quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O verdadeiro papel da educação

 Edgar Morin 

Revista Prosa Verso e Arte 


“A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.”

O filósofo francês Edgar Morin fala sobre um dos temas que o tornou uma influência mundial, a educação. Morin fala sobre a necessidade de estimular o questionamento das crianças, sobre reforma no ensino e sobre a importância da reflexão filosófica não tanto para que respostas sejam encontradas, mas para fomentar a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos. Leia abaixo:

O senhor costuma comparar o nosso planeta a uma nave espacial, em que a economia, a ciência, a tecnologia e a política seriam os motores, que atualmente estão danificados. Qual o papel da educação nessa espaçonave?

Ela teria a função de trazer a compreensão e fazer as ligações necessárias para esse sistema funcionar bem. Uso o verbo no condicional porque acho que ela ainda não desempenha esse papel. O problema é que nessa nave os relacionamentos são muito ruins. Desde o convívio entre pais e filhos, cheio de brigas, até as relações internacionais — basta ver o número de guerras que temos. Por isso é preciso lutar para a melhoria dessas relações.

O que é preciso mudar no ensino para que o nosso planeta, ou a nave, entre em órbita?

Um dos principais objetivos da educação é ensinar valores. E esses são incorporados pela criança desde muito cedo. É preciso mostrar a ela como compreender a si mesma para que possa compreender os outros e a humanidade em geral. Os jovens têm de conhecer as particularidades do ser humano e o papel dele na era planetária que vivemos. Por isso a educação ainda não está fazendo sua parte. O sistema educacional não incorpora essas discussões e, pior, fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade.

O senhor então é contra a divisão do saber em várias disciplinas?

As disciplinas como estão estruturadas só servem para isolar os objetos do seu meio e isolar partes de um todo. Eliminam a desordem e as contradições existentes, para dar uma falsa sensação de arrumação. A educação deveria romper com isso mostrando as correlações entre os saberes, a complexidade da vida e dos problemas que hoje existem. Caso contrário, será sempre ineficiente e insuficiente para os cidadãos do futuro.

Na prática, de que forma a compreensão e a condição humana podem estar presentes em um currículo?

Ora, as dúvidas que uma criança tem são praticamente as mesmas dos adultos e dos filósofos. Quem somos, de onde viemos e para que estamos aqui? Tentar responder a essas questões, com certeza, vai instigar a curiosidade dos pequenos e permitir que eles comecem a se localizar no seu espaço, na comunidade, no mundo e a perceber a correlação dos saberes.

Mas uma pergunta como “quem somos?” não é fácil de responder.

E não precisa ser respondida. É a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos que tornam o assunto interessante. Podemos ir pelo social, somos indivíduos, pertencentes a determinadas famílias, que estão em certa sociedade, dentro de um mundo que tem passado, história. Todos temos um jeito de ser, um perfil psicológico que também dá outras informações sobre essa questão. Mas também somos seres feitos de células vivas, entramos na biologia—, que são formadas por moléculas,— temos então a química. Todas essas moléculas são constituídas por átomos que vieram de explosões estelares ocorridas há milhões de anos… E assim por diante. Sempre instigando a curiosidade e não a matando, como frequentemente faz a escola.

Como temas tão profundos podem ser tratados sem que a aula fique chata?

É só não deixar enjoativo o que é por natureza passional. Um jornal francês de literatura fez uma pesquisa entre os alunos e descobriu que até os 14 anos os jovens gostam de ler e lêem muito. Quando vão para o liceu, lêem menos. É verdade que eles começam a sair mais de casa e ter outros interesses, mas um dos principais motivos é que os professores tornam a literatura chata, decupando-a em partes pequenas e analisando minuciosamente o seu vocabulário, em vez de dar mais valor ao sentido do texto, à sua ação. Nada mais passional do que um romance, nada tão maravilhoso quanto a poesia! Nada retrata melhor a problemática humana do que as grandes obras literárias. Os saberes não devem assassinar a curiosidade. A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.

A literatura e as artes deveriam ter mais destaque no ensino?

Sem dúvida. Elas poderiam se constituir em eixos transdisciplinares. Pegue-se Guerra e Paz, de Tolstói, por exemplo. O professor de Literatura pode pedir a seu colega de História para ajudá-lo a situar a obra na história da Rússia. Pode solicitar a um psicólogo, da escola ou não, que converse com a classe sobre as características psicológicas dos personagens e as relações entre eles; a um sociólogo que ajude na compreensão da organização social da época. Toda grande obra de literatura tem a sua dimensão histórica, psicológica, social, filosófica e cada um desses aspectos traz esclarecimentos e informações importantes para o estudante. Todo país tem suas grandes obras e certamente também os clássicos universais servem para esse fim.

O professor deve buscar sempre o trabalho interdisciplinar?

Ele deve ter consciência da importância de sua disciplina, mas precisa perceber também que, com a iluminação de outros olhares, vai ficar muito mais interessante. O professor pode procurar ter essa cultura menos especializada, enquanto não existir uma mudança na formação e na organização dos saberes. O professor de Literatura precisa conhecer um pouco de história e de psicologia, assim como o de Matemática e o de Física necessitam de uma formação literária. Hoje existe um abismo entre as humanidades e as ciências, o que é grave para as duas. Somente uma comunicação entre elas vai propiciar o nascimento de uma nova cultura, e essa, sim, deverá perpassar a formação de todos os profissionais.

Como o professor vai aprender a trabalhar de forma conjunta?

Ele vai se autoformar quando começar a escutar os alunos, que são os porta-vozes de nossa época. Se há desinteresse da classe, ele precisa saber o porquê. É dessa postura de diálogo que as novas necessidades de ensino vão surgir. Ao professor cabe atendê-las.

Como acontece uma grande reforma educacional?

