quinta-feira, 5 de julho de 2018

Sem gol salvador


Cida Damasco- O Estado de S.Paulo

Governo tenta chegar vivo às eleições, mas são consegue sair da defesa

Não fossem os dois gols no finalzinho do jogo contra a Costa Rica e o “dream team” do futebol brasileiro estaria crucificado. Principalmente Tite, incensado como símbolo da renovação dos técnicos, capaz de domar os rompantes de Neymar e recuperar alguns jogadores que haviam sucumbido àquele 7 a 1 de triste memória.

Não fosse a certeira cobrança de falta de Kroos, no último momento da partida contra a Suécia, e a campeã Alemanha quase com certeza seria despachada ainda na primeira fase da competição. Ainda vêm por aí muitas emoções, mas, por enquanto, a provável sobrevivência das equipes do Brasil e da Alemanha deve-se às vitórias dramáticas da sexta-feira e do sábado.

Na economia, pelo visto, o governo também parece à espera de um gol salvador. Inicialmente festejado pelos mercados e pelos setores produtivos por sua ação econômica, apesar da gigantesca impopularidade, Temer só se preocupa agora em chegar vivo às eleições. Tudo indica que mudanças de posicionamento e/ou jogadas de efeito não conseguirão mudar o resultado da partida.

O cenário externo continua instável, oscilando conforme o andamento da economia americana e as disputas no Oriente Médio. Internamente, o Congresso não faz outra coisa senão criar embaraços à gestão da economia, principalmente em termos de pressão sobre o caixa. Só na semana passada, deu passagem a novos benefícios fiscais a transportadoras e permitiu a venda direta das usinas para os postos de combustível, como mostrou a edição de sábado do Estadão.

Fraco, o governo se enrosca nas próprias pernas para administrar conflitos, a exemplo do que ocorreu com a edição da tal tabela dos fretes. Mesmo o Banco Central, que até pouco tempo atrás se concentravae na função de reanimar a atividade econômica, via derrubada dos juros, agora tem de correr para conter a onda de desvalorização da moeda. E, por fim, os candidatos a ocupar a cadeira de Temer a partir de 2019, a menos de quatro meses das eleições ainda decidem para que lado cair, ou melhor, em quais parcerias devem apostar. Independentemente dessas negociações políticas e de seus desdobramentos, o fato é que o quadro econômico que se forma para o próximo ano não é tranquilizador. Vamos aos prognósticos para os principais indicadores.

1) Atividade econômica – Os números disponíveis na praça desautorizam qualquer expectativa de recuperação mais forte da economia a curto prazo. Caiu em desuso aquele argumento de que “um dia a população vai reconhecer que tudo melhorou”. Antes mesmo de uma mudança na percepção da retomada, houve uma parada na própria retomada. Resta, agora, apontar os culpados – no caso, as dúvidas sobre quem e o que virá depois das eleições. Ainda há uma certa dispersão nas previsões do PIB de 2018, mas pode-se dizer que chegam mais perto de 1% do que de 2%, embora a pesquisa Focus ainda registre 1,76%.

2) Inflação – a alta de 1,11% no IPCA-15 de junho balançou as convicções de quem já contava com taxas muito reduzidas nos próximos meses. Claro que se trata de um resultado pontual, desencadeado pela parada dos caminhoneiros. Ninguém imagina, por exemplo, que a batata, símbolo da disparada de preços na fase de desabastecimento, continuará aumentando à razão de 45% em um único mês. Tanto assim que os mercados continuam apostando num IPCA bem abaixo da meta – 3,88%, frente a 4,5%. Há, porém, uma avaliação de que a inflação só não vai mais longe por um “mau motivo”. Ou seja, a atividade econômica morna, quase fria, que tem impedido o repasse direto das pressões inflacionárias para os preços.

3) Situação fiscal – Ninguém quer mais ouvir falar em ajuste fiscal. As vésperas das eleições, tudo conspira para o aumento de gastos e/ou perda de receitas. É verdade que as previsões para este ano continuam apontando para um delicado equilíbrio. Segundo o relatório de junho da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, o déficit primário deve ficar em R$ 149 bilhões, já computados os efeitos da liberação de recursos na greve dos caminhoneiros, R$ 10 bilhões abaixo da meta oficial. De 2019 para a frente, contudo, só incertezas. Como se pode ver, indicadores que resumem um desafio e tanto para um novo técnico, uma nova equipe e principalmente uma nova estratégia de jogo.


Vitória do México

Míriam Leitão - O Globo

Uma vitória indiscutível nas eleições de domingo deu ao México um rumo claro. O novo presidente, Andrés Manuel López Obrador (AMLO), não apenas ganhou por larga margem, como seu partido, Morena, conquistou a prefeitura da Cidade do México e a maior bancada nas duas casas do Congresso. O país fortaleceu a sua jovem democracia e fez um realinhamento partidário pelo voto.

Durante a campanha o discurso de AMLO foi ambíguo e com toques populistas e nacionalistas. Apesar da oposição de grande parte dos empresários, o mercado financeiro não mostrou especial estresse com a vitória que já era esperada. No seu primeiro pronunciamento, ele foi conciliatório do ponto de vista político e tranquilizador na economia.

