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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Indicadores de pobreza e fome apresentam melhora

Fico feliz com este tipo de ação do Governo Dilma em direção a mitigação da desigualdade. Tive oportunidade de conhecer muitas regiões ínvias desse enorme país continente e, de fato, é muito difícil para os cidadãos de lá arrumarem emprego e sustentarem suas famílias. Não há energia elétrica sustentável, via de regra é monofásica, e a falta de estradas e vias de escoamento impedem que empresas e indústrias lá se implantem para promover o desenvolvimento.

Se o cidadão desvia os recursos que recebe já faz parte de nossa lastimável idiossincrasia morena e contra idiossincrasia e biotipo não se briga.

Vale a pena conhecer este tipo de iniciativa, aliás, não vejo como, de outra forma, a desigualdade naquelas regiões pode ser mitigada. Por outro lado, este tipo de ação de Estado ajuda a dirimir a emigração daqueles pólos em busca de melhores condições de vida nos bolsões marginais das grandes cidades, o que eleva, substancialmente, os índices de violência urbana.

Well done Mrs President!!


Indicadores de pobreza e fome apresentam melhora

Valor Econômico


As políticas públicas de combate a pobreza ganharam vulto e se multiplicaram no Brasil nos últimos anos. O Plano Brasil Sem Miséria, que comemorou um ano em julho, reforça programas que já estavam em curso como o Bolsa Família e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), uma das ações do Fome Zero que promove acesso a alimentos às populações em situação de insegurança alimentar e impulsiona a inclusão social e econômica no campo por meio do fortalecimento da agricultura familiar.

O governo também cria novos programas como Brasil Profundo, voltado a famílias que moram em lugares distantes como Pantanal, floresta Amazônica, regiões do Norte de difícil acesso e pequenos municípios do Nordeste; e o Bolsa Verde que garante R$ 300 a cada trimestre a famílias em situação de extrema pobreza dentro de florestas e áreas de reservas extrativistas que produzem com critérios de sustentabilidade. Cerca de 12 mil famílias foram beneficiadas por esse programa no primeiro semestre deste ano.

Ainda sem números fechados sobre os resultados dos programas, o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), aposta em mecanismos como o Busca Ativa que localiza famílias em situação de extrema pobreza nos lugares mais distantes do país. "Nosso esforço agora é alcançar pessoas que estão em situações tão vulneráveis que não recebem sequer a informação sobre os programas do governo", afirma Tiago Falcão, secretário extraordinário de Superação da Extrema Pobreza, órgão ligado ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Os programas de buscas resultaram no cadastramento de 687 mil famílias que ainda não faziam parte de nenhum programa do governo.

O objetivo do Brasil Sem Miséria é ambicioso: erradicar a pobreza extrema até 2014. Os resultados das ações desenvolvidas até agora devem ser divulgados em setembro. Mas os desafios ainda são grandes. O Brasil tinha em 2010 cerca de 16,2 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, em famílias com renda per capita mensal inferior a R$ 70,00.

No campo, o Brasil Sem Miséria foca o aumento da produção do agricultor com acompanhamento técnico, oferta de insumos, construção de cisternas em locais de seca e facilitação do acesso ao mercado com o aperfeiçoamento do PAA. Hoje, mais de 35,5 mil famílias recebem assistência técnica no Nordeste e em Minas Gerais. Neste ano, outras 93,4 mil famílias serão atendidas.

"Este tipo de política gera resultado positivo porque não tem cunho assistencialista, mas trabalha na transferência de renda, na manutenção da criança na escola, no acesso aos mercados para a produção da agricultura familiar", afirma Muriel Saragoussi, coordenadora da Campanha Cresça da Oxfam. A organização internacional, que no Brasil trabalha no combate a pobreza, acredita que dois pontos são fundamentais para tirar pessoas da miséria no país. Um deles, diz Muriel, é o fomento à agroecologia, forma de produção que mais se adapta à agricultura familiar já que o sistema protege o solo, a água e propiciar a variedade de produtos, que garante a resiliência do pequeno produtor. O outro, é a necessidade de reforçar programas de gênero já que as mulheres são hoje as grandes produtoras de alimentos no mundo.

Nas últimas décadas, houve uma melhora de forma geral na questão da fome em todo o mundo, principalmente em algumas regiões da América Latina, Ásia e China. Em 2006 e 2008, a crise dos alimentos causada por uma série de fatores, entre eles a demanda por biocombustível e especulação de derivativos, comprometeu essa evolução. "As famílias pobres gastam grande parte de seus rendimentos com a alimentação. Quando os preços dos alimentos sobem, elas deixam de fazer as três refeições diárias e consomem produtos mais baratos", afirma Renato Maluf, ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar

Na opinião de Maluf, as fortes políticas do governo de combate à fome protegeram o país de crises desta natureza. "Em termos de disponibilidade de alimentos o Brasil está longe de entrar numa crise", afirma. "No entanto, hoje o problema no Brasil é o modelo predominante de alimentação industrial. A presença de produtos transformados e alimentação fora de casa mudaram a dieta do brasileiro", diz.

Um estudo realizado pelo Ministério da Saúde mostra que a proporção de pessoas acima do peso no país passou de 42,7%, em 2006, para 48,5%, em 2011. No mesmo período, o percentual de obesos subiu de 11,4% para 15,8%.
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

POBREZA RACIAL


EDITORIAL
ESTADO DE MINAS


Desigualdade persiste e afeta negros e pardos, a começar pela educação

Se nenhuma corrente é mais forte que seu elo mais fraco, a sociedade brasileira tem hercúleo desafio pela frente. Trata-se de democratizar as oportunidades para reduzir o hiato existente entre negros e brancos. Estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) apresentado na Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados expõe realidade preocupante. Em 10 anos, negros e pardos tiveram mais acesso à educação e à saúde. Mas estão distantes dos índices alcançados pelos brancos.

O Relatório das Desigualdades Raciais no Brasil 2009-2010 exibe um retrato da população no qual os traços revelam contornos desarmoniosos. Nele, os desníveis ganham relevo. Muitas vezes aparecem disfarçados, mas nem por isso invisíveis. Os aspectos destacados no texto são chave no processo de redução da pobreza, mas, com a evolução lenta, contribuem para perpetuar as condições perversas com as quais o país convive desde a época em que vigorava o regime das Capitanias Hereditárias.

