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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Mal no começo


JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O ESTADO DE SÃO PAULO 

Cenário: maior inflação em 68 meses; produção industrial desacelerando, principalmente no Nordeste; problemas nas contas externas; blecautes em vários Estados. 

Ações: anúncio do mais profundo corte de gastos federais em oito anos; congelamento de concursos públicos; reajuste de salário mínimo menor do que o esperado; alta dos juros.

Dilma Rousseff está começando seu governo como Lula iniciou seu primeiro mandato: com um freio de arrumação. Que a freada é necessária, poucos discutem. A herança foi politicamente generosa, mas tem conflitos e pendências econômicas inadiáveis.

A presidente parece querer fazer o mal de uma vez só e logo. A fórmula deu certo com o antecessor, e é recomendada há mais de 500 anos por especialistas em marketing político. Inventor da profissão, Nicolau Maquiavel virou adjetivo colocando o conselho no papel.

A aplicação da dica, todavia, requer algum talento. Fernando Collor seguiu o manual ao pé da letra. Arrepiou o esqueleto do florentino ao confiscar, de cara, a conta corrente da população. Mas esqueceu da segunda parte, distribuir bondades a prestação. O resultado é conhecido.

Como há 20 anos, a reação atual dos analistas econômicos oscilou entre a perplexidade e a aprovação escancarada. Não que isso queira dizer muita coisa, mas o boletim do primeiro mês de Dilma na Presidência veio repleto de elogios dos mestres na matéria.

Os cortes também excitaram o faro da oposição. Por um instante, os candidatos a candidato tucano deixaram de trocar bicadas entre si e viraram seus discursos, piadas e entrevistas contra a rival estacionada no Palácio do Planalto.

Aécio Neves saiu do muro ao dizer, resumidamente, que cortes são necessários porque o Brasil não é cor-de-rosa como o PT pintou-o na campanha eleitoral. Mas gaguejou na mineirice e a frase saiu longa demais para virar uma manchete.

José Serra precisou de três tweets para criticar o pronunciamento de Dilma na TV. Ela tentou criar uma "agenda positiva" em meio aos cortes e anunciou um programa de bolsas para o ensino técnico. Serra ironizou, sem sucesso, e depois explicou a piada: "O governo do PT copiou uma ideia nossa. Não esperava que eles dessem o crédito da autoria. Mas é bom saber como funcionam: na campanha, execram, no governo copiam, em geral mal."

Geraldo Alckmin foi mais curto: anunciou salário mínimo de R$ 600 em São Paulo e prometeu contratar 25 mil professores para a rede pública de ensino. 

Que falta fazem uma caneta e um Diário Oficial, devem ter pensado os ex-governadores Aécio e Serra. E, assim, o menos cotado dos três tucanos faturou melhor a freada de Dilma, por enquanto.

A corrida, todavia, é uma maratona. Começar na frente ou atrás não faz tanta diferença assim. Fernando Henrique e Lula enfrentaram muitos obstáculos ao longo dos anos de caminho até a cadeira presidencial e conseguiram atropelar na reta final. Tiveram sorte também.

Se o retrospecto valer algo, a curva de popularidade de Dilma deverá baixar em comparação à expectativa antes da posse. Nenhum antecessor conseguiu sustentá-la depois de empossado. Nem Lula, que só foi equipará-la (e ultrapassá-la) depois de muitos anos.

A questão é o quanto vai baixar. O pacote de maldades foi apenas anunciado. Seu efeito ainda não aconteceu. Vai demorar uns meses até os eleitores sentirem no bolso.

Além disso, há o tradicional período de carência que a população concede a todo governante, um voto de boa vontade, que, no Brasil, coincide com as férias de verão e o pré-carnaval. Assim, será nas Cinzas o primeiro teste de popularidade de Dilma. Mas será necessário esperar passar a Quaresma e o acúmulo de algumas sondagens para poder avaliar se o mal no começo foi ou não um mau começo. 

A repetição da estratégia de Lula por Dilma vai botar à prova duas vertentes que tentam explicar a popularidade recorde do ex-presidente: o sucesso econômico versus o carisma pessoal. Os conselheiros maquiavélicos devem acreditar na primeira hipótese. 
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Votos de boas compras

José Roberto de Toledo
O Estado de S. Paulo

Luiz Inácio Lula da Silva atingiu o mais alto índice de popularidade presidencial pós-redemocratização. O recorde, em si, não quer dizer muito. Basta lembrar que ele pertencia a José Sarney. Mais do que o tamanho, é a durabilidade do saldo positivo que faz história.

