas do carro. Porque havia a consciência da guerra. E todos sabiam que precisavam colaborar.
Se os bandidos achavam que seus atentados iriam jogar os moradores contra o governo, o efeito foi o oposto
Antes dos últimos atentados, ouvi um intelectual carioca do bem queixar-se da expressão “pacificação” de favelas. Ele é a favor das UPPs, unidades formadas por jovens policiais treinados durante seis meses na Academia e que já ocuparam no Rio 12 favelas, antes dominadas por bandidos. “Por que dizem pacificar, e não simplesmente ocupar?”, perguntou esse amigo.
Nós, do asfalto e da elite, temos sido tão cegos quanto os ex-governos que abandonaram criminosamente esse Estado às moscas e aos ratos das valas e vielas. É fácil aproveitar os encantos de uma das cidades mais belas do mundo enquanto, nas favelas, a guerra corre solta há 40 anos. Quando dormi na Rocinha para uma reportagem, senti que eu era gringa, sim, mesmo que tentasse me misturar tomando uma cerveja no fim da tarde. Da mesa do bar, vi um rapaz bonito passar, com uma sacola de compras numa mão e uma metralhadora prateada na outra – como se legumes e armas tivessem o mesmo peso, a mesma utilidade. Era uma profusão de fuzis e pistolas o tempo todo, nas mãos de muitos menores de idade, apontados a esmo de farra. Se, em favelas, jornalistas como Tim Lopes são assados em pneus, como chamar a retomada desses territórios? “Pacificação” é a palavra certa. E a Rocinha continua pedindo ajuda. Segundo moradores, agora há treinamentos militares durante o dia, e o figurino dos bandidos adicionou granadas e bazucas.
Por tudo isso, o secretário de Segurança, Beltrame, que está no front, repete – mais do que qualquer antropólogo – que a batalha só começou. Diz que é preciso serenidade e firmeza, porque o Estado do Rio tem 1.020 favelas: “Repressão é necessária, mas sozinha não garante paz social”.
O Rio mudou para melhor por estar consciente de que existe uma guerra. E por, enfim – quem sabe –, ter conseguido convencer Brasília de que a ajuda federal não pode vir em espasmos. Não apenas por causa das Olimpíadas ou da Copa. Mas por uma questão de sobrevivência dessa cidade com vocação para a alegria.
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é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

No Rio, as contradições sociais são infinitas

 FERNANDA TORRES
 Folha de S. Paulo – 26.11.2010



O embaixador do México quis aprender a tocar cavaquinho antes de deixar o Brasil, mas acabou desistindo quando descobriu que não há partitura fiel ao dedilhado dos virtuosos. Cavaquinho se aprende no convívio das rodas de choro.

Na despedida, o embaixador confessou que o Rio de Janeiro, para ele, era como o cavaquinho, maravilhosamente belo na prática e caótico na teoria.

O Rio é a capital universal da informalidade.

Pois um gaúcho da pacata e civilizada Santa Maria, José Mariano Beltrame, aceitou o desafio de chefiar a secretaria de Segurança da ex-Guanabara há dois anos.

Não houve um amigo que não o parabenizasse e, a seguir, comentasse a dor de cabeça que, bar-ba-ri-da-de!, o conterrâneo formado em direito, administração e inteligência estratégica estava prestes a enfrentar.

Cabe à polícia lidar com as contradições da sociedade. No Rio, elas são infinitas.

O jogo do bicho, por exemplo, é uma tradição centenária. Não há ninguém que já não tenha feito sua fezinha. Os anotadores de aposta estão em cada esquina, inclusive na da Secretaria de Segurança, no centro, apesar de ser uma atividade ilegal.
Ninguém acha justo prender o tiozinho da banca, mas, quando se amplia o olhar e se chega aos grandes bicheiros, o jogo já não parece tão inofensivo assim.

Os empresários do jogo do bicho se organizam em feudos fortemente armados que movimentam somas polpudas sem pagar um centavo de imposto, ajudam a corromper a polícia e incluíram os caça-níqueis, ligados às milícias, no cardápio de seus interesses.

Por outro lado, as escolas de samba, patrimônio cultural e turístico do carioca, são financiadas por eles, o que os torna figuras adoradas e folclóricas.

Como deve agir a polícia diante do vespeiro amoroso de pecadores leves e grandes contraventores?

Por que a Mega Sena pode e o bicho não? Se a sociedade deseja sonhar com o coelho e apostar na cobra, por que o bicho é proibido? Talvez porque molhar a mão de um policial saia mais barato do que encarar o fisco. A informalidade gera violência, desordem e dividendos.

Os 20 anos de populismo e assistencialismo eleitoreiro no Rio criaram centenas de zonas abandonadas pelo Estados e ocupadas por poderes paralelos. São décadas ao largo da lei.

Quando José Mariano assumiu o cargo, focou seu plano de ação na questão territorial, a reintegração de posse de áreas esquecidas pelo poder público, tomadas pelas três principais facções criminosas ligadas ao tráfico.

Sua estratégia é das mais antigas: após dominada uma área, duplas de policiais, os Cosme e Damião, ocupam o local em caráter permanente. Conquista-se rua a rua, bairro a bairro, favela a favela.

Na Cidade de Deus, Beltrame se chocou com o lixo e os porcos convivendo com as crianças. Nos postes de luz apagados, fotos e fotos de deputados e vereadores com seus números no TRE.

O secretário é um caso raro de político mais interessado nos problemas concretos da sociedade do que nos lucros eleitorais de suas ações.

Ele se refere à ocupação do Complexo do Alemão como a tomada da Normandia e tem vontade de anunciar o dia e a hora de sua chegada para que os bandidos recuem sem tiros. Ouvindo-o falar, parece até possível.

