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sábado, 14 de julho de 2012

Não é a Europa, é a China!


ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo


O Brasil está preparado para enfrentar a crise na zona do euro, tem reservas, tem liquidez, pode reduzir os juros porque a inflação recua, tem um mercado financeiro saudável, conta ainda com o potencial do mercado interno, mas está preparado para a desaceleração da China. E aumentam os sinais de que o PIB chinês não deve passar de 7,5% este ano. Muitos analistas falam no comércio entre os dois países, com a China importando menos, mesmo assim, ainda comprando commodities, petróleo, minério de ferro, soja. Além disso, argumentam, o comércio entre os dois países - importação e exportação -, hoje de US$ 37,2 bilhões, continua vigoroso. Cresceu 7% no primeiro semestre do ano, sobre igual período de 2011. É verdade que as importações da China aumentaram 9% enquanto as exportações apenas 6%, mas o Brasil ainda acumula um superávit de US$ 5,1 bilhões no semestre.

Medo de quê? Sim, se a China continua sendo um dos maiores e mais vigorosos mercados do Brasil, onde está o problema? Aqui, um aspecto para o qual poucos atentam. A China não está importando menos do Brasil ou algo parecido, está crescendo menos e importando menos do mundo, Ou seja, dos nossos parceiros comerciais - Estados Unidos, Europa - e nem falamos do espaço que ela está roubando dos produtos brasileiros na Argentina e no mercado mundial. A China é, com os Estados Unidos, o maior importadora mundial, em torno de US$ 2 trilhões por ano; representa cerca de 16% do comércio mundial. Seus principais parceiros são Estados Unidos, União Europeia e Japão - em recessão, ou crescendo não mais que 1,5%.

E os números divulgados esta semana em Pequim mostram que a economia chinesa está crescendo menos; o FMI estima 7,5%, o governo fala em 8,0%. E um crescimento sustentado pelo setor imobiliário onde surgem nítidos sinais de superaquecimento e especulação. Uma pesquisa feita na China mostra que 1 entre 5 pessoas compraram dois imóveis. Já se viu isso nos Estados Unidos e, agora, na Espanha. Esses mesmos indicadores informam que os investimentos representam 49% do PIB, em obras do governo, sim, mas a maior parte no setor imobiliário. Desde 2010, o governo procurou desestimular as compras especulativas, aumentou em 60% a entrada para adquirir um segundo imóvel, mas dá sinais de estar recuando. O consumo interno, que representa 35% do PIB chinês, não está reagindo e a saída encontrada pelo governo é forçar o aumento das exportações, importar menos e intensificar a compra de produtos nacionais.

E é isso que os números do comércio exterior chinês confirmam. As exportações chinesas aumentaram 11,3% em junho e as importações apenas 6,3%. E isso ocorreu em todos os setores, não apenas de commodities. A China voltou a usar o câmbio. "O ritmo no crescimento do comércio na segunda economia do mundo recuou para o nível mais baixo desde a crise global de 2008. Como a demanda interna não reagiu aos estímulos ainda indefinidos do governo, pode-se esperar mais pressão sobre o mercado externo", afirma Alister Cham, da Moody's Analistic.

"A desaceleração das importações chinesas foi maior do que se esperava", e se espera mais porque há nítidos sinais de que a economia chinesa não deve reagir este ano. Haverá mais protecionismo e mais pressão sobre o mercado externo. Só que será difícil encontrar mais espaço nos Estados Unidos ou Europa, que representam quase 50% das exportações chinesas. Restam os outros países. Nós.

Comércio encolhe. O que a OMC e a Unctad (Agência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento) estão prevendo é uma forte desaceleração do comércio mundial, que deve crescer menos de 3,7% depois de haver aumentado apenas 5% no ano passado e 13% em 2010.