Pelo Ibope, foram 92 meses com mais gente elogiando do que tachando o governo de ruim ou péssimo. Apenas durante quatro meses de 2005, na crise do mensalão, Lula teve saldo negativo. No resto, ele gozou por mais tempo de avaliação positiva do que os quatro antecessores juntos.

Não há série de pesquisas para períodos anteriores à ditadura, mas pode-se dizer que nunca um presidente eleito diretamente foi popular por tanto tempo quanto Lula - até porque quase ninguém mais passou oito anos democraticamente na Presidência da República.

Os primeiros 15 anos de governo de Getúlio Vargas podem ter sido até mais populares do que os de Lula, mas não foram democráticos. Sobra a era Fernando Henrique Cardoso.

Em dois governos, FHC desfrutou de 52 meses de avaliação positiva. No auge, aprovou a reeleição (que beneficiaria Lula). Mas, após desvalorizar o real, amargou três anos seguidos de impopularidade. Recuperou-se parcialmente no fim, mas começou melhor do que acabou.

É outro feito de Lula: superou a expectativa da população antes da posse, quebrando tradição brasileira de se decepcionar com seus eleitos. Antes, só Itamar Franco concluíra o mandato mais popular do que começou - mas poucos esperavam muito do vice de Fernando Collor.

Muitos denunciam o populismo como raiz de tanta popularidade. Daí Lula viver às turras com meios de comunicação e pretender regulá-los. Na linha de frente da crítica está a elite intelectual do País. Mas os formadores de opinião perderam a batalha pelo público. Por que?

A disputa não se dá entre corações e mentes, mas no bolso. Aí notas contam mais que palavras.

Lula não personifica a opinião pública, como afirmou em um dos arroubos discursivos, mas, em matéria de emergentes sociais, ele é uma pesquisa qualitativa ambulante. Parece perscrutar na própria experiência a vontade dessa camada crescente da população.

Quem circula pela periferia das grandes cidades brasileiras não deixa de notar o volume dos congestionamentos, a onipresença de carros novos e a proliferação do pequeno comércio. São faces visíveis da explosão de consumo que impulsionou a popularidade presidencial.

Se na sociedade de massa consumir é sinônimo de inclusão, os últimos cinco anos franquearam acesso às gôndolas do mercado a dezenas de milhões de neolulistas. Para eles, poder comprar é uma conquista. Uma conquista que não arriscam, como aprendeu o tucano José Serra.

Lula compreende melhor que seus rivais a força do crediário. A combinação de aumentos do salário mínimo e micro-crédito alimentou a espiral do consumo, multiplicou o mercado interno e beirou o pleno emprego. Se não justifica, ela explica a popularidade do agora ex-presidente.

Consumindo, com crédito na praça e sem medo de ficar sem trabalho, o eleitor releva filas e maus tratos em hospitais públicos, relativiza a baixa qualidade do ensino oferecido a seus filhos, faz vista grossa à corrupção e minimiza a violência.

É como se Lula se beneficiasse de uma das máximas do personagem Homer Simpson: "Quando eu cheguei já estava assim". E acrescentasse: "Pelo menos agora vocês estão consumindo".

Não se pode acusar o público de ser irracional, ignorante e desinformado como o personagem do desenho animado. As pessoas avaliam pragmaticamente sua condição de vida, usando os pesos e medidas que anos de propaganda lhe ensinaram a privilegiar: consumo, logo existo.

Lá e cá insinuam-se reações à popularização: "O aeroporto parece rodoviária". A comparação denota perplexidade e saudades de um tempo em que voar era para poucos. Melhor se acostumar. A classe C ganhou asas e cartões de crédito. Só Ícaro a faria pousar. Seria um desastre em mais de um sentido.

O mercado de consumo de massa é o legado de Lula a nova presidente Dilma Rousseff. E sua maldição. Se ela fracassar, não será por inexperiência ou falta de carisma. Será por parar o carrossel das compras. E isso depende tanto da nova presidente quanto das condições macroeconômicas.
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Complexo de Jeca

José Roberto de Toledo
O Estado de S. Paulo

Quando pensa em população rural, qual imagem lhe vem à cabeça? A de alguém carpindo o chão em plagas distantes? A de um caboclo cutucando o bicho-de-pé na porta da tapera? Como diria aquele velho mote publicitário, você precisa rever os seus conceitos.