Nenhuma mudança é feita de uma só vez. Não adianta um ministro querer revolucionar a escola se os espíritos não estiverem preparados. A reforma vai começar por uma minoria que sente necessidade de mudar. É preciso começar por experiências pilotos, em uma sala de aula, uma escola ou uma universidade em que novas técnicas e metodologias sejam utilizadas e onde os saberes necessários para uma educação do futuro componham o currículo. Teríamos, desde o começo da escolarização, temas como a compreensão humana; a época planetária, em que se buscaria entender o nosso tempo, nossos dilemas e nossos desafios; o estudo da condição humana em seus aspectos biológicos, físicos, culturais, sociais e psíquicos. Dessa forma começaríamos a progredir e finalmente a mudar.

Como tratar temas tão profundos como o estudo da condição humana nos diversos níveis de ensino?

Os professores polivalentes da escola primária são os ideais para tratar desses assuntos. Por não serem especialistas, têm uma visão mais ampla dos saberes. Eles podem partir da problemática do estudante e fazer um programa de ensino cheio de questões que partissem do ser humano. O polivalente pode mostrar aos pequenos como se produz a cultura da televisão e do videogame na qual eles estão imersos desde muito cedo. Já a escola que trabalha com os jovens deve dedicar-se à aprendizagem do diálogo entre as culturas humanísticas e científicas. É o momento ideal para o aluno conhecer a história de sua nação, situar-se no futuro de seu continente e da humanidade. Às universidades caberia a reforma do pensamento, para permitir o uso integral da inteligência.


Fonte: revista Nova Escola | Fronteiras do Pensamento


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Aconteceu. Você se distraiu e o PSOL virou o novo PT

Por Paulo Polzonoff Jr.


Uma novela russa escrita há quase 150 explica o sucesso do PSOL nas eleições municipais e o fascínio que as ideias esquerdistas ainda despertam.

Sei que você entrou aqui todo ansioso para ler o que tenho a dizer sobre o PSOL ter virado PT. E agradeço o interesse em minha opinião. Mas, antes de dar continuidade a este texto, sugiro que você largue os cientistas políticos (hahahaha) e leia agora mesmo “O Sonho de um Homem Ridículo”, de Dostoievski. Pode ir que eu espero.

Nesta novelinha escrita há 143 anos (!), Dostô explica por que mais de um milhão de pessoas votaram no candidato populista de esquerda que, para explicar sua postura de eterno confronto, é capaz de cunhar pérolas como “radicalismo é ter gente revirando o lixo para comer”. Guilherme Boulos e seu PSOL, partido contraditório até no nome, expressam a queda do homem e sua malfadada crença de que é possível se igualar a Deus e criar o Paraíso na Terra.

Não deu certo uma vez. Não deu certo duas, dez, vinte vezes. Não dará certo agora. Nem nunca. Porque a ideia de que é possível controlar a ação humana é antinatural. Mas Boulos, o Lula com contornos científicos, insiste no erro. E consigo arrasta uma legião formada sobretudo por uma elite intelectualizada que abdicou da fé na realidade e hoje prefere abertamente a fé na ciência social.


Paracetamoro

Não estou aqui, porém, para fazer uma análise espiritual de Boulos, do PSOL e dessa elite. Dostô, reconheço, faz isso um pouco melhor do que eu. Estou aqui para falar que, nos últimos anos, o eleitorado “de direita” esteve tão ocupado em rebater as acusações de fascismo e em pôr Lula & seus asseclas na cadeia que se esqueceu da força do discurso progressista.

Tão certo estamos (ou estávamos) do ridículo do discurso identitário, por exemplo, que ignoramos sua força entre os que já foram arregimentados pela fé secular da política. E que, portanto, não veem outros motivos para existir que não o fato de ser negro, homossexual ou trans e a possibilidade de “vingar a história de opressão” – ainda que isso seja puro delírio.

Tamanha foi, também, a obsessão da luta anticorrupção que nos esquecemos de que ela é uma febre que quaisquer trinta gotinhas de paracetamoro amenizam. O remédio, porém, não elimina o vírus, que é essa crença de que o Estado é meu pastor e nada me faltará. Durante décadas o PT professou esse credo, que agora é repetido pelo PSOL.

E não há reação capaz de ir contra esse movimento. Até porque a reação, isto é, o movimento difuso a que damos o nome vago de bolsonarismo, se baseia na mesma premissa: a de que o Estado é capaz de prover o maná que nos sustentará durante essa travessia do nada rumo a lugar nenhum. Não é.


Ressaca democrática

Ah, mas você está exagerando, argumenta o leitor. E não tenho como negar isso, porque realmente sou dado ao exagero. Sem contar que hoje é a segunda-feira pós-festa da democracia. Dia da tradicional ressaca política. É possível que Boulos seja apenas um vento que passou em nossas vidas, ou melhor, na vida dos paulistanos. É possível que o PSOL se revele uma quimera tão sem futuro quanto as causas ultraidentitárias de seu partido.

Mas também é possível que o discurso de vingança, mais uma vez, seduza uma população com uma noção deturpada de justiça e que ignora as premissas teóricas mais básicas que justificariam a existência do Estado. Uma população doutrinada por professores, muitos deles filiados ao PSOL, e que acredita que o prefeito, governador e presidente existem para lhes dar uma vida fácil, sem quaisquer obstáculos.