A educação abre, sem dúvida, a porta da ascensão social. Segundo a Fundação Getulio Vargas, cada ano de estudo significa aumento de 15% no salário do trabalhador. Uma sociedade globalizada como a nossa não tem como fugir a exigências crescentes de sofisticação. Bons empregos são disputados por profissionais cada vez mais qualificados. Os melhores ganham as vagas. Os outros não têm saída: precisam se conformar com ofertas medíocres, que os obrigam a manter a mediocridade trilhada por seus antecedentes e, com muita probabilidade, a ser continuada por seus descendentes.

É o preço pago pela baixa qualidade do ensino público. Os negros e pardos, parcela mais pobre da população, frequentam as instituições mantidas pelo governo. Os brancos que podem pagar colégios privados estudam mais e melhor. O resultado do Enem divulgado na semana passada deixou claro que continua profundo o abismo que distancia uns dos outros. E o pior é que esse perverso afastamento não se observa só na escola; aprofunda-se ao longo da vida.

Estatísticas, como demonstra o relatório, camuflam realidades particulares. É o caso dos dados da pré-escola. Hoje, 6,4% das crianças com 6 anos estão fora das salas de aula. Desse total, 4,8% são brancas; 7,5%, negras e pardas. A desvantagem se observa nos demais níveis. É revelador e preocupante o exemplo da taxa de adequação, que avalia se o estudante está na série indicada para a idade. Nada menos de 34% dos jovens de 15 a 17 anos não correspondem ao exigido, estão atrasados em relação à idade. E, desse total, 26,2% são negros e pardos; 20,1%, brancos.

Os dados do relatório, embora sejam inquietantes, apresentam pontos positivos e apontam rumos. As políticas de igualdade racial têm acertos, mas são tímidas demais diante de realidade tão constrangedora e que representa sério desafio a ser enfrentado. Impõe-se aprofundá-las. De um lado, ampliando o leque de ofertas. De outro, melhorando-lhes a qualidade.
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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Brasil com miséria e sem lógica


ROBERTO MACEDO
O Estado de S.Paulo

A presidente Dilma Rousseff mudou o lema programático do governo. De Um País de Todos passou a País Rico é País sem Pobreza. Houve quem dissesse que Um País de Tolos representaria melhor o que se via no governo anterior, dada a distância entre o discurso e a prática, bem como a forma enganosa de atribuir à pessoa do presidente resultados advindos principalmente da dinâmica da economia internacional e nacional.

Em sua lógica, essa forma caracterizava um sofisma, do seguinte tipo: se veio depois que cheguei - e foi algo bom -, foi por minha ação. Tal como um comandante de navio encalhado num banco de areia que atribuiu a si o desencalhe depois de a maré subir.

A presidente Dilma demonstra maior cuidado ao falar, mas adotou o novo lema aparentemente sem maior reflexão. A pobreza existe mesmo em países ricos, seja pelo critério de rendimentos, seja pelas demais condições de vida, como o acesso à educação e a serviços de saúde de boa qualidade. É muito fácil demonstrar que na sua generalidade a afirmação do novo lema é falsa, pois basta um exemplo em contrário. Tomemos um país ricaço onde há pobreza: os Estados Unidos.

No site www.presidencia.gov.br, bem no alto à direita, no desenho que incorpora o lema, passei o cursor e este adquiriu a forma de mãozinha, indicando que levaria a outra página. Cliquei e veio uma em branco, sintomática de um significado vazio.

Na busca de seu lema-sonho, a presidente lançou no início deste mês o Plano Brasil sem Miséria (PBSM). Ora, sonhar acordado também tem sua eficácia se impulsionar uma ação que, embora sem alcançar um objetivo inatingível, permita torná-lo mais próximo.

Ótimo! Para compensar o uso de sofisma, um tanto professoral, eu diria tô nessa, pois também sonho com um Brasil sem miséria. Interessado, cliquei com o cursor mãozinha na figura do plano e cheguei a uma página com várias conexões de informações sobre o PBSM.

A primeira página é encimada pelas fotos de dois jovens. O primeiro segura um cartaz com esta afirmação: "O Brasil cresceu porque a pobreza diminuiu". Aí já pensei tô fora, pois entendo que com as mesmas palavras o correto seria dizer que a pobreza diminuiu porque o Brasil cresceu. O segundo cartaz se assenta no primeiro e incorpora a sua fragilidade lógica ao dizer: "Já pensou quando acabarmos, de vez, com a miséria?".

Esses cartazes me trouxeram à lembrança um anúncio de duas páginas com o mesmo teor nos seus títulos, que o governo fez publicar nos jornais ao anunciar o PBSM. A sensação que seus títulos me trouxeram é a de que os publicitários que os prepararam devem ser os mesmos do governo anterior, ou da sua campanha sucessória, pois insistem em sofismar, desta vez assim: o Brasil cresceu, e isso foi - inegavelmente - acompanhado pela passagem de milhões de pessoas para classes de rendimentos mais elevados, e com diminuição das desigualdades entre classes. Mas daí se conclui, pelo primeiro cartaz, que a também inegável redução da miséria foi o que fez o Brasil crescer economicamente.

Pela ordem: esse crescimento veio principalmente do impulso dado pela expansão da economia mundial no período. Aí estamos falando de estímulos de fora para dentro, de centenas de bilhões de reais, e que, no seu total no período, devem ter entrado pela casa dos trilhões. Houve também o estímulo do crédito interno, que numa conta aproximada cresceu perto de R$ 1 trilhão entre o início e o fim do governo Lula. Com isso a economia cresceu mais, fortaleceu-se, a arrecadação de impostos aumentou muito, e isso permitiu ao governo ampliar programas sociais como o Bolsa-Família e o piso do valor de benefícios permanentes do INSS.