Não é só isso. Mas os indicadores da China não mostram apenas uma retração do comércio mundial; afinal, isso poderia ser compensado pelos outros países com maior incentivo à demanda interna e aos investimentos. É muito mais. O que a China confirma é a desaceleração da economia mundial que, já se prevê, não deve crescer muito mais de 3% este ano. Não há mercado externo, não há incentivos internos nos países que representam quase 60% do PIB mundial. Um cenário inquietante e desanimador no qual o Brasil tenta, mas ainda não se ajustou. Não é a Europa, a zona do euro. É tudo. É a economia mundial que está parando.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Não ajudem a inflação!

ALBERTO TAMER

O Estado de S.Paulo 

O mercado financeiro não acredita que o corte de R$50 bilhões no Orçamento, incluindo as emendas dos parlamentares, possa conter a inflação. Ela pode passar de 6% este ano. É o que afirma a maioria dos analistas. Lançando essa desconfiança prematura, quebram expectativas e dificultam a luta aberta do governo contra a alta dos preços. Por favor, senhores, não ajudem a inflação...

Mas em que se baseiam eles? Preços das commodities, gastos irreversíveis comprometidos pelo governo anterior, aumento da demanda não totalmente atendido pela produção, criação de 2,5 milhões de empregos com mais renda e demanda. É um processo em andamento que aquece a economia. A isso se acrescenta a expansão do PIB em 2010, estimada agora pelo BC em 7,8%, que está impulsionando a demanda. Vai ser difícil conter mais pressões inflacionárias.

Parece que os analistas financeiros estão confundindo previsões sobre os efeitos de curto e médio prazos. Ninguém em Brasília afirmou que o corte anunciado terá resultados imediatos ou nos próximos dois ou três meses. Eles vão reduzir a renda de apenas uma parte das pessoas e demandam um tempo até chegarem ao consumo. Há um caminho a seguir antes que possa desaquecer a demanda e conter a alta dos preços. Os resultados não são imediatos. Erra quem disse que o governo afirmou isso.

Equilíbrio e bom senso. O economista do Ipea Marcelo Abi-Rama Caetano fez uma lúcida análise em artigo de ontem no Valor. Uns elogiam o corte, outros o acham impossível de ser concretizado, e há até os que concordam, mas afirmam que é insuficiente. O lado negativo do debate, diz ele, "foi deslocar a discussão da politica fiscal para sua gestão em curto prazo sem o devido enfoque nas politicas que garantam a solvência fiscal de longo prazo".

O ex-presidente do BC Armínio Fraga concorda que o corte é suficiente para colocar as contas públicas em rota de equilíbrio. E a coluna pergunta: por que, então, duvidar por antecipação? Por que negar o crédito a uma equipe econômica que foi mantida e está acertando? Para Fraga, a economia deu sinais de desaceleração, mas ainda é cedo para saber se caminha para o equilíbrio. "O governo está no caminho certo ao prestar também mais atenção ao crédito, que vem se expandindo muito", diz ele.

Juros inócuos. Outra crítica dos economistas é que o aumento dos juros também não vai conter as pressões inflacionárias. É curioso que se fale tanto nisso. Ninguém, mas ninguém mesmo, nem o BC, afirmou que só aumento dos juros sem ajustes fiscais é a solução.

Faltava o que está vindo: redução dos gastos e dispêndios (são coisas diferentes, senhores!) do governo, corte das emendas dos parlamentares. Tudo isso sem cortar excessivamente o poder aquisitivo das famílias, sem o qual não há crescimento, pois não podemos contar com o mercado externo.

O que pesa mesmo. Em seu artigo no Valor de ontem, Marcelo Caetano aponta um desafio que, não se sabe por quê, deixou de ser mencionado pelos analistas neste debate: a necessidade de reformar o sistema previdenciário. "Em 2010, o INSS apresentou um déficit de R$ 42,9 bilhões para atender a 24,4 ,milhões de aposentados, mas a previdência dos civis e militares da União teve déficit de R$ 51,2 bilhões (!) para pagar aumentos a (apenas) 1 milhão (!) de aposentados e pensionistas." É isso que pesa nas contas públicas.

Não ajudem a inflação! Pode continuar subindo, sim, mas aumentaria muito mais sem se não tivesse havido a firme decisão de combatê-la. Vejam por exemplo, a verdadeira luta campal no reajuste do salario mínimo. O que querem mais para consolidar a credibilidade?

