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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

WikiLeaks revela 'guerra dos transgênicos'

Bettina Barros
Valor Econômico

Um novo vazamento de despachos diplomáticos dos Estados Unidos revelou que o governo americano foi orientado a travar uma guerra comercial contra países da União Europeia que se opusessem a alimentos geneticamente modificados. O país é o maior produtor de transgênicos do mundo.

Segundo o documento revelado ao jornal britânico "The Guardian" pelo WikiLeaks, a embaixada americana em Paris advertiu Washington a iniciar uma guerra comercial "ao estilo militar" em resposta à proibição da França de comercialização do milho transgênico da Monsanto, em 2007. O despacho foi assinado por Craig Stapleton, embaixador em Paris e também amigo e parceiro de negócios com o ex-presidente George Bush.

"Recomendamos a elaboração de uma lista de retaliação que cause alguma dor na União Europeia - já que essa é uma responsabilidade coletiva -, mas também mire os piores culpados", afirma o documento divulgado ontem. "A lista deve ser de longo prazo, já que não esperamos uma vitória tão cedo".

Outros despachos, acrescenta o "The Guardian", mostram que os diplomatas americanos pelo mundo encaram o progresso das culturas geneticamente modificadas como uma estratégia governamental e comercial "imperativa".

O diário britânico afirma ainda que os EUA deveria exercer "particular pressão" sobre os conselheiros do papa, uma vez que bispos de países em desenvolvimento se posicionam "veementemente contra culturas controversas". "As oportunidades existem para pressionar o Vaticano e influenciar um amplo segmento da população europeia e de países em desenvolvimento".

Dados do Serviço Internacional para Aquisições de Aplicações de Biotecnologia (ISAAA, em inglês), organização favorável à tecnologia, os Estados Unidos estão na dianteira de produtos e área plantada com variedades modificadas. Em 2009, plantaram soja, milho, algodão, beterraba, canola e alfafa transgênicos em 64 milhões de hectares. O Brasil está em segundo lugar, com 21,4 milhões de hectares de soja, algodão e milho.

As culturas transgênicas são controversas devido à falta de uma série histórica científica que aponte seus possíveis impactos no ambiente e na saúde humana.
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

'WikiLeaks serão um marco divisor da geopolítica'

O Globo 

Fundador da organização diz ter recebido centenas de ameaças de morte, mas que isso não o deterá 

Procurado pela Interpol, pela Justiça da Suécia, alvo de centenas de ameaças de morte, o australiano Julian Assange está no olho do furacão. Ainda assim, demonstrou tranquilidade durante toda a entrevista concedida por chat ao "El Pais", na noite de sábado. Porém, ele continua a se esquivar de responder as perguntas relativas a seus problemas com a Justiça sueca (onde é acusado de crime sexual). Diz que tem sofrido terríveis dores de cabeça e reconhece que os últimos dias têm sido extremamente difíceis. 

Joseba Elola 

Você e os demais integrantes da sua organização têm adotado medidas de segurança depois de receberem ameaças de morte. De onde elas vêm? 

JULIAN ASSANGE: Recebemos centenas de ameaças de morte específicas de soldados do Exército dos Estados Unidos. Para nós, isso não é novidade. Já nos acostumamos a ignorar ameaças de extremistas islâmicos, ditadores africanos etc. O que preocupa mais desta vez é que as ameaças foram estendidas a nossos advogados, aos meus filhos. Porém, o mais grave são as conclamações para que sejamos sequestrados e executados feitas por membros das elites americanas. Elas vão desde o pedido do senador John Ensign para que o Senado nos declare "ameaça transnacional" até os pedidos para que sejamos assassinados feitos por Marc Thessian, o homem que escrevia os discursos de Bush. 

Como os seus filhos têm sido ameaçados? 

ASSANGE: Prefiro não dar ainda mais ideias falando deles. No entanto, alguns sites de extrema direita fizeram um chamado para que eu seja atacado por meio do sofrimento dos meus filhos. Eu já temia que uma coisa assim aconteceria desde abril. Por isso, desde então, venho me mantendo afastado da minha família. 

Quanta gente tem ajudado sua organização nesses dias? 

ASSANGE: A organização permanece muito forte. Temos muito apoio, mas também recebemos muitos ataques. Estes vão de calúnias a questões legais. Há dezenas de pessoas ajudando montando réplicas do site, mas esse é um processo trabalhoso. No entanto, se existe uma batalha entre o Exército americano e a preservação da História, temos que assegurar que a História vencerá. 

Este é o maior vazamento de informações? É o mais relevante? 

ASSANGE: Este é o maior. São 265 milhões de palavras. É o mais relevante também, cobre as questões mais importantes de cada país. É mais significativo do que os referentes ao Afeganistão. 

Para você, quais serão as consequências deste vazamento? 

ASSANGE: É cedo para saber. As ondas de choque ainda começam a se espalhar pelo mundo. Mas acredito que o WikiLeaks será um marco divisor da geopolítica. Olha, você só pode me fazer mais duas perguntas. Preciso sair. 

Você disse à revista "Time" que Hillary Clinton deveria se demitir, se ficar comprovado que deu ordens a diplomatas americanos para espionarem as Nações Unidas. Mas se for isso mesmo, não deveria ser Barack Obama quem deveria renunciar? 