Ora, ao realizar esses programas o governo retirou recursos de segmentos da sociedade e transferiu-os para outros grupos. Se esse processo implicou maior crescimento, isso precisaria ser demonstrado, se ainda não o foi por pesquisadores que se dedicam ao assunto. Mesmo supondo já demonstrado - e, se não fosse, também se poderia argumentar pelo mérito social de programas como o Bolsa-Família -, vale lembrar que a escala desses programas é mínima, se comparada com os estímulos anteriormente citados. Por exemplo, os recursos do Bolsa-Família alcançam perto de R$ 15 bilhões, muitíssimo distantes das cifras dos estímulos inicialmente citados. E, vale insistir, sem estes últimos não haveria os mesmos recursos para programas mais voltados para a pobreza. Ou seja - e talvez meus colegas economistas me critiquem por elaborar sobre o óbvio -, sem crescer bastante não se avançará com maior rapidez no alívio da miséria.

Há mais problemas na concepção do PBSM, a começar pela sua definição dessa mesma miséria, pelo critério renda, pois é direcionado às pessoas que vivem em lares cuja renda familiar é de até R$ 70 por pessoa por mês, estando nessa situação 16,2 milhões de brasileiros. Ora, pode-se dizer que pessoas com renda um pouco ou mesmo bem acima desse valor também estão numa situação miserável. E não apenas pela renda em si, mas, entre outros aspectos, por não terem acesso adequado a uma boa educação e a bons serviços de saúde, estes a começar do saneamento básico, cuja carência leva a uma vida miserável. E, repita-se, mesmo com renda bem superior a míseros R$70 por mês. Mas isso é assunto para futuros artigos.

Dada a minha ênfase nas questões econômicas, lembro que o crescimento dos anos recentes não deverá repetir-se nos próximos, pois, em particular, o estímulo externo não deverá ser o mesmo. Assim, há que concentrar atenção em planos e recursos que nos livrem de míseros 4% de crescimento do produto interno bruto (PIB) nesse período à frente. Sem isso o sonho da presidente Dilma e de todos nós continuará muitíssimo distante.
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Brasil rico e para todos


Para haver inclusão há que se ter desenvolvimento.
Para haver desenvolvimento há que se interiorizar energia, estradas, levar coméricio, indústrias, transporte,
saneamento, saúde pública e ensino de qualidade que só ocorre se os fatores anteriores existirem.

Redução da desigualdade e meio-ambiente também estão, fortemente, de mãos dadas...atadas, aliás.



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O Globo


Com o Brasil Sem Miséria o país se lança num desafio coletivo, que nasce imerso em um clima de expectativa, confiança e otimismo. Nestes oito anos o país provou que pode ousar. Crescemos distribuindo renda, com a retirada de 28 milhões de pessoas da pobreza e a inclusão de 36 milhões na classe média. Esta história bem-sucedida é que motiva a presidente Dilma, governadores e prefeitos a assumir o novo compromisso de retirar 16 milhões de brasileiros da extrema pobreza e integrá-los neste Brasil que cresce cheio de oportunidades.

O Brasil Sem Miséria parte deste sólido acúmulo, dando continuidade às experiências internacionalmente reconhecidas do governo do presidente Lula, buscando aperfeiçoá-las. É o caso do Bolsa Família, considerado o maior e mais bem focalizado programa de transferência de renda do mundo. Hoje são poucos os que desconhecem e ignoram seus méritos para o país e para a população pobre, em especial os benefícios ligados ao desempenho escolar das crianças.

Vamos aperfeiçoar o Bolsa Família em dois pontos: com a busca ativa dos que têm perfil de receber transferência de renda e ainda não recebem, incluiremos mais 800 mil famílias; e com a ampliação de três para cinco filhos por família que recebem a parcela variável, serão beneficiadas 1,3 milhão de crianças e adolescentes.

O plano inova e parte da certeza de que não há escolhas fáceis em políticas com este grau de complexidade. Os 16 milhões de pobres extremos têm nome, endereço e direitos. Desses, 40% têm até 14 anos, 71% são negros e 47% vivem no campo. Estão espalhados por esta imensa nação, refletindo sua diversidade nas diferentes caras da miséria. Déficits sociais históricos explicam por que os extremamente pobres não têm usufruído deste Brasil repleto de oportunidades que o desenvolvimento econômico tem apresentado, e justificam uma ação contundente do Estado para ampliar suas capacidades.

No meio rural, onde a miséria acomete um em cada quatro moradores, vamos ampliar capacidades em três frentes. Oferecemos assistência técnica adequada com acompanhamento sistemático, recursos a fundo perdido, sementes resistentes e insumos para aumentar a produção de alimentos e incluir essa população nos mercados da agricultura familiar. O Bolsa Verde será um pagamento para a conservação de florestas nacionais e reservas extrativistas, aliando combate à extrema pobreza com agenda ambiental. Atuaremos com força junto às cadeias do agronegócio para alterar a situação dos trabalhadores rurais assalariados, muitos não só em extrema pobreza, mas em condições degradantes de trabalho.

No meio urbano vamos aliar intensa oferta de vagas para cursos de qualificação profissional - a meta é atender 1,7 milhão de adultos - ao apoio técnico e de crédito aos que têm um pequeno negócio e à economia solidária. Essa ampliação da oferta de políticas de inclusão produtiva, com foco na extrema pobreza, será orientada pelo levantamento do mais completo mapa de oportunidades de cada local. Outras dezenas de medidas na área de inclusão produtiva e ampliação de serviços públicos, direitos e cidadania que compõem o complexo desenho do plano enfrentarão a miséria nas suas múltiplas dimensões.

Este é um momento de ação, de construção de alianças necessárias à implementação do plano. Não se busca o consenso, mas o aperfeiçoamento crítico através de contribuições da sociedade e daqueles que estão engajados na luta pela justiça social.

Muitos países têm fracassado na produção de políticas inclusivas. O Brasil tem tido uma trajetória vitoriosa nos últimos anos. Cabe-nos avançar, resgatando os que estão em maior vulnerabilidade. O plano conta com o conhecimento adquirido em experiências positivas de inclusão em todos os níveis, com a disposição já demonstrada de governadores e prefeitos, independentemente de suas opções partidárias e, por fim, com o desejo do povo brasileiro de buscar uma vida melhor e construir um país verdadeiramente rico, que é um país sem pobreza.
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terça-feira, 7 de junho de 2011

Teoria das janelas partidas

Segue uma importantíssima contribuição do sempre atento, intelectualmente disciplinado e excelente professor universitário Enio Beal, além de provecto oficial da FAB.