O México tem uma história política difícil. Ocorrer uma alternância de poder, sem acusações de fraude, com os derrotados reconhecendo o resultado logo no primeiro momento, com o eleito falando em governar “para todos os mexicanos”, é uma vitória. O México viveu durante 70 anos o regime de partido único. Em 2000, passou a ter três partidos competitivos. Agora terá oito partidos com representação no Senado e nove na Câmara. A vitória de ontem alterou a composição das forças, mas mesmo com sua grande bancada o Morena terá que fazer coalizão para aprovar projetos.

AMLO prometeu atacar a corrupção, a violência e a pobreza. Tarefa superlativa. O México tem alto nível de corrupção, que se entranhou no aparelho de Estado e nas estatais, principalmente na Pemex, durante as décadas em que o PRI governou o país. A corrupção era o pressuposto para essa continuidade. Como López Obrador quer mais e não menos presença do Estado na economia, poderá neste ponto ter o oposto do que busca. A violência é endêmica e derivada do controle territorial dos cartéis do tráfico. A pobreza é outro dos flagelos do México.

A economia vem sofrendo nos últimos anos de baixo crescimento crônico, em torno de 2% ao ano. No ano passado cresceu 2,3%, resultado melhor do que o do Brasil, puxado pelas exportações que aumentaram 9,2% e pelo consumo, 3,27%. O problema também crônico é a dependência dos Estados Unidos. Para lá vão 79,8% das exportações mexicanas e tem sido assim por décadas. Para se ter uma ideia, o segundo parceiro é o Canadá, que compra 2,8%. O governo Trump e sua guerra comercial não pouparam o México nem o Canadá, parceiros do Nafta. Pelo contrário, eles foram atingidos pelas sobretaxas. Além disso, México e Estados Unidos vivem um momento de extrema tensão com a ameaça da construção do muro, as difíceis renegociações do Nafta e a política migratória. Trump escreveu no Twitter que está ansioso para encontrar o novo governante mexicano.

Para chegar à vitória, o novo presidente usou exatamente a estratégia de Lula: o discurso de esquerda, cartas ao mercado financeiro, e uma propaganda para atenuar sua fama de radical. Nem disfarçou estar copiando o Lulinha paz e amor. Era o AMLOve. Ele superou um obstáculo muito maior, porque seu partido foi fundado em 2014 e, mesmo assim, ele o levou a uma vitória maiúscula nos estados, Congresso e prefeituras.

Ele tem experiência como administrador. Foi bom prefeito da Cidade do México, que tem tamanho de país. Como gestor, foi fiscalmente responsável. Promete sê-lo ao administrar o país. Alguns empresários fizeram campanha contra ele e levantaram o fantasma de Hugo Chávez. O caso da Venezuela é específico. Nem a vitória esmagadora que teve nas urnas dará a López Obrador, ainda que quisesse, o poder de desmonte institucional que o chavismo empreendeu na Venezuela. O México sabe o que é ter um partido que se eterniza no poder, com eleições fraudadas. Não cometeria tal erro novamente.

Na economia, a situação fiscal é bem melhor do que a do Brasil. O país teve superávit primário de 2,99% no ano passado e deve ter 1% este ano. Passou por sete anos de déficit primário após a crise de 2008, e a dívida pública saltou de 42% para 52% do PIB. A deterioração no Brasil demorou a acontecer, mas foi muito mais forte. Esse quadro fiscal de recuperação ajudará o presidente López Obrador nos seus projetos.

Transmissão de energia atrai mais investidores


Empresa indiana Sterlite Power venceu seis dos principais lotes oferecidos pela agência reguladora e já havia arrematado lotes em leilões de transmissão realizados no País em abril e dezembro do ano passado

O Estado de S.Paulo 03 Julho 2018 

O mais bem-sucedido de todos os leilões de transmissão de eletricidade promovidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) foi vencido por uma empresa indiana, a Sterlite Power. Os deságios oferecidos foram recordistas, confirmando que quando há confiança na segurança jurídica dos contratos cresce o interesse de investidores externos e internos em aplicações de longo prazo.

“Nenhum país do mundo tem um histórico de 20 anos de concessões de transmissão de energia como o Brasil”, declarou o presidente mundial da companhia vencedora, Pratik Agarwal. Tão ou mais importante é a afirmação do executivo indiano de que “não acreditamos que nenhum partido (que ganhe a eleição presidencial de outubro), seja de direita ou de esquerda, vá interferir em projetos antigos”. A empresa venceu seis dos principais lotes oferecidos pela agência reguladora e já havia arrematado lotes em leilões de transmissão realizados no País em abril e dezembro do ano passado.

O leilão recente ofertou 20 lotes em 16 Estados, envolvendo uma extensão de 2,6 mil km de linhas de transmissão. Os investimentos previstos são de R$ 6 bilhões e os vencedores ofereceram deságio médio de 55%. O deságio mais alto atingiu 74% e foi proposto pela colombiana ISA Cteep, que opera no Estado de São Paulo.

Houve outros nove vencedores, indicando diversificação de investidores externos e internos. A moldagem do certame foi feita com vistas a atrair empresas de menor porte, favorecendo intensa disputa por vários lotes. O diretor da Aneel André Pepitone enfatizou o êxito do leilão. O deságio oferecido, calcula ele, permitirá uma economia vultosa para os consumidores, estimada em R$ 14,1 bilhões durante o prazo dos contratos.