As recentes ações terroristas precipitaram o avanço sobre a região do entorno da Penha. Centenas de homens de short e sem camisa carregando escopetas foram flagrados fugindo para uma favela aliada. Pode-se batizar o 25 de novembro de 2010 como o dia D do Rio de Janeiro.

A União reserva fatias de sua arrecadação para investir diretamente em educação e saúde, mas a segurança pública não recebe nada do governo federal. Cada Estado depende dos próprios cofres para remunerar seus contingentes. Beltrame defende, entre outras prioridades, que uma fatia do Orçamento da União seja garantida para a segurança dos Estados.

Apesar do sucesso das UPPs, Beltrame sabe que a polícia não resolve as causas da tragédia social nem tem poder de preencher o vazio deixado pelo tráfico.

Cabe, agora, aos outros setores do Estado preencher a lacuna sócio-econômica deixada pelo desmantelamento do poder paralelo.

É preciso entrar com educação, saúde, transporte, cultura, lazer e esporte, é preciso criar perspectiva de futuro para uma população descriminada e mal preparada.

Se as chances de emprego para um rapaz branco, de classe média e que teve acesso à escola já são duvidosas, imagine as de um menino negro e semi-alfabetizado em um sistema de aprovação automática.

Estudos populacionais garantem que cidades compostas de jovens rapazes desocupados enfrentam um nível de testosterona ocioso que facilmente se transforma em agressão, briga, roubo e baderna. 

Junte-se a isso a corrupção política, a pobreza e a miséria, está pronto o coquetel molotov que atormenta a Guanabara.

A polícia não vai dar jeito na doença histórica da injustiça e da desigualdade, mas talvez possa fazer alguma diferença com relação à impunidade.

O secretário caminha na fina linha que separa a eficiência do abuso. A lei, muitas vezes, age contra; mas sem a lei, ele reconhece, seria muito pior.

Os advogados são os pombos-correios das vontades dos traficantes nas prisões de segurança máxima. O direito à privacidade não permite a gravação de conversas entre um advogado e seu cliente, mas esse direito propicia o comando de ações terroristas mesmo com o mandante atrás das grades.

No dia em que me encontrei com Beltrame, o Rio estava sofrendo uma onda de arrastões, primeiro grande revide dos chefes do tráfico contra as UPPs. A ordem partiu dos presídios.

Além dessa guerra anunciada, Beltrame lida com crimes de colarinho branco e sonegação de impostos que esbarram, muitas vezes, em deputados de índole duvidosa no Congresso.

E o cobertor curto do gaúcho ainda encara a morosidade, a indulgência da Justiça e a falta de um código de ética.
Após investigar e prender um miliciano vereador, Beltrame assistiu incrédulo à Assembleia livrar da cassação o ilustre político porque ele justificou sua ausência dizendo que estava preso.

Nenhuma cidade do Brasil reúne contravenção e cultura, informalidade e política, armas e drogas, turismo e lazer, violência e natureza, céu e inferno como o Rio.

A racionalidade e a firmeza com que Beltrame tem agido em um setor onde a sociedade já havia entregado os pontos lembra as pequenas forças construtivas da Teoria do Caos. São milagres aleatórios que nadam na direção oposta ao aniquilador ralo cósmico da entropia e criam calor, organização, planetas, estrelas, quasares e a própria vida.
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sábado, 27 de novembro de 2010

A tomada da Vila Cruzeiro

ESTADO DE SÃO PAULO

O secretário de Segurança Pública do Rio Janeiro, José Mariano Beltrame, equivocou-se. Na quinta-feira, depois da ocupação da Favela Vila Cruzeiro e da fuga em massa dos traficantes que fizeram dessa área de mais de 200 mil metros quadrados, na zona norte carioca, o principal baluarte do crime na cidade, o secretário declarou: "Ainda não há nada a comemorar."
Compreende-se e até se deve louvar a sua prudência. Mas há, sim, muito a comemorar, pela competente operação com que o governo fluminense respondeu aos atos terroristas que desde o começo da semana haviam transformado o Rio numa espécie de capital tropical do Quinto Mundo, com uma profusão de arrastões, queima de veículos e tiroteios que, até ontem, já haviam matado pelo menos 35 pessoas.
Deve-se comemorar, antes de tudo, um acontecimento sem precedentes: a participação de uma das Três Forças, no caso a Marinha, no combate não propriamente ao narcotráfico, mas ao poder incontrastável exercido por suas gangues sobre núcleos inteiros da cidade. Vila Cruzeiro, por exemplo, era o quartel-general do Comando Vermelho, assim como a Rocinha é a base da facção rival Amigos dos Amigos.
Sem a decisão da Marinha de atender prontamente a um pedido de apoio logístico das autoridades estaduais - cedendo veículos blindados, carros-lagarta e viaturas para transporte de tropas, além de 70 fuzileiros navais para manejá-los -, a mobilização de meio milhar de policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Polícia Militar e Civil só poderia ter êxito a um preço impensável: a mortandade de sabe-se lá quantos inocentes na batalha campal que seria travada.
Comemore-se, pois, o "feito de armas" que pode mudar o curso do que, em última análise, é uma guerra pelo controle do Rio de Janeiro. Desde anteontem a repressão ao crime organizado na cidade visa mais do que nunca o pior dos seus desdobramentos: os verdadeiros governos paralelos, ou melhor, as tiranias brutais do tráfico e das milícias.
"A comunidade hoje pertence ao Estado", resumiu um dos responsáveis pela dramática operação na Vila Cruzeiro, transmitida ao vivo pelas redes de televisão, com câmaras instaladas em helicópteros. Foi também pela TV que o País acompanhou a debandada da bandidagem para o Complexo do Alemão, do outro lado da encosta - o novo alvo das forças de segurança, desta vez com o engajamento da Polícia Federal.
Por muito tempo ainda o narcotráfico terá de ser combatido em muitas frentes, não raro distantes dos centros urbanos onde prospera, como as regiões de fronteira no extremo norte do País. Mas uma coisa é a droga, outra é o banimento do poder público de áreas usadas como centros de distribuição, baluartes para as máfias que as dominam e nelas criam mercados cativos de bens e serviços.
O Estado tem de retomar os feudos do crime não apenas para manter a sua integridade, proteger e prover as suas populações, mas também para desestruturar as quadrilhas e torná-las mais vulneráveis à ação policial. Falando da fuga dos criminosos da Vila Cruzeiro, o secretário Mariano Beltrame observou que o ataque "tirou dessas pessoas o que nunca foi retirado: o seu território".
"É importante apreender drogas", disse ainda. "Mas é mais importante tirar o território." Naturalmente, está fora de cogitação o que equivaleria a retirar e devolver. As forças que recuperarem a favela não poderão sair dali tão logo. Nem será do dia para a noite que ali se instalará uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). O trabalho "vai demandar um esforço muito grande", avisa Beltrame.
Aliás, as poucas que já funcionam (em comparação com o que o Rio de Janeiro necessita) afetaram os traficantes a ponto de fazê-los desencadear a ofensiva terrorista que ensejou, afinal, a cooperação entre as Forças Armadas e o governo do Estado - a ser ampliada, por decisão do presidente Lula, com o envio de helicópteros, veículos e equipamentos de apoio logístico. Além disso, informou o Ministério da Defesa, 800 soldados do Exército serão deslocados para "garantir a proteção dos perímetros das áreas que forem ocupadas pelas polícias".
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Carnaval no fogo

RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO

Em 2002, uma editora inglesa, a Bloomsbury (a mesma do Harry Potter), encomendou-me um livro sobre o Rio, para uma coleção de livros sobre cidades. Outros da série, a cargo de notórios residentes, tratariam de Nova York, Paris, Sydney, Veneza. Não queriam um oba-oba ou um guia turístico, mas uma reflexão particular sobre cada urbe.
No dia em que comecei a escrever, a duas semanas do Carnaval e com a cidade fervendo de turistas, bandidos obrigaram o comércio de Ipanema a fechar as portas pela morte de um traficante do Pavãozinho. Essa prática, comum nos morros, finalmente chegava à zona sul. Para alguns, era a véspera do Apocalipse -o começo do fim ou o próprio fim.
Abestado, como todo mundo, resolvi esperar. Não havia clima para escrever. Dei uma volta por Ipanema e constatei a nossa derrota. E, então, algumas horas depois, deu-se o milagre. O bloco Vem Ni Mim Que Sou Facinha, com saída marcada para aquele dia, botou seus tamborins na praça General Osório. Os supermercados, bares e lojas seguiram o exemplo e reabriram. E até o poeta Apicius lançou seu livro naquela noite. O Carnaval desafiara os marginais. E ganhara.
Ali me decidi pelo título do livro: "Carnaval no Fogo". Não por acaso, título de uma chanchada da Atlântida, que começava por um desenho de foliões dançando entre labaredas. Descobri que, desde sempre -ou desde Américo Vespúcio, em 1502-, o Rio era isso: uma cidade com a maior vocação para a festa, mas uma festa que se dá sempre sobre brasas. O subtítulo completava a ideia: "Crônica de uma cidade excitante demais".
Os acontecimentos dos últimos dias seguem essa tradição. Com a diferença de que, desta vez, o Rio resolveu devolver o fogo. Resta agora que o Brasil se junte de vez ao Rio nesta batalha -se não quiser ver algo como o México no seu futuro.
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Virada Carioca



Nelson Motta 
O Estado de S.Paulo

A guerra está só começando, o vento virou. A população aplaude a polícia. A bandidagem está perdendo. O Capitão Nascimento tinha razão

Naquele tempo se podia subir qualquer morro do Rio, não havia nenhum perigo, só miséria. Muitos garotos das favelas próximas de Copacabana jogavam bola juntamente com os garotos do bairro nas praças, na praia e nas ruas. O Rio de Janeiro deixava de ser a capital, que se mudava para Brasília em janeiro de 1960.
De lá para cá foi ladeira abaixo, e morro acima. Em 1976, a Cidade Maravilhosa foi fundida à força com o atrasado Estado do Rio pelo governo militar. Foi a sua segunda morte.
A terceira seria lenta e sofrida, vítima de duas desastrosas administrações de Brizola, quando a polícia foi proibida de entrar em favelas em nome dos direitos humanos. E pior: com um governo Moreira Franco no meio. Na sequência, quatro anos de governo Garotinho, seguido de mais quatro de Rosinha. Nenhuma metrópole do mundo sobreviveria a essas administrações.
Em Nova York se consome muito mais drogas do que no Rio de Janeiro, mas o tráfico não manda nada, se contenta em vender o seu veneno escondido, porque a polícia prende e a Justiça manda para a cadeia. Mesmo podendo comprar livremente armas pesadas, o tráfico não comanda nenhum território, só se esconde da policia. Ninguém fala "o tráfico é o flagelo de Nova York". Lá o tráfico não é assunto, se movimenta nas sombras do submundo e não interfere na vida das pessoas comuns.
A maior graça, e a desgraça, do Rio de Janeiro é a sua geografia deslumbrante, com as praias cercadas de morros e montanhas onde se abrigam as quadrilhas de traficantes e as milícias. Nossas belezas se tornaram fortalezas do crime e da morte.
A guerra está só começando, o vento virou. A população aplaude a polícia. A bandidagem está perdendo. O Capitão Nascimento tinha razão.
É ARTICULISTA DE O ESTADO DE S. PAULO 

Estranha normalidade

Fernando Rodrigues
FOLHA DE S. PAULO

"O comando do Exército no combate à criminalidade e ao tráfico de drogas no Rio é apoiado por 86% dos moradores do Estado, segundo pesquisa Datafolha realizada nos dias 7 e 8 deste mês", dizia o primeiro parágrafo de um texto da Folha publicado no longínquo 13 de novembro de 1994.