Gostaria, contudo, de ressaltar que em conversas, por ocasião de visita para palestra na Columbia University, em Nova Iorque, tive a oportunidade de conversar com um ex-acessor, direto, de Rudolph Giuliani. Ele me garantiu que o projeto, de fato foi um grande projeto, "Tolerância Zero" só pode ser consubstanciado após a aderência de boa parte de imprensa, do Judiciário novaiorquino e, sobretudo, das comunidades dos setores mais problemáticos daquela grande cidade, a partir de pastores e líderes comunitários. Sem estes, de acordo com o  acessor, não haveria a aderência da sociedade contra os atos de vandalismo e crimes leves (light fellonies).

Vale muito a pena ler o texto abaixo e refletir sobre ele.


*TEORIA DAS JANELAS PARTIDAS*
ou 'Tolerância Zero'

Em 1969, na Universidade de Stanford (EUA), o Prof. Phillip Zimbardo realizou uma experiência de psicologia social.   Deixou dois automóveis abandonados na via pública; dois automóveis idênticos, da mesma marca, modelo e até cor.   Um deixado no Bronx, na altura uma zona pobre e conflituosa de Nova York e o outro em Palo Alto, uma zona rica e tranqüila da Califórnia.
Dois automóveis idênticos, abandonados em dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada lugar.
Resultou que o automóvel abandonado no Bronx começou a ser vandalizado em poucas horas. Perdeu as janelas, o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram. Contrariamente, o automóvel abandonado em Palo Alto manteve-se intacto.

É comum atribuir à pobreza as causas de delito.  Atribuição em que coincidem as posições ideológicas mais conservadoras, (da direita e esquerda). Contudo, a experiência em questão não terminou aí, quando o automóvel abandonado no Bronx já estava desfeito e o de Palo Alto estava a uma semana impecável, os investigadores partiram um vidro do automóvel de Palo Alto.

O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o do Bronx, e o roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo ao mesmo estado que o do bairro pobre. Por quê que o vidro partido na viatura abandonada num bairro supostamente seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso?

Não se trata de pobreza. Evidentemente é algo que tem a ver com a psicologia humana e com as relações sociais.

Um vidro partido num automóvel abandonado transmite uma idéia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação que vai quebrar os códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras, como que vale tudo. Cada novo ataque que o automóvel sofre reafirma e multiplica essa idéia, até que a escalada de atos cada vez piores, se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.

Em experiências posteriores (James Q. Wilson e George Kelling), desenvolveram a 'Teoria das Janelas Partidas', a mesma que de um ponto de vista criminalístico, conclui que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores.

Se se quebra um vidro de uma janela de um edifício e ninguém o conserta, muito rapidamente estarão quebrados todos os demais. Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se gerará o delito.

Se se cometem 'pequenas faltas' (estacionar-se em lugar proibido, exceder o limite de velocidade ou passar-se um semáforo vermelho) e as mesmas não são punidas, então começam as faltas maiores e logo delitos cada vez mais graves. Se se permitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando estas pessoas forem adultas.

Se os parques e outros espaços públicos deteriorados são progressivamente abandonados pela maioria das pessoas (que deixa de sair das suas casas por temor aos gangs), estes mesmos espaços abandonados pelas pessoas são progressivamente ocupados pelos delinqüentes.

A *Teoria das Janelas Partidas*foi aplicada pela primeira vez em meados da década de 80 no metrô de Nova York, o qual se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade. Começou-se por combater as pequenas transgressões: grafites deteriorando o lugar, sujeira das estações, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento de passagem, pequenos roubos e desordens. Os resultados foram evidentes. Começando pelo pequeno delito, conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.

Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, o prefeito de Nova York, baseado na Teoria das Janelas Partidas e na experiência do metrô, impulsionou uma política de 'Tolerância Zero'. A estratégia consistia em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à Lei e às normas de convivência urbana.

O resultado prático foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York. A expressão 'Tolerância Zero' soa como uma espécie de solução autoritária e repressiva, mas o seu conceito principal é muito mais a prevenção e promoção de condições sociais de segurança.

Não se trata de linchar o delinqüente, nem da prepotência da polícia. De fato, a respeito dos abusos de autoridade, deve-se também aplicar a tolerância zero.  Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito. Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.
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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Ovos da serpente

Para quem não o conhece, o Prof Carlos Lessa foi o primeiro presidente do BNDES no gov Lula. Austero intelectual e economista, procurou seguir à risca as propostas de campanha de Lula, dentre elas a eliminação do propalado "caderninho de favores e favorecidos", por isso mesmo poucos meses após a posse perdeu o cargo, percebendo a onda de realidade que o candidato Lula omitira em sua mesmérica campanha eleitoral.

Ele no imperdível, apesar de simples, artigo abaixo faz uma importante radiografia acerca do paradoxo da eleminação da desigualdade social e as atuais políticas praticadas por Lula e mantidas pela atual presidente. A quem se interessar, vale a pena ler tudo, absolutamente tudo, que esse erudito vier a escrever.



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CARLOS LESSA
VALOR ECONÔMICO

Outro dia conheci uma moça de 20 anos. Já é mãe de três filhos, sendo que o pai das crianças, motoqueiro, havia sido exterminado em conflito de quadrilhas. A jovem teve apenas os primeiros cinco anos de escolaridade e é praticamente analfabeta. Trabalha para sustentar as três crianças e, para isso, deixa uma das crianças em uma creche e as duas outras ficam com "mães crecheiras". Ser "mãe crecheira" é uma atividade desenvolvida nas comunidades pobres: uma mulher toma conta e dá proteção a diversas crianças de mães que trabalham. É uma espécie de babá múltipla, versão da pobreza.