A opção por atrair mais empresas menores do que em leilões passados ajuda a evitar a concentração de riscos, nos casos de insolvência do vencedor. Num dos maiores projetos de geração do País (Belo Monte), o grupo vencedor do linhão de transmissão (o espanhol Abengoa) abandonou a construção em 2015, sendo substituído pela chinesa State Grid e pela estatal Eletrobrás. Temeu-se pela entrega do projeto.

Com raras exceções, os investimentos em transmissão são vistos como atraentes pelos investidores locais e estrangeiros por oferecerem remuneração estável no longo prazo.


O abismo à frente

Luiz Carlos Azedo- Correio Braziliense

A crise ética, a violência do cotidiano, a desagregação da família e uma economia que demanda mais tecnologia e menos mão de obra explicam muita coisa, inclusive o recrudescimento da misoginia, do preconceito, da intolerância e da radicalização política

A famosa Escola de Frankfurt, que reuniu a nata da inteligência judaico-alemã — Theodor Adorno, Max Horkheimer, Hebert Marcuse, Erich From, Friedrich Pollok, Franz Neumann e Jürgen Haberman, Walter Benjamin, entre outros — exerceu notável influência sobre o pensamento social-democrata e liberal no século passado. Surgiu para explicar o fracasso da revolução socialista (espartaquista) na Alemanha, mas acabou dedicando boa parte de sua “teoria crítica” ao estudo das razões que levaram o povo alemão a apoiar o nazismo.

O livro Grande Hotel Abismo (Companhia das Letras), do jornalista britânico Stuart Jeffries, conta a história desse grupo de jovens intelectuais judeus de famílias abastadas, que foi obrigado a fugir da Alemanha para sobreviver ao nazismo e buscou refúgio nos Estados Unidos. Curiosamente, o Instituto de Pesquisa Social nasceu sob influência soviética e foi financiado por um banqueiro alemão, numa cidade onde os judeus buscavam a plena integração e o sucesso social, tendo eleito o prefeito local em 1924. Em 1933, eram 26 mil asquenazes em Frankfurt; antes que terminasse a Segunda Guerra Mundial, 9 mil haviam sido deportados. Hoje, os mortos do Holocausto são homenageados em 11.134 cubos de metal na Wand der Namen.

Entretanto, a Escola de Frankfurt, como se tornou conhecida, logo renegou a ortodoxia marxista. Seus integrantes não concordavam com a tese de que os intelectuais devem transformar o mundo, eram céticos em relação à luta política e se colocavam acima dos partidos. Haviam abandonado a conexão entre a teoria e a prática, mas não imaginavam que muitos anos depois, após maio de 1968, intelectuais como Adorno e Marcuse seriam os gurus de estudantes radicais e da chamada nova esquerda.

Para a esquerda mais ortodoxa, o fascismo era “a ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro”, uma fórmula simplificada, que permitiria aos comunistas alemães classificarem a socialdemocracia como uma força “social-fascista”, num ajuste de contas pelo fracasso da Liga Espartaquista, que tentou tomar o poder em 1919. Enquanto a esquerda se digladiava, o fascismo se expandia pela Europa, com ajuda das tropas nazistas (Itália, Alemanha, Hungria, Bulgária, Áustria, Espanha, França, Holanda, Romênia, Suíça, Polônia, Grécia e Iugoslávia), chegava ao Oriente (Japão, China e Líbano) e à América Latina (Brasil, Chile e Costa Rica).


Como explicar a adesão das massas ao fascismo? Esse debate emergiu na Escola de Frankfurt por vias completamente diferentes da abordagem tradicional. Wilhelm Reich, por exemplo, em 1933, no livro Psicologia de massas do fascismo, atribuiu sua ascensão à repressão sexual. Para ele, a família não era, como tinha sido para Hegel, uma zona autônoma que resistia ao Estado, mas a miniatura de um Estado autoritário que preparava a criança para sua ulterior subordinação. Esse debate foi retomado por Erich Fromm, o principal formulador do grupo na área de psicanálise, para quem o sadismo era a outra face da moeda do masoquismo, conforme a conclusão de Freud. O sadomasoquismo era caracterizado por um esforço compulsivo em busca de ordem.

Freud explica
Na República de Weimar, quando a Alemanha transitava para o capitalismo monopolista de Estado, o povo alemão estava impotente, esmagado pela crise econômica e espiritualmente alienado. De forma sadomasoquista, não pretendia mudar o próprio destino, preferiu se submeter à autoridade que faria isso por ele. “O desejo de estar sob uma autoridade é canalizado para um líder forte, enquanto outras figuras paternas específicas tornam-se alvo de rebelião”, escreveu Fromm. A personalidade autoritária de Hitler não somente governou a Alemanha em nome de uma autoridade maior, a superioridade racial ariana, como a tornou atraente para o povo alemão, principalmente uma insegura classe média.

Essa abordagem freudiana do fascismo tornou-se predominante na Escola de Frankfurt, mas não era única. Foi contestada por outros intelectuais, que viam o fascismo como a resultante do capitalismo de Estado e do nacionalismo, entre outras causas. Mas há que se reconhecer: ela tem o seu valor, pode ajudar a compreender certos fenômenos que não têm uma explicação aparente e nos surpreendem pelo mundo afora. Não é à toa que a chamada “teoria crítica” da Escola de Frankfurt desperta um novo interesse. A crise das democracias e a estagnação econômica no Ocidente contrastam com a modernização e emergência de regimes autoritários no Oriente.