Duas das três maiores populações rurais do Brasil estão circunscritas nas áreas de São Paulo e de Brasília. Segundo o Censo 2010 do IBGE, 119 mil paulistanos e 87 mil brasilienses não são urbanos. A lista de exotismos estatísticos não fica por aí.

A campeã rural, com 125 mil pessoas, é São José do Ribamar, no Maranhão. Não é nenhuma comunidade agrícola isolada e distante. A 16 km da capital maranhense, faz parte da Grande São Luís.

Na conta da população rural das metrópoles entram desde os guaranis da aldeia Curucutu, no extremo sul de São Paulo, até mini-latifundiários da capital federal que habitam condomínios de luxo para além do Plano Piloto. Estes, se exploram a terra, não o fazem com enxada.

A diferença entre rural e urbano no Brasil tem mais a ver com regras municipais de ocupação do solo e cobrança de impostos do que com estilos de vida ligados à lavoura.

O Censo não tem critérios próprios para diferenciar uma coisa da outra. Usa o perímetro urbano, uma linha imaginária traçada por governos municipais segundo idiossincrasias locais. Pela falta de padronização, é de pouca serventia para extrair conclusões de âmbito nacional.

Na Chapada dos Parecis, em Mato Grosso, Sapezal é um dos maiores centros produtores de soja do mundo. Do alto da torre de telefonia, no centro da cidade, avista-se 360 graus de campos arados que ultrapassam o horizonte. E quase nenhuma casa fora do quadrado urbano.

Sapezal empata com a média brasileira em população rural: 16%. Dos seus 18 mil habitantes, quase a metade chegou nesta década, atraída pelo boom econômico. Os recém-chegados se instalaram na área urbana e se ocuparam no ramo de serviços. Uma minoria dirige tratores.

Capital do país dos treminhões, Ribeirão Preto foi a cidade paulista que mais atraiu migrantes nos últimos 10 anos. Sua economia depende da cana-de-açúcar, mas o município é mais urbano que São Paulo: só 0,3% da população mora na área rural, contra 1,1% dos paulistanos.

Do ponto de vista da ocupação da mão de obra, o agronegócio é cada vez menos rural. Mesmo quem trabalha no campo, sempre que pode, vai morar na cidade. As pessoas querem estar perto da escola, do comércio, querem se conectar à internet, falar pelo celular.

O caipira trocou o cavalo e a charrete por veículos motorizados. A maior frota per capita de motocicletas do país não está em nenhuma capital, mas em Tocantinópolis (TO), na região do Bico do Papagaio: uma para cada três habitantes.

A distância salarial do interior para as capitais ainda é grande, mas já foi maior. Em 2009, o salário médio de um empregado registrado em Ribeirão Preto era R$ 1.519, contra R$ 2.109 em São Paulo. A diferença tende a continuar caindo à medida que aparecem empregos mais qualificados no campo.

Símbolos das piores condições de trabalho, cortadores de cana estão em extinção no centro-sul do País. É mais negócio para as usinas de açúcar e álcool substituí-los por operadores de colhedeiras pilotadas por joystick em cabine com ar-condicionado.

São exemplos e não exceções no interior do Brasil. Algo que um grupo de pesquisadores da Unicamp batizou de complexo rururbano, pela inutilidade de se continuar riscando uma separação entre o perímetro urbano e o mundo rural.

Os limites se confundiram e suas economias se fundiram. Associar o rural exclusivamente ao atraso é que é atrasado. O Brasil precisa se livrar do complexo de Jeca Tatu, de ter vergonha de ser o mais eficiente produtor agrícola do mundo.

Se chegou a essa condição, não foi só pelo solo, clima e extensão. Mas pelas pessoas que desenvolveram conhecimento científico em núcleos de excelência como a Embrapa e o Centro de Tecnologia Canavieira.