A situação dessa família uniparental - assim denominada pelo IBGE - inspira diversas reflexões sobre a questão social. Creio que, na Região Metropolitana do Rio, 17% das famílias são uniparentais. Mais da metade tem como cabeça de família uma jovem mulher. Com um ou mais filhos, quase sempre o pai não assume qualquer paternidade. Muitas dessas jovens desconhecem o fecundador. Formam o segmento de mão de obra não qualificada mais vulnerável do Rio de Janeiro. Em sua maioria, pretendem um emprego de doméstica, porém é raro o empregador que aceite a presença de filho(s). Geralmente, obtém renda monetária em cooperativas de prestação de serviços de limpeza em escritórios, negócios e até mesmo fábricas. Essas cooperativas não respeitam a legislação trabalhista e escondem "gatos" que exploram o trabalho dessas mulheres. Em qualquer repartição pública como a UFRJ ou o IBGE, entre outras, essas mulheres estão reproduzindo a situação de doméstica vulnerável a uma intermediação.

Não é difícil projetar a situação de pobreza estrutural e de baixa capacidade de organização sindical dessa fração social que forma, a meu juízo, o maior contingente de pobres urbanos sem destino. Sempre me surpreendeu não ver movimento feminista assumir esse contingente de "irmãs".

Sempre me pergunto qual será o destino dessa novíssima geração de brasileiros das famílias pobres uniparentais. Não há nenhum programa sistêmico de melhoria das condições de trabalho das "mães-crecheiras". A retórica de creche para todos parece desconhecer o custo de operação como uma barreira financeira à educação pré-escolar. Apenas uma minoria de crianças é atendida pela rede de creches. Se, na creche popular, prevalecer o que vem acontecendo nos primeiro anos da rede escolar temos nessa crianças uniparentais um contingente desassistido. Não é difícil nem exagero imaginar sementes de violência - entre os meninos - e de reprodução precoce de família uniparental. Os dois fenômenos são manifestações estruturais da vida urbana barbarizada.

Defendo o Bolsa Família, porém qualquer política de cobertura dessa fração extremamente vulnerável do corpo social - mães pobres chefes de família - exigiria, ao menos, uma preferência por vaga em creche pública, uma política de educação, vigilância médica e melhoria de instalações das "mães-crecheiras", além de suficiente cobertura pediátrica para as crianças.

Quando Brizola propôs os Cieps, imaginou a escola pública de tempo integral com educação complexa e completa de alta qualidade. Teve o mérito de sublinhar a necessidade de guarda e proteção dos menores de 14 anos. Guarda e proteção é o item que as famílias da pobreza mais desejam para suas crianças, pois mesmo nas famílias de casal, normalmente pai e mãe trabalham para compor a renda familiar, porém morrem de medo que seus filhos estejam nas ruas em horário fora das aulas, sendo cooptados por traficantes e marginais e/ou confundidos com "meninos de rua" e bandidos-mirins. Imaginem o medo da mulher pobre, cabeça de família, que ganha um salário mínimo, e vê a rua como um espaço perigoso para seu filho, após as horas de escola. Essa jovem mãe é torturada pela tesoura do salário baixo e a necessidade de guarda e proteção.

O padrão Ciep é impossível de ser generalizado em um país que prioriza o pagamento de juros e que compromete, com esse tipo de rendimento, um gasto muito superior a tudo o que é gasto em saúde e educação.

Obviamente, no Brasil, programas como os do Ciep cobrem uma fração relativamente pequena da população-alvo, porém, já seria possível ampliar a guarda e proteção de todas as crianças de 7 a 14 anos com o aumento do tempo de permanência na escola, com atividades extra-curriculares. Após as horas de aula, deveria a escola reter suas crianças com um leque de atividades que caminha desde a realização dos deveres, passando por atividades culturais até a difusão de jogos e brincadeiras. Haverá quem argumente que não é possível ampliar a carga horária dos atuais professores primários. É reconhecida a insuficiente remuneração que leva a quase todos terem mais de uma matrícula, porém há um contingente disponível para um "voluntariado" de apoio nos horários extra-classe: os aposentados, a população de terceira idade que, em função da desagregação da família patriarcal, tem tempo livre e gostaria de "ensinar" as crianças a fazerem os deveres, acessar elementos culturais e a fazer brinquedos e brincar.

Imaginem a alegria desses voluntários e a "reconstituição" da saudável relação que deve existir entre idosos e crianças. No horário extra-classe, submetidos às orientações da direção da escola, os voluntários poderiam desdobrar múltiplas atividades. As crianças devem aprender a criar brinquedos e a brincar. Aquele que ensina uma criança a jogar bola de gude e a fazer um papagaio, aquele que lê contos e, talvez, poemas, aquele que ensina atividades artesanais, que socializa a história da cidade, do bairro e do lugar, que chama a atenção para as artes, que faz piadas e convive sem autoritarismo com as crianças é por elas considerado um ser inesquecível e amado, encaminha o menor em direção à cidadania e à socialização pelo convívio produtivo com seus colegas.

A convivência idoso-menor pode exorcizar fantasmas da vida atual. A sociedade do consumo, que ensina a sucatear as coisas, a valorizar apenas o que é novo/novidade exclui a criança pobre da visibilidade e naturalidade do ciclo de vida. Penso que a escola com voluntariado idoso para atividades extra-curriculares resgata o valor e a sabedoria do velho, elemento imprescindível para a vontade de viver.

A hipervalorização do mercantil, do objeto recém-fabricado, o sonho de consumo da novidade, a moldagem de uma sociedade do desperdício pode levar a uma desvalorização do viver e da vida. É uma semente de brutalidade para um povo pobre, e é particularmente daninho para a criança da família uniparental pobre, sem a referência da figura paterna. Creio que a psicologia social identificaria nisso sementes de uma brutalização social. Ninguém deve se surpreender se a criança pobre sem guarda e proteção escolher seus elementos míticos e valores nos traficantes bem-sucedidos. O trabalho terá uma imagem terrível se o relato for o da mãe sofrida que, após oito ou mais horas de atividades sub-remuneradas, tenha ainda a exaustão do tempo de ir e vir. Trabalho, lar e família são categorias fracas na vivência da criança pobre da família uniparental.

Como a presidente da República quer eliminar as raízes da pobreza, anotei essas sugestões, que merecem ser financiadas, ao invés da exaustão pública com o pagamento de juros obscenos.
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terça-feira, 26 de outubro de 2010

A próxima onda

Um excelente artigo didaticamente escrito e com muito conteúdo importante para se conhecer e os interessados, arquivar, e  para a ele retornar com frequência.  
A autora, inclusive, sublinha a importância da infra-estrutura, notadamente a de saneamento básico e público, na manutenção dessa onda sustentável de desenvolvimento.
Vale, como sempre, a pena acompanhar este tipo de assunto que, por incrível que pareça, está ausente nos debates presidenciais de 2010.