Volto, aqui neste parágrafo semiderradeiro, ao velho e bom Dostoievski e sua transformadora novela “O Sonho de um Homem Ridículo”, que aproveito para recomendar de novo. E de novo. E de novo. Eis como o escritor descreve a queda do homem e, incidentalmente, explica o fascínio que figuras como Boulos despertam:

“(...) O conhecimento é maior do que o sentimento, a consciência da vida é maior do que a vida. A ciência nos dará sabedoria, a sabedoria revelará as leis e o conhecimento das leis que regem a felicidade é maior do que a felicidade. (...) Todos sentiram tanta inveja dos direitos de sua personalidade que passaram a fazer todo o possível para prejudicar e destruir a personalidade dos outros, e tornaram isso o sentido de suas vidas. Depois veio a escravidão, até mesmo a escravidão voluntária; os fracos se submetiam aos fortes, desde que os fortes os ajudassem a subjugar os ainda mais fracos”.



quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A cultura do cancelamento não é o problema; a cultura da conformidade sim

 Por Greg Weiner - National Review  



Episódios de cancelamento invertem o propósito da aprendizagem, que implica certo nível de desconforto inerente, bem como uma condição básica para a pesquisa acadêmica, a liberdade.

Greg Patton é professor de Administração da University of Southern California, pelo menos por enquanto. Ele estava dando uma aula online sobre o uso de “palavras de preenchimento” na fala quando usou um termo que soou parecido com uma ofensa racista. “Se você tem muitos ‘ums’ e ‘errs’, isto é culturalmente específico, baseado na sua língua nativa. É igual na China, a palavra mais comum é ‘isso, isso, isso’. Então na China poderia ser ‘nèi ge, nèi ge, nèi ge’”, disse o professor [que soa parecido com nigger, um termo considerado racista nos EUA].

E por ter cometido o ultrajante ato de repetir uma expressão chinesa, ele foi colocado de licença pela universidade. Patton é um dos mais recentes casos de acadêmicos vítimas da cultura do cancelamento nos campi.

Seu caso também serve como um aviso de que, embora a cultura do cancelamento seja um fenômeno real que se apresenta como um claro risco à liberdade acadêmica, ela pode esconder um perigo ainda mais insidioso: o despotismo suave da conformidade.

O nome de Patton agora ficou conhecido, e ainda bem que é assim, entre os defensores da liberdade acadêmica. Seu caso ilustra os embaraços bizarros aos quais o cancelamento está inclinado. Ele estava ensinando os estudantes sobre o idioma chinês e a cultura daquele país, e ainda assim foi cancelado em nome da diversidade cultural.

A aula de Patton dizia respeito ao uso da linguagem, mas ainda assim seu reitor Geoffrey Garrett usou indevidamente a palavra obrigatória “segurança” (que de acordo com o Dicionário Oxford significa “o estado de ser protegido contra danos ou lesões”) para descrever a ansiedade sentida pelos alunos ofendidos.

Esses episódios são todos problemáticos. Eles invertem o propósito da aprendizagem, que implica um certo nível de desconforto inerente, bem como uma condição básica para a pesquisa acadêmica, a liberdade. O cancelamento de Patton ocupa uma categoria especial, e talvez especialmente absurda, no sentido de que ele nem sequer expressou uma ideia controversa daquelas que a liberdade acadêmica deveria proteger.

Mas esses casos explícitos da cultura do cancelamento trazem uma vantagem: eles são bem visíveis e se tornam bem conhecidos. Quanto mais notórios forem, mais atenção eles chamam. Uma questão maior paira por detrás: quem nunca fala em primeiro lugar? Pode-se imaginar professores iniciantes, em particular, tomando o caso de Patton como um aviso: ofendeu estudantes, vai ser suspenso.

Os casos mais difíceis – que são, diferente dessas situações pontuais que ganham repercussão, desconhecidos – são aqueles nos quais os acadêmicos restringem a própria língua não por medo, mas sim por cansaço. Para eles, não se trata das consequências geradas pela controvérsia, e sim se eles têm tempo e energia para entrar na polêmica.

A resistência não é inútil; é simplesmente exaustiva. Supostas ofensas e o silenciamento que elas trazem são eventos identificáveis que tendem, pelo menos entre aqueles que se preocupam com elas, a virar notícia. A autocensura, quando é realmente autoconsciente, é como o cão que nunca latiu, e justamente por isso não vira notícia.

A dinâmica do cancelamento é pelo menos tangível. Pessoas são ofendidas. Elas fazem protestos ruidosos e exigem reparação. Geralmente, sua intenção é que haja reeducação e supressão. Mas sabemos quando isso ocorre, e podemos nos opor a isso. Para deixar claro, o cancelamento é o porrete da conformidade. Sua influência como condição de fundo é inegável.

Mas a intenção daqueles que buscam a obediência pelo caminho mais suave não é necessariamente hostil ou pesada. Eles podem, pelo contrário, perceber-se sinceramente como caridosos. A dinâmica resultante é menos severa e possivelmente mais insidiosa: são os que policiam, ou melhor, moldam a fala não com a intenção de suprimir a dissidência, mas sim no que consideram ser a suposição benevolente de que todos concordam com eles.

Esta atitude é familiar nos meios acadêmicos, mas também escapa para fora de seus muros. Fica evidente em conversas que não se destinam a reeducar, mas sim reforçar o que se supõe ser tido como verdadeiro por todos.

Muitos dos proponentes da teoria crítica racial – cuja ideia animadora é que a raça é a única coisa significativa, a única lente pela qual todos os outros fenômenos devem ser observados – estão realmente tentando forçar uma conformidade.

Mas eles ainda trabalham sob a crença de que todos concordam com eles. Para esse público, isso é um ato sincero de caridade: pessoas razoáveis concordam comigo, e todas as pessoas com quem eu me encontro são razoáveis.

Há a suspeita, por exemplo, de que o treinamento sobre teoria crítica racial suspenso recentemente pelo presidente Donald Trump em agências federais é na maioria das vezes menos destinado a forçar cada indivíduo a obedecer a um padrão do que refletir uma suposição de que todos já o fazem.

