domingo, 17 de maio de 2020

"Órfão de vivos"

"Órfão de vivos" 


Só quem construirá a saída da crise e as alternativas de desenvolvimento será, unica e exclusivamente, a sociedade.

Estamos em crise, agravaremos a crise e o que a sociedade (pelo menos aqueles em condição para pensar) vem fazendo?

Em retrospectiva: 2019: Ao longo de todo o ano passado a sociedade se preocupou com corrupção, segunda instância e STF. Seus eleitos, inclusos novos 260 deputados e 25 senadores, se preocuparam em engessar o orçamento para dificultar a gestão Bolsonaro e, em três ocasiões (logo após as mobilizações), confirmaram e AMPLIARAM o fundo eleitoral. Preocupação da sociedade eleitora em conhecer, acompanhar e cobrar...ZERO!!!

2020 e o advento do COVID 19: DIUTURNAMENTE só se fala, só se publica, só se debate em lives COVID 19, Governo Federal, STF, Governadores e lockdown. NADA, absolutamente NADA fora desse BALÃO, desse "círculo vicioso". Nada se constrói, nada se sugere, nada se busca ALÉM E FORA dessa "caixa". Ainda não li nada de consistente para saída de empresas após a crise. Aliás, tem um outro perigoso mantra disseminado INSTITUINDO que a saída para o mercado será vendas on line...como que ignorando uma esmagadora quantidade de atividades econômicas normais que não são realizadas por tal ferramenta.

Costumava seguir alguns jornalistas diferenciados: Guzzo, Alexandre Garcia, Ricardo Fiúza, Rodrigo Constantino, Polípio Braga, Percival Puggina...mas desisti: Ocorre que "descobriram" a magia dos "likes" no youtube e do tweeter...pronto!!! Lascou: Só falam o que a sociedade quer ouvir pelo termômetro dos likes que tem a ver, SOMENTE, com aquelas partes do círculo vicioso. ELES DEIXARAM de nos orientar para enxergar FORA DA CAIXA!!!

Cada vez que vem um texto novo, um youtube, um áudio reforçando, atochando, esmigalhando a paciência SEMPRE sobre os mesmos temas, SÃO REPASSADOS EM PROFUSÃO!!!

O estrago já está feito, a exclusão do acesso ao emprego irá se agravar, o lockdown chegará a um fim mas o medo de circular livre pelas ruas e a violência decorrente da crise irão se agravar e não vejo um comentário ou preocupação ou orientação para com esse lamentável e irrefragável cenário...

Sinto falta daqueles jornalistas, dos amigos que mandavam temas de densidade e de reflexão. Sinto-me órfão dos vivos.

domingo, 10 de maio de 2020

ECONOMIA PÓS PANDEMIA ...

BBC NEWS ..
ECONOMIA PÓS PANDEMIA ...



Crise e coronavírus: V, U ou W, os 3 cenários possíveis para a recuperação econômica após a pandemia de covid-19

A pandemia de covid-19 está gestando uma recessão que já foi batizada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) de "o Grande Confinamento". E parece haver um consenso de que será a maior crise econômica desde a Grande Depressão de 1929. 

[...] temor é que, nos próximos meses, os países da América Latina vão sofrer a segunda fase (da crise): haverá empresas que não vão conseguir se custear, que vão demitir trabalhadores, haverá famílias e empresas que não conseguirão pagar impostos, a demanda vai cair, as finanças públicas vão sofrer, os bancos hoje sólidos podem se ver afetados pela inadimplência", prossegue.[...]        Martin Rama para a BBC.



A pergunta que se fazem os economistas é: qual forma essa crise terá?

Economistas costumam recorrer ao alfabeto para explicar visualmente como preveem a recuperação de uma economia.
"É uma boa simplificação e uma maneira muito gráfica de dizer qual estilo acreditamos que terá a recessão", diz à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) José Tessada, diretor da Escola de Administração da Universidade Católica do Chile.

Algumas das letras mais comumente usadas, explica Tessada, são V, W e U.
E elas ajudam o público a visualizar o gráfico da taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) ao longo do tempo.

Há diferentes conceitos sobre o que é uma recessão. Nos EUA, o Escritório de de Pesquisas Econômicas (NBER, na sigla em inglês) fala de recessão quando há uma queda "significativa" da atividade econômica ao longo de "alguns meses" e que se reflita no PIB real, nos salários, nos empregos, na produção industrial e no comércio.

Em geral, porém, a definição predominante é de que uma economia entra em recessão quando acumula dois trimestres consecutivos de queda no PIB.

Com base nisso é que está sendo feita a maior parte das previsões de como o mundo vai se recuperar do impacto do novo coronavírus e das medidas de confinamento. Vale destacar que a incerteza ante a crise é grande: o economista-chefe para América Latina do Banco Mundial, Martín Rama, disse à BBC que é bom enxergar "todas as previsões feitas neste momento com uma enorme margem de erro".

V, o cenário mais otimista

As recessões formam parte do ciclo econômico e, para algumas correntes do pensamento econômico, são inevitáveis. Dessa forma, o melhor é que, quando ocorram, tenham a forma de V.

"Recessões boas não existem, mas a V tem uma queda pronunciada e uma retomada igualmente pronunciada", explica Tessada. "A ideia é que volta-se a um nível muito similar ao inicial e que a recessão é relativamente rápida. (...) Embora possa durar um par de trimestres ou mais."

O V descreve uma redução forte do PIB, com um ápice breve e uma recuperação acelerada. As previsões mais otimistas consideram que ainda há possibilidade de que a recessão atual acabe tomando essa forma.

Tessada afirma que, nas circunstâncias atuais, todas as três possibilidades — V, U e W — "estão sobre a mesa".

Existe a suspeita de que, se conseguir-se controlar a pandemia, poderíamos estar diante de (uma recessão) V porque poderiam-se suspender as restrições (ao comércio e circulação) e recuperar o crescimento aos níveis anteriores ou parecidos."

Paul Gruenwald, economista-chefe global da agência de classificação de riscos S&P Global Ratings, prevê que no segundo trimestre de 2020 veremos uma queda aguda como as que se dão nas recessões com forma de V.

No entanto, ele recorda que, para isso acontecer, seria necessário retomar a economia de forma ágil e abrupta, o que pode não ser o caso se a pandemia continuar avançando rapidamente em alguns países (como é o caso do Brasil atualmente).

"Digamos que as restrições ao distanciamento social sejam suspensas ou que se desenvolva uma vacina ou tratamento. Daí, voltaríamos rapidamente à rota original", diz Gruenwald à BBC News Mundo.

No entanto, os cenários mais prováveis que ele esboça em um relatório recente não são tão otimistas. O que marcará o ritmo da recuperação, em sua opinião, serão os efeitos sobre o lado da oferta a mão de obra, o capital e o crescimento da produtividade.

"Se nenhum (desses elementos) mudar, a economia regressará a sua rota original, que é um bom cenário." Não seria um V exato, mas sim alargado, diz ele.