A próxima onda
Patrícia Marrone - O Estado de S. Paulo


A demanda por motocicletas, celulares, eletrodomésticos, entre outros bens de consumo, gerada pelo aumento da renda da população brasileira de classes D e E, como reflexo das políticas de combate à pobreza que vêm sendo introduzidas no Brasil desde o início dos anos 90(1), atenuou o impacto da crise sobre a nossa economia. Mas é necessário aprofundar a reflexão sobre o significado do aumento do poder de compra desse grupo, fenômeno que está ocorrendo em escala global. Ele tem decorrido de processos de urbanização e de políticas de renda similares às nossas e que vêm sendo aplicadas em países populosos, como Índia, China e México - relação que pode crescer, na medida em que outros países têm buscado aderir às metas de redução da pobreza definidas desde 2000, pela Declaração do Milênio (ONU)(2).


A população mundial está estimada em 6,8 bilhões de pessoas, de acordo com o U.S. Census Bureau. Dessas, segundo estimativas do Banco Mundial, 79,7% (ou 95% da população dos países em desenvolvimento) vivem com menos que US$ 10 por dia (ver Martin Ravallion, Shaohua Chen and Prem Sangraula, Dollar a Day Revisited, World Bank, maio/2008).

Ou seja, 5,4 bilhões de pessoas vivem com US$ 300 - o equivalente a R$ 510 - mensais ou menos.

O Banco Mundial tem periodicamente revisto suas estatísticas que tratam de medidas de pobreza, em razão do aumento do custo de vida na maior parte dos países em desenvolvimento - destacando-se entre eles os com alimentação, energia e habitação, para a maior parte dos países - e de acesso à água potável para alguns países, como o México. De 2000 a 2010, 227 milhões de habitantes de países em desenvolvimento deixaram de viver em favelas. Apesar da conquista, 828 milhões de pessoas, ou 32% da população urbana desses países, ainda vivem nessas aglomerações urbanas, segundo dados da State of the World"s Cities 2010/2011 (UN-Habitat).

A Índia, onde 367 milhões de pessoas vivem em favelas e a migração para cidades continuará, abriu um enorme mercado para a busca de soluções para a habitação de baixa renda e de gerenciamento de processos na área de saneamento básico. O governo daquele país investirá US$ 100 bilhões até 2015 em infraestrutura urbana para o gerenciamento de água e resíduos sólidos.

A política industrial chinesa também busca soluções para reduzir a pressão sobre a necessidade de moradia decorrente da urbanização e visando a reduzir o consumo de água.

A crise levou ao fortalecimento do papel dos governos e ao ressurgimento do interesse dos países desenvolvidos em formular políticas industriais. Mas o Primeiro Mundo provavelmente continuará a buscar o mercado dos 20% dos habitantes do planeta que vivem com mais que US$ 300 mensais, em que reside maior poder de compra.

O Brasil tem 192 milhões de habitantes, dos quais 161 milhões de pessoas (84% de sua população) vivem em áreas urbanas, em 50 milhões de domicílios permanentes urbanos. Desses, 23,6 milhões - ou seja, quase a metade - são habitados por pessoas que recebem até um salário mínimo, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009, do IBGE. O Censo de 2000 ainda apontava para a cifra de 12 milhões de pessoas vivendo em favelas no Brasil. Segundo estimativas da ONU, em 2010, entre os habitantes de áreas urbanas no País, aproximadamente 26,4%, ou 42,5 milhões de pessoas, vivem hoje em favelas (estimativas da State of the World"s Cities 2010/2011). O Censo 2010 nos trará dados mais atuais sobre o tema.

As despesas com habitação consomem 39% da renda das famílias que vivem em áreas urbanas e recebem até R$ 830. Em seguida vem a alimentação, que consome 26%; transporte, com 8,8%; e saúde, que responde por 5,5% das despesas (Pnad). A experiência brasileira pós-crise mostrou que qualquer aumento da renda no contingente mais pobre surte enorme efeito anticíclico. Assim, medidas que objetivem reduzir as despesas dessas famílias provavelmente surtirão o mesmo efeito.

Hoje, vários países com grandes populações passam por processos de urbanização muito fortes, o que tem fortalecido, num primeiro momento, apenas a demanda por bens de salário, de produção da indústria extrativa, da transformação primária e siderurgia. Mas, numa próxima onda, o processo fortalecerá a demanda por soluções que aumentem a renda disponível dos mais pobres.

Destaco a necessidade de, no âmbito da política industrial do próximo governo, desenvolver produtos e soluções - preferivelmente sustentáveis - direcionados para atender ao enorme contingente de novos consumidores, tendo como público alvo as classes D e E, no Brasil e em outros países em desenvolvimento.

O estímulo às inovações poderá ocorrer por meio de políticas de compras governamentais, financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), direcionamento das disciplinas nas universidades e das pesquisas para o desenvolvimento, por exemplo, de sistemas modulares de construção civil, soluções físicas e químicas de baixo custo para o saneamento em áreas onde o sistema público não é acessível, soluções sustentáveis na captação, uso e reúso de água, como filtros, válvulas e bombas de uso doméstico, entre tantos outros produtos.

(1) Projeto de Lei da Câmara n.º 2.661, de 1992 (PLS 80/91), que pretendia instituir o Programa de Garantia de Renda Mínima. Benefício de Prestação Continuada (1993), Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (1996) e Programa Comunidade Solidária (1995), Bolsa-Escola (2001), Bolsa-Alimentação (2001), Auxílio-Gás (2002), Cartão Alimentação (2003) e Bolsa-Família (2003).


(2) Em 2000 foi lançada pela ONU a Declaração do Milênio - plano de ação global com oito objetivos, monitorado por 48 indicadores a serem alcançados até 2015. Entre os objetivos se destaca a erradicação da extrema pobreza e da fome em escala mundial (ONU, 2010).