Suspeito que hoje, a julgar pelo tom eufórico de alguns telejornais, o apoio dos fluminenses à presença dos militares esteja próximo dos 100%. Há 16 anos, como agora, o governo do Estado do Rio de Janeiro havia firmado um convênio com as Forças Armadas.

Ainda não havia TV a cabo com noticiário brasileiro transmitido 24 horas para produzir o impacto atual, mas a operação tinha magnitude semelhante à de agora. Estava autorizado o uso de blindados, helicópteros e armamentos pesados. Produziu-se um sucesso relativo, com pacificação eventual das regiões dominadas pelo tráfico.

Passada uma década e meia, a situação se repete -de maneira mais fluída. Quase inexiste pudor sobre o uso de soldados do Exército em áreas urbanas. Tudo parece muito natural. "É um exemplo para outros Estados?", perguntava ontem a GloboNews. O apoio inicial dos fuzileiros navais foi dado como vital para desbaratar as quadrilhas e colocar bandidos em fuga.

Há, por sorte, uma diferença essencial de hoje para 1994: a existência das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Se a experiência for replicada com rapidez, talvez seja possível haver uma consolidação do Estado nas áreas degradadas pelo crime. Seria uma forma (não a única, por óbvio) de evitar o retorno da bandidagem.

Quando há uma guerra, é difícil julgar todas as ações no momento em que ocorrem. É compreensível o apoio aparentemente em massa dos cidadãos de bem à ação militar contra os narcotraficantes. Mas não deixa de ser alarmante a estranha naturalidade com que o uso das Forças Armadas é recebido. 
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Ainda "Tropa de Elite"

Merval Pereira
O GLOBO

O cineasta José Padilha está, mesmo que involuntariamente, no centro das discussões sobre a política de segurança pública, com a coincidência de seu filme "Tropa de Elite 2" estar em exibição com grande sucesso ao mesmo tempo em que o Rio de Janeiro expõe ao mundo, através das lentes da televisão, a guerra entre o poder público e o tráfico pela conquista de territórios na cidade, mostrando a todos o tamanho do problema que enfrentamos.

Esse será um processo longo e possivelmente doloroso, e Padilha tem razão quando diz que ele não se completará se, além das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), não for feita uma reforma da própria polícia.

O personagem Capitão Nascimento, criado pelo talento de Wagner Moura nos dois filmes dirigidos por José Padilha, transformou-se em um herói nacional e é aplaudido pelo país afora quando ataca aos socos um político corrupto.

Mesmo quando algum integrante do Bope se utiliza de métodos de tortura para arrancar informações de um bandido, a plateia quase sempre ou aceita ou até mesmo aplaude, o que denota uma distorção de valores que vem sendo discutida desde o primeiro "Tropa de Elite".

A reação de parte da população, e de setores da própria polícia, criticando o fato de as televisões transmitirem ao vivo as ações policiais, demonstra uma vontade secreta de que elas possam se valer da falta de transparência para algum tipo de justiçamento.

É natural, portanto, que o diretor José Padilha receie ver confundidos seus pensamentos pessoais com os de seus personagens de ficção que procuraram retratar uma realidade com a qual não necessariamente atores ou diretor concordam.

Talvez por isso, em sua boa entrevista no programa "Estúdio I" da Globonews, Padilha tenha se equivocado ao comentar a minha coluna de ontem, onde está escrito o seguinte: "Ontem foi dia de a realidade imitar a arte. Foi dia de torcer pelo Capitão Nascimento de "Tropa de Elite", que todos nós vimos em ação, ao vivo e a cores, nas reportagens das emissoras de televisão. Que o personagem de Wagner Moura tenha se tornado o novo herói nacional é um sinal dos tempos, não necessariamente um bom sinal".

"Ontem entraram em ação centenas de capitães Nascimento encarnados em cada um dos soldados do Bope, que o personagem do filme de José Padilha se orgulha de ter transformado em "uma máquina de guerra"".

Por uma leitura equivocada, Padilha entendeu que eu estava afirmando que ele se orgulhava de o Bope ter se transformado em "uma máquina de guerra", e me mandou um recado pela televisão afirmando que não se orgulhava de maneira nenhuma.

Esclarecida a questão, fica a realidade, que "Tropa de Elite" retrata tão bem, e por isso já foi visto por mais de dez milhões de espectadores.

Jorge Maranhão, diretor do Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão, que se dedica a estudar a cidadania e o que fazer para avançar nesse terreno, acha que o "eloquente nexo causal entre a violência social e a violação legal de nossas elites políticas" é uma das razões do sucesso do filme.

Ele acha que o capitão Nascimento "nasce para herói, numa cultura como a brasileira, que tem enaltecido a esperteza, e, mesmo que justiceiro, já é um avanço no rumo de uma nova cultura de cidadania".

Maranhão vê uma evolução do personagem, de uma ação voluntarista para questionador do que chama "o sistema", e considera que "começamos a avançar ao encontro do que o público anseia, o que já é extraordinário e explica o sucesso do filme".