Mas isso não sabemos agora, é algo que vamos acompanhar no próximo ano ou dois anos."

U, o cenário mais provável

As projeções da S&P para a economia global compreendem uma queda no PIB global de 2,4% em 2020, seguida de um crescimento de 5,9% em 2021.

Algo que, para Gruenwald, faz com que a recuperação pareça mais similar a um U do que a um V.
"O que vemos agora se parece mais a um U, ou um U longo, em que recuperaríamos a maior parte do choque (recessivo), mas a uma taxa menor", prevê.

Uma recessão em forma de U, explica Tessada, é aquela em que "se entra e se sai, mas ficando (com crescimento) baixo um pouco mais de tempo, sendo custoso sair (da crise). A recuperação é difícil, mas com o tempo se sai e se volta a um nível igual ao anterior".

Esse é o cenário previsto também pela diretora administrativa da agência de classificação de riscos Moody's, Elena Duggar.

"Não vamos recuperar durante a segunda metade do ano toda a produção perdida na primeira metade. Há muita atividade, por exemplo no setor de serviços, que não vai ser recuperada: toda a comida perdida nos restaurantes, as férias, os planos de viagem", explica à BBC News Mundo.

Muito disso será atividade que o PIB perderá. Mas sim acreditamos que, uma vez que acabe o confinamento e as atividades sejam retomadas, haverá uma recuperação na segunda metade do ano."

Recentes previsões da Moody's, no final de fevereiro, estimaram uma queda global de 0,5% do PIB em 2020, seguida de uma alta de 3,2% em 2021.

"Estamos supondo que os confinamentos serão suspensos ao longo do verão (no hemisfério Norte, ou seja, nos meses de junho, julho e agosto) e que a atividade será retomada. Também supomos, e temos visto algo disso, que as respostas dos governos funcionarão: políticas fiscais e monetárias muito fortes e que terão como objetivo ajudar a recuperação", diz Duggar.

Em meio à incerteza com que são feitas essas projeções, uma coisa é dada como certa: o segundo semestre deste ano vai ser economicamente doloroso.

Paul Gruenwald, da S&P, estima que a queda deste trimestre será de 9%. Com uma redução dessa magnitude, não está claro se será possível recuperar a trajetória que a economia parecia seguir antes da pandemia. Ou seja, o mesmo nível de produção e crescimento que se esperava para 2020.

"Mais que um V ou um U, a questão é qual será a trajetória final (da economia). Voltaremos à mesma (trajetória)? E quanto tempo levaremos para chegar a ela?", questiona.

Ao mesmo tempo, os analistas veem sinais positivos que podem levar, por fim, à curva em U.

"Há boas notícias em duas frentes", diz Duggar. "Estamos vendo a China começar a sair do confinamento, reabrir fábricas. Há relatos de que se recuperou de 45% a 70% da capacidade (produtiva). Em termos de capacidade econômica para voltar a funcionar, vemos notícias positivas aí."

A outra frente, acrescenta ela, "são as medidas de apoio fortes. Bancos centrais dos dois lados do oceano (Atlântico) estão agindo com rapidez para dar liquidez ao mercado. Estamos vendo grandes pacotes (de ajudas) em muitos países".

Em seu informe, a S&P vê como sinais positivos que as curvas de contágio do novo coronavírus estejam ficando mais planas e que as intervenções governamentais estejam se refletindo em estabilização da volatilidade do mercado financeiro.

A turbulência do W

Como diz José Tessada, por enquanto "todo o alfabeto" está sobre a mesa nas previsões da crise, uma vez que ainda não está claro se as medidas de confinamento em curso atualmente serão suficientes - ou se precisarão ser estendidas.

A S&P aponta em seu informe que alguns fatores podem colocar em risco a recuperação econômica - por exemplo que, depois de enormes gastos públicos durante a pandemia, governos comecem a aplicar medidas de austeridade antes do tempo.

Mas Gruenwald acha que o maior risco ainda é a questão de saúde e a possível necessidade de períodos intermitentes de isolamento social.

"Se tivermos um cenário em que o distanciamento social é relaxado e o número de infecções voltar a subir, iremos para frente e para trás e teremos uma recuperação muito mais lenta."

Uma curva de contágio da covid-19 que suba e desça acabaria provocando uma recessão com forma de W.

"O W é quando se entra e sai e depois volta-se a entrar (em recessão)", explica Tessada. "A recuperação final não ocorre, e no meio há um momento de aceleração que não se sustenta e (a economia) volta a cair."

Esse percurso turbulento rumo à normalidade causaria perdas de produção, diz o informe da S&P, acrescentando que "o mais inquietante é que é possível que não consigamos uma vacina ou tratamento no período desse prognóstico, o que significaria que voltar à normalidade pode ser impossível."

Vem à mente também a letra L: nesse cenário, depois de uma queda, a economia se manteria estável em um ritmo muito menor, sem se recuperar.
"Mas isso, no fundo, mais que uma recessão é uma mudança permanente no nível de crescimento", afirma Tessada.

E a América Latina?

No Brasil, a previsão de 14 de abril do FMI (Fundo Monetário Internacional) é de que a economia despenque 5,3% em 2020 (contra uma previsão anterior, de janeiro, de crescimento de 2,2%)

No continente em geral, o Banco Mundial prevê que a economia latino-americana e do Caribe (descartando-se a Venezuela do cenário) caia 4,6% em 2020 e cresça 2,6% no ano que vem. Isso esboçaria uma recessão em forma de U, diz Martín Rama, economista-chefe do banco para a região.

"Vejo como um U porque somos otimistas para o ano que vem porque achamos que a essa altura a pandemia vai ser melhor entendida, haverá mais capacidade de testes e talvez uma vacina. 

E achamos que as economias avançadas, como EUA, China e Europa, podem mobilizar os meios financeiros e têm a estrutura necessária para se recuperar", diz à BBC News Mundo.

Com economias fortemente ligadas ao desempenho da China e dos países do G7, os países da América Latina terão uma capacidade de resposta à crise que dependerá, em grande parte, da velocidade como as nações mais ricas se recuperarão, diz Rama.

Nosso temor é que, nos próximos meses, os países da América Latina vão sofrer a segunda fase (da crise): haverá empresas que não vão conseguir se custear, que vão demitir trabalhadores, haverá famílias e empresas que não conseguirão pagar impostos, a demanda vai cair, as finanças públicas vão sofrer, os bancos hoje sólidos podem se ver afetados pela inadimplência", prossegue.

"Agora, as necessidades financeiras dos nossos países são basicamente para atender as emergências médicas e para ajudar quem não pode trabalhar, que é informal e vive do dia a dia. Essas são cifras gerenciáveis, mas com o pouco espaço fiscal que temos na América Latina serão necessárias medidas mais extraordinárias para apoiar a atividade econômica ou para impedir uma crise financeira - é daí que vem o grande risco."