ECONOMISTA, MESTRE PELA USP, É SÓCIA DA CONSULTORIA WEBSETORIAL E COORDENA O DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DE OITO ENTIDADES DE CLASSE PATRONAIS
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sábado, 18 de setembro de 2010

Distribuição de renda, pobreza, indigência e...Gini

Marco Antonio Rocha - O ESTADO DE S. PAULO
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.E Gini, por onde anda? Ninguém fala dele? Por quê?

Houve época em que o sobrenome de Corrado Gini (estatístico italiano) era quase obrigatório nas páginas de Economia. Na semana passada, saiu a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009, do IBGE, mas pouco se falou de Gini, apesar da boa e educativa relação Pnad/Gini. A Pnad é feita todos os anos, menos nos anos em que há Censo Demográfico. A próxima será em 2011.

Quanto a Gini, é o seguinte: em 1912, o professor Corrado criou um coeficiente que levou o seu sobrenome. Serve para medir a igualdade ou desigualdade da distribuição de qualquer coisa, inclusive da renda de um país - e varia de 0 a 1. Assim, se o coeficiente de Gini é 0,00, significa que a distribuição da coisa estudada é absolutamente perfeita, a mesma para todos os que a recebem. Se é igual a 1,00, a distribuição é absolutamente imperfeita.

Se todos os cidadãos brasileiros, de qualquer idade e sexo, ganharem uma bola de futebol cada um, o coeficiente de Gini da distribuição das bolas de futebol brasileiras será 0,00 - perfeita. Mas, se todas as bolas de futebol do Brasil ficarem nas mãos do João Havelange, ou do Ricardo Teixeira, ou do presidente Lula (que tanto gosta delas), o coeficiente de Gini da distribuição de bolas de futebol será igual a 1,00: uma distribuição absolutamente imperfeita.

O importante, aqui, é que neste período eleitoral, quando tanto se propala a melhoria de vida do povo brasileiro e de quanto os nossos candidatos a governantes pretendem melhorá-la para o futuro, o coeficiente de Gini deveria estar no centro dos discursos. Talvez não esteja porque não é muito fácil de explicar, e mais difícil ainda de entender. Para facilitar o entendimento, alguns economistas transformam o coeficiente em porcentagem: multiplicam simplesmente o coeficiente por 100, de modo que um coeficiente de Gini 0,50 se transforma num Índice de Gini de 50%.

Bem, mas, afinal, o que nos diz esse importante indicador no Brasil?

Em primeiro lugar, que é verdade que está havendo uma melhor distribuição de renda e que a renda nacional está se tornando menos concentrada. Mas é preciso evitar uma grande confusão: distribuição perfeita da renda não significa que não haja pobreza, ou que haja menos carências, ou que a mobilidade social esteja aumentando. Isso tudo tem de ser medido por outros indicadores, pois a simples medida da distribuição da renda não nos dá essas respostas. Basta lembrar que, se cada brasileiro ganhar R$ 10 por ano, e todos só ganharem isso, a distribuição da renda será perfeita, Gini estará em 0,00 ou próximo disso e, no entanto, todos nós seremos extremamente pobres. Mas a Pnad nos diz que o rendimento real médio mensal de trabalho das pessoas ocupadas era (na semana da pesquisa, em 2009) de R$ 1.111. Então, se toda a população brasileira tivesse essa mesma renda mensal, a distribuição de renda seria perfeita (Gini = 0,00). Mas não o é. A mesma pesquisa determinou um coeficiente de Gini, para essas pessoas, no mesmo período, de 0,518 (índice de 51,8%) - distribuição imperfeita, pois a maior parte dessa riqueza (o total da renda mensal das pessoas ocupadas) estava concentrada em menos da metade do universo das pessoas ocupadas.

Tomando por base o histórico da Pnad, vê-se que a distribuição da renda vem melhorando, sim. O pior ano, da série iniciada em 1981, foi o de 1989 (Gini = 0,630), quando o rendimento médio mensal então apurado era também de R$ 1.111. É que havia muito menos pessoas ocupadas ganhando isso.

A medição bolada pelo professor Corrado iniciou um mergulho com o Plano Real em 1994 (0,585), que chegaria a 0,563 em 2002. O período Lula começou com 0,554 e, no ano passado, bateu em 0,518 - descenso mais rápido porque Lula anabolizou programas de transferência de renda (Bolsa-Família), além de aumentar o salário mínimo e a assistência social via Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Duas outras coisas melhoram no Brasil há mais de 16 anos: a linha da pobreza e a linha da indigência. O Índice de Gini não as mede, mas a Pnad mede. De 1976 a 1985/86, durante 11 anos, 40% da população tinha renda familiar per capita igual ou abaixo da linha da pobreza; e 20%, igual ou abaixo da linha da indigência. Em 1986 houve episódica melhoria (Plano Cruzado, congelamento de preços), que durou um ano. As duas linhas retornaram ao nível "normal" em 1987, onde permaneceram até 1994 (Plano Real). Daí, até 2002, redução de quase 10 pontos de porcentagem (p.p.) nas duas linhas. E de 2003 até 2007, mais 10 p.p. de queda.

O que é que se conclui?

Melhoria na distribuição de renda e diminuição da pobreza e da indigência são políticas consistentes que vêm de longe, e só puderam se manter e progredir porque a inflação foi dominada. Não saíram da cartola do mágico Lula nem da varinha de condão da fada-madrinha. Nos governos que precederam FHC e Lula, pobreza e indigência foram inextirpáveis - como são as saúvas e os demagogos - porque a inflação as realimentava. 
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

América Latina reduziu pobreza extrema em 85%

Em uma região com históricos problemas de baixa densidade demográfica, graves problemas climatológicos e de relevo de difícil circulação, atingir o patamar demonstrado abaixo é algo, de fato, meritório.
Parabéns ao atual governo.
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Segundo relatório da ONU, avanço no combate à pobreza foi liderado por Brasil, Chile e Peru