É uma combinação que não existe em nenhuma outra parte do planeta, não na escala brasileira. É certo que o País não deve só plantar, criar e extrair, mas ignorar essas vantagens competitivas, não investir nelas, é tão avançado quanto carpir e cutucar o bicho-de-pé.
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Um liberal conservador

José Roberto de Toledo 

O Estado de S.Paulo 06/12/10
O brasileiro é conservador ou liberal? Parâmetros importados dos EUA servem de régua para medir o comportamento do povo de Pindorama? Não há resposta unânime. Nesse caso, consulte-se a maioria. Com a palavra, ou melhor, com os números, o Ibope.
O brasileiro, todo candidato sabe, é contra a legalização do aborto. E, quando o debate sobre o assunto esquenta, o que uns chamariam de conservadorismo aumenta. A eleição presidencial fez crescer o autointitulado grupo pró-vida. Em março deste ano, antes de virar tema de campanha, havia 15% de eleitores pró-legalização e 13% sobre o muro. Em outubro, após a polêmica eleitoral, a maioria antiaborto subira para 78%.
Lição para o postulante a cargos públicos: se você tem opiniões diferentes da maioria ou um esqueleto no armário, cuidado ao mexer no vespeiro, ou vai acabar ferroado.
Os nativos daqui não são emulações dos conservadores de lá. Cresceu em 2010 o grupo de brasileiros contrários à pena de morte. Em outubro, chegou a 55%, ante 46% em março. Aqui, o discurso em favor da vida tem alcance mais amplo do que nos EUA. Moral católica?
Viva sim, mas sem incomodar os outros. Praticamente 2 em cada 3 brasileiros são favoráveis à redução da maioridade penal: 63% defendem cadeia para adolescentes infratores. Maioria equivalente à que quer prisão perpétua para quem comete crimes hediondos.
Numa sociedade violenta e crianças recrutadas pelo narcotráfico, pode-se chamar de conservadora a maioria cujo discurso endossa a punição severa e desde mais cedo? Ou essas não são bandeiras de fato, mas válvulas de uma revolta difusa contra a impunidade?
Fosse ponto de honra, políticos que defendem tais ideias já teriam conseguido capitalizar essa maioria para aprovar leis draconianas. No Brasil, qualquer juiz sabe, políticos e penas duras raramente aparecem na mesma sentença.
Após décadas de inflação fora de controle e concentração da renda, o conservadorismo do brasileiro é fundamentalmente econômico. Não, o brasileiro não é monetarista. Ele só não gosta de mudar políticas que vê como vencedoras.
Em outubro, antes da eleição, o Ibope pesquisou se os eleitores preferiam alguém que mudasse as coisas ou mantivesse o status quo. Só 9% disseram "que mudasse totalmente". Uma maioria ampla se dividiu entre "continuidade total" (32%) e "poucas mudanças e continuidade para muita coisa" (31%).
O raciocínio "não mexa em time que está ganhando" do eleitor ganhou corpo na campanha. Porque 57% temiam que o presidente eleito desencaminhasse o País. Votaram no menor risco. Conservadorismo econômico, ou o quê?
Ao avalizar a política econômica, o eleitor faz exatamente isso. Não é cheque em branco. Não vale para qualquer tema ou iniciativa governamental.
Um exemplo: símbolo do liberalismo de costumes, a união entre pessoas do mesmo sexo é vista com contrariedade pela maioria (54%). Em outubro, só 25% dos brasileiros se declaravam a favor - menos do que os 30% de março. Outros 20% não sabem de que lado ficar.
Como todo direito de minoria, quem defendê-lo desagradará a parte de seus eleitores. Mas não é por isso que o governante deve esquecer no que acredita. Líder é quem vai à frente, escolhe um caminho e tenta convencer outros a segui-lo. O político brasileiro prefere ficar na retaguarda, olhando para que lado a opinião pública se mexe, para ir atrás dela. É a vanguarda do conservadorismo.
O problema dessa atitude "Maria vai com as outras" é que dificilmente produz inovação. As pessoas tendem a gostar do que elas conhecem. Mudança, só quando a água bate no nariz, e olhe lá.
Se Fernando Henrique fizesse um plebiscito para decidir se o Brasil deveria adotar um negócio chamado URV que depois viraria o real, provavelmente ainda estaríamos usando cruzeiros.
Se Lula, logo ao tomar posse, submetesse ao eleitorado a ideia de dar uma mesada a todos os pobres, provavelmente os beneficiários do Bolsa-Família ainda estariam passando fome. Ambos arriscaram, inovaram e se deram bem. Fora isso, é o partido liberal-conservador. 
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