Por um lado, a região tem a "vantagem" de a epidemia ter chegado aqui um pouco mais tarde, o que lhe dá uma margem de aprendizado com os demais países.

Só que, diz Rama, há desvantagens: "(a pandemia) ocorre na região depois de praticamente cinco anos de crescimento bastante reduzido, com exceções como República Dominicana, Panamá, Colômbia".

A isso se soma a instabilidade política vivida no ano passado em países como Chile, Equador e Bolívia: "o descontentamento social que tivemos no ano passado mostra uma dificuldade para uma população que havia aspirado a um nível de vida de classe média, mas havia se desiludido", agrega Rama.


"O que for feito agora nesta emergência vai ter também consequências de longo prazo. Manter o olhar no desenvolvimento de longo prazo é importante também em (um período de) urgência como este."


quarta-feira, 22 de abril de 2020

SEM DEMOCRACIA, SEM LIBERDADE E SEM MORAL J.R. Guzzo


J.R. Guzzo

A democracia morreu no Brasil – se é que chegou a viver algum dia, pois qualquer exame clínico um pouco mais atento mostra que ela já nasceu morta em 22 de setembro de 1988, dia em que começou a valer a Constituição Federal que está em vigor e que é, em geral, considerado como seu marco zero. 

Nasceu morta porque quem a escreveu pensou numa coisa só, com obsessão exemplar, desde a redação de sua primeira sílaba: como montar no Brasil um sistema de governo em que um grupo limitado de pessoas fica com 100% do direito legal de tomar decisões — sem ter de pagar jamais pelas consequências do que decide, é claro — e o resto da população fica sem influência prática nenhuma. 

É exatamente o que vem acontecendo há quase 32 anos.


No papel, e nos tratados de ciência política, é o governo comandado pela vontade da maioria — e os votos da maioria podem perfeitamente colocar no governo, ou seja lá onde as decisões são tomadas, gente que não tem interesse algum em saber quanto você é livre ou não é. 

Seu papel é unicamente obedecer às leis e regras que os donos do poder escrevem em benefício próprio, ou dos grupos a quem servem.

No Brasil de hoje não há uma coisa nem outra. 

Não há democracia porque quem manda em tudo, faz mais de trinta anos, é uma minoria — a população só é chamada, de dois em dois anos, para votar em eleições nas quais um sistema viciado elege sempre os mesmos, com uma ou outra exceção que não muda nada.

Fechadas as urnas às 5 horas da tarde, todos são mandados de volta para casa e só voltam a abrir a boca dali a dois anos, para fazer a mesma coisa.

No meio-tempo, não mandam em absolutamente nada — sem crachá e autorização dos seguranças, não podem nem entrar nos lugares onde estão os que resolvem tudo. 

Não há liberdade porque o cidadão só tem a opção de obedecer, esteja ou não de acordo com o que lhe mandam fazer.

O momento que o Brasil atravessa agora, com grande parte da população apavorada pelo medo de morrer por causa da covid-19, é exemplar dessa democracia que não vale nada. 

Vamos aos testes práticos. 

Passa pela cabeça de alguém, por exemplo, que as pessoas estejam de acordo que o Senado alugue por 350 mil reais por mês, sem concorrência, uma “sala VIP” no aeroporto de Brasília, para os senadores não correrem nenhum risco de ficar perto dos cidadãos? 

É claro que ninguém está de acordo.

É claro, também, que ninguém pode fazer nada a respeito. 

É tudo legal, porque eles escreveram leis dizendo que é legal — inclusive essa falta tão conveniente de concorrência pública, pois estamos num momento de “emergência” na saúde pública.

O que a maioria tem a dizer da recusa do Congresso em abrir mão de um centavo sequer dos bilhões que tem estocados nos fundos “Partidário e Eleitoral”, que roubaram legalmente dos impostos — através de leis que eles mesmos aprovaram? 

E a liberdade, aí, como é que fica: alguém é livre, de verdade, para defender seu direito de opor-se a essa aberração?

Não se trata apenas de deputados e senadores. 

Como pode haver democracia numa sociedade em que uma comunidade de talvez 25.000 indivíduos, os membros do Poder Judiciário em suas diversas camadas, tem direitos que os demais 200 milhões de brasileiros não têm — e se mantém, na vida real, acima das leis e da obrigação de cumpri-las? 

É impossível, também, pensar em “estado de direito” quando a Justiça funciona como cúmplice integral em atos de delinquência do submundo político. 

No caso dos “fundos”, é óbvio, deu razão ao Congresso — e proibiu seu uso em favor do combate à epidemia.

O país inteiro tem assistido, todos os dias, a demonstrações brutais de tirania por parte de 27 governadores, 5.500 prefeitos, suas polícias e seus fiscais.

Com o súbito poder que lhes foi conferido pela epidemia, e com a cumplicidade quase absoluta de juízes e integrantes do Ministério Público, puseram para fora todas as suas neuras ditatoriais. 

É a lei que lhes permite isso — a lei que eles próprios, ou a classe política em geral, escreveram. 

Os exemplos não acabam mais.

Todas as edições de Oeste (noticiário), até o fim dos tempos, não serão suficientes para mostrar a soma de desastres que está acontecendo com as liberdades neste país.

Todo o poder de decisão foi dado a grupos muito bem definidos, pela malícia e esperteza de uma Constituição na qual há um número ilimitado de boas intenções e nenhum meio de realizá-las na prática. 

Ali o cidadão tem direito a tudo — menos o de influir na própria vida e controlar, mesmo por alguns minutos, os que mandam nele. 

Todos sabem quem são esses grupos. 

Os altos servidores do Estado, as corporações, os grupos de interesse privado, os sindicatos, os criminosos ricos, os saqueadores do Erário, os que desfrutam de direitos que os demais não têm, os políticos — e por aí afora. 

As leis são escritas para eles. 

Você só paga.

“Eu prefiro um ladrão a um deputado”, diz Walter E. Williams, o economista conservador americano que há décadas devasta a hipocrisia da vida política mundial. 

“O ladrão, em geral, o rouba uma vez só e vai embora.” 

Os políticos, porém, estão aí para sempre. 

É esse, justamente, nosso problema: enquanto quem mandar no Brasil for o condomínio descrito acima, não haverá nem liberdade real nem democracia efetiva. 

O que vale é a manipulação periódica da multidão em eleições que já estão decididas, pelos vícios deliberados do sistema eleitoral, antes de o primeiro voto ser colocado na primeira urna.

O resultado concreto disso tudo aparece nas decisões alucinadas que são tomadas aqui como resultado do “funcionamento normal” das chamadas instituições democráticas.

“Como alguma coisa que é imoral, quando feita em particular, se torna moral quando feita coletivamente?”, pergunta Williams.

“Por acaso a legalidade confere moralidade a alguma coisa? A escravidão era legal. O apartheid era legal. Os massacres feitos por Hitler, Stalin e Mao foram legais.” 