Para o diretor da Voz do Cidadão, "o imaginário social em rica mutação" não tem sido detectado corretamente sequer pelos institutos de pesquisa, e ele cita vários casos recentes: a surpresa do ficha-limpa, em que ninguém acreditava; a surpreendente votação em Marina Silva de quase 20 milhões de eleitores que ninguém previu.

"São cidadãos querendo pautar a questão ética na política e que não estão suportando mais o nível de degradação de sua representação. Por isso que o filme faz sucesso. Apesar de nosso herói coronel Nascimento fazer justiça com as próprias mãos, o que só evidencia a omissão das instituições de Estado que ainda não apareceram para cumprir o seu papel".

O leitor Mauricio Renault de Barros Correia, analista judiciário do TRE-RJ e estudante de História (Unirio), tomado aqui como exemplar da reação média dos leitores, vê na mudança da capital para Brasília o marco da decadência do Rio, com a política de investimento e infraestrutura e investimento social limitadas às classes média e alta. A desindustrialização do município abriu espaço para a favelização, diz ele. "Bairros operários tornaram-se as comunidades carentes de hoje".

Para exemplificar o atraso econômico até o início do século, Mauricio Renault ressalta que a maior parte da economia do município está nas mãos dos funcionários públicos e dos aposentados, em sua maioria também advindos do serviço público.

Segundo ele, o crescimento urbano desordenado, sob o descaso dos inúmeros governadores do Estado do Rio de Janeiro, culminou na formação desta hidra de inúmeras cabeças que se tornou o crime organizado no estado.

"A inépcia dos governos anteriores, permitindo que facções criminosas ocupassem territórios de comunidades carentes, tomando o lugar do Estado e instituindo suas próprias leis, permitiu que a sensação de poder e impunidade dos criminosos chegasse à beira da insanidade".

A política de ocupação das comunidades carentes foi um marco no atual governo, diz ele. E, seguindo uma tendência generalizada, compara o secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame ao Capitão Nascimento, que "não retrocederá frente aos inimigos e coloca uma máquina de guerra contra os traficantes". 
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O risco dos tanques

César Felício
VALOR ECONÔMICO

Os tanques ingressando em cena ontem no Rio de Janeiro podem ser o símbolo de uma inflexão da crise de segurança na cidade. O sociólogo Claudio Beato, colaborador das administrações tucanas em Minas Gerais, e o juiz aposentado Walter Maierovitch, integrante do governo Fernando Henrique que tornou-se um crítico ácido das políticas de segurança tanto do PSDB quanto do PT, divergem em muitas coisas, mas convergem no essencial: se o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) resistir à tentação de fazer um pacto informal com o crime organizado, precisará também se acautelar contra a belicização do problema.

Uma guerra contra o crime organizado pode ser perdida, como está ocorrendo no México, onde o foco da ação é militar. Aliás, são abundantes os exemplos internacionais da pouca eficácia de tanques em conflitos urbanos. Ou pode ser razoavelmente bem sucedida, como se dá na Itália, onde se investiu em inteligência policial, legislação penal e a vigilância sobre as penitenciárias, . No caso do Rio, já se sai com a enorme desvantagem de não se ter o governo federal no centro das ações, o que coloca como primeira missão para o governador pressionar Brasília a participar de um problema impossível de ser tratado no âmbito estadual estrito.

A militarização do combate aos cartéis no México, com a presença de 50 mil soldados do exército agindo em lugar da polícia, está na matriz do banho de sangue promovido por narcotraficantes naquele País. No México atual, existem lugares em que jornalistas só saem para trabalhar em equipe como medida de auto-preservação e o governo Felipe Calderón convive com pessoas sendo chacinadas em cemitérios, ao enterrarem seus mortos, que não são poucos: segundo expôs a blogueira Judith Torrea em um congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo ( Abraji) em janeiro, havia em Ciudad Juarez, município de 1,3 milhão de habitantes, 10 mil casas comerciais abandonadas e 27 assassinatos diários, em média.

Felipe Calderón declarou sua guerra no primeiro dia em que assumiu seu governo, em 2006. A oposição, cética, apontou um empenho seletivo no combate aos cartéis: a ofensiva visaria a debilitar o cartel de Ciudad Juarez, ligado ao PRI, em detrimento do cartel de Sinaloa, que teria vinculações com o situacionista PAN. Mas fatos recentes enfraqueceram esta hipótese, como a morte do capo "Nacho" Coronel em combate com os militares e apreensões recordes de maconha do cartel supostamente protegido pelo governo.

Faltou ao México uma política de controle social nos territórios reconquistados ao crime, como se propõem fazer as UPPs. Mas a reação das facções criminosas à disposição do governo para o confronto levaram à perenização do conflito, um caminho que o Rio se arrisca a seguir, até porque o problema fluminense se divide em duas camadas: a do narcotráfico de base territorial, do Comando Vermelho e dos Amigos dos Amigos (ADA), com suas cúpulas instaladas dentro das cadeias, que está no centro dos acontecimentos dos últimos dias, e a das milícias que ajudaram a expulsar o primeiro grupo dos morros.

"As milícias por enquanto não estão sendo tocadas. Estes grupos possuem um enraizamento na polícia e na política muito maior que o das facções, que estão acuadas. Quando forem combatidas, levarão o nível de conflito a uma estrutura muito mais alta", comentou Beato, que coordena o CRISP, o núcleo de estudos de segurança pública da UFMG. Na opinião de Beato, comete-se no Rio um erro de estratégia simétrico ao do México. Naquele País, Calderón teria se equivocado ao querer atacar os cartéis e reformar o aparelho policial ao mesmo tempo. " Uma das mais célebres maneiras de não fazer nada é se propor a fazer tudo", comentou. No Rio, Cabral pecaria pelo extremo gradualismo: "UPP não substitui uma política de segurança. E neste sentido o governo do Rio não toma iniciativas. É apenas reativo. Há outras maneiras de agir além de botar tanques nos morros", disse.