É prejudicial e prematuro apregoar que o corte no Orçamento é inviável, é pouco e não funciona. Fazer isso é ajudar o inimigo mais imediato que todos querem combater.
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domingo, 23 de janeiro de 2011

É dificil escolher prioridades

Alberto Tamer
O Estado de S. Paulo 


Juro, câmbio, inflação, emprego, comércio exterior, desafios que o Banco Central e a equipe econômica enfrentam atualmente. São decorrentes do crescimento econômico, alto nível de emprego e consumo atendido por importações. Elas chegam ao País com preços menores, mas não o suficiente para compensar a crescente inflação.

Não dá para definir prioridades. Tudo se soma e entrelaça, num quadro de dependência múltipla. O BC faz sua parte. Mantém os juros elevados para conter a demanda e a inflação, mas o aumento da renda, decorrente de mais 2,5 milhões de empregos em carteira, e do novo salário mínimo mostram que só isso não será suficiente.

No câmbio, a eterna armadilha que nos persegue. Juros altos para desaquecer a demanda atraem mais investimentos externos em busca de rentabilidade maior, levando a uma inundação de dólares que derrubam a cotação da moeda. Tudo caminha para uma valorização maior do real, que o aumento do IOF na entrada de capitais não conseguiu segurar. Não dá para sair da armadilha em um curto prazo. Não é só administrar o câmbio, é tudo.

Mais isso. Aqui reside a grande distorção que é preciso sempre lembrar. A participação das exportações de manufaturas brasileiras continua caindo. Representavam 44% da pauta em 2009 e apenas 39% no ano passado. Enquanto isso, as vendas de básicos aumentaram de 40% para 45%. O petróleo e minério de ferro pesaram decisivamente nesse resultado, mas ganham corpo outros produtos como soja e açúcar.

A voracidade da China por produtos básicos brasileiros, minério e agropecuários, e a sua parcimônia em importar industrializados impressionam e assustam, mesmo porque roubam empregos no País. A China foi o principal mercado das exportações, no ano passado,15% do total, seguida pelos Estados Unidos, 9,5% e a Argentina, 9,2%.

Não é só isso. A professora Lia Valls Pereira, coordenadora do Centro de Estudos do Setor Externo da Fundação Getúlio Vargas, lembra à coluna que a concentração nas vendas de básicos cresce a cada ano. Não é só a China, é a Ásia. "A pauta de exportações para a Ásia continua dominada pelos básicos. A participação das manufaturas para essa região caiu de 16,5% para 10,2%."

EUA também. O cenário de primarização da pauta externa não é diferente quando comparado com outros parceiros comerciais. "Nas exportações para os Estados Unidos, a participação das manufaturas caiu de 63%, em 2007, para 52% no ano passado. O principal produto exportado foi o óleo de petróleo bruto, que representa 20% das vendas brasileiras para esse mercado, seguido pelo café (5,5%) e pasta química de madeira (4,2%)", afirma ela.

Os vizinhos salvam, ainda, mas começam recuar. "O principal mercado das manufaturas brasileiras continua sendo a Associação Latino-americana de Integração (Aladi). Isso significa 43% do total das vendas de manufaturas do Brasil, seguido da União Europeia (19,4%) e dos EUA (12,7%). No entanto, mesmo na Aladi, há uma pequena queda na participação de manufaturas brasileiras, de 87% em 2007 para 84% no ano passado."

A professora Lia Valls Pereira assinala que as exportações brasileiras para os EUA têm crescido, mas a participação na pauta cai desde 2003/2004. "Primeiro, houve uma diversificação dos mercados para os quais o Brasil exporta. Houve, em seguida, a alta dos preços e da demanda de commodities por outros parceiros. Isso elevou a participação de países, como a China, que demandam esses produtos."

Para Lia, "os Estados Unidos ainda são um importante mercado para as manufaturas do Brasil e na pauta ainda predominam esses produtos (52%)".

O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, assumiu decidido a rever todo o cenário do comércio externo brasileiro. É um desafio antigo que ele pretende mudar.
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