No Brasil, por exemplo, o buraco negro do chamado centro democrático não tem a ver apenas com a crise ética de nossa elite política; a violência do cotidiano, a desagregação da família unicelular-patriarcal e uma economia que, demandando mais tecnologia e menos mão de obra, explicam muita coisa, inclusive o recrudescimento da misoginia, do preconceito de gênero e racial, da intolerância religiosa e da radicalização ideológica no debate eleitoral. “O indivíduo assustado busca alguém ou algo a que possa atrelar o seu ‘eu’”, diria Fromm. Ou seja, à incapacidade de mudar o seu próprio destino, o cidadão comum desesperançado procura alguém que supostamente possa fazê-lo na marra.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Nada é dado, tudo é conquistado


Daniel Aarão Reis- O Globo

A Passeata dos Cem Mil, ocorrida há exatos 50 anos, foi resultado de todo um processo de lutas que se estendeu por vários anos

O verso, do poeta Félix de Athayde, exprime, melhor do que um tratado, o estado de espírito dos que lutavam nas ruas do país contra a ditadura, instaurada em fins de março de 1964 por uma ampla coalizão civil-militar.

As políticas adotadas pelo primeiro governo ditatorial suscitaram descontentamento. Os trabalhadores sofriam com o arrocho salarial. Os empresários, com a falta de créditos. As classes médias, protagonistas das Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que deram respaldo social ao golpe, não se viam recompensadas. Grande parte da mídia que incentivara os militares a depor João Goulart cobria o governo de críticas, alguns chegavam a pedir o restabelecimento das liberdades democráticas.

Os universitários e secundaristas exprimiam com vigor as insatisfações. Em 1966-1967, passeatas nas grandes cidades do país conferiram musculatura a suas entidades e autoconfiança às lideranças. A repressão policial, sempre violenta, não conseguia deter o processo.

Em 1968, o país vivia sob o segundo governo ditatorial. Ele veio com promessas de “diálogo” e “humanização”, porém, estas boas palavras não mereciam crédito da opinião pública. O assassinato do jovem Edson Luís de Lima Souto, em fins de março, desencadeou novas ondas de protesto em todo o país. No Rio de Janeiro, o enterro do jovem, acompanhado por cerca de 60 mil pessoas, foi pacífico. No entanto, em outras cidades o pau quebrou feio, havendo inclusive novos assassinatos, provocados pela polícia.

As denúncias, entretanto, não esmoreciam. As demandas estudantis tornavam-se conhecidas: ensino universitário público e gratuito, mais verbas para as universidades, melhores laboratórios e bibliotecas, reformulação de currículos arcaicos, novas concepções sobre o ensino e a pesquisa, assistência social aos necessitados, abolição das obsoletas cátedras vitalícias. Havia identidade com a luta pelas liberdades democráticas e o fim da ditadura, mas o movimento ganhara consistência e amplo apoio social, por ter sido capaz de alcançar uma rara sintonia com as reivindicações mais sentidas dos estudantes comuns. Daí provinha a sua força e o prestígio de suas lideranças.

Em maio e junho de 1968, passeatas no Rio alcançaram um novo auge. O processo desembocou em 21 de junho, a sexta-feira “sangrenta”. Os dados oficiais confirmavam a violência dos confrontos: 4 mortos, 57 civis e 35 militares feridos, cerca de mil presos. Para além dos estudantes, surgira um novo protagonista: o “povo das cidades”. Do alto dos edifícios, choviam sobre os policiais cinzeiros, cadeiras, pedaços de pau, tampas de vasos sanitários, máquinas de escrever, tudo o que pudesse machucá-los. Nas ruas, lado a lado com os universitários e secundaristas, comerciários, bancários, funcionários enfrentavam, destemidos, a polícia. Do alto de um poste, Vladimir Palmeira orientava: “Vamos com calma. Agora, se eles atacarem, pau neles”. Uma frase percorria as barricadas que se formavam: “a gente apanha, mas também dá”.

Era uma luta desigual. De um lado, as armas dos que protestavam: sacos plásticos cheios d’água, pedras, paus, gelo, garrafas, tijolos. Para fazer escorregar os cavalos, bolas de gude, cortiças. De outro lado, as armas dos que reprimiam: revólveres, baionetas, fuzis, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. Noite chegada, foi possível à polícia, afinal, “limpar” uma cidade cheia de escombros e de sinais de luta. Uma triste vitória, pois o prestígio estava com os derrotados. O quadro da época foi bem expresso pelo cândido comentário de José Mauro, um menino de 5 anos: “Depois das cenas bacanas que vi, acho os bangue-bangues da TV muito chatos. Não quero ser mais mocinho. Quero ser estudante”.

As lutas culminaram na passeata chamada dos Cem Mil (a rigor, havia muito mais do que cem mil pessoas no centro do Rio naquele dia), ocorrida há exatos cinquenta anos, em 26 de junho de 1968.

Muito já se disse e se escreveu sobre esta manifestação. Caberia, contudo, destacar alguns aspectos, nem sempre adequadamente avaliados. Ela foi resultado de todo um processo de lutas que se estendeu por vários anos. Organizadas pelas bases, nas faculdades e nas universidades. E por entidades de fato representativas, comprometidas com as demandas estudantis. Além disso, autônomas, em relação ao Estado, aos governos e aos partidos políticos, o que lhes conferia um selo de inegável autenticidade. Demonstrou-se também uma notável capacidade de articulação de diferentes tendências, internas ao próprio movimento estudantil, e também no contexto da sociedade civil: artistas, intelectuais, profissionais liberais, assalariados urbanos. E souberam ainda os manifestantes organizar sua autodefesa, sempre apanhando, é verdade, mas, quando possível, “também dando”.