No Brasil o Congresso é legal. 

O STF é legal. 

O aparelho do Estado é legal. 

O que foi para o diabo é o senso moral — junto com a liberdade e a verdadeira democracia.

O ESTRATEGISTA!




O ESTRATEGISTA!

Por Renato Cunha Lima 

Vocês sabiam que a imprensa, sobretudo a Globo, a UOL e até a Folha de São Paulo ajudam todos os dias o Presidente Bolsonaro?  

Não só eles, mas o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e até o Ministério Público só contribuem para Bolsonaro?  

Vem cá, vocês esqueceram os motivos que levaram um deputado do chamado baixo clero, sem fundo partidário, sem tempo de rádio e televisão a se tornar Presidente da República?  

Vamos relembrar, a eleição de Bolsonaro foi resultante da fadiga de um sistema político corrompido e falido, que por décadas e governos saquearam os cofres públicos e deixaram de legado um país violento, com serviços públicos em colapso e uma dezena  de milhões de brasileiros desempregados.  

Agora, quais as notícias que assistimos na mídia? Derrota do governo no Congresso; Rodrigo Maia critica o Presidente; Alcolumbre ameaça o Presidente; Ministro do STF decide contra o Governo; Governadores repudiam Bolsonaro; Ministério Público Federal aciona contra decisão do Governo.  

Não resta dúvida, portanto, que Bolsonaro vem cumprindo fielmente seu papel de enfrentar o sistema, contra o establishment, sempre que pode e considera oportuno.  

Neste interim nenhum dos demais poderes demonstram à população que mudaram, muito pelo contrário. 

O STF, para começar, derrubou a prisão a partir de condenação em segunda instância, o que resultou na soltura do múltiplo condenado Lula e milhares de presidiários de todo tipo de crime, um festival à impunidade.  

Já o Congresso desvirtuou o pacote anticorrupção do Ministro Sérgio Moro, assim como aprovou um valor exorbitante para o fundo eleitoral, sem falar na tentativa de garfar bilhões do orçamento do executivo para beneficiar parlamentares em suas bases num ano de eleições municipais.  

Bem pregado, todos continuam iguais como sempre, nada mudou no parlamento e no judiciário, somente no executivo onde, finalmente, há um ministério composto por técnicos e ninguém, nem a ferrenha imprensa, conseguiu relatar um só caso de corrupção.  

Por isso manchetes noticiando reuniões do Dias Toffoli, Rodrigo Maia e Alcolumbre para conter o que chamam de "arroubos" do Presidente Bolsonaro, no fundo, revelam a saudade de presidentes que "dialogavam" com cargos, concessões e toda sorte de negociatas, que nos levaram a testemunhar o "mensalão", o "petrolão" e outros tantos escândalos. 

Estão todos ajudando Bolsonaro, é incrível, até quando o Presidente se indispõe publicamente com um dos seus Ministros, todos imediatamente passam a defender o Ministro, o que confirma que a escolha  técnica foi correta.

Vocês não entenderam nada, mas o Bolsonaro escolheu assistir e socorrer o eleitor que antes idolatrava Lula, assim como os autônomos, os pequenos comerciantes e empresários, que são os que mais empregam trabalhadores brasileiros. 

Aprendam uma coisa, ele olhou lá na frente, a pandemia vai passar, com menos mortes que a imprensa alardeava e a classe política faz torcida.

Bolsonaro, ao invés de perder, avançou, ganhou dobrado, pois cada trabalhador demitido vai olhar para o autoritarismo do seu Governador. 

A decisão recente do Ministro Alexandre de Morais proibindo Bolsonaro de derrubar os decretos estaduais é um exemplo claro de que ajudam politicamente o Presidente. 

Desta vez, documentado em decisão judicial que o desemprego, a falência, a fome não é e nem será culpa de Bolsonaro, que, pelo contrário, segue ajudando todos estes com o maior investimento público da história do Brasil. 

Ahhh e as ameaças de impeachment? Tomara que tentem, pois quem cairá não será o Presidente.  Aprendam uma coisa, o Brasil quer e vai mudar!

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A economia de Petra

Pedro Fernando Nery* - O Estado de S.Paulo

'Democracia em Vertigem' analisa a polarização no País, sem esconder que tem um lado

Democracia em vertigem de Petra Costa foi ontem indicado ao Oscar de melhor documentário. Petra é a 1.ª diretora brasileira indicada à premiação. Se vencer em 9 de fevereiro será a 1.ª vez que o Oscar será recebido por um brasileiro. Mas desta vez haverá muita torcida contra.

Tom Jobim famosamente afirmou que no Brasil sucesso é ofensa pessoal, mas a grita contra Democracia em vertigem é de outro tipo. E é também natural: o filme se propõe a analisar a polarização no País a partir de 2013, sem esconder que tem um lado. No Twitter, a conta oficial do PSDB já ironizou o feito do filme, parabenizando Petra pela indicação na categoria “melhor ficção e fantasia”. O proeminente crítico Kenneth Turan, do Los Angeles Times, já concebera que o filme é “mais um ensaio do que um documentário clássico” (o que não impediu de tecer elogio à obra).

Esse é um filme sobre a crise política, mas é também sobre a nossa crise econômica: e essa coluna é sobre o confuso olhar de Petra na economia. Assim, não vamos discutir outras controvérsias já debatidas nos últimos meses (elas incluem dúvidas sobre o passado clandestino de seus pais; alterações deliberadas das imagens usadas; e a total omissão quanto a tentativa de assassinato do líder da corrida eleitoral, estranha em um filme sobre polarização e enfraquecimento da democracia).

De início, já há um problema factual quanto ao desemprego, consoante com a narrativa de Petra de que o governo inclusivo de Lula e, depois o de Dilma, teriam levado a um golpe (após a presidente ter enfrentado as elites econômicas). Segundo Petra “a taxa de desemprego atinge o menor índice da história” na Era Lula.

Com boa vontade, pode-se dizer que a diretora se confundiu: nos governos do PT o desemprego alcança o menor índice da série histórica. Falamos em série histórica quanto à série feita com a mesma metodologia que a pesquisa corrente, o que no caso da atual começa em 2012 (a Pnad Contínua). Antes dela, a mais usada regredia só aos anos 90.

Mas tanto nos anos 80 quanto na ditadura militar se identificaram taxas de desemprego menores que as do período de Lula ou Dilma. O IBGE chegou a registrar menos de 3% no governo Sarney em outra versão da Pnad. Outras fontes registraram ainda menos na ocasião do milagre dos anos 70. O economista Rafael Baccioti fez exercícios de retropolação da Pnad Contínua e estimou resultados no mesmo sentido. Já o Censo chegou a registrar menos de 2% diversas vezes desde os anos 50. Em suma, Petra poderia ter dito “a taxa de desemprego atinge o menor índice da história desde o governo Fernando Henrique”.