Na verdade, isso traz resultados bizarros: a uniformidade em nome da diversidade; a educação centrada no que supostamente já é conhecido. Mas enquanto o tom do noticiário é colocar os defensores da teoria crítica racial contra seus adversários, aqueles que adotam uma abordagem mais suave para atingir essa conformidade podem não ser vistos como guerreiros da justiça social. Guerreiros apreciam a luta. E isso é menos sobre guerra e mais sobre burocracia.

É sobre uma uniformidade de opinião que não precisa ser conquistada na base da briga, e sim por procedimentos repetitivos que refletem uma vitória que já foi alcançada. É ficar mais intrigado do que indignado com esta ação de Trump.

É algo que se manifesta na forma de uma deflação constante da linguagem. Programas baseados na teoria racial crítica, segundo um artigo publicado recentemente no site Politico, foram descritos como “treinamentos de igualdade racial”.

Será que o autor do artigo quis, de forma consciente, tornar sua linguagem benigna de modo a esconder a controvérsia que realmente cercava esse treinamento? Talvez. Mas, e esta é a possibilidade mais sutil – e, portanto, mais perigosa -, talvez não.

A repetição casual e acrítica de termos como “racismo sistêmico” sugere suposições semelhantes. Por que, é de se perguntar, os americanos estão assinando petições cobrando punições individuais quando esses comportamentos individuais são produto de um “sistema”?

Jornalistas têm interesse pela integridade das palavras. Elas são a matéria-prima dos escritores. Um modelo de negócio que desvaloriza tanto assim a própria matéria-prima não se sustentará por muito tempo. Uma política que trafega em contradições se dividirá ainda mais porque muitas pessoas passarão a se ver como falantes de uma outra língua.

Greg Weiner é cientista político do Assumption College, pesquisador visitante do American Enterprise Institute e autor de "Old Whigs: Burke, Lincoln e a Política de Prudência".

© 2020 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês."

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Cultura do "cancelamento"

 "O que é a cultura do cancelamento

Por Gabriel Arruda de Castro, especial para a Gazeta do Povo    



A premissa dos militantes progressistas é a de que quem foge dos ditames politicamente corretos do momento merece não apenas uma reprimenda ou advertência, mas deve ser boicotado e removido de qualquer posição de destaque.

Em dezembro de 2018, quando os organizadores do Oscar anunciaram que o humorista Kevin Hart seria o apresentador da cerimônia do ano seguinte, ele comemorou: “Estou estupefato, simplesmente porque esse tem sido um objetivo na minha lista por muito tempo”. Mas a alegria não durou muito tempo.

De imediato, militantes de esquerda desenterraram algumas piadas que Hart havia feito no Twitter e em um show entre 2009 e 2011. Em meio a pressão, inclusive da própria organização do Oscar, ele aceitou abrir mão do posto.

Foi-se o tempo em que os artistas americanos precisavam se preocupar apenas com seu trabalho. Em um ambiente de exposição virtual exacerbada e de radicalismo político – neste caso, quase sempre por parte da esquerda –, episódios como esse se tornaram frequentes. É a chamada “cancel culture”, ou cultura do cancelamento.

A premissa dos militantes progressistas é a de que quem foge dos ditames politicamente corretos do momento merece não apenas uma reprimenda ou advertência, mas deve ser boicotado e removido de qualquer posição de destaque. Neste sentido, o sentido de “cancelamento” talvez esteja mais próximo da sua raiz latina “cancellare”, que significa “apagar”, “eliminar”.

Existe uma espécie de manual informal, segundo o qual os pecados imperdoáveis envolvem tudo o que pode ser interpretado, mesmo que remotamente, como racismo, machismo e homofobia. Em outras áreas, o rigor é menor. Um artista pode fazer uso ostensivo de drogas ou trair a esposa sem ter de encarar as mesmas consequências. Mas o uso de uma palavra errada, como “nigger” (com sentido semelhante a “crioulo”) é inaceitável.

Com frequência, as próprias vítimas da “cancel culture” são figuras de esquerda que ajudaram a politizar a arte e o entretenimento. A comediante Sarah Silverman, por exemplo, perdeu o papel em um filme depois que o diretor descobriu uma esquete de 2007 na qual aparece com o rosto pintado com tinta negra – o que é um caso grave de racismo no manual progressista. A ironia é que, nas cenas que motivaram o cancelamento, Sarah tentava justamente usar de ironia para atacar o racismo.

Se a “cancel culture” estivesse sido implementada algumas décadas atrás é possível que a carreira de muitos artistas de renome tivesse sido mais curta. Frank Sinatra, por exemplo, fez piadas que hoje seriam consideradas homofóbicas e racistas, especialmente quando fazia parte de um grupo informal de músicos chamado Rat Pack. O pintor Pablo Picasso, frequentemente acusado de machismo , talvez tivesse sido “cancelado”.

Aliás, nem a morte é garantia de imunidade. A cantora Kate Smith, cujo auge aconteceu nos anos 30 e 40, foi “cancelada” de forma póstuma no início deste ano. O time de baseball Yankees, de Nova York, e o a equipe de futebol americano Eagles, da Philadelphia, pararam de reproduzir a tradicional versão de Kate para “God Bless America” antes de seus jogos. O motivo: vieram a tona músicas em que ela se referia aos negros em tom depreciativo.


Além do entretenimento

Em campus universitários americanos, por exemplo, se tornou comum entidades de esquerda mobilizarem-se para impedir palestras de qualquer convidado conservador – mesmo os mais moderados.

A Nike cancelou uma linha de tênis que exibia a Betsy Ross – primeira bandeira dos Estados Unidos – porque, para parte do público, os produtos remetiam indiretamente ao passado escravagista.