Legados deixados para o futuro. À procura de olhos capazes de vê-los.

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Daniel Aarão Reis é professor de História Contemporânea da UFF


A política de chuteiras

Andrea Jubé: - Valor Econômico

Nestas eleições, vale o imponderável nos minutos finais

Na política assim como no futebol, os tempos são de vale tudo. Chutes na canela, empurrões, mão na bola. Isso tudo sem combinar com os russos, digo, com os eleitores. Cadê o fair play numa disputa em que até o gandula sabe que o presidenciável do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, sentará no banco dos reservas no final do segundo tempo? Cadê o jogo limpo quando uma ala do PSDB ensaia à luz do dia um drible para substituir o candidato da sigla à sucessão presidencial? Cadê o fair play numa campanha de candidatos imaginários?

Nelson Rodrigues, testemunha ocular de três mundiais vitoriosos da seleção, escreveu em 1966 que o maior defeito do futebol brasileiro era a "extrema delicadeza" dos jogadores. "Era de dar pena a correção dos nossos rapazes, jogavam na bola e só na bola, jamais o mundo vira um escrete tão doce e de uma inocência quase suicida".

Para Nelson, um sociólogo que analisasse a seleção - então bicampeã - faria a constatação apiedada de que o "escrúpulo é próprio do subdesenvolvimento", assim como a "humildade, a lealdade e o altruísmo".

Passados mais de 50 anos, continuamos subdesenvolvidos - ou emergentes, para usar o termo apropriado - mas parece que o "defeito" em relação ao escrúpulo, à humildade, à lealdade e ao altruísmo parece superado, seja no futebol, seja na política.

No gramado, temos dois titulares pendurados em cartões amarelos, antes das oitavas-de-final, por desacato ao juiz. Na partida contra a Costa Rica, nosso atacante mais popular insultou o capitão da seleção brasileira em campo justamente por causa de um gesto de fair play deste capitão para com o time adversário.

Líderes experientes rechaçam qualquer possibilidade de que nos 45 minutos do segundo tempo, João Doria venha a substituir Geraldo Alckmin, atendendo a uma espécie de ultimato da maioria dos 49 deputados federais e 12 senadores da legenda. Um dirigente partidário, que negocia a aliança nacional com o PSDB, afirma que essa possibilidade foi enterrada no "jantar do guardanapo", no restaurante Emiliano, em São Paulo, há duas semanas, quando Alckmin atirou o adereço sobre a mesa, em um gesto de desafio para que o substituíssem.

Mas um dos insurgentes tucanos questiona: por que após quatro derrotas consecutivas para o PT e um jejum de poder de 16 anos, uma maioria angustiada com o desempenho débil do presidente da sigla, deveria submeter-se a um projeto pessoal no lugar de um coletivo?

Em outra arena, o PT tenta atrair o PSB para uma aliança nacional sem revelar ao potencial aliado, entretanto, a identidade do verdadeiro candidato a presidente. Isto porque Lula - cumprindo pena em Curitiba pela condenação em segunda instância -, está detido na linha de impedimento, por força da Lei da Ficha Limpa.

Não bastasse a questionável estratégia petista do "candidato imaginário", o PT rifou ontem sem titubeio a vaga postulada pelo PSB na chapa majoritária encabeçada pelo governador petista Rui Costa, candidato à reeleição na Bahia.

Em meio às negociações pela coligação nacional com o PT, os pessebistas pleiteavam uma vaga para a reeleição da senadora Lídice da Mata, primeira mulher eleita para o Senado pela Bahia. Mas o lugar foi cedido ao PSD, enquanto a outra colocação cabe ao ex-ministro petista Jaques Wagner.

Um gol contra no âmbito do diálogo pela coligação nacional, testemunhado in loco por um dos interlocutores autorizados pelo ex-presidente Lula para as tratativas nacionais: o ex-prefeito Fernando Haddad.

Além do chute na canela de Lídice, o PT ainda espera do PSB que abra mão da candidatura de Marcio Lacerda ao governo de Minas Gerais, o que o ex-prefeito de Belo Horizonte já descartou. Ao fim e ao cabo, a aliança nacional deve frustrar, e o lance final do PT será a confirmação da candidatura de Marília Arraes ao governo de Pernambuco, maior pesadelo do PSB.

Num jogo onde não há neófitos nem inocentes, valerá nestas eleições o imponderável dos minutos finais. "O começo de qualquer partida é uma janela aberta para o infinito. Ao soar o apito inicial, todas as possibilidades passam a ser válidas; há a angústia da dúvida, e a angústia inversa da certeza", escreveu Nelson Rodrigues em 1962, na véspera do bicampeonato.

No jogo
As eleições de 2018 não se parecem em nada com as de 1989, ao contrário do que se apregoa aqui e ali. Isso porque naquele pleito, os brasileiros não tinham aversão aos políticos. Por isso, redobram as chances neste cenário de que um neófito da política saia vitorioso destas eleições.

Esta é a narrativa que o empresário Flávio Rocha, pré-candidato do PRB à Presidência da República, apresentará aos potenciais aliados do Centro político (DEM, PP, SD, PSC) em reunião na tarde de hoje em Brasília.