O que são mesmo marcas incontestes do áureo período petista são as mínimas históricas nas taxas de pobreza e a queda na desigualdade de consumo.

Já o argumento de que o “golpe” teria sido causado porque Dilma, contrariamente a Lula, enfrentou as elites, envelheceu mal. De outro prêmio, o Jabuti, o livro do ano mostra como o 1% mais rico manteve sua altíssima participação na renda nacional durante os governos do partido.

Particularmente fora de lugar é a tese de que o impeachment seria decorrência da tentativa de Dilma de reduzir os juros. A Selic bateu sucessivas mínimas históricas desde Temer, e os bancos projetam juro real próximo de zero neste ano. Os juros transferidos pelo governo por conta da dívida pública caíram de mais de 8% do PIB no último ano de Dilma, para menos de 5% no ano passado. No caso das famílias, o governo Bolsonaro acaba de impor um teto aos juros do cheque especial.

Mas mesmo Petra não parece botar fé no argumento, e é por isso que sua visão é confusa: a crise ora foi causada pela queda nas commodities e “erros econômicos”, ora por ações conspiratórias das elites (com direito a fala de Jean Wyllys). Ora os donos do dinheiro desligaram a economia para estimular o impeachment, ora precisam do impeachment para transferir a conta da crise para os pobres.

A trama pelos juros altos também não faz sentido diante daquele que para Petra seria um dos vencedores do golpe: a Bolsa de Valores (a relação é tipicamente a contrária). O leilão recente de Libra, sem interessados, vai de encontro à versão de entrega do petróleo às multinacionais. E o fígado fala mais alto no argumento nonsense de que o mercado financeiro celebrara uma suposta flexibilização do trabalho escravo.

Mas ficamos por aqui: ninguém merece economista falando de cinema. Um documentário ainda é um filme, que provoca emoção pelas suas qualidades artísticas e não por ser um trabalho acadêmico. Petra deixa claro sua parcialidade. Reações semelhantes às do Brasil devem ter sido observadas em outros documentários políticos que o Netflix emplacou no Oscar recentemente, como Winter on Fire (Ucrânia) e The Square (Egito). Econosplaining à parte, boa sorte Petra.

* Doutor em economia

#Petra Costa; #Vertigem; #PT; #Dilma; #Impeachment;

Um Oscar para Eduardo Cunha

Ranier Bragon - Folha de S. Paulo

Subestimado em 'Democracia em Vertigem', ele merecia salvo-conduto para ir a Los Angeles

Habita Bangu 8 a nossa grande aposta para, enfim, faturar um Oscar. Personagem algo lateral em "Democracia em Vertigem" —concorrente a melhor documentário longa-metragem—, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB) está a merecer o devido crédito.

Com total domínio de cena, ele não só deu aval ao pedido de impeachment de Dilma Rousseff, como pode parecer ao gringo que assista ao documentário, mas conduziu de forma obsessiva todos os preparativos que culminaram na autorização da abertura do processo, em 17 de abril de 2016. Sim, a célebre sessão em que o até então inexpressivo Jair Bolsonaro exaltou um torturador e em que Cunha clamou aos céus por misericórdia à nação.

Daí em diante, não havia como retroceder. Foi jogo jogado. Dilma foi destituída, e Deus não teve misericórdia de ninguém, muito menos de Cunha, que foi parar na prisão, onde está há há mais de três anos.

Além do imerecido papel dado ao ex-deputado, o documentário também tem ingenuidades e alguns delírios esquerdistas, como o de sempre culpar a imprensa pelos males do mundo —quando convém, claro. Ao usar a gravação em que Romero Jucá fala em "estancar a sangria" provocada pela Lava Jato, por exemplo, a diretora Petra Costa narra ter sido "vazado um áudio" que lançou "luz" sobre o que ocorria nas sombras da República. Esqueceu-se apenas de dizer que o áudio foi revelado, olhe só, pela maldita imprensa golpista —no caso, em reportagem de Rubens Valente, nesta Folha.

Apesar disso, "Democracia em Vertigem" tem muita qualidade técnica, registros históricos de bastidor e, talvez o maior mérito, foge da comum armadilha de forjar equilíbrio onde há tudo, menos equilíbrio. A vida não é assim. O filme tem lado, e pode ser o mais condizente com a história toda. Seja como for, a Cunha deveria ser dado um salvo-conduto para ir a Los Angeles, onde poderia repetir as súplicas por misericórdia, agora em prol do mundo. Quem sabe Deus ouvisse dessa vez.


#Petra Costa; #Vertigem; #PT; #Dilma; #Impeachment;

E o Oscar vai para... o PT


Joel Pinheiro da Fonseca* - - Folha de S. Paulo

'Democracia em Vertigem' reproduz narrativa petista da história recente

Será que o primeiro Oscar brasileiro irá justamente para o PT? Confesso —como aliás já escrevi por aqui na época do lançamento— que não sou grande fã de “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, documentário que está entre os indicados para o Oscar deste ano.

É uma ilusão acreditar que um documentário seja, por sua própria natureza, uma descrição minimamente objetiva da realidade. A única diferença para com a ficção é que ele cria sua narrativa selecionando documentos (imagens, depoimentos) reais, e não construídos.

O documentário engajado, gênero consagrado por Michael Moore, não esconde sua parcialidade e seleção enviesada dos documentos que apresentará ao público. É o que temos aqui, e é uma pena.

O filme reproduz a narrativa petista da história recente: Lula e o PT chegaram ao poder e melhoraram a vida dos brasileiros mais pobres ao mesmo tempo que enfrentaram os interesses das elites. Infelizmente, no exercício do poder o PT se aliou à velha política brasileira, serva das elites, e acabou sendo derrubado por ela.

Em nenhum momento o documentário encara de frente dois problemas fatais para sua narrativa: o primeiro é a política econômica dos anos Dilma, que produziram a recessão da qual ainda não nos recuperamos.

A década de 2010-2019 foi a de pior crescimento desde 1900. Esse desastre legou ao país 13 milhões de desempregados, ao mesmo tempo em que a política econômica enchia os bolsos de grandes empresários, como os donos da construtora Andrade Gutierrez, família de Petra.

O segundo é uma discussão do mérito dos crimes de responsabilidade dos quais Dilma foi acusada, que revelaria pedaladas fiscais e liberação de créditos sem aval do Congresso bilionárias.

Mais do que uma grande conspiração envolvendo mídia e elites —o mesmo discurso usado por Bolsonaro hoje em dia—, esses dois fatores explicam o porquê da força política do impeachment (não só junto à classe política, mas também à opinião pública) e sua legitimidade formal.

A narração do documentário é feita pela própria diretora num tom de voz lamurioso, que reforça o vitimismo da histórica contada: o PT como pobre vítima de um sistema corrupto dirigido pelas elites.

Um documentário mais imparcial contaria uma história diferente: o PT, que ascendeu ao poder já com escândalos de corrupção às costas, implementou sim programas sociais importantes, ao mesmo tempo em que beneficiou aliados políticos e empresariais escolhidos politicamente para sustentá-lo no poder.