Possivelmente um dos mais atuantes especialistas brasileiros em crime organizado internacional, o ex-secretário nacional Antidrogas Walter Maierovitch, lembra que um dos chefões sicilianos, Bernardo Provenzano, conseguiu ficar 43 foragido da Justiça sem jamais sair da Sicília. "Foi a prova mais cabal de como bandos de matriz mafiosa tinham o controle territorial e social das áreas em que atuavam", comentou. Tanto em Nápoles quanto no Rio, o crime se divide em uma miríade de facções que se articulam no momento em que são acuadas. Esta demarcação territorial, em sua opinião, aproxima o Rio do sul da Itália e o afasta do México.

Desde 1982, o País investiu na mudança de regras do sistema prisional e penal, e a desunião entre os grupos criminosos fomentou delações que culminaram na condenação de 360 mafiosos em 1987. Muitos magistrados e agentes do aparelho institucional do Estado, como Dalla Chiesa, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, foram fuzilados ou voaram pelos ares em atentados promovidos em represália pelas quadrilhas.

O resultado final, segundo Maierovitch, é que tornou-se inviável a comunicação entre as bases criminosas dentro e fora dos presídios, além da fonte financeira ter diminuído drasticamente. "Nos últimos dez anos, as divisões especializadas da Polícia e da Justiça desfalcaram o patrimônio da máfia em 3 bilhões de euros. No Brasil apreendem-se drogas e armas sem dinheiro e todo mundo acha normal", comentou Maierovitch.

Não deixa de ser curiosa a recorrente pregação do presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique Cardoso contra o "pensamento único" que estaria grassando no país em favor do lulismo. Na segunda-feira, em um seminário em Belo Horizonte, o único presidente duas vezes eleito com maioria absoluta dos votos, detentor, em seu primeiro mandato, da mais sólida estrutura política que um governante democrático já teve no país, chegou a afirmar que o Brasil vive um momento de "extrema monopolização do poder". O quadro assustador que Fernando Henrique descreve para seu partido e seus aliados assemelha-se às análises que transitavam na oposição a seu governo nos anos 90. Também ali, na esteira de derrotas eleitorais, enxergou-se um governo de maioria acachapante no Congresso, com mídia dócil ou de baixa repercussão, e movimentos sociais cooptados ou impotentes. O PSDB chegou a ser associado à Gestapo. Nos anos 80, foi a vez do PMDB ser comparado ao PRI mexicano após as eleições de 1986, marcadas pelo Plano Cruzado. Em todos os casos, a tese da hegemonia não sobreviveu à eleição seguinte.

César Felício é correspondente em Belo Horizonte

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O sonho acabou!

Roberto Freire
BRASIL ECONÔMICO

O governo do Rio de Janeiro merece toda nossa solidariedade no combate aos bandos armados que, utilizando táticas terroristas, têm causado sérios transtornos a uma população cada vez mais assustada e desamparada. O mesmo governo que durante toda a campanha eleitoral usou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), como modelo de segurança pública, a ponto de a candidata eleita afirmar que usaria tal modelo em todo o país.

Uma ação claramente orquestrada de bandidos pôs em xeque esse modelo. Sua fragilidade não resistiu a uma evidência primária, os bandidos não evaporaram quando tiveram que deixar as áreas onde atuavam com a chegada das UPPs.

A violência que se alastra pelo Rio há vários anos não vai ser resolvida apenas com a instalação de tais unidades. É preciso muito mais.

Entram aí medidas concretas para dar uma alternativa de vida para os jovens envolvidos com o tráfico, o maior controle das fronteiras brasileiras para impedir a entrada de armas e drogas e um processo radical de "desinfecção" do sistema policial, completamente contaminado pela corrupção e envolvimento com o crime.

A violência endêmica de que tem sido vítima o Rio assumiu essa proporção por descontinuidade no combate sistemático do crime. Pelo simples fato de que não temos políticas de Estado para o combate ao crime organizado. Elas não são políticas públicas. São políticas de governo.

O que marca a gestão da segurança, assim, é a descontinuidade, com cada novo governador adotando uma determinada política de segurança. Em gestão pública, nada que não tenha continuidade tem eficácia.

Um outro problema que agrava a situação é a corrupção entranhada no seio das instituições policiais.

A realidade tem nos mostrado que no Rio prende-se tanto traficantes quanto policiais. Todos os dias assistimos notícias de crime onde tem bandido ou policial envolvido, o que enfraquece a importância e a autoridade policial.

Quando se vê carro de polícia no morro não sabe se ele está em incursão, excursão ou se está indo receber, pagar ou prender, como muito bem disse nosso deputado federal pelo Rio, Stepan Nercessian. Há tanto tempo existe essa relação promíscua que o bandido perdeu medo de polícia.

Há pouco mais de quarenta dias do término de seu mandato, o país começa a acordar do sonho edulcorado da propaganda e marketing político que moveu todo o governo Lula, e se defronta com a crueza do mundo real.

O que estamos vendo, a cada novo dia, é a realidade de um governo catastrófico, despido da fantasia da propaganda, que estende sua sombra de incompetência sobre todas as áreas.

Seja na balbúrdia do Enem, no crescimento do processo inflacionário, no espantoso incremento da dívida pública, na incapacidade gerencial de levar adiante seus próprios projetos, como revelado pela insignificante taxa de realização do PAC e seus mirabolantes projetos sociais.

A realidade enfrentada pelos cariocas é o preço que estamos pagando por um governo que, em vez de governar, passou oito anos em palanques, enquanto as agruras de nosso povo eram embaladas pelo papel luminoso da fantasia. O sonho acabou.