ASSANGE: Toda a cadeia de comando de onde partiram essas ordens deveria se demitir, se os Estados Unidos querem ser vistos como uma nação com credibilidade, que cumpre as próprias leis. Obama deveria deixar claro se tinha conhecimento dessas ordens. Se tinha, deveria sair. 

É verdade que a Scotland Yard tem conhecimento de sua localização e que você está disposto a conversar com as autoridades suecas? 

ASSANGE: Há algo "estranho" nesse caso e isso é óbvio.
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Vazamento de segredos no WikiLeaks obriga países a repensar a diplomacia

Andrei Netto - O Estado de S. Paulo


EUA e França reorganizarão a transmissão de documentos diplomáticos, tornando seus sistemas de comunicação de embaixadas e consulados mais seguros; veteranos da carreira diplomática, porém, garantem que não há como mudar o tom dos despachos secretos

O soldado americano Bradley Manning, de 22 anos, vive hoje em uma "solitária", à espera do julgamento em corte marcial em 2011. Antes de ser isolado do mundo, porém, o jovem teve acesso, durante 14 horas por dia, sete dias por semana, ao longo de oito meses, a uma rede gigantesca de informações secretas do Departamento de Estado americano a partir de seu posto de trabalho, em Bagdá.

Ao decidir apagar os arquivos MP3 de Lady Gaga e copiar em seu lugar 1,6 gigabytes de dados em um CD regravável, Manning protagonizou o maior vazamento de informações da história.

Nas mãos do australiano Julian Assange e do site WikiLeaks, esses 250 mil relatórios escritos por diplomatas de embaixadas dos Estados Unidos vieram à tona no último domingo e, desde então, já começam a mudar o modo de se fazer diplomacia.

Por ordem de Washington, computadores cedidos pelo Departamento de Estado a diplomatas que redigem relatórios confidenciais não mais contarão com tecnologias banais, como os drives USB para pen drives. A decisão é adotar "uma solução temporária para mitigar os riscos futuros de que dados confidenciais sejam movidos por funcionários para sistemas não seguros", segundo nota distribuída pelo Departamento de Estado americano.

Além disso, o número de computadores que terão acesso aos sistemas que armazenam informações "sensíveis" será brutalmente reduzido no Pentágono, por decisão do secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates. As medidas são as primeiras adotadas pelo governo americano e formam parte de uma série de soluções de curto, médio e longo prazos que vêm sendo adotadas ou estudadas em todo o mundo nos últimos meses para aprimorar a segurança de dados sigilosos.

Novas normas. Esses procedimentos já estão em curso na França, por exemplo. De acordo com o porta-voz do governo do presidente Nicolas Sarkozy, François Baroin, desde a revelação dos dados pelo WikiLeaks, o Palácio do Eliseu vem colocando em prática medidas para evitar a perda de informações.

"O vazamento terá por consequência redefinir as modalidades de transmissão de documentos de natureza diplomática no interior do dispositivo da chancelaria francesa", revelou.

Entre diplomatas ouvidos pelo Estado, a preocupação com o sigilo é tangível - até mesmo entre brasileiros. Bruno Carrilho, ex-conselheiro Político da Embaixada do Brasil em Paris, citado em um dos telegramas divulgados pelo site WikiLeaks, admitiu na noite de quarta-feira que a fuga de dados pelo Departamento de Estado americano levou todos na profissão a questionarem eventuais procedimentos que possam resultar em novos e constrangedores vazamentos. "Neste momento, nós, diplomatas, estamos no olho do furacão. É um momento de reflexão para todos nós", disse Carrilho.

No meio diplomático europeu, imagina-se que os vazamentos farão crescer a prudência nas relações entre colegas de países diferentes. Uma das preocupações é a de assegurar aos interlocutores a credibilidade dos sistemas de comunicações.

Para François Nicoullaud, ex-embaixador da França em países sensíveis como o Irã, os vazamentos do WikiLeaks põem em perigo um dos princípios mais importantes da diplomacia: o sigilo. "Se quisermos ser transparentes e objetivos nos nossos relatos, precisamos ter a garantia do segredo", argumentou. "A liberdade de análise e de discrição do diplomata é muito importante para que os líderes políticos tomem decisões acertadas."

Já Antoine Blanca, ex-embaixador francês em alguns países da América Latina, vê as relações internacionais expostas neste momento, circunstância que pode ter implicações práticas.

Limites. De acordo com ele, sistemas de informação mais complexos - já existentes - serão adotados para garantir a segurança da comunicação diplomática. Já a linguagem empregada nos relatos, acredita Blanca, não mudará - porque não pode. "Há relatos, muitos dos quais sensíveis, que precisam ser feitos entre um embaixador e seus superiores. Não é possível codificar todas as informações."

PARA LEMBRAR

No dia 22, o WikiLeaks avisou, por meio de sua conta no site de microblogs Twitter, que publicaria na internet "uma quantidade de documentos sete vezes maior do que o conteúdo revelado sobre a guerra no Iraque", quando 400 mil documentos sigilosos foram parar na rede. Quatro dias depois, o dono do WikiLeaks, Julian Assange, enviou uma carta ao Departamento de Estado americano pedindo informações sobre funcionários do governo que pudessem estar em locais nos quais suas vidas fossem colocadas em risco no momento da publicação. No dia 28, alguns jornais europeus e americanos começaram a ter acesso privilegiado ao conteúdo, antes que os mais de 250 mil documentos fossem colocados no site do WikiLeaks.
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