Na medida em que sacrificou as conquistas econômicas que recebeu do governo FHC (responsabilidade fiscal, metas de inflação) e apostou no crescimento via consumo e gasto do governo, minou as bases de um crescimento sustentável no país. O aparelhamento institucional e os esquemas de corrupção para financiar a máquina partidária, quando descobertos, selaram seu destino.

Tendo feito o que fez, e ainda assim se apresentar como vítima inocente do sistema, o PT sem dúvida merece Oscar de atuação.

Seja como for, o filme tem seus méritos também. O ritmo da narrativa mantém o espectador interessado na história, há imagens bonitas e muito bem escolhidas, e ainda conta com um material de arquivo inédito.

Enquanto filme —à parte a narração chorosa—, funciona. É o bastante para vencer o Oscar? Difícil saber. Mas já que a regra agora é Brasil acima de tudo, aos detratores do filme resta torcer: vai Petra!

*Joel Pinheiro da Fonseca, economista, mestre em filosofia pela USP.


#Petra Costa; #Vertigem; #PT; #Dilma; #Impeachment

Vertigem

Luiz Carlos Azedo – Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Houve intenso trabalho de projeção da imagem de Lula no plano internacional, seguido da construção de uma narrativa própria a destituição de Dilma, comparando-a ao golpe de 1964”

Indicado para o Oscar de melhor documentário, Democracia em vertigem, de Petra Costa, é um bom filme, tanto que está selecionado. Isso não significa que o conteúdo do filme seja neutro em relação aos fatos narrados nem que discordar ou concordar politicamente com a narrativa da diretora seja o ponto de referência para sua avaliação como produto cinematográfico pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. O filme tem uma excelente fotografia, cenas inéditas do impeachment de Dilma Rousseff e proporciona um olhar retrospectivo sobre a política brasileira, que anda muito conturbada.

O filme mostra o dia a dia da presidente Dilma Rousseff, que foi apeada do poder por causa dos seus erros e não em razão de uma suposta conspiração imperialista. Não tivesse lançado o país numa recessão profunda e se relacionado tão mal com o Congresso, o impeachment não teria ocorrido. O filme não esconde seu olhar particular sobre a política brasileira: a protagonista cresceu numa família de esquerda, que sofreu as consequências de sua opção política e ideológica durante a ditadura militar. Quando se torna adulta, a jovem acompanha o processo político da transição à democracia ao governo Lula, um ex-líder operário que chega ao poder.

Petra Costa é crítica em relação a Lula, que somente teria chegado à Presidência depois de ajustar seu discurso aos interesses das elites econômicas do país. Mostra o envolvimento do PT com a corrupção, a pretexto de se manter no poder e garantir maioria no Congresso. Com a chegada da crise econômica internacional ao Brasil, porém, o pacto perverso do PT para conciliar o apoio popular com os interesses das elites acaba se rompendo. Lula se sustentava num tripé: banqueiros e rentistas, a elite política protegida pelos grandes empresários fornecedores do Estado, e projetos sociais de natureza populista.

A partir desse diagnóstico, o filme construiu a narrativa da derrubada de Dilma Rousseff. Petra Costa injeta no documentário a paixão política que tece a trama histórica. De certa forma, entre discursos inflamados, humaniza o processo político ao se colocar como testemunha ocular da história: “Eu e a democracia brasileira temos quase a mesma idade. Eu achava que, nos nossos trinta e poucos anos, estaríamos pisando em terra firme”. O filme é muito contestado porque toma partido de Dilma Rousseff e trata seu impeachment como um golpe de Estado, o que não é verdade. Os setores que foram às ruas pedir o afastamento da petista criticam o filme desde o lançamento, com o argumento de que se trata de uma obra de ficção.

Cenário favorável
Isso é chorar o leite derramado. Nos governos petistas, houve um intenso trabalho de projeção da imagem de Lula no plano internacional, seguido da construção de uma narrativa própria sobre a destituição de Dilma, comparando-a ao golpe de 1964, que implantou o regime militar, e não ao afastamento do ex-presidente Collor de Melo, do qual o PT foi protagonista, o que inclui Lula e a própria Dilma, o que seria historicamente mais correto. Essa narrativa é hegemônica na opinião pública internacional, embora não o seja em nível diplomático. Qualquer pessoa razoavelmente informada sabe que o governo de Michel Temer respeitou o Congresso, a liberdade de imprensa, o direito de opinião e as minorias. Foi um governo democrático.

Ocorre que o cenário de escolha dos filmes do Oscar, no caso específico de Democracia em vertigem, tem por parâmetros a situação política dos Estados Unidos e a imagem do governo Bolsonaro no exterior, que não é em nada positiva, principalmente na ótica dos direitos humanos, das minorias, do meio ambiente e da paz. O contexto influencia as escolhas da Academia. Democracia em vertigem foi selecionado ao lado dos documentários American Factory, The cave, For Sama e Honeyland. O fato de ser uma produção da Netflix, lançado em 2019, também pesou na balança, porque foi distribuído para mais de 150 países e teve campanha publicitária nos Estados Unidos.

Com 96% de aprovação entre os críticos mais influentes, o filme é aclamado desde a estreia no Festival de Sundance, em janeiro de 2019. Chamou a atenção da crítica e da imprensa especializada pelo circuito de festivais em que foi exibido. Isso significa que o troféu está garantido? Longe disso, há fortes concorrentes, entre os quais American Factory, produzido pelo casal Barack e Michele Obama. Além disso, outro filme brasileiro concorre ao Oscar em outras duas categorias, melhor ator e melhor roteiro adaptado: Dois Papas, de Fernando Meirelles, também produzido pela Netflix.


#Petra Costa; #Vertigem; #PT; #Dilma; #Impeachment;


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Uma coisa chamada Civilização



"O último discurso: “Uma coisa chamada Civilização
Por Sir Roger Scruton


Scruton: “Nossa Civilização Ocidental não é uma obsessãozinha específica de gente que vive em certa região geográfica do mundo. É uma herança em expansão constante”.| Foto: Pixabay
Em 19 de setembro de 2019, no 14º Encontro Anual de Gala pela Civilização Ocidental, o Intercollegiate Studies Institute deu a Sir Roger Scruton o prêmio de Defensor da Civilização Ocidental. Sir Roger disse essas palavras ao receber o prêmio. Ele tinha sido recentemente diagnosticado com câncer, doença que o levou à morte em 12 de janeiro de 2020.

É uma honra ser premiado como Defensor da Civilização Ocidental em 2019 pelo ISI, organização com a qual mantenho conexão há muito tempo e cujo trabalho parece mais importante e necessário do que nunca, não só para os jovens, mas também para nós da geração mais velha, que estamos tentando transmitir o que sabemos.