Roberto Freire é presidente do PPS

A coisa certa

Luiz Garcia
O Globo

Uma boa pergunta: como é que um chefão do tráfico, cumprindo pena numa penitenciária supostamente de segurança máxima, consegue comandar seus negócios como se estivesse na rua? A pergunta fica melhor ainda - ou mais preocupante - quando se sabe que foi feita esta semana pelo secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.

Ela explica a transferência, quarta-feira, de oito traficantes de penitenciárias de Bangu para a de Catanduva, no Paraná. E também o oferecimento, pelo governo federal, de até 50 vagas nas suas prisões para bandidos cariocas. O que equivale a uma confissão de que a segurança, em Bangu, não é tão máxima quanto se poderia imaginar ou desejar.

O problema não é de hoje. Sempre foi assim, o que sugere não se tratar de um problema de falta de recursos ou incompetência administrativa. É verdade que o sistema penal brasileiro parece confiar demais na sua capacidade de regenerar os bandidos que recebe. Não são poucos aqueles que, por bom comportamento, são premiados com licenças para visitar a família e nunca mais voltam.

Mas esse é outro problema. A questão do momento não é a fuga, mas a comunicação entre os chefes de quadrilhas presos com seus cúmplices do lado de fora. Como não é possível desinventar o telefone celular, nem, pelo visto, impedir que ele seja contrabandeado para as celas, a única saída parece ser mesmo mandar para longe os chefes de quadrilhas. É o que está acontecendo agora: oito hóspedes de Bangu já foram mandados para Catanduvas, no Paraná. E de lá embarcaram para Porto Velho dois nossos conhecidos: Elias Maluco e Marcinho VP.

O que parece faltar é uma política preventiva: bandidão condenado no Rio começar a cumprir pena longe daqui. É assim em outros países. Chefes do tráfico em Nova York são despachados de saída para prisões no interior do estado, como Sing Sing. E não se cogita de instalar complexos penitenciários perto de grandes cidades.

Por aqui, as transferências agora anunciadas não deveriam ser vistas como a reação, adequada, sem dúvida, a uma crise. E, sim, como o início de uma nova política: criminosos profissionais de alta periculosidade devem começar a cumprir suas penas longe de casa, longe de seus cúmplices. Não é boa política esperar por momentos críticos para fazer a coisa certa.
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Capitão Nascimento

Confesso que esperava uma crônica melhor vinda do Merval que se mostrou muito hábil nas palavras no campo político partidário ao longo da campanha.
O que ele faz é uma mera releitura dos fatos por intermédio de suas palavras com avaliações bem rasas para o porte intelectual que ele tem.
O que isso me ressalta é que a matéria segurança pública ainda não é de domínio da mídia, pois passou anos a fio desqualificando a ação do Estado e, sempre, assim como ontem ao longo da coletiva, buscando meios e detalhes de dizer que há arbitrariedade e truculência na ação policial junto ao crime organizado.
O que me entristeceu, de fato, foi no jornal das dez da globo news, dois especialistas de ponta oriundos do BOPE  tentarem passar uma análise séria, ponderada e madura das ações estratégica detalhadamente planejadas e os jornalistas, tanto de BSB, como o de SP e do Rio sem terem intimidade com o assunto para explorarem mais as expertises que os dois profissionais dispunham, de forma latente, para os teleespectadores.
O tema é maiúsculo, terá baixas em ambos lados aí incluindo inocentes mas, infelizmente, é o que partilhamos em nosso meio: "O preço da liberdade é a eterna vigilância!!"


Capitão Nascimento
Merval Pereira 

O Globo - 26/11/2010
Ontem foi dia de a realidade imitar a arte. Foi dia de torcer pelo Capitão Nascimento de Tropa de Elite, que todos nós vimos em ação, ao vivo e a cores, nas reportagens das emissoras de televisão. Que o personagem de Wagner Moura tenha se tornado o novo herói nacional é um sinal dos tempos, não necessariamente um bom sinal.

Ontem entraram em ação centenas de capitães Nascimento encarnados em cada um dos soldados do BOPE, que o personagem do filme de José Padilha se orgulha de ter transformado em “uma máquina de guerra”.

E quando essa máquina de guerra conseguiu colocar em disparada várias dezenas de bandidos em fuga pela mata, em direção ao Morro do Alemão, houve comemoração do cidadão comum que assistia à TV Globo como se acompanhasse um filme de aventura em que os mocinhos eram os policiais.

Ou como se aquelas imagens em tempo real fizessem parte de um game em que o telespectador poderia interferir manejando os comandos.

Mas foi também dia de a população como um todo tomar consciência da gravidade da situação, que muitas vezes só é sentida na carne pelas comunidades mais carentes.

A ação de terrorismo distribuída por toda a cidade, que já vinha sendo revelada com os arrastões na Zona Sul nos últimos dias, evidenciou que essas facções criminosas continuam ativas e bem armadas, com capacidade de levar o pânico a qualquer ponto.

O ponto positivo foi ver a reação policial, que deu a sensação de ter sido bem coordenada e comandada com extrema cautela para não colocar em risco a população. E mesmo assim eficiente.

É claro que a realidade lá fora mostrava uma cidade apavorada, quase deserta, com as pessoas escondidas dentro de casa.

Nas localidades envolvidas diretamente na guerra, era possível ver vez por outra lençóis brancos sendo acenados em pedidos desesperados de paz, enquanto as ações de guerrilha continuavam na Vila Cruzeiro, que acabou sendo dominada pelas forças públicas.