Washington - A América Latina conseguiu reduzir em 85% a pobreza extrema no fim de 2008 na comparação com 1990, e três países, Brasil, Chile e Peru, lideraram esse avanço, segundo um relatório de agências da Nações Unidas apresentado nesta quarta-feira.
"Apesar do cenário de incerteza e volatilidade que caracterizou a região, (...) parece factível que o conjunto dos países latino-americanos atinja a meta proposta" de reduzir a pobreza total (atualmente em menos de 1,25 dólar por dia) para a metade em 2015, segundo o relatório de 18 agências lideradas pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal).
Reduzir a pobreza extrema à metade no mundo em 2015 é um dos oito Objetivos do Milênio (ODM) que foram adotados pelos membros da ONU em 2000.
A pobreza extrema afetava em torno de 71 milhões de pessoas da região no fim de 2008, segundo os cálculos da Cepal.
De 20 a 22 de setembro, 150 líderes e representantes governamentais irão se reunir em Nova York em uma cúpula para debater os avanços no tema.
Regiões como o leste asiático conseguiram avanços espetaculares, com uma queda da extrema pobreza que deve ser de 95% em 2015 na comparação com 1990.
Mas na América Latina, a região mais desigual de todo o planeta, a paisagem tem contrastes.
"A pobreza tem rosto de criança, de mulher e de indígena. Esse é nosso problema, e está muito concentrado", disse Alicia Bárcena, secretária-executiva da Cepal, na sede da Organização de Estados Americanos (OEA), onde o relatório foi apresentado.
Apesar de sua desigualdade histórica, a América Latina está conseguindo avanços, graças ao crescimento econômico e aos programas de assistência social inovadores que foram implementados, que condicionam a ajuda a certas obrigações dos beneficiários.
"Pela primeira vez na história da América Latina, melhorou o coeficiente de Gini", que é utilizado para medir a desigualdade. Caiu ligeiramente, de 0,55 a 0,52, entre 2002 e 2008, explica o texto do relatório.
"Entre os países que conseguiram essa melhora, estão Brasil, Chile e Bolívia, países nos quais não esperávamos uma evolução tão rápida", disse Bárcena.
Os países com maior desigualdade terão necessidade de taxas de crescimento econômico consideravelmente mais altas, advertiu por sua vez Heraldo Muñoz, diretor regional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
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sábado, 28 de agosto de 2010

Igualdade crescente da América Latina: Mito ou Realidade?

O artigo abaixo ilumina a possibilidade de se reduzir a desigualdade nos países da América Latina em função dos novos modelos de distribuição de renda nos países
O que se precisa entender e se aprofundar é a dificuldade natural de integração entre os países de forma que possam operar em blocos econômicos com políticas de desenvolvimento comuns e sustentáveis.

A forma de transmissão de renda mostrou-se artificial e manteve governos nos países da AL no poder por longo tempo. Sem melhorias na infra-estrutura, notadamente a de energia e de transporte, os atuais governos, notadamente os que comungam com o neobolivarianismo estarão, apenas, repetindo fórmulas do passado que quando falharam ajudaram-nos a alçar o poder via votos dos que deixaram de ter aquelas benesses.

É um tema maiúsculo para todos os países.
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.Igualdade crescente da América Latina: Mito ou Realidade?





Por Jeffrey Puryear
18 maio de 2010


WASHINGTON-É importante notar que a desigualdade tem diminuído recentemente, grande parte da América Latina. O indicador mais utilizado para a desigualdade de renda, o coeficiente de Gini, diminuiu em 13 países da América Latina entre 2002 e 2007. Entre eles está o maior país da região, o Brasil e um dos mais desiguais. Mas são estas diminuições parte de uma tendência de longo prazo? A América Latina se encontraram uma estratégia eficaz e sustentável para redução da desigualdade?





Nós certamente deve ser incentivada. América Latina é a região mais desigual do mundo, portanto, qualquer progresso na redução da desigualdade é positivo e merece aplausos.


Mas não está claro se uma tendência de longo prazo está em curso. Os declínios da desigualdade ter coincidido com um crescimento extraordinário no preço das commodities eo aumento das remessas, tanto que já foram revertidos pela crise econômica mundial. Ausente o crescimento económico robusto, não é claro que a desigualdade continuará a cair.

Além disso, alguns governos latino-americanos adotaram as mudanças políticas fundamentais que sistematicamente viabilizaram queda da desigualdade, ressaltando-se que a maioria dos países aumentaram os gastos sociais na última década. Mas os programas dos fundos têm um triste registro de ajuda os pobres. Os programas sociais tendem a ser neutros ou mesmo regressivos na América Latina, favorecendo os mais ricos de 40 por cento e fazendo pouco para os pobres.

A grande exceção são os programas de transferência de renda, que fornecem os extremamente pobres com um salário mensal em troca de comportamentos positivos, como manter as crianças na escola ou visitas regulares aos postos de saúde. Estes programas reduziram a desigualdade através da criação de um piso de renda a famílias muito pobres. Mas eles são apenas uma pequena parte da despesa social.





Aumentar programas sociais, como educação são de tão baixa qualidade que pouco contribuem para dar aos pobres uma ajuda para ingresso no mercado de trabalho. programas de pensão, que anão gastos em CCTs, esmagadoramente beneficiar os mais ricos de 40 por cento. As receitas fiscais são relativamente baixos na maioria dos países, e não transferir a carga de financiamento do governo dos pobres e das famílias de renda média para os ricos.


A América Latina tem provavelmente muito chegado a redução da desigualdade como pode a partir do boom das commodities e relativamente pequenos programas progressistas como CCTs. Adicional, o progresso sustentado dependerá qualitativamente diferentes políticas que serão muito mais difíceis de aprovar. Os Governos terão de reduzir a evasão fiscal e fechar brechas, particularmente no imposto de renda pessoal. Eles terão à educação reengenharia e melhoria do ensino para que as crianças pobres aprendem que eles precisam para ter sucesso nos mercados de trabalho moderno. E eles terão de estabelecer programas de pensão que beneficiem os pobres, ao invés de apenas os mais ricos de 40 por cento.


Fazendo essas alterações irá envolver escolhas difíceis. Líderes terão que investir um capital político significativo para obtê-los aprovada e implementada. Aqueles que se beneficiam do status quo ferozmente resistir a essas mudanças. Mas a alternativa é preferível mal: as taxas mais elevadas do mundo de desigualdade e terreno fértil para o autoritarismo, os políticos populistas.


Jeffrey Puryear é vice-presidente para a política social no Inter-American Dialogue e co-diretor da Parceria pela Revitalização Educacional nas Américas (PREAL).
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