A Civilização Ocidental tem sofrido muitos ataques por ser ocidental. A palavra Ocidental assumiu um caráter abusivo por muitas pessoas no mundo de hoje, sobretudo por pessoas que não têm a menor ideia do que ela significa histórica, metafísica e poeticamente. Nossa Civilização Ocidental não é uma obsessãozinha específica de gente que por acaso vive em certa região geográfica do mundo. É uma herança em expansão constante, sempre incluindo coisas novas. É algo que nos dá o conhecimento da alma humana, que nos permite criarmos não apenas maravilhosos sistemas econômicos e formas de viver no nosso mundo, mas também as grandes obras de arte, as religiões, os sistemas jurídicos e o governo, todas as outras coisas que fazem com que reconheçamos que vivemos nesse mundo, enquanto for possível, de uma forma bem-sucedida.


O que é a Civilização?
Deixemos de lado a ideia de Civilização Ocidental. Afinal, ela depende de como você vê o mundo, do Ocidente ou Oriente. Em vez disso, vamos analisar a ideia de civilização. O que é isso? É uma forma de conexão entre as pessoas, não apenas uma forma por meio da qual as pessoas compreendem seus idiomas, costumes, comportamentos, mas também a forma como elas se conectam umas às outras, olho a olho, cara a cara, no cotidiano que compartilham.

É algo que tem uma dimensão comum no ambiente de trabalho e na comunidade, no nosso dia a dia. Mas também é algo sobre o qual foi erguida a alta cultura, obras de arte, literatura, música, arquitetura e assim por diante. São formas de mudar o mundo de modo a nos sentirmos mais à vontade nele.

Acho que essa é a característica marcante da Civilização Ocidental, que é uma civilização abrangente que está sempre criando novas formas de nos sentirmos em casa, formas de nos relacionarmos uns com os outros, o que gera paz e interesses mútuos como os principais laços entre vizinhos.

Mentes estreitas
Ora, eu mesmo obviamente já me meti em muitos problemas por defender a Civilização Ocidental. Uma marca estranha do nosso tempo parecer ser o fato de que, quanto mais você se dispõe a defendê-la, mais você é considerado um fanático de mente estreita. Mas as pessoas que fazem essa acusação é que têm mentes estreitas. São elas que não enxergam quão grande e abrangente foi e é nossa civilização.

Fomos criados, por exemplo, com base na Bíblia hebraica, um documento antigo que perpetua a civilização do Oriente Médio pré-clássico. Ela nos passa a sensação de como as pessoas viviam em comunidades tribais que perambulavam pelo deserto e assim por diante.


Aprendemos e estudamos os grandes épicos romanos e gregos, que nos ensinaram idiomas diferentes – línguas mortas, mas línguas que retrataram o mundo sob uma luz diferente do mundo criado por nossos idiomas contemporâneos.

Somos criados com base na literatura da Idade Média, boa parte dela influenciada pela literatura árabe, claro. Na verdade, todos nós já dormimos ouvindo histórias tiradas das 1001 Noites.

Quanto mais você analisa, mais você percebe quão abrangente e universal é a herança da nossa civilização. E isso é algo que tendemos a esquecer hoje em dia. Não é um legado restrito. É algo que está realmente aberto a todos os tipos de inovações, que aceita a totalidade do ser humano como seu tema.

É assim que a vejo. Sempre gostei de ser professor de humanidades porque sei do que as humanidades tratam. Tratam do ser humano e de como o ser é diverso e amplo no mundo em que vivemos hoje.

Intolerância de quem?
O que quer que façamos, devemos reagir contra a acusação de que a nossa civilização é de alguma forma estreita, dogmática, intolerante e excludente. Não é. Comparado com o quê, afinal? Comparado com os chineses? Somos estreitos, intolerantes e excludentes quando deixamos de lado a grande tradição confucionista? De jeito nenhum. Fui criado, como muitos outros, com um interesse pela civilização chinesa. Lemos o Livro das Odes na tradução de Ezra Pound. Todos nós nos apaixonamos por Das Lied von der Erde, de Mahler, um dos maiores usos da poesia chinesa em toda a história da música, e certamente maior do que tudo o que ouvi na música chinesa. E olha só! Aí está a afirmação preconceituosa.


Mas reconheçamos que isso não é preconceito algum. O fato de um compositor como Mahler poder direcionar seus sentimentos vienenses na direção daqueles poemas de solidão que o levaram a compor uma música tão bela mostra um aspecto tolerante e generoso da nossa cultura. Deixando-nos, ao fim do último movimento, com aquele coro incrível que, como escreveu Benjamin Britten, permanece impresso no ar.

Por que somos obrigados agora a assumir uma posição de defesa quando qualquer pessoa que saiba um pouco sobre o assunto sabe que o que chamamos de Civilização Ocidental é apenas outro nome para civilização e para todas as realizações que os jovens precisam conhecer e, se possível, adquirir. O problema, parece, está na invasão da academia e do mundo intelectual por grupos ativistas que não se dão ao trabalho de perceber contra o que estão se posicionando e que, mesmo assim, definem sua posição em termos de pautas políticas. Essas pautas políticas tratam todas de pertencer a um grupo de salvacionistas: nós estamos salvos porque acreditamos nas coisas certas e procuramos em todos os lugares por seres peçonhentos que tentam nos impedir de tomarmos posse de nossa herança por direito.

E todas as novas causas são escolhidas com base nisso. São causas de pessoas que querem sentir que a ordem atual das coisas as exclui e que, portanto, elas têm uma justificativa para destruir essa ordem a fim de ocupar um lugar no topo dela. Uma vez no topo, elas reorganizarão as coisas de modo a purificar todas as influências antigas e corrompidas vistas como um problema.

Acho que essa invasão do ativismo político nas universidades e nas humanidades e em todos os canais de civilização é um dos maiores desastres da nossa época.

Mas isso não tinha de ocorrer. Não temos de ouvir o que essas pessoas dizem. Não somos obrigados a nos envolvermos nos julgamentos públicos, nas denúncias, em todas as formas como as pessoas são caçadas e excluídas da comunidade. Esses ativistas só têm sucesso porque nós participamos dessas atividades. Não temos de participar. É possível dar um passo para trás e até rir de algumas das coisas que estão sendo ditas.


Se você parar e pensar em todo o furor quanto ao ativismo transgênero, boa parte dele é pura confusão, e uma confusão da qual as pessoas querem ser resgatadas. Boa parte da raiva é um pedido de socorro. Fiquem calmos e digam: há outras opiniões que não a sua. Você pode ter um bom argumento, mas não é o único argumento. Vamos nos acalmar e discutir isso. Vamos analisar isso no contexto da civilização como um todo e do caminho para onde ela está rumando.

Fazer isso deve ser o bastante para eliminar boa parte da tensão que nos aflige.