Municiado de pesquisas qualitativas que indicam as chances de consagração de um novato nas urnas, Rocha vai expor um cenário semelhante, na verdade, às eleições municipais de 2016, em que desconhecidos da política tradicional se elegeram em grandes capitais.

O exemplo mais notório é o de João Doria, que se elegeu prefeito de São Paulo no primeiro turno. Também são lembrados o atual prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PHS), e de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr. (PSDB). De domingo para cá, ainda se pode mencionar o novo governador de Tocantins, Mauro Carlesse (PHS), um paranaense desconhecido do eleitorado local.

Estreante, Rocha quer convencer as velhas raposas de que o "novo" tem mais chances em outubro. Outro argumento é de que a leitura das pesquisas está equivocada. Ele não é o candidato que tem 1% de intenção de votos, mas sim o que é conhecido por apenas 6% dos brasileiros.

O traço, no seu caso, é de rejeição, o que no somatório final seria uma alta conversão de votos. Isso num cenário em que mais de 50% dos brasileiros afirmam que ainda não sabem em quem votar, e 77% afirmam que votariam em outro candidato, segundo dados da pesquisa qualitativa que tem em mãos. Até então identificado como o candidato do Movimento Brasil Livre (MBL), o presidente da Riachuelo quer mostrar que seu nome ainda tem jogo.

terça-feira, 3 de julho de 2018

O PIB ACABADO DO ANO AINDA POR ACABAR

Victor Cândido - Economista - 
06/06/2018


O PIB de 2018 será uma das maiores frustrações dos últimos anos. O “pibão” de 3% era aguardado ansiosamente ainda no começo de 2018. O mercado financeiro chegou a apostar, no começo do ano, em 2,92% de crescimento para 2018 e o governo em 3%. Este ano seria aquele que o país finalmente iria engatar a segunda marcha e acelerar rumo a um crescimento maior. Porém, a realidade bateu e as expectativas começam a se frustrar.

O PIB do primeiro trimestre foi fraco, o número do segundo trimestre (que estamos vivendo hoje) irá refletir a greve dos caminhoneiros em toda a sua glória e deverá vir próximo de zero ou até mesmo negativo. O terceiro tri será o da eleição com muita incerteza no ar, e o último trimestre, já será tarde demais para salvar o ano. Sem dizer, que as chances de uma reforma fiscal, com ajustes na previdência, já se frustraram e estão completamente fora do radar.

Por que tão frustrante? A economia não está crescendo na velocidade que se imaginava, mesmo estando com a taxa de juros nominal (a Selic) próxima de seu nível mínimo, o investimento não volta, o consumo ainda patina, logo o crédito não cresce, e de nada adianta uma Selic tão baixa. Neste primeiro trimestre a economia cresceu 0,4% do lado da oferta, a indústria e o setor de serviços, que juntos correspondem por mais de 80% de toda a atividade econômica do país, cresceram apenas 0,1%, quase um suspiro ao invés de uma respirada pós-crise.

O consumo e o investimento, ambas classes também importantes, vem avançando, mas ainda de forma tímida. O desemprego ainda é muito elevado, rodando na casa de 12% ao ano, e uma parte relevante desses empregos são do setor informal, o que impede os consumidores de tomarem crédito para comprar um imóvel, eletrodomésticos ou até mesmo um novo carro. 

Os investimentos também crescem a passo de espera, empresários estão na expectativa sobre quem irá vencer a peleja eleitoral em outubro e dependem do resultado para saber se haverá um ambiente econômico mínimo para o prosseguimento da retomada da economia e das reformas necessárias.

Quais os cenários possíveis? 

Olhando o relatório focus, onde estão condensadas as expectativas dos agentes do mercado financeiro, na mediana o mercado acredita que o país ainda possa crescer algo em torno de 2,18%, um número excelente e muito esperançoso, dado o cenário que temos desenhado agora. 

Se a economia repetisse nos próximos 3 trimestres o resultado do primeiro (0,4%) a economia terminaria o ano crescendo 1,5%. Esse é um cenário base, e não seria tão ruim. Se o segundo trimestre tiver um crescimento zero, a economia voltar aos 0,4% de velocidade no terceiro e quarto tri, cresceremos apenas 1,2%! 

Sonhando com otimismo, se, nos próximos 3 trimestres a taxa dobrasse, isto é, crescer 0,8% por trimestre, nos levaria a 2,1% de crescimento no final do ano, mas é uma hipótese quase heroica, uma vez que os indicadores de atividade mensais não mostram esse fôlego, sem contar o efeito da greve que pode até zerar o crescimento do segundo trimestre. 

Crescer mais que 1,5% em 2018, está complicado. O país vai perder mais um ano. 

Reduzir em 50% as expectativas em 6 meses, é algo assustador. Se a economia não cresce, o desemprego não cai, o consumo não retorna e o país continua a se afundar na lama. 

2018 ainda mal chegou à metade e o PIB já se acabou.

A miséria nas ruas não espera o final da Copa

Nabil Bonduki- Folha de S. Paulo

Crise está batendo na porta e pedindo que se faça um debate sério de como enfrentar o drama social

Aos poucos, o Brasil se anima com a Copa. Se Neymar trocar quedas por gols, aí ninguém segura mais. O país vai parar.