O restaurante de fast-food Chick-fil-A, um dos mais populares dos Estados Unidos, se transformou em um alvo preferencial da esquerda desde que veio à tona que os proprietários da companhia haviam feito doações para grupos conservadores cristãos, entre eles organizações que defendiam o casamento tradicional, entre homem e mulher. Neste caso, o boicote foi além do público. Neste ano, a Câmara de Vereadores de San Antonio, no Texas, se recusou a conceder uma licença para que o Chick-fil-A abrisse uma filial no aeroporto da cidade. Em 2016, o prefeito de Nova York, o democrata Bill de Blasio, também incentivou um boicote à rede de restaurantes.

Ainda em 2014, o CEO da Mozilla, empresa responsável pelo Firefox, foi forçado a renunciar depois de vir à tona a informação de que ele doara uma pequena quantidade de dinheiro para a campanha contra o casamento gay na Califórnia seis anos antes.


Por que a cultura do cancelamento se tornou tão agressiva?

Uma das explicações tem a ver com a polarização. Os Estados Unidos estão divididos não apenas politicamente, mas culturalmente e geograficamente.

Os moradores das grandes cidades, mesmo que distantes uma das outras, têm valores parecidos. É perfeitamente possível passar a vida toda sem ter um contato direto com subculturas mais conservadoras, ou mesmo com o chamado “homem mediano”, que não acredita que um comediante deva ser punido por fazer piadas com um grupo específico de pessoas. A homogeneidade cria uma falsa ideia de consenso.

O fenômeno, frequentemente citado como uma das causas da eleição de Donald Trump, é descrito pelo pesquisador Charles Murray no livro Coming Apart , lançado em 2012. Ele analisa a formação de uma nova elite cultural “que, cada vez mais, vive no seu próprio mundo”. O americano médio nunca foi a Manhattan ou Holywood, não frequenta saraus artísticos e provavelmente não está no Twitter – e, se estiver, tem pouco tempo para vigiar o comportamento de artistas de Holywood. No fim, a “cultura do cancelamento” é promovida por uma minoria, mas uma minoria cada vez mais barulhenta e articulada.

Em um artigo para o City Journal, Robert Henderson chamou atenção para um aspecto importante desse comportamento inquisitório: ele traz ganhos imediatos para quem o promove. Denunciar o racismo e a homofobia traz, além de um sentimento de realização pessoal, a admiração das pessoas em redor. “A cultura do cancelamento veio para ficar. As recompensas sociais são imediatas e gratificantes, e os perigos são muito distantes e abstratos”, diz ele."

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/o-que-e-a-cultura-do-cancelamento/?utm_source=salesforce&utm_medium=email&utm_campaign=ideias_20201111&utm_content=20201111

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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

NÓS NÃO SOMOS INOCENTES!


Percival Puggina. Artigo publicado em 10.11.2020

 Depois do futebol, o segundo maior esporte nacional é colocar a culpa nos outros. O objetivo consiste em transferir para fora a causa de nossos males, como se fosse da água do mar e não dos furos no casco a responsabilidade pelo afundamento do navio. Tudo serve, desde que não se torne necessário um mea culpa.


 Para evitá-lo, decidimos que o Brasil é um país rico. Sendo assim, embora o PIB per capita nos situe pouco acima da linha do miserê, o Estado deve gastar como numa eterna terça de carnaval e não houvesse amanhã. Em inusitada e superfaturada declaração de rendimentos, nos proclamamos “ricos”. E estamos tão convictos disso que não hesitamos em crer quando nos dizem que norte-americanos e europeus, ou chineses, ou africanos, parceiros dos nossos adversários políticos, sejam de que banda forem, viveriam séculos de necessidade sem a sistemática exploração do Brasil.


Afinal, convenhamos: só mandamos para Brasília gente da melhor qualidade, admiráveis estadistas, homens sábios, austeros e dedicados exclusivamente ao interesse público, que fugiram do endividamento e combateram ferozmente a corrupção e a impunidade. Não estivemos, durante um quarto de século, sob governos de esquerda, atualizados com o que há de mais moderno em pensamento político?


Pode haver modelo mais bem sucedido do que esse que insistentemente preservamos em todas as constituições republicanas e referendamos em dois plebiscitos? Só alguém muito tolo (como eu mesmo) não notou ainda aquilo que todo cidadão esclarecido percebe: a concepção engenhosa e funcional do nosso sistema, que afasta os demagogos e atrai para a vida pública os maiores talentos que a nação produz. Não é certo que ele gera estabilidade e instituições sólidas? Não produz ele partidos e programas que se sobrepõem aos grupos de interesse? Não é como conseqüência dele que o eleitor brasileiro, lúcido e participativo, comparece periodicamente às seções de votação movido pelos mais nobres ideais, estimulado à fascinante tarefa de escolher os melhores dentre os muito bons?


Por outro lado, dado que a riqueza de uma nação também se apóia em certos requisitos sociais, nosso povo é orientado a apreciar valores morais elevados. A arte, a cultura, a educação, o civismo e a ordem pública têm entre nós a devida reverência, não é mesmo? Admiramos nossos presidentes porque gastam com prudência. Bem sabemos que nossos parcimoniosos legisladores condenam todo privilégio e dedicam pentecostal fidelidade a seus partidos. Orgulhamo-nos de que nossas leis, redigidas com sabedoria, valendo para todos e refletindo a vontade social, valorizam a família, a conduta austera, a iniciativa privada, a propriedade, a ordem, a justiça e a liberdade exercida com responsabilidade. Um novo século de Péricles, 2,5 mil anos depois!


Um país assim só pode ser objeto da mais cobiçosa exploração. Se no que nos concerne como nação, sempre fizemos nossa parte, a máxima culpa dos males brasileiros só pode ser dos outros, não é mesmo?


* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Membro da ADCE. Integrante do grupo Pensar+.


http://www.puggina.org/artigo/puggina/nos-nao-somos-inocentes/17299?fbclid=IwAR0IRUSg9HB29YU4BYMhHZrQtXBGifwxSOVBOqNNnQQI1EZCd6HLpAlvNM0

sábado, 10 de outubro de 2020

Natal, Pasárgada e outras paragens ínvias...

João Amoedo, Flávio Rocha e Geraldo Rufino foram empresários que, ao raiar das campanhas eleitorais de 2018 pregavam em palestras e mídias sociais que o país precisava ter como presidente um empresário, ou alguém com visão empresarial para solucionar os graves problemas.

Ocorre que omitiram os retumbantes fracassos de Vicente Fox, um dos maiores empresários e presidente do México e Maurício Macri como ex-presidente argentino derrotado em sua reeleição pela ex-presidente Kirshner que afundou, economica e socialmente, o país.

Quais foram os motivos que levaram dois expoentes empresariais a fracassarem na gestão federal (Fox e Macri tinham logrado êxito em administrações públicas anteriores em províncias em seus respectivos países). Quais foram, e são, os reais motivos que não seja permitida uma gestão empresarial eficiente da coisa pública quando imersa na consuetudinariamente comum idiossincrasia patrimolialista latina? O que nos difere dos europeus e norte-americanos?

São perguntas que carecem de interesse e franco envolvimento da sociedade eleitora brasileira, dos órgãos de imprensa e da academia, em geral.

O que mais preocupa no caso argentino é a velocidade da deterioração da estabilidade social e econômica além do profundo silêncio e anomia da Forças Armadas, historicamente rígidas e vigilantes contra o avanço do comunismo naquelas pradarias, bem como dos órgãos de imprensa, associações, corpo parlamentar nas três esferas (municipal, provinciano e federal) e, por fim, Membros do Judiciário e da Igreja, em geral.

Afinal, o que está havendo na Argentina?

Infelizmente parece que essa resposta não virá tão cedo posto que expressiva parcela do eleitorado brasileiro esclarecido cedeu às ações diversionárias da mídia e tem o seu foco de atenção, debates e discussões somente sobre um futuro candidato à vaga no STF.

O risco futuro de espraiamento e de contaminação de instabilidade social e econômica é real e se avizinha.

Afinal, com tanto acesso à informação, o que está acontecendo com o eleitorado nacional? Quando é que iremos amadurecer como sociedade brasileira? 

Nesse sepulcral silêncio nada mais me resta do que a profunda e estridente perplexidade.

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Ó Pasárgada, para que lado ficas?

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

FALEMOS, ENTÃO, DE CRISTOFOBIA

 por Percival Puggina. Artigo publicado em 26.09.2020


  Se você quiser conhecer a extensão geográfica e a pluralidade dos ambientes culturais e políticos em que a cristofobia se manifesta como causa da perseguição religiosa, aceite meu convite e faça uma visita ao site Portas Abertas. Ali, baixe o e-book da Lista Mundial da Perseguição, com relatórios individualizados sobre os 50 países em que 260 milhões de cristãos padecem em virtude de sua fé. Neles, por diversos motivos, os cristãos:

• não têm seus direitos de liberdade religiosa garantidos;

• a conversão ao cristianismo é proibida por conta de ameaças vindas do governo ou de grupos extremistas;

• são forçados a deixar suas casas ou empregos por medo da violência que pode alcançá-los;

• são agredidos fisicamente ou até mesmo mortos por causa de sua fé;

• são presos, interrogados e, por diversas vezes, torturados por se recusarem a negar a Jesus.


Leia o relatório. Agora pense no presidente do Brasil falando, à Assembleia Geral da ONU. Assistiam-no chefes de Estado e chanceleres de todas as nações, inclusive das 50 que cometem ou convivem com tais abusos e crimes. Deveria ele unir-se ao cúmplice coro do silêncio? Não. O presidente do país com a maior população católica do mundo fez um “apelo à comunidade internacional por liberdade religiosa e combate à cristofobia”.

Pra quê! Enfileiraram-se os críticos, habituais defensores de direitos humanos dos companheiros, a apontar inconveniências na frase. Tiram de letra 260 milhões de vítimas de perseguição religiosa. Fico pensando: qual é o problema desse pessoal? De novo: qual é o problema desse pessoal? Bem, o problema é real e, também no Brasil, embora com consequências até aqui menos dramáticas, existe cristofobia. Ela seria ridícula, se não fosse raivosa. Poderia ser vista apenas como raivosa se não adviesse de grupos políticos, de círculos jurídicos, ou de mídia importante e militante. Nesse caso, se torna assustadora e quem for cristão que se cuide.

No Brasil, a cristofobia se expressa, também, na aversão de muitos a símbolos religiosos cristãos. Considera discriminatória a presença do símbolo, quando discriminador e preconceituoso é quem posa de ofendido por ele. Ou não? Mais evidente ainda a psicopatia quando pensamos nos muitos usos do cinema, teatro, exposições artísticas e performances repulsivas para atacar a fé cristã – sempre a ela! – com indiscutíveis e absolvidos crimes de vilipêndio religioso.

Os adversários dos símbolos cristãos focam, lá na frente, os princípios, os valores e as tradições que lhes são implícitos. Muitos, como os relacionados à defesa da vida, à dignidade e aos direitos humanos, às liberdades, à família, compõem convicções constitucionalizadas no Brasil. É contra esse alvo que o ateísmo militante, nutrido a cristofobia, declara guerra e rufa tambores. Não age por amor à Constituição, mas por repulsa ao perfume cristão que ela legitimamente ainda consegue exalar, aqui ou ali, a contragosto do STF.

Impossível negar o que afirmo, sabem por quê? Até hoje não encontrei nenhum paciente de cristofobia que explicite as mesmas aversões a quaisquer outras culturas ou religiões. Sua luta é contra as raízes judaico-cristãs do Ocidente.