Essa verdadeira operação de guerra que se desenvolveu durante todo o dia na região da Penha mostrou uma grande ofensiva policial feita por 150 policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e 30 fuzileiros navais com rostos pintados, colocando várias dezenas de bandidos em fuga, permitindo que a polícia ocupasse o alto da Vila Cruzeiro, aonde não conseguiam chegar há anos.

E tudo mostrado ao vivo pelos helicópteros das televisões, que deixaram os telespectadores espantados com o poder de fogo dos bandidos, e a quantidade de pessoas envolvidas nessa guerra.

Foi um reality show em tempo real que, ao mesmo tempo em que colocou em cada um de nós um sentimento de horror com a constatação da dimensão do problema que a cidade enfrenta, deu-nos também a certeza de que é preciso apoiar a ação do governo, que não há mais volta nesse combate contra o tráfico de drogas.

O fato de que pela primeira vez no combate aos traficantes foram usados Urutus da Marinha de Guerra. É “histórico”, como definiu o secretário de segurança José Mariano Beltrame, ao mesmo tempo em que todos ficamos espantados com a insinuação do secretário de que o Exército não parece disposto a colaborar.

A participação dos Urutus da Marinha e de Fuzileiros Navais na operação foi mais um elemento emocional positivo para a ação da polícia.

A cada barreira que um Urutu ultrapassava parecia uma vitória da sociedade sobre a bandidagem.

Mesmo que a Secretaria de Segurança não planejasse a ocupação da Vila Cruzeiro, ela se tornou inevitável depois que a TV Globo mostrou aquelas imagens, na quarta-feira, de bandidos chegando aos magotes de tudo quanto é lado, para se esconderem na favela que se transformou no bunker da direção da maior facção criminosa do Rio, que comanda as ações terroristas dos últimos dias.

A sensação dos especialistas é de que os policiais montaram uma operação dentro da lógica antiga de responder com uma ação direta no núcleo da bandidagem, para mostrar força, mas para entrar e sair da favela.

E a reação política da sociedade está mostrando que o avanço da polícia foi sentido de maneira tão positiva pela população que vale mais pelo lado intangível do sentimento de vitória do que propriamente pela ação em si.

As forças públicas não poderão sair tão cedo da Vila Cruzeiro, mesmo que não venha a ser instalada lá pelo momento uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), como chegou a ser anunciado.

Essas unidades pacificadoras estão se revelando um ativo político importantíssimo e com ampla  aceitação pela população, mesmo que falte a essa política uma imprescindível ação de planejamento para combater as consequências da retirada dos bandidos dos territórios que dominavam.

Está se produzindo um fenômeno político que é a reação da sociedade de unidade em torno da ação do governo.

Se as forças públicas saírem da Vila Cruzeiro, ficará a sensação de que foram derrotados.

A reação dos bandidos de tocar o terror na cidade foi extremamente negativa para eles, por que conseguiram provocar uma grande unidade na sociedade, e não entenderam que em certas circunstâncias o Estado não pode recuar.

O sinal de que estão descontrolados foi o ataque até a uma ambulância, com doente dentro, que conseguiu sair antes que o veículo pegasse fogo.
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Jungmann classifica ação de criminosos no Rio como "atos terroristas"

PORTAL DO PPS

Por: Diógenes Botelho

"O que estamos vendo acontecer hoje no Rio de Janeiro pode ser qualificado como ações terroristas de grupos criminosos", afirmou nesta quarta-feira o ex-presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara, deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE). Para ele, a ação terrorista foi arquitetada por dois motivos principais: Em primeiro lugar, pelo fato de que visa não o crime diretamente, mas fazer com que a estrutura de Estado e o dispositivo de segurança se condicionem aos desejos do crime organizado do Rio de Janeiro. Em segundo lugar - e de acordo com os qualificativos que a ONU usa para definir ação terrorista, estamos vendo ações planejadas com incêndios e agressões que visam amedrontar, coagir e constranger a população do Rio de Janeiro.

Jungmann avalia ainda que hoje ocorrem 3 crises simultâneas no Rio de Janeiro. "Em primeiro lugar, temos as chamadas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras) que vêm retirando dos criminosos o controle territorial de algumas áreas. Isso tem, por exemplo, encurralado o Comando Vermelho no Morro do Alemão. A partir daí, os criminosos partem para ações fora do complexo que visam coagir a população e ganhar a queda de braço com o governo para que ele enfraqueça a ação do Estado", analisa o deputado.

Outro problema gravíssimo, afirma Jungmann, atinge os presídios de segurança máxima, que, no Rio de Janeiro, podem ser chamados de "presídios de comunicação máxima". "Eles se transformaram em quartel general do crime organizado, ou seja, é de dentro do presídio de segurança máxima que partem os ordens para as ações que hoje ocorrem no estado. Urge reconhecer que algo está muito errado nesse projeto", alerta o deputado.

Em terceiro e último lugar, destaca o deputado, está a questão das milícias."É preciso uma reforma das polícias, porque a polícia que está fazendo uma política que tem o seu sucesso relativo, caso das UPPs, é a mesma, ainda que minoritária, que serve os quadros para a milícia. Enquanto não reformarmos essa polícia, e uma reforma que efetivamente signifique o seu resgate, a sua melhoria de condições operacionais, de carreira, de atuação enquanto inteligência, de equipamento e de expurgo de maus policiais, com o funcionamento das corregedorias de modo adequado, nós não vamos ter a sustentabilidade dessas operações", defende o parlamentar.

Jungmann alerta ainda que o que ocorre no Rio de Janeiro pode se alastrar país afora. E, justamente, num período em que a antiga capital federal vai sediar eventos fundamentais para o Brasil como as Olimpíadas e a Copa do Mundo. "Ressalto a necessidade de uma intervenção política coordenada, porque neste instante somos todos cariocas", afirmou.
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