Os partidos de centro aguardam a Copa para definir seus candidatos. Já o PT vai esperar um pouco mais, na expectativa de fazer um gol na prorrogação ou, se não der, deixar a decisão para os pênaltis.

Mas a crise social não aguarda o final da Copa. Está batendo na porta e pedindo que se faça um debate sério de como enfrentar o drama social brasileiro, após uma queda de 8,2% no PIB per capita, entre 2014 e 2017, quase 14 milhões de desempregados e um déficit fiscal de R$ 170 bilhões.

No Rio de Janeiro, a intervenção militar agravou a insegurança. Tiroteio no Complexo da Maré matou Marcos Vinicius da Silva, 14, que ia para a escola. Foi o 50º cidadão e a oitava criança a morrer ao ser vítima de bala perdida na “Cidade Maravilhosa”, em 2018.

Em São Paulo, uma legião de miseráveis perambula pelo espaço público. A situação, que já era grave, tornou-se dramática. Caminhar à noite nos bairros centrais virou uma corrida de obstáculos, com tantas pessoas dormindo ao relento.

Nas calçadas, nos semáforos, na saída de bares e restaurantes, a abordagem de pedintes alcançou níveis inusitados. Homens com placas de “eu tenho fome” viraram rotina. Muitos ensaiam limpar o para-brisa por uma moedinha. Outros não pedem dinheiro, mas a compra de um sanduíche, de uma coxinha, de um alimento qualquer.

Tamanha crise e nenhum dos três níveis de governo estruturou uma política emergencial para enfrentar o drama dos que não dispõem do mínimo para sobreviver. Nos quatro anos de crise, 430 mil famílias perderam o atendimento pelo programa Bolsa Família no país.

Em São Paulo, a prefeitura (responsável pelo cadastro) ampliou o número de beneficiários de 229 mil para 479 mil durante o governo Haddad. A atual gestão manteve esse patamar. Mas o benefício médio do Bolsa Família (R$ 146,73) é irrisório em uma cidade cara como São Paulo.

O Programa Trabalho Novo foi muito divulgado, mas os resultados são escassos. A maioria dos que obtiveram colocação em empresas não ficou no emprego. Exceções foram para a publicidade da gestão Doria.

O perfil da população em situação de rua tem se alterado, com uma presença cada vez maior de mulheres e crianças. São famílias despejadas por falta de pagamento de aluguel ou expulsas de ocupações por reintegrações de posse.

A violência e a miséria começam a ser naturalizadas pela sociedade, como algo inevitável. O risco é as pessoas se acostumarem com essa situação degradante, como ocorre em alguns poucos países, muito mais pobres que o Brasil. Isso é inaceitável.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

OS FILHOS DE PAULO FREIRE


por Percival Puggina. Artigo publicado em 11.04.2018


 Entrei no taxi – taxi mesmo, o que já se torna raro – e puxei assunto: “Como estão as coisas no negócio de vocês?”. Resposta: “Este país não tem jeito. Sempre explorado. O litoral brasileiro está cheio de navios estrangeiros levando nossas riquezas. É assim desde o Descobrimento”. Fui tomado por uma vontade irresistível de ficar só e mergulhar fundo nos meus próprios pensamentos. Neles, ando em círculos, sei, mas não perco dois ingredientes dos quais tenho estoque limitado: ciência e paciência.

 Meu interlocutor, pela idade, fazia parte da segunda geração de filhos de Paulo Freire. Muito provavelmente, se constituiu família, já estava transmitindo aos seus descendentes essa mesma visão de mundo e de história, sem perceber a que tipo de existência os estava condenando. E assim prossegue o “patrono da Educação brasileira”,  com a retórica explorado/explorador, oprimido/opressor e outros tantos litígios que a criatividade humana pode conceber para exportar responsabilidades e substabelecer cidadanias, perpetuando rotinas que são, enfim, os objetivos políticos dessas falácias nas salas de aula.

 Quem entrar numa faculdade de Educação ou num curso de Pedagogia e desenrolar críticas à obra de Paulo Freire se tornará receptáculo de todas as maldições conhecidas desde Tutancâmon. É possível atacar e vilipendiar tudo que for sagrado sem que qualquer dedinho se mova em gesto negativo, mas criticar Paulo Freire? Não. Isso não é coisa que se faça. O motivo pouco ou nada tem a ver com Pedagogia ou com Educação propriamente ditas. Tem a ver com política (e o “p” vai minúsculo).

 Quando Freire fez uma experiência pedagógica em Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963, para alfabetizar três centenas alunos em 40 horas, o resultado final deu a todos, em política, uma nota de aprovação superior à de alfabetização. Numa entrevista em Recife, no ano de 1979, indagado sobre possível filiação a um partido político, Freire respondeu: “Faço política através da pedagogia”. No ano seguinte, estaria entre os fundadores – adivinhe de qual partido? Pois é. Acertou. No livro “Ação Cultural para a Liberdade” (1975) ele trata ainda mais extensamente do engajamento político inerente à ação educadora, enfatizando-a como instrumento para a libertação das classes dominadas. Qualquer semelhança com marxismo cultural não é mera coincidência. Qualquer semelhança com Teologia da Libertação não é semelhança: é identidade. Com efeito, a retórica marxista sobre proletariado é copiada e colada para formar o conceito herético de “povo de Deus” na Teologia da Libertação. Nela, o povo de Deus é o povo oprimido, conscientizado, lutando por sua libertação.