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* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Membro da ADCE; Integrante do grupo Pensar+.

O bom exemplo que vem do Uruguai

por Percival Puggina.

Artigo publicado em 29.09.2020  


  No pequeno Uruguai, a lista das vítimas fatais da covid-19 cabe numa folhinha de papel com 47 nomes. Esse número, dividido pela população do país (3,44 milhões), leva a um índice de vidas perdidas por milhão de habitantes 40 vezes inferior ao dos países que ocupam a parte alta da tabela.

 No Brasil, os primeiros passos do combate à pandemia foram marcados pelas performances do Dr. Mandetta. Médico, simpático, bem falante, deputado federal, o ministro tornou-se provedor de conteúdo para as tardes modorrentas do jornalismo brasileiro. Longos saraus de ciência e terror deram tom a desacertos que persistem até hoje. Na vastidão do território nacional, as determinações cobriam a inteira Rosa dos Ventos. O Brasil parou. Espatifou-se um vínculo que não poderia ser rompido e testemunhamos o divórcio entre a proteção da vida e as condições de sobrevivência pelo trabalho. Questões singelas como o uso de máscaras, atendimento precoce, protocolos de higiene e segurança foram apresentados de modo confuso e submetidos a súbitas mudanças de rumo e orientações tolas. Hospitais vazios e doentes em casa, atividade econômica paralisada para “achatar a curva” e vírus ausente são símbolos de um período em que uma elite mal pensante causou à nação um dos maiores prejuízos de sua história.

No diapasão que desde o início do ano afinou a orquestração da mídia nacional, quanto maior o dissabor do presidente com as orientações de seu ministro, mais se agigantava a estátua pública que lhe erguiam os grandes meios de comunicação. Foi na esteira desse conflito que o STF tirou a toga, calçou a chuteira e entrou em campo para participar do jogo. O presidente que fique quieto no seu canto. E entregou o coração e o pulmão da economia nacional (o trabalho dos brasileiros) a prefeitos e governadores. “E o cérebro?”, perguntará o inteligente leitor. Pois é. Para que serve, mesmo?

Como todo gaúcho de Santana do Livramento, cidade de fronteira, gêmea siamesa da cidade uruguaia de Rivera, guardo uma afeição muito especial pelo nosso vizinho ao sul. O Uruguai é um país bem cuidado, amado pelo seu povo. A pequena população tem, na média, educação de qualidade superior à nossa e um nível cultural igualmente superior.

Aqui, pertinho de nós, o país deles está sendo estudado como um caso de sucesso no enfrentamento da pandemia. De um artigo escrito por duas economistas do FMI que estudaram as causas desse extraordinário desempenho (1), extraí que o Uruguai se beneficia de uma consciência política superior. Realmente, o país enfrenta o coronavírus com elevada coesão. Não há ninguém querendo criar males nem mortos para colocar na conta do culpado de plantão.

Políticos uruguaios, funcionários de alto escalão e partidos políticos abriram mão de parte de seus vencimentos e receitas para um fundo de combate ao coronavírus. Foi um dos primeiros países da América Latina a incentivar o uso de máscaras. Jamais decretou confinamento obrigatório. Reabriu suas escolas no mês de junho.

Enquanto isso, no Brasil, entrando o mês de outubro, ainda se discute o retorno às aulas presenciais. A economia e os empregos padecem sequelas de um tombo colossal. Até o mês de agosto, nove milhões de brasileiros haviam perdido seus postos de trabalho. Vulgarizou-se a prática irracional de desconcentrar e diminuir as aglomerações determinando a abertura do comércio em menos horas e menos dias da semana... As ruas exibem portas fechadas, placas de aluga-se ou vende-se, mais e mais superfícies abertas ao depressivo trabalho dos pichadores.

Claro, aqui haverá quem considere o Uruguai um mau exemplo.


Incoerentes ou hipócritas?


J. R. GUZZO


O jornalista José Roberto Guzzo escreve sobre o chamado “socialista de iPhone”. Muito bom! Vale a pena ler. 

Quando Marcelo Freixo grita aos quatro cantos que é a favor do desarmamento e do fim da policia militar, mas anda em um carro blindado e com seguranças armados, ele está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando Chico Buarque canta verdadeiros hinos contra a ditadura do regime militar, mas se cala e beija as mãos dos ditadores Raul Castro e Maduro, ele está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando o mesmo Chico canta mil versos a favor do Socialismo, se mostra tão devoto dos mais necessitados e cobra quatrocentos reais por um ingresso em seu show, ele está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando os psolistas dizem que cadeia e punição não resolvem nada, mas pedem que justiça e punição severa sejam feitas com os assassinos da vereadora, eles estão sendo incoerentes ou hipócritas?

Quando você que se diz humanista seleciona os mortos assassinados para chorar por eles, você está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando você se escandaliza com o capitalismo, mas ama o Facebook, a Sky, o Whats App e tudo que só ele pode te dar, você está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando você, tão socialista, só compra roupas, bolsas, jóias de griffe, celular da última geração, você está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando você odeia o capitalismo, mas quer fazer intercâmbio nos Estados Unidos, Canadá ou Inglaterra, você está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando seu professor de história da escola com partido se escandaliza com o muro de Trump, mas se desconversa quando perguntam a ele qual o propósito do Muro de Berlim, ele está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando você diz que que bandidos são vítimas da Sociedade, mas se nega a dormir onde não se sente seguro, você  está  sendo incoerente ou hipócrita?

Quando você pergunta aos pensadores modernos qual o regime de governo de Cuba  e eles dão mil voltas e te enrolam, eles estão sendo incoerentes ou hipócritas?