Um tempo para coragem
E sinto que agora é a hora, por meio de instituições como o Intercollegiate Studies Institute, de levar novamente coragem e convicções aos jovens que sabem que há algo de errado com essa caçada às bruxas dos ativistas contra a tradição. Chegou a hora, me parece, de pessoas como eu e a geração mais antiga de professores darmos coragem aos jovens, de dizermos: olha, você tem uma civilização e uma herança que o ajuda a compreender essas coisas. Ceder a esse tipo de ativismo excludente, que ignora porções inteiras do conhecimento humano, não faz bem. Isso não está lhe dando as coisas das quais você realmente precisa no mundo onde vai viver.

Vocês precisam é de diálogo, e é disso que trata nossa civilização. Tentar entender a condição humana em toda a sua complexidade. E, quando as pessoas tentarem radicalizar e politizar o currículo acadêmico e o que é ensinado e pensado nas universidades, vocês não precisam participar disso. Vocês podem até rir delas. Na verdade, ainda é permitido rir das pessoas no nosso país e civilização. Afinal, a comédia é uma das grandes dádivas da civilização. E cabe a vocês, acho, usá-la.

Então minha mensagem final é a de que não devemos nos desesperar com a Civilização Ocidental. Só temos de tomar cuidado para reconhecermos que não estamos falando de uma coisa de mentalidade pequena e estreita chamada Ocidente. Estamos falando de uma coisa aberta, generosa e criativa chamada Civilização.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Análise: Morte de Soleimani é um evento sísmico no Oriente Médio


Resultado de imagem para Suleimani



JANUARY 03, 2020

Mais do que qualquer outra operação militar americana desde a invasão do Iraque, o assassinato do general e comandante da Guarda Revolucionária do Irã, Qassem Soleimani, é um evento sísmico. As mortes de Osama bin Laden e Abu Bakr al-Baghdadi, os líderes da Al-Qaeda e do Estado Islâmico, foram certamente significativos e também foram em grande parte simbólicas, porque suas organizações foram destruídas. No entanto, o extermínio do arquiteto da campanha ativa de décadas da República Islâmica da violência contra os Estados Unidos e seus aliados, especialmente Israel, representa uma mudança tectônica na política do Oriente Médio.

Para ver o quão realmente significativa é a morte de Suleimani, ela ajuda a entender o jogo geopolítico ao qual ele se dedicou durante sua vida. No Líbano, Soleimani transformou o Hezbollah em um poderoso estado dentro de um estado. Uma organização terrorista que recebe fundos, armas e ordens de Teerã, o Hezbollah possui hoje um arsenal de mísseis maior que o da maioria dos países da região. O surpreendente "sucesso" do grupo tem ajudado a consolidar a influência do Irã não apenas no Líbano, mas também em todo o mundo árabe.

Com base nessa experiência bem-sucedida, Suleimani passou a última década replicando o modelo do Hezbollah no Iraque, na Síria e no Iêmen, sustentando as milícias locais com armas de precisão e conhecimento tático de guerra. Na Síria, suas forças se aliaram à Rússia para sustentar o regime de Bashar al-Assad, em um projeto que, na prática, significou expulsar mais de 10 milhões de pessoas de suas casas e matar mais de meio milhão. No Iraque, como vimos nos últimos dias, as milícias de Suleimani passaram por cima das instituições estatais legítimas. Eles chegaram ao poder depois de participar de uma insurgência, da qual ele era o arquiteto, contra as forças americanas e da coalizão. Centenas de soldados americanos perderam a vida com as armas que de Suleimani forneceu aos seus "procuradores" iraquianos.

O chefe da Guarda Revolucionária do Irã construiu esse império de milícias, apostando que os EUA evitariam um confronto direto. Essa aposta certamente valeu a pena sob o presidente Barack Obama e até parecia ser uma aposta segura sob o presidente Trump, apesar de sua política declarada de "pressão máxima".

Em setembro, Suleimani ornenou o ataque a um campo de petróleo da Arábia Saudita, um verdadeiro ato de guerra, que ficou sem resposta. Ele seguiu orquestrando ofensivas contra os americanos usando suas milícias. O governo Trump, por sua vez, já havia dito claramente que atacar americanos era uma "linha vermelha". No entanto, Soleimani havia recebido ameaças de líderes americanos no passado. De novo, ele pensou que poderia "apagar" a linha vermelha de Trump.

Sua partida tornará o Irã muito mais fraco. Isso encorajará os rivais regionais do país - principalmente Israel e Arábia Saudita - a perseguir seus interesses estratégicos com mais veemência. Também vai instigar os manifestantes no Irã, Líbano e, principalmente, no Iraque, na esperança de que um dia eles tirem o controle de seus governos das garras da República Islâmica.

Em Washington, a decisão de matar Suleimani representa o final de uma estratégia de Obama para o Oriente Médio, que procurou realinhar os interesses americanos com os do Irã. A busca de Obama por um convivência pacífica com Teerã nunca se ajustou à realidade do caráter fundamental da República Islâmica e às ambições regionais. O presidente Trump, por outro lado, percebeu que o objetivo de Teerã era substituir a América como o principal ator no Oriente Médio.

Os Estados Unidos não têm escolha. Se o país quiser permanecer no Oriente Médio, terá de ter controle sobre o poder militar do Irã. Para um presidente eleito em uma plataforma de paz e prosperidade, enfrentar o Irã não foi uma decisão fácil de tomar. Sem dúvida, Trump prefere negociar com o Irã seu programa nuclear do que ordenar o assassinato de seu general mais famoso. Entretanto, o presidente percebeu que garantir a posição regional dos EUA exigia uma resposta forte e visível às escaladas cada vez mais comuns de Suleimani.

Contudo, essa resposta veio atrasada. Soube por meio de um ex-alto funcionário da Casa Branca e do Departamento de Defesa, que os Estados Unidos tiveram várias oportunidades passadas de matar Suleimani, mas sempre relutaram. Ficou provado que a indecisão não tornou o mundo mais seguro e só deu a Soleimani mais tempo para construir seu império.

Os críticos de Trump imediatamente o acusaram de provocar o Irã desnecessariamente, argumentando que o assassinato de Suleimani poderia levar o país à guerra. Esta é uma análise que ignora o fato de general iraniano já travar guerra contra os EUA e seus aliados há anos e estar diretamente envolvido no planejamento de ataques a aliados.

O mundo em que acordamos hoje, livre de seu terrorista mais bem-sucedido e mortal, é um lugar melhor. Em nenhum local esse pensamento é mais evidente do que em todo o Oriente Médio, onde cidadãos comuns têm postado vídeos em mídias sociais comemorando a morte do autor de tanta miséria. Todos devemos - mesmo aqueles entre nós que não se importam particularmente com o Sr. Trump - se juntar a eles e continuar a negar o legado do assassino anti-americano Suleimani.

Michael Doran é membro sênior do Instituto Hudson e autor de "Ike's Gamble: America's Rise to Dominace in the Middle East" 
https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,analise-morte-de-suleimani-e-um-evento-sismico-no-oriente-medio,70003142451

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