O resultado disso em sala de aula vem sendo desastroso. Nossos estudantes disputam entre os piores lugares nos indicadores internacionais. Em grande número, quando concluem o ensino médio já tiveram suas potencialidades neutralizadas; adquiriram, ao preço exorbitante de seu próprio tempo de vida, as piores ideias políticas e o respectivo kit de chavões paralisantes. Ao se posicionarem mal num mercado de trabalho onde a maioria dos empreendedores anseia por recursos humanos qualificados, trabalham muito, produzem pouco, em tarefas mal remuneradas. Ao final, dão razão a quem mais os prejudicou: os professores que lhes fizeram a cabeça e os maus políticos em quem consequentemente passaram a votar. Com eles, repetem o bordão segundo o qual essa mínima liberdade econômica de que dispomos em nosso país é o “demoníaco” capitalismo, feito para explorá-los e oprimi-los.

É perfeitamente previsível o drama dos filhos de Paulo Freire. Deus seja louvado, então, pelos muitos bons professores que com seu trabalho, em meio a essa infindável luta pelo atraso, enriquecem e abrem horizontes aos alunos que lhes entram pela porta da sala de aula.


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* Percival Puggina (73), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

Honestidade com o eleitor


É preciso, de fato, que cada candidato à Presidência ou ao Legislativo explicite as medidas, concretas e realistas, que pretende adotar para reequilibrar as contas públicas
    
O Estado de S.Paulo - 25 Junho 2018 | 03h00

Recentemente, num seminário promovido pela Instituição Fiscal Independente (IFI), entidade vinculada ao Senado, o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, alertou para a necessidade de que o ajuste fiscal esteja presente na campanha eleitoral. “Temos que ser sinceros com o eleitor”, afirmou Mansueto, lembrando a realidade ineludível do País: não há como não fazer o ajuste fiscal.

É preciso, de fato, que cada candidato à Presidência ou ao Legislativo explicite as medidas, concretas e realistas, que pretende adotar para reequilibrar as contas públicas. Segundo o secretário do Tesouro Nacional, um ajuste baseado apenas no que já foi aprovado, como o limite de gastos criado pela Emenda Constitucional 95/2016, não será suficiente. “Ajuste fiscal baseado no teto é gradual e não é fácil”, disse Mansueto. “Simplesmente fazer reforma administrativa não vai levar a equilíbrio fiscal. Ela é importante, mas não é suficiente”, completou.

Seria sem sentido, portanto, que uma campanha eleitoral, cujo objetivo é justamente proporcionar um amplo debate a respeito das soluções para os problemas nacionais, ignorasse esse diagnóstico, tão claro e tão realista, sobre a situação fiscal do País. O reequilíbrio das contas públicas é imprescindível e, para torná-lo realidade, é preciso que o próximo governo empreenda medidas politicamente difíceis, como a reforma da Previdência e o corte de despesas hoje consideradas obrigatórias.

Diante desse quadro, seria uma fraude com o eleitor que os candidatos, sem mencionarem as necessárias medidas de ajuste, apresentassem à população apenas promessas de crescimento econômico e desenvolvimento social. Uma campanha eleitoral honesta exige franqueza a respeito da situação fiscal do País.

Não basta, por óbvio, que os candidatos critiquem o desequilíbrio das contas públicas, com lamúrias contra o sistema. Quem almeja um cargo no Executivo ou no Legislativo deve estar ciente de que essas funções públicas existem justamente para que os problemas do País sejam enfrentados. Os candidatos devem, portanto, dizer à população como e em quais áreas diminuirão os gastos públicos, ou seja, como montarão a equação orçamentária.

Mais de um partido tem anunciado, por exemplo, a intenção de cortar impostos. A promessa pode apresentar-se a algum incauto como audaz resposta aos apelos da população, sempre insatisfeita com a carga tributária. No entanto, sem antes assegurar a redução de despesas, prometer menos impostos é algo simplesmente irreal.

Um partido que esteja seriamente comprometido com a redução da carga tributária deve antes enfrentar o ajuste fiscal com propostas concretas para diminuição de despesas e simplificação da máquina tributária. Essa legenda precisará, por exemplo, apresentar medidas realistas de flexibilização do orçamento, excessivamente engessado pela Constituição e por várias leis. Sem a disposição de levar adiante essas reformas, prometer redução de impostos é demagogia populista.

Para que algum dia seja possível reduzir de fato a carga tributária, é preciso que, o quanto antes, sejam enfrentados temas politicamente difíceis, como a necessidade de desvincular as receitas tributárias, excessivamente engessadas. Ainda que seja ineficiente e sirva de estímulo à corrupção, a destinação obrigatória de um porcentual das receitas a determinadas áreas tornou-se um tabu. Para muitos, extinguir ou reduzir essa prática é sinônimo de insensibilidade social.

Para superar a crise econômica, social e moral, é urgente que os temas sejam debatidos com honestidade e com um mínimo de racionalidade. De outra forma, em vez de apresentar ao eleitor propostas possíveis para solucionar ou equacionar os problemas do País, a campanha eleitoral será ocasião para ratificar um olhar demagógico e populista sobre as políticas públicas, distanciando ainda mais o País dos trilhos do desenvolvimento. A campanha deve servir para que a população se inteire dos problemas nacionais e faça, com responsabilidade, suas escolhas políticas. É exercício de cidadania, não de alienação.

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