Quando você se diz tão preocupado com a pobreza dos brasileiros e anseia pela justiça social, mas não demonstra a menor indignação pelo assalto à Petrobrás, mensalão, despreza a Lava Jato e diz que eleição sem Lula é golpe, você está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando você se revolta com a situação dos refugi


ados e das crianças da Síria, mas acha normal tudo que se passa na Venezuela, você está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando você se diz a favor da escola com partido, da liberdade de expressão, tão intelectualizado, mas tem que seguir a cartilha e doutrina da esquerda à risca, você está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando você, universitário, tão adepto das liberdades em todos os sentidos, tão tolerante, faz piquete na entrada do campus obrigando a todos participarem da greve e se revolta, vaia, agride se, por ventura, aparecer alguém por lá com uma camisa de Bolsonaro, você está sendo incoerente ou hipócrita?

Quando Wagner Moura, exemplo maior dos artistas, ícone do Socialismo, trocou o Brasil pelos Estados Unidos, símbolo do capitalismo selvagem, ele foi  incoerente ou hipócrita?

Quando você concorda com tudo ou quase tudo que eu falei, mas não vai compartilhar porque tem medo do patrulhamento, você estará  sendo incoerente ou hipócrita?

domingo, 27 de setembro de 2020

Professores não querem trabalhar. E os alunos, como ficam?

Há cinco anos que leciono, em faculdades, para alunos do sexto e do sétimo período do curso de Administração de Empresas. Há uma nítida e cristalina dificuldade daqueles profissionais entrantes no mercado de entender com clareza o mundo a sua volta e, o pior, de se expressar tanto de forma verbal como, sobretudo e pior, de forma escrita.

Como os primeiros passos da implantação da doutrina gramscista da esquerda foi o de se capilarizar no Ensino e na Cultura, isso há mais de trinta anos, hoje não só há o analfabetismo funcional e o apagão de mão de obra especializada, espraiados país a fora, como também há um constante reforçamento dessa desgraça entre professores aderentes ao maior sindicato da América Latina.

As presentes e futuras gerações de pais e mães e de trabalhadores estão irrefragavelmente contaminadas e condenadas.

Professores não querem trabalhar. E os alunos, como ficam?

Por J.R. Guzzo

 


Sindicatos de professores defendem que escolas públicas permanecem fechadas, mesmo após quase 200 dias sem aulas por causa da 


O Brasil é possivelmente o único país em todo o planeta Terra onde os defensores mais intransigentes da ideia de manter as escolas fechadas são os professores da rede pública de ensino. Por mais quanto tempo ainda? Por tempo indeterminado, até que os seus sindicatos autorizem os governos estaduais ou municipais a reabrirem as salas de aula. Mesmo para o padrão mental da esquerda brasileira e de seus atuais servidores na máquina do Estado, gente historicamente capaz de fazer qualquer coisa, é um exagero. Teria de estar acontecendo justamente o contrário.


Os números da epidemia caminham para dois meses seguidos de queda — o que, pela lógica mais elementar, e pelo exemplo dado por países que estão uns 100 anos à frente do Brasil em termos de educação, deveria fazer governos e professores se dedicarem ao máximo a reabrir as escolas. Mas, acredite se quiser, os especialistas que decidem o que é bom e o que é ruim para o ensino nacional dizem que manter tudo fechado serve não apenas para “salvar vidas”: é uma exigência “social”.


Se eles não permitem que se abram as escolas públicas — basicamente, porque não querem mais dar aula —, as escolas particulares, então, poderiam reabrir as portas, não é mesmo? Nem pensar. Se os alunos ricos ou de classe média da rede privada (cujos pais, por sinal, estão pagando as mensalidades desde março, sem receberem em troca o serviço contratado) voltarem a ter aulas, as “diferenças” entre eles e os alunos pobres da rede pública vão aumentar ainda mais. Isso é injustiça. É aumento de desigualdade. É coisa da elite branca. Não pode. Tudo pelo social.




Ou seja: enquanto as escolas públicas estiverem fechadas, ninguém tem o direito de funcionar. O que vale “para os pobres”, dizem eles, tem de valer também “para os ricos”. Não querem, nem mesmo, que escolas privadas tenham horários com atividades de recreação, ao ar livre e obedecendo a todas as exigências dos médicos que militam no "Partido do Fique em Casa Pelo Resto da Vida".


Por que esses meninos riquinhos teriam direito a se distrair um pouco se os meninos pobres estão obrigados a ficar nas suas casas da periferia, sem conforto, sem espaço e sem ter o que fazer? Não senhor. Se sofrem uns, têm de sofrer todos. Nunca ocorre aos professores públicos, é claro, que os meninos pobres estão sofrendo unicamente porque eles mesmos, os professores, decidiram impor esse sofrimento com a sua guerra para manter a rede pública trancada.


É sabido, há décadas, que há uma diferença estúpida entre a qualidade do ensino particular e a do ensino público — e que essa, justamente, é a principal causa das desigualdades na sociedade brasileira. Mas a esquerda educacional nunca pensou, nem por um minuto, em fazer algum esforço de verdade para melhorar a escola pública; sua solução para o problema, como se vê agora, é reprimir a escola particular. Mais: sua exigência de quarentena sem fim para as salas de aula está sendo um dos ataques mais agressivos que já se fez a favor da concentração de renda e do aumento da diferença de classes no Brasil.


O fechamento das escolas virou, nos dias de hoje, umas das principais bandeiras do “campo progressista”, como a esquerda — com o aval da mídia — chama a si própria. Não acham que 50 milhões de alunos sem aula seja uma tragédia; trata-se, para o “progressismo”, de uma meta a atingir ou a preservar. Talvez até estejam, como Dilma Rousseff, querendo “dobrar a meta”.


As escolas já estão fechadas há mais de 200 dias no Brasil – mais do que em qualquer país de primeiro mundo. A nova meta, imagina-se, é chegar